O Ramadã acaba amanhã e o Rosh Hashaná é hoje.
Que o ano lhes seja doce.
Pedro Doria | Weblogum pouco do mundo, todos os dias |
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O Ramadã acaba amanhã e o Rosh Hashaná é hoje.
Que o ano lhes seja doce.
Há uma balbúrdia rolando na imprensa francesa, provocada pelo pequeno artigo de Bob Siné, publicado há duas semanas no Charlie Hebdo, pequeno jornal satírico de esquerda. Siné, um humorista que bem pode ser descrito por seu ardente anti-sionismo pró-palestino, ridicularizava Jean Sarkozy – filho do presidente – que ‘pretende se converter ao judaísmo’ para se casar com Jessica Sebaoun-Darty. A moça é herdeira de uma boa fortuna e judia, os dois estão noivos. ‘Vai longe na vida, este rapaz’, dizia Siné insinuando um golpe do baú, para concluir ‘mas francamente, entre uma muçulmana de chador e uma judia que raspa a cabeça, eu não teria dúvidas.’
Ficaria com a muçulmana.
O artigo era anti-semita, brincando com um estereótipo após o outro, e o editor do Charlie Hebdo cobrou de Siné um pedido formal de desculpas. Como o cartunista-articulista se recusou, demitiu-o. A polêmica está armada. Colaborador da alemã Der Spiegel, o francês Roger Cohen – ele próprio, judeu – comenta:
Que três coisas fiquem claras. Siné tem realmente umas opiniões vis a respeito de judeus. O conflito entre Israel e Palestina, da forma que é refletido numa França com crescente comunidade muçulmana e virulento anti-semitismo na esquerda, produziu novas formas de anti-semitismo. E já há quem reclame na direita católica sobre a ascensão de Sarkozy e a origem judaica de vários de seus assessores.
Mas estes não são motivos suficientes para transformar Siné em mártir por causa de uma piada ruim. Nisto, cito sempre o juiz Oliver Webdell Holmes Jr, que escreveu em 1919: ‘devemos sempre cuidar para que ninguém impeça a expressão daquelas opiniões que realmente odiamos.’
Sei que a liberdade garantida pela Primeira Emenda à Constituição dos EUA não existe na França. Aqui, negar o Holocausto é crime. Mas permaneço um absolutista da livre expressão. É com isso em mente que defendi a publicação dos cartuns de Maomé. Censurar a expressão é sempre mais perigoso do que qualquer resultado que possa advir da expressão das piores idéias.
Em tempo: o casamento sairá, mas o jovem Sarkozy não se converterá. Religião não é algo que preocupe o casal.
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Noah Feldman, do Council of Foreign Relations e da Escola de Direito de Harvard, não é o primeiro a sugerir que a Europa Ocidental é, por natureza, racista. Mas é o mais recente.
Há uma explicação controversa para explicar a cultura anti-muçulmana na Europa: mesmo após 60 anos de introspecção a respeito do anti-semitismo que levou ao Holocausto, os europeus não se convenceram de que imigrantes com diferenças culturais e religiosas devem ser tratados como membros plenos de sua sociedade. O anti-semitismo europeu entre as duas grandes guerras incluía acusações de crime, de conservadorismo religioso, inferioridade genética e, principalmente, falava da impossibilidade de assimilação. Não é coincidência que boa parte dos judeus da Europa Ocidental eram imigrantes ou filhos de imigrantes de países mais ao leste.
Os EUA tiveram sua própria forma de racismo legalizado nas leis Jim Crow, que Hitler copiou para seus próprios propósitos. Após a Segunda Guerra, no entanto, nós norte-americanos começamos a encarar nosso passado. Tendências racistas ainda estão entre nós, mas carregamos a culpa deste racismo e a consciência de que devemos vencê-lo.
Na Europa, o terrível sucesso de Hitler no assassinato de tantos judeus fez com que a sociedade pós-guerra européia jamais tivesse que enfrentar as diferenças. Os judeus que sobraram já estavam longe. Hoje, a natalidade dos muçulmanos europeus é bem maior do que a de seus vizinhos. É como se a inabilidade européia de lidar com diferenças estivesse sendo testada pela primeira vez desde então. Em teoria, a Europa lembra o Holocausto. Mas a profundidade desta memória pode ser posta em questão quando tantos europeus parecem ter se esquecido de que seu continente já serviu de residência para outros estrangeitos muito antes da chegada da atual minoria muçulmana.
Recentemente, uma deputada britânica sugeriu que uma campanha devia desestimular o casamento entre primos paquistaneses. O motivo é que são mais propensos a certas anomalias genéticas. Eles – os paquistaneses – e judeus asquenazitas. Mas ninguém teria coragem de sugerir a uma comunidade judaica com quem casar. Ainda mais com argumentos genéticos.
Muitos dos costumes muçulmanos são criticados por serem atrasados perante a cultura européia liberal de hoje. São mesmo. Como são os costumes católicos, que rejeitam a igualdade entre homens e mulheres no púlpito e ainda consideram homossexualismo doença.
É claro que há o terrorismo, reconhece Feldman. Mas o terrorismo é também de todo conveniente para explicar um padrão de intolerância com o diferente.
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Norte-americanos, britânicos e soviéticos entraram nos campos de concentração no princípio de 1945. Os soldados e oficiais não estavam preparados para lidar com o que encontraram. Aquelas pessoas ali haviam chegado a um ponto tal de degradação que não conseguiam sequer comer. Umas porque não tinham força. Outras porque o choque de proteína era tamanho que, incrivelmente, matava. Não sentiam cheiro. Mal falavam. Beijavam mãos agradecidos.
Muito rapidamente, em Londres e em Washington, gente em várias posições de poder perceberam que teriam um problema perante a história: alguém, no futuro, tentaria negar que aquilo acontecera. A extensão da crueldade era tamanha – no número de vítimas e no ponto ao qual os nazistas levaram os sobreviventes – que nada parecia, de fato, muito crível.
Decidiram produzir um filme.
