Qual a estratégia de Obama
para lidar com o terror islâmico

05/June/2009 - 12h02 - 181 Comentarios

Gostei muito de ler as opiniões de vocês a respeito do discurso do presidente norte-americano Barack Obama, no Cairo. Não é a opinião de jornalistas, que tendem a pensar parecido entre si, que importa. É como pensam as pessoas que não são nem políticos, nem jornalistas, nem têm interesses imediatamente ligados à questão que vale.

Tenho um método para ler opiniões. Começo identificando os extremistas, os radicais. Na caixa de comentários abaixo, são os suspeitos de sempre, à esquerda e à direita. Os primeiros em que presto atenção sempre são os radicais. Falaram algo que surpreenda? Quando radicais falam algo que você não espera, preste atenção. Tem uma mudança de rumo aí. A possibilidade de uma nova tendência. Mas os radicais não falaram nada de surpreendente. Radicais não pensam: reagem. Suas idéias já vem empacotadas doutras fontes. Às vezes, alguns radicais podem ser brilhantes nos argumentos. Mas, ainda assim, quase nunca surpreendem. Radicais têm uma visão maniqueísta do mundo. Sabem que estão certos, não têm dúvidas. Sabem quais são as soluções do mundo e identificam muito rápido vilões absolutos.

Conviver com certezas por certo deve ser agradável. Não é uma bênção que a maioria de nós têm. Temos que lidar com o mundo do jeito que ele veio.

Não sei se o discurso de Barack Obama vai dar certo. O tempo é que dirá e qualquer pesquisa ou comentário que venha nas próximas semanas será apenas especulação. Isso não quer dizer que não exista nada a ser dito a respeito do discurso: é possível revelar suas intenções.

Obama é o político que reinventou a arte do discurso no Ocidente. A habilidade de políticos era medida por sua capacidade oratória até o fim da era do rádio. A televisão mudou essa linguagem, exigindo frases cada vez mais curtas. O grande talento para um político passou a ser a capacidade de emanar empatia pela tela da tevê.

Com seu discurso sobre relações raciais nos EUA, durante as primárias do Partido Democrata no ano passado, Obama mudou o jogo. O YouTube reinventou o rádio de certa forma: ao longo dos dias seguintes ao discurso, cada qual em seu tempo, os eleitores norte-americanos foram à Internet ouvir os quase 50 minutos daquele discurso de Obama com calma. Em geral, diz-se que a Internet acelera o tempo. Nem sempre. Às vezes, faz o oposto. Dá tempo para que uma mensagem um pouco mais complexa do que permitem os 30 segundos de tevê tenha chance de reverberar.

O que o presidente dos EUA tentou fazer ontem, no Cairo, é repetir o fenômeno do discurso sobre raça. A dúvida é o filtro cultural: do outro lado não estão norte-americanos, nem gente que foi educada num ambiente de cultura européia.

Ainda assim, ele conta com a Internet para que milhões de pessoas em todo o mundo muçulmano o ouçam ao longo dos próximos dias e semanas. Foi, como no caso do race speech, um discurso longo. Seu alvo são jovens. Jovens, afinal, são os que têm acesso à Internet. E, não custa lembrar, é via Internet que a al-Qaeda distribui seu material inflamatório. É via Internet, com discursos gravados em áudio e em vídeo, que a al-Qaeda seduz mentes. É neste mercado que Obama decidiu entrar. Sua aposta é de que conseguirá plantar um dúvida na mente de incontáveis jovens muçulmanos de 13, 16 ou 19 anos. Ele só precisa disso: plantar a dúvida.

Radicais têm certezas, afinal. Se jovens o suficiente vacilarem na hora de se abraçar a uma bomba que levará suas vidas, a política no Oriente Médio caminha três ou quatro passos à frente. Se dará certo? Não depende apenas do discurso. O discurso desarma. Se der certo, ele faz com que seu público alvo cogite a possibilidade de que os EUA – e o ocidente – não sejam vilões absolutos.

Não basta que cogitem, tem que se convencer. A maneira como a política externa dos EUA é percebida também terá que mudar. O discurso de ontem faz parte da nova estratégia norte-americana. É uma estratégia ousada, e vai ser fácil bater nela se não der certo.

O mundo é assim mesmo: fazer com que as coisas funcionem é difícil. Bom mesmo é ser radical. Certezas sem obrigação de resolver problemas está entre as posições mais confortáveis que podem haver. Mas não deixa de ser engraçado quando gente que olha para o mundo e só vê pretos e brancos, nenhum cinza, chama os outros de ingênuo.

Obama no Cairo

04/June/2009 - 13h44 - 141 Comentarios

Barack Obama fez, hoje, o discurso mais importante desde que assumiu a presidência dos EUA.

Interessante será acompanhar a repercussão – e a partir dela escrevo mais.

Tenho a impressão de que foi a primeira vez na qual um presidente dos EUA reconheceu em público que seu país participou do golpe que derrubou um governo democrático no Irã, em 1953.

