Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Terror'

O Reino Unido contra o Terrorismo,
os Comuns, os Lordes e John le Carré

24/September/2008 · 68 Comentários

No dia 13 de outubro, a Câmara dos Lordes britânica analisará a lei aprovada pela Câmara dos Comuns que permite ao governo prender sem provas ou acusação formal suspeitos de terrorismo por 42 dias. Os Lordes não são como senadores – sua Câmara tem poderes muito limitados. Por outro lado, também já não são os velhos nobres que herdavam o cargo de seus ainda mais velhos pais. São indicados. E, neste caso, têm o direito de vetar a lei.

Ela é polêmica. Nos EUA, várias leis e regulamentos que vieram com o Onze de Setembro também são acusadas de ferir as liberdades básicas da população. Mas, no Reino Unido, enquanto a Câmara dos Comuns considera esta lei em particular essencial, a oposição entre os jornais e a população cresce. Alguns, não muitos, começam a levantar o tom da voz. O escritor de romances de espionagem John le Carré é um caso:

Tenho raiva. Raiva de que não haja raiva a meu redor por causa do que estão fazendo com nossa sociedade com o pretexto de protegê-la. Fomos levados à guerra por motivos falsos e nos tiraram nossas liberdades civis numa atmosfera de pânico. Mas nossos advogados não vão às ruas como eles fizeram no Paquistão.

Nossos deputados se permitiram enganar pelos seus próprios marqueteiros. Eles acreditam em sua própria propaganda. Nosso secretário de política externa vem às pressas de uma missão ao Oriente Médio só para votar nesta lei que dá 42 dias de detenção. Aí as pessoas me chamam de velho raivoso. Danem-se. Não é preciso ser velho para ter raiva disso. Estamos sacrificando nossa soberania por uma dita ‘relação especial’ que, de especial, não tem nada além do nome que nós damos.

A relação especial à que ele se refere é a de seu país com os EUA.

Tags: Europa · Islã · Livros · Terror

Ataque contra Embaixada dos EUA

17/September/2008 · 12 Comentários

No Iêmen, agora pela manhã. Segundo a agência de notícias oficial do país, morreram 16 pessoas: seis soldados iemenitas, seis terrotistas e quatro civis.

Tags: EUA · Terror

Acaso alguém tenha esquecido

11/September/2008 · 173 Comentários

Hoje é Onze de Setembro.

Tags: EUA · Iraque · Islã · Oriente Médio · Terror · Ásia Central

O triste fim de Pervez Musharraf

18/August/2008 · 29 Comentários

O presidente paquistanês Pervez Musharraf renunciou ao poder. O processo de impeachment já estava adiantado no parlamento e a única maneira de impedir sua continuidade era com a renúncia. São nove anos de ditadura, desde que derrubou Nawaz Sharif – seu atual algoz –, em 1999.

Instável no poder, sustentado por uma aliança entre as Forças Armadas leais a ele (era general) e a traíra IIS, grupo de inteligência do país, Musharraf foi salvo pelo Onze de Setembro. Parcialmente apoiada pela CIA, a IIS havia estruturado e dado todo o apoio ao grupo Talibã, que tomou o poder no vizinho nordeste, Afeganistão. Perante os ataques a Nova York e Washington, Musharraf não hesitou em bandear-se para o lado norte-americano, ganhando a confiança pessoal de George W. Bush e apoio dos EUA.

Muito da presidência Bush se deu na base desta ‘confiança pessoal’. Outros a gozarem dela fora Vladimir Putin, da Rússia, e Tony Blair, do Reino Unido. Blair mostrou-se merecedor até o fim. Putin e Musharraf são a mostra de que Bush talvez não fosse tão hábil assim em suas avaliações. Musharraf fez um jogo duplo durante todo o período, enquanto, mesmo após a queda do Talibã, seu serviço secreto dava apoio à seita-guerrilheira no Afeganistão e até mesmo dentro de casa.

Esta aliança mostrou-se um erro estratégico terrível para Washington. Muito da decisão de atacar o Iraque baseava-se na premissa de que o Paquistão daria apoio no combate ao Talibã enquanto os EUA estivessem distraídos. O que ocorreu na prática é que o Talibã e a al-Qaeda conseguiram sustentação para renascerem. Nem incompetência explica as falhas de Musharraf. Ele passou a perna nos EUA.

Os dois partidos noutros tempos rivais, de Nawaz Sharif e da ex-primeiro-ministro assassinada Benazir Bhutto se aliaram para retomar o poder nas primeiras eleições livres e, agora, no impeachment de Musharraf. É o tipo do ditador que vai tarde. Agora, o novo governo terá a missão de combater o Talibã. Não será fácil. O grupo inspira o tipo de religiosidade extrema e ordem que gera laços de fidelidade na região de fronteira. Para livrar-se deles, será preciso se imiscuir na complexa política tribal patane. Não é impossível. A IIS, afinal, já fez isso antes.

Tags: EUA · Islã · Terror · Ásia Central

Ameaça do terror olímpico

7/August/2008 · 23 Comentários

Dois norte-americanos e dois britânicos conseguiram pendurar, ontem, uma faixa entre postes de iluminação pedindo a liberdade do Tibete próximo do Estádio Olímpico, em Beijing.

Também ontem, três norte-americanos, ativistas cristãos, fizeram um protesto contra as políticas do governo chinês para com os direitos humanos na Praça da Paz Celestial (Tiananmen).

O fato de que não consegue controlar os ativistas que desejaria calar é problema da China e apenas dela. Mas por onde se infiltram ativistas com faixas também escorrem terroristas com bombas. A China é um país grande com extensas fronteiras. E as Olimpíadas têm um histórico próprio com o terrorismo.

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A relação das Farc com o governo Lula

1/August/2008 · 132 Comentários

Há uma turma da direita ouriçada que só com a reportagem de capa da revista colombiana Cambio: O dossiê brasileiro. Logo nos parágrafos iniciais da reportagem, Cambio promete ao leitor uma série de mensagens entre homens das Farc que ‘comprometem cidadãos e funcionários do governo brasileiro’. Na lista estão inclusos ministros de Estado e tudo.

A existência destas mensagens já havia sido divulgada por Lourival Sant’Anna no Estadão de domingo. O que a revista traz de novo é o conteúdo dos emails.

A Cambio ainda alerta o distinto leitor para o fato de que Alvaro Uribe, o presidente colombiano, tratou tudo com muita discrição, forneceu as informação ao presidente Lula num encontro reservado e fez de tudo para que nada viesse a público. Mas há, infelizmente, um descompasso entre o que a Cambio promete e aquilo que de fato entrega.

As mensagens trocadas pela internet entre 1999 e início de 2008 envolvem o líder das Farc, Manuel Marulanda, seu chefe militar, Mono Jojoy, o ‘embaixador’ da narcoguerrilha no Brasil, ex-padre Oliverio Medina, e outros dois homens.

Nenhuma das mensagens indica troca de correspondência entre membros do governo brasileiro e as Farc. O que está nas mensagens é um leva e traz de promessas que permitem concluir muito pouco. ‘É possível que me visite um assessor especial de Lula’, diz uma hora. Noutra, ‘Gilberto Carvalho nos ajudou bastante’. Qual a natureza da ajuda? Ninguém conta. Aqui vem a promessa de que um vereador do PT facilitará o encontro com Celso Amorim. Mas o encontro não acontece. Outro promete contato com Marco Aurélio Garcia – mas o contato não se estabelece.

Talvez a mensagem mais delicada seja esta, de 4 de junho de 2005: Me apareceu um jovem de uns 30 anos que se apresentou como Breno Altman (dirigente do PT), me disse que vinha da parte do ministro da presidência José Dirceu, que por motivos de segurança eles decidiram que nossas relações não passariam pela Secretaria de Relações Internacionais e sim diretamente com o ministro por intermédio de Breno.

Em 16 de junho de 2005, José Dirceu deixou o Palácio do Planalto para nunca mais voltar. Foi abatido em pleno vôo pelo escândalo do mensalão, que estourou com a entrevista de Roberto Jefferson a Renata LoPrete, publicada na Folha de S. Paulo em 5 de junho. Se de fato Dirceu prometeu algum tipo de ajuda, não teve como fazer nada. Os editores da Cambio não sabem que houve o Mensalão: tratam Dirceu como se ainda fosse ministro.

De qualquer forma, Breno Altman, que é jornalista e jamais esteve no governo ou no PT, é mesmo simpático à extrema esquerda. À BBC, ele confirmou que fez uma entrevista com gente das Farc mas negou que jamais tenha negociado em nome do governo. É de todo improvável que um sujeito astuto como Dirceu recorreria a alguém que não tem laços de fidelidade por meio de afiliação partidária ou posição no governo para este intermédio. Mas ninguém precisa acreditar nele. A questão é lógica. Dirceu era um parceiro inútil naquele momento de turbilhão.

O ‘dossiê brasileiro’ da Cambio não se sustenta em pé. Os jornalistas da revista acham que José Dirceu continua ministro e não entendem bem quem é do PT, quem é do governo, quem está no alto escalão e quem não está. Os editores se embaralham todos, coitados. Mas no fim levantam perguntas importantes. As Farc se empenharam em fazer contato com o governo do Brasil. Houve algum tipo de resposta? Se houve, qual foi?

Levantar perguntas não quer dizer apresentar respostas. Na mesma mensagem em que um alegre celebra o possível contato com Dirceu, aparece a informação de que o governo brasileiro garantia tranqüilidade para o padre Medina. Se prometeu, não cumpriu. Pouco mais de um mês depois, em agosto de 2005, Medina foi preso pela Polícia Federal para ser solto apenas em julho de 2006, por decisão do Comitê Nacional de Refugiados.

O Comitê é ligado ao Ministério da Justiça. Demorou um ano para conceder ao padre das Farc a condição de refugiado político. Se valeu, ali, alguma simpatia da esquerda no órgão? É possível que sim. Mas permaneceu preso por um ano e quase foi extraditado. Não parece o tratamento que se dá a um parceiro considerado estratégico. Se houver indícios de que, após ser considerado refugiado político, Medina continuou a manter contato com as Farc, isso é crime e ele deve perder o status de refugiado e ser imediatamente extraditado.

No fim das contas, a questão é simples. Há simpatia, sim, pelas Farc, em vários setores do PT. É uma simpatia arraigada de uma gente que ainda vive nos anos 60 e 70 e perdeu a noção de como funciona o mundo. Este tipo de simpatia no terceiro escalão se traduziu em algum tipo de benesse por parte do governo federal? A Cambio não informa nada do tipo. Quando insinua, é desmentida pelos fatos. O governo do Brasil se intrometeu na política interna colombiana? Não há esta informação. E ao que tudo indica, não. Sem provas de fato não dá para levar a acusação a sério.

Além do mais, gente presa nos anos 60 e 70, doida atrás de comunista, também existe na direita.

Mas é certo que o governo brasileiro tenha tido algum contato com as Farc. É sua obrigação. É preciso ter canais abertos para conversa. Isso não é indício de simpatia ou antipatia. Atuação diplomática pode ser necessária para intermediar conversas entre o grupo e o governo vizinho. E as atividades da narcoguerrilha por vezes ultrapassam as fronteiras brasileiras. Certamente conversaram no governo Lula, como também conversaram no governo FH. Canais de diálogo existem, sempre, até entre os inimigos mais acirrados. Irã e EUA, por exemplo.

Atualização – Nos comentários, o leitor Nicolau reclama que não menciono um dos emails, no qual está a notícia de que ‘la Mona’, que está sendo identificada como mulher de Medina, conseguiu emprego no governo:

‘La Mona’ começou em seu emprego novo e para tranqüilizá-la e impedir que a direita a perturbe em algum momento, levaram-na para a Secretaria de Pesca, onde desempenha um cargo de confiança ligado à Presidência da República.

Cargo de confiança ‘ligados à Presidência’, na esplanada dos ministérios, tem às pencas. Aliás, no governo Lula seu número aumentou. Nomeação por compadrio, amizade ou relações escusas também não faltam, nem nesse governo, nem em qualquer um dos anteriores. Gente simpática às Farc, no PT, também existe. Pois bem, toda a negociação de cúpula entre as Farc e o governo brasileiro se resume a isso? A um carguinho na Secretaria de Pesca enquanto o marido da senhora está encarcerado? Denúncia assim dá uma boa materinha na página 7 em qualquer jornal.

Atualização 2 – Alertado pelo Fabio, nos comentários, alterei o texto. Eu havia me atrapalhado com as datas do Mensalão.

Atualização 3 – Não vai aqui nenhuma teimosia. Há gente incompetente no governo e há militantes que se exacerbam. Não discuto com fatos. Se o governo do Brasil auxiliou as Farc de alguma forma, é grave. Mas, por enquanto, não saiu absolutamente nada que sustente esta acusação. A única descoberta não é novidade: no PT há gente com simpatia pela narcoguerrilha.

Tags: América Latina · Brasil · Terror

Mandela aos 90

2/July/2008 · 27 Comentários

Perguntar não ofende: se Nelson Mandela ainda estava na lista oficial de terroristas reconhecidos pelos EUA, quão confiável será essa lista?

Tags: EUA · Terror

O Irã, os EUA e a mesa de negociação

21/May/2008 · 182 Comentários

O Iraque é um caos. O Afeganistão é outro caos. Quantos países caóticos mais serão necessários para que essa gente que defende a guerra e a bomba percebam que a tática piora uma situação já ruim?

Há uma divisão na política norte-americana a respeito de como tratar o Irã. John McCain defende a atual doutrina de que qualquer conversa é impossível; Barack Obama se mostra disposto a sentar ele mesmo, caso seja eleito presidente, para conversar com o líder do pais. George W. Bush, no Knesset israelense, sacou do bolso uma analogia histórica: conversar é cometer o erro de Chamberlain com Hitler.

O assunto já rendeu três posts cá no Weblog. É bem capaz de que este seja o último. Analogias históricas são úteis mas jamais perfeitas. O primeiro post tinha o objetivo de mostrar que o erro de Chamberlain não foi conversar com Hitler; foi entregar meia Tchecoslováquia aos nazistas. Ninguém está sugerindo que um país seja entregue ao Irã. O segundo post, lembrando a Quase Guerra entre França e EUA no final do século 18, queria mostrar só uma coisa: às vezes, mesmo sob pressão popular, mesmo que lhe custe a carreira política, evitar uma guerra ao máximo pode ser mostra de um grande líder. John Adams o foi. O terceiro, citando a China de princípios da década de 1970, sugere que mesmo quando um determinado país renegado está armando seu inimigo numa guerra, o presidente dos EUA talvez deva sentar-se com o chefe de Estado contrário.

O objetivo dos três era desarmar os argumentos simplistas. Quem evita a guerra numa situação de provocação não é necessariamente mau líder. E chefes de Estado podem se encontrar, sim, mesmo que um esteja financiando o inimigo do outro. Não é entreguismo. O encontro de Mao com Nixon abriu as portas para que a China ocupasse o espaço de legitimidade na comunidade internacional de hoje.

Mas é hora de abandonar as metáforas para ir direto ao assunto: faz sentido iniciar um trabalho de negociação com o Irã que possa, no fim do processo, envolver até mesmo uma visita do presidente dos EUA a Teerã?

Com Mahmoud Ahmadinejad, provavelmente não. Seu discurso é rábico, faz pose de bom moço para a comunidade islâmica mas jura a aniquilação de Israel e flerta abertamente com o anti-semitismo ao negar o Holocausto. Mas três informações são úteis, aqui:

1. Há eleição para presidente do Irã no meio de 2009.

2. A inflação do país chegou a 24% ao mês e cresce, um quarto dos jovens estão desempregados, 15 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Ahmadinejad não anda nada popular por conta. Até entre o clero vem ganhando inimigos, caso do ex-primeiro-ministro aiatolá Mohammad Reza Mahdavikani, que sugeriu que o presidente se preocupa mais com religião, que não é de sua competência, do que com a economia – que é sua responsabilidade.

3. E, no fim, pouco importa. Não é Ahmadinejad quem manda de fato no Irã. É o aiatolá Ali Khamenei.

O post é um bocado longo – então, aqui, vai uma interrupção. No clique abaixo, o resto.

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Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina · Terror

Políticos, povo e a globalização ameaçada

18/April/2008 · 62 Comentários

Para Gideon Rachman, editor de Internacional do Financial Times, a globalização está ameaçada. Hoje, ele sugere, as elites políticas em todo o mundo estão convencidas de que a abertura global de mercados é o caminho a seguir. Os principais protestos ficaram para trás, nos anos 90 e princípios do século.

Mas há novas ameaças. Não importa em que lado da discussão estamos – se no de quem é contra ou no de quem é a favor da globalização –, sua leitura é interessante:

A ameaça mais óbvia é uma crise na relação política e econômica mais importante do mundo – aquela entre EUA e China. O governo Bush, apesar de sua reputação belicosa, teve sempre o cuidado de evitar confrontos com a China; da mesma forma, os chineses não demonstram qualquer interesse em choque com os EUA – ao menos, não por enquanto. A globalização criou uma teia de interesses mútuos. O maior risco para as relações sino-americanas é o de um erro de cálculo: um choque – sobre comércio ou Tibete ou Taiwan – que ganha tamanho e provoca estrago real. Combine uma recessão norte-americana, uma eleição presidencial e as Olimpíadas de Beijing e lá está uma fórmula para problemas futuros.

No longo prazo, terrorismo e mudanças climáticas também ameaçam o sistema. A globalização depende da facilidade de acesso a qualquer lugar. De formas diferentes, o aquecimento global e o terrorismo global dificultam nossa habilidade de pular num avião a qualquer momento para ir para um outro canto do mundo.

O maior de todos os riscos, no entanto, é o de que políticos comecem a perder a discussão em prol da globalização. Uma pesquisa de opinião recente mostrou que 58% dos norte-americanos acham que a globalização é ruim para os EUA e que apenas 28% acham que ela foi boa. Há dez anos, a globalização ganhava por uma fina margem. Os políticos já está reagindo à mudança. Os democratas argumentam com ceticismo a respeito do livre comércio entre nações. Os republicanos atacam a imigração.

Na Europa, Nicolas Sarkozy, o presidente francês, vem cobrando mais protecionismo para a comunidade européia. Ele quer restabelecer uma ‘preferência comunitária’ – ou seja, tarifas maiores para bens que venham de fora da União Européia. Sarkozy, por enquanto, não tem muitos aliados. Mas a eleição de Berlusconi, na Itália, pode mudar isso.

