Hora da despedida

Administrativas · NoMínimo · 16/08/2009 - 20h44 - 4,594 Comentários

Minha rotina mudou um bocado no último mês de uma forma que afeta diretamente o Weblog.

Flertei com várias editorias ao longo da carreira – política carioca e brasileira, ciências, cinema, resenha de livros, sexualidade, até polícia – mas me fixei em duas áreas: tecnologia e política internacional. São os dois assuntos que sempre acompanhei com atenção. No caso de inter, o Weblog me ajudou muito. Me manteve afiado, atento a pautas, sempre foi complementar ao trabalho na redação que, afinal, me garantiu por tantos anos o sustento.

Pela primeira vez nos últimos dez anos, acompanhar com profundidade o que ocorre no mundo não faz parte do meu cotidiano. Minha intenção era partir para a jornada dupla. Descobri que não dá.

O novo trabalho exige que eu esteja atento à cobertura de todas as editorias, o que ocupa uma quantidade acachapante de tempo. Devo acompanhar com ainda mais profundidade a maneira como tecnologia afeta o jornalismo e a sociedade. De olho no futuro para manter o compasso.

Se fosse tudo assim cartesiano, o que é útil e o que não é, o que dá tempo para fazer e o que não dá, as decisões todas eram mais fáceis. Cá este Weblog é muito minha vida, também. Amigos, disputas, conversas. Conversas. Conversas. É uma casa na qual, diariamente, recebi muita gente. Vocês. Não era o plano acabar, muito pelo contrário. O plano era outro – mas a vida é assim.

O Weblog nasceu dentro do NoMínimo no dia 8 de agosto de 2002. Deixa de existir hoje, aos sete anos recém-completos. Este não é o último post. Haverá uma moça ainda. Saideira.

Um novo blog nascerá com um escopo um quê diferente. Quem assinar o RSS daqui será informado.

Gente: foi um prazer. Nesses anos todos, tenho muito a agradecer pela companhia de vocês. Esta é uma despedida que faço com o coração apertado. Um motorista nO Dia tinha o hábito, sempre que ouvia uma história triste, de fazer cara de sério e dizer ‘vida que segue’. É que às vezes não há muito mais do que isso a dizer.

Vida que segue, pois.

4,594 Comentários

Os 10 países mais perigosos do mundo

Afeganistão · China · EUA · Europa · Iraque · Irã · Israel e Palestina · Paquistão · Rússia · Venezuela · 10/08/2009 - 10h14 - 323 Comentários

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

323 Comentários

Glauber e Sarney

Brasil · Cinema · 9/08/2009 - 19h26 - 72 Comentários

Documentário sobre a posse do governador do Maranhão, 1966.

O curta-metragem é de Glauber Rocha. Foi assim que tudo começou.

72 Comentários

Império e República no Brasil de Sarney

Brasil · 7/08/2009 - 11h16 - 82 Comentários

Presidente do Conselho de Ética, o senador Paulo Duque (PDT) usou o que chamam ‘direito imperial’ na sessão que arquivou quatro acusações contra o senador José Sarney, uma contra Renan Calheiros. Sérgio Abranches comenta em seu blog:

A possibilidade de que um presidente pratique ‘atos imperiais’ é, portanto, uma ameaça ao princípio constitucional do equilíbrio democrático dos poderes republicanos. Isso, obviamente, se aplica ao Presidente da República. De fato, a idéia de que um parlamentar, no exercício de uma presidência eventual tenha ‘direitos imperiais’ representa a corrupção do ‘jus imperium’, que é uma prerrogativa exclusiva do chefe de estado, que exige enorme parcimônia no uso. Em um Conselho de Ética é uma aberração formal e substantiva.

Erros dessa natureza parecem triviais, mas não são. Representam o desprezo e o desconhecimento na prática da política brasileira dos princípios elementares da democracia representativa em uma República. O próprio termo ‘republicano’ tem sido achincalhado diuturnamente no Brasil. Isso mostra como nossa democracia ainda é tosca e primitiva. Diga-se, até por respeito à realidade, que algumas das democracias mais avançadas do mundo não são republicanas.

A própria atitude corporal do presidente do Conselho de Ética, a desordem do plenário, o atropelo das formalidades mostram, pela forma, o desprezo pelos ritos democráticos. Uma encenação que se revela intimamente, como em uma metalinguagem inconsciente, mostrando o que queria esconder, escancarando sua verdadeira natureza: um ato contra a instituição legislativa e as instituições democráticas. Ato banal, mas expressivo. O dia de ontem no Senado foi em si irrelevante, até pelo grau de banalização, realizando o esperado. Mas foi primordial como metáfora dos descaminhos de nossa democracia, que se apresentam na forma – displicente, desmazelada – e no conteúdo – de afirmação da impunidade e do privilégio. Na democracia, a forma é tão importante, quanto o conteúdo das ações. Aquele foi apenas mais um momento de acobertamento do abuso de poder, do uso indevido de recursos públicos, do clientelismo nepotista e autocrático, do desprezo pelo eleitor, da ausência quase absoluta de accountability revelada pela própria ausência de termo equivalente no vocabulário português. Os parlamentares brasileiros e os presidentes não se sentem obrigados a prestar contas de seus atos a seus eleitores.

82 Comentários

Alvaro Uribe, Hugo Chávez e os EUA na Amazônia

Brasil · Colômbia · EUA · Venezuela · 7/08/2009 - 09h14 - 140 Comentários

O presidente colombiano Alvaro Uribe saiu em tour pela América do Sul para colher apoio a seu plano para permitir ao exército norte-americano o uso de sete bases em seu país. O presidente Lula diz que se elas se limitarem ao combate ao narcotráfico em território colombiano, trata-se de questão interna da Colômbia. O Brasil quer explicações, mas a princípio não criou problemas. Uruguai, Paraguai, Chile e Peru seguiram na mesma toada. Argentina, Bolívia, Equador e – que surpresa – a Venezuela receberam a notícia com sobressaltos.

A Colômbia diz ter provas documentais de que a Venezuela continua a armar as Farc. Chávez ameaça cessar as relações comerciais entre os dois países e, dada a balança comercial, o impacto sobre a Colômbia não é irrelevante. Quer comprar também mais tanques russos. Sugeriu que as relações mais estreitas de Colômbia e EUA podem marcar o ‘início de uma guerra’ na América do Sul. (Alguém leva Hugo Chávez a sério?)

O blog da boa revista Foreign Policy sugere que Chávez se aproveita de uma boa desculpa política para armar seu exército. Que ele tem ambições de aumentar a influência externa da Venezuela, não há dúvidas. É só o que faz. Como os tanques não cruzarão a mata densa em direção à Colômbia, há sempre uma outra possibilidade, sugere um comentarista do blog: os tanques são para uso interno, mesmo. Vai que a popularidade cai e é controlar manifestações nas ruas.

Excêntrica política venezuelana à parte, o plano de Uribe é realmente complicado. Ele não apenas cede a soberania de seu país ao estilo saudita, como cria desconforto em toda região. Não custa evitar histeria com o futuro da Amazônia. Tampouco custa lembrar que ela é de fato difícil de gerenciar. Quem garante que o exército dos EUA não irá tratar com desleixo as fronteiras?

140 Comentários

Save Ferris

Cinema · 7/08/2009 - 00h13 - 30 Comentários

30 Comentários

Liveblogging do Senado

Brasil · Política Digital · 5/08/2009 - 15h33 - 84 Comentários

O Estadão está fazendo a cobertura online da sessão. José Sarney deve falar a qualquer momento.

84 Comentários

Obama inicia conversa sem pré-condições com Coreia do Norte

Coreia do Norte · EUA · 5/08/2009 - 08h02 - 99 Comentários

Em 1994, Jimmy Carter visitou a Coreia do Norte e esteve com o então ditador Kim Il-sung. O presidente Bill Clinton não gostava da ideia. Não é sempre que as aventuras diplomáticas de Carter dão certo e a estratégia norte-americana era a de isolar o ditador coreano o máximo possível. Mas, naquele caso, a visita de Carter deu certo. Até então, os EUA estavam decididos a promover um ataque aéreo que destruísse o sítio de obras de instalações nucleares. Carter retornou com uma proposta de diálogo que congelou o projeto norte-coreano por quase uma década.

Oficialmente, nada é oficial.

Bill Clinton, agora um ‘homem privado’, entrou na Coreia do Norte em uma avião sem qualquer identificação com a missão exclusiva de soltar as repórteres Laura Ling e Euna Lee, da TV Current.

Estive na Current, em San Francisco. É uma operação miúda com alta tecnologia. No pequeno prédio de tijolos vermelhos esmagado por dois arranha-céus, a sala de Al Gore, toda envidraçada e com um enorme pôster do planeta Terra na parede, se destaca. A operação é tão pequena que não tem muitos jornalistas além de Robin Sloan, um sujeito jovem mas talvez a cabeça mais criativa na união entre tevê e internet que há nos EUA. A Current de Al Gore funciona contratando freelancers. As repórteres não são suas empregadas. Propuseram uma matéria, a turma topou. Era muito mais arriscado do que parecia a primeira vista.

(Vida de repórter online, independente, é bonito; ter uma grande empresa jornalística para defendê-lo em caso de algum problema em missões delicadas é fundamental. As moças tiveram a sorte de ter por chefe o ex-vice-presidente dos EUA.)

Já estava garantido a Clinton que, se ele viesse e conhecesse o filho de Kim Il-sun, Kim Jong-il, ele voltaria com as moças. Deu certo. Obama, oficialmente, não falou com o ex-presidente. Mas não é coincidência que Clinton, além de ex-presidente, é também marido de quem comanda a diplomacia norte-americana. E que, a seu lado, estava John Podesta, assessor informal do atual presidente. A missão de Clinton só era informal em nome. Trancado por trás das portas, ele e Kim Jong-il não conversaram apenas sobre as moças.

Durante a campanha presidencial, Barack Obama disse que seu governo negociaria sem estabelecer pré-condições com qualquer outro governo. Na época, Hillary Clinton fez graça.

Pois Obama acaba de começar a fazê-lo. Através de um Clinton.

99 Comentários

Ahmadinejad é presidente. Por ora.

Irã · 4/08/2009 - 00h01 - 70 Comentários

Pela primeira vez desde a Revolução Islâmica, um presidente do Irã tomou posse, ontem, sem que a cerimônia fosse veiculada ao vivo pela tevê. Havia motivo. Por tradição, o presidente anterior sempre está presente. Mas Mohammad Khatami não estava lá. Os candidatos derrotados costumam aparecer para demonstrar a unidade do regime – mas nem Mir Hossein Mousavi nem Mehdi Karoubi deram as caras. Akbar Rafsanjani, presidente da assembléia que elege o supremo líder também não estava.

Mahmoud Ahmadinejad recebeu do líder aiatolá Ali Khamenei a carta que lhe garante a presidência e deu início ao seu segundo mandado. Algumas horas antes, falando a policiais da milícia Basiji que trabalhou na repressão dos protestos eleitorais, descreveu assim o que faria com os manifestantes: ‘vamos erguê-los pelo colarinho e enfiar suas cabeças no teto’. (Em persa há de soar melhor.)

Mousavi, mesmo após dois meses, continua a questionar publicamente a eleição. Vários clérigos e gente ligada à história da Revolução, também.

Estão todos livres. Os que foram presos – jornalistas, estudantes, profissionais liberais e mesmo políticos começaram a ser julgados no sábado. Estes não protestam, muito pelo contrário. Na tevê, dizem que foram manipulados pela imprensa ocidental, que tramaram contra o regime, que desejaram uma revolução de cores aos moldes das ex-repúblicas soviéticas. Mousavi diz que foram torturados como ‘nos tempos da Idade Média’. Eles negam veementemente. Só mudaram de idéia, mesmo.

Ahmadinejad, ao que parece, continua o mesmo. Mas há algo de diferente ocorrendo no Irã. Não houve um apaziguamento. Não houve um acordão. O regime simplesmente rachou. O aiatolá Khamenei parece convicto de que conseguirá sufocar a revolta. Mas os líderes da oposição permanecem de pé, apesar das prisões e tortura. O governo segue em frente como se nada houvesse mudado.

Algo, no entanto, mudou.

O Irã vive tempos interessantes.

70 Comentários

No tempo da censura

Brasil · História · Mídia · 3/08/2009 - 13h44 - 77 Comentários

Houve um tempo em que a censura à imprensa, no Brasil, era política de Estado. A TV Estadão fez este documentário que segue a respeito – é um bocado interessante.

77 Comentários

De volta; é hora

Administrativas · Blogs · Brasil · Mídia · Política Digital · 3/08/2009 - 00h01 - 116 Comentários

Bom dia. A caminho dos 1.700 comentários, é? Caramba. Este é um recorde.

Foram, estas últimas, três semanas agitadas que culminaram, na última sexta-feira, com a liminar conseguida por Fernando Sarney, filho do presidente do Senado José Sarney, que ordenou ao Estado que retirasse do ar as gravações sobre as quais não posso – na condição de editor-chefe do portal do jornal – falar.

Mesmo se todos os veículos de imprensa do Brasil fossem ordenados pela Justiça a se calar, uma característica fundamental da Internet permanece: a informação continua lá.

O Estado de S. Paulo tem trabalhado duro, nestes últimos meses, para levantar os bastidores de como opera o Senado federal. Jornalismo serve para isso: iluminar o que é de interesse público, porem não ocorre às claras.

Nestes próximos meses, vou ter que reaprender a blogar.

A tradição da imprensa é a de que o editor-chefe é discreto. A voz de um jornal se divide entre seus colunistas e editorialistas. Mas a Internet muda um pouco o jogo. Ser blogueiro não é apenas questão de método; a coisa se incrusta na alma. Não sei se é possível conciliar as duas posições, então vamos aprender juntos como fazer. Este contato entre imprensa e seus leitores, transformados nos tempos da Internet eles próprios em produtores de informação, é fundamental. Gosto de participar dele. Como sempre, podem esperar de mim total franqueza.

Por aqui, o tema principal continua sendo política internacional, mas há uma eleição presidencial no ano que vem. Uma eleição que ocorrerá principalmente na web. São tempos interessantes.

Agora que é agosto, o Weblog está para fazer sete anos. Hora de voltar ao trabalho.

116 Comentários

Em tempo

Administrativas · 23/07/2009 - 19h25 - 2,363 Comentários

Muito aos poucos, a vida está começando a voltar ao normal.

Dizem, ainda não o confirmei, que já tenho Internet em casa. (Se é para morar em São Paulo, há que ser com paulicéia na veia – estamos na Avenida Paulista.) Já há uma cama. Dia desses, quem sabe, até máquina de lavar que funcione.

O trabalho ainda é intenso. Achei que já dava para retomar o Weblog esta semana – está evidente que não foi desta vez. Mas blog que chega assim tão perto do sétimo aniversário não morre à toa.

Preciso ainda de algum tempo para deixar a vida ajeitada. Desculpem. Mais uma semana. Na segunda, dia 3, este Weblog amanhecerá com moça nova. E a rotina será retomada.

