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Tudo publicado sobre 'Cristianismo'

Igreja Anglicana pede perdão a Darwin

16/September/2008 · 198 Comentários

Uma notícia importante que deve ser celebrada e não pode escapar cá ao Weblog: o reverendo Malcom Brown, diretor de relações públicas da Igreja Anglicana, pediu oficialmente perdão a Charles Darwin, descobridor da Evolução das Espécies por meio do processo de Seleção Natural.

Darwin estava certo, diz Brown, e a Igreja Anglicana errada ao repudiá-lo no século 19.

Tags: Ciências · Cristianismo · Religião

Quem são os drusos e em que acreditam?

13/May/2008 · 39 Comentários

Tanto o Theo (que é muçulmano) quanto o André Fucs (que morou e entende da região) reclamaram de eu caracterizar os drusos como muçulmanos. Pois bem, não vai aqui qualquer teimosia: esta é uma polêmica antiga mas, que me perdoem os companheiros, não é uma discussão encerrada.

O CIA Factbook – que é o melhor almanaque aberto e confiável que há na Internet – também lista os drusos entre os muçulmanos no Líbano.

A Enciclopédia e Dicionário Kougan Houaiss, que eu costumava manter a meu lado na redação quando não havia Enciclopédia Britannica online, Wikipedia ou Google, classifica os drusos como ‘ismaelitas’, que é uma vertente do xiismo.

A Britannica, por sua vez, lava as mãos e não se posiciona: ‘é uma série de crenças religiosas nascidas dos ensinamentos ismaelitas às quais foram acrescidas elementos judeus, cristãos, gnósticos, neoplatônicos e iranianos que se combinam numa doutrina de monoteísmo estrito.’

Muitos especialistas muçulmanos, no entanto, consideram esta seita exclusiva tão estranha que não a classificam no Islã. Pergunte a um druso e ele dirá que é monoteísta e não passará disto.

Aparentemente, o Líbano passará a ser um assunto corriqueiro cá no Weblog e este grupo, 5% de sua população, terá papel importante nas decisões políticas – seja no papel de vítima, seja no de aliado de quem está no poder. O que são os drusos?

Os drusos são messiânicos. As religiões monoteístas surgidas no norte da África e Oriente Médio são todas como quebras-cabeças que costuram uma série de mitos comuns com maior ou menor intensidade. O messianismo, a idéia de que um líder desaparecido voltará para nos salvar a todos, é persa, vem do profeta Zoroastro. De lá, inoculou de leve os judeus quando do período de seu contato, e foi fazer parte, com força, da sopa cultural em que nasceu o cristianismo. O Islã, quando chega à Pérsia, também pega este messianismo forte local e assim nasce a vertente xiita.

No início do século 11, Hamza bin-Ali, um estudioso persa xiita travou contato, no Egito, com o platonismo grego e com os gnósticos – outra destas vertentes monoteístas que não chegaram a vingar de todo. A partir deste contato, Hamza bin-Ali passou a compreender Deus de uma forma diferente e, autorizado pelo califa al-Hakim, começou a reunir um grupo na mesquita local para pregar e rezar. Enquanto o califa esteve vivo, bin-Ali pregou o que quis, embora considerado herético pela maioria.

Tariq al-Hakim foi o sexto califa fatimida, descendente direto do casamento de Fátima, a filha favorita de Maomé, com Ali, considerado pelos xiitas seu primeiro imame. No Egito, al-Hakim foi intolerante com os muçulmanos sunitas, mas, mediante o imposto pago, deixou em paz as comunidades cristãs e judaicas. Embora tivesse umas idéias diferentes, bin-Ali era xiita, então não foi censurado. O califa foi assassinado em 1021 e sucedido por seu filho. E aí os drusos começam a se formar: para eles, o califa não morreu de fato mas apenas foi escondido. No dia do julgamento final, al-Hakim – o Mahdi – retornará para nos salvar a todos.

Após a morte de seu califa, teve início a perseguição dos drusos que deu forma final a sua religião. São monoteístas e só eles conhecem a verdade a respeito de Deus. Sua seita é secreta: um druso não fala dos ensinamentos para quem não é do grupo. Não aceitam conversões. Quem nasceu druso, não deixa de sê-lo; quem não nasceu, jamais virá a ser. Quando há perseguição política, é aceito que um druso renegue sua religião.

Se os drusos são uma vertente do Islã? Depende de como se vê sua história. A comunidade cristã original, chefiada por Thiago, irmão de Jesus, se considerava judia. Mas os anos se passaram e aquela seita se tornou uma religião independente. Quando decidimos que uma religião se separa de todo de sua mãe? No caso do cristianismo, foi o fato de que a religião começou a conquistar gente de fora, gentios. Ficou maior do que o judaísmo. Os drusos, no entanto, eram originalmente xiitas todos. Os mórmons são cristãos? Eles dizem que sim. Muitos cristãos dizem que eles modificaram de tal forma sua religião que, não, os mórmons são um caso distinto. Talvez sejam. É uma boa comparação com os drusos?

Cinco por cento da população libanesa é formada por drusos. Eles se dizem monoteístas e o seu é um grupo importante no balanço de poder do Líbano.

(Há outra polêmica: druso é com s ou com z? Ambas as grafias são aceitas, a com S é a corroborada por Antonio Houaiss.)

Tags: Cristianismo · Islã · Judaísmo · Oriente Médio · Religião

Bento 16, a Igreja pedófila e suas
dificuldades nos EUA

15/April/2008 · 83 Comentários

São dois os propósitos da visita que começa hoje do papa Bento 16 aos EUA. O primeiro é para o público interno norte-americano. O segundo, para o público mundial.

Sua mensagem para o mundo é conhecida: falará à ONU como chefe de Estado e aproveitará o número de jornalistas e câmeras para angariar de uma só tacada manchetes em todo o mundo. Fará uma defesa do conceito da Igreja de ‘vida’, que inclui uma ofensiva contra a legalidade do aborto e a recusa ao uso de células tronco embrionárias em pesquisas.

A discussão com o público norte-americano é bem mais complicada e já começou. No avião, a caminho, falou com os jornalistas a respeito dos escândalos continuados de pedofilia envolvendo padres e freiras nos EUA.

Nenhum papa jamais havia sido tão claro. ‘Precisamos distinguir entre a questão da homossexualidade e a da pedofilia’, ele disse. ‘São coisas diferentes.’ Assim, vai contra a interpretação da direita mais radical. ‘Leio as histórias das vítimas e me vejo com dificuldade de compreender como os padres traíram desta forma sua missão de cura, de levar o amor de Deus a estas crianças.’

Será preciso bem mais do que dizer – como disse – que está ‘envergonhado’. É a primeira visita de um papa aos EUA desde que os escândalos começaram a estourar. Muitos dos católicos norte-americanos dizem com clareza que têm receio de deixar seus filhos com padres. Há algum exagero aí, claro. Mas não importa: é fatal para qualquer ingreja. A Igreja Católica, de 2002 para cá, já reconheceu 5.000 casos de abuso sexual infantil que custaram 2 bilhões de dólares.

Há mais por vir.

Uma das missões da Igreja é impor mais dificuldades para a ordenação de sacerdotes numa época em que o número de candidatos ao sacerdócio, em várias regiões dos EUA, é de zero. Não é um problema insignificante: a dos EUA é a terceira maior população de católicos do mundo.

São dois os grupos majoritários de católicos norte-americanos. O primeiro é composto por descendentes de irlandeses, italianos e outros europeus que se mudaram para o país em princípios do século 20 e vivem, em geral, no norte do país. O segundo é de mexicanos ou descendentes de mexicanos que espalham-se pelos estados de fronteira, ao sul.

Os EUA são um caso atípico. País ocidental e rico e, no entanto, religioso. Mas isto não simplifica as coisas para Bento 16. Não tem padres, os que tem geram desconfiança, a instituição que acobertou pedófilos conscientemente é vista até com raiva em algumas comunidades católicas e, sim, está perdendo fiéis.

Como acontece no Brasil, os mexicanos vêm sendo seduzidos pelas igrejas neo-pentecostais. (Há uma dessas em cada esquina, nos EUA.) Com os descendentes de europeus é mais complicado. Católicos, nos EUA, costumam ser democratas. Os mexicanos o fazem porque o partido de Hillary e Obama trata as leis de imigração com uma mão mais generosa. Os irlandeses, italianos e outros acompanham uma visão europeizada, iluminista, cientificista, do mundo. Isto inclui o direito ao divórcio, ao aborto. Consideram obscurantista a idéia de proibir o estudo com células tronco embrionárias.

Não são europeus: não são ateus. Não se sentem seduzidos pelas neo-pentecostais. Mas têm dificuldades de conciliar sua fé com seus valores.

A missão de Bento 16 não tem nada de fácil.

Tags: EUA · Igreja Católica

Uma entrevista aos sábados

29/March/2008 · 141 Comentários

O budismo pressupunha uma enorme quantidade de tempo e solidão para uma transformação que acontecia gradualmente ao longo de anos. Hoje, queremos tudo de forma instantânea. Espiritualidade instantânea. Resultados rápidos, somos todos muito pragmáticos. Ele dizia que precisávamos tirar o ‘eu’ do centro de nosso universo. Sabe aquele ‘eu’ que nos faz acordar às três da manhã, ‘por que isso acontece comigo? Por que não sou valorizado?’ Essas coisas nos arruínam. Buda mostrou como viver sem ver as outras pessoas de um ponto de vista ganancioso, como gente que poderia nos levar à frente de alguma forma. Se libertados do ‘eu’, podemos ampliar nossa perspectiva, podemos nos alinhar com o sagrado. Buda era um radical, muito mais do que aqueles que se dizem budistas, hoje. No Reino Unido, muitos que não se interessam por religião pensam no budismo como um caminho light: sem Deus, sem pecado, um pouquinho de ioga.

Não encontramos entre as escolas budistas o tipo de inimizade que protestantes e católicos mostraram uns pelos outros. Hoje, há o início de algo que podemos chamar de fundamentalismo budista, mas jamais houve inquisição, perseguição, Cruzadas, matança em nome de Deus. Buda de vez em quando fala dos antigos deuses da Índia sem rancor; os profetas bíblicos só citavam os antigos deuses com fúria. Eu não diria que intolerância está na raiz das religiões ocidentais, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Mas intolerância nasce delas. É como se fosse uma tentação à qual os monoteístas se entregam de vez em quando. Quando você tem um deus personalizado, é muito tentador usar a religião para apoiar seus preconceitos. Religiões monoteístas são assim. Em toda geração há gente que caia nessa e há quem resista.

Karen Armstrong

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Leituras

13/March/2008 · 28 Comentários

Red cat, de Peter Spiegelman, e Adeus, Hemingway, de Leonardo Padura Fuentes, estão entre minhas descobertas mais recentes na literatura policial. (Embora sejam livros completamente diferentes um do outro.)

Padura Fuentes é cubano, vive em Cuba, fui apresentado a ele por um amigo que divide comigo esta fixação por policiais. Seu detetive é um policial aposentado, Mario Conde, que tenta virar escritor. Por conta do amor pela literatura, seus ex-companheiros da delegacia pedem que ele tente descobrir o que houve na casa de Ernest Hemingway uns 40, 50 anos antes. É que um cadáver com esta idade e uma carteira do FBI foi desenterrado do jardim mais ou menos na época em que o velho escritor esteve em sua finca pela última vez.

A Cuba de hoje e a de antes da Revolução convivem ao longo de uma história intrincada, cheia de flashbacks. O cara escreve muito bem – é um romance policial com densidade, personagens profundos, com um pé naquela melancolia do noir e outro na boa literatura.

Red Cat é completamente diferente, seu cenário é a Nova York contemporânea, e John March, o personagem principal, é um bom e velho detetive particular. Seu irmão, um executivo de banco riquíssimo, está sendo chantageado por uma de suas muitas amantes.

Peter Spiegelman não vai na alma atormentada de seus personagens com a profundidade de Padura Fuentes, mas o pobre March apanha, e apanha muito, e apanha toda hora, como cabe a um detetive particular teimoso. A grande atração é uma trama bem costurada que envolve a filmagem das transas dos amantes, o estranhíssimo e sempre bizarramente antenado mercado de arte contemporânea novaiorquino, o pesadelo de quanto este tipo de imagem pode vazar para a Internet. Romances policiais não costumam mexer com tecnologia e as mudanças provocadas por ela na sociedade. Spiegelman a usa e é o que torna seu livro divertidíssimo.

Um cenário bem bolado costuma ser das coisas que me atraem em romances policiais – daí que a filmagem clandestina do sexo, tão comum nos tempos vigentes, ou a Havana de hoje, me atraíram para ambos os romances. E daí que fui com sede atrás de Yiddish policemen’s union, de Michael Chabon.

Sua premissa é excelente. Israel não aconteceu. Para lidar com o problema do pós-Holocausto, os EUA cedem um naco do Alaska para onde os judeus podem migrar. Em 2005, no entanto, 60 anos após a cessão, as terras estão para voltar à posse do governo norte-americano. A língua que se fala nas ruas é o iídiche, não o hebraico. Está todo mundo meio desesperado para conseguir um visto para algum lugar do planeta – é preciso se mudar. E, em meio a esta confusão, acontece o assassinato de um homem desconhecido que, naturalmente, tem tudo a ver com tudo.

Encarei o livro de frente, ao longo último mês, algumas vezes. Cheguei ali à página 50 muito lentamente. Empaco no ritmo. Há de ser bom, talvez torne a ele em uns meses. Por enquanto, fica adiado.

Dois quadrinhos andaram pelas minhas mãos, ambos editados pela Conrad. O primeiro é Fun home, obra autobiográfica de Alison Bechdel. A autora é lésbica, seu pai era homossexual enrustido – coisa que só foi descobrir muito mais tarde. Ao recontar a história familiar que viu com olhares de menina e tentar reinterpretá-la, Bedchel procura talvez a origem de sua identidade. É uma ‘tragicomédia familiar’, diz o subtítulo muito adequado. Nunca tinha parado para pensar neste momento ali entre a adolescência e a idade adulta no qual homossexuais começam a lidar com o que são, o que isto significa, o quanto que a sexualidade nos encaixa na sociedade de uma forma diferente, limitando alguns espaços, abrindo outros. É um momento de extrema angústia onde muitos – caso do pai de Bechdel – se perdem completamente para a vida. É um álbum surpreendentemente denso, extremamente delicado.