O perfil religioso dos EUA
mais ateu, menos cristão

15/May/2009 - 11h42 - 85 Comentarios

Os EUA são, por fama e direito, reconhecidos como o país mais religioso do ocidente desenvolvido. Até isso, no entanto, pode mudar. O Trinity College de Connecticut, uma das mais tradicionais instituições católicas do país, realizou sua terceira pesquisa a respeito do perfil da fé norte-americana.

Descobriu um país mais laico e menos cristão.

Em 1990, 8,2% dos entrevistados se identificavam como ’sem religião’. O número em 2001 era 14,2%. Agora é de 15%.

O percentual de cristãos na população caiu 10%.

Os católicos, que estavam em sua maioria no nordeste, hoje se concentram no sudoestes. São menos descendentes de irlandeses, italianos e poloneses e mais latino-americanos. Há mais católicos na Califórnia, agora, do que na Nova Inglaterra – uma brutal mudança demográfica. (Escândalos de pedofilia concentrados em Boston ajudam.)

Dentre os cristãos, as denominações tradicionais do protestantismo estão perdendo espaço para as igrejas modernas, os evangélicos genéricos. Em 1990, 200.000 se identificavam como ‘cristãos que não seguem nenhuma denominação’. Passaram a 2,5 milhões em 2001. São 8 milhões, hoje. Eram 5% da população, são 11,8%.

A proporção de muçulmanos aumentou: 0,3% em 90, 0,6% agora. A de judeus, diminuiu – de 2,7% passou a 1,2%.

Avó de Obama fará
peregrinação islâmica a Meca

04/May/2009 - 12h17 - 27 Comentarios

A avó queniana de Barack Obama, Sarah Obama, fará a peregrinação a Meca este ano. (O Hajj cai no final de novembro.) O convite veio de Sulaiman Al-Fahim, dono do time de futebol Manchester City e um dos homens mais ricos de Dubai.

É o mais importante ritual muçulmano.

A viagem de Mama Sarah, madrasta do pai de Obama, por certo não escapará à direita hidrófoba norte-americana. Por outro lado, pode criar boa vontade no mundo árabe.

Ahmed Rashid: como (e por quê)
cresce a al-Qaeda

16/March/2009 - 11h48 - 65 Comentarios

Há um mecanismo nos arredores do Afeganistão que está alimentando e fortalecendo a al-Qaeda. Este post é o segundo (e último) que sai a partir da conversa com Ahmed Rashid, o primeiro foi sobre o Talibã. A al-Qaeda está mais forte e intimamente ligada à cúpula do Talibã, mais até do que antes do Onze de Setembro,. O grupo liderado por Osama bin-Laden tem proteção na região em que vive, a fronteira do Paquistão e Afeganistão, por causa da influência do Talibã ali, pelo surgimento nos últimos anos de um Talibã paquistanês e pela proteção da ISI, serviço secreto do Paquistão.

A ISI é a responsável pelo desenvolvimento e execução da política externa do Paquistão. Como se trata de um braço das Forças Armadas, tal política se resume a ser contra a Índia. Daí, consideram adequado insuflar o radicalismo islâmico. A tranquilidade concedida à al-Qaeda nos últimos anos reverteu uma tendência inicial de diminuição e permitiu um retorno à expansão. O único fracasso do grupo terrorista nos últimos dez anos foi no Iraque. Hoje, a al-Qaeda tem bases no Iêmen, no Sudão e grupos afiliados em todos os países da Europa. Nos últimos seis meses, houve prisões de membros da organização na França e na Alemanha. Mas haverá um novo ataque em solo europeu. O grupo está forte.

O que isto diz a respeito da Guerra ao Terror imposta por George W. Bush? Há dois argumentos que os partidários do ex-presidente norte-americano usam para defendê-lo. O primeiro, de que ele realmente evitou novas tentativas de ataque em solo dos EUA. E o segundo de que, afinal, ele venceu a al-Qaeda no Iraque.

Rashid explica assim: o Iraque foi um caso particular, onde a população sunita não é radical do ponto de vista religioso. É mais difícil envolvê-la por muito tempo numa guerra em nome de Deus. Lá, o problema é nacionalista. Mas, de qualquer forma, o Iraque foi o único lugar no mundo em que os homens de bin-Laden realmente enfrentaram o exército dos EUA numa batalha aberta. Tais homens, hoje, vivem no Afeganistão e estudam dedicados as circunstâncias daquela derrota. Aprenderam muito sobre como o maior exército do mundo funciona em batalha. E estão prontos para um novo confronto armado no Afeganistão. O Afeganistão, não custa lembrar, é onde Alexandre, o Grande, o Império Britânico, e a União Soviética caíram.

