Conflito étnico entre Hans e Uighurs? É a crise econômica à chinesa

08/July/2009 - 08h09 - 163 Comentarios

Hu Jintao, o presidente chinês, deixou a Itália às pressas sem esperar pelo encontro do G8, enquanto a crise na região da China mais próxima à Ásia Central se agrava. Oficialmente, morreram já 156 pessoas nos choques entre chineses de etnia Han (majoritária no país) e os Uighurs (turcomenos).

Os Uighurs compõem 45% da população da província de Xinjiang, noroeste do país. Desde que a al-Qaeda varou as torres gêmeas de Nova York, Beijing teme pela estabilidade da região. Xinjiang faz fronteira com a Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – que inclui o naco do mundo onde a vertente do extremismo islâmico do Talibã e de Osama bin-Laden encontrou abrigo. Os Uighurs são muçulmanos e, desde os anos 1990, há um grupo separatista que pratica atos de terror, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental – ETIM, na sigla em inglês.

Mas antes de sair com uma interpretação que passe pela al-Qaeda e sua inspiração, não custa entender melhor o cenário. Em 1940, os Hans compunham 5% da população da província. Hoje já são 40% – a China estimula a migração por considerar que estabiliza as regiões do país com etnias muito distintas.

Xinjiang é o canto mais rico em petróleo da China e a renda per capita na região também está entre as mais altas do país. Enquanto isso, o índice de desigualdade social é um dos piores. Chineses han têm os melhores empregos, o uighurs têm os piores. Alguns explicam que o problema é linguístico – num canto isolado do mundo, o grupo local não domina o mandarim, fala seu próprio dialeto de origem turcomena, uma língua parecida com o uzbeque que toma palavras emprestadas do persa. O problema é também educacional: os han têm acesso a mais anos de escola. O resultado prático é um só – os melhores empregos estão com uns, não com os outros.

Cenário propício para um conflito étnico? Sim, mas a razão é econômica. Condoleezza Rice, conta que quando secretária de Estado dos EUA ouviu a seguinte conta de Hu Jintao: sua missão é criar 25 milhões de empregos por ano. Em 2008, criou 9 milhões. A conta dos chineses é que sua estabilidade interna depende de uma economia que cresça rápido o bastante para que todos percebam ter chances de melhorar no futuro. Quando essa percepção for embora, Beijing tem medo.

Apesar das Olimpíadas, 2008 foi um ano ruim para a China. Terremoto grande, escândalo por causa de tinta de brinquedos, altos níveis de poluição em Beijing e uma crise econômica particularmente difícil.

Conflito étnico? Sim. Mas a causa é esta: 9 milhões de empregos em 2008 e um número provavelmente parecido em 2009.

Qual a estratégia de Obama
para lidar com o terror islâmico

05/June/2009 - 12h02 - 181 Comentarios

Gostei muito de ler as opiniões de vocês a respeito do discurso do presidente norte-americano Barack Obama, no Cairo. Não é a opinião de jornalistas, que tendem a pensar parecido entre si, que importa. É como pensam as pessoas que não são nem políticos, nem jornalistas, nem têm interesses imediatamente ligados à questão que vale.

Tenho um método para ler opiniões. Começo identificando os extremistas, os radicais. Na caixa de comentários abaixo, são os suspeitos de sempre, à esquerda e à direita. Os primeiros em que presto atenção sempre são os radicais. Falaram algo que surpreenda? Quando radicais falam algo que você não espera, preste atenção. Tem uma mudança de rumo aí. A possibilidade de uma nova tendência. Mas os radicais não falaram nada de surpreendente. Radicais não pensam: reagem. Suas idéias já vem empacotadas doutras fontes. Às vezes, alguns radicais podem ser brilhantes nos argumentos. Mas, ainda assim, quase nunca surpreendem. Radicais têm uma visão maniqueísta do mundo. Sabem que estão certos, não têm dúvidas. Sabem quais são as soluções do mundo e identificam muito rápido vilões absolutos.

Conviver com certezas por certo deve ser agradável. Não é uma bênção que a maioria de nós têm. Temos que lidar com o mundo do jeito que ele veio.

Não sei se o discurso de Barack Obama vai dar certo. O tempo é que dirá e qualquer pesquisa ou comentário que venha nas próximas semanas será apenas especulação. Isso não quer dizer que não exista nada a ser dito a respeito do discurso: é possível revelar suas intenções.

Obama é o político que reinventou a arte do discurso no Ocidente. A habilidade de políticos era medida por sua capacidade oratória até o fim da era do rádio. A televisão mudou essa linguagem, exigindo frases cada vez mais curtas. O grande talento para um político passou a ser a capacidade de emanar empatia pela tela da tevê.

Com seu discurso sobre relações raciais nos EUA, durante as primárias do Partido Democrata no ano passado, Obama mudou o jogo. O YouTube reinventou o rádio de certa forma: ao longo dos dias seguintes ao discurso, cada qual em seu tempo, os eleitores norte-americanos foram à Internet ouvir os quase 50 minutos daquele discurso de Obama com calma. Em geral, diz-se que a Internet acelera o tempo. Nem sempre. Às vezes, faz o oposto. Dá tempo para que uma mensagem um pouco mais complexa do que permitem os 30 segundos de tevê tenha chance de reverberar.

O que o presidente dos EUA tentou fazer ontem, no Cairo, é repetir o fenômeno do discurso sobre raça. A dúvida é o filtro cultural: do outro lado não estão norte-americanos, nem gente que foi educada num ambiente de cultura européia.

Ainda assim, ele conta com a Internet para que milhões de pessoas em todo o mundo muçulmano o ouçam ao longo dos próximos dias e semanas. Foi, como no caso do race speech, um discurso longo. Seu alvo são jovens. Jovens, afinal, são os que têm acesso à Internet. E, não custa lembrar, é via Internet que a al-Qaeda distribui seu material inflamatório. É via Internet, com discursos gravados em áudio e em vídeo, que a al-Qaeda seduz mentes. É neste mercado que Obama decidiu entrar. Sua aposta é de que conseguirá plantar um dúvida na mente de incontáveis jovens muçulmanos de 13, 16 ou 19 anos. Ele só precisa disso: plantar a dúvida.

Radicais têm certezas, afinal. Se jovens o suficiente vacilarem na hora de se abraçar a uma bomba que levará suas vidas, a política no Oriente Médio caminha três ou quatro passos à frente. Se dará certo? Não depende apenas do discurso. O discurso desarma. Se der certo, ele faz com que seu público alvo cogite a possibilidade de que os EUA – e o ocidente – não sejam vilões absolutos.

Não basta que cogitem, tem que se convencer. A maneira como a política externa dos EUA é percebida também terá que mudar. O discurso de ontem faz parte da nova estratégia norte-americana. É uma estratégia ousada, e vai ser fácil bater nela se não der certo.

O mundo é assim mesmo: fazer com que as coisas funcionem é difícil. Bom mesmo é ser radical. Certezas sem obrigação de resolver problemas está entre as posições mais confortáveis que podem haver. Mas não deixa de ser engraçado quando gente que olha para o mundo e só vê pretos e brancos, nenhum cinza, chama os outros de ingênuo.

Obama no Cairo

04/June/2009 - 13h44 - 141 Comentarios

Barack Obama fez, hoje, o discurso mais importante desde que assumiu a presidência dos EUA.

Interessante será acompanhar a repercussão – e a partir dela escrevo mais.

Tenho a impressão de que foi a primeira vez na qual um presidente dos EUA reconheceu em público que seu país participou do golpe que derrubou um governo democrático no Irã, em 1953.

Sobre tortura e eficácia nos EUA e Iraque

24/April/2009 - 15h32 - 44 Comentarios

Em 2003, no Iraque, o tenente-coronel norte-americano Steven Kleinman tentou evitar a aplicação de ‘métodos abusivos’ de interrogatório por parte de oficiais de seu país. Experiente oficial de inteligência, Kleinman concedeu uma entrevista interessante à rádio pública NPR:

O senhor pode explicar o que é SERE?

É o acrônimo para sobrevivência, evasão, resistência e fuga (escape, em iglês – PD). É um método para resistir a interrogatórios hostis para o qual soldados são treinados.

As origens deste método datam da Guerra Fria, certo? Os EUA treinavam seu pessoal para a possibilidade de serem feitos prisioneiros dos chineses, por exemplo.

Exatamente. Mesmo antes da Guerra da Coréia, durante os julgamentos soviéticos no pós-Segunda Guerra, o governo dos EUA começou a observar um comportamento inexplicável, estranho: era gente dizendo que pertencia à CIA mesmo sem pertencer. Depois, dados levantados pelo sistema de inteligência descreveram estes métodos de interrogação utilizados para forçar pessoas a produzir propaganda, uma mistura de verdade com uma grossa camada de informação falsa.

Você está sugerindo que as Forças Armadas dos EUA pegaram técnicas para as quais haviam sido treinadas a resistir e aplicando as mesmas no Iraque?

Exatamente. E o ponto mais importante que seus ouvintes devem entender, para que compreendam a gravidade da situação, é que o objetivo primário deste tipo de interrogatório não é obter a verdade. É produzir fatos políticos. Na Guerra da Coréia, alguns de nossos pilotos foram forçados a admitir que haviam jogado armas químicas em cidades, quando isto não aconteceu. Isto nada tem a ver com o objetivo do interrogatório de inteligência, que é obter informação correta, confiável e em tempo.

Estes métodos duros de interrogatório foram utilizados por soviéticos e chineses para forças pessoas a dizerem coisas que não eram verdade?

Isso. E não é apenas duro fisicamente. O elemento de mais persuasão é a habilidade de criar debilidade, depressão e terror utilizando-se de técnicas psicológicas que afetam profundamente a capacidade de as pessoas dizerem a verdade, mesmo que quisessem. São técnicas que afetam a capacidade de lembrar, o que invalida o interrogatório do ponto de vista de inteligência.

via Metafilter

Ahmed Rashid: como (e por quê)
cresce a al-Qaeda

16/March/2009 - 11h48 - 65 Comentarios

Há um mecanismo nos arredores do Afeganistão que está alimentando e fortalecendo a al-Qaeda. Este post é o segundo (e último) que sai a partir da conversa com Ahmed Rashid, o primeiro foi sobre o Talibã. A al-Qaeda está mais forte e intimamente ligada à cúpula do Talibã, mais até do que antes do Onze de Setembro,. O grupo liderado por Osama bin-Laden tem proteção na região em que vive, a fronteira do Paquistão e Afeganistão, por causa da influência do Talibã ali, pelo surgimento nos últimos anos de um Talibã paquistanês e pela proteção da ISI, serviço secreto do Paquistão.

A ISI é a responsável pelo desenvolvimento e execução da política externa do Paquistão. Como se trata de um braço das Forças Armadas, tal política se resume a ser contra a Índia. Daí, consideram adequado insuflar o radicalismo islâmico. A tranquilidade concedida à al-Qaeda nos últimos anos reverteu uma tendência inicial de diminuição e permitiu um retorno à expansão. O único fracasso do grupo terrorista nos últimos dez anos foi no Iraque. Hoje, a al-Qaeda tem bases no Iêmen, no Sudão e grupos afiliados em todos os países da Europa. Nos últimos seis meses, houve prisões de membros da organização na França e na Alemanha. Mas haverá um novo ataque em solo europeu. O grupo está forte.

O que isto diz a respeito da Guerra ao Terror imposta por George W. Bush? Há dois argumentos que os partidários do ex-presidente norte-americano usam para defendê-lo. O primeiro, de que ele realmente evitou novas tentativas de ataque em solo dos EUA. E o segundo de que, afinal, ele venceu a al-Qaeda no Iraque.

Rashid explica assim: o Iraque foi um caso particular, onde a população sunita não é radical do ponto de vista religioso. É mais difícil envolvê-la por muito tempo numa guerra em nome de Deus. Lá, o problema é nacionalista. Mas, de qualquer forma, o Iraque foi o único lugar no mundo em que os homens de bin-Laden realmente enfrentaram o exército dos EUA numa batalha aberta. Tais homens, hoje, vivem no Afeganistão e estudam dedicados as circunstâncias daquela derrota. Aprenderam muito sobre como o maior exército do mundo funciona em batalha. E estão prontos para um novo confronto armado no Afeganistão. O Afeganistão, não custa lembrar, é onde Alexandre, o Grande, o Império Britânico, e a União Soviética caíram.

E quanto a ataques diretos aos EUA? Rashid os considera mais difíceis pela natureza do país. Não só os EUA são mais isolados – estão a um Atlântico ou Pacífico de distância – como é um país de imigrantes. As comunidades islâmicas, nos EUA, estão integradas à sociedade. Sentem-se norte-americanas. O discurso da jihad simplesmente não pega. Esta integração não é algo que os europeus tenham conseguido fazer. E é do sentimento de exclusão social que são reforçados os laços com o país original e a raiva da nova terra. Ironicamente, as críticas ao ‘multiculturalismo’ que nasceram dentro do movimento neo-conservador dos EUA ignoraram o fato de que são os próprios EUA um dos maiores exemplos de multiculturalismo bem sucedido do mundo. (O Brasil certamente está na mesma lista.) É porque os muçulmanos norte-americanos sentem-se norte-americanos mais do que iraquianos, paquistaneses ou o que for que a al-Qaeda não encontra solo fértil para se implantar.

Outros fatos explicam o recente fortalecimento da al-Qaeda e o primeiro é o tráfico de drogas baseadas em ópio, principalmente heroína. O Talibã já protegia, quando estava no governo afegão, os fazendeiros de papoula, o que lhe rendia 200 milhões de dólares anuais. Mas o envolvimento é mais profundo, agora. O grupo e a al-Qaeda estão envolvidos não só com proteção mas com o tráfico. Lucram alto fazendo o escoamento da produção, seja via Dubai, Tashkent (Uzbequistão) ou Islamabad (Paquistão). Ninguém sabe ao certo quanto o negócio dá. Mas é muito.

O Islã não permitiria este envolvimento, mas os mulás da al-Qaeda o justificam seguindo um raciocínio tortuoso: não se envolvem com haxixe, baseado em cannabis, porque há um histórico de uso de maconha por muçulmanos. Com heroína não é assim – já que muçulmanos não a consomem, só os outros. Simplesmente não é verdade. O uso de opiácios por afegãos e paquistaneses vem crescendo e é um portentoso problema social.

Por outro lado, Ahmed Rashid não espera que ocorra, com a al-Qaeda, aquilo que aconteceu com as FARC. De um grupo de guerrilhas comunistas e de esquerda, após se envolverem com o tráfico foram corrompidas ao ponto de se transformarem, agora no fim de sua existência, em um mero grupo de bandidos. A ‘ideologia’ islâmica é mais forte do que isso e os homens ligados a bin-Laden são totalmente centrados no objetivo da jihad. O tráfico pode financiá-los, mas não vai virar atividade fim.

O outro elemento que fortalece a al-Qaeda é o empobrecimento da região, reforçado agora pela crise econômica mundial. Não é só o Afeganistão. O sul do Tajiquistão passou boa parte do inverno sem luz – é uma região pobre, profundamente pobre, e gelada. Há passeatas motivadas pelo preço dos alimentos no Uzbequistão e no Quirguistão. Pobres, famintos, sem quaisquer perspectivas, jovens muçulmanos destes países descem ao sul em busca da al-Qaeda e abraçam a jihad. O número de soldados está aumentando.

Por que demora um ano para fechar
Gitmo? Uma história de Guantánamo

26/January/2009 - 06h28 - 129 Comentarios

A al-Qaeda não quer o fim de Guantánamo. Tanto que faz questão de apresentar os dois homens liberados de lá que juntaram-se a suas fileiras. (Pelo menos 510 pessoas já foram liberadas.) Tudo o que a al-Qaeda não quer é o fim de Guantánamo, sua melhor propaganda anti-EUA.

E, com Guantánamo, Barack Obama tem um problema nas mãos que vai demorar para ser resolvido. Para entender porque Obama precisa deste um ano para fechar as portas de Gitmo, como a prisão é conhecida aqui, é preciso conhecer antes a história do Campo de Detenção da Baía de Guantánamo, fundado pelos EUA em 2001, e os muitos erros que o governo Bush cometeu ali nos últimos anos.

Quando os EUA invadiram o Afeganistão com apoio de boa parte do mundo, começaram a juntar prisioneiros. Prisioneiros amealhados por ali existiam de vários tipos: a maioria, ficha pequena. Alguns, no entanto, podiam ter informação valiosa que pudesse levar à captura de Osama bin-Laden ou que revelasse algo sobre os projetos futuros da al-Qaeda. O então secretário de Defesa Donald Rumsfeld idealizou Guantánamo para estes ou, como ele descreveu certa vez, ‘os piores dentre os piores’.

Guantánamo fica na ilha de Cuba – foi nesta baía que, em 1492, Cristóvão Colombo aportou ao chegar nas Américas. A área da base foi arrendada pelo governo norte-americano em 1903, um contrato sem data para acabar foi assinado em 1934. O governo de Fidel Castro recebe anualmente o cheque do aluguel mas não o deposita. Depositou-o somente uma vez, no início dos anos 1960, por engano de um funcionário. O governo dos EUA alega que o depósito representa reconhecimento legal do contrato. Ficam se mirando, cubanos e norte-americanos dias a fio, e nada muda.

Foi justamente esta condição legal nebulosa de Guantánamo que atraiu Rumsfeld. O raciocínio de seus advogados no Pentágono é que como Guantánamo não é oficialmente território norte-americano, os prisioneiros das Forças Armadas dos EUA ali não estariam protegidos pelo sistema legal do país. Eles fizeram outra interpretação: a Convenção de Genebra, que determinas as regras para a condução de uma guerra, estabelece direitos para os combatentes inimigos. Os EUA assinaram a convenção, portanto precisariam obedecê-la não importa em que canto do mundo. Mas ‘combatentes inimigos’, para os advogados do Pentágono, deveriam ser definidos como soldados uniformizados ou como guerrilheiros que não escondem suas armas e que seguem, eles próprios, as regras impostas por Genebra. Terroristas não estariam incluídos.

Os prisioneiros de Guantánamo estariam, portanto, no vácuo legal. A eles não caberia nenhum direito.

Há duas discussões aí. Uma é moral – e a moral segue duas linhas de argumento. Quem é contra diz, simplesmente, que a grande conquista do Ocidente é o Estado de Direito. Não se pode abandonar o Estado de Direito dizendo que, na verdade, esta é uma tentativa de defendê-lo. Quem é a favor sugere que o argumento é ingênuo, há uma guerra, e estas pessoas querem destruir nossa civilização. A segunda discussão é a técnica, muito mais complexa, e que levanta duas perguntas. O argumento jurídico dos advogados do Pentágono se sustenta? E, em segundo, a solução Guantánamo para combater terroristas é de alguma forma eficiente?

A resposta da primeira pergunta é não. Guantánamo é ilegal e os advogados do Pentágono estavam errados. Não é nenhum grupo ativista que o diz, é a Suprema Corte dos EUA – uma corte, diga-se, reconhecida como conservadora. Em 2006, os juízes determinaram que o então presidente George W. Bush não tinha autoridade para instituir Tribunais de Guerra em Gitmo. No ano passado, a Corte declarou que os prisioneiros de Guantánamo tinham, sim, o direito de questionar suas prisões em um tribunal civil. Em junho último, por fim, a Corte estabeleceu que os prisioneiros estavam sob a jurisdição da Constituição dos EUA e que, portanto, tinham direito a proteções.

As premissas legais de Rumsfeld estavam erradas e, portanto, muito do que ocorreu em Guantánamo – por não ter seguido de acordo com a lei – pode prejudicar a condenação de gente culpada em tribunal. Mas quem são, afinal, os prisioneiros de Guantánamo?

Pouco mais de 780 homens e rapazes passaram por Gitmo. A maioria não foi presa em batalha no momento em que ameaçavam soldados norte-americanos. A maioria foi entregue aos agentes dos EUA por afegãos e paquistaneses em troca de uma recompensa. Quem era árabe e podia ser acusado de agente da al-Qaeda naqueles meses passou maus bocados nas montanhas afegãs. Não eram os ‘piores dente os piores’. Foi o próprio governo Bush que liberou, nos últimos anos, pelo menos 510 destes, enviando-os de volta para seus países.

Que se destaque: é segundo o próprio governo Bush que menos de 20% dos detentos tiveram qualquer relação com a al-Qaeda.

Dos atuais prisioneiros, 60 já são homens libertos e estão no processo de serem devolvidos para seus países de origem. Vinte são acusados de crimes de guerra e serão processados. Algo entre 60 e 80 talvez venham a ser processados. E 120 homens estão no vácuo legal: não há qualquer tipo de prova contra eles mas são, dizem os militares, perigosos.

Houve tortura em Guantánamo e este também é um problema técnico. A tortura foi de obrigar homens a vestirem roupas íntimas de mulher para desfilar, danificar edições do Corão perante religiosos, restrição de sono, afogamento simulado e o mais duro espancamento. As acusações, não de todo negadas, são de grupos como a Cruz Vermelha Internacional e a Human Rights Watch.

Provas angariadas sob tortura são inadmissíveis perante um tribunal. Então, para conseguir condenar homens que muito provavelmente são culpados, os procuradores terão de encontrar rastros de depoimentos conseguidos sem tortura. Alguns juristas argumentam que, dadas as características ilegais da prisão, qualquer prova angariada lá deve ser recusada em tribunal. O sistema Rumsfeld provavelmente garantiu a gente culpada sua liberdade.

O mais impressionante revelado por Guantánamo não é, na verdade, o desprezo pela instituição da Justiça, que está na base da democracia. O governo Bush tratou leis e direitos como uma atrapalhação em muitos outros casos. Também não se pode acusar ninguém de hipocrisia. Eles foram ao Congresso pedir permissão para tortura por afogamento simulado.

O mais impressionante é que, de 780 homens e rapazes, o governo só está convicto de que consegue condenar 20. Um deles, Khalid Sheikh Mohammad, confessou ter idealizado o ataque de Onze de Setembro. É difícil dizer em que nível hierárquico estava na al-Qaeda. O segundo homem mais importante é o motorista de Osama bin-Laden. Um terceiro talvez seja um homem que tentou entrar nos EUA e poderia vir a ser um dos seqüestradores de aviões. Mas sua entrada foi impedida na imigração. O resto é quase tudo soldado raso. É para isto que o governo norte-americano produziu uma prisão na qual o Estado de Direito não valeria: não prendeu quase ninguém importante.

Resolver legalmente todas as pendências de cada um dos 270 prisioneiros vai demorar tempo. Os EUA sabem que, se devolverem alguns destes homens a seus países de origem, eles serão presos, torturados, provavelmente mortos. Legalmente, se há indícios de que isto possa acontecer, os EUA são obrigados a encontrar um país que ofereça asilo ou oferecer asilo por conta própria.

Este é o problema de Barack Obama. A maioria dos prisioneiros é inocente mas muitos não podem voltar para casa. Alguns são culpados, mas as provas angariadas pela máquina Rumsfeld são ilegais, sugere a Suprema Corte.

A Guerra ao Terror, argumentam os mais conservadores, é uma guerra pela defesa da Civilização ocidental contra a barbárie fundamentalista. Talvez. A Civilização ocidental é o Estado de Direito. Guantánamo aberta não era solução. Era só um constante postergar do sério problema que Guantánamo aberta criou.

Pervez Musharraf conta sua visão de mundo

17/January/2009 - 16h26 - 19 Comentarios

O general de reserva e ex-ditador paquistanês Pervez Musharraf deu uma conferência aqui em Stanford, ontem. Ele falou por aproximadamente uma hora sobre como vê o problema do terrorismo e ofereceu sua receita ‘holística’ para tratá-lo. Aí, abriu para o público. Os estudantes e professores de Stanford perguntaram-lhe a respeito da segurança das armas nucleares paquistanesas, cobraram-lhe a respeito da ditadura – às vezes, exaltados. Alguns estudantes indianos ensaiaram um protesto. Musharraf não piscou um segundo. Foi irônico, charmoso, em alguns momentos fez cara de sincero. Sempre tinha uma resposta com aparência de ponderada. É um político nato.

Gravei a conferência em áudio – está online para quem quiser ouvir. Mas aqui vai um resumo do mundo visto pelos olhos de Pervez Musharraf.

Extremismo e terrorismo

É preciso distinguir entre extremistas e terroristas. São parecidos mas distintos. Nem todo extremista é terrorista. A maioria não é. Os extremistas têm que ser transformados. Os terroristas devem ser presos. Mas não há consenso internacional a respeito de quem é terrorista: o terrorista de um é aquele que luta pela liberdade de outro. Até hoje, temos enfocado o problema com táticas de combate no curto prazo. A solução, no entanto, só virá a longo prazo, com outro tipo de esforço.

Terroristas enquanto folhas

Os terroristas são como as folhas de uma árvore. As organizações terroristas são como os galhos. Não adianta podar folhas ou cortar galhos porque nascem outros. É preciso atacar a raiz da árvore. As raízes, na Ásia Central e no Oriente Médio, são três. A primeira é analfabetismo. A maioria dos extremistas e terroristas são pessoas iletradas que compram qualquer discurso que aponte um culpado externo para seus problemas. A segunda causa é a pobreza, e pobreza e analfabetismo caminham juntos na região. Pobreza e analfabetismo confirmam a impressão de que há uma profunda injustiça, que tudo lhes é negado.

Mas os perpetradores do Onze de Setembro e das bombas de Londres não eram nem analfabetos, nem pobres. E aí entra a terceira causa: política. Há questões políticas que não foram resolvidas e que devem ser endereçadas. Principalmente Caxemira e Palestina. O que está acontecendo em Gaza, agora, apenas reforça a sensação de impotência e injustiça na rua islâmica, alimentando ainda mais o extremismo que, por sua vez, é explorado por organizações terroristas.

Alguns sugerem que há uma diferença fundamental no sistema de valores do Islã e do Ocidente. Não é verdade. O IRA, na Irlanda, não era diferente. Uma solução apenas militar para o problema do terrorismo fracassará.

A história da al-Qaeda

Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. Nesse momento, os EUA quiseram que nós, no Paquistão, organizássemos a resistência. Vocês americanos quiseram que nós lutássemos a jihad. Então, entre 1979 e 1989, treinamos e armamos os mujahedins, estrangeiros que vinham de todo o mundo islâmico, para lutarem no Afeganistão.

O Afeganistão tinha sua estabilidade. Havia um pacto entre todas as etnias, todos os clãs, para dar apoio ao rei. Os dez anos da invasão soviética desmontaram toda a estrutura que existia há tanto tempo. A elite do Afeganistão abandonou o país a sua própria sorte, mudaram-se para o exterior. Aí, em 1989, caiu o muro de Berlim, os soviéticos deixaram o Afeganistão desmontado e terminou a Guerra Fria. O fim da Guerra Fria deixou dividendos. Eles foram todos para a Europa. Países receberam investimentos, puderam se reestruturar.

O que Afeganistão e Paquistão, que lutaram contra a União Soviética por dez anos, ganharam? Nada. Fomos esquecidos por todos. ‘Agora é com vocês’, eles nos disseram.

E onde estavam os mujahedins que vieram lutar contra os soviéticos? Continuaram no mesmo lugar. Mudaram apenas seu foco: de contra os comunistas, viraram-se contra os EUA. Formaram a al-Qaeda. Após a tomada de poder do Talibã, no Afeganistão, 4 milhões de refugiados se bandearam para o Paquistão. O problema continuava sendo apenas nosso. A estrutura social que sustentava o Afeganistão havia sido arruinada pelos soviéticos e de quem era o problema? Do Paquistão. Então, em 1999, os mesmos radicais começaram a se estruturar na Caxemira, na Índia. E o Paquistão continua tendo que lidar com a situação toda.

Só quando aconteceu o Onze de Setembro é que o mundo decidiu prestar atenção no que estava ocorrendo. Ainda assim, os Estados Unidos já investiram 1 trilhão de dólares no Iraque. Quanto investiram no Paquistão desde então? 10 bilhões. O problema continua lá e tem o mesmo tamanho.

A. Q. Khan

A. Q. Khan, o pai da bomba paquistanesa, que vendeu seus segredos para a Coréia do Norte e Irã, está em prisão domiciliar. Não creio que tenha sido extremismo que o moveu. Ele não teria tido contato com os norte-coreanos, caso tivesse sido isso. Foi ganância. Não permitimos que fale com investigadores de outras nações porque, para nós, a questão é sensível. Há segredos envolvidos e ele é um homem muito popular nas ruas do Paquistão. Os EUA também têm sob sua custódia homens que venderam segredos nucleares para nações estrangeiras. Alguma vez os EUA cogitaram permitir que investigadores de outros países os interrogassem? Claro que não. Funciona da mesma maneira.

Relações com a Índia

Se houver provas de que paquistaneses estiveram envolvidos nos ataques a Mumbai, é evidente que devem ser punidos. Mas não culpe o governo por isso. A comunidade internacional não está contribuindo, como deveria, para abrandar as tensões na região da Caxemira. Algumas nações fazem uma campanha contra a ISI, serviço secreto paquistanês. A ISI funciona sob ordens do governo e de ninguém mais. Sua função é garantir a integridade do Paquistão. Suas técnicas são as mesmas técnicas de qualquer serviço secreto. O serviço secreto da Índia faz o mesmo mas ninguém lhes cobra mudança. A Índia é um grande país. É um país poderoso. Todos os países na região sabem disso – ninguém tem dúvidas. E a Índia pressiona. O que a Índia tem que compreender é que não pode sair por aí pressionando os menores. O Paquistão também é um grande país.

Cerco a Mumbai: Como medir a vitória do Terror

28/November/2008 - 01h07 - 68 Comentarios

Li os comentários com atenção. Alguns questionam a existência de um terrorismo hindu. Talvez por cinismo, talvez por apenas buscar a informação que confirma seus próprios preconceitos e nenhuma outra, repetem uma discussão que se dá na Índia. O ódio religioso é intenso, no norte do país. Terrorismo hindu é uma expressão cunhada pela imprensa de língua inglesa de Mumbai e agressivamente criticada pela elite política hindu. Dizem que não existe. A página a respeito do terrorismo hindu foi apagada quatro vezes da Wikipedia. Não custa lembrar que não há maniqueísmo, aqui: a imprensa de língua inglesa da Índia é composta, em geral, por jornalistas hindus.

Mas vale a pena ler, nos comentários do post abaixo, aqueles escritos pelo leitor SK. Ele entende do que fala, é de origem indiana e discorda da leitura que faço aqui em alguns pontos.

A violência contra a comunidade muçulmana na Índia não é pequena e vem de décadas. Em 2002, no estado Gujarat, 790 muçulmanos foram mortos, assim como 254 hindus, em confrontos após o incêndio do trem Godhra. O governo afirma que o trem foi atacado por muçulmanos, a afirmação é contestada. Difícil afirmar o que houve. Mas o resultado daqueles confrontos ainda está evidente, nos campos de refugiados a céu aberto do estado. Os muçulmanos expulsos de suas casas então até hoje vivem em tendas. Conheço o assunto bem graças a uma companheira de Knight Fellowship em Stanford, a jornalista Dionne Bunsha, ela própria hindu de Mumbai, repórter premiada, com mestrado pela London School of Economics e, à época, a serviço da principal revista semanal indiana, Frontline. Dionne é autora do livro Scarred, que denuncia os constantes maus-tratos e a insegurança continuada imposta aos indianos muçulmanos no estado.

Não custa lembrar: até a quarta-feira, o Esquadrão Anti-Terrorismo da polícia de Mumbai havia tido mais trabalho investigando ataques contra muçulmanos do que impetrados por eles. Do último ataque, em setembro, prenderam entre outros uma sacerdotisa hindu e acusaram o exército local de ter fornecido treinamento para os atacantes.

Reitero que os partidos nacionais indianos são fracos e que evitam enfrentar a política hindu local, que acoberta a violência. Dionne não é minha única fonte, aqui. A mesma descrição é feita por Fareed Zakaria em seu livro mais recente, O Mundo Pós-Americano. Zakaria, indiano, PhD por Harvard, foi diretor de redação da mais conceituada revista de relações internacionais – a Foreign Affairs – antes de assumir a editoria de internacional da Newsweek e um programa semanal na CNN. O livro já tem edição brasileira – e é excelente.

Mas é evidente que o cerco a Mumbai, imposto por terroristas muçulmanos, internacionalizou o conflito. Repetindo o que já estava no post abaixo, adotaram táticas da al-Qaeda, buscando conquistar atenção da imprensa estrangeira e querendo vincular a briga interna, na Índia, com o conflito internacional que se dá no Oriente Médio. Não é claro, ainda, se os terroristas têm relação com o conflito na Caxemira, ou se o enfoque é apenas nacional.

No momento em que escrevo este post, a polícia indiana entrou nos dois hotéis e preparava uma ofensiva contra a sinagoga. Já são 119 mortos em dois dias de cerco.

A questão, agora, é tratar das conseqüências do ataque. Os terroristas tinham objetivos políticos – eles sempre têm. Diferentemente do que ocorre em vários países do Oriente Médio ou mesmo no Paquistão vizinho, os muçulmanos da Índia não se radicalizaram. Com exceção da Caxemira, que vive um ambiente próximo ao de uma guerra civil constante, não existem gritos por jihad ou fatwas soltas a torto e a direito pedindo a morte de inimigos. Um dos objetivos dos terroristas de hoje é certamente acirrar o conflito entre muçulmanos e hindus e, se possível, envolvê-los na jihad global abrindo mais uma frente de batalha.

Não custa lembrar que a jihad global recruta menos e menos jovens no árabe.

Há outro objetivo que pode estar entre as intenções dos Deccan Mujahedin: recentemente, a Índia se aproximou ainda mais dos EUA, com a assinatura de um acordo nuclear. Parte do processo de sedução do país vem da tentativa de pôr panos quentes nas relações da Índia com o Paquistão. Para que seja possível controlar o Talibã, na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, é preciso antes de um governo paquistanês estável. Para tal governo existir, idealmente as relações entre Paquistão e Índia devem estar nos melhores termos possíveis. E vinham melhorando a olhos vistos. Quando o premiê indiano Manmohan Singh aludiu a pressões vindas do exterior, hoje, ele falava do Paquistão e dois passos foram dados para trás. Sem controlar o Talibã, ninguém controla a al-Qaeda, Osama bin-Laden continua solto e as possibilidades do terrorismo egípcio-saudita permanecem abertas. O mundo é um só e todos estamos conectados uns aos outros.

Assim se medirá o sucesso dos terroristas: se os muçulmanos da Índia se radicalizarem e as relações entre Índia e Paquistão desandarem de forma séria.

É só quando o cerco terminar e ficar claro quem são os Deccan Mujahedin que começaremos a ter melhores informações sobre quais interesses realmente representam. Dá para sentir no hálito de alguns dos companheiros leitores, aí no post abaixo, a sede de mais sangue em troca do sangue derramado nos últimos dias, em Mumbai. O anti-islamismo radical e os terroristas islâmicos, ironicamente, têm o mesmo objetivo.

Cerco a Mumbai: Conflito interno da Índia?

27/November/2008 - 15h59 - 32 Comentarios

Uma atualização, posto que a informação vinda de Mumbai ainda é pouca. Ainda há reféns tanto no Taj Mahal Palace & Tower quanto no Hotel Oberoi. Também há reféns na sinagoga do grupo Chabad Lubavitch, a principal comunidade de judeus ortodoxos da cidade. É noite na Índia, os ataques já duram mais de vinte e quatro horas, e reféns vem sendo soltos paulatinamente. Parece tratar-se de tática: há muita gente nos hotéis. Manter um grupo pequeno mas importante de reféns pode ser a melhor maneira de gerenciar a situação por até dias.

Os terroristas do Deccan Mujahedin ainda não foram identificados. Um grupo com este nome, informa a revista britânica The Economist, já havia se manifestado uma vez anteriormente. Em setembro, assinaram um email às agências de notícias indianas informando que ‘nós estamos mantendo o olho em vocês e apenas esperamos o momento certo para o banho de sangue’, escreveram. ‘Alertem a todos de Mumbai que qualquer ataque sangrento que sofram no futuro terá sido responsabilidade da polícia de Mumbai e de seus líderes.’