O outro é o Clic 3, de Milo Manara. A trama não varia muito em relação aos primeiros da série: Claudia Christiani está lá com o implante no cérebro que a expõe. Alguém, com um controle remoto, pode num ‘click’ fazer com que ela enlouqueça de desejo sexual que precisa ser imediatamente saciado. Manara é isso: estas grandes fantasias que não carecem muito de enredo, estas mulheres belíssimas de alma italiana e corpo eslavo – pernas longas, bundas grandes, seios fartos. Christiani é uma moça rica é profundamente conservadora, então há sempre um certo desespero quando ela é levada aos píncaros da libido. (E há por certo aí alguma metáfora sobre como as pessoas que se mostram mais conservadoras costumam ser as mais passíveis a escândalos em geral os mais contorcionistas.) Mas Manara não é a história, Manara é um mundo próprio, este conjunto de mulheres fantásticas sem quaisquer pudores e homens absolutamente maravilhados com os cenários que elas ensaiam nos mostrar.

Andei também com Os melhores jornais do mundo, de Matías Molina. Ele, que é espanhol de nascença, brasileiro com sotaque e um dos pais do jornalismo de economia tupinambá, é provavelmente o melhor nome para encarar esta tarefa: contar quais os melhores jornais do mundo, suas histórias e explicar o que faz, afinal, um bom jornal? Todos listados, suas histórias deliciosamente contadas, Molina chega à seguinte conclusão. O jornal excelente parte do princípio de que seu leitor é inteligente. Além de cobrir a cidade, o país, o cotidiano, ele tem também um pé fortemente fincado no mundo, com correspondentes em vários países, viagens constantes. Para fazer um bom jornal, é preciso olhar para fora e compreender como seu país é visto de fora para dentro, como ele se encaixa na geopolítica. Por fim, cultura. Há uma cobertura sofisticada das artes.

Por fim, estou me divertindo muito, apesar de uma leitura lenta, com Em busca de Jesus, de John Dominic Crossan e Jonathan Reed. O título em português sugere leitura para conversão – não é. É uma batida das descobertas arqueológicas recentes que apresentam o mundo e o contexto no qual viveu Jesus. É história, não religião. Ciência. Mas este fica para uma próxima batelada de livros.

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As múmias paulistanas e
as moças do Brasil colonial

29/February/2008 · 97 Comentários

A notícia mais fascinante da semana é a história das duas múmias encontradas no Mosteiro da Luz, em São Paulo. Uma delas, a mais bem conservada jamais vista no Brasil, tem algo como 200 anos. Estavam juntas as múmias das freiras, numa carneira – ou gaveta – na parede. Uma deitada em posição de enterro, a outra de lado, como que apoiando a cabeça contra o peito da mais antiga.

Diz a lenda que as freiras reclusas do mosteiro certa vez foram enterrar uma irmã, abriram a carneira para afastar os ossos da enterrada anterior, e ela estava intacta. Pode ser que a história contada há gerações tenha mesmo se confirmado. É uma pena que a versão online do Estadão não tenha trazido à rede aberta todas as excelentes reportagens de Sérgio Duran, publicadas na edição de ontem. (Internet que carece login e senha mediante pagamento não vale o link; apenas uma das matérias está aberta.)

Será possível aprender um bocado com as duas freiras. O líquido do corpo se foi, mas o resto do material orgânico ficou: pele, músculos, parte dos órgãos. De presto, será possível aprender sobre os hábitos alimentares daquela São Paulo miúda que existia no final dos mil e setecentos, pouco antes de a família real portuguesa chegar ao país. Dependendo da causa de morte – coisa que pode ser descoberta – talvez venhamos a saber algo sobre alguma epidemia. Já há historiadores buscando avidamente, nos arquivos das freiras reclusas que ainda hoje fazem as pílulas do frei Galvão, todas as pistas possíveis a respeito das identidades delas. E, como é quase certo que haja catacumbas no chão do mosteiro que já mostrou ter um clima adequado à mumificação natural, os arqueólogos já esperam encontrar outras múmias intactas.

Estes dois séculos nos separam de um Brasil em tudo diferente do atual – e a questão não é apenas de escala, de tamanho. Simplesmente não nos reconheceríamos naquela gente antepassada de muitos de nós. Naquela época, não eram apenas as freirinhas do Mosteiro da Luz que ficavam trancafiadas, sem contato com o mundo exterior. As boas casas das cidades escondiam também suas mulheres brancas. O casario colonial não tinha venezianas nas janelas e sim gelosias, treliças com minúsculas passagens para a luz. Não se via, da rua, o interior daquelas casas com pé direito alto. Quando as mulheres saíam era muito cedo de manhã, ainda escuro e em direção à missa, sempre acompanhando seu marido, pai ou irmão que caminhava à frente da fila de moças cobertas com mantilhas, sem mostrar um fio de cabelo. Levavam a cabeça baixa. Não havia namoro no Brasil do século 18. Havia as negras e as mulheres para casar. Ninguém confundia uma com a outra. A distância entre aquele Brasil e a Ipanema de hoje, com tanta pele exposta, é aterradora.

Nesse tempo das múmias, a Igreja tinha o poder que Bento 16 lamenta tanto ter perdido: ela ditava o que podia e o que não podia, ditava o ritmo da vida cotidiana. Acordava-se de manhã com os sinos da igreja mais próxima chamando para a missa – e era o sino, ao longo do dia, que marcava as horas. Todas as fases da vida recebiam a chancela da Igreja. Certidão de nascimento não havia, o que havia era batismo. O casamento não era civil, mas religioso. Os que tinham educação recebiam-na de padres. (Não raro, toda família de boa cepa fazia do segundo filho um padre.) Mas, apesar deste poder, não quer dizer que a relação com a Igreja fosse sempre tranqüila. Tanto paulistanos quanto cariocas expulsaram os jesuítas mais de uma vez de suas cidades. Padres que empatavam demais a vida eram hostilizados pela turba. (Mas todo mundo tinha medo de excomunhão.) A hipocrisia sexual era de regra. Como padres eram quase sempre os únicos homens com acesso às mulheres todas, não hesitavam em fazer proveito. Tinham filhos, não raro os registravam.

Havia hipocrisia, havia malícia, mas havia também um ser profundamente religioso. Vez por outra, aquelas meninas trancafiadas na pré-adolescência sentiam calores e piravam: falavam em línguas, viam Deus ou Jesus ou algum anjo, criavam fama de milagreiras e a piração pré-adolescente virava reclusão para a vida, dada a óbvia vocação religiosa. Eram meninas assim que iam parar em mosteiros como este, construído pelo único santo brasileiro. E são duas delas que nos vieram visitar.

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E se o Islã não existisse?

9/January/2008 · 85 Comentários

Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?

Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.

O raciocínio é todo de Fuller.

Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.

São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:

Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.

Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.

Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.

Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.

Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.

A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.

(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)

Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.

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Cristianismo versus Islã

26/December/2007 · 173 Comentários

Na virada do século 19 para o 20, 200 milhões de muçulmanos viviam no mundo. Foi um século exuberante para o Islã: hoje, são 1,5 bilhão de fiéis. Em compensação, um ocidente cada vez mais laico produziu um crescimento em proporção muito menor à do aumento populacional do cristianismo. Jesus ainda vence Maomé – são 2 bilhões de cristãos, afinal – mas a se julgar pelo ritmo de uma e de outra, em 2050 o Islã deverá ser a maior religião do mundo.

A Economist edição dupla, que cobre a quinzena final de 2007, traz uma reportagem estupenda sobre o equilíbrio das duas filhas do judaísmo. (Diferentemente de cristãos e muçulmanos, judeus, os inventores do primeiro Livro sagrado, não vêem como sua a missão de sair pelo mundo a converter seguidores.)