E quanto a ataques diretos aos EUA? Rashid os considera mais difíceis pela natureza do país. Não só os EUA são mais isolados – estão a um Atlântico ou Pacífico de distância – como é um país de imigrantes. As comunidades islâmicas, nos EUA, estão integradas à sociedade. Sentem-se norte-americanas. O discurso da jihad simplesmente não pega. Esta integração não é algo que os europeus tenham conseguido fazer. E é do sentimento de exclusão social que são reforçados os laços com o país original e a raiva da nova terra. Ironicamente, as críticas ao ‘multiculturalismo’ que nasceram dentro do movimento neo-conservador dos EUA ignoraram o fato de que são os próprios EUA um dos maiores exemplos de multiculturalismo bem sucedido do mundo. (O Brasil certamente está na mesma lista.) É porque os muçulmanos norte-americanos sentem-se norte-americanos mais do que iraquianos, paquistaneses ou o que for que a al-Qaeda não encontra solo fértil para se implantar.

Outros fatos explicam o recente fortalecimento da al-Qaeda e o primeiro é o tráfico de drogas baseadas em ópio, principalmente heroína. O Talibã já protegia, quando estava no governo afegão, os fazendeiros de papoula, o que lhe rendia 200 milhões de dólares anuais. Mas o envolvimento é mais profundo, agora. O grupo e a al-Qaeda estão envolvidos não só com proteção mas com o tráfico. Lucram alto fazendo o escoamento da produção, seja via Dubai, Tashkent (Uzbequistão) ou Islamabad (Paquistão). Ninguém sabe ao certo quanto o negócio dá. Mas é muito.

O Islã não permitiria este envolvimento, mas os mulás da al-Qaeda o justificam seguindo um raciocínio tortuoso: não se envolvem com haxixe, baseado em cannabis, porque há um histórico de uso de maconha por muçulmanos. Com heroína não é assim – já que muçulmanos não a consomem, só os outros. Simplesmente não é verdade. O uso de opiácios por afegãos e paquistaneses vem crescendo e é um portentoso problema social.

Por outro lado, Ahmed Rashid não espera que ocorra, com a al-Qaeda, aquilo que aconteceu com as FARC. De um grupo de guerrilhas comunistas e de esquerda, após se envolverem com o tráfico foram corrompidas ao ponto de se transformarem, agora no fim de sua existência, em um mero grupo de bandidos. A ‘ideologia’ islâmica é mais forte do que isso e os homens ligados a bin-Laden são totalmente centrados no objetivo da jihad. O tráfico pode financiá-los, mas não vai virar atividade fim.

O outro elemento que fortalece a al-Qaeda é o empobrecimento da região, reforçado agora pela crise econômica mundial. Não é só o Afeganistão. O sul do Tajiquistão passou boa parte do inverno sem luz – é uma região pobre, profundamente pobre, e gelada. Há passeatas motivadas pelo preço dos alimentos no Uzbequistão e no Quirguistão. Pobres, famintos, sem quaisquer perspectivas, jovens muçulmanos destes países descem ao sul em busca da al-Qaeda e abraçam a jihad. O número de soldados está aumentando.

A entrevista de Barack Obama ao mundo
árabe e o problema da al-Qaeda

28/January/2009 - 14h00 - 49 Comentarios

Pois aconteceu: em sua primeira entrevista (transcrição em inglês) para a televisão, o presidente norte-americano Barack Obama optou pela rede Al Arabya. Não falou a seus compatriotas ou aos europeus ou mesmo aos israelenses. Falou ao mundo árabe.

‘Nós americanos não somos seus inimigos’, disse Obama. O presidente falou longamente sobre o conflito entre Israel e Palestina. Reiterou que os EUA têm total interesse na segurança de Israel, mas reconheceu que a situação de vida dos palestinos não melhorou em nada ao longo dos últimos anos. Para Obama, um acordo de paz só sairá se a conversa abandonar as questões do passado e focar no futuro. ‘Uma criança na Palestina estará melhor após o acordo?’, ele se perguntou. ‘Será capaz de construir um futuro para si? E uma criança em Israel terá maior segurança para viver?’

George W. Bush falava vez por outra aos árabes, mas seu discurso vinha na forma de promoção da democracia. Obama não seguiu por aí – até porque, nos últimos anos, norte-americano que fala em promoção de democracia no mundo árabe não tem credibilidade. Obama preferiu apresentar um bom acordo não como aquele em que leva a um regime democrático, mas um em que as crianças de ambas as partes saem com um futuro melhor pela frente.

Falar prioritariamente ao povo árabe é um gesto ousado.

‘O governo dos EUA fará uma distinção clara’, disse o presidente, ‘entre organizações como a al-Qaeda, que empregam a violência e o terror, e grupos com os quais não concordamos. É perfeitamente possível que discordemos mas mantenhamos o respeito uns pelos outros. Só não respeitamos grupos terroristas que matam civis inocentes.’

A al-Qaeda vem martelando no governo Obama bem antes da posse. ‘É o negro manso’, sugeriu Ayman al-Zawahiri logo após a eleição. Apresentaram homