Uma construção posto que é domingo

12/July/2009 - 00h01 - 5 Comentarios

sagrada_familia

Codex Sinaiticus, uma das Bíblias mais antigas do mundo, online

07/July/2009 - 09h18 - 40 Comentarios

A notícia se espalhou pela rede entre ontem e anteontem e é divertida: o Codex Sinaiticus foi ao ar. Cada página digitalizada está num site para quem quiser consultar. Como a AP a chamou de a ‘Bíblia mais antiga do mundo’, os sites repetiram a informação. E como o artigo da Wikipedia é muito técnico mas não dá muitas pistas básicas, não custa ampliar a explicação.

Não é que a informação esteja errada, mas não dá para afirmar que o Sinaiticus é a Bíblia mais antiga. Ele tem um concorrente, o Codex Vaticanus. Codex é o termo latino para o que em português chamamos códice. É o nome oficial daquilo que entendemos por livro: páginas amontoadas uma após a outra e devidamente encadernadas. Sinaiticus quer dizer ‘do Sinai’. O ‘Livro do Sinai’, encontrado no século 19 por um estudioso alemão no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai. Destaca-se a palavra livro para indicar que não é um rolo – muitos documentos antigos eram compilados na forma de rolo.

Livros eram, evidentemente, copiados a mão. No período que estava iniciando a conversão do Império Romano ao cristianismo, no século 4, Constantino encomendou 50 cópias da Bíblia – um empreendimento, diga-se, caríssimo. É bastante possível que estes dois códices – Vaticanus e Sinaiticus – venham desta primeira ‘edição oficial’. Mas, copiados a mão e muito provavelmente em locais distintos, os textos têm suas diferenças. Ambos em grego, o texto de Daniel no Codex Vaticanus usa a tradução do hebraico de Teodócio, ao invés da Septuaginta, tradução considerada hoje oficial pela Igreja.

No entanto, não há nenhuma grande diferença nos textos. Embora incompletos, ambos os códices respeitam um bocado aquilo no que se tornou o Novo Testamento. Sinaiticus inclui dois livros apócrifos – a Epístola de Barnabás e o Pasto de Hermas. Em alguns jornais, destacaram o fato. Mas a presença dos livros não quer dizer que os editores considerassem-nos parte do cânon. Podem ter vindo de brinde por serem considerados boas leituras cristãs.

Sinaiticus é um documento histórico mas não altera particularmente nossa compreensão de como a Bíblia cristã se formou. Nos meios dos estudiosos, é mais comumente chamado Aleph (א), a primeira letra do alfabeto hebraico. É um documento bonito, escrito em grego uncial – um estilo comum na Antigüidade e Alta Idade Média, que só usa capitulares, praticamente sem pontuação ou espaço entre as palavras.

Uma boa fonte para esses assuntos costuma ser Jim Davila, professor de estudos bíblicos da Universidade de St. Andrews, a mais antiga da Escócia. Ele escreve há vários anos o melhor blog do ramo: Paleojudaica. Davila vem acompanhando o processo de digitalização do documento.

O abuso sistemático, sexual e físico,
de crianças da Irlanda pela Igreja

06/June/2009 - 16h46 - 348 Comentarios

Há duas questões importantes levantadas nos comentários abaixo, sobre o escândalo de abuso infantil na Igreja Católica da Irlanda.

A primeira me cobra uma distinção: foi abuso físico de crianças, mas não sexual.

Não é verdade.

No relatório, que trata de casos documentados entre a década de 1940 e a de 1970, há inúmeros casos de abuso sexual. De estupro de crianças por padres de batina e funcionários. Tão logo o relatório começou a ser divulgado, esta semana, o Dublin Rape Crisis Center – especializado em vítimas de estupro – passou a receber ligações de mais vítimas da Igreja querendo contar suas histórias. O premiê irlandês Brian Cowen, com o texto na mão, declarou que nas escolas públicas administradas por 18 ordens católicas diferentes, “o abuso sexual de crianças era endêmico”.

Se ainda restam dúvidas, as palavras seguintes estão publicadas no site Catholic Spirit e são de Sean Brady, cardeal de Armagh: “Este relatório deixa claro o mal que fizemos a algumas das crianças mais vulneráveis de nossa sociedade. Ele documenta uma vergonhosa lista de crueldades – negligência e abuso físico, sexual e emocional – impostas a crianças.”

Segundo o relatório, abuso sexual era sistemático nas escolas para meninos, embora também ocorresse com menor frequência nas escolas para meninas.

Se há algo omisso no post anterior é que a história irlandesa não é apenas de estupro. É também de abuso físico – e não se trata, aqui, de palmatória, instrumento cruel, porém ainda usado vastamente na educação britânica até os anos 40. Nas escolas tocadas pela Igreja, havia chibatadas em crianças nuas. Banhos com água fervendo ou com água no limite do gelo do inverno irlandês. Ameaça com cachorros raivosos – sim, Abu Ghraib imediatamente vem à mente. As surras eram sistemáticas e arbitrárias. As crianças ouviam seus colegas apanhando, quando não assistiam. O resultado era a criação de um ambiente de terror.

O que as crianças vítimas têm em comum é que todas estavam internadas nas escolas industriais, instituições criadas na Revolução Industrial para oferecer abrigo e proteção a crianças pobres, muitas vezes abandonadas pelos pais, outras órfãs. Eram escolas públicas, e o governo concedia à Igreja sua administração.

A segunda cobrança é a de que tenho uma mão pesada para tratar da Igreja. Que não tenho distanciamento.

Vocês sabem que sou ateu. Mas não sigo a linha Richard Dawkins – não acredito que a religião é um mal do mundo. Lembro até hoje de uma freirinha italiana que me dava aulas de religião, quando eu era criança. A irmã Gina. Ainda a vejo como a emanação da bondade – era uma figura extremamente generosa. Naquele tempo, eu devia ter uns oito ou nove anos, flertei com religião. Não deu. Sou ateu desde a pia.

Desculpe. Mesmo. Não acho que meu problema seja falta de distanciamento. Tenho total distanciamento.

