Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Islã'

Racismo europeu entre o Holocausto e o Islã

22/June/2008 · 59 Comentários

Noah Feldman, do Council of Foreign Relations e da Escola de Direito de Harvard, não é o primeiro a sugerir que a Europa Ocidental é, por natureza, racista. Mas é o mais recente.

Há uma explicação controversa para explicar a cultura anti-muçulmana na Europa: mesmo após 60 anos de introspecção a respeito do anti-semitismo que levou ao Holocausto, os europeus não se convenceram de que imigrantes com diferenças culturais e religiosas devem ser tratados como membros plenos de sua sociedade. O anti-semitismo europeu entre as duas grandes guerras incluía acusações de crime, de conservadorismo religioso, inferioridade genética e, principalmente, falava da impossibilidade de assimilação. Não é coincidência que boa parte dos judeus da Europa Ocidental eram imigrantes ou filhos de imigrantes de países mais ao leste.

Os EUA tiveram sua própria forma de racismo legalizado nas leis Jim Crow, que Hitler copiou para seus próprios propósitos. Após a Segunda Guerra, no entanto, nós norte-americanos começamos a encarar nosso passado. Tendências racistas ainda estão entre nós, mas carregamos a culpa deste racismo e a consciência de que devemos vencê-lo.

Na Europa, o terrível sucesso de Hitler no assassinato de tantos judeus fez com que a sociedade pós-guerra européia jamais tivesse que enfrentar as diferenças. Os judeus que sobraram já estavam longe. Hoje, a natalidade dos muçulmanos europeus é bem maior do que a de seus vizinhos. É como se a inabilidade européia de lidar com diferenças estivesse sendo testada pela primeira vez desde então. Em teoria, a Europa lembra o Holocausto. Mas a profundidade desta memória pode ser posta em questão quando tantos europeus parecem ter se esquecido de que seu continente já serviu de residência para outros estrangeitos muito antes da chegada da atual minoria muçulmana.

Recentemente, uma deputada britânica sugeriu que uma campanha devia desestimular o casamento entre primos paquistaneses. O motivo é que são mais propensos a certas anomalias genéticas. Eles – os paquistaneses – e judeus asquenazitas. Mas ninguém teria coragem de sugerir a uma comunidade judaica com quem casar. Ainda mais com argumentos genéticos.

Muitos dos costumes muçulmanos são criticados por serem atrasados perante a cultura européia liberal de hoje. São mesmo. Como são os costumes católicos, que rejeitam a igualdade entre homens e mulheres no púlpito e ainda consideram homossexualismo doença.

É claro que há o terrorismo, reconhece Feldman. Mas o terrorismo é também de todo conveniente para explicar um padrão de intolerância com o diferente.

Tags: Europa · História · Islã · Judaísmo

Ayaan Hirsi Ali, sua fé e sua circuncisão

17/June/2008 · 171 Comentários

On Faith – Sobre a fé – é uma área especial do site do Washington Post que trata da religião no mundo corrente. A entrevistada atual é Ayaan Hirsi Ali, a feminista de origem somali que está entre as mais proeminentes críticas do Islã. A entrevista é em vídeo. Mas, transcritos, cá vão dois trechos:

Sobre o ateísmo

Houve um dia em que fitei o espelho e me perguntei: ‘você acredita em Deus, agora?’ Maio de 2002. Foi um processo gradual até aquele momento, mas o Onze de Setembro foi o catalisador. Antes disso, todas as idéias dissidentes que eu tinha, eu as guardava com tranca no fundo de minha mente. Nos dez anos anteriores, me considerei muçulmana, mas já não praticava a religião de nenhuma forma.

Com os ataques, me senti desafiada. Não era apenas um desafio de bin Laden ‘venha e se junte a nós’. Ele também dividia o mundo entre crentes e não crentes. Foi assim que fui criada: ou você crê ou você não crê. E tudo em mim, o Satã dentro de mim havia crescido tanto, que percebi: não quero nada com isso.

Há o que Deus quer e o que você quer. Se você faz o que quer e não o que Deus quer que você faça, dizem que é porque Satã está sussurrando em seu ouvido.

Eu quero falar com minha mãe. Ela que não quer falar comigo. Ela teme que queimará no inferno se o fizer. A religião impôs a ela uma escolha cruel: ou ela me abandona, porque me transformei numa apóstata, ou ela queimará no inferno. É algo com o qual todos os muçulmanos temos que lidar, este medo do inferno. Mesmo de pensar, de ter dúvidas, você já está blasfemando.

Sobre a experiência da circuncisão

O sujeito chegou para nos circuncidar a todas. Ele usou uma tesoura, tinha anti-séptico, mas não tinha anestesia. Como um dos objetivos é garantir que você se manterá virgem, o costurar dos lábios é mais importante do que o cortar do clitóris.

Há muitas histórias que contam para explicar o corte. Minha avó acreditava que o clitóris ia crescer e crescer, ficaria pendurado entre suas pernas. Até maior que um pênis. Outra superstição é que, quando o bebê nasce, se o clitóris da mãe não tiver sido cortado pode enforcá-lo. Também há quem diga que o clitóris torna o homem impotente.

A razão mais comum é que, quando a menina entra na adolescência, ela fica excitada sexualmente com facilidade. Como prevenção, cortam o clitóris antes da puberdade.

Não existe um sistema específico para o corte. Depende de quem o faz. Há meninas que morrem porque alguém tenta cortar todo seu clitóris e elas têm uma hemorragia. Mortes também acontecem por causa do instrumento utilizado: tesouras, navalhas, até cacos de vidro.

Tags: Islã · África

A França, o Islã e a noiva virgem
que terminou por ser devolvida

5/June/2008 · 201 Comentários

O caso aconteceu há um mês, mas só foi divulgado na semana passada, depois que o jornal Libération citou um artigo de uma revista jurídica. Num tribunal da região de Lille (norte do país), um francês convertido ao islã pediu a anulação do casamento porque a noiva tinha mentido sobre a sua condição de virgem - fato reportado no meio da noite de núpcias aos pais da noiva, que tiveram que acolher o “produto defeituoso”. Apoiado numa lei que garante a anulação em casos de “erro das qualidades essenciais” do cônjuge, o marido enganado conseguiu ter o pedido acatado pelo juiz.

Na França, conservadores e socialistas só concordam numa coisa: a defesa do Estado laico. O caso da burca das alunas de escolas públicas já tinha terminado com o banimento de qualquer adereço que exprimisse a identidade religiosa dos alunos. Agora é o “caso da virgindade” que provoca a ira dos políticos franceses.

Mais dessa história no excelente blog Canaca.

Tags: Europa · Islã

O Paquistão visto por um jornalista brasileiro

24/May/2008 · 29 Comentários

As escolas religiosas, que ensinam o Alcorão para crianças a partir de sete anos de idade, cumprem também um papel social no Paquistão. Como os colégios públicos não são suficientes para atender toda a população – são 160 milhões de habitantes, e a taxa de natalidade ainda é alta –, as madrassas, como as escolas religiosas são conhecidas, são responsáveis por tirar do analfabetismo boa parte da população.