Os atacantes, segundo testemunhas, falam hindi e têm uma tez mais clara, indicando serem ou indianos do norte ou paquistaneses do sul. Alguns especulam ligações com o grupo terrorista Lashkar-e-Toiba, que opera na região indiana da Caxemira. A Caxemira, na qual a maior parte da população é muçulmana, é disputada por Paquistão e Índia. Segundo o governo da Índia, o Lashkar-e-Toiba é financiado e treinado pelo ISI, serviço secreto paquistanês. Em seu discurso à nação, o premiê indiano Manmohan Singh declarou que os ataques têm influência estrangeira.

Não é necessariamente verdade mas é certamente possível. O que parece bastante seguro afirmar é que não se trata de um ataque da al-Qaeda. É um ataque extremamente bem organizado, mas de baixa tecnologia. São guerrilheiros com armas de guerrilheiros. Terrorismo hindu (ou terrorismo de açafrão, como é apelidado no país) e terrorismo islâmico fazem parte da história corrente do país. A diferença, e aí entra inspiração da al-Qaeda, é que desta vez escolheram vítimas diferentes: principalmente norte-americanos, britânicos e a comunidade judaica local. Parece ser uma busca por ligar os ataques ao terrorismo internacional e chamar a atenção do mundo inteiro para o conflito interno de seu país.

Neste quesito, certamente tiveram sucesso.

A carta dos Deccan Mujahedin liga o ataque em progresso à cidade de Mumbai e à sua região. Portanto, pode haver um elo aí com os diversos ataques que a comunidade muçulmana vem sofrendo nos últimos anos impetrados pelo terrorismo de açafrão. Na Índia, o poder político é mais estadual do que nacional. Não há grandes partidos nacionais. Nova Delhi é acusada de complacência com o terrorismo hindu porque ele é visto com simpatia pela população de algumas regiões ao norte e isto poderia comprometer seu sucesso eleitoral ou a produção de coalizões que sustentem o gabinete do primeiro-ministro. De qualquer primeiro-ministro.

Mas uma ligação com o conflito na Caxemira e, portanto, indiretamente, com o governo paquistanês não pode ser ignorada. Não custa lembrar que a ISI – que auxiliou o Talibã no Afeganistão e certamente incentiva os levantes muçulmanos na Caxemira – não é totalmente controlada pelo presidente paquistanês. Funciona, muitas vezes, por conta própria.

O mundo todo está de olho em Mumbai, hoje – e este é o primeiro sucesso deste ataque terrorista. Mas o conflito que ele representa é interno, talvez no máximo da Ásia Central.

Cerco a Mumbai: Direto da Índia

27/November/2008 - 14h41 - 1 Comentarios

O leitor Ricardo, que mora na Índia, está respondendo várias dúvidas na caixa de comentários abaixo.

Índia: Mumbai cercada

27/November/2008 - 04h40 - 62 Comentarios

O grupo que assumiu o ataque terrorista generalizado a Mumbai, Índia, atende pelo nome Deccan Mujahedin. Ninguém os conhece. Deccan remete a um planalto no sul do país, onde não há muitos muçulmanos. Mas é um grupo muçulmano – mujahedin é a palavra árabe para guerreiro.

No momento em que este post foi escrito, a polícia indiana falava de 100 mortos, a maioria dos reféns soltos mas alguns – número indefinido – ainda sob o controle dos terroristas.

Ricardo, um dos leitores do Weblog, escreveu um artigo sobre o cotidiano na Índia para a seção O Mundo Segundo os Leitores.

Os primeiros sinais de que algo ia mal se deram na noite de quarta, no restaurante do imponente Taj Mahal Palace & Tower, um dos mais luxuosos hotéis do mundo. Jovens vestidos de jeans e camisetas, com AK-47s às mãos, entraram no salão chamando por todos os cidadãos norte-americanos e britânicos. O diário Haaretz de Israel informa que também buscavam israelsenses. Fizeram reféns. Ataques simultâneos aconteceram também no Hotel Oberoi, no Leopold Café, no mercado da cidade e na principal estação de trens. A maioria dos locais são freqüentados principalmente por estrangeiros. Mas isto não é verdade para a estação e para o mercado. Entre os mortos estão indianos pobres.

Mumbai tem um Esquadrão Anti-Terrorista, organizado por causa do terrorismo hindu, que é conhecido pela sua eficiência. É uma tropa de elite com 35 homens. Onze deles morreram, ontem à noite, entre eles seu comandante, Hemant Karkare.

Mumbai (antiga Bombaim) fica no noroeste do país e é a capital do maior estado, Maharashtra, que tem mais de 17 milhões de habitantes. Oitenta por cento dos indianos são hindus, mas quase 14% são muçulmanos – a maior das minorias, bem maior do que o número de cristãos, sikhs e budistas somados. Em Mumbai, onde uma das línguas mais faladas ainda é o inglês com o típico sotaque indiano, muçulmanos também representam 14% da população.

Em 29 de setembro último, sete pessoas morreram e mais de cem ficaram feridas quando um grupo terrorista hindu atacou o bairro muçulmano de Malegaon, não longe de Mumbai. Até este ataque, era o terrorismo hindu contra muçulmanos que vinha numa crescente, no país. A discussão a seu respeito vinha mexendo com a imprensa do país. O governo tem consciência de que ser muçulmano na Índia, hoje, quer dizer estar preocupado com a própria segurança. Há opressão e tensão étnica no norte do país.

É neste contexto que estes misteriosos Deccan Mujahedin aparecem. Foram buscar britânicos, norte-americanos e israelenses, tornando a crise internacional. Foi certamente um ataque planejado e caro.

Um blog para ficar de olho nos próximos dias: Indian Muslims.

O racismo da al-Qaeda e Obama

20/November/2008 - 16h05 - 42 Comentarios

No primeiro comunicado da al-Qaeda sobre Obama, o número dois de bin-Laden, Ayman al-Zawahiri, chama o presidente eleito dos EUA de ‘negro de casa’. É uma citação de Malcom X, o líder negro radical dos EUA nos anos 60, que separava os seus entre ‘negros de casa’, dóceis perante o senhor branco, e ‘negros da plantação’, aqueles que se rebelavam contra a escravidão.

Ao menos, esta é a tradução que a própria al-Qaeda forneceu para o termo árabe utilizado por al-Zawahiri. Segundo a revista Foreign Policy, a tradução correta seria ‘house slave’, ‘escravo da Casa Grande’; mucamo.

O Reino Unido contra o Terrorismo,
os Comuns, os Lordes e John le Carré

24/September/2008 - 01h54 - 68 Comentarios

No dia 13 de outubro, a Câmara dos Lordes britânica analisará a lei aprovada pela Câmara dos Comuns que permite ao governo prender sem provas ou acusação formal suspeitos de terrorismo por 42 dias. Os Lordes não são como senadores – sua Câmara tem poderes muito limitados. Por outro lado, também já não são os velhos nobres que herdavam o cargo de seus ainda mais velhos pais. São indicados. E, neste caso, têm o direito de vetar a lei.

Ela é polêmica. Nos EUA, várias leis e regulamentos que vieram com o Onze de Setembro também são acusadas de ferir as liberdades básicas da população. Mas, no Reino Unido, enquanto a Câmara dos Comuns considera esta lei em particular essencial, a oposição entre os jornais e a população cresce. Alguns, não muitos, começam a levantar o tom da voz. O escritor de romances de espionagem John le Carré é um caso:

Tenho raiva. Raiva de que não haja raiva a meu redor por causa do que estão fazendo com nossa sociedade com o pretexto de protegê-la. Fomos levados à guerra por motivos falsos e nos tiraram nossas liberdades civis numa atmosfera de pânico. Mas nossos advogados não vão às ruas como eles fizeram no Paquistão.

Nossos deputados se permitiram enganar pelos seus próprios marqueteiros. Eles acreditam em sua própria propaganda. Nosso secretário de política externa vem às pressas de uma missão ao Oriente Médio só para votar nesta lei que dá 42 dias de detenção. Aí as pessoas me chamam de velho raivoso. Danem-se. Não é preciso ser velho para ter raiva disso. Estamos sacrificando nossa soberania por uma dita ‘relação especial’ que, de especial, não tem nada além do nome que nós damos.

A relação especial à que ele se refere é a de seu país com os EUA.

Ataque contra Embaixada dos EUA

17/September/2008 - 12h05 - 12 Comentarios

No Iêmen, agora pela manhã. Segundo a agência de notícias oficial do país, morreram 16 pessoas: seis soldados iemenitas, seis terrotistas e quatro civis.

Acaso alguém tenha esquecido

11/September/2008 - 13h46 - 173 Comentarios

Hoje é Onze de Setembro.

O triste fim de Pervez Musharraf

18/August/2008 - 07h25 - 29 Comentarios

O presidente paquistanês Pervez Musharraf renunciou ao poder. O processo de impeachment já estava adiantado no parlamento e a única maneira de impedir sua continuidade era com a renúncia. São nove anos de ditadura, desde que derrubou Nawaz Sharif – seu atual algoz –, em 1999.

Instável no poder, sustentado por uma aliança entre as Forças Armadas leais a ele (era general) e a traíra IIS, grupo de inteligência do país, Musharraf foi salvo pelo Onze de Setembro. Parcialmente apoiada pela CIA, a IIS havia estruturado e dado todo o apoio ao grupo Talibã, que tomou o poder no vizinho nordeste, Afeganistão. Perante os ataques a Nova York e Washington, Musharraf não hesitou em bandear-se para o lado norte-americano, ganhando a confiança pessoal de George W. Bush e apoio dos EUA.

Muito da presidência Bush se deu na base desta ‘confiança pessoal’. Outros a gozarem dela fora Vladimir Putin, da Rússia, e Tony Blair, do Reino Unido. Blair mostrou-se merecedor até o fim. Putin e Musharraf são a mostra de que Bush talvez não fosse tão hábil assim em suas avaliações. Musharraf fez um jogo duplo durante todo o período, enquanto, mesmo após a queda do Talibã, seu serviço secreto dava apoio à seita-guerrilheira no Afeganistão e até mesmo dentro de casa.

Esta aliança mostrou-se um erro estratégico terrível para Washington. Muito da decisão de atacar o Iraque baseava-se na premissa de que o Paquistão daria apoio no combate ao Talibã enquanto os EUA estivessem distraídos. O que ocorreu na prática é que o Talibã e a al-Qaeda conseguiram sustentação para renascerem. Nem incompetência explica as falhas de Musharraf. Ele passou a perna nos EUA.

Os dois partidos noutros tempos rivais, de Nawaz Sharif e da ex-primeiro-ministro assassinada Benazir Bhutto se aliaram para retomar o poder nas primeiras eleições livres e, agora, no impeachment de Musharraf. É o tipo do ditador que vai tarde. Agora, o novo governo terá a missão de combater o Talibã. Não será fácil. O grupo inspira o tipo de religiosidade extrema e ordem que gera laços de fidelidade na região de fronteira. Para livrar-se deles, será preciso se imiscuir na complexa política tribal patane. Não é impossível. A IIS, afinal, já fez isso antes.

Ameaça do terror olímpico

07/August/2008 - 11h25 - 23 Comentarios

Dois norte-americanos e dois britânicos conseguiram pendurar, ontem, uma faixa entre postes de iluminação pedindo a liberdade do Tibete próximo do Estádio Olímpico, em Beijing.

Também ontem, três norte-americanos, ativistas cristãos, fizeram um protesto contra as políticas do governo chinês para com os direitos humanos na Praça da Paz Celestial (Tiananmen).

O fato de que não consegue controlar os ativistas que desejaria calar é problema da China e apenas dela. Mas por onde se infiltram ativistas com faixas também escorrem terroristas com bombas. A China é um país grande com extensas fronteiras. E as Olimpíadas têm um histórico próprio com o terrorismo.

A relação das Farc com o governo Lula

01/August/2008 - 09h43 - 132 Comentarios

Há uma turma da direita ouriçada que só com a reportagem de capa da revista colombiana Cambio: O dossiê brasileiro. Logo nos parágrafos iniciais da reportagem, Cambio promete ao leitor uma série de mensagens entre homens das Farc que ‘comprometem cidadãos e funcionários do governo brasileiro’. Na lista estão inclusos ministros de Estado e tudo.

A existência destas mensagens já havia sido divulgada por Lourival Sant’Anna no Estadão de domingo. O que a revista traz de novo é o conteúdo dos emails.

A Cambio ainda alerta o distinto leitor para o fato de que Alvaro Uribe, o presidente colombiano, tratou tudo com muita discrição, forneceu as informação ao presidente Lula num encontro reservado e fez de tudo para que nada viesse a público. Mas há, infelizmente, um descompasso entre o que a Cambio promete e aquilo que de fato entrega.

As mensagens trocadas pela internet entre 1999 e início de 2008 envolvem o líder das Farc, Manuel Marulanda, seu chefe militar, Mono Jojoy, o ‘embaixador’ da narcoguerrilha no Brasil, ex-padre Oliverio Medina, e outros dois homens.

Nenhuma das mensagens indica troca de correspondência entre membros do governo brasileiro e as Farc. O que está nas mensagens é um leva e traz de promessas que permitem concluir muito pouco. ‘É possível que me visite um assessor especial de Lula’, diz uma hora. Noutra, ‘Gilberto Carvalho nos ajudou bastante’. Qual a natureza da ajuda? Ninguém conta. Aqui vem a promessa de que um vereador do PT facilitará o encontro com Celso Amorim. Mas o encontro não acontece. Outro promete contato com Marco Aurélio Garcia – mas o contato não se estabelece.

Talvez a mensagem mais delicada seja esta, de 4 de junho de 2005: Me apareceu um jovem de uns 30 anos que se apresentou como Breno Altman (dirigente do PT), me disse que vinha da parte do ministro da presidência José Dirceu, que por motivos de segurança eles decidiram que nossas relações não passariam pela Secretaria de Relações Internacionais e sim diretamente com o ministro por intermédio de Breno.

Em 16 de junho de 2005, José Dirceu deixou o Palácio do Planalto para nunca mais voltar. Foi abatido em pleno vôo pelo escândalo do mensalão, que estourou com a entrevista de Roberto Jefferson a Renata LoPrete, publicada na Folha de S. Paulo em 5 de junho. Se de fato Dirceu prometeu algum tipo de ajuda, não teve como fazer nada. Os editores da Cambio não sabem que houve o Mensalão: tratam Dirceu como se ainda fosse ministro.

De qualquer forma, Breno Altman, que é jornalista e jamais esteve no governo ou no PT, é mesmo simpático à extrema esquerda. À BBC, ele confirmou que fez uma entrevista com gente das Farc mas negou que jamais tenha negociado em nome do governo. É de todo improvável que um sujeito astuto como Dirceu recorreria a alguém que não tem laços de fidelidade por meio de afiliação partidária ou posição no governo para este intermédio. Mas ninguém precisa acreditar nele. A questão é lógica. Dirceu era um parceiro inútil naquele momento de turbilhão.