2,363 Comentários

A revolução sexual do Irã

Irã · Sexualidade · 20/07/2009 - 04h58 - 203 Comentários

Está nas bancas a última edição da Trip e, nela, dois textos meus. Um conta a história de Karen Junqueira, a atriz moça desta segunda que o Duran fotografou e que fará Bruna Surfistinha no cinema. O outro texto é de onde vem esse trecho:

Entre 2000 e 2007, Pardis Mahdavi havia viajado todo verão para o Irã, terra de seus pais. Quando pisou pela primeira vez em Teerã e conheceu as primas de sua idade, tinha 21 anos. Falava fluentemente a língua persa, embora com um ligeiro sotaque que todos logo identificavam como americano. A vida em Teerã não era nada como imaginara. Esperava encontrar na terra dos aiatolás um mundo repressor – encontrou entre as primas e suas amigas mais liberdade do que ela, criada na comunidade do exílio nos arredores de Los Angeles, tivera. Descobriu o que ela, nos anos seguintes, passou a chamar de Revolução Sexual Iraniana. Mas nada do que vira até ali a preparara para aquela festa em sua última visita.

Eram 40 ou mais jovens. No meio da grande sauna, uma piscina esvaziada. Calor, vapor. Ecstasy rolava e a batida do tecno ensurdecia. Pardis encostou-se numa parede. Buscou sua amiga, mas ela estava abraçada a três homens que a beijavam e despiam. Todos nus. Sexo – sexo de todas as formas praticado ali na sua frente. Ainda vestida, a jovem antropóloga sentia calor, suava, sua roupa encharcada. Achou melhor ir-se embora, deixou a sauna e de longe viu a casa grande. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água gelada. Um empregado a encontrou. Tinha a cara amarrada. “O que você quer?”, ele perguntou. “Um táxi”, ela disse. Ele pediu pelo telefone.

Escrevi a primeira versão desta reportagem antes de as eleições presidenciais terminarem no impasse. Por baixo dos panos, uma profunda mudança social está acontecendo no Irã. Mudanças de comportamento raramente deixam o status quo inalterado. Foi assim com os anos 1960 no ocidente. Faltamente será assim na antiga Pérsia.

203 Comentários

O adeus a Walter Cronkite (1916-2009)

Blogs · Mídia · Política Digital · TV · 19/07/2009 - 11h29 - 115 Comentários

Walter Cronkite, que morreu ontem aos 92 anos, foi um dos mais importantes nomes do jornalismo norte-americano de tevê. Ele representou, também, uma era que alguns de nós pegamos e muitos só conhecem por livros de história.

Houve o tempo em que veículos noticiosos com alcance nacional eram raros. Por quase vinte anos, entre as décadas de 60 e 70, Cronkite foi o principal âncora do principal telejornal da CBS. Ele anunciou ao vivo o assassinato de John Kennedy em uma das primeiras coberturas ao vivo da história.

No Brasil, o telejornalismo foi até bem tarde coisa para locutores. Cronkite não era do tipo – era repórter. A Guerra do Vietnã acabou de fato para o americano médio quando o veterano jornalista foi ao país e na volta declarou que o conflito havia chegado a um impasse. (O presidente Lyndon Johnson, quando ouviu Cronkite dizendo isso no telejornal, comentou com seus assessores – ‘perdemos a guerra na opinião pública’.)

Ele foi a voz ‘oficial’ dos EUA – uma voz que seguia a tradição de não se curvar ao governo. Era um grande editor de jornal, homem seriíssimo.

É bom que não exista mais ninguém como Cronkite, com tanto poder por representar quase sozinho informação confiável. Por outro lado, no tempo de Internet, com uma multiplicidade de vozes, a cacofonia às vezes faz ficar difícil descobrir que informação é confiável. Tudo parecem versões.

O jovem repórter que a CBS tinha em Dallas quando Cronkite confirmou a morte de Kennedy se chamava Dan Rather. Foi Rather que, em 1979, recebeu o bastão do CBS Evening News de Cronkite. Ele só foi cair em 2004, quando um grupo de blogueiros republicanos o derrubaram durante as eleições que recolocariam George W. Bush no poder. Rather, um repórter ainda mais repórter que Cronkite, veterano de inúmeras coberturas, o primeiro homem a entrar no Afeganistão invadido pelos soviéticos, presente na Queda do Muro de Berlim, na Praça Tiananmen, o homem que desafiou Richard Nixon e George Bush (pai) ao vivo, o homem que caiu porque já não dava para existir um Cronkite nesse mundo.