Atualmente, cerca de 35% da população é considerada analfabeta ou semianalfabeta – só sabe escrever o próprio nome e ler frases curtas, de acordo com a Universidade de Peshawar. O investimento em educação também é baixo, conforme fontes ouvidas pelo G1: pouco mais de 2% do orçamento do governo paquistanês tem a educação fundamental, média e universitária como destino.

As escolas religiosas estão em todos os municípios, inclusive no interior do país. Nas madrassas, as crianças passam pelo menos uma hora por dia aprendendo o alcorão. Como a grande maioria das escolas fundamentais do país, elas têm aulas separadas para meninas e meninos.

Fernando Scheller, um dos editores do portal noticioso G1, está no Paquistão – e bloga sua visita.

dica de Marina Gomara

Tags: Islã · Ásia Central

Ainda sobre os drusos

14/May/2008 · 69 Comentários

Um bom amigo que, muçulmano xiita, não só entende do assunto como já escreveu um livro sobre o tema, enviou a seguinte mensagem a respeito dos drusos e outros grupos minoritários do Islã:

Os drusos são considerados pelos estudiosos do Islamismo como ‘Extremist’ Shi’a ou ‘ghulat’ Shi’a. Ghulat é sinônimo de radicais, extremistas. São um desvio, portanto. Ao lado dos drusos, há os alawitas da Síria, Líbano e Turquia. Também é uma seita ultra-secreta. Seus membros não podem sequer falar da religião entre si, mas apenas com o seu tutor. Um pai não pode falar dos segredos da seita para um filho. Deve entrega-lo aos cuidados de um tutor aos oito anos para que o seu catecismo seja ensinado (vai até os 17). Tudo, tudo é secreto. Oficialmente, eles se declaram xiitas.

O negócio engraçado é que Hafez Assad, ditador da Síria, quase não se empossa presidente porque a Constituição síria, desde a independência, determinava que a presidência é cargo exclusivo para muçulmanos. E criou-se a polêmica: os alawitas eram muçulmanos? Os sunitas, majoritários, diziam que não. Assim também os xiitas. Os alawitas, ao longo dos séculos, foram perseguidos por todos: sunitas, xiitas, todo mundo. Daí tudo ser secreto. Com os drusos é a mesma coisa. A melhor fonte para o assunto é o livro de Matti Moosa, Extremist Shiites: the Ghulat sects. Ali você vai encontrar tudo, ou quase, sobre drusos e alawitas. Quase tudo, porque tudo nas seitas é secreto.

É um bom complemento à discussão e dica de onde obter mais dados.

Tags: Islã

Quem são os drusos e em que acreditam?

13/May/2008 · 38 Comentários

Tanto o Theo (que é muçulmano) quanto o André Fucs (que morou e entende da região) reclamaram de eu caracterizar os drusos como muçulmanos. Pois bem, não vai aqui qualquer teimosia: esta é uma polêmica antiga mas, que me perdoem os companheiros, não é uma discussão encerrada.

O CIA Factbook – que é o melhor almanaque aberto e confiável que há na Internet – também lista os drusos entre os muçulmanos no Líbano.

A Enciclopédia e Dicionário Kougan Houaiss, que eu costumava manter a meu lado na redação quando não havia Enciclopédia Britannica online, Wikipedia ou Google, classifica os drusos como ‘ismaelitas’, que é uma vertente do xiismo.

A Britannica, por sua vez, lava as mãos e não se posiciona: ‘é uma série de crenças religiosas nascidas dos ensinamentos ismaelitas às quais foram acrescidas elementos judeus, cristãos, gnósticos, neoplatônicos e iranianos que se combinam numa doutrina de monoteísmo estrito.’

Muitos especialistas muçulmanos, no entanto, consideram esta seita exclusiva tão estranha que não a classificam no Islã. Pergunte a um druso e ele dirá que é monoteísta e não passará disto.

Aparentemente, o Líbano passará a ser um assunto corriqueiro cá no Weblog e este grupo, 5% de sua população, terá papel importante nas decisões políticas – seja no papel de vítima, seja no de aliado de quem está no poder. O que são os drusos?

Os drusos são messiânicos. As religiões monoteístas surgidas no norte da África e Oriente Médio são todas como quebras-cabeças que costuram uma série de mitos comuns com maior ou menor intensidade. O messianismo, a idéia de que um líder desaparecido voltará para nos salvar a todos, é persa, vem do profeta Zoroastro. De lá, inoculou de leve os judeus quando do período de seu contato, e foi fazer parte, com força, da sopa cultural em que nasceu o cristianismo. O Islã, quando chega à Pérsia, também pega este messianismo forte local e assim nasce a vertente xiita.

No início do século 11, Hamza bin-Ali, um estudioso persa xiita travou contato, no Egito, com o platonismo grego e com os gnósticos – outra destas vertentes monoteístas que não chegaram a vingar de todo. A partir deste contato, Hamza bin-Ali passou a compreender Deus de uma forma diferente e, autorizado pelo califa al-Hakim, começou a reunir um grupo na mesquita local para pregar e rezar. Enquanto o califa esteve vivo, bin-Ali pregou o que quis, embora considerado herético pela maioria.

Tariq al-Hakim foi o sexto califa fatimida, descendente direto do casamento de Fátima, a filha favorita de Maomé, com Ali, considerado pelos xiitas seu primeiro imame. No Egito, al-Hakim foi intolerante com os muçulmanos sunitas, mas, mediante o imposto pago, deixou em paz as comunidades cristãs e judaicas. Embora tivesse umas idéias diferentes, bin-Ali era xiita, então não foi censurado. O califa foi assassinado em 1021 e sucedido por seu filho. E aí os drusos começam a se formar: para eles, o califa não morreu de fato mas apenas foi escondido. No dia do julgamento final, al-Hakim – o Mahdi – retornará para nos salvar a todos.

Após a morte de seu califa, teve início a perseguição dos drusos que deu forma final a sua religião. São monoteístas e só eles conhecem a verdade a respeito de Deus. Sua seita é secreta: um druso não fala dos ensinamentos para quem não é do grupo. Não aceitam conversões. Quem nasceu druso, não deixa de sê-lo; quem não nasceu, jamais virá a ser. Quando há perseguição política, é aceito que um druso renegue sua religião.

Se os drusos são uma vertente do Islã? Depende de como se vê sua história. A comunidade cristã original, chefiada por Thiago, irmão de Jesus, se considerava judia. Mas os anos se passaram e aquela seita se tornou uma religião independente. Quando decidimos que uma religião se separa de todo de sua mãe? No caso do cristianismo, foi o fato de que a religião começou a conquistar gente de fora, gentios. Ficou maior do que o judaísmo. Os drusos, no entanto, eram originalmente xiitas todos. Os mórmons são cristãos? Eles dizem que sim. Muitos cristãos dizem que eles modificaram de tal forma sua religião que, não, os mórmons são um caso distinto. Talvez sejam. É uma boa comparação com os drusos?

Cinco por cento da população libanesa é formada por drusos. Eles se dizem monoteístas e o seu é um grupo importante no balanço de poder do Líbano.

(Há outra polêmica: druso é com s ou com z? Ambas as grafias são aceitas, a com S é a corroborada por Antonio Houaiss.)