Acho que a questão é outra: bons católicos sentem o ímpeto de defender sua Igreja. Essas histórias, tornadas públicas, não batem com sua imagem da Madre Igreja. E eu só posso imaginar como deve ser duro, difícil, encarar este lado negro da Igreja. O post anterior tem motivo: um cardeal britânico veio chamar pessoas como eu de sub-gente no momento em que sua Igreja, na ilha ao lado, revela um histórico recente de crueldade profunda, de desprezo completo pelo que é ser humano. Só uma completa falta de auto-crítica e nenhuma noção de timing pode levar um sujeito como ele a questionar a humanidade dos outros neste momento. Aí seu sucessor o que faz? Elogia a coragem da Igreja.

Pois esta é a Igreja que eu enxergo. A questão básica é a seguinte: sempre que um país decide investigar os porões da Igreja, descobre uma história recente igual – nela, as crianças são sempre vítimas. Não acredito que Boston, Los Angeles e Irlanda sejam casos isolados. São os casos investigados, apenas. Quem for mexer na Igreja da Itália encontrará o mesmo. Na da Espanha? Não tenho dúvidas. Também na do Brasil. Por que não tenho dúvidas? Porque sexualidade é coisa humana. Gente que decide sufocar a própria sexualidade sai de órbita. A maioria dos padres, evidentemente, arranja namorados e namoradas adultos e discretos. Mas uns e outros partem para as vítimas fáceis.

Muitos cardeais, quando abrem a boca para falar sobre os casos de abuso, dão mostras de que não perceberam sua gravidade. O papa Bento 16 diz que é lamentável, uma nódoa, e aí muda de assunto. Não é lamentável. Não é uma nódoa: é a Igreja como ela é, uma instituição que tolerou sistematicamente abusos dos piores tipos às crianças mais frágeis – quase sempre pobres – da sociedade. A Igreja, que neste pontificado é uma instituição que se julga no direito de querer ensinar amor e tolerância ao mundo, precisa urgentemente se abrir, reconhecer seus males, discuti-los publicamente, pedir desculpas e se reformar.

Mas não faz isso. Quando, pressionada por vítimas e pelo Estado em alguns lugares, só coopera com investigações depois de fazer acordos em que os nomes de seus criminosos não serão divulgados.

Perdoem: não acho que todos os padres e freiras sejam assim. Não acho sequer que a maioria deles seja assim – tenho certeza de que é uma minoria. Mas a instituição é assim. As pessoas de poder na Igreja são assim: é o que revelam em seus acordos e, invariavelmente, em seus comunicados públicos.

Atualização- Nos comentários, o Saladino dá o link para o relatório (PDF) sobre os abusos da Igreja na Irlanda.

Os ateus do cardeal, as crianças da Irlanda

05/June/2009 - 16h07 - 55 Comentarios

Em sua despedida da arquidiocese de Westminster, o cardeal católico Cormac Murphy-O’Connor disse o seguinte em entrevista à BBC:

Na minha opinião, há algo não totalmente humano naqueles que abandonam aquilo que transcende. Naqueles que deixam algo para o qual todos nós fomos feitos, a busca por um encontro transcendental que chamamos Deus. Sem isso, há uma diminuição do que é ser humano. Sem isso, você não é completamente humano.

É uma graça.

Enquanto ateus seguem subhumanos, o sucessor de O’Connor apanha. O cardeal Vincent Nichols, perante um relatório de 2.600 páginas que acusa centenas de casos de abuso sexual infantil da Igreja Católica na Irlanda, de presto observou que foi necessária muita coragem por parte dos padres para enfrentar a sujeira dentro de casa. O instintivo e natural, disse Nichols, é olhar para o outro lado.

Sobre responsabilidade, sobre a mínima obrigação evidente, nada. Trata-se de coragem. (Uma ‘coragem’, diga-se, motivada não internamente mas por centenas de denúncias.) O instinto natural dos padres é olhar para o outro lado.

Subhumanos são os ateus, aos olhos da Igreja.

Atualização importante – o primeiro crítico do novo cardeal de Westminster é outro cardeal, Diarmuid Martin, de Dublin. É um que tem as prioridades no lugar: “minha raiva está do lado das vítimas. Elas são os reais heróis, quem realmente teve coragem de vir à frente e denunciar.” Segundo Martin, o relatório final, a ser publicado este mês, chocará a todos. A Igreja irlandesa fez um acordo com o governo para permitir ampla investigação. Os responsáveis pelos atos não serão identificados, embora sejam afastados de suas funções.

O perfil religioso dos EUA
mais ateu, menos cristão

15/May/2009 - 11h42 - 85 Comentarios

Os EUA são, por fama e direito, reconhecidos como o país mais religioso do ocidente desenvolvido. Até isso, no entanto, pode mudar. O Trinity College de Connecticut, uma das mais tradicionais instituições católicas do país, realizou sua terceira pesquisa a respeito do perfil da fé norte-americana.

Descobriu um país mais laico e menos cristão.

Em 1990, 8,2% dos entrevistados se identificavam como ’sem religião’. O número em 2001 era 14,2%. Agora é de 15%.

O percentual de cristãos na população caiu 10%.

Os católicos, que estavam em sua maioria no nordeste, hoje se concentram no sudoestes. São menos descendentes de irlandeses, italianos e poloneses e mais latino-americanos. Há mais católicos na Califórnia, agora, do que na Nova Inglaterra – uma brutal mudança demográfica. (Escândalos de pedofilia concentrados em Boston ajudam.)

Dentre os cristãos, as denominações tradicionais do protestantismo estão perdendo espaço para as igrejas modernas, os evangélicos genéricos. Em 1990, 200.000 se identificavam como ‘cristãos que não seguem nenhuma denominação’. Passaram a 2,5 milhões em 2001. São 8 milhões, hoje. Eram 5% da população, são 11,8%.

A proporção de muçulmanos aumentou: 0,3% em 90, 0,6% agora. A de judeus, diminuiu – de 2,7% passou a 1,2%.

Os abusos da Igreja Católica
e a sombra de Fernando Lugo

29/April/2009 - 00h03 - 265 Comentarios

Ontem à noite, assisti a uma apresentação feita pelo repórter Mike Rezendes a respeito do escândalo de pedofilia na Igreja Católica de Boston. De todos meus amigos jornalistas, aqui nos EUA e aí no Brasil, Mike é o que chegou mais longe na prestação de um serviço público. Seu trabalho junto à equipe de reportagem investigativa do Boston Globe reuniu durante um ano provas e depoimentos que demonstravam que a alta hierarquia da Igreja não só tinha conhecimento de que alguns padres se envolviam sexualmente com crianças como não fizeram nada para retirá-los do púlpito.

O que nos traz a Fernando Lugo, presidente do Paraguai, ex-bispo.

No momento, são três mulheres diferentes que vieram a público identificando-o como pai de seus filhos. Segundo o Washington Post, Lugo pode ser pai de até seis crianças. Como no caso norte-americano, a Igreja tinha conhecimento e não interferiu.

Há uma larga distância entre um padre pedófilo e um padre que mantém relações com mulheres adultas. O filho mais jovem do presidente tem pouco mais de um ano; uma das mães, a jovem Viviana Carrillo, sugere que ainda tem algum tipo de relação com o presidente. (Seu filho tem quase dois anos.) Lugo era bispo em uma das regiões mais pobres do país e, aparentemente, tinha relações com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Há desconfianças de que, com Viviana, o namoro começou quando ela ainda tinha 16 anos e chegou ao bispado para virar noviça. “Ele falava bonito”, ela diz.

O padrão que Mike Rezendes encontrou em Boston era diferente mas com muito em comum. Padres pedófilos que em geral buscavam crianças do mesmo sexo. Suas vítimas vinham principalmente dentre os mais pobres, filhos de mães solteiras que ficavam pouco tempo em casa para trabalhar, gente que já convivia com algum tipo de desajuste social. Os mais frágeis. Padres, como professores mais velhos, como psicólogos, exercem um poder de influência muito grande, principalmente naqueles que vivem momentos de fragilidade na vida.

No caso de Lugo, seu comportamento de limpo teve pouco: teve filhos em série com mulheres diferentes, às vezes mantendo relacionamentos aparentemente simultâneos, sempre impondo segredo. Para os paraguaios, o que importa é tentar compreender quem é seu presidente. Que tipo de homem é. Se é confiável. Até mesmo se tem caráter.

Mas há uma questão maior do ponto de vista mundial que é esta instituição, a Igreja Católica. A Igreja protege os seus, não importa que vítimas façam. É uma instituição corporativista ao limite. Os escândalos com os quais a Igreja se envolve são quase sempre sexuais. Sempre que vem a público, o comportamento de padres com sexo chega próximo à doença. E a Igreja, buscando abafá-lo, passa a seguinte mensagem: Não entende a relação de um homem com uma mulher. Não entende casamento. Não entende família. Não entende crianças.

Não deixa de ser irônico que é sobre estes assuntos que mais gosta de dar lições.

O Vaticano recua perante a Alemanha

04/February/2009 - 21h01 - 105 Comentarios

A capa da principal revista alemã, Der Spiegel, dá o tom da recepção do país das últimas ações de Bento 16: ‘um papa alemão traz desgraça à Igreja’. Os alemães se perguntam: como um conhecido antissemita, um antissemita declarado, pôde conseguir o perdão papal?

O Vaticano havia declarado que o papa havia decidio e não havia mais o que fazer. Agora, sentiu a pressão e voltou atrás: o secretário de Estado cardeal Tarcisio Bertone deu ordens para que o bispo Richard Williamson peça perdão de forma ‘absoluta, inequívoca e pública’ por ter negado o Holocausto e ter elogiado o regime Nazista.

Senão, voltará à excomunhão.

O papa Bento 16, o Holocausto negado
e o Vaticano de férias da realidade

04/February/2009 - 14h42 - 182 Comentarios

O Vaticano está começando a se mover, com seu jeito tortuoso de sempre, para reparar o impacto das últimas decisões do papa Bento 16. Ele suspendeu a punição aos padres e bispos excomungados por João Paulo 2o por pertencerem à seita radical Sociedade de São Pio 10. Um deles, o bispo britânico Richard Williamson, é um velho revisionista histórico que nega o Holocausto. (Para Williamson, câmaras de gás nunca existiram e os nazistas mataram no máximo 300.000 judeus.)

O cardeal Walter Kasper, que toca no Vaticano as relações com a comunidade judaica, já falou oficialmente que parece ter havido um equívoco na ‘gerência do problema’ dentro da Cúria. É uma maneira leve de dizer.

A imprensa alemã está cobrindo pesadamente a questão. Há bispos indignados e pelo menos um cardeal, Karl Lehmann de Mainz (Mogúncia), descreveu a decisão do papa como ‘catastrófica’. Hoje, a premiê alemã Angela Merkel pediu oficialmente explicações ao Vaticano.

‘O papa’, sugere o teólogo Hans Küng, um antigo colega de trabalho e eterno rival, ‘está tão afastado do mundo real que já não tem mais idéia de quais as conseqüências de suas decisões.’ Na semana passada, um padre austríaco que foi elevado a bispo mexeu com toda a igreja local. Gerhard Maria Wagner havia declarado que o furacão Katrina fora punição pelo número de bordéis em Nova Orleans; que o tsunami fora punição para os turistas brancos que visitam a pobre Tailândia, que Harry Potter espalha o satanismo.

Um padre austríaco, quando soube da notícia da elevação de Wagner, comentou: ’será que a Igreja sabe que estamos no século 21?’ A revista alemã Der Spiegel sugere outra teoria: o papa tirou férias da realidade.

Bento 16 vídeo-blogueiro

23/January/2009 - 19h27 - 27 Comentarios

O Vaticano tem canal oficial no YouTube. Ainda não existe versão em português, mas ela é prometida.

O objetivo é encontrar um canal que permita à Igreja Católica conversar com os mais jovens.

O significado do Natal

24/December/2008 - 04h28 - 96 Comentarios

Hoje é véspera de Natal.

Como é um quê tradição neste Weblog, repito aqui links para três reportagens que escrevi ao longo dos anos para esta época:

Uma conta a história de Papai Noel. De onde veio a lenda, qual o fundo religioso e mítico e tudo o que a Coca-Cola tem com o bicho.