Quem está de fora considera os indianos e os chineses os maiores beneficiários da globalização. Mas o último governo indiano perdeu a eleição porque os moradores pobres do campo se sentiam excluídos do crescimento. Como há outra eleição se aproximando, nenhum político indiano tem pressa de assinar novos acordos de comércio. É mais difícil avaliar o clima político em países de um só partido, como a China. Mas é evidente a tensão do governo com o desemprego rural, protestos de ambientalistas e a crescente diferença entre o litoral rico e o interior pobre. O capitalismo global parece ser difícil de ser vendido até na China.

A impressão de que os mais pobres perderam com a globalização aumenta conforme aumentam os preços de alimento. A fome – a mais tradicional ameaça a quem está no poder – está de volta a muitos países que abraçaram a globalização.

Líderes políticos em todo o mundo estão se esforçando para agüentar a pressão e manter o consenso que tornou possível a globalização. Mas este é um esforço cada vez maior. A globalização foi possível porque houve mudança na mentalidade de políticos. Aquilo que a política faz, no entanto, a política também pode desfazer.

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George W. Bush e a suspensão
momentânea da democracia

1/April/2008 · 123 Comentários

Em fevereiro, o governo norte-americano levou à Justiça acusações formais contra Khalid Sheikh Mohammed e mais cinco homens presos na Base de Guantánamo. Todos fazem parte da cúpula da al-Qaeda e estão diretamente relacionados com o planejamento e a execução dos ataques de Onze de Setembro, alega Washington. Um tribunal irá decidir.

Enquanto isso, o Reino Unido já julgou e sentenciou quatro homens ligados a um ataque frustrado ao metrô de Londres em julho de 2005. Outros três homens que, no mesmo mês, concretizaram outro ataque ao metrô estarão agora em março perante um juiz. Demorou apenas porque foram presos no fim do ano passado. Dos 28 indiciados como participantes dos ataques aos trens espanhóis em março de 2004, 21 foram já condenados. A Indonésia já julgou e condenou os quatro homens presos pelos ataques a Bali, em outubro de 2002.

Até a Justiça da Indonésia parece mais eficiente do que a norte-americana – neste caso.

A questão é importante porque uma Justiça eficiente e rápida é um dos pilares básicos da democracia. A partir do momento em que alguém é preso, uma acusação formal deve ser produzida pelo Estado e um julgamento posto em marcha. É verdade que os Estado precisa de tempo para uma investigação que possa levantar provas. Mas é justamente aí que entra a eficiência da Justiça: a capacidade de investigar rápido e levar provas ao tribunal. Quando alguém é preso indefinidamente e o Estado leva todo o tempo que deseja para angariar provas, a democracia fracassou.

Na última edição da New York Review of Books, o veterano repórter e advogado Raymond Bonner lembra que não são ongs ou grupos de direitos civis que cobram esta eficiência em relação aos homens presos em Guantánamo. São os próprios advogados militares. Pelo menos um deles, o coronel Lawrence Morris, sugeriu ao governo Bush produzir julgamentos públicos no estilo Nuremberg para toda a alta-chefia da al-Qaeda. Revelaria ao mundo a extensão exata da conspiração para produzir ataques mortais.

Mas deixar claro o que a al-Qaeda fez e faz e o que nada tem a ver com ela não está, nem jamais esteve, entre as prioridades do governo Bush.

A primeira tentativa de julgar os acusados pelo Onze de Setembro foi a criação de comissões militares instituídas pelo Pentágono que ouviriam cada caso e o julgariam. Os juízes encarregados poderiam considerar como provas o que bem entendessem e descartar o que não quisessem. (Boato valeria se o juiz quisesse.) Nenhum condenado teria autorização de recorrer a uma corte superior. O governo britânico se recusou a colaborar – era patente que não havia Justiça formal ali. As comissões chegaram a iniciar seu trabalho. Foram interrompidas pela Suprema Corte dos EUA. Inconstitucional. Evidentemente.

Há duas novidades na praça. A primeira é que, pelo menos para os seis homens da cúpula da al-Qaeda presos, enfim haverá um julgamento. A segundo é que uma nova pessoa estará ocupando o Salão Oval na Ala Oeste da Casa Branca em janeiro de 2009. Aí, saberemos mais sobre como agiu, e com que métodos, o atual governo entre o ataque às Torres Gêmeas e hoje. Khalid Sheikh Mohammed, por exemplo, foi preso no Paquistão em março de 2003, transferido para algum lugar misterioso e, em setembro de 2006, levado a Guantánamo. Onde esteve durante todo esse período? Por quem foi interrogado? Com que métodos?

Bonner entrevistou Mamdouh Habib, um egípcio de cidadania australiana preso no Paquestão, em outubro de 2001. Ele contou que, no Paquistão, foi interrodado por ‘uma mulher de trinta e tantos que falava inglês com sotaque dos EUA’. Foi torturado com choques elétricos. Transferido para o Egito, apanhou de seus captores. Após uma temporada em Guantánamo, foi liberado sem que jamais alguém lhe tenha feito alguma acusação formal. Esteve preso por quatro anos.

Guantánamo é uma tragédia. Representa o momento em que o governo do país que inventou a democracia contemporânea decidiu que, em alguns casos, democracia não se aplica. Lei atrapalha. Justiça burocratiza. Ele suspendeu o Estado de direito.

George W. Bush está para sair. Durante seu governo, fez muitos discursos sobre a idéia de espalhar a democracia pelo mundo. Vai demorar muitos anos até que tenhamos total dimensão do mal que ele fez à idéia de democracia.

Tags: EUA · Terror

Paquistão após o assassinato
de Benazir Bhutto

28/December/2007 · 158 Comentários

É sempre chocante assistir à decomposição de um país. Mas, após o assassinato de Benazir Bhutto, é o que está acontecendo com o Paquistão. O momento é tenso. Uma revolta popular pode estourar. Agora, que faria sentido declarar Estado de Emergência e impor a Lei Marcial, o presidente Pervez Musharraf está desautorizado. Afinal, há coisa de dois meses, aplicou um golpe contra a Suprema Corte utilizando-se justamente desta tática.

Será que ousaria um novo Estado de Emergência? Será que sobreviveria a tal decreto? Será que o Exército se manterá fiel a ele? Será que o Serviço de Inteligência, tão ligado ao norte islâmico, ainda o respeita minimamente?