Tags: Cristianismo · Islã · Judaísmo · Oriente Médio · Religião

A história de Rand

11/May/2008 · 194 Comentários

‘A morte era o mínimo que ela merecia’, diz Abdel-Qader. ‘Não me arrependo. Tive o apoio de meus amigos, que também são pais e, portanto, sabem o que é aceitável ou não para qualquer muçulmano que honre sua religião’, ele disse.

Sentado em frente à sua porta, cercado por gérberas e margaridas brancas que ele plantou no jardim da família, Abdel-Qader se justifica.

‘Não tenho mais uma filha e prefiro dizer que nunca tive uma. Essa menina me humilhou na frente da família e dos amigos. Ao conversar com um soldado estrangeiro, ela perdeu o que há de mais precioso para uma mulher. Talvez as pessoas do ocidente se choquem, mas nossas meninas não são como as filhas de lá que podem dormir com o homem que quiserem e às vezes engravidar sem ter casado. Nossas meninas devem respeitar sua religião, sua família e seus corpos.’

‘Agora, só tenho dois filhos. Aquela filha foi um erro em minha vida. Sei que Deus me abençoa pelo que fiz’, ele disse, sua voz soa honrada. ‘Meus filhos estão do meu lado e eles foram homens o suficiente para me ajudar a terminar a vida de alguém que nos trouxe vergonha.’

A filha de Abdel-Qader se chamava Rand. Tinha 17 anos. Foi espancada e morta por seu pai em Basra, no Iraque, por ter conversado com um soldado britânico. Para uma amiga, ela disse que estava apaixonada pelo rapaz. Era seu primeiro amor. Não trocou mais que palavras. Horrorizada, a mãe da Rand, pediu o divórcio. Foi espancada, teve o braço quebrado. Está escondida. Os irmãos mais velhos da moça ajudaram o pai. São muçulmanos xiitas.

Abdel-Qader ficou detido por duas horas na delegacia. Aí foi liberado. Os policiais o congratularam.

Tags: Iraque · Islã

Apresentando Alaa al-Aswany, o escritor
mais vendido do mundo árabe

28/April/2008 · 59 Comentários

Alaa al-Aswany é o escritor mais vendido do mundo árabe. Seu best-seller, publicado em 2002, se chama O prédio jacobiano e se passa no Egito atual. É um romance realista em sem floreios que fala de tortura, opressão sexual, a criação de radicais islâmicos, sonhos perdidos em meio à burocracia e corrupção governamentais. Em seu país, não é considerado particularmente boa literatura. Apenas um best-seller. O escritor, um dentista do Cairo, se defende: ele se inspira nos livros de Ernest Hemingway. O estilo é simples, mesmo, sem as experimentações à moda da literatura contemporânea árabe, direto ao ponto. Seu único objetivo é contar uma história. Mas há muito acontecendo ali, entre os personagens.

É o Egito de hoje. Em suas páginas, o ditador Hosni Mubarak jamais aparece. Ele é apenas o ‘Grande Homem’, cuja voz ecoa vinda de um palácio suntuoso. Trata-se de uma metáfora, de um símbolo, que nasce não das preferências do escritor mas de uma concessão à censura loca. O edifício jacobiano está para estrear em filme com alguns dos atores árabes mais conhecidos que há. É sucesso literário na França e foi um dos títulos mais disputados para lançar na atual temporada norte-americana. Esperam vendas fartas.

Seu atual romance, Chicago, vende também horrores no Egito. É a visão do autor da época em que estudou em Chicago – uma visão positiva, encantada. Ele é um dos mais lidos colunistas da oposição laica egípcia, um homem engajado na democratização do país.

Ele foi perfilado pela edição de domingo da New York Times Magazine.

Os jovens estudantes muçulmanos faziam anotações em seus cadernos. Al-Aswany estava apenas começando. O Islã no Egito e em outras metrópoles cosmopolitanas como Bagdá e Damasco, ele continuou, foi marcado ao longo dos séculos por tolerância e pluralismo. Não podia ser mais diferente do que o Islã do deserto, como aquele desenvolvido na Arábia Saudita. Os nômades do deserto não tinham tempo para arte – então não fizeram arte. A tragédia do Egito é que ele teve que lidar com versões intolerantes do Islã vindas de lugares como a Arábia Saudita. Todas as batalhas já vencidas no Egito pelas revoluções de 1919 e 1952 – principalmente aquela pelos direitos das mulheres – agora têm de ser lutadas novamente.

Ele então olhou para os dois rapazes barbados: ‘A Irmandade Muçulmana diz que o Islã é a solução. Então, quando você se opõe a eles, respondem que você está se opondo ao Islã. Isso é muito perigoso. Muito.’ Ele repete, sua voz mais alta: ‘na política é preciso encontrar soluções políticas, então como a solução pode ser religiosa?’

Para Alaa al-Aswani, democracia precisa de tempo. No mundo árabe, os EUA são vistos como os mantenedores das ditaduras locais. Não são conhecidos pelo que têm de melhor – a própria democracia, a liberdade de expressão, a pluralidade de grupos que têm espaço na sociedade. E o problema, ele diz, é que os EUA não acreditam de fato em levar democracia ao mundo árabe. O resultado imediato é a eleição de grupos como o Hamas, na Palestina, ou a Irmandade Muçulmana, no Egito. Democracia, ele diz, carece de tempo. Só se for permitido ao Hamas ou à Irmandade Muçulmana governarem que o povo perceberá que trocou um tipo de ditadura por outro.

Ele diz mais: a oposição islâmica é justamente aquilo que ditadores como Hosni Mubarak mais querem. Abrem um pouco o regime, permitem que eleições apenas parcialmente livres mostrem alguma força dos grupos islâmicos, e pronto, de presto governos como os de EUA e Reino Unido darão apoio, farão ouvidos moucos, a seus desmandos ditatoriais. Esta é a arma corrente das ditaduras da região, portanto. Manter vivo o medo de que, sem os ditadores, quem assumirá é o Islã radical.

Para o escritor, talvez num primeiro momento, sim. Mas, em países como o Egito, eles não se criam.

Tags: Islã · Livros · Oriente Médio · África

A vitória de Berlusconi, a Lega Nord e
o racismo à italiana

16/April/2008 · 138 Comentários

A Coligação de Centro-Direita liderada por Silvio Berlusconi levou 47% dos votos italianos, no fim de semana. O velho premiê está de volta, pois, para seu terceiro mandato. Espera-se o mesmo governo corrupto, no qual tráfico de influência é a regra. Mais do mesmo? Não, desta vez há uma diferença. É a Lega Nord.

O partido separatista do norte da Itália recebeu 8,3% destes votos que valeram a Berlusconi sua vitória. Isto quer dizer que a Lega Nord fará parte do gabinete e que terá um bom naco do poder. Não garante a independência da região ali próxima à Suíça, mas que se espere um governo racista.

A vida ficará difícil, principalmente, para ciganos e migrantes que vêm da África e Oriente Médio. Novas leis, ofensivas policiais, o peso do Estado se voltará contra aqueles que ‘decaracterizam’ a Itália.

O país está rachado. Assim como perdeu por muito pouco na última eleição, agora Berlusconi venceu por muito pouco. Mas, para muitos dos eleitores que votaram em partidos de sua coligação, era exatamente isso que se esperava. Os culpados são os imigrantes.