De um lado, como financiadores, estão os poderosos evangélicos norte-americanos, que investem pesadamente na formação de missionários para espalhar pelo mundo. Do outro, estão a família real saudita e incontáveis milionários do petróleo árabes que gastam um bom dinheiro para espalhar o seu livro sagrado a qualquer interessado. (Peça um para você: www.freekoran.com.)

Os cristãos são mais espertos quando o assunto é marketing: no mercado dos EUA, há Bíblias de todos os tipos, adaptadas para crianças, adolescentes, adultos, comentadas ou não, há revistas multicoloridas, há filmes. E este material vai se espalhando em línguas várias.

Os muçulmanos têm uma tremenda vantagem: na maioria dos países islâmicos, a tentativa de converter qualquer um a outra religião é crime – muitas vezes, só rezar para outro Deus já é passível de cadeia ou outra pena. Então o Islã tem livre acesso à Europa, aos EUA e Américas, enquanto missionários cristãos não podem jogar no campo inimigo, salvo imenso risco.

Mas nem tudo é positivo. O Onze de Setembro foi uma rasteira. A maioria das entidades filantrópicas que investiam no espalhar da religião de Maomé foram declaradas suspeitas ou mesmo ilegais, por conta de envolvimento com o financiamento do terrorismo. Além disso, o terror despertou uma profunda desconfiança mundial. Não bastasse, islâmicos resistem a técnicas modernas de marketing, já que consideram seu livro sagrado a palavra literal de Deus – e não meramente inspiradas por, caso dos cristãos. Mexer com ela seria sacrilégio.

Por sua vez, os cristãos seguem perdendo espaço no coração europeu de sua origem. Por um lado, perdem para o próprio Islã, conforme jovens nascidos em famílias que migraram procuram contato com a religião de pais e avós numa busca de identidade; por outro, perdem para o nada, conforme jovens de origem européia bem educados deixam de ter uso para qualquer religião que seja.

O campo está aberto. Pode não haver um choque entre civilizações, mas os grupos interessados particularmente na divulgação de suas religiões farão do choque entre Cristianismo e Islamismo um conflito marcante das décadas porvir. O principal cenário desta disputa, no momento, passa ao largo de Europa ou Oriente Médio. É a África.

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A verdadeira história do Papai Noel

24/December/2007 · 26 Comentários

Por um tempo, em NoMínimo, tomei o hábito escrever algo de diferente para cada Natal. Continuando a série de republicações, esta é a verdadeira história do Papai Noel, que saiu no 25 de dezembro de 2004.

Feliz Natal a todos!

Papai Noel com bochechas rosadas e sorriso bonachão nasceu num poema anônimo, publicado no New York Sentinel, jornal que não existe mais, no 23 de dezembro em 1823. Chamava-se São Nicolau, ainda, era um elfo baixinho, carregava seu saco de presentes com o qual descia chaminés abaixo. Ali já estava a costura de um santo católico com mitos nórdicos. Tem três pais modernos: o poeta anônimo, um mordaz cartunista político analfabeto e um desenhista publicitário conhecido pelas moças seminuas pin-ups que traçava.

De origem mesmo, Papai Noel é personagem histórico, São Nicolau. Cinco santos católicos tem este nome, um deles papa. Do original, São Nicolau de Bari, pouco se conhece. Nasceu em Lícia, que hoje fica na Turquia, em finais do século 3. Órfão de pais ricos, peregrinou pela Palestina e Egito, abraçou o cristianismo. Era uma época tumultuada, finais do governo de Diocleciano, quando seguir Cristo já era atividade popular mas ainda coisa perseguida. Jovem ainda, Nicolau sacramentou-se padre e foi feito bispo de Mira, sua região natal.

Ficou preso e provavelmente foi torturado muitos anos até que ascendeu ao trono romano Constantino, em 306, que posteriormente cristianizou o império, em 312. Tempo de rancores – era preciso lidar com a turma que renegou Cristo para evitar a prisão; inventaram o sacramento da confissão por conta. Carecia também gerenciar o conflito entre o imperador e o papa Silvestre I, que disputavam o comando da Igreja. E, sobretudo, alguém precisava decidir o que afinal era Jesus Cristo.

Em 325 fez-se a primeira reunião de todos os bispos para afinar o discurso no Concílio de Nicéia. Nicolau era um dos defensores da tese da trindade – de que Cristo era Deus – e seu lado terminou por vencer o grupo que o via como um profeta, um homem entre homens. Os bispos decidiram também que evangelhos entravam na Bíblia e afastaram o cristianismo do judaísmo original, abolindo o sábado como dia de descanso e adotando o domingo, incluindo-se aí uma nova data para a Páscoa.

No entanto, ele é um santo embaraçoso para a Igreja contemporânea – na Enciclopédia Católica oficial, põe-se em dúvida até se participou ou não do concílio. Nem todos os bispos foram, só a maioria. Mas o bispado de Nicolau incluía a Anatólia, local do concílio – por que estaria ausente duma reunião em casa? Só que é embaraçoso: os milagres lhe atribuídos são um tanto incríveis e a Igreja implica com o encontro da religião com crendice popular. Uma vez, por exemplo, São Nicolau caminhou pelas águas do mar para salvar um pescador que ia afogando.

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Quem foi realmente Jesus Cristo?

21/December/2007 · 71 Comentários

Quem foi Jesus? Ele realmente existiu? Sobre o que estava falando realmente? Em que mundo viveu? As perguntas não são simples. Esta minha reportagem a seguir foi publicada originalmente em NoMínimo, no Natal de 2005. Como o Natal se aproxima, como a discussão sobre o Jesus Histórico ainda rende alguns comentários abaixo, achei que valia trazê-la de volta à tona.

Em busca de Jesus

No ano de 1968, trabalhando em Givat ha-Mivtar, cidadezinha próxima a Jerusalém no caminho para Nablus, Cisjordânia, um grupo de operários descobriu um cemitério. A Guerra dos Seis Dias havia terminado meses antes e a região que pertencera à Jordânia tinha sido recentemente conquistada. Os arqueólogos chefiados por Vassilios Tzaferis, diretor de escavações da Autoridade de Antiguidades de Israel, encontraram um total de 15 ossários de pedra calcária. As caixas, algumas com inscrições, outras sem, continham as ossadas de 35 pessoas, todas mortas entre os últimos anos do século 1dC e as décadas seguintes.

Um deles era um homem jovem, com algo entre vinte e tantos e trinta e poucos anos. Morreu crucificado.

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Newton ou Jesus no 25 de dezembro?

16/December/2007 · 190 Comentários

Em alguns estados dos EUA, a exposição pública de presépios e símbolos cristãos similares é proibida pelo medo de ofender judeus e outros, não incluindo ateus. O apetite do marketing é saciado em todo o país por um super-ecumênico ‘boas festas’, entre as quais incluem-se o chanucá judaico e o ramada islâmico, além do ‘kwanzaa’, fabricado gratuitamente em 1966 para que os negros pudessem celebrar seu próprio feriado de solstício. Os norte-americanos desejam ‘boas festas’ uns aos outros e gastam uma quantias enormes em presentes para as ‘festas’. Se bobear, devem até pendurar meias de ‘festas’, cantar canções de ‘festas’ e decorar árvores de ‘festas’. Nunca ouvi falar de um Papai Festas vestido de vermelho, mas por certo esta é uma questão de tempo.

Por bem ou por mal, a nossa é, historicamente, uma cultura cristã e todas as crianças criadas sem uma noção básica das histórias da Bíblia são diminuídas, incapazes de compreender certas alusões literárias. Não tenho qualquer simpatia pelo cristianismo, não suporto a orgia anual de gastos recíprocos, mas devo dizer que acho muito melhor dizer ‘feliz Natal’ do que ‘boas festas’.

O biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins, ateu convicto que é, pode preferir que se chame de Natal, mesmo. Mas tem uma sugestão de quebra. Ao invés de Jesus porque não celebrar, no dia 25, o aniversário de outro sujeito, talvez até bem mais importante para a história humana?

Assim: bom dia de Newton.

via Arts & letters daily

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Um conto de Natal

13/December/2007 · 109 Comentários

Eram quatro no vagão de metrô da linha Q, em Nova York, celebrando Chanucá, o festival das luzes judaico, que este ano começou no dia 4 e terminou ontem.

Um sujeito levantou: ‘Judeu sujo’, gritou. Outro: ‘Feliz Chanucá para vocês, isso sim, foi quando mataram Jesus, não é?’

Desceram a pancada, ninguém se moveu. Com uma exceção: Hassan Askari, um estudante de 20 anos que trabalha num restaurante no East Village.

O rapaz se levantou e enfrentou a turba enquanto o jovem que apanhava puxou o freio do trem. Walter Adler, o rapaz ferido, está inteiro, apesar dos roxos pelo corpo. A polícia chegou em tempo.

No passado era diferente, mas hoje são raros os crimes de ódio racial em Nova York. E, embora neste caso os católicos sejam os vilões, dá uma boa história de Natal: o dia em que um muçulmano salvou dois casais de judeus de uma turba cristã enfurecida.

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A Bíblia vista pelo GoogleEarth

12/December/2007 · 32 Comentários

Moisés vai à Terra Santa

via Metafilter

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Adolf Hitler e as origens cristãs do nazismo

5/December/2007 · 159 Comentários

Uma das polêmicas levantadas pelo post abaixo é sobre as bases cristãs do nazismo.

Dizer que a Igreja Católica foi nazista, mesmo listando há simpatia papal, é absurdo. A Igreja é vasta e diversa, polemiza internamente por tradição. E seria uma lástima esquecer heróis como o franciscano São Maximilian Kolbe, que um dia, em Auschwitz, se ofereceu para ir à morte no lugar de um pai de família judeu; como seria uma lástima esquecer o número de pessoas salvas por incontáveis padres poloneses, incluindo-se na lista o papa João Paulo 2o.

Mas negar as origens cristãs do nazismo é simplesmente ignorar documentos os mais básicos, começando-se pelo Mein Kampf de Adolf Hitler:

Infelizmente a nação inteira é que teve de suportar as conseqüências desse desvio, pois as conseqüências dai decorrentes sobre o relaxamento do sentimento religioso coincidiram justamente com um período em que tudo começava a enfraquecer-se e oscilar nos seus fundamentos e até os tradicionais princípios da moral e dos costumes ameaçavam entrar em colapso.

Parte 1, Capítulo 10

Sua vida [do judeu] só se limita a esta terra, e seu espírito conservou-se tão estranho ao verdadeiro Cristianismo quanto a sua mentalidade o foi, há dois mil anos, ao grande fundador da nova doutrina. Verdade é que este não ocultava seus sentimentos relativos ao povo judeu; em certa emergência pegou até no chicote para enxotar do templo de Deus este adversário de todo espírito de humanidade que, outrora, como sempre, na religião, só discernia um veículo para facilitar sua própria existência financeira. Por isso mesmo, aliás, é que Cristo foi crucificado, enquanto nosso atual cristianismo partidário se rebaixa a mendigar votos judeus nas eleições, procurando ajeitar combinações políticas com partidos de judeus ateístas e tudo isso em detrimento do próprio caráter nacional.

Parte 1, Capítulo 11

As confissões cristãs, todas duas, estão presenciando indiferentes a essa profanação e destruição de um nobre e incomparável ser presenteado à nossa terra pela graça de Deus. Para o futuro da humanidade, não importa saber se os protestantes vencem os católicos ou os católicos os protestantes, mas sim, se o homem ariano é conservado no mundo ou se desaparece. Apesar disso, essas duas confissões, longe de combaterem o destruidor da espécie, tratam apenas de se aniquilarem mutuamente. Justamente o homem de sentimentos nacionalistas devia ter a sagrada obrigação, cada um dentro do seu próprio credo, de cuidar, não só de falar sempre da vontade de Deus, mas também de cumpri-la, não permitindo que a obra de Deus seja desonrada. A vontade de Deus foi que deu aos homens sua forma exterior, sua natureza e suas faculdades. Aquele que destruir a obra de Deus está desta forma combatendo a obra divina, a vontade divina.

Parte 2, Capítulo 9

Não incluo o link, mas Minha Luta de Hitler está à disposição, na Internet, para quem quiser lê-lo, não importa a língua.

Se a leitura de Hitler do cristianismo era distorcida? Certamente. Toda e qualquer leitura por parte de Hitler era distorcida: de filosofia, de arte, de ciência. Toda. Se há dúvidas históricas sobre as reais crenças pessoais de Hitler? Sim, há. O que mais há a respeito de Hitler, provavelmente a figura mais importante da história do século 20, são dúvidas a respeito da origem de seu caráter e de suas crenças pessoais mais íntimas. Não é à toa que ninguém conseguiu produzir uma biografia definitiva. O espaço para interpretação é vasto e a documentação mais íntima, escassa. . Ele não se abria muito, vivia o personagem que criou. Talvez até mesmo fosse ele, sem qualquer sentido mais profundo que não o do monstro.

Mas o discurso do nazismo, tal qual ele o cunhou, era anti-ateu e cristão.

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A esperança, o papa, direita e esquerda

5/December/2007 · 197 Comentários

Quem dedicou-se ao noticiário geral, na última sexta-feira e durante o fim de semana, há de estar perdoado ao considerar que o papa Bento 16 publicou uma encíclica contra o ateísmo.

Spe Salvi – A esperança salva – é bem mais do que isso. É possível que, hoje, Bento 16 seja o mais profundo pensador da direita ocidental. O ateísmo militante talvez o perca por conta de preconceitos religiosos; e a direita religiosa talvez não compreenda sua mensagem porque simplesmente não quer lê-la.

Spe Salvi é, por exemplo, um elogio a Karl Marx. O papa não vê o idealizador do comunismo como o mal encarnado, um vilão dentre os grandes vilões da história; ao contrário, percebe Marx pelo que ele foi. Um grande observador das trágicas conseqüências que o capitalismo industrial trouxe no século 19 e, mais que isso, quem primeiro e com mais profundidade analisou as causas da pobreza e injustiça social e, para elas, sugeriu uma solução aplicável e funcional.

O papa concorda com a análise de Marx, reconhece que o sistema capitalista é um gerador de desigualdade; discorda, no entanto, da solução. Ou, para usar suas palavras na tradução oficial do Vaticano para o português luso:

Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta ‘fase intermédia’ conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles. O facto de não dizer nada sobre isso é lógica conseqüência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.

A esquerda moderna não contestaria em nada sua análise. (Talvez se abstivesse, apenas, de chamar um mundo justo de ‘Nova Jerusalém.) Mas o que a experiência comunista certamente demonstrou é que uma brutal mudança de ordem social costuma levar a uma ditadura e, mesmo que passe a ilusão de ter resolvido o problema da injustiça social, o preço é cobrado em liberdade.

Sem liberdade, a vida perde o sentido.

Mas a questão da injustiça social e disparidade provocadas pelo capitalismo segue sem solução e, daí o papa sugere, só a esperança salva. E uma esperança maior, mais profunda, uma esperança nascida da compreensão de que há um ser maior – que existe um Deus – e que Ele, no Juízo Final, nos salvará a todos. E daí que vem o trecho que chamou os olhos de jornalistas em busca da idéia chave, do que chamamos no jargão de lide:

O ateísmo dos séculos XIX e XX é, de acordo com as suas raízes e finalidade, um moralismo: um protesto contra as injustiças do mundo e da história universal. Um mundo, onde exista uma tal dimensão de injustiça, de sofrimento dos inocentes e de cinismo do poder, não pode ser a obra de um Deus bom. O Deus que tivesse a responsabilidade de um mundo assim, não seria um Deus justo e menos ainda um Deus bom. É em nome da moral que é preciso contestar este Deus. Visto que não há um Deus que cria justiça, parece que o próprio homem seja agora chamado a estabelecer a justiça. Se diante do sofrimento deste mundo o protesto contra Deus é compreensível, a pretensão de a humanidade poder e dever fazer aquilo que nenhum Deus faz nem é capaz de fazer, é presunçosa e intrinsecamente não verdadeira. Não é por acaso que desta premissa tenham resultado as maiores crueldades e violações da justiça, mas funda-se na falsidade intrínseca desta pretensão. Um mundo que deve criar a justiça por sua conta, é um mundo sem esperança.

Ao ser incapaz de enxergar o mundo pelos olhos de um ateu, Bento 16 só consegue ver o ateísmo como sendo um estado humano em oposição ao de ser crente. Mas não é por aí. Não há uma opção, ‘vou crer’, ‘vou ter fé’, ‘me esforçarei para perceber a existência de Deus’. Ninguém é ateu porque o mundo é cruel. Ou porque se chega à conclusão de que, se Deus existisse de fato, o mundo seria melhor. Estas questões sequer passam pela cabeça de um ateu.

Não.

Religião, para um ateu, é só uma convenção social, um acordo cultural. A maioria dos ateus jamais chegam, em vida, à conclusão de que Deus não existe. Pelo contrário. O ateu típico sequer compreende de onde foi que os religiosos tiraram esta idéia de Deus, para começar. O ateísmo nasce da compreensão, da aceitação, de que quase nada sabemos e que sabemos, apenas, aquilo que aprendemos utilizando métodos rigorosos de verificação ao longo dos séculos. O paranormal, para o ateu, é uma fantasia. Em se pensando racionalmente, tudo sugere que a cultura de uma comunidade leva os indivíduos nela a crerem na divindade da preferência local. O ateu vê um universo de possibilidades imaginadas pela frente.

Mas esta, evidentemente, é outra discussão.

A partir da idéia de que o ateísmo é um moralismo, o papa repete um argumento ao qual a direita religiosa se afeiçoou nos últimos anos. O de que a barbárie, no século 20, foi fruto do ateísmo. O argumento é falacioso – provavelmente tanto quanto o de que é a religião que faz do fanatismo islâmico assassino. Houve barbárie antes do século 20, quando o mundo era todo crente, e continuará a haver barbárie se um dia o mundo for todo ateu. Barbárie esteve entre as práticas católicas durante a inquisição, esteve entre as práticas romanas no Circo e na crucificação dos milhares de escravos rebelados com Espártaco e está presente na ânsia genocida do Islã de Darfur. Adolf Hitler, os cristãos odeiam reconhecê-lo, era cristão praticante e falava em nome de Deus e de Jesus a toda hora. Ainda assim, fez o Holocausto.

Hitler não foi o único genocida do século 20, russos, cambojanos e armênios o sabem. Stálin e Pol Pot eram ateus e genocidas. Ateísmo não é sinônimo de bom caratismo; ser crente, também não.

Um dos conceitos aos quais se apega Bento 16 é que a fé precisa passar pela razão – sem razão, a fé é fanatismo. Talvez. Para ele, a razão sem fé leva à falta de uma ética humana básica. É que ele – como a maioria dos teólogos católicos contemporâneos – não compreende de onde pode nascer uma ética sem que ela passe por Deus. É uma incompreensão nascida da incapacidade de compreender a existência sem Deus. Mas ética é inerente ao homem. Se sentimos fome, compreendemos que deixar o outro sem comer é desumano; se andamos para onde queremos, sabemos que restringir a liberdade de ir e vir é desumano; se sentimos dor, não infligimos dor. Se pensamos e desejamos nos manifestar a respeito de qual opção consideramos melhor, sabemos que a liberdade de expressão é inerente ao homem. A ética é inerente ao homem.

Bento 16 reconhece, no mundo, os mesmos dramas que a esquerda enxerga. Reconhece os mesmos dilemas com os quais a ciência luta. Concorda com a necessidade de empregarmos uma ética e é possível com franqueza concordar com ele que a esperança num mundo melhor é o que nos move a todos, humanos.

Mas, a partir do catolicismo, Bento 16 considera que deve não apenas guiar seus fiéis como também influir na política das nações livres. A maneira como a Igreja enxerga o homossexualismo, por exemplo, não é apenas ironicamente hipócrita; é também desumana, anti-ética, ao excluir um boa quantidade de homens e mulheres que lhes têm direitos sociais básicos, como o do casamento, negados.

E esta é, afinal, apenas uma das muitas questões que fazem parte das grandes mudanças sociais que estamos vivendo. Bento 16 é fascinantemente inteligente, perspicaz e desafiador. Mas ele está no lado de quem quer preservar o status quo. Nada contra. É assim mesmo que se definem conservadores em oposição a progressistas.

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Bento 16 e Mahmoud Ahmadinejad, seu amigo

28/November/2007 · 20 Comentários

O Irã tem um parceiro inesperado em seu conflito aberto com os EUA: o papa Bento 16. Informa a Time:

Por enquanto, o papa segue discreto. Durante sua visita à Áustria em setembro, ele evitou a questão nuclear iraniana num discurso chave aos diplomatas em Viena, sede da Agência Internacional de Energia Atômica. Apesar de o Vaticano estar preocupado com o desenvolvimento de armas nucleares por parte do Irã, o pontífice prefere pessoal e doutrinariamente que se chegue a um acordo negociado, não importa o custo. Em 2003, quando era um cardeal sênior, o atual papa esteve ao lado de João Paulo 2o em sua oposição à invasão norte-americana ao Iraque. Muitos em Roma citam paralelos entre a atual pressão da linha dura dos EUA pelo confronto contra o Irã e o movimento que aconteceu antes da guerra contra o Iraque. ‘A Santa Sé não esqueceu do que aconteceu com o Iraque’, diz uma fonte muito próxima ao Vaticano. ‘Vendo como a situação se desenvolveu naquela época, a Santa Sé está agindo com extrema prudência.’

A relação entre Irã e Roma é íntima. Na Santa Sé, a delegação diplomática persa é a segunda maior – perde para a da Republica Dominicana. Não é uma relação nova: ela data de vários séculos, de muito antes da chegada dos ingleses à Nova Inglaterra. E é contínua há várias décadas, sem ter sido interrompida um único dia pela Revolução Islâmica. Na verdade, persas xiitas e católicos romanos compreendem-se com surpreendente proximidade.