O ‘dossiê brasileiro’ da Cambio não se sustenta em pé. Os jornalistas da revista acham que José Dirceu continua ministro e não entendem bem quem é do PT, quem é do governo, quem está no alto escalão e quem não está. Os editores se embaralham todos, coitados. Mas no fim levantam perguntas importantes. As Farc se empenharam em fazer contato com o governo do Brasil. Houve algum tipo de resposta? Se houve, qual foi?

Levantar perguntas não quer dizer apresentar respostas. Na mesma mensagem em que um alegre celebra o possível contato com Dirceu, aparece a informação de que o governo brasileiro garantia tranqüilidade para o padre Medina. Se prometeu, não cumpriu. Pouco mais de um mês depois, em agosto de 2005, Medina foi preso pela Polícia Federal para ser solto apenas em julho de 2006, por decisão do Comitê Nacional de Refugiados.

O Comitê é ligado ao Ministério da Justiça. Demorou um ano para conceder ao padre das Farc a condição de refugiado político. Se valeu, ali, alguma simpatia da esquerda no órgão? É possível que sim. Mas permaneceu preso por um ano e quase foi extraditado. Não parece o tratamento que se dá a um parceiro considerado estratégico. Se houver indícios de que, após ser considerado refugiado político, Medina continuou a manter contato com as Farc, isso é crime e ele deve perder o status de refugiado e ser imediatamente extraditado.

No fim das contas, a questão é simples. Há simpatia, sim, pelas Farc, em vários setores do PT. É uma simpatia arraigada de uma gente que ainda vive nos anos 60 e 70 e perdeu a noção de como funciona o mundo. Este tipo de simpatia no terceiro escalão se traduziu em algum tipo de benesse por parte do governo federal? A Cambio não informa nada do tipo. Quando insinua, é desmentida pelos fatos. O governo do Brasil se intrometeu na política interna colombiana? Não há esta informação. E ao que tudo indica, não. Sem provas de fato não dá para levar a acusação a sério.

Além do mais, gente presa nos anos 60 e 70, doida atrás de comunista, também existe na direita.

Mas é certo que o governo brasileiro tenha tido algum contato com as Farc. É sua obrigação. É preciso ter canais abertos para conversa. Isso não é indício de simpatia ou antipatia. Atuação diplomática pode ser necessária para intermediar conversas entre o grupo e o governo vizinho. E as atividades da narcoguerrilha por vezes ultrapassam as fronteiras brasileiras. Certamente conversaram no governo Lula, como também conversaram no governo FH. Canais de diálogo existem, sempre, até entre os inimigos mais acirrados. Irã e EUA, por exemplo.

Atualização – Nos comentários, o leitor Nicolau reclama que não menciono um dos emails, no qual está a notícia de que ‘la Mona’, que está sendo identificada como mulher de Medina, conseguiu emprego no governo:

‘La Mona’ começou em seu emprego novo e para tranqüilizá-la e impedir que a direita a perturbe em algum momento, levaram-na para a Secretaria de Pesca, onde desempenha um cargo de confiança ligado à Presidência da República.

Cargo de confiança ‘ligados à Presidência’, na esplanada dos ministérios, tem às pencas. Aliás, no governo Lula seu número aumentou. Nomeação por compadrio, amizade ou relações escusas também não faltam, nem nesse governo, nem em qualquer um dos anteriores. Gente simpática às Farc, no PT, também existe. Pois bem, toda a negociação de cúpula entre as Farc e o governo brasileiro se resume a isso? A um carguinho na Secretaria de Pesca enquanto o marido da senhora está encarcerado? Denúncia assim dá uma boa materinha na página 7 em qualquer jornal.

Atualização 2 – Alertado pelo Fabio, nos comentários, alterei o texto. Eu havia me atrapalhado com as datas do Mensalão.

Atualização 3 – Não vai aqui nenhuma teimosia. Há gente incompetente no governo e há militantes que se exacerbam. Não discuto com fatos. Se o governo do Brasil auxiliou as Farc de alguma forma, é grave. Mas, por enquanto, não saiu absolutamente nada que sustente esta acusação. A única descoberta não é novidade: no PT há gente com simpatia pela narcoguerrilha.

Mandela aos 90

02/July/2008 - 15h53 - 27 Comentarios

Perguntar não ofende: se Nelson Mandela ainda estava na lista oficial de terroristas reconhecidos pelos EUA, quão confiável será essa lista?

O Irã, os EUA e a mesa de negociação

21/May/2008 - 06h49 - 182 Comentarios

O Iraque é um caos. O Afeganistão é outro caos. Quantos países caóticos mais serão necessários para que essa gente que defende a guerra e a bomba percebam que a tática piora uma situação já ruim?

Há uma divisão na política norte-americana a respeito de como tratar o Irã. John McCain defende a atual doutrina de que qualquer conversa é impossível; Barack Obama se mostra disposto a sentar ele mesmo, caso seja eleito presidente, para conversar com o líder do pais. George W. Bush, no Knesset israelense, sacou do bolso uma analogia histórica: conversar é cometer o erro de Chamberlain com Hitler.

O assunto já rendeu três posts cá no Weblog. É bem capaz de que este seja o último. Analogias históricas são úteis mas jamais perfeitas. O primeiro post tinha o objetivo de mostrar que o erro de Chamberlain não foi conversar com Hitler; foi entregar meia Tchecoslováquia aos nazistas. Ninguém está sugerindo que um país seja entregue ao Irã. O segundo post, lembrando a Quase Guerra entre França e EUA no final do século 18, queria mostrar só uma coisa: às vezes, mesmo sob pressão popular, mesmo que lhe custe a carreira política, evitar uma guerra ao máximo pode ser mostra de um grande líder. John Adams o foi. O terceiro, citando a China de princípios da década de 1970, sugere que mesmo quando um determinado país renegado está armando seu inimigo numa guerra, o presidente dos EUA talvez deva sentar-se com o chefe de Estado contrário.

O objetivo dos três era desarmar os argumentos simplistas. Quem evita a guerra numa situação de provocação não é necessariamente mau líder. E chefes de Estado podem se encontrar, sim, mesmo que um esteja financiando o inimigo do outro. Não é entreguismo. O encontro de Mao com Nixon abriu as portas para que a China ocupasse o espaço de legitimidade na comunidade internacional de hoje.

Mas é hora de abandonar as metáforas para ir direto ao assunto: faz sentido iniciar um trabalho de negociação com o Irã que possa, no fim do processo, envolver até mesmo uma visita do presidente dos EUA a Teerã?

Com Mahmoud Ahmadinejad, provavelmente não. Seu discurso é rábico, faz pose de bom moço para a comunidade islâmica mas jura a aniquilação de Israel e flerta abertamente com o anti-semitismo ao negar o Holocausto. Mas três informações são úteis, aqui:

1. Há eleição para presidente do Irã no meio de 2009.

2. A inflação do país chegou a 24% ao mês e cresce, um quarto dos jovens estão desempregados, 15 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Ahmadinejad não anda nada popular por conta. Até entre o clero vem ganhando inimigos, caso do ex-primeiro-ministro aiatolá Mohammad Reza Mahdavikani, que sugeriu que o presidente se preocupa mais com religião, que não é de sua competência, do que com a economia – que é sua responsabilidade.

3. E, no fim, pouco importa. Não é Ahmadinejad quem manda de fato no Irã. É o aiatolá Ali Khamenei.

O post é um bocado longo – então, aqui, vai uma interrupção. No clique abaixo, o resto.

Read the rest of this entry »