Tags: Europa · Islã

John McCain e a inacreditável dificuldade
de compreender o Islã

9/April/2008 · 133 Comentários

O general David Petraeus, responsável pela guerra no Iraque, testemunhou ontem perante o Senado. Todos tiveram sua chance de questioná-lo: Hillary Clinton, Barack Obama e John McCain.

Uma das perguntas de McCain ao general era se ele tinha certeza de que a al-Qaeda no Iraque não era algum obscuro grupo xiita.

É uma dúvida estranha.

Há um mês, na Jordânia, McCain afirmou que o Irã estava auxiliando a al-Qaeda, no Iraque. Esta seria uma das justificativas para a manutenção da presença norte-americana.

McCain é tido como um candidato preparado. Da primeira vez, é uma gafe desconfortável. Na segunda, é apavorante.

Não compreender a diferença entre sunitas e xiitas é como não compreender a diferença entre protestantes e católicos. Uma pista: são enormes. Gigantescas. Grandes o suficiente para que os mais extremados de ambos os lados sequer reconheçam o outro como muçulmano.

A al-Qaeda, que adota uma visão particularmente radical do Islã, não reconhece o xiismo. Considera os xiitas uma influência para o mal tanto quanto os cristãos ‘cruzados’. Não é preciso muita profundidade na discussão geopolítica para compreender isto. É um conceito, na verdade, um tanto básico.

Autoridades norte-americanas acusam o Irã de influenciar, armar, treinar e financiar milícias muçulmanas xiitas, verdade. Mas xiitas não financiam a al-Qaeda. Ninguém tem sequer dúvidas a esse respeito.

De dois cenários, um: McCain sabe muito bem a diferença e seu jogo é demagógico, quer produzir uma sensação de medo – se for, desaponta; ou McCain não tem muita clareza a respeito da diferença entre sunitas e xiitas. É mais ou menos o mesmo que dizer: McCain é completamente despreparado para lidar com o Islã.

via MyDD

Tags: EUA · Iraque · Irã · Islã

Fitna e o novo fascismo europeu

30/March/2008 · 284 Comentários

Fitna foi ao ar, na Internet, no último 27 de março, quinta-feira. Está causando algum rebuliço na web conservadora – e, como de hábito, alguns de vocês vêm me cobrando a notícia pelo email e pelas caixas de comentários. É um filme anti-islâmico de 15 minutos de responsabilidade do deputado holandês Geert Wilders.

E é uma espécie de Mein Kampf, de Protocolos dos Sábios do Sião.

O objetivo de Wilders, um político ultra-direitista, é mostrar que em vários trechos do Corão está a pregação da violência; e que muitos clérigos muçulmanos pregam a violência. O Islã é isso, ele quer dizer. É um filme sádico, com cenas da execução de reféns de terroristas que busca apresentar a fé seguida por1 bilhão de pessoas no mundo como fundamentalmente má.

Não apenas a caracterização do Islã como o mal encarnado é simplista como também é errada. O Partido Libertário Popular holandês, que Wilders lidera, é a nova encarnação de um movimento tipicamente europeu. Não hesita em falsear a história com o objetivo de apresentar todo um povo como o responsável pelos males correntes.

Todas as suras que ele pesca do Corão, evidentemente, podem ser encontradas lá. O Corão não nega suas origens judaico-cristãs. Do Deuteronômio ao Livro de Josué ao Gênese, os livros sagrados de judeus e cristãos estão recheados de recomendações não só à violência contra quem é diferente e tem crenças diferentes como até ao genocídio. A história do cristianismo é uma de intolerância. E a do Islã está farta de momentos de tolerância.

É preciso compreender, sim, porque movimentos intolerantes islâmicos estão em alta no mundo. Não é por algo inerente à religião e sim por decisões equivocadas em série do Ocidente. Duas destas foram particularmente graves.

A primeira vem de princípios do século 20, quando o Império Britânico decidiu colocar os seguidores de uma seita minoritária que caminhava para a extinção no comando das cidades sagradas de Meca e Medina. Aos wahabitas da família Saud foram dados de presente, numa só canetada, a cidade que todo muçulmano tem que visitar ao menos uma vez na vida e as maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo. Faz meio século que eles pegam o dinheiro do petróleo para financiar a construção de mesquitas em todo o mundo para divulgar sua visão arcaica e totalitária de uma religião muito mais variada do que isso. São mesquitas suntuosas que transformaram-se nas principais fontes de informação sobre o Islã no mundo.

Por que dar este presente aos Saud? Os britânicos tinham medo de dar tanto poder à família Hashemita, muito mais sofisticada, guardiões históricos de Meca e Medina, descendentes do profeta. Londres calculou que os Sauds seriam facilmente manobráveis.

O segundo erro grave é bem mais recente e recai sobre as mãos de um determinado grupo de estrategistas republicanos liderados por Dick Cheney e Donald Rumsfeld que tiveram poder nos governos Ford, Reagan e Bush, o atual. Com sua visão simplista que consideravam sofisticada do Oriente Médio fizeram uma política de identificar inimigos e financiar seus opositores. Assim, dinheiro aos sunitas para combater os xiitas do Irã. Dinheiro aos futuros Talibãs para combater a URSS. Dinheiro a Saddam Hussein para combater o Irã. Dinheiro aos sauditas, sempre. É assim que nasceu a al-Qaeda.

Não é apenas porque não compreende o Islã que o filme fascista holandês é simplista. É também porque considera os problemas dos jovens muçulmanos na Europa e no Oriente Médio equivalentes. Não são – e nem de perto.

Os rapazes que se juntam a grupos radicais ou terroristas no Oriente Médio não conhecem o Ocidente, foram criados no mundo islâmico e vivem, na maioria das vezes, sob ditaduras. Ali, cada país tem sua própria história.

Na Europa, os jovens radicais são em geral netos de migrantes. Já não falam o árabe – ou turco, ou seja lá o que for – familiar e nem se integraram à Europa. São vítimas de preconceito, são pobres. A volta à mesquita que seus pais abandonaram é uma busca por raízes. Juntam-se a grupos radicais como jovens de origem mexicana se reúnem em gangues em Los Angeles. E recorrem à violência. Em alguns casos, se transformam em criminosos, evidentemente. Mas achar que o Islã é o que os leva à violência é um erro. O Islã é a desculpa. Um jovem violento neto de marroquinos na Holanda e um militante do Hamas e um jovem Talibã não têm muito em comum.

Como é típico dos políticos fascistas, Wilders é também demagogo. Não foi por querer divulgar suas idéias a respeito do Islã que fez Fitna. Foi para provocar. Quer uma reação, quer bandeiras queimadas. Quer aparecer. E sabe que tem chances.

Logo no início do filme, apresenta a caricatura dinamarquesa de Maomé com o turbante bomba. Kurt Westergaard, o cartunista que o desenhou, está cogitando processar por quebra dos direitos autorais. Enquanto isso, o Partido Nacionalista Tcheco ofereceu solidariedade ao deputado cineasta. Partido Nacionalista Tcheco? Defendem pureza racial e tudo.

