A revolução sexual do Irã
Está nas bancas a última edição da Trip e, nela, dois textos meus. Um conta a história de Karen Junqueira, a atriz moça desta segunda que o Duran fotografou e que fará Bruna Surfistinha no cinema. O outro texto é de onde vem esse trecho:
Entre 2000 e 2007, Pardis Mahdavi havia viajado todo verão para o Irã, terra de seus pais. Quando pisou pela primeira vez em Teerã e conheceu as primas de sua idade, tinha 21 anos. Falava fluentemente a língua persa, embora com um ligeiro sotaque que todos logo identificavam como americano. A vida em Teerã não era nada como imaginara. Esperava encontrar na terra dos aiatolás um mundo repressor – encontrou entre as primas e suas amigas mais liberdade do que ela, criada na comunidade do exílio nos arredores de Los Angeles, tivera. Descobriu o que ela, nos anos seguintes, passou a chamar de Revolução Sexual Iraniana. Mas nada do que vira até ali a preparara para aquela festa em sua última visita.
Eram 40 ou mais jovens. No meio da grande sauna, uma piscina esvaziada. Calor, vapor. Ecstasy rolava e a batida do tecno ensurdecia. Pardis encostou-se numa parede. Buscou sua amiga, mas ela estava abraçada a três homens que a beijavam e despiam. Todos nus. Sexo – sexo de todas as formas praticado ali na sua frente. Ainda vestida, a jovem antropóloga sentia calor, suava, sua roupa encharcada. Achou melhor ir-se embora, deixou a sauna e de longe viu a casa grande. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água gelada. Um empregado a encontrou. Tinha a cara amarrada. “O que você quer?”, ele perguntou. “Um táxi”, ela disse. Ele pediu pelo telefone.
Escrevi a primeira versão desta reportagem antes de as eleições presidenciais terminarem no impasse. Por baixo dos panos, uma profunda mudança social está acontecendo no Irã. Mudanças de comportamento raramente deixam o status quo inalterado. Foi assim com os anos 1960 no ocidente. Faltamente será assim na antiga Pérsia.
Minha moça esta segunda

Hoje, Marina faz 30 anos. Estamos casados há pouco mais de três e nos preparamos para a quarta mudança. A primeira foi mais ou menos ao mesmo tempo para um mesmo apartamento em nossa cidade, o Rio. Daí seguimos para São Paulo. Então para a Califórnia. Quinta-feira, ela torna ao Rio de Janeiro. Eu a sigo duas semanas depois. Finalmente, juntos, e em casa. Sem planos para nos mudarmos novamente por um bom tempo.
Vão ser duas semanas difíceis, sabe? É ela quem sabe as coisas. Não só onde estão, onde deixei, o que fiz. Marina dá ritmo à casa: sua hora de acordar, de sair, de retornar. Marina dita meus humores, entre seus silêncios profundos, longos e aí os sorrisos. Todas minhas inabilidades práticas, Marina as corrige.
Nestes três anos de mudança contínua, convivemos com a ausência permanente. A ausência de Laura, minha filha, que aparece só às vezes mas que está ali a marcar sua falta todos os dias, todas as horas. A ausência do Rio, a cidade na qual nos entendemos e da qual jamais conseguimos nos afastar realmente.
Um pouco por despedida mas também para inaugurar um momento novo, convidamos os amigos para um churrasco. Conseguimos picanha e linguiças. Há uma garrafa de cachaça.
Marina não sabe que tenho medo de perdê-la todos os dias.
Vida cotidiana na política
Às vezes, políticos não conseguem disfarçar em que estão pensando.
Marilyn Chambers, atriz pornô
A atriz pornô Marylin Chambers morreu no domingo, em sua casa próxima a Los Angeles. Ainda não se sabe a causa. No segundo semestre, Marilyn estrearia no teatro, em Nova York, ao lado do também veterano Ron Jeremy. Ambos se apresentariam numa comédia que reencenaria o clássico Deep Throat. Ela tinha 56 anos.
Deep Throat, o filme Garganta Profunda original, não foi com Marilyn. Se Garganta Profunda lançou o cinema pornô no mainstream, foi Atrás da Porta Verde, de 1972 – este sim com Marilyn –, que produziu o primeiro pornô cult, com direito a exibição no Festival de Cannes do ano e ovação da platéia de pé no final.
(No passado, escrevi uma reportagem sobre Deep Throat.)
Pois foi que, no início, eram duas atrizes: Marilyn Chambers e Linda Lovelace, de Deep Throat. A revolução sexual já havia ocorrido e, de alguma forma, a cultura popular passou a aceitar sexo explícito na tela. Elas foram, e ainda são, o Ying e o Yang da pornografia inicial, os dois lados complementares.
Linda, até sua morte, em 2002, levou uma vida conturbada. Entregou-se ao cinema pornográfico que a fez famosa, acusou um dos ex-maridos de estupro, drogou-se, virou religiosa, renegou a pornografia mas aí ensaiou um retorno, foi feminista militante e jamais conseguiu uma relação em que não estivesse de alguma forma subjugada. A vida de Linda é o exemplo perfeito a sacar do bolso por qualquer um que deseje argumentar que a pornografia diminui, objetifica, a mulher. Sua vida foi miserável.
E, no entanto, Marilyn foi o contrário. Se Linda, mesmo quando jovem, emanava uma certa tristeza, Marilyn estava sempre radiante em suas entrevistas. Jamais renegou a pornografia, jamais a condenou. Se teve relações complicadas ou dificuldades com drogas pesadas, jamais sugeriu que um tinha a ver com o outro. “Pessoas das profissões as mais respeitáveis tiveram os mesmos problemas”, ela respondeu certa vez a um repórter que insistia.
Alguns críticos, em seus arroubos, já sugeriram que Atrás da Porta Verde, além de pornô, é também bom cinema. A história segue uma jovem e bela moça que, raptada em um hotel, é levada para um clube secreto e, durante uma noite, é exposta a uma platéia enquanto vê-se forçada a relações que no início não deseja e, por fim, abraça. Causou rebuliço, na época, o fato de que o primeiro ator a se apresentar à atriz era negro. (Casamentos inter-raciais ainda eram ilegais em certos estados dos EUA, assim como o casamento gay ainda é ilegal, hoje.)
É preciso boa vontade para considerar o clássico bom cinema. Está lá uma certa vontade de ser filme europeu do tempo, mas também a musiqueta dos pornôs de antanho e um trabalho de interpretação triste que faz dó. Não há problema: a arte, e o ser cult, era a desculpa que o público precisava para fazer fila no cinema num tempo antes do videocassete, quanto mais da Internet.
O que Atrás da Porta Verde tinha, também, era Marilyn Chambers. Ela era muito bonita. Mesmo. De uma beleza tenra, leve – tão bela que, poucos meses antes de filmar, posara para a caixa de uma das principais marcas de sabão em pó da Procter and Gamble com um bebê ao colo. A caixa do Ivory Snow deu nas prateleiras dos supermercados quando o filme chegava ao cinema. Foi um pesadelo publicitário para a multinacional. Atrizes pornográficas nunca foram muito conhecidas pela beleza até os anos 90 – ela era uma exceção.
Sua vida não foi de forma alguma fácil. Sexo explícito ainda é um extremo da cultura. Hoje é incrivelmente mais tolerado do que antes e já esboça aparição no cinema não pornô. Marilyn fez parte da primeira geração a romper o tabu.
A pornografia não representa sexo como aquele que os amantes fazem em casa. É um sexo caricato e, na maioria das vezes, sem qualquer intimidade emocional. Ainda assim, pornografia, alarga as fronteiras. Antes de haver pornografia assim explícita à disposição no mercado, qualquer conversa sobre sexualidade era difícil. Quando o sexo explícito, ainda que no extremo, ganhou legitimidade, qualquer área mais mansa do que o explícito tornou-se assunto permitido no cotidiano. Mais informação é possível justamente porque o extremo foi para tão longe. E mais informação desde cedo, no que tange sexualidade, evita gravidez adolescente e infelicidade em relações futuras.
Marilyn Chambers morreu cedo. Não foi um ícone para qualquer um. Mas, a seu modo, viveu uma vida corajosa e fez parte de um movimento que mudou profundamente nossa cultura.