A segunda é a história do Homem. Já que este é o período em que simbolicamente celebramos inícios, o texto conta como o Homo sapiens veio dar na Terra.

A terceira, conta a história de Jesus Cristo. Não é exatamente a história do rabino Yeshua ben Youssef, tampouco é a história do Jesus da Bíblia. É a história de como nasceu uma religião, uma vertente do judaísmo chamada cristianismo, num período particularmente confuso da Terra Santa: a época entre os primeiros anos após a morte do rabino Yeshua e a queda do Templo, na década de 70 do primeiro século.

Relendo esta última, que é minha favorita dentre as três, percebi que há outra história que ainda não contei por aqui mas que é igualmente fascinante: nos últimos dez a quinze anos, houve uma revolução na historiografia do rabino Yeshua. A partir de análise comparativa literária dos livros do Novo Testamento e de evangelhos apócrifos igualmente antigos, é possível ter uma idéia bastante exata de o que ele realmente pregou, em que acreditava.

Detalhes de seu nascimento e sua vida particular provavelmente estão perdidos para sempre. Mas já existem teorias sólidas que recontam seus últimos dias – teorias de historiadores, não de teólogos.

Yeshua morreu judeu, pregando um judaísmo farisaico de todo típico em seu tempo, sem jamais sequer desconfiar que esta potência chamada cristianismo seria criada em seu nome.

Vou me organizar, reunir os livros, e fazer algo que devia fazer mais vezes: escrever uma reportagem para o Weblog. Fica para a Páscoa o Jesus parte 2.

Esta festa que comemoramos entre hoje e amanhã, o Natal, não nega as origens judaicas e tem um quê de Hanukkah, não é à toa que usamos tantas luzes. Mas também tem, como está lá contado na história de Papai Noel, boas pitadas das religiões pagãs nórdicas.

O dia 25 de dezembro foi instituído como aniversário de Jesus Cristo no século 4, pela Igreja Católica. Aproveitavam duas celebrações romanas: a Saturnália, que era a principal festa de Roma, celebrando o solstício de inverno entre os dias 17 e 23 de dezembro; e a festa do Sol Invictus, que tinha por tradição a troca de presentes.

O teólogo Joseph Ratzinger – atual papa Bento 16 – contesta esta leitura. Ele sugere que o aniversário de Cristo foi fixado no dia 25 de dezembro porque a data de sua concepção milagrosa é o 25 de março. A Igreja do século 4 simplesmente teria feito a conta aproximada somando nove meses.

Aí, é matéria de fé.

O Natal é uma das mais importantes celebrações humanas porque expõe uma de nossas melhores características: o Natal é mestiço. Multicultural. Uma soma, uma mistura de várias culturas de vários povos, que deixaram de alguma forma esta marca. Então, não importa como celebramos o Natal – mesmo que nem o celebremos com este nome. O que comemoramos hoje, no fundo, é nossa própria humanidade. É aquilo que temos, todos, em comum.

Um feliz Natal para todos.

Um boato sobre Obama; outro sobre o Vaticano

01/December/2008 - 07h00 - 70 Comentarios

Dois boatos tem batido aqui na caixa de mensagens com alguma freqüência, nas últimas semanas.

Um deles diz que Barack Obama na verdade nasceu no Quênia e que a certidão de nascimento apresentada por sua campanha, garantindo que ele vem do Havaí, é falsa. Tendo nascido em terra estrangeira, não é elegível ao cargo de presidência dos EUA.

Por que alguém além da meia dúzia na direita selvagem de cá e de lá acreditaria numa história dessas vai além da minha compreensão. Se fosse verdade, Hillary Clinton adoraria tê-lo sabido. John McCain, idem. E, desconfia-se, CIA, FBI, NSA, Serviço Secreto e tantas outras agências o descobririam.

A certidão de nascimento é verdadeira e já foi averiguada. A fonte do boato afirma que o documento nem tem selo, nem assinatura, nem número de identificação de algum cartório no Havaí. Mas o documento tem tudo isto. Encontraram até uma notinha de jornal local em que os pais do jovem Barack anunciavam o nascimento de seu filho. Jornal local do Havaí, entenda-se. Não do Quênia.

ATUALIZAÇÃO - Quando as pessoas querem acreditar em algo, acreditam, não há jeito. Mas, para modo de esclarecer. O link acima, aqui repetido, leva a uma página do site FactCheck.org, utilizado durante a campanha por ambos os partidos. É um grupo independente que simplesmente checa as afirmações de ambos os candidatos. O autor do artigo viu a certidão, tocou-a e também a fotografou. As fotos estão publicadas ali no link para comprovar que o documento tem todas as formalidades exigidas por lei para comprovar que é verdadeiro. Se isto não é suficiente para convencer os estranhos céticos, se eles persistem em acreditar que os EUA elegeram um queniano comunista para sua presidência e ninguém fez nada a respeito, aí já não é matéria de falta de fatos, é matéria de fé. E, com fé, não há discussão.

O segundo boato é bem mais divertido. Afirma que o Vaticano publicou um calendário com fotos de padres jovens e fortes insinuações homoeróticas. Cá não vai um blogueiro que põe a mão no fogo para definir como, por quem ou pelo quê padres, bispos, cardeais ou o papa incentivam suas libidos. Mas o calendário, que de fato existe, não tem qualquer relação oficial com o Vaticano. Deste mal, a Santa Sé é inocente.

Obra do fotógrafo italiano Piero Pazzi, o Calendario Romano sai todo ano desde 2003. Nem todos os padres posaram – muitos foram flagrados por Pazzi em procissões, missas e afins. E, bem, nem todos nas fotos são de padres. Pazzi, que nunca pede autorização aos fotografados, já cometeu erros no passado.

Igreja Anglicana pede perdão a Darwin

16/September/2008 - 13h53 - 199 Comentarios

Uma notícia importante que deve ser celebrada e não pode escapar cá ao Weblog: o reverendo Malcom Brown, diretor de relações públicas da Igreja Anglicana, pediu oficialmente perdão a Charles Darwin, descobridor da Evolução das Espécies por meio do processo de Seleção Natural.

Darwin estava certo, diz Brown, e a Igreja Anglicana errada ao repudiá-lo no século 19.

Quem são os drusos e em que acreditam?

13/May/2008 - 11h07 - 43 Comentarios

Tanto o Theo (que é muçulmano) quanto o André Fucs (que morou e entende da região) reclamaram de eu caracterizar os drusos como muçulmanos. Pois bem, não vai aqui qualquer teimosia: esta é uma polêmica antiga mas, que me perdoem os companheiros, não é uma discussão encerrada.

O CIA Factbook – que é o melhor almanaque aberto e confiável que há na Internet – também lista os drusos entre os muçulmanos no Líbano.

A Enciclopédia e Dicionário Kougan Houaiss, que eu costumava manter a meu lado na redação quando não havia Enciclopédia Britannica online, Wikipedia ou Google, classifica os drusos como ‘ismaelitas’, que é uma vertente do xiismo.

A Britannica, por sua vez, lava as mãos e não se posiciona: ‘é uma série de crenças religiosas nascidas dos ensinamentos ismaelitas às quais foram acrescidas elementos judeus, cristãos, gnósticos, neoplatônicos e iranianos que se combinam numa doutrina de monoteísmo estrito.’

Muitos especialistas muçulmanos, no entanto, consideram esta seita exclusiva tão estranha que não a classificam no Islã. Pergunte a um druso e ele dirá que é monoteísta e não passará disto.

Aparentemente, o Líbano passará a ser um assunto corriqueiro cá no Weblog e este grupo, 5% de sua população, terá papel importante nas decisões políticas – seja no papel de vítima, seja no de aliado de quem está no poder. O que são os drusos?

Os drusos são messiânicos. As religiões monoteístas surgidas no norte da África e Oriente Médio são todas como quebras-cabeças que costuram uma série de mitos comuns com maior ou menor intensidade. O messianismo, a idéia de que um líder desaparecido voltará para nos salvar a todos, é persa, vem do profeta Zoroastro. De lá, inoculou de leve os judeus quando do período de seu contato, e foi fazer parte, com força, da sopa cultural em que nasceu o cristianismo. O Islã, quando chega à Pérsia, também pega este messianismo forte local e assim nasce a vertente xiita.

No início do século 11, Hamza bin-Ali, um estudioso persa xiita travou contato, no Egito, com o platonismo grego e com os gnósticos – outra destas vertentes monoteístas que não chegaram a vingar de todo. A partir deste contato, Hamza bin-Ali passou a compreender Deus de uma forma diferente e, autorizado pelo califa al-Hakim, começou a reunir um grupo na mesquita local para pregar e rezar. Enquanto o califa esteve vivo, bin-Ali pregou o que quis, embora considerado herético pela maioria.

Tariq al-Hakim foi o sexto califa fatimida, descendente direto do casamento de Fátima, a filha favorita de Maomé, com Ali, considerado pelos xiitas seu primeiro imame. No Egito, al-Hakim foi intolerante com os muçulmanos sunitas, mas, mediante o imposto pago, deixou em paz as comunidades cristãs e judaicas. Embora tivesse umas idéias diferentes, bin-Ali era xiita, então não foi censurado. O califa foi assassinado em 1021 e sucedido por seu filho. E aí os drusos começam a se formar: para eles, o califa não morreu de fato mas apenas foi escondido. No dia do julgamento final, al-Hakim – o Mahdi – retornará para nos salvar a todos.

Após a morte de seu califa, teve início a perseguição dos drusos que deu forma final a sua religião. São monoteístas e só eles conhecem a verdade a respeito de Deus. Sua seita é secreta: um druso não fala dos ensinamentos para quem não é do grupo. Não aceitam conversões. Quem nasceu druso, não deixa de sê-lo; quem não nasceu, jamais virá a ser. Quando há perseguição política, é aceito que um druso renegue sua religião.

Se os drusos são uma vertente do Islã? Depende de como se vê sua história. A comunidade cristã original, chefiada por Thiago, irmão de Jesus, se considerava judia. Mas os anos se passaram e aquela seita se tornou uma religião independente. Quando decidimos que uma religião se separa de todo de sua mãe? No caso do cristianismo, foi o fato de que a religião começou a conquistar gente de fora, gentios. Ficou maior do que o judaísmo. Os drusos, no entanto, eram originalmente xiitas todos. Os mórmons são cristãos? Eles dizem que sim. Muitos cristãos dizem que eles modificaram de tal forma sua religião que, não, os mórmons são um caso distinto. Talvez sejam. É uma boa comparação com os drusos?

Cinco por cento da população libanesa é formada por drusos. Eles se dizem monoteístas e o seu é um grupo importante no balanço de poder do Líbano.

(Há outra polêmica: druso é com s ou com z? Ambas as grafias são aceitas, a com S é a corroborada por Antonio Houaiss.)

Cientistas gays descobrem o gene da cristandade

25/April/2008 - 09h25 - 110 Comentarios

Uma pena que não tenha legendas. Um grupo de cientistas gays descobriu o gene da cristandade. A descoberta traz a esperança de cura para cristãos em todo o mundo. Através de terapia genética, já conseguiram curar um rato cristão. (Os procedimentos ainda não foram testados em humanos.) Alguns cristãos ainda rejeitam a idéia – insistem na idéia de que a fé é uma escolha pessoal. Mas outros, discretamente, já começam a buscar algum tipo de terapia, estimulados por pais e amigos.

(Hoje o dia promete.)

via Bifurcated rivets

Bento 16, a Igreja pedófila e suas
dificuldades nos EUA

15/April/2008 - 15h15 - 84 Comentarios

São dois os propósitos da visita que começa hoje do papa Bento 16 aos EUA. O primeiro é para o público interno norte-americano. O segundo, para o público mundial.

Sua mensagem para o mundo é conhecida: falará à ONU como chefe de Estado e aproveitará o número de jornalistas e câmeras para angariar de uma só tacada manchetes em todo o mundo. Fará uma defesa do conceito da Igreja de ‘vida’, que inclui uma ofensiva contra a legalidade do aborto e a recusa ao uso de células tronco embrionárias em pesquisas.

A discussão com o público norte-americano é bem mais complicada e já começou. No avião, a caminho, falou com os jornalistas a respeito dos escândalos continuados de pedofilia envolvendo padres e freiras nos EUA.

Nenhum papa jamais havia sido tão claro. ‘Precisamos distinguir entre a questão da homossexualidade e a da pedofilia’, ele disse. ‘São coisas diferentes.’ Assim, vai contra a interpretação da direita mais radical. ‘Leio as histórias das vítimas e me vejo com dificuldade de compreender como os padres traíram desta forma sua missão de cura, de levar o amor de Deus a estas crianças.’

Será preciso bem mais do que dizer – como disse – que está ‘envergonhado’. É a primeira visita de um papa aos EUA desde que os escândalos começaram a estourar. Muitos dos católicos norte-americanos dizem com clareza que têm receio de deixar seus filhos com padres. Há algum exagero aí, claro. Mas não importa: é fatal para qualquer ingreja. A Igreja Católica, de 2002 para cá, já reconheceu 5.000 casos de abuso sexual infantil que custaram 2 bilhões de dólares.

Há mais por vir.

Uma das missões da Igreja é impor mais dificuldades para a ordenação de sacerdotes numa época em que o número de candidatos ao sacerdócio, em várias regiões dos EUA, é de zero. Não é um problema insignificante: a dos EUA é a terceira maior população de católicos do mundo.

São dois os grupos majoritários de católicos norte-americanos. O primeiro é composto por descendentes de irlandeses, italianos e outros europeus que se mudaram para o país em princípios do século 20 e vivem, em geral, no norte do país. O segundo é de mexicanos ou descendentes de mexicanos que espalham-se pelos estados de fronteira, ao sul.

Os EUA são um caso atípico. País ocidental e rico e, no entanto, religioso. Mas isto não simplifica as coisas para Bento 16. Não tem padres, os que tem geram desconfiança, a instituição que acobertou pedófilos conscientemente é vista até com raiva em algumas comunidades católicas e, sim, está perdendo fiéis.

Como acontece no Brasil, os mexicanos vêm sendo seduzidos pelas igrejas neo-pentecostais. (Há uma dessas em cada esquina, nos EUA.) Com os descendentes de europeus é mais complicado. Católicos, nos EUA, costumam ser democratas. Os mexicanos o fazem porque o partido de Hillary e Obama trata as leis de imigração com uma mão mais generosa. Os irlandeses, italianos e outros acompanham uma visão europeizada, iluminista, cientificista, do mundo. Isto inclui o direito ao divórcio, ao aborto. Consideram obscurantista a idéia de proibir o estudo com células tronco embrionárias.

Não são europeus: não são ateus. Não se sentem seduzidos pelas neo-pentecostais. Mas têm dificuldades de conciliar sua fé com seus valores.

A missão de Bento 16 não tem nada de fácil.

Uma entrevista aos sábados

29/March/2008 - 06h05 - 141 Comentarios

O budismo pressupunha uma enorme quantidade de tempo e solidão para uma transformação que acontecia gradualmente ao longo de anos. Hoje, queremos tudo de forma instantânea. Espiritualidade instantânea. Resultados rápidos, somos todos muito pragmáticos. Ele dizia que precisávamos tirar o ‘eu’ do centro de nosso universo. Sabe aquele ‘eu’ que nos faz acordar às três da manhã, ‘por que isso acontece comigo? Por que não sou valorizado?’ Essas coisas nos arruínam. Buda mostrou como viver sem ver as outras pessoas de um ponto de vista ganancioso, como gente que poderia nos levar à frente de alguma forma. Se libertados do ‘eu’, podemos ampliar nossa perspectiva, podemos nos alinhar com o sagrado. Buda era um radical, muito mais do que aqueles que se dizem budistas, hoje. No Reino Unido, muitos que não se interessam por religião pensam no budismo como um caminho light: sem Deus, sem pecado, um pouquinho de ioga.

Não encontramos entre as escolas budistas o tipo de inimizade que protestantes e católicos mostraram uns pelos outros. Hoje, há o início de algo que podemos chamar de fundamentalismo budista, mas jamais houve inquisição, perseguição, Cruzadas, matança em nome de Deus. Buda de vez em quando fala dos antigos deuses da Índia sem rancor; os profetas bíblicos só citavam os antigos deuses com fúria. Eu não diria que intolerância está na raiz das religiões ocidentais, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Mas intolerância nasce delas. É como se fosse uma tentação à qual os monoteístas se entregam de vez em quando. Quando você tem um deus personalizado, é muito tentador usar a religião para apoiar seus preconceitos. Religiões monoteístas são assim. Em toda geração há gente que caia nessa e há quem resista.

Karen Armstrong

Leituras

13/March/2008 - 10h37 - 28 Comentarios

Red cat, de Peter Spiegelman, e Adeus, Hemingway, de Leonardo Padura Fuentes, estão entre minhas descobertas mais recentes na literatura policial. (Embora sejam livros completamente diferentes um do outro.)

Padura Fuentes é cubano, vive em Cuba, fui apresentado a ele por um amigo que divide comigo esta fixação por policiais. Seu detetive é um policial aposentado, Mario Conde, que tenta virar escritor. Por conta do amor pela literatura, seus ex-companheiros da delegacia pedem que ele tente descobrir o que houve na casa de Ernest Hemingway uns 40, 50 anos antes. É que um cadáver com esta idade e uma carteira do FBI foi desenterrado do jardim mais ou menos na época em que o velho escritor esteve em sua finca pela última vez.

A Cuba de hoje e a de antes da Revolução convivem ao longo de uma história intrincada, cheia de flashbacks. O cara escreve muito bem – é um romance policial com densidade, personagens profundos, com um pé naquela melancolia do noir e outro na boa literatura.

Red Cat é completamente diferente, seu cenário é a Nova York contemporânea, e John March, o personagem principal, é um bom e velho detetive particular. Seu irmão, um executivo de banco riquíssimo, está sendo chantageado por uma de suas muitas amantes.

Peter Spiegelman não vai na alma atormentada de seus personagens com a profundidade de Padura Fuentes, mas o pobre March apanha, e apanha muito, e apanha toda hora, como cabe a um detetive particular teimoso. A grande atração é uma trama bem costurada que envolve a filmagem das transas dos amantes, o estranhíssimo e sempre bizarramente antenado mercado de arte contemporânea novaiorquino, o pesadelo de quanto este tipo de imagem pode vazar para a Internet. Romances policiais não costumam mexer com tecnologia e as mudanças provocadas por ela na sociedade. Spiegelman a usa e é o que torna seu livro divertidíssimo.

Um cenário bem bolado costuma ser das coisas que me atraem em romances policiais – daí que a filmagem clandestina do sexo, tão comum nos tempos vigentes, ou a Havana de hoje, me atraíram para ambos os romances. E daí que fui com sede atrás de Yiddish policemen’s union, de Michael Chabon.

Sua premissa é excelente. Israel não aconteceu. Para lidar com o problema do pós-Holocausto, os EUA cedem um naco do Alaska para onde os judeus podem migrar. Em 2005, no entanto, 60 anos após a cessão, as terras estão para voltar à posse do governo norte-americano. A língua que se fala nas ruas é o iídiche, não o hebraico. Está todo mundo meio desesperado para conseguir um visto para algum lugar do planeta – é preciso se mudar. E, em meio a esta confusão, acontece o assassinato de um homem desconhecido que, naturalmente, tem tudo a ver com tudo.

Encarei o livro de frente, ao longo último mês, algumas vezes. Cheguei ali à página 50 muito lentamente. Empaco no ritmo. Há de ser bom, talvez torne a ele em uns meses. Por enquanto, fica adiado.

Dois quadrinhos andaram pelas minhas mãos, ambos editados pela Conrad. O primeiro é Fun home, obra autobiográfica de Alison Bechdel. A autora é lésbica, seu pai era homossexual enrustido – coisa que só foi descobrir muito mais tarde. Ao recontar a história familiar que viu com olhares de menina e tentar reinterpretá-la, Bedchel procura talvez a origem de sua identidade. É uma ‘tragicomédia familiar’, diz o subtítulo muito adequado. Nunca tinha parado para pensar neste momento ali entre a adolescência e a idade adulta no qual homossexuais começam a lidar com o que são, o que isto significa, o quanto que a sexualidade nos encaixa na sociedade de uma forma diferente, limitando alguns espaços, abrindo outros. É um momento de extrema angústia onde muitos – caso do pai de Bechdel – se perdem completamente para a vida. É um álbum surpreendentemente denso, extremamente delicado.

O outro é o Clic 3, de Milo Manara. A trama não varia muito em relação aos primeiros da série: Claudia Christiani está lá com o implante no cérebro que a expõe. Alguém, com um controle remoto, pode num ‘click’ fazer com que ela enlouqueça de desejo sexual que precisa ser imediatamente saciado. Manara é isso: estas grandes fantasias que não carecem muito de enredo, estas mulheres belíssimas de alma italiana e corpo eslavo – pernas longas, bundas grandes, seios fartos. Christiani é uma moça rica é profundamente conservadora, então há sempre um certo desespero quando ela é levada aos píncaros da libido. (E há por certo aí alguma metáfora sobre como as pessoas que se mostram mais conservadoras costumam ser as mais passíveis a escândalos em geral os mais contorcionistas.) Mas Manara não é a história, Manara é um mundo próprio, este conjunto de mulheres fantásticas sem quaisquer pudores e homens absolutamente maravilhados com os cenários que elas ensaiam nos mostrar.

Andei também com Os melhores jornais do mundo, de Matías Molina. Ele, que é espanhol de nascença, brasileiro com sotaque e um dos pais do jornalismo de economia tupinambá, é provavelmente o melhor nome para encarar esta tarefa: contar quais os melhores jornais do mundo, suas histórias e explicar o que faz, afinal, um bom jornal? Todos listados, suas histórias deliciosamente contadas, Molina chega à seguinte conclusão. O jornal excelente parte do princípio de que seu leitor é inteligente. Além de cobrir a cidade, o país, o cotidiano, ele tem também um pé fortemente fincado no mundo, com correspondentes em vários países, viagens constantes. Para fazer um bom jornal, é preciso olhar para fora e compreender como seu país é visto de fora para dentro, como ele se encaixa na geopolítica. Por fim, cultura. Há uma cobertura sofisticada das artes.

Por fim, estou me divertindo muito, apesar de uma leitura lenta, com Em busca de Jesus, de John Dominic Crossan e Jonathan Reed. O título em português sugere leitura para conversão – não é. É uma batida das descobertas arqueológicas recentes que apresentam o mundo e o contexto no qual viveu Jesus. É história, não religião. Ciência. Mas este fica para uma próxima batelada de livros.

As múmias paulistanas e
as moças do Brasil colonial

29/February/2008 - 12h25 - 97 Comentarios

A notícia mais fascinante da semana é a história das duas múmias encontradas no Mosteiro da Luz, em São Paulo. Uma delas, a mais bem conservada jamais vista no Brasil, tem algo como 200 anos. Estavam juntas as múmias das freiras, numa carneira – ou gaveta – na parede. Uma deitada em posição de enterro, a outra de lado, como que apoiando a cabeça contra o peito da mais antiga.

Diz a lenda que as freiras reclusas do mosteiro certa vez foram enterrar uma irmã, abriram a carneira para afastar os ossos da enterrada anterior, e ela estava intacta. Pode ser que a história contada há gerações tenha mesmo se confirmado. É uma pena que a versão online do Estadão não tenha trazido à rede aberta todas as excelentes reportagens de Sérgio Duran, publicadas na edição de ontem. (Internet que carece login e senha mediante pagamento não vale o link; apenas uma das matérias está aberta.)

Será possível aprender um bocado com as duas freiras. O líquido do corpo se foi, mas o resto do material orgânico ficou: pele, músculos, parte dos órgãos. De presto, será possível aprender sobre os hábitos alimentares daquela São Paulo miúda que existia no final dos mil e setecentos, pouco antes de a família real portuguesa chegar ao país. Dependendo da causa de morte – coisa que pode ser descoberta – talvez venhamos a saber algo sobre alguma epidemia. Já há historiadores buscando avidamente, nos arquivos das freiras reclusas que ainda hoje fazem as pílulas do frei Galvão, todas as pistas possíveis a respeito das identidades delas. E, como é quase certo que haja catacumbas no chão do mosteiro que já mostrou ter um clima adequado à mumificação natural, os arqueólogos já esperam encontrar outras múmias intactas.

Estes dois séculos nos separam de um Brasil em tudo diferente do atual – e a questão não é apenas de escala, de tamanho. Simplesmente não nos reconheceríamos naquela gente antepassada de muitos de nós. Naquela época, não eram apenas as freirinhas do Mosteiro da Luz que ficavam trancafiadas, sem contato com o mundo exterior. As boas casas das cidades escondiam também suas mulheres brancas. O casario colonial não tinha venezianas nas janelas e sim gelosias, treliças com minúsculas passagens para a luz. Não se via, da rua, o interior daquelas casas com pé direito alto. Quando as mulheres saíam era muito cedo de manhã, ainda escuro e em direção à missa, sempre acompanhando seu marido, pai ou irmão que caminhava à frente da fila de moças cobertas com mantilhas, sem mostrar um fio de cabelo. Levavam a cabeça baixa. Não havia namoro no Brasil do século 18. Havia as negras e as mulheres para casar. Ninguém confundia uma com a outra. A distância entre aquele Brasil e a Ipanema de hoje, com tanta pele exposta, é aterradora.

Nesse tempo das múmias, a Igreja tinha o poder que Bento 16 lamenta tanto ter perdido: ela ditava o que podia e o que não podia, ditava o ritmo da vida cotidiana. Acordava-se de manhã com os sinos da igreja mais próxima chamando para a missa – e era o sino, ao longo do dia, que marcava as horas. Todas as fases da vida recebiam a chancela da Igreja. Certidão de nascimento não havia, o que havia era batismo. O casamento não era civil, mas religioso. Os que tinham educação recebiam-na de padres. (Não raro, toda família de boa cepa fazia do segundo filho um padre.) Mas, apesar deste poder, não quer dizer que a relação com a Igreja fosse sempre tranqüila. Tanto paulistanos quanto cariocas expulsaram os jesuítas mais de uma vez de suas cidades. Padres que empatavam demais a vida eram hostilizados pela turba. (Mas todo mundo tinha medo de excomunhão.) A hipocrisia sexual era de regra. Como padres eram quase sempre os únicos homens com acesso às mulheres todas, não hesitavam em fazer proveito. Tinham filhos, não raro os registravam.

Havia hipocrisia, havia malícia, mas havia também um ser profundamente religioso. Vez por outra, aquelas meninas trancafiadas na pré-adolescência sentiam calores e piravam: falavam em línguas, viam Deus ou Jesus ou algum anjo, criavam fama de milagreiras e a piração pré-adolescente virava reclusão para a vida, dada a óbvia vocação religiosa. Eram meninas assim que iam parar em mosteiros como este, construído pelo único santo brasileiro. E são duas delas que nos vieram visitar.

E se o Islã não existisse?

09/January/2008 - 08h52 - 85 Comentarios

Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?

Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.

O raciocínio é todo de Fuller.

Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.

São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:

Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.

Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.

Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.

Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.

Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.

A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.

(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)

Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.

Cristianismo versus Islã

26/December/2007 - 12h44 - 173 Comentarios

Na virada do século 19 para o 20, 200 milhões de muçulmanos viviam no mundo. Foi um século exuberante para o Islã: hoje, são 1,5 bilhão de fiéis. Em compensação, um ocidente cada vez mais laico produziu um crescimento em proporção muito menor à do aumento populacional do cristianismo. Jesus ainda vence Maomé – são 2 bilhões de cristãos, afinal – mas a se julgar pelo ritmo de uma e de outra, em 2050 o Islã deverá ser a maior religião do mundo.

A Economist edição dupla, que cobre a quinzena final de 2007, traz uma reportagem estupenda sobre o equilíbrio das duas filhas do judaísmo. (Diferentemente de cristãos e muçulmanos, judeus, os inventores do primeiro Livro sagrado, não vêem como sua a missão de sair pelo mundo a converter seguidores.)

De um lado, como financiadores, estão os poderosos evangélicos norte-americanos, que investem pesadamente na formação de missionários para espalhar pelo mundo. Do outro, estão a família real saudita e incontáveis milionários do petróleo árabes que gastam um bom dinheiro para espalhar o seu livro sagrado a qualquer interessado. (Peça um para você: www.freekoran.com.)

Os cristãos são mais espertos quando o assunto é marketing: no mercado dos EUA, há Bíblias de todos os tipos, adaptadas para crianças, adolescentes, adultos, comentadas ou não, há revistas multicoloridas, há filmes. E este material vai se espalhando em línguas várias.

Os muçulmanos têm uma tremenda vantagem: na maioria dos países islâmicos, a tentativa de converter qualquer um a outra religião é crime – muitas vezes, só rezar para outro Deus já é passível de cadeia ou outra pena. Então o Islã tem livre acesso à Europa, aos EUA e Américas, enquanto missionários cristãos não podem jogar no campo inimigo, salvo imenso risco.

Mas nem tudo é positivo. O Onze de Setembro foi uma rasteira. A maioria das entidades filantrópicas que investiam no espalhar da religião de Maomé foram declaradas suspeitas ou mesmo ilegais, por conta de envolvimento com o financiamento do terrorismo. Além disso, o terror despertou uma profunda desconfiança mundial. Não bastasse, islâmicos resistem a técnicas modernas de marketing, já que consideram seu livro sagrado a palavra literal de Deus – e não meramente inspiradas por, caso dos cristãos. Mexer com ela seria sacrilégio.

Por sua vez, os cristãos seguem perdendo espaço no coração europeu de sua origem. Por um lado, perdem para o próprio Islã, conforme jovens nascidos em famílias que migraram procuram contato com a religião de pais e avós numa busca de identidade; por outro, perdem para o nada, conforme jovens de origem européia bem educados deixam de ter uso para qualquer religião que seja.

O campo está aberto. Pode não haver um choque entre civilizações, mas os grupos interessados particularmente na divulgação de suas religiões farão do choque entre Cristianismo e Islamismo um conflito marcante das décadas porvir. O principal cenário desta disputa, no momento, passa ao largo de Europa ou Oriente Médio. É a África.