Tags: Europa · Islã

Uma entrevista aos sábados

29/March/2008 · 141 Comentários

O budismo pressupunha uma enorme quantidade de tempo e solidão para uma transformação que acontecia gradualmente ao longo de anos. Hoje, queremos tudo de forma instantânea. Espiritualidade instantânea. Resultados rápidos, somos todos muito pragmáticos. Ele dizia que precisávamos tirar o ‘eu’ do centro de nosso universo. Sabe aquele ‘eu’ que nos faz acordar às três da manhã, ‘por que isso acontece comigo? Por que não sou valorizado?’ Essas coisas nos arruínam. Buda mostrou como viver sem ver as outras pessoas de um ponto de vista ganancioso, como gente que poderia nos levar à frente de alguma forma. Se libertados do ‘eu’, podemos ampliar nossa perspectiva, podemos nos alinhar com o sagrado. Buda era um radical, muito mais do que aqueles que se dizem budistas, hoje. No Reino Unido, muitos que não se interessam por religião pensam no budismo como um caminho light: sem Deus, sem pecado, um pouquinho de ioga.

Não encontramos entre as escolas budistas o tipo de inimizade que protestantes e católicos mostraram uns pelos outros. Hoje, há o início de algo que podemos chamar de fundamentalismo budista, mas jamais houve inquisição, perseguição, Cruzadas, matança em nome de Deus. Buda de vez em quando fala dos antigos deuses da Índia sem rancor; os profetas bíblicos só citavam os antigos deuses com fúria. Eu não diria que intolerância está na raiz das religiões ocidentais, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Mas intolerância nasce delas. É como se fosse uma tentação à qual os monoteístas se entregam de vez em quando. Quando você tem um deus personalizado, é muito tentador usar a religião para apoiar seus preconceitos. Religiões monoteístas são assim. Em toda geração há gente que caia nessa e há quem resista.

Karen Armstrong

Tags: Budismo · Cristianismo · Gente · História · Igreja Católica · Islã · Judaísmo · Religião

Israel e Palestina: a vitória da insensatez

3/March/2008 · 166 Comentários

A atual política de Israel é um desastre. A promoção de uma carnificina na Palestina – sem esquecer a do Líbano – é uma tragédia humana. É também estúpido. Israel nasceu como a esperança de vida após uma das maiores tragédias da história humana. É uma esperança que o governo da coligação Kadima e Partido Trabalhista, hoje no poder, trai por incompetência, insensibilidade e a mais pura estupidez. Os facínoras estão no comando. Saudades de Yithzak Rabin.

O debate está ficando difícil. Na semana passada, meu amigo Marcos Guterman – que sempre argumentou pela linha da esquerda pacifista israelense – pediu o boné. Perdeu a graça para ele fazer o blog. Entre pessoas que defendem a causa palestina sempre há um jeito de os bons e velhos anti-semitas se misturarem. E raramente são condenados.

Não tenho qualquer pretensão – e jamais tive – de isenção nesta história. Laços de sangue e amizade me aproximam de Israel. Faz parte da minha identidade. Mas é justamente por querer o bem de Israel que quero o bem da Palestina. A Palestina faz parte da identidade de Israel como Israel faz parte da identidade da Palestina. É uma relação que existe desde que há civilização no mundo. O judaísmo está entranhado em cada esquina de Jerusalém; está marcado na ausência do Templo acima de seu monte. O Islã está igualmente em cada esquina, igualmente entranhado – assim como a pedra de onde subiu aos céus o profeta, perto de onde a belíssima cúpula dourada de al-Aqsa se ergue. Israel não será possível sem a Palestina. E a Palestina não será possível sem Israel.

Já achei, noutros tempos, que havia legitimidade para o argumento de que sequer havia palestinos ali – eram todos árabes sem uma identidade nacional própria. Besteira. Mas ainda há muita gente que não percebe o quanto a identidade judaica faz parte daquela terra, o quanto é íntima de sua cultura que sempre rezou pelo ano que vem em Yeroshalaim.

O Hamas se recusa a aceitar a existência de Israel. O governo de Israel, traindo sua história milenar de sofrimento pela opressão, reage com destruição e a mesma opressão. No meio do processo, o diálogo se perde de vez.

O sinal de que o diálogo se perdeu de vez está no ato do Guterman de pedir o chapéu. E está na resposta agressiva que um amigo querido escreveu para meu último post. Discordar é do jogo. Quando você vem com virulência, ao menos é de praxe alertar antes com uma mensagem. Um gesto ao menos de cortesia se espera no debate. Mas nem isso. A irracionalidade venceu de vez a partida quando um sujeito cordial e literato do quilate do Idelber Avelar perde até a capacidade de interpretar texto.

Uma de suas críticas ele pesca de uma frase minha: Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. Isolado do contexto, é um horror. Mas o parágrafo começa com ‘o raciocínio do Hamas é o seguinte’, dois pontos. Aí lista. O Hamas acredita no sacrifício humano. Não sou eu que digo. O que diz são seus programas infantis de tevê. As aulas em suas escolas. Eles preparam homens-bomba! Se isso não pode ser interpretado como ‘morrem sem se preocupar’, o que pode? Eu não acho que o Hamas represente o que pensam os palestinos todos. É por isso que após descrever como é o Hamas, concluo: A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim. Mas o Idelber esqueceu de ler o final. Mobilizado, estava cego. Tinha tirado uma conclusão a respeito do que penso e esqueceu de ler o que de fato escrevi.

Foi também isto que fez quando voltou a meus posts sobre o Líbano. Sim, eu disse no início do conflito que Israel tinha o direito de se defender. Depois disse que o ataque foi um ato covarde. Demorei alguns dias para chegar a tal conclusão? Sim. A guerra demorou alguns dias para se revelar em toda sua crueza. É o contexto no qual tais posts foram publicados. Caracterizar minha opinião por um trecho sem incluir o fato de que revi a posição depois é o quê? Não tenho nenhuma dificuldade de rever posições quando cabe. Só não quero ser acusado pelo que pensei e não penso mais.

Daí Idelber segue para mais uma frase pinçada. O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? O Hamas se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. É fato. Está no programa do Hamas o objetivo de acabar com Israel. É fato. Que este objetivo seja colocado de lado para conversar a paz é uma condição, no mínimo, razoável. Conversas de paz começam com a pressuposição de que as partes não desejam mais a mútua destruição. E não uso este argumento, em momento algum, para legitimar a política destrutiva de Israel. Nada legitima o que o governo de Israel está fazendo. Quem lê o Idelber sai com a impressão de que estou justificando uma coisa, não outra.

Idelber me acusa de estar justificando atos israelenses num post em que os condeno. Antes de mergulhar numa peça de Ionescu ou Beckett, num romance de Kafka, é melhor jogar a toalha.

Não pretendo voltar ao assunto Israel, Palestina tão cedo. Trégua. O que ele produz é isso: até os amigos queridos param de ouvir o que você está dizendo para interpretar o que julgam ser o discurso de alguém que defende Israel. Não tenho ânimo de entrar numa discussão histórica sobre o que houve em 1948. Cansa a perspectiva da repetição dos mesmos argumentos de um lado, de outro, a inevitabilidade da surdez de ambas as partes. Cansa a perspectiva de saber que alguém lançará mão da palavra Holocausto e que ela sempre estará num contexto que fere – porque é impossível lançar mão do Holocausto sem ferir. Cansa a perspectiva de ter que discutir com gente que a gente gosta. E de ter que ouvir todos aqueles que aproveitam-se do discurso legítimo de defesa da Palestina para levantar de novo, discretamente, sutilmente, como se nada quisessem, o mesmo discurso que levou ao pesadelo dos anos 1940. É fácil dizer que não aconteceria mais. O vampiro de Dusseldorf está sempre à espreita.

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Israel, Palestina: como resolver?

2/March/2008 · 129 Comentários

Deixe de lado um ou outro que traz à tona a estúpida comparação de Israel com o nazismo, e os comentários do post abaixo apresentam excelentes questões.

(Se há um Holocausto em curso? Nem de perto. Mas isto já foi discutido aqui e não faz sentido voltar ao tema. É mais importante discutir o que está realmente acontecendo.)

Quem argumenta pelo lado palestino nesta situação e nas passadas tem os números a seu favor. Israel mata muito mais palestinos do que o oposto. Quem argumenta pelo lado palestino tem mais do que isso a seu favor. Tem o bloqueio militar e econômico às comunidades palestinas que pioram sua vida, inviabilizam seu sustento, impossibilitam a criação de um Estado independente.

Quem argumenta pelo lado israelense pergunta: e fazer o quê? O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? Também há números: o bloqueio militar reduziu realmente o número de ataques terroristas dentro de Israel. O Hamas tenta. Não consegue mais, daí fica com a constante provocação dos mísseis caseiros. Vez por outra, destrói uma casa, fere ou mata um.

Como na piada do rabino, é perfeitamente sensato dizer: ambos têm toda a razão. Mas de que adianta ter a razão se o caminho escolhido por ambos os lados representa a destruição de um – ou de ambos?

Sderot é uma pequena cidade israelense, a mais próxima de Gaza, e constante vítima dos foguetes caseiros. O Hamas informa que tem 10.000 foguetes em seu arsenal. Seu objetivo é colocar os habitantes de Sderot para fora. Acaso despejem tudo lá, conseguirão. O prefeito da cidadezinha, Eli Moyal, costumava reclamar que, para se proteger os prédios dos foguetinhos, fora obrigado a aceitar 2 bilhões de dólares em doações de evangélicos norte-americanos. O governo federal estava ausente. Sem uma resposta brutal por parte de Israel contra o Hamas, o ritmo de fogo continuaria, ele argumentava. Agora, conseguiu.

O raciocínio do Hamas é o seguinte: os israelenses vão desistir. Primeiro, com foguetinhos, expulsam a população de Sderot. Se conseguirem, começam operações semelhantes na Cisjordânia, na fronteira do Líbano, foguetinhos de toda parte para aumentar o estresse de viver em Israel. Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas.

A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim.

O ex-deputado trabalhista Avrum Burg, que chegou a ser presidente do Knesset, argumenta que a alma israelense não consegue vencer o trauma do Holocausto. Seu raciocínio vai assim: nos anos 1930 e 40, enquanto as políticas da Alemanha Nazista moviam-se cada vez mais em direção ao extermínio total dos judeus, nenhuma nação se levantou para defendê-los. Assim, a obrigação fundamental de Israel é defender os judeus. A qualquer custo. Como não podem esperar nada do mundo, dane-se. Judeus defendem-se por conta própria. (A entrevista de Burg ao Haaretz que causou comoção no país foi comentada aqui e culminou numa excelente reportagem de David Remnick, diretor de redação da New Yorker.)

Burg acredita que Israel perdeu a sensibilidade para o sofrimento palestino. Provavelmente tem razão. Mas a observação não resolve o problema: que fazer?

O primeiro passo é reconhecer que a política israelense até agora foi desastrada. O Hamas começou com dinheiro israelense, alimentado pelo desejo de promover um grupo que fizesse frente à OLP de Yasser Arafat.

Não é possível vencer militarmente o Hamas. Quanto pior a ofensiva militar contra Gaza, mais gente morrerá a mais gente achará que o Hamas é seu único defensor. Quanto mais bate, mais forte o inimigo sai. Esta é a maneira pragmática de ver o problema. A outra maneira é pelos olhos de Burg. No momento em que Israel perde a sensibilidade para o sofrimento de qualquer grupo humano, algo fundamental de sua alma também é perdida. Ele vai além: vale a pena Israel se este algo fundamental humanitário não existe mais? A opinião dele é que o país está cavando sua destruição futura. Não é uma conclusão que o faz particularmente popular.

Combate-se o Hamas em duas frentes. A primeira é cortando ao máximo possível suas fontes de renda. Ou seja: Irã, Arábia Saudita, Síria. A segunda é melhorando a vida dos palestinos. Vai além de independência. Escolas, hospitais, segurança, emprego. Se a vida melhorar, o ódio se restringirá à minoria radical.

Não é difícil trazer a Arábia Saudita para o barco. Seu governo já é aliado do ocidente e sabe que sua maior ameaça interna é justamente o radicalismo islâmico incontido. O problema interno da Arábia Saudita é que não é fácil de resolver, já que o Islã ‘puro’ dos terroristas, lá, é a religião de Estado. Mas convencer a realeza a cessar a transferência de fundos para movimentos radicais palestinos é possível.

Com a Síria também é possível ter uma conversa pragmática. Bashar al-Asad, o ditador do país, não é burro. Mas é paranóico. Teme uma invasão norte-americana, teme a ameaça israelense. Sabe que seu regime é semelhante ao que Saddam Hussein tocava no vizinho Iraque. Sente-se ameaçado. Por isso, alimenta o Hamas. É sua moeda de troca na mesa de negociação para garantir a sobrevivência.

Para o Irã é preciso uma política de reintegração do país no cenário político internacional. É preciso reconhecer sua importância regional e é preciso parar de incluí-lo em coisas como o ‘Eixo do Mal’, que só empurram a população em geral moderada para o braço dos radicais.

Qualquer um por certo pode então se levantar e dizer: tudo isso para resolver a questão da Palestina? Impossível. É claro que é possível. O histórico da política externa do século 20 no Oriente Médio foi um de municiar com armas e dinheiro grupos que pretendiam exterminar outros grupos. Assim, os EUA armaram os mujahedins afegãos que combateram os soviéticos; municiaram a Guarda Republicana de Saddam Hussein que partiu contra o Irã; Israel alimentou o Hamas que foi no pescoço da OLP. Os mujahedins criaram a al-Qaeda, Saddam saiu para exterminar seu próprio povo e o Hamas dispara homens-bomba ou seus foguetinhos (que matam e destróem) contra Sderot.

(É possível ir até mais longe. Os ingleses puseram os Sauds, uns beduínos carniceiros e radicais religiosos conhecidos da região, para governar o país que ficou chamado Arábia Saudita porque não queriam pôr os Hashemitas, atuais governantes da Jordânia, no lugar que lhes cabia tradicionalmente, desde os tempos de Maomé. Não os puseram lá porque consideraram que os Sauds seriam facilmente manipuláveis, os Hashemitas, não. A vertente radical da religião que os Sauds defendiam era em todo minoritária nos anos 1920; hoje, se espalhou. O mundo com os Hashemitas no poder em Meca e Medina seria muito melhor.)

Um bom indício a respeito da eficiência das operações militares é o seguinte: até agora, não resolveram nada, mataram muito e acirraram a resistência e o ódio.