Cronkite marcou uma era que já não é mais possível.

115 Comentários

Depois da chuva

Pop · 18/07/2009 - 15h20 - 13 Comentários

13 Comentários

Uma semana difícil

Administrativas · 16/07/2009 - 13h19 - 87 Comentários

Gente: muito trabalho. Tentarei retomar a programação normal a partir de segunda-feira.

Muitíssimas desculpas.

87 Comentários

Honduras, seus golpistas, Zelaya que grita e o incrível Evo Morales

América Latina · Bolívia · EUA · Honduras · 14/07/2009 - 08h46 - 287 Comentários

Em Honduras, o dinheiro que vem dos EUA, Europa e vizinhos na forma de ajuda internacional, compras e empréstimos, fundamental para a economia do país, está suspenso. 200 milhões de dólares se foram pela janela. As exportações de têxteis e café, que movem a economia, caem pela crise. O petróleo venezuelano não vem mais.

A estratégia do governo de facto do país é simples. Como faz duas semanas do Golpe, a pressão econômica ainda não foi sentida. O presidente imposto Roberto Micheletti considera que, se conseguir aguentar até novembro, quando há eleições marcadas, seu golpe sobrevive e tudo volta ao normal.

Enquanto isso, o presidente derrubado Manuel Zelaya grita, na impossibilidade de fazer qualquer outra coisa. Diz que considerará as tentativas de mediação por parte do presidente costarriquenho Óscar Arias fracassadas se, até uma reunião que ocorrer no sábado, não houver solução.

Dificilmente haverá. Micheletti aposta no tempo.

E este é o ponto fundamental da questão: ninguém disse, ainda, o que ocorrerá após as eleições presidenciais. O Los Angeles Times, em editorial, diz que o governo norte-americano deve deixar claro que, mesmo após eleições, Honduras permanecerá na lista negra por ter interrompido o caminho democrático.

É uma decisão complicada. Permanecer punindo um país inteiro? Ao que parece, os golpistas vão escapar.

Em Honduras, o cotidiano vai se normalizando. O toque de recolher foi suspenso – ‘aumentou a segurança do país’, informa o presidente imposto. Na Bolívia, Evo Morales já disse que considera que os EUA patrocinaram o golpe.

A América Latina, às vezes dá um desânimo…

287 Comentários

Lembrando a Alemanha comunista

Alemanha · História · Ideologias · 12/07/2009 - 13h18 - 154 Comentários

No segundo semestre de 1989, 20 anos atrás, uma série de acontecimentos levaram à Queda do Muro de Berlim.

A Der Spiegel está com uma mostra de fotografias do cotidiano na antiga Alemanha Oriental em sua última década de existência.

154 Comentários

Quem tem medo de Internet?

Cuba · Irã · Política Digital · Venezuela · 10/07/2009 - 02h10 - 92 Comentários

internet

É certamente injusto sugerir que Hugo Chávez busca conter a Internet como Raúl Castro e Mahmoud Ahmadinejad. Mas as imagens no blog de Lia Caldas são divertidas ainda assim.

Ahmadinejad de terno branco qual ditador cucaracho é imbatível.

92 Comentários

A imagem de Obama

EUA · Fotografia · 10/07/2009 - 00h19 - 95 Comentários

obama_bysouza

O blog Big Picture, do Boston Globe, registra os primeiros 167 dias da presidência Obama em fotos.

Aí em cima, foto de Pete Souza, fotógrafo oficial da Casa Branca. Souza é um fotógrafo estupendo e as imagens todas, no blog, apresentam um político extremamente carismático. Mas que ninguém se engane: é propaganda. Obama faz lembrar John Kennedy, outro mestre da forma.

via Boing Boing

95 Comentários