Não pensavam no século 21. Pensavam nos anos imediatamente à frente. Pensavam, principalmente, na população alemã. Como convencê-los de que seu país havia chegado àquele ponto? Em Londres, coletaram as cenas filmadas pelas tropas ocidentais nos campos e as puseram nas mãos de Sidney Bernstein, diretor do departamento de propaganda do exército britânico. Sua missão seria produzir um documentário para apresentar ao público alemão os feitos de seu país durante a Guerra.
Quando Bernstein começou a produzir o filme, em maio de 1945, os Aliados ainda não tinham total noção do plano de Solução Final para o problema judaico de Adolf Hitler. Conheciam a crueldade, sabiam do genocídio, mas não tinham ainda levantado todos os documentos que provavam a intenção de eliminar uma etnia. O governo britânico também tinha medo de que, insistindo no fato de que as vítimas eram judeus, afastariam o público alemão.
O filme não citaria judeus, portanto. Falaria de pessoas. De gente.
Revisando as imagens que chegavam do continente, o cineasta da propaganda britânica percebeu que o trabalho talvez exigisse mãos mais hábeis que as suas. Lembrou de um amigo dali mesmo de Londres, que durante a Guerra achou por bem se radicar nos EUA.
Alfred Hitchcock.
Os dois jamais terminaram o filme batizado Memória dos Campos, também lembrado como o ‘documentário de Hitchcock sobre o Holocausto’. Hitchcock serviu como consultor no processo e orientou a edição. Se preocupou em inserir a maior quantidade possível de planos gerais. Temia que, só mostrando as pessoas de perto, alguém achasse que havia sido montagem. Os planos gerais davam mostras das inacreditáveis montanhas de corpos esqueléticos, nus. Pois é que não há nudez escondida neste filme – nudez de gente viva e de gente morta, seios, sexos à mostra, em corpos cujos rostos por vezes lembram caveiras cobertas por um fino tecido. é um documentário cru, violento, muitas vezes difícil de ver.
Os EUA logo abandonaram aquela que deveria ser uma co-produção entre eles e Inglaterra. Alguém, ao ver as primeiras imagens montadas por Hitchcock e Bernstein também decidiu arquivar o projeto. Era duro demais. O mundo não estava preparado para ser exposto a estas imagens de terror. O ‘documentário de Hitchcock sobre o Holocausto’ terminou esquecido.
Em 1985, a rede pública de tevê norte-americana PBS comprou do governo britânico a única cópia conhecida dos originais. As imagens, já editadas, não tinham som. Mas havia um roteiro que a equipe de Bernstein escrevera e texto para narração que acompanhava as imagens. Convidaram o ator Trevor Howard para colocar voz no filme. E o exibiram. Agora está na Internet.
dica do André Fucs
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Tanto o Theo (que é muçulmano) quanto o André Fucs (que morou e entende da região) reclamaram de eu caracterizar os drusos como muçulmanos. Pois bem, não vai aqui qualquer teimosia: esta é uma polêmica antiga mas, que me perdoem os companheiros, não é uma discussão encerrada.
O CIA Factbook – que é o melhor almanaque aberto e confiável que há na Internet – também lista os drusos entre os muçulmanos no Líbano.
A Enciclopédia e Dicionário Kougan Houaiss, que eu costumava manter a meu lado na redação quando não havia Enciclopédia Britannica online, Wikipedia ou Google, classifica os drusos como ‘ismaelitas’, que é uma vertente do xiismo.
A Britannica, por sua vez, lava as mãos e não se posiciona: ‘é uma série de crenças religiosas nascidas dos ensinamentos ismaelitas às quais foram acrescidas elementos judeus, cristãos, gnósticos, neoplatônicos e iranianos que se combinam numa doutrina de monoteísmo estrito.’
Muitos especialistas muçulmanos, no entanto, consideram esta seita exclusiva tão estranha que não a classificam no Islã. Pergunte a um druso e ele dirá que é monoteísta e não passará disto.
Aparentemente, o Líbano passará a ser um assunto corriqueiro cá no Weblog e este grupo, 5% de sua população, terá papel importante nas decisões políticas – seja no papel de vítima, seja no de aliado de quem está no poder. O que são os drusos?
Os drusos são messiânicos. As religiões monoteístas surgidas no norte da África e Oriente Médio são todas como quebras-cabeças que costuram uma série de mitos comuns com maior ou menor intensidade. O messianismo, a idéia de que um líder desaparecido voltará para nos salvar a todos, é persa, vem do profeta Zoroastro. De lá, inoculou de leve os judeus quando do período de seu contato, e foi fazer parte, com força, da sopa cultural em que nasceu o cristianismo. O Islã, quando chega à Pérsia, também pega este messianismo forte local e assim nasce a vertente xiita.
No início do século 11, Hamza bin-Ali, um estudioso persa xiita travou contato, no Egito, com o platonismo grego e com os gnósticos – outra destas vertentes monoteístas que não chegaram a vingar de todo. A partir deste contato, Hamza bin-Ali passou a compreender Deus de uma forma diferente e, autorizado pelo califa al-Hakim, começou a reunir um grupo na mesquita local para pregar e rezar. Enquanto o califa esteve vivo, bin-Ali pregou o que quis, embora considerado herético pela maioria.
Tariq al-Hakim foi o sexto califa fatimida, descendente direto do casamento de Fátima, a filha favorita de Maomé, com Ali, considerado pelos xiitas seu primeiro imame. No Egito, al-Hakim foi intolerante com os muçulmanos sunitas, mas, mediante o imposto pago, deixou em paz as comunidades cristãs e judaicas. Embora tivesse umas idéias diferentes, bin-Ali era xiita, então não foi censurado. O califa foi assassinado em 1021 e sucedido por seu filho. E aí os drusos começam a se formar: para eles, o califa não morreu de fato mas apenas foi escondido. No dia do julgamento final, al-Hakim – o Mahdi – retornará para nos salvar a todos.
Após a morte de seu califa, teve início a perseguição dos drusos que deu forma final a sua religião. São monoteístas e só eles conhecem a verdade a respeito de Deus. Sua seita é secreta: um druso não fala dos ensinamentos para quem não é do grupo. Não aceitam conversões. Quem nasceu druso, não deixa de sê-lo; quem não nasceu, jamais virá a ser. Quando há perseguição política, é aceito que um druso renegue sua religião.
Se os drusos são uma vertente do Islã? Depende de como se vê sua história. A comunidade cristã original, chefiada por Thiago, irmão de Jesus, se considerava judia. Mas os anos se passaram e aquela seita se tornou uma religião independente. Quando decidimos que uma religião se separa de todo de sua mãe? No caso do cristianismo, foi o fato de que a religião começou a conquistar gente de fora, gentios. Ficou maior do que o judaísmo. Os drusos, no entanto, eram originalmente xiitas todos. Os mórmons são cristãos? Eles dizem que sim. Muitos cristãos dizem que eles modificaram de tal forma sua religião que, não, os mórmons são um caso distinto. Talvez sejam. É uma boa comparação com os drusos?
Cinco por cento da população libanesa é formada por drusos. Eles se dizem monoteístas e o seu é um grupo importante no balanço de poder do Líbano.
(Há outra polêmica: druso é com s ou com z? Ambas as grafias são aceitas, a com S é a corroborada por Antonio Houaiss.)
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O budismo pressupunha uma enorme quantidade de tempo e solidão para uma transformação que acontecia gradualmente ao longo de anos. Hoje, queremos tudo de forma instantânea. Espiritualidade instantânea. Resultados rápidos, somos todos muito pragmáticos. Ele dizia que precisávamos tirar o ‘eu’ do centro de nosso universo. Sabe aquele ‘eu’ que nos faz acordar às três da manhã, ‘por que isso acontece comigo? Por que não sou valorizado?’ Essas coisas nos arruínam. Buda mostrou como viver sem ver as outras pessoas de um ponto de vista ganancioso, como gente que poderia nos levar à frente de alguma forma. Se libertados do ‘eu’, podemos ampliar nossa perspectiva, podemos nos alinhar com o sagrado. Buda era um radical, muito mais do que aqueles que se dizem budistas, hoje. No Reino Unido, muitos que não se interessam por religião pensam no budismo como um caminho light: sem Deus, sem pecado, um pouquinho de ioga.
Não encontramos entre as escolas budistas o tipo de inimizade que protestantes e católicos mostraram uns pelos outros. Hoje, há o início de algo que podemos chamar de fundamentalismo budista, mas jamais houve inquisição, perseguição, Cruzadas, matança em nome de Deus. Buda de vez em quando fala dos antigos deuses da Índia sem rancor; os profetas bíblicos só citavam os antigos deuses com fúria. Eu não diria que intolerância está na raiz das religiões ocidentais, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Mas intolerância nasce delas. É como se fosse uma tentação à qual os monoteístas se entregam de vez em quando. Quando você tem um deus personalizado, é muito tentador usar a religião para apoiar seus preconceitos. Religiões monoteístas são assim. Em toda geração há gente que caia nessa e há quem resista.
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Red cat, de Peter Spiegelman, e Adeus, Hemingway, de Leonardo Padura Fuentes, estão entre minhas descobertas mais recentes na literatura policial. (Embora sejam livros completamente diferentes um do outro.)
Padura Fuentes é cubano, vive em Cuba, fui apresentado a ele por um amigo que divide comigo esta fixação por policiais. Seu detetive é um policial aposentado, Mario Conde, que tenta virar escritor. Por conta do amor pela literatura, seus ex-companheiros da delegacia pedem que ele tente descobrir o que houve na casa de Ernest Hemingway uns 40, 50 anos antes. É que um cadáver com esta idade e uma carteira do FBI foi desenterrado do jardim mais ou menos na época em que o velho escritor esteve em sua finca pela última vez.
A Cuba de hoje e a de antes da Revolução convivem ao longo de uma história intrincada, cheia de flashbacks. O cara escreve muito bem – é um romance policial com densidade, personagens profundos, com um pé naquela melancolia do noir e outro na boa literatura.
Red Cat é completamente diferente, seu cenário é a Nova York contemporânea, e John March, o personagem principal, é um bom e velho detetive particular. Seu irmão, um executivo de banco riquíssimo, está sendo chantageado por uma de suas muitas amantes.
Peter Spiegelman não vai na alma atormentada de seus personagens com a profundidade de Padura Fuentes, mas o pobre March apanha, e apanha muito, e apanha toda hora, como cabe a um detetive particular teimoso. A grande atração é uma trama bem costurada que envolve a filmagem das transas dos amantes, o estranhíssimo e sempre bizarramente antenado mercado de arte contemporânea novaiorquino, o pesadelo de quanto este tipo de imagem pode vazar para a Internet. Romances policiais não costumam mexer com tecnologia e as mudanças provocadas por ela na sociedade. Spiegelman a usa e é o que torna seu livro divertidíssimo.
Um cenário bem bolado costuma ser das coisas que me atraem em romances policiais – daí que a filmagem clandestina do sexo, tão comum nos tempos vigentes, ou a Havana de hoje, me atraíram para ambos os romances. E daí que fui com sede atrás de Yiddish policemen’s union, de Michael Chabon.
Sua premissa é excelente. Israel não aconteceu. Para lidar com o problema do pós-Holocausto, os EUA cedem um naco do Alaska para onde os judeus podem migrar. Em 2005, no entanto, 60 anos após a cessão, as terras estão para voltar à posse do governo norte-americano. A língua que se fala nas ruas é o iídiche, não o hebraico. Está todo mundo meio desesperado para conseguir um visto para algum lugar do planeta – é preciso se mudar. E, em meio a esta confusão, acontece o assassinato de um homem desconhecido que, naturalmente, tem tudo a ver com tudo.
Encarei o livro de frente, ao longo último mês, algumas vezes. Cheguei ali à página 50 muito lentamente. Empaco no ritmo. Há de ser bom, talvez torne a ele em uns meses. Por enquanto, fica adiado.
Dois quadrinhos andaram pelas minhas mãos, ambos editados pela Conrad. O primeiro é Fun home, obra autobiográfica de Alison Bechdel. A autora é lésbica, seu pai era homossexual enrustido – coisa que só foi descobrir muito mais tarde. Ao recontar a história familiar que viu com olhares de menina e tentar reinterpretá-la, Bedchel procura talvez a origem de sua identidade. É uma ‘tragicomédia familiar’, diz o subtítulo muito adequado. Nunca tinha parado para pensar neste momento ali entre a adolescência e a idade adulta no qual homossexuais começam a lidar com o que são, o que isto significa, o quanto que a sexualidade nos encaixa na sociedade de uma forma diferente, limitando alguns espaços, abrindo outros. É um momento de extrema angústia onde muitos – caso do pai de Bechdel – se perdem completamente para a vida. É um álbum surpreendentemente denso, extremamente delicado.
O outro é o Clic 3, de Milo Manara. A trama não varia muito em relação aos primeiros da série: Claudia Christiani está lá com o implante no cérebro que a expõe. Alguém, com um controle remoto, pode num ‘click’ fazer com que ela enlouqueça de desejo sexual que precisa ser imediatamente saciado. Manara é isso: estas grandes fantasias que não carecem muito de enredo, estas mulheres belíssimas de alma italiana e corpo eslavo – pernas longas, bundas grandes, seios fartos. Christiani é uma moça rica é profundamente conservadora, então há sempre um certo desespero quando ela é levada aos píncaros da libido. (E há por certo aí alguma metáfora sobre como as pessoas que se mostram mais conservadoras costumam ser as mais passíveis a escândalos em geral os mais contorcionistas.) Mas Manara não é a história, Manara é um mundo próprio, este conjunto de mulheres fantásticas sem quaisquer pudores e homens absolutamente maravilhados com os cenários que elas ensaiam nos mostrar.
Andei também com Os melhores jornais do mundo, de Matías Molina. Ele, que é espanhol de nascença, brasileiro com sotaque e um dos pais do jornalismo de economia tupinambá, é provavelmente o melhor nome para encarar esta tarefa: contar quais os melhores jornais do mundo, suas histórias e explicar o que faz, afinal, um bom jornal? Todos listados, suas histórias deliciosamente contadas, Molina chega à seguinte conclusão. O jornal excelente parte do princípio de que seu leitor é inteligente. Além de cobrir a cidade, o país, o cotidiano, ele tem também um pé fortemente fincado no mundo, com correspondentes em vários países, viagens constantes. Para fazer um bom jornal, é preciso olhar para fora e compreender como seu país é visto de fora para dentro, como ele se encaixa na geopolítica. Por fim, cultura. Há uma cobertura sofisticada das artes.
Por fim, estou me divertindo muito, apesar de uma leitura lenta, com Em busca de Jesus, de John Dominic Crossan e Jonathan Reed. O título em português sugere leitura para conversão – não é. É uma batida das descobertas arqueológicas recentes que apresentam o mundo e o contexto no qual viveu Jesus. É história, não religião. Ciência. Mas este fica para uma próxima batelada de livros.
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A atual política de Israel é um desastre. A promoção de uma carnificina na Palestina – sem esquecer a do Líbano – é uma tragédia humana. É também estúpido. Israel nasceu como a esperança de vida após uma das maiores tragédias da história humana. É uma esperança que o governo da coligação Kadima e Partido Trabalhista, hoje no poder, trai por incompetência, insensibilidade e a mais pura estupidez. Os facínoras estão no comando. Saudades de Yithzak Rabin.
O debate está ficando difícil. Na semana passada, meu amigo Marcos Guterman – que sempre argumentou pela linha da esquerda pacifista israelense – pediu o boné. Perdeu a graça para ele fazer o blog. Entre pessoas que defendem a causa palestina sempre há um jeito de os bons e velhos anti-semitas se misturarem. E raramente são condenados.
Não tenho qualquer pretensão – e jamais tive – de isenção nesta história. Laços de sangue e amizade me aproximam de Israel. Faz parte da minha identidade. Mas é justamente por querer o bem de Israel que quero o bem da Palestina. A Palestina faz parte da identidade de Israel como Israel faz parte da identidade da Palestina. É uma relação que existe desde que há civilização no mundo. O judaísmo está entranhado em cada esquina de Jerusalém; está marcado na ausência do Templo acima de seu monte. O Islã está igualmente em cada esquina, igualmente entranhado – assim como a pedra de onde subiu aos céus o profeta, perto de onde a belíssima cúpula dourada de al-Aqsa se ergue. Israel não será possível sem a Palestina. E a Palestina não será possível sem Israel.
Já achei, noutros tempos, que havia legitimidade para o argumento de que sequer havia palestinos ali – eram todos árabes sem uma identidade nacional própria. Besteira. Mas ainda há muita gente que não percebe o quanto a identidade judaica faz parte daquela terra, o quanto é íntima de sua cultura que sempre rezou pelo ano que vem em Yeroshalaim.
O Hamas se recusa a aceitar a existência de Israel. O governo de Israel, traindo sua história milenar de sofrimento pela opressão, reage com destruição e a mesma opressão. No meio do processo, o diálogo se perde de vez.
O sinal de que o diálogo se perdeu de vez está no ato do Guterman de pedir o chapéu. E está na resposta agressiva que um amigo querido escreveu para meu último post. Discordar é do jogo. Quando você vem com virulência, ao menos é de praxe alertar antes com uma mensagem. Um gesto ao menos de cortesia se espera no debate. Mas nem isso. A irracionalidade venceu de vez a partida quando um sujeito cordial e literato do quilate do Idelber Avelar perde até a capacidade de interpretar texto.
Uma de suas críticas ele pesca de uma frase minha: Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. Isolado do contexto, é um horror. Mas o parágrafo começa com ‘o raciocínio do Hamas é o seguinte’, dois pontos. Aí lista. O Hamas acredita no sacrifício humano. Não sou eu que digo. O que diz são seus programas infantis de tevê. As aulas em suas escolas. Eles preparam homens-bomba! Se isso não pode ser interpretado como ‘morrem sem se preocupar’, o que pode? Eu não acho que o Hamas represente o que pensam os palestinos todos. É por isso que após descrever como é o Hamas, concluo: A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim. Mas o Idelber esqueceu de ler o final. Mobilizado, estava cego. Tinha tirado uma conclusão a respeito do que penso e esqueceu de ler o que de fato escrevi.