Evidentemente, nada disso é fácil de fazer. Se começar agora é trabalho para décadas. E ajuda muito se o próximo presidente dos EUA for alguém disposto ao diálogo.

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Por que há tantos engenheiros na al-Qaeda?

22/January/2008 · 106 Comentários

Muitas vezes, é interessante buscar ângulos inusitados para observar problemas. Diego Gambetta e Steffen Hertog, sociólogos da Universidade de Oxford, perceberam por exemplo que, entre os terroristas da al-Qaeda, há muitos médicos e engenheiros e que, destes, os engenheiros são maioria. Por quê? Sua pesquisa (artigo em PDF) começou na busca de estudos sobre as características de engenheiros.

De início, uma pesquisa da Fundação Carnegie em vários departamentos universitários dos EUA revelou que, dentre engenheiros, médicos, advogados, cientistas das exatas, economistas e cientistas sociais, os engenheiros tendem a se classificar mais conservadores, mais à direita, do que todos os outros. (Colocando em números: 57,6% dos engenheiros se classificam como conservadores, contra 51,1% dentre os economistas, 42,5% dentre os médicos, 33,5% dentre cientistas exatos.)

Outra pista veio de um estudo do economista Friedrich von Hayek, prêmio Nobel, que segue a linha liberal:

Engenheiros são fruto de uma educação que não os treina para compreender indivíduos e seu mundo como o resultado de um processo social no qual comportamento espontâneo e interações contribuem para o resultado final. O contrário: a educação do engenheiro o leva a crer que o controle racional de processos é desejável. Isso os leva a dificuldades com as causas confusas das realidades política e social e os inclinam a imaginar sociedades que deveriam operar ordenadamente como máquinas bem azeitadas. ‘Não surpreende’, sugere Hayek, ‘que algumas das mentes mais ativas dentre eles cedo ou tarde reajam violentamente por conta das deficiências de sua educação e desenvolvam o desejo de impor à sociedade uma ordem que não conseguem detectar.’

Antes de continuar o raciocínio, é bom destacar: von Hayek escreveu sobre engenheiros em 1952. Quando descrevia assim o comportamento tomado por alguns engenheiros, por certo tinha em mente dois tipos de totalitarismo diferentes do atual, islâmico; ele tinha em mente o nazismo alemão e o stalinismo soviético. E os autores do artigo sabem disso.

Os dados são delicados. Não há muitos engenheiros na Fatah (laica), fundada por Yasser Arafat. E, dentre grupos oposicionistas de esquerda da Turquia e do Irã, há muitos engenheiros. É principalmente na Arábia Saudita – mas também em outros países árabes –, que, dentre os terroristas, há um número elevado de engenheiros.

Engenharia e medicina, nestes países como em outros, são os cursos de elite. Destes, a engenharia em particular, nos países árabes, petrolíferos, reúne as características de ser um curso de elite, prático e que não desafia o estudante a questionar sua religião. (Medicina, como as ciências, o faz.) Em países que buscam o desenvolvimento, engenheiros – como médicos – estão dentre os jovens profissionais que mais se frustram. Embora sejam a elite acadêmica, alguns dos melhores alunos que foram mais pesadamente testados ao longo do curso, não necessariamente encontram boas oportunidades profissionais ao deixar a universidade.

Aqui, para os autores do estudo, 1982 é um ano chave: o pico da Crise do Petróleo iniciada nos anos 1970, que arrebentou com várias economias no Oriente Médio, eliminou oportunidades profissionais. É mais ou menos nessa época que grupos fundamentalistas islâmicos começam a se fortalecer em várias universidades da região.

Este é um estudo de caso que se aplica, particularmente, ao Egito e à Arábia Saudita. É muito fácil generalizar a partir dele – o que seria perigoso. Talvez, realmente, jovens engenheiros – Osama bin Laden é um, Mohammed Atta, líder do Onze de Setembro, é outro – tenham uma predisposição maior, dados cenários específicos, a abraçar discursos totalitários da imposição de uma ordem social.

Mais interessante é a observação de que estes grupos fundamentalistas se fortaleceram realmente dentro de universidades num período de profunda crise econômica. Ou seja, numa época em que as jovens elites acadêmicas dos países árabes estavam chegando ao mundo profissional sem oportunidades.

via Collision detection

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Turquia, União Européia e uma visita a Alhambra

21/January/2008 · 118 Comentários

No início do ano, o premiê turco Recep Tayyip Erdogan esteve na Espanha para o encontro da Aliança das Civilizações – uma idéia de seu par espanhol, José Luis Zapatero, para dar início a conversas que liquidem com as tensões entre o mundo islâmico e o ocidente. Lá, Erdogan foi apresentado pela primeira vez a Allambra e às belezas islâmicas de Córdoba. O premiê ficou maravilhado – e por certo ajudou, neste bom humor, a garantia dada por Zapatero de que a Espanha apoiará a entrada de seu país na União Européia.

França e Alemanha continuam quietas no seu canto, não são propriamente contra, mas o número de ressalvas que levantam é impressionante.

As negociações de fato para a entrada do país só começam em outubro, mas o excelente blog Executive outcomes tem uma lista das razões pelas quais, no fim, a Turquia não entrará na União Européia:

1. São 70 milhões de pessoas. Seria o segundo maior país da UE, após a Alemanha e, dadas as inclinações demográficas de um e de outro, basta uns anos mais para chegar a primeiro.

2. É um país agrário e a UE, urbana e industrial, dedica hoje 46% do orçamento a subsídios agrícolas. Se a Turquia entrar, boa parte deste dinheiro escoaria imediatamente para mãos turcas. Os fazendeiros beneficiados em toda a Europa, hoje, vão gritar.

3. É um país pobre. Seria o mais pobre da UE, competindo apenas com Romênia e Bulgária. Quer dizer que sugaria, também, grande parte dos recursos dedicados a desenvolvimento da União. Todos os países reclamariam.

4. Apenas 35% dos europeus apóiam a idéia.

E há um último detalhe: é um país muçulmano e a islamofobia grassa na Europa. Holanda, França e Alemanha, em particular, enfrentam uma onda anti-muçulmana violenta, difícil de ser manobrada por seus governantes.

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O Corão visto pela história

16/January/2008 · 139 Comentários

Sabemos muito pouco a respeito do Corão, livro sagrado dos muçulmanos. Mas uma nova descoberta fará com que isso mude radicalmente: cientistas têm, nas mãos, a reprodução de uma versão do livro quase contemporânea a Maomé. Jamais se esteve tão próximo do texto original.

Já dá para dizer uma coisa: o texto mudou. A tradição muçulmana dá que não houve qualquer mudança, que as palavras ali foram ditadas por Deus. Talvez. Se for, alguém copidescou o Senhor.

Sobre a Bíblia, sabe-se muito. Ela é estudada por cientistas vários desde o século 19. Sabe-se, bom deixar claro, do ponto de vista histórico. Compreende-se um tanto a respeito de seus autores, como determinados livros foram escolhidos e ordenados. Do Velho Testamento, dá para reconstruir um pouco da religião que poderíamos chamar de proto-judaísmo e o que aqueles homens compreendiam por Deus – era algo diferente dos monoteísmos atuais. Nos últimos dez ou quinze anos, avançou-se incrivelmente na compreensão de quem foi o homem da Galiléia de princípios do primeiro século que hoje chamamos Jesus.

Sobre o Corão, sabemos quase nada. Temos a origem mítica. De acordo com ela, Maomé nasceu por volta do ano 570, trabalhou como mercador, era analfabeto, e quando tinha uns 40 anos o anjo Gabriel o procurou falando em nome do Senhor. Por décadas, o Corão foi ditado a Maomé.

História é outra coisa: quem realmente escreveu o Corão? Se foi Maomé, ele não podia ser analfabeto. (A poesia do livro, dizem os especialistas em árabe, é de boa qualidade, coisa que não pode ser dita a respeito de todos os livros da Bíblia.) E quais as influências imediatas do Corão?

O professor alemão Anton Spitaler foi responsável pelo melhor arquivo para este estudo: 450 rolos de filmes com as fotografias de cópias antigas do Corão, datando do ano 700 – pouco após a morte de Maomé. Os originais, se existem, estão escondidos em alguma biblioteca do Oriente Médio. As fotos, dizia Spitaler, foram queimadas quando a Força Aérea Britânica derrubou a Academia de Ciências da Baviera, em abril de 1944. O velho professor afirmou isto, sabe-se lá porque, até sua morte, em 2003. Aí descobriram que era mentira.

Outro velho professor alemão, Günter Lüling, tem a tese de que antigos hinos cristãos são uma das fontes para o Corão. Talvez. Muitos dos personagens são os mesmos, o Deus é o mesmo. Do ponto de vista estritamente histórico, que o cristianismo inspirou o Islã, não há dúvidas. O que não se sabe é como e o quanto. Outra teoria de um cientista alemão, que se assina com o pseudônimo Cristoph Luxenberg, é de que a língua original do livro não é árabe, mas siríaco. Esta é uma língua próxima do aramaico e que deu origem ao árabe, ainda falada na região onde vivia Maomé até o século 8. Era a língua da maioria das comunidades cristãs primitivas dali. (Luxenberg sugere que é um erro da tradução do siríaco para o árabe a idéia de que há virgens prometidas aos mártires; o que há são uvas.)

Uma das vantagens de ter um Corão mais próximo do original é que, partindo-se dele, é possível comparar com as escrituras cristãs e judias para ver onde há repetição de trechos. Não é uma tarefa fácil. A escrita árabe evoluiu, e as letras de então são legíveis apenas por especialistas. É ainda mais difícil por outro motivo: quem estuda a Bíblia a sério desperta a ira de cristãos fundamentalistas, principalmente nos EUA. Mas eles gritam, esperneiam, e não fazem muito mais que isso. Despertar a ira do fundamentalismo islâmico, no século 21, não é tão indolor assim.

Daí que, não à toa, alguns dos especialistas se assinam com pseudônimos. Assim como também não é à toa que a maioria dos estudiosos, hoje, se encontra na Alemanha. Também foram alemães, no século 19, que ousaram sugerir pela primeira vez que havia um Jesus histórico diferente daquele descrito no Novo Testamento.

dica do Filipe Litaiff

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E se o Islã não existisse?

9/January/2008 · 85 Comentários

Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?

Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.

O raciocínio é todo de Fuller.

Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.

São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:

Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.

Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.

Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.

Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.

Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.

A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.

(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)

Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.

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Assassinada Benazir Bhutto

27/December/2007 · 70 Comentários

No momento, uma multidão de seguidores à frente do Hospital Geral de Rawalpindi grita ‘Musharraff Cachorro’ – mas é cedo ainda para sugerir culpados.

A duas vezes premiê paquistanesa Benazir Bhutto foi assassinada em meio a um comício em Rawalpindi, cidade onde fica a sede do Exército, próxima à capital Islamabad. Um homem disparou tiros contra ela e, na seqüência, explodiu-se.

Hoje mais cedo, não longe dali, quatro assessores de Nawaz Sharif, outro ex-premiê, também candidato, foram assassinados a tiros. O partido de Sharif acusou militantes pró-governo.

As eleições parlamentares na qual Sharif concorre e Bhutto concorria acontecerá em 12 dias.

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Cristianismo versus Islã

26/December/2007 · 173 Comentários

Na virada do século 19 para o 20, 200 milhões de muçulmanos viviam no mundo. Foi um século exuberante para o Islã: hoje, são 1,5 bilhão de fiéis. Em compensação, um ocidente cada vez mais laico produziu um crescimento em proporção muito menor à do aumento populacional do cristianismo. Jesus ainda vence Maomé – são 2 bilhões de cristãos, afinal – mas a se julgar pelo ritmo de uma e de outra, em 2050 o Islã deverá ser a maior religião do mundo.

A Economist edição dupla, que cobre a quinzena final de 2007, traz uma reportagem estupenda sobre o equilíbrio das duas filhas do judaísmo. (Diferentemente de cristãos e muçulmanos, judeus, os inventores do primeiro Livro sagrado, não vêem como sua a missão de sair pelo mundo a converter seguidores.)

De um lado, como financiadores, estão os poderosos evangélicos norte-americanos, que investem pesadamente na formação de missionários para espalhar pelo mundo. Do outro, estão a família real saudita e incontáveis milionários do petróleo árabes que gastam um bom dinheiro para espalhar o seu livro sagrado a qualquer interessado. (Peça um para você: www.freekoran.com.)

Os cristãos são mais espertos quando o assunto é marketing: no mercado dos EUA, há Bíblias de todos os tipos, adaptadas para crianças, adolescentes, adultos, comentadas ou não, há revistas multicoloridas, há filmes. E este material vai se espalhando em línguas várias.

Os muçulmanos têm uma tremenda vantagem: na maioria dos países islâmicos, a tentativa de converter qualquer um a outra religião é crime – muitas vezes, só rezar para outro Deus já é passível de cadeia ou outra pena. Então o Islã tem livre acesso à Europa, aos EUA e Américas, enquanto missionários cristãos não podem jogar no campo inimigo, salvo imenso risco.

Mas nem tudo é positivo. O Onze de Setembro foi uma rasteira. A maioria das entidades filantrópicas que investiam no espalhar da religião de Maomé foram declaradas suspeitas ou mesmo ilegais, por conta de envolvimento com o financiamento do terrorismo. Além disso, o terror despertou uma profunda desconfiança mundial. Não bastasse, islâmicos resistem a técnicas modernas de marketing, já que consideram seu livro sagrado a palavra literal de Deus – e não meramente inspiradas por, caso dos cristãos. Mexer com ela seria sacrilégio.

Por sua vez, os cristãos seguem perdendo espaço no coração europeu de sua origem. Por um lado, perdem para o próprio Islã, conforme jovens nascidos em famílias que migraram procuram contato com a religião de pais e avós numa busca de identidade; por outro, perdem para o nada, conforme jovens de origem européia bem educados deixam de ter uso para qualquer religião que seja.

O campo está aberto. Pode não haver um choque entre civilizações, mas os grupos interessados particularmente na divulgação de suas religiões farão do choque entre Cristianismo e Islamismo um conflito marcante das décadas porvir. O principal cenário desta disputa, no momento, passa ao largo de Europa ou Oriente Médio. É a África.

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