Embora a população cristã seja muito pequena no Irã, o país é visto pelo Vaticano como um jogador fundamental nas relações inter-religiosas. Especialistas descrevem o Catolicismo e o Islã Xiita como tendo uma estrutura muito similar. ‘O que existe no Irã é uma tradição acadêmica muito forte, com aspectos tanto filosóficos quanto místicos – de muitas formas parecido com o catolicismo, diz o padre Daniel Madigan, um estudioso jesuíta do Islã que participa da comissão para relações com o Islã do Vaticano e ajudou a marcar uma visita recente do ex-presidente iraniano Mohammed Khatami ao papa. Também há uma hierarquia clerical no xiismo que não existe em outras vertentes do Islã. Madigan observa que os iranianos estudam outras culturas e religiões há muito tempo. ‘Eles entendem o ocidente’, ele diz. ‘Hoje, estão isolados por conta de sanções, mas eles realmente querem interagir com o mundo.’ Roma é um lugar no qual esta relação já começou.

O papa não se manifestará por enquanto. Virá à frente se pressentir que os planos de invasão são concretos. Antes, enquanto a tensão entre Irã e EUA cresce, Sua Santidade espera que ao menos uma coisa seja diferente de como foi nos momentos anteriores à invasão do Iraque. Ele gostaria que padres, bispos e cardeais norte-americanos se manifestassem contra uma nova guerra.

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A origem dos EUA e o Dia de Ação de Graças

22/November/2007 · 39 Comentários

Em novembro de 1620, desembarcaram dos navios Mayflower e Speedwell 122 homens, mulheres e crianças, entre eles o índio americano Squanto que fora escravo e, liberto, voltava aos seus e um bebê, que nascera durante a travessia do Atlântico. Eram religiosos puritanos, vestiam-se de preto, partiram da Inglaterra para fundar a segunda colônia do país no Novo Mundo a – como não poderia deixar de ser chamada – Nova Inglaterra.

As viagens à praia onde hoje é o estado de Massachusetts eram curtas – todos tinham medo e o deserto prometia ser frio, muito frio. Começaram a construção de uma pequena vila em janeiro – até março, a neve e as doenças da travessia já haviam matado muitos. Sobraram 53 peregrinos.

Plantaram na primavera. O trigo e o centeio não vingaram na terra nova – mas Squanto ensinou-lhes a plantar milho, preparando a terra com restos de peixe.

Quando terminou a primeira colheita, em novembro de 1621, o governador da pequena colônia declarou um feriado, um dia de Ação de Graças, para que agradecessem a Deus pela comida que tinham e com a qual poderiam enfrentar aquele inverno que viria. Para a festa – diz a tradição –, os 53 convidaram os Wampanoag, tribo que vivia nas proximidades e com quem convinha viver bem. Aos patos e gansos selvagens que os peregrinos haviam caçado, somaram-se veados que os índios trouxeram.

Há dúvidas se de fato foi assim: alguns historiadores sugerem que o conflito entre nativos e brancos já era dado, embora documentos da época dêem conta de que houve sim uma festa de confraternização. Mas foram os índios que lhes ensinaram a plantar milho, fazer compotas de frutas e encarar o inverno da Nova Inglaterra. É até curioso que o estado mais à esquerda dos EUA atual – Massachusetts – seja a terra onde chegaram os puritanos.

Plymouth, esta colônia fundada pela turma que chegou no Mayflower, não é a primeira colônia inglesa. Virgínia, bem mais ao sul, foi fundada década e meia antes. Até hoje a cultura da Nova Inglaterra e a do sul são um bocado diferentes.

Thanksgiving, o mais importante feriado dos EUA, é celebrado toda quarta quinta-feira de novembro. Dia de comer peru, purê de batatas, milho cozido, torta de maçã. O tipo de coisa que os peregrinos teriam a sua disposição.

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E quem afinal está certo na
Guerra Civil Espanhola?

22/November/2007 · 98 Comentários

Boa a discussão aí abaixo esta a respeito da Guerra Civil Espanhola. E como é polarizado este tempo em que vivemos: dê um assunto e, rapidamente, dois bandos se formam sem vontade de ceder um palmo de terreno ao adversário. Não faz muito tempo, dizia-se que esquerda e direita eram conceitos ultrapassados. Aí, de repente, duas visões absolutamente distintas da história recente e da ética que deve nos conduzir em sociedade estão sob a mesa.

E qual será a correta?

No caso espanhol, há um livro precioso do ensaísta Juan Eslava Galán. Chama-se Una historia de la guerra civil que no va a gustar a nadie; Isto mesmo: Uma história da guerra civil da qual ninguém gostará. A sua versão, fascinante, é uma na qual só há vilões e incompetentes.

Espanha, 1931. Um país agrário quase falido, pobre, com alto índice de analfabetismo, 24 milhões de habitantes. Crise. O Partido Republicano vence as eleições municipais em todas as grandes capitais. Temendo um golpe, o rei Alfonso 13 parte para o exílio. No vácuo do poder, os vencedores das eleições vão às ruas e nasce a Segunda República. Tinham um projeto de modernização: reforma agrária em primeiro lugar. A terra era má gerida, fazendas falidas existiam às pencas. Daí, a reforma do exército, incompetente e corrupto, com mais caciques do que índios, que havia sofrido derrotas no Marrocos. Na seqüência, a reforma da Igreja, que tinha o monopólio da educação e das cerimônias civis e sempre arranjava um jeito de se meter mais nas coisas do Estado. Por fim, descentralização e autonomia para Catalunha, País Basco, Valência, Galícia, verdadeiros países dentro do país, com língua e cultura próprias, que há muito cobravam alguma liberdade.

Nada é tão simples. Latifundiários, Exército e Igreja tinham problemas evidentes com o plano. Não só eles. Comunistas – que não eram muitos – e anarquistas – uma multidão forte e com poder sindical para emperrar qualquer governo – acusavam os republicanos de planejarem um Estado burguês.

Em janeiro de 1936, a Frente Popular – um pacote desigual de agremiações de esquerda menos os anarquistas – vence a CEDA, coligação de direita da qual só não participou a Falange Española. Eleição apertada à beça, 4,6 milhões de votos contra 4,5 milhões. O país em crise agora era também o país rachado em dois. Temendo um golpe, o presidente Manuel Azaña manda para longe os generais mais perigosos, Francisco Franco entre eles. Foi para as Canárias. Mas a conjuração vem. Apóiam os militares golpistas: monarquistas, latifundiários, industrialistas, banqueiros e a Igreja. Enquanto isso, a maioria parlamentar não adianta de nada que os partidos de esquerda não se entendem.

No dia 12 de julho, o deputado socialista José Castillo é assassinado por militantes de direita; no dia seguinte, o monarquista líder conservador no Parlamento, José Calvo Sotelo, é assassinado em represália por um militante socialista.

Os militares se aquartelam e o governo reage: ‘Ficam desde já licenciados os soldados cujos quadros de comando se levantam contra a legalidade republicana.’ Mas alguém pergunta: se o exército sai todo de licença, quem defende a República?

Em Barcelona, defendem-na os anarquistas; em Valência, gente leal ao governo. Madri não cai perante o golpe. Esta turma são os Republicanos. Terão, durante a Guerra, o apoio da União Soviética, do México, da Internacional Socialista e de militantes anti-fascistas de 53 países, incluindo uma penca de norte-americanos que formam a célebre Brigada Abraham Lincoln, que inclui o escritor Ernest Hemingway.

Mas o país racha. No lado Nacionalista, está o exército, a Igreja, a Alemanha Nazista, Portugal e, alguns meses mais tarde, a Itália Fascista, e estes dominam a Galícia, metade de Castela e Aragão, Andaluzia, Mallorca e Ibiza. Os golpistas comandam território com 10,5 milhões de habitantes. Mas o governo legal tem as regiões industriais e mineradoras. Tem também quase toda frota aérea e naval.

A Inglaterra fica neutra – ’se fascistas e bolchevistas querem se matar, que o façam’.

Não fora o apoio alemão, o jogo militar estaria decidido. Ou quase. Os comunistas se debatem se é melhor ficar fiel ao lado republicano ou se o ideal não seria partir para a Revolução. Internamente, trotskistas e stalinistas não se entendem. Por sua vez, os anarquistas não querem saber de comunistas. Socialistas acham todos radicais demais. E, desesperados por união em suas forças, os republicanos de centro no governo formal que já não governa de todo buscam um entendimento impossível.

Em meio a tanto ódio, a matança. No lado Republicano do território, grupos de militantes vão às ruas. Vizinhos denunciam quem é de direita. Detenções, tortura, fuzilamentos. Fraco, o governo tenta impor ordem. Quer impedir a violência, a matança, decretos são publicados e ignorados. Na Catalunha, em 1937, anarquistas e comunistas chegam a travar uma grande batalha pelo comando de Barcelona entre si. Do lado Nacionalista, falangistas vão a cada pequena aldeia e batem na porta da Igreja. Perguntam ao padre quem é sindicalizado, os padres têm a lista já completa. São os delatores. Os falangistas juntam todos – prendem, torturam, fuzilam. Raivas acirradas por anos vêm à tona. Gente tenta se bandear para o lado onde viverá em segurança, famílias são separadas.

Os números da Guerra Civil Espanhola são controversos mas a violência e a brutalidade vieram de ambos os lados. Atualmente, o governo reconhece uma estimativa de 500.000 vítimas. Um quarto vítimas dos Republicanos, três quartos dos vencedores Nacionalistas. (Mas há quem conteste esta proporção e não há documento que sustente com segurança um lado ou o outro.) Em fevereiro de 1939, Inglaterra e França reconheceram o governo de Francisco Franco, encerrando a guerra oficialmente. Mas, aí, a Alemanha invadiu a Polônia e essa já é outra história.

Atualização – fiz uma mudança no número de vítimas; quando, no ano passado, a Guerra completou 70 anos, o El Mundo publicou um especial na web com os rostos de quem lutou nas diversas frentes.

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Barack Obama é o melhor candidato?

5/November/2007 · 67 Comentários

Andrew Sullivan é um dos mais interessantes comentaristas políticos norte-americanos. É conservador, entenda-se. Esteve ao lado da política Bush na guerra contra o Iraque. Mas, nascido na Inglaterra, residente em Nova York, é cosmopolita. E é gay. Soropositivo, diga-se. Militante.

É de Sullivan um ensaio sobre a candidatura Barack Obama à presidência dos EUA, que sairá na edição de dezembro da Atlantic Monthly. (Nos EUA, já está nas bancas.) É um ensaio ousado, incrivelmente pró-Obama.

Na visão de Sullivan – e de meio mundo – os EUA estão rachados. Entre os arroubos do ultra-conservadorismo caricato das Ann Coulter e Bill O’Reillys da vida e os exageros e forçadas de barra dos Michael Moores, à esquerda, o cenário é de um país no qual metade cai para um lado e a outra metade, para o outro, numa divisão tão radical que qualquer conciliação é impossível. E, isto, Sullivan não acha que é verdade.

A guerra civil que racha os EUA desde o Vietnã é uma guerra a respeito de ‘cultura, religião e raça’. Para Sullivan, Obama é o único candidato capaz de oferecer uma trégua.

Porque embora o racha seja nítido na retórica da maioria dos candidatos, ele não é um racha real. Não importa quem for eleito em 2008, este será um presidente que manterá soldados no Iraque por um bom tempo. (É simplesmente impossível tirá-los todos de lá sem por em risco de guerra civil todo o Oriente Médio.) Uma das questões domésticas que mais mexem, a do seguro de saúde universal, também não é tão divisiva. Apesar dos debates inflamados, mesmo os republicanos mais empedernidos concordam que é preciso expandir a cobertura da saúde pública que existe hoje. Até nos estados mais conservadores as pesquisas indicam que a maioria apóia o aborto no primeiro trimestre da gravidez.

Os EUA não estão profundamente rachados, sugere Andrew Sullivan. Mas grupos de interesse radicais, de um lado e do outro do espectro político, todos muito bem financiados, fazem parecer que sim. A imprensa – e a blogosfera, posto que também é mídia – são parcialmente culpados por fazer parecer que há um racha. Ao dar voz aos extremos do espectro ideológico, mas quase nunca às vozes moderadas, apresentam uma caricatura que assusta mas não corresponde à realidade. O governo Bush, ao apostar pesadamente em um dos flancos isolando o outro, acirrou ainda mais a tensão.

Assim, segue a tese de Andrew Sullivan, Barack Obama é o melhor nome. É ele o democrata favorito dos eleitores republicanos. É jovem: já não representa mais o racha dos anos 1960.

O que Obama oferece? Antes de tudo, seu rosto. É a mais eficiente transformação da imagem dos EUA desde a promovida por Ronald Reagan. Esta mudança de imagem não é trivial – é essencial para uma estratégia de guerra. A guerra contra o terrorismo islâmico, afinal, tem duas vertentes: uma de poder militar, a outra de poder diplomático. Vimos o potencial militar na derrubada do Talibã e de Saddam Hussein. E vimos seu fracasso na lida com o Iraque, nas suas evidentes limitações para enfrentar uma longa guerra contra o Islã radical. O próximo presidente terá de criar um mix sofisticado de poder militar e diplomático para isolar o inimigo, uma matriz ideológica capaz de sustentar a vantagem do Ocidente a longo prazo. Não há candidato melhor do que Obama para isto. Por causa de seu rosto.

Imagine este cenário: estamos em novembro de 2008. Um jovem paquistanês muçulmano assiste televisão e vê que este homem – Barack Hussein Obama – é a nova face dos EUA. Em uma única imagem, o poder diplomático norte-americano foi catapultado numa escalada logarítmica. Um homem moreno cujo pai era africano, que foi criado entre a Indonésia e o Havaí, que freqüentou uma escola na qual muitos eram muçulmanos, este é o novo rosto do inimigo. Quem procura o melhor instrumento para combater a demonização dos EUA, o rosto de Barack Obama é ele. Prova que os radicais muçulmanos estão completamente errados a respeito da América.

Mas seu argumento vai além. Como Barack Obama é o único dos candidatos viáveis que esteve sempre contra a Guerra no Iraque, é ele que terá mais autoridade, inclusive, para enviar mais soldados se isto for necessário estrategicamente.

E, assim, um dos principais comentaristas conservadores dos EUA acaba de anunciar que apóia um democrata à presidência.

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A Terra em seu 6010o aniversário

23/October/2007 · 110 Comentários

Mais ou menos quando caiu a noite do dia 22 de outubro, em 4004aC, Deus disse que se faça a luz – e fez-se a luz.

Aí ele viu que era bom – ou assim o dizem.

Desta forma, se as contas de James Ussher estiverem certas, bem, hoje é aniversário da Terra. Ussher foi um arcebispo anglicano do século 17 que bateu a Bíblia livro por livro sem perder um único ano.

Nosso planeta faz, hoje, 6010 anos.

(O aniversário do universo foi ontem.)

via Metafilter

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