Foi também isto que fez quando voltou a meus posts sobre o Líbano. Sim, eu disse no início do conflito que Israel tinha o direito de se defender. Depois disse que o ataque foi um ato covarde. Demorei alguns dias para chegar a tal conclusão? Sim. A guerra demorou alguns dias para se revelar em toda sua crueza. É o contexto no qual tais posts foram publicados. Caracterizar minha opinião por um trecho sem incluir o fato de que revi a posição depois é o quê? Não tenho nenhuma dificuldade de rever posições quando cabe. Só não quero ser acusado pelo que pensei e não penso mais.
Daí Idelber segue para mais uma frase pinçada. O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? O Hamas se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. É fato. Está no programa do Hamas o objetivo de acabar com Israel. É fato. Que este objetivo seja colocado de lado para conversar a paz é uma condição, no mínimo, razoável. Conversas de paz começam com a pressuposição de que as partes não desejam mais a mútua destruição. E não uso este argumento, em momento algum, para legitimar a política destrutiva de Israel. Nada legitima o que o governo de Israel está fazendo. Quem lê o Idelber sai com a impressão de que estou justificando uma coisa, não outra.
Idelber me acusa de estar justificando atos israelenses num post em que os condeno. Antes de mergulhar numa peça de Ionescu ou Beckett, num romance de Kafka, é melhor jogar a toalha.
Não pretendo voltar ao assunto Israel, Palestina tão cedo. Trégua. O que ele produz é isso: até os amigos queridos param de ouvir o que você está dizendo para interpretar o que julgam ser o discurso de alguém que defende Israel. Não tenho ânimo de entrar numa discussão histórica sobre o que houve em 1948. Cansa a perspectiva da repetição dos mesmos argumentos de um lado, de outro, a inevitabilidade da surdez de ambas as partes. Cansa a perspectiva de saber que alguém lançará mão da palavra Holocausto e que ela sempre estará num contexto que fere – porque é impossível lançar mão do Holocausto sem ferir. Cansa a perspectiva de ter que discutir com gente que a gente gosta. E de ter que ouvir todos aqueles que aproveitam-se do discurso legítimo de defesa da Palestina para levantar de novo, discretamente, sutilmente, como se nada quisessem, o mesmo discurso que levou ao pesadelo dos anos 1940. É fácil dizer que não aconteceria mais. O vampiro de Dusseldorf está sempre à espreita.
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Um blog como este aqui exige uma grande dedicação, demanda que eu infelizmente não posso mais atender. Este, portanto, é meu último post, numa despedida muitas vezes adiada e que, agora, tornou-se inevitável.
Meu trabalho como editor do estadao.com.br requer atenção integral a um imenso universo de informações e acontecimentos, atenção que não pode ser dividida com atividades paralelas, sob pena de não fazer direito nem uma coisa nem outra. Além disso, fora do jornal, estou desenvolvendo um projeto acadêmico que, assim como meu trabalho, cobra um esforço considerável, sem o qual sua realização fica impossível. São essas as razões imediatas para a minha decisão.
Há uma outra razão, contudo. Trata-se do anti-semitismo que grassava aqui no blog. Infelizmente, por causa do meu sobrenome e da minha religião, muitas pessoas apareceram por aqui para ofender os judeus, mentir sobre o Holocausto e desejar o fim do Estado de Israel. Agüentei o quanto pude, mas, em nome da memória de meus avós, decidi que já tive o bastante.
Marcos Guterman tinha um dos blogs mais movimentos do portal do Estadão. Seu sucesso era uma mostra da carência que há sobre informação daquilo que acontece fora do Brasil; mas era também bom olho para noticiário e análise, um blog comentado, discutido, polêmico. Era sempre sensato pacas, o Guterman.
Fará falta na blogosfera.
(O que ele talvez não saiba é que blog vicia.)
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Deixe de lado um ou outro que traz à tona a estúpida comparação de Israel com o nazismo, e os comentários do post abaixo apresentam excelentes questões.
(Se há um Holocausto em curso? Nem de perto. Mas isto já foi discutido aqui e não faz sentido voltar ao tema. É mais importante discutir o que está realmente acontecendo.)
Quem argumenta pelo lado palestino nesta situação e nas passadas tem os números a seu favor. Israel mata muito mais palestinos do que o oposto. Quem argumenta pelo lado palestino tem mais do que isso a seu favor. Tem o bloqueio militar e econômico às comunidades palestinas que pioram sua vida, inviabilizam seu sustento, impossibilitam a criação de um Estado independente.
Quem argumenta pelo lado israelense pergunta: e fazer o quê? O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? Também há números: o bloqueio militar reduziu realmente o número de ataques terroristas dentro de Israel. O Hamas tenta. Não consegue mais, daí fica com a constante provocação dos mísseis caseiros. Vez por outra, destrói uma casa, fere ou mata um.
Como na piada do rabino, é perfeitamente sensato dizer: ambos têm toda a razão. Mas de que adianta ter a razão se o caminho escolhido por ambos os lados representa a destruição de um – ou de ambos?
Sderot é uma pequena cidade israelense, a mais próxima de Gaza, e constante vítima dos foguetes caseiros. O Hamas informa que tem 10.000 foguetes em seu arsenal. Seu objetivo é colocar os habitantes de Sderot para fora. Acaso despejem tudo lá, conseguirão. O prefeito da cidadezinha, Eli Moyal, costumava reclamar que, para se proteger os prédios dos foguetinhos, fora obrigado a aceitar 2 bilhões de dólares em doações de evangélicos norte-americanos. O governo federal estava ausente. Sem uma resposta brutal por parte de Israel contra o Hamas, o ritmo de fogo continuaria, ele argumentava. Agora, conseguiu.
O raciocínio do Hamas é o seguinte: os israelenses vão desistir. Primeiro, com foguetinhos, expulsam a população de Sderot. Se conseguirem, começam operações semelhantes na Cisjordânia, na fronteira do Líbano, foguetinhos de toda parte para aumentar o estresse de viver em Israel. Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas.
A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim.
O ex-deputado trabalhista Avrum Burg, que chegou a ser presidente do Knesset, argumenta que a alma israelense não consegue vencer o trauma do Holocausto. Seu raciocínio vai assim: nos anos 1930 e 40, enquanto as políticas da Alemanha Nazista moviam-se cada vez mais em direção ao extermínio total dos judeus, nenhuma nação se levantou para defendê-los. Assim, a obrigação fundamental de Israel é defender os judeus. A qualquer custo. Como não podem esperar nada do mundo, dane-se. Judeus defendem-se por conta própria. (A entrevista de Burg ao Haaretz que causou comoção no país foi comentada aqui e culminou numa excelente reportagem de David Remnick, diretor de redação da New Yorker.)
Burg acredita que Israel perdeu a sensibilidade para o sofrimento palestino. Provavelmente tem razão. Mas a observação não resolve o problema: que fazer?
O primeiro passo é reconhecer que a política israelense até agora foi desastrada. O Hamas começou com dinheiro israelense, alimentado pelo desejo de promover um grupo que fizesse frente à OLP de Yasser Arafat.
Não é possível vencer militarmente o Hamas. Quanto pior a ofensiva militar contra Gaza, mais gente morrerá a mais gente achará que o Hamas é seu único defensor. Quanto mais bate, mais forte o inimigo sai. Esta é a maneira pragmática de ver o problema. A outra maneira é pelos olhos de Burg. No momento em que Israel perde a sensibilidade para o sofrimento de qualquer grupo humano, algo fundamental de sua alma também é perdida. Ele vai além: vale a pena Israel se este algo fundamental humanitário não existe mais? A opinião dele é que o país está cavando sua destruição futura. Não é uma conclusão que o faz particularmente popular.
Combate-se o Hamas em duas frentes. A primeira é cortando ao máximo possível suas fontes de renda. Ou seja: Irã, Arábia Saudita, Síria. A segunda é melhorando a vida dos palestinos. Vai além de independência. Escolas, hospitais, segurança, emprego. Se a vida melhorar, o ódio se restringirá à minoria radical.
Não é difícil trazer a Arábia Saudita para o barco. Seu governo já é aliado do ocidente e sabe que sua maior ameaça interna é justamente o radicalismo islâmico incontido. O problema interno da Arábia Saudita é que não é fácil de resolver, já que o Islã ‘puro’ dos terroristas, lá, é a religião de Estado. Mas convencer a realeza a cessar a transferência de fundos para movimentos radicais palestinos é possível.
Com a Síria também é possível ter uma conversa pragmática. Bashar al-Asad, o ditador do país, não é burro. Mas é paranóico. Teme uma invasão norte-americana, teme a ameaça israelense. Sabe que seu regime é semelhante ao que Saddam Hussein tocava no vizinho Iraque. Sente-se ameaçado. Por isso, alimenta o Hamas. É sua moeda de troca na mesa de negociação para garantir a sobrevivência.
Para o Irã é preciso uma política de reintegração do país no cenário político internacional. É preciso reconhecer sua importância regional e é preciso parar de incluí-lo em coisas como o ‘Eixo do Mal’, que só empurram a população em geral moderada para o braço dos radicais.
Qualquer um por certo pode então se levantar e dizer: tudo isso para resolver a questão da Palestina? Impossível. É claro que é possível. O histórico da política externa do século 20 no Oriente Médio foi um de municiar com armas e dinheiro grupos que pretendiam exterminar outros grupos. Assim, os EUA armaram os mujahedins afegãos que combateram os soviéticos; municiaram a Guarda Republicana de Saddam Hussein que partiu contra o Irã; Israel alimentou o Hamas que foi no pescoço da OLP. Os mujahedins criaram a al-Qaeda, Saddam saiu para exterminar seu próprio povo e o Hamas dispara homens-bomba ou seus foguetinhos (que matam e destróem) contra Sderot.
(É possível ir até mais longe. Os ingleses puseram os Sauds, uns beduínos carniceiros e radicais religiosos conhecidos da região, para governar o país que ficou chamado Arábia Saudita porque não queriam pôr os Hashemitas, atuais governantes da Jordânia, no lugar que lhes cabia tradicionalmente, desde os tempos de Maomé. Não os puseram lá porque consideraram que os Sauds seriam facilmente manipuláveis, os Hashemitas, não. A vertente radical da religião que os Sauds defendiam era em todo minoritária nos anos 1920; hoje, se espalhou. O mundo com os Hashemitas no poder em Meca e Medina seria muito melhor.)
Um bom indício a respeito da eficiência das operações militares é o seguinte: até agora, não resolveram nada, mataram muito e acirraram a resistência e o ódio.
Evidentemente, nada disso é fácil de fazer. Se começar agora é trabalho para décadas. E ajuda muito se o próximo presidente dos EUA for alguém disposto ao diálogo.
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Como seria o Holocausto se acontecesse hoje, nos EUA? A MTV está com uma campanha no ar de dois filmes.
O segundo filme se passa num vagão de metrô.
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Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?
Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.
O raciocínio é todo de Fuller.
Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.
São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:
Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.
Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.
Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.
Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.
Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.
A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.
(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)
Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.
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Na virada do século 19 para o 20, 200 milhões de muçulmanos viviam no mundo. Foi um século exuberante para o Islã: hoje, são 1,5 bilhão de fiéis. Em compensação, um ocidente cada vez mais laico produziu um crescimento em proporção muito menor à do aumento populacional do cristianismo. Jesus ainda vence Maomé – são 2 bilhões de cristãos, afinal – mas a se julgar pelo ritmo de uma e de outra, em 2050 o Islã deverá ser a maior religião do mundo.
A Economist edição dupla, que cobre a quinzena final de 2007, traz uma reportagem estupenda sobre o equilíbrio das duas filhas do judaísmo. (Diferentemente de cristãos e muçulmanos, judeus, os inventores do primeiro Livro sagrado, não vêem como sua a missão de sair pelo mundo a converter seguidores.)
De um lado, como financiadores, estão os poderosos evangélicos norte-americanos, que investem pesadamente na formação de missionários para espalhar pelo mundo. Do outro, estão a família real saudita e incontáveis milionários do petróleo árabes que gastam um bom dinheiro para espalhar o seu livro sagrado a qualquer interessado. (Peça um para você: www.freekoran.com.)
Os cristãos são mais espertos quando o assunto é marketing: no mercado dos EUA, há Bíblias de todos os tipos, adaptadas para crianças, adolescentes, adultos, comentadas ou não, há revistas multicoloridas, há filmes. E este material vai se espalhando em línguas várias.
Os muçulmanos têm uma tremenda vantagem: na maioria dos países islâmicos, a tentativa de converter qualquer um a outra religião é crime – muitas vezes, só rezar para outro Deus já é passível de cadeia ou outra pena. Então o Islã tem livre acesso à Europa, aos EUA e Américas, enquanto missionários cristãos não podem jogar no campo inimigo, salvo imenso risco.
Mas nem tudo é positivo. O Onze de Setembro foi uma rasteira. A maioria das entidades filantrópicas que investiam no espalhar da religião de Maomé foram declaradas suspeitas ou mesmo ilegais, por conta de envolvimento com o financiamento do terrorismo. Além disso, o terror despertou uma profunda desconfiança mundial. Não bastasse, islâmicos resistem a técnicas modernas de marketing, já que consideram seu livro sagrado a palavra literal de Deus – e não meramente inspiradas por, caso dos cristãos. Mexer com ela seria sacrilégio.
Por sua vez, os cristãos seguem perdendo espaço no coração europeu de sua origem. Por um lado, perdem para o próprio Islã, conforme jovens nascidos em famílias que migraram procuram contato com a religião de pais e avós numa busca de identidade; por outro, perdem para o nada, conforme jovens de origem européia bem educados deixam de ter uso para qualquer religião que seja.
O campo está aberto. Pode não haver um choque entre civilizações, mas os grupos interessados particularmente na divulgação de suas religiões farão do choque entre Cristianismo e Islamismo um conflito marcante das décadas porvir. O principal cenário desta disputa, no momento, passa ao largo de Europa ou Oriente Médio. É a África.
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Em alguns estados dos EUA, a exposição pública de presépios e símbolos cristãos similares é proibida pelo medo de ofender judeus e outros, não incluindo ateus. O apetite do marketing é saciado em todo o país por um super-ecumênico ‘boas festas’, entre as quais incluem-se o chanucá judaico e o ramada islâmico, além do ‘kwanzaa’, fabricado gratuitamente em 1966 para que os negros pudessem celebrar seu próprio feriado de solstício. Os norte-americanos desejam ‘boas festas’ uns aos outros e gastam uma quantias enormes em presentes para as ‘festas’. Se bobear, devem até pendurar meias de ‘festas’, cantar canções de ‘festas’ e decorar árvores de ‘festas’. Nunca ouvi falar de um Papai Festas vestido de vermelho, mas por certo esta é uma questão de tempo.
Por bem ou por mal, a nossa é, historicamente, uma cultura cristã e todas as crianças criadas sem uma noção básica das histórias da Bíblia são diminuídas, incapazes de compreender certas alusões literárias. Não tenho qualquer simpatia pelo cristianismo, não suporto a orgia anual de gastos recíprocos, mas devo dizer que acho muito melhor dizer ‘feliz Natal’ do que ‘boas festas’.
O biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins, ateu convicto que é, pode preferir que se chame de Natal, mesmo. Mas tem uma sugestão de quebra. Ao invés de Jesus porque não celebrar, no dia 25, o aniversário de outro sujeito, talvez até bem mais importante para a história humana?
Assim: bom dia de Newton.
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Eram quatro no vagão de metrô da linha Q, em Nova York, celebrando Chanucá, o festival das luzes judaico, que este ano começou no dia 4 e terminou ontem.
Um sujeito levantou: ‘Judeu sujo’, gritou. Outro: ‘Feliz Chanucá para vocês, isso sim, foi quando mataram Jesus, não é?’
Desceram a pancada, ninguém se moveu. Com uma exceção: Hassan Askari, um estudante de 20 anos que trabalha num restaurante no East Village.
O rapaz se levantou e enfrentou a turba enquanto o jovem que apanhava puxou o freio do trem. Walter Adler, o rapaz ferido, está inteiro, apesar dos roxos pelo corpo. A polícia chegou em tempo.
No passado era diferente, mas hoje são raros os crimes de ódio racial em Nova York. E, embora neste caso os católicos sejam os vilões, dá uma boa história de Natal: o dia em que um muçulmano salvou dois casais de judeus de uma turba cristã enfurecida.
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Encontre dois judeus à porta da Sinagoga, diz a piada, e haverá três opiniões. Abaixo estão dois judeus conversando. O de itálico é Ari Shavit, colunista do diário de esquerda Ha’aretz. O outro é Avrum Burg, ex-deputado do Partido Trabalhista israelense. Burg acaba de lançar um livro.
Você vê de forma muito dura israelenses e a israelidade. Você diz coisas terríveis a nosso respeito.
Escrevi um livro de amor. Amor dói. Se eu estivesse escrevendo sobre a Nicarágua, não ligaria. Mas nesse lugar do qual viemos há muita dor. Vejo meu amor escorrendo perante meus olhos. Vejo minha sociedade e o lugar no qual me criei e minha casa sendo destruídos.
Amor? Você diz que israelenses só entendem força. Se alguém escrevesse algo assim sobre árabes ou sobre turcos ele seria chamado de racista. E com razão.
Você não pode tirar uma frase e dizer que o livro é só isto.
Não é só uma frase. Ela é repetida. Você diz que temos força, que usamos força, que usamos apenas força. Você diz que Israel é um gueto sionista, um lugar imperialista, brutal que acredita apenas em si.
Mas veja a Guerra do Líbano. Os soldados voltaram do campo de batalha. Venceram algumas, perderam outras. O normal é que a população, mesmo a direita, percebesse que quando o Exército tem a oportunidade de usar a força, ele não vence. A força não resolve. Mas aí vem Gaza e qual é o discurso? Vamos esmagá-los, vamos eliminá-los. Não entenderam nada. Nada. E não é só na relação entre nações. Observe como as pessoas se relacionam. Ouça as conversas que as pessoas têm entre si.
Você diz que o problema não é apenas a ocupação dos territórios. Para você, toda Israel é uma espécie de mutação horrenda.
A ocupação é uma parte pequena do problema. Israel é uma sociedade com medo. Para encontrar a origem da obsessão com força, para eliminá-la pela raiz, precisamos lidar com nossos medos. E o medo primal são os seis milhões de judeus que morreram no Holocausto.