O que acontecerá não é possível prever. Eleições estão marcadas para 8 de janeiro, Bhutto era favorita. O partido mais votado do parlamento eleito fará o primeiro ministro. Num país estável, o assassinato de um dos principais candidatos a essa altura seria justificativa para suspender o pleito e realizá-lo adiante, quando o partido vitimado tivesse chances de apresentar novo candidato. Mas, se já foi um dia, o Paquistão deixou de ser um país normal, quanto mais estável. O ideal seria que eleições ocorressem. É preciso manter a mínima aparência de democracia sob o risco de que ela desapareça de vez.

Os partidários de Bhutto, ontem, acusavam Musharraf do assassinato. Mas será?

Em campanha, a ex-primeira-ministra mostrava-se particularmente agressiva contra o Talibã, o radicalismo islâmico e sua cria, a al-Qaeda, alojados ao norte. Benazir Bhutto contava com a simpatia dos EUA por conta. Não há dúvidas de que, como premiê, Bhutto forçaria o presidente Musharraf a ampliar sua ofensiva. A conversa da experiente política com o presidente afegão Hamid Karzai, o outro chefe de Estado preocupado com esta briga, faz poucos dias, é indício de qual sua prioridade no governo.

Após seu assassinato, o presidente, que acaba de abandonar a farda de general, não tem como garantir sequer sua sobrevivência política. Se o conflito entre ambos era aberto, ausência de Bhutto piora a situação. Se a lógica ainda prevalecer no país em frangalhos, parece evidente que os maiores interessados em sua morte são justamente o Talibã e a al-Qaeda.

Isto, é claro, se a lógica valer de algo.

A al-Qaeda às vezes assume seus atentados. Outras vezes, não. No Onze de Setembro, ficou em silêncio por mais de mês enquanto a comunidade internacional cobrava provas de seu envolvimento antes de autorizar um ataque dos EUA ao Afeganistão. Neste caso, a falta de autoria clara favorece o caos. O caos interessa à turma de bin-Laden.

Com Bhutto de fora, os olhos voltam-se para outro ex-premiê, também candidato, Nawaz Sharif. Mal se passara uma hora da morte de Bhutto quando ele entrou no Hospital Geral de Rawalpindi para as condolências. Dada a confusão que imperava, foi um feito. É arte política, sujeito hábil. Embora os dois ensaiassem uma aliança, Sharif não poderia ser mais diferente de Bhutto. Se ela era pró-EUA, ele não esconde seus laços com a Arábia Saudita. E se acaso sauditas e norte-americanos são oficialmente aliados, na realidade da política local a ação é diferente.

A al-Qaeda é um grupo saudita. A Arábia Saudita era um dos três países do mundo que reconheciam, no Afeganistão, o governo Talibã. A vertente de islamismo radical que impera no norte do Paquistão é profundamente semelhante à que a Arábia Saudita espalha pelo mundo. Sharif não é fundamentalista. Mas a geopolítica que o sustenta e financia é tão atada aos sauditas que um gabinete liderado por ele é marcado por uma interrogação. O que vai imperar? A Arábia Saudita interessada em regimes islâmicos como os defendidos pelos radicais? Ou a Arábia Saudita interessada em combater o terrorismo? No Paquistão, as duas opções são incompatíveis.

Enterros no Paquistão acontecem rápido. Provavelmente hoje, talvez amanhã. Se demorar mais, escaparam à tradição – coisa sempre perigosa – para evitar as multidões. A multidão é incontrolável. Se o país rachar. Se houver um golpe de Estado. Se radicais islâmicos conseguirem um atalho para o poder. O mundo respira fundo.

O Paquistão é uma potência nuclear.

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Assassinada Benazir Bhutto

27/December/2007 · 70 Comentários

No momento, uma multidão de seguidores à frente do Hospital Geral de Rawalpindi grita ‘Musharraff Cachorro’ – mas é cedo ainda para sugerir culpados.

A duas vezes premiê paquistanesa Benazir Bhutto foi assassinada em meio a um comício em Rawalpindi, cidade onde fica a sede do Exército, próxima à capital Islamabad. Um homem disparou tiros contra ela e, na seqüência, explodiu-se.

Hoje mais cedo, não longe dali, quatro assessores de Nawaz Sharif, outro ex-premiê, também candidato, foram assassinados a tiros. O partido de Sharif acusou militantes pró-governo.

As eleições parlamentares na qual Sharif concorre e Bhutto concorria acontecerá em 12 dias.

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Al-Qaeda realizará primeira entrevista coletiva

20/December/2007 · 24 Comentários

Ayman al-Zawahiri, o médico egípcio e número 2 da al-Qaeda, comunicou à imprensa mundial que dará uma entrevista coletiva via Internet. Todo ‘indivíduo, organização de mídia ou jornalista’ poderá apresentar uma pergunta ‘breve e focada’ ao líder terrorista entre os dias 16 de dezembro e 16 de janeiro.

As perguntas devem ser postadas em um de quatro sites ligados à rede de Osama bin-Laden: Al Ekhlas, Al Hasba, Al Baraq e Al Firdos.

Evidentemente, nada é tão simples e os endereços dos fóruns eletrônicos não são públicos. (Por certo há como achá-los em algumas horas de buscas cruzadas via Google.)

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Europa tem perfil do terrorista típico

27/November/2007 · 114 Comentários

O braço europeu da Interpol tem um estudo novo que traça o perfil dos terroristas islâmicos. É um bocado complexo e não facilita muito. São muçulmanos, evidentemente, descendentes de migrantes do norte da África, Oriente Médio ou Ásia Central. O previsível termina aí. Podem ser jovens ou poder ser velhos, têm formação universitária ou não. O que talvez surpreenda: não costumam parecer descolados da sociedade européia. Ao contrário: o que parece é que estão entre os que se integraram e que vivem bem.

São religiosos – o que é evidente. Mas nem todo fundamentalista vira terrorista. É uma minoria, na verdade. O fundamentalismo os leva para a Internet e, na rede, descobrem os sites jihadistas. Em algum momento, convencem-se de que há um grande mundo muçulmano que ignora fronteiras nacionais – e que parte deste mundo, caso da Espanha, deve ser recuperado por ter sido perdido. Não vêem o grande califado islâmico como algo distante no passado, convencem-se de que é um imperativo histórico.

Às vezes, através dos sites jihadistas, encontram-se com outros com idéias semelhantes. O grupo é fundamental. O grupo reforça suas convicções e lhes oferece a identidade. Sentem-se à vontade apenas no pequeno grupo de indivíduos com quem dividem tais convicções rejeitadas, inclusive, por pais, por familiares, por amigos da mesquita. Sentem que são eles mesmos apenas quando no pequeno grupo de radicais.

Mas para que este grupo transforme-se numa célula terrorista falta ainda um passo: um deles faz uma visita a um país muçulmano – pode ser o Afeganistão, o Paquistão, o Iraque; é algum lugar onde encontram-se com terroristas de fato e treinam. Ao retornar para a Itália ou Inglaterra, Espanha ou França, este indivíduo, ainda que mal treinado, será o líder que planejará alguma ataque. Só quando todos estes elementos se encaixam acontece de uma célula terrorista potencialmente perigosa formar-se.

E é assim que os sistemas de inteligência descobrem terroristas potenciais. Observam as mesquitas e vêem quem costuma andar em grupos fechados. Sonda suas fichas, busca saber se alguém viajou ao exterior e para onde foi, se informa a respeito do tipo de discurso que os indivíduos costumam fazer. Quando elementos desta formação de identidade começam a se mostrar nítidos, é a hora de apelar para escutas telefônicas. E, assim, muitos atentados foram evitados.

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O fim das negociações FARC/Chávez

26/November/2007 · 223 Comentários

Há uma guerra de vaidades em curso entre Álvaro Uribe e Hugo Chávez. No sábado, Uribe suspendeu bruscamente a intermediação de Chávez nas negociações pela soltura de reféns das FARCs. A alegação é de que o presidente da Venezuela não estava autorizado a conversar com o general Mario Montoya, chefe das Forças Armadas colombianas. Seu interlocutor no governo deveria ser Uribe e ninguém mais.

Não custa lembrar, a responsabilidade pela existência dos 45 reféns é das FARCs. De ninguém mais.

No entanto, citando o editorial de El Tiempo, da Colômbia:

A reação da Venezuela foi inicialmente cautelosa e, posteriormente, dura. Chávez declarou primeiro sua ‘aceitação’ e ‘frustração’ e logo, na madrugada de sábado, disse que se sentia ‘traído’ e que isto afetaria a relação dos dois países. O presidente francês, Nicolás Sarkozy, junto a seus familiares, pediu a Uribe que reconsiderasse, informou que enviaria uma carta formal e declarou que Chávez ‘é a melhor opção’. No entanto, apesar da indiscrição e teatralidade do mandatário vizinho, não se pode negar que em três meses sua gestão fazia com que as negociações enfim saíssem do ponto morto.

A idéia de que um contato entre Chávez e o generalato colombiano poderia despertar simpatias bolivarianas nos militares colombianos é certamente uma desculpa. Uribe estava incomodado porque perigava Chávez sair protagonista – até mesmo herói – de uma negociação destas, com os reféns a tiracolo.

É possível honestamente questionar as negociações. A partir do momento em que um chefe de Estado senta para dialogar com as FARCs, o status internacional das guerrilhas é elevado. Ganha legitimidade. Não se negocia com seqüestradores, com terroristas, com traficantes, sem efeitos colaterais.

Mas foi negociando que se lidou com o IRA e, um dia, o general israelense Itzaac Rabin apertou as mãos – carrancudamente – de Yasser Arafat. Não tem jeito: é negociando com quem tem o poder de matar e impor sofrimento que se evitam mais mortes, mais sofrimento. Ninguém disse que diplomacia era jogo limpo.

Álvaro Uribe continua com um problema nas mãos – um problema que evidentemente ele não tem condições ou mesmo competência para resolver. Talvez, como sugere o presidente francês, Hugo Chávez fosse o único interlocutor possível. Negociação é, infelizmente, a arte do possível. Se há um custo político? Evidentemente que há. O fortalecimento de Chávez, a legitimação das FARCs. É com esse objetivo mesmo que matam e seqüestram: para ampliar sua influência.

Desistir das negociações para não legitimar não é solução. E o problema continua lá, do mesmo tamanho. Há vidas em jogo. Uribe está brincando com essas vidas.

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O Paquistão quebrado em dois ou três

16/November/2007 · 18 Comentários

Repórter veterano e Prêmio Pulitzer, Steve Coll aproveita a atual edição da New Yorker para comentar o dilema paquistanês:

O país vive duas crises simultâneas. A mais visível é a entre Musharraf, judiciário e políticos civis, que não se entendem a respeito de eleições e divisão de poder – uma disputa entre líderes incapazes de chegar a um acordo que culminou, há duas semanas, na declaração do estado de emergência, seguido por um ataque do exército a ativistas de direitos humanos, jornalistas independentes e militantes políticos. Este desentendimento se sustenta, em parte, pela competição por espaço de duas forças: os militares, que formam uma instituição ampla, de classe média e evidentemente não-democrática; e o Partido do Povo, uma instituição igualmente ampla e não-democrática (jamais houve eleições internas), um tanto mais pobre. O Partido do Povo começou como um movimento socialista rural liderado pelo pai de Benazir Bhutto, que foi enforcado pelo Exército, e governou o país por três vezes; quando Bhutto tornou ao Paquistão, no mês passado, seus seguidores foram em massa a Karachi para mostrar que ainda podem governar as ruas. A luta entre o Partido e o Exército, no entanto, dificilmente provocará uma grande transformação – as prisões, as nuvens de gás lacrimejante e as bordoadas com cassetete são apenas o episódio mais recente desta história pátria de política disfuncional.

Mais preocupante é a guerra civil de baixa intensidade na fronteira oeste do país, um conflito que envolve o Exército, dominado pela etnia punjabi, contra muçulmanos na região controlada pela etnia patane, que é tribalizada, uma gente conservadora que ajudou na expulsão da União Soviética do Afeganistão e deu origem ao Talibã. O último levante pantane, que se voltou tanto contra políticos seculares paquistaneses quanto contra seus aliados ocidentais, começou já há muitos anos. O Talibã que não se rende e proselitismo por parte de uma liderança da al-Qaeda que está se reagrupando, incluindo provavelmente o próprio Osama bin Laden, estão entre as causas. Mas contribuem para a equação antipatia aos EUA, ajuda de funcionários da inteligência paquistanesa e, talvez, até mesmo gente do exército, que sempre conteve os radicais muçulmanos, além da persistente inabilidade do próprio Musharraf de conseguir criar uma coalizão entre os patanes seus aliados que poderiam conter os islâmicos.

No Paquistão, embora ruidosos, os radicais islâmicos são franca minoria. Os serviços de inteligência podem tê-los como aliados – já que terroristas ajudam na luta contra a Índia na região fronteiriça da Caxemira –, mas são minoria. O governo Musharraf se mostrou de todo incompetente para lidar com o problema e, pior, soldados do Exército já foram obrigados a se render em batalha aos guerrilheiros patanes. É humilhante.

Musharraf está fora – só ele não sabe. A dúvida é quanto tempo terá de sobrevida. O problema, agora, é encontrar um plano B.

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Uma entrevista aos sábados

10/November/2007 · 39 Comentários

Após 30 anos, não vejo um centímetro de progresso. É possível até dizer que as pessoas odeiam Israel – não apenas no Egito mas em todo o mundo árabe.

O mundo árabe está ocupado demais lutando contra os fundamentalistas e não será possível reconhecer Israel porque isto fortaleceria estes mesmos fundamentalistas. Reitero: o mundo árabe se recusa a aceitar a existência de Israel o que impede as tentativas de Israel de normalizar quaisquer relações.

Desde o primeiro dia, quando houve o discurso do [então presidente egípcio Anwar-al] Sadat no parlamento de Israel, nós dizíamos que uma paz verdadeira e completa não aconteceria enquanto Israel não devolvesse o Sinai e não deixasse os territórios de Gaza e Cisjordânia. Quando Sadat foi a Jerusalém, ele tinha o projeto de começar não apenas a negociação egípcia mas também a palestina. Só que os israelenses se recusaram a ouvir qualquer coisa a respeito desta segunda parte. Nós dizíamos: a questão palestina é o eixo de qualquer acordo de paz, é a primeira condição. Nós avisamos que não funcionaria sem isto. E eles? Eles insistiram em assinar uma paz em separado com os egípcios, eles ficaram sonhando acordados com uma relação bilateral que viria.

Minha mulher, Leah, não gosta de aparecer. Nunca tive problemas com o fato de ela ser judia até porque, aos meus olhos, apesar de sua origem, ela me parece mais católica, já que estudou mais em escolas católicas do que judaicas.

Boutros Boutros Ghali, ex-ministro das Relações Exteriores do Egito, ex-secretário geral da ONU

dica do André Fucs

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Paquistão e o quebra-cabeças que
Musharraf arrumou para si

7/November/2007 · 52 Comentários

Aquilo que todo mundo diz sobre golpes de Estado é um clichê: sabe-se como começa, não dá nem para imaginar como termina. O Estado de emergência declarado pelo presidente paquistanês Pervez Musharraf, no sábado, é um golpe destes.

Musharraf estava por um fio. Embora reeleito num pleito de honestidade discutível, ainda pendia uma decisão da Suprema Corte sobre a constitucionalidade de ele manter-se no cargo. Antes de deixar seu uniforme para servir como presidente civil, como havia prometido, Musharraf preferiu não esperar. Alega que o objetivo do estado de emergência é combater o terrorismo no norte; a primeira coisa que fez, no entanto, foi prender Iftikhar Mohammed Chaundhry, o presidente da Suprema Corte, além de outros juízes. Pois é.

Se seu problema imediato se resolve assim, o cenário é um tanto mais complexo. O presidente do Paquistão depende de dinheiro norte-americano. Os EUA têm interesse em gente de confiança ali – afinal, é na fronteira Paquistão-Afeganistão que a al-Qaeda tem sede. Mas enquanto o interesse direto é claro, o discurso de Washington é de democratização como arma contra o Terror. Musharraf era o ditador que estava abrindo o Paquistão, então dava para engolir. Agora, é o ditador que prende juízes que não lhe convém mandando o exército para a rua. Ele não deixa para o governo de George W. Bush escolha que não condená-lo.

Internamente, seus problemas não são menos complexos. Seu poder vem de uma fidelidade canina que o exército lhe devota. A Justiça se opõe a ele, assim como uma classe influente no país – a dos advogados. Também há oposição no serviço secreto, que é o único braço do governo com abertura para conversas nos setores islâmicos. E, agora, sua principal adversária laica está em casa: Benazir Bhutto.

Hoje, Bhutto convocou protestos em massa contra o golpe de Estado para a sexta-feira. Ela é popular e provavelmente conseguirá levar as multidões para as ruas. Não faz muitas dias que fez coisa parecida, em sua chegada. Mas, enquanto bate com uma mão, oferece a outra por baixo da mesa. Em entrevista à Time, declarou que ‘não quebrará sua palavra’. Se Musharraf oferecer uma agenda para que novas eleições parlamentares aconteçam, se cumprir sua promessa de deixar o cargo de comandante em chefe do Exército no dia 15 próximo e se a normalidade jurídica for reestabelecida, ele ganha seu apoio.

Sexta-feira tornou-se um dia chave e, após oito anos de ditadura militar, o Exército não é bem visto. Se os protestos tornarem-se intensos, é com as Forças Armadas que o ditador poderá contar. Mas isto não quer dizer que os soldados – ou mesmo os oficiais – estejam dispostos a partir contra a população. Seria um banho de sangue e, provavelmente, um desastre para a instituição. Se Musharraf se vir obrigado a dar este tipo de ordem e for desobedecido, o que lhe restará? É preciso, pois, evitar o confronto.

Suspender a constituição num estado de emergência e dar um golpe é fácil. Desembaraçar os nós num país já profundamente instável é um bocado difícil.

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Barack Obama é o melhor candidato?

5/November/2007 · 67 Comentários

Andrew Sullivan é um dos mais interessantes comentaristas políticos norte-americanos. É conservador, entenda-se. Esteve ao lado da política Bush na guerra contra o Iraque. Mas, nascido na Inglaterra, residente em Nova York, é cosmopolita. E é gay. Soropositivo, diga-se. Militante.

É de Sullivan um ensaio sobre a candidatura Barack Obama à presidência dos EUA, que sairá na edição de dezembro da Atlantic Monthly. (Nos EUA, já está nas bancas.) É um ensaio ousado, incrivelmente pró-Obama.

Na visão de Sullivan – e de meio mundo – os EUA estão rachados. Entre os arroubos do ultra-conservadorismo caricato das Ann Coulter e Bill O’Reillys da vida e os exageros e forçadas de barra dos Michael Moores, à esquerda, o cenário é de um país no qual metade cai para um lado e a outra metade, para o outro, numa divisão tão radical que qualquer conciliação é impossível. E, isto, Sullivan não acha que é verdade.