Esta é sua tese. Você não é o primeiro a propô-la mas você a formula com intensidade. Você sugere que somos todos de alguma forma defeituosos psiquicamente. Somos tomados por medo, por pavor, e usamos a força porque Hitler nos causou este dano psíquico profundo.
Sim.
Bem, eu contra-argumentaria dizendo que sua descrição é distorcida. Não é como se vivêssemos na Islândia e imaginássemos que há um bando de nazistas a nossa volta quando na verdade eles desapareceram há 60 anos. Não é assim. A nossa volta estão ameaças reais. Somos um dos países mais ameaçados do mundo.
A real divisão entre os israelenses, hoje, é aquela entre os que acreditam e os que têm medo. A grande vitória da direita israelense na luta pela alma política do país é a maneira como conseguiu incutir uma paranóia absoluta. Sei que há dificuldades. Mas são absolutas? Será que todo inimigo é um novo Auschwitz? O Hamas é o nazismo?
Você está sofismando, Avrum. Você não tem empatia por nós israelenses. Você trata o israelense judeu como um paranóico. Mas, como segue o clichê, alguns paranóicos têm seus inimigos. Hoje mesmo, conforme conversamos, Ahmadinejad está dizendo que nossos dias estão contados. Ele promete nos erradicar. Não, ele não é Hitler. Mas também não é uma miragem. É uma ameaça real. Ele é o mundo real – um mundo que você ignora.
O que digo é que, neste momento, Israel é um país traumatizado em quase todas suas dimensões. E esta não é apenas uma questão teórica. Será que nossa habilidade para lidar com o Irã não seria muito maior se renovássemos em Israel a habilidade de confiar no mundo? Não seria muito melhor se ao invés de lidar com o problema por nossa conta nós pudéssemos nos alinhar com outros, com as igrejas cristãs, com os governos estrangeiros e até mesmo com outros exércitos?
Mas não, nós não confiamos no mundo. Achamos que o mundo vai nos abandonar a cada segundo. Estamos sempre vendo Chamberlain retornando de Munique com seu guarda-chuvas negro. Não. Vamos bombardeá-los sozinhos. Será por nossa conta.
Fora outra a piada, com um rabino de personagem, ele ouviria os dois judeus com seus argumentos, ponderaria, citaria algo do Talmude e concluiria ao final: vocês dois têm toda a razão.
O livro de Avrum Burg, que acaba de sair em Israel, chama-se Derrotando Hitler. A íntegra da entrevista foi publicada no Ha’aretz.
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Há um site antisemita em circulação. Profundamente antisemita – coleciona todo e qualquer mito antisemita que jamais circulou pela humanidade. É um ninho de serpentes.Digite a palavra ‘jew’ no Google, ele é o segundo na lista de respostas. O motivo de o nome do site não ser citado neste post é simbólico: quanto mais as duas palavras de seu nome estiverem juntas na Internet, maior sua relevância perante o sistema de buscas. É também por isto que não vai, cá, um link para o site. Recomendo a mesma cautela – de não publicar nem o nome, nem o link, aos comentaristas.
Há uma trupe querendo tirar o site do ar. Sou, pessoalmente, contra a censura a qualquer espécie de informação, mesmo que falaciosa, racista, estimulante do ódio entre grupos humanos, perpetuadora de mitos que já foram responsáveis por mais de uma onda genocida no mundo. Informação deste tipo combate-se com informação de fato.
Mas, mesmo discordando, indico que há um caminho para quem quiser protestar e tirá-los da rede.
dica do Pax
Saiu no Estadão, hoje, uma entrevista minha com Lorenzo Vidino. Ele é um italiano de Milão que estuda a atuação da al-Qaeda, em particular, na Europa. Vidino é jovem, mas do tipo de especialista que o Congresso Americano convoca para conhecer sua opinião e se informar sobre os rumos da organização de bin Laden. A conversa há de interessar alguns dos prezados. Dois trechos:
Como definir a al-Qaeda?
Ela é tanto uma organização quanto um movimento extremamente bem-sucedido. A organização viveu uma crise que começou a se resolver há poucos meses. Desde o 11 de Setembro, sofreu intensa pressão, perdeu espaço para se movimentar no Afeganistão, seus líderes tiveram de se esconder e o contato com o mundo exterior ficou muito limitado. Mas, há um ano e pouco, o governo paquistanês fechou um acordo com os chefes tribais do Waziristão, trecho noroeste do país, e tirou de lá praticamente todo o Exército. Aquele pedaço do Paquistão ficou quase tão livre para a al-Qaeda se mover quanto era o Afeganistão do regime Talibã (sobre o Waziristão, veja artigo ao lado). Isto quer dizer que os militantes podem se reorganizar com calma. Já estão enviando agentes pelo mundo para retomar a comunicação com os diversos braços da estrutura e com grupos simpatizantes. […]
O que leva um jovem muçulmano europeu à violência?
Em muitos casos é porque o radicalismo islâmico virou uma contracultura bacana de forma parecida com o que era o comunismo, nos anos 70. Outro ponto é que as mesquitas européias são mais radicais que as do Oriente Médio e Norte da África. Muitos migrantes vêm de ambientes liberais em seus países e descobrem o radicalismo islâmico na Europa. Os radicais não teriam tanta liberdade para se pronunciar no mundo muçulmano quanto têm em Londres ou Paris. Há outros pontos. Alguns imigrantes não costumam dar educação religiosa a seus filhos, então eles vão aprender a cultura de seus pais nessas mesquitas. E há casos em que o radicalismo é uma rebelião contra os pais. É comum que famílias tenham uma visão muito tradicionalista que inclui casamentos arranjados, por exemplo. Alguns rapazes então vão para a mesquita e ouvem que isso não é o Islã de verdade e se rebelam, radicalizando-se. O grupo que assassinou na Holanda o cineasta Theo van Gogh era inicialmente uma gangue de rua, laica. Então, no fim da adolescência, um dos membros se fez religioso e outros o seguiram. No fim das contas, eles sempre foram isso, uma gangue. Há várias histórias, cada uma com seus detalhes, e muitos motivos que levam esses rapazes à violência.
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