A guerra civil que racha os EUA desde o Vietnã é uma guerra a respeito de ‘cultura, religião e raça’. Para Sullivan, Obama é o único candidato capaz de oferecer uma trégua.

Porque embora o racha seja nítido na retórica da maioria dos candidatos, ele não é um racha real. Não importa quem for eleito em 2008, este será um presidente que manterá soldados no Iraque por um bom tempo. (É simplesmente impossível tirá-los todos de lá sem por em risco de guerra civil todo o Oriente Médio.) Uma das questões domésticas que mais mexem, a do seguro de saúde universal, também não é tão divisiva. Apesar dos debates inflamados, mesmo os republicanos mais empedernidos concordam que é preciso expandir a cobertura da saúde pública que existe hoje. Até nos estados mais conservadores as pesquisas indicam que a maioria apóia o aborto no primeiro trimestre da gravidez.

Os EUA não estão profundamente rachados, sugere Andrew Sullivan. Mas grupos de interesse radicais, de um lado e do outro do espectro político, todos muito bem financiados, fazem parecer que sim. A imprensa – e a blogosfera, posto que também é mídia – são parcialmente culpados por fazer parecer que há um racha. Ao dar voz aos extremos do espectro ideológico, mas quase nunca às vozes moderadas, apresentam uma caricatura que assusta mas não corresponde à realidade. O governo Bush, ao apostar pesadamente em um dos flancos isolando o outro, acirrou ainda mais a tensão.

Assim, segue a tese de Andrew Sullivan, Barack Obama é o melhor nome. É ele o democrata favorito dos eleitores republicanos. É jovem: já não representa mais o racha dos anos 1960.

O que Obama oferece? Antes de tudo, seu rosto. É a mais eficiente transformação da imagem dos EUA desde a promovida por Ronald Reagan. Esta mudança de imagem não é trivial – é essencial para uma estratégia de guerra. A guerra contra o terrorismo islâmico, afinal, tem duas vertentes: uma de poder militar, a outra de poder diplomático. Vimos o potencial militar na derrubada do Talibã e de Saddam Hussein. E vimos seu fracasso na lida com o Iraque, nas suas evidentes limitações para enfrentar uma longa guerra contra o Islã radical. O próximo presidente terá de criar um mix sofisticado de poder militar e diplomático para isolar o inimigo, uma matriz ideológica capaz de sustentar a vantagem do Ocidente a longo prazo. Não há candidato melhor do que Obama para isto. Por causa de seu rosto.

Imagine este cenário: estamos em novembro de 2008. Um jovem paquistanês muçulmano assiste televisão e vê que este homem – Barack Hussein Obama – é a nova face dos EUA. Em uma única imagem, o poder diplomático norte-americano foi catapultado numa escalada logarítmica. Um homem moreno cujo pai era africano, que foi criado entre a Indonésia e o Havaí, que freqüentou uma escola na qual muitos eram muçulmanos, este é o novo rosto do inimigo. Quem procura o melhor instrumento para combater a demonização dos EUA, o rosto de Barack Obama é ele. Prova que os radicais muçulmanos estão completamente errados a respeito da América.

Mas seu argumento vai além. Como Barack Obama é o único dos candidatos viáveis que esteve sempre contra a Guerra no Iraque, é ele que terá mais autoridade, inclusive, para enviar mais soldados se isto for necessário estrategicamente.

E, assim, um dos principais comentaristas conservadores dos EUA acaba de anunciar que apóia um democrata à presidência.

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O mundo visto por olhos turcos

31/October/2007 · 66 Comentários

Não custa fazer um exercício e olhar o mundo como um turco o vê – e é duro ser turco. Há um século, a Turquia comandava um império. Hoje, não sobrou-lhe sequer aquilo que sobrou para os outros poderes imperiais fracassados. A Turquia não é um Reino Unido ou uma França: tem problemas de terceiro mundo.

Mas estas são águas passadas. O presente não é mais simples: há nítidos esforços para estruturar uma democracia e uma economia fortes. Na Alemanha e na França, no entanto, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy fazem o possível para que seu país não entre na União Européia. Desconfiam que você é oriental demais e, isto não dizem com todas as palavras, também que você é muçulmano demais. Enquanto isso, em uma de suas fronteiras mais delicadas, iraquianos ficam matando seus soldados a torto e a direito. Seu principal aliado o que faz a respeito? Os EUA passam semanas discutindo se vão fazer uma reprimenda formal por conta de um genocídio que você cometeu quase um século atrás.

Do ponto de vista turco, o que resta fazer?

Num país no limite entre ocidente e oriente, se o ocidente dá as costas, resta olhar para os vizinhos orientais. Estes são parceiros antigos – milenares, diga-se. Todos por ali já eram grandes civilizações antes de os europeus erguerem sua primeira aldeia. Tradição é isso, o resto é piada. E, por vizinhos entenda-se, Irã e Síria. Se são inimigos dos principais aliados turcos no ocidente? O ocidente não tem ajudado muito – e não faltou esforço da parte turca.

Este movimento em direção ao oriente não começou esta semana, e a Newsweek o mostra. Há dez anos, a Turquia ameaçava invadir a Síria acusando-a de acobertar as operações do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdo que hoje esconde-se no Iraque. De lá para cá, turcos são os maiores empreendedores na Síria, tendo construído o maior estádio de futebol do país e o novo e gigantesco shopping center em Damasco. Quando Israel invadiu o espaço aéreo sírio há uns meses, o governo turco de imediato apresentou seu protesto diplomático. Bashar Assad, o ditador sírio, acaba de voltar da capital turca. Esteve em Ankara para uma visita oficial.

Comoo Irã, um negócio de extração de gás natural por empresas turcas que vale 3,5 bilhões de dólares está quase fechado. O serviço de inteligência persa está colaborando com os turcos na luta contra o terrorismo curdo. A Turquia se recusa a censurar oficialmente o Irã por conta de seus desejos nucleares. Diplomaticamente, limita-se a manter o canal de diálogo aberto numa tentativa de persuadir o governo iraniano a obedecer a ONU. (O que, do ponto de vista estritamente oficial, o Irã faz.)

Hoje, a Turquia está lá e cá. É um dos maiores poderes regionais. Se não encontrar apoio no Ocidente, sozinha não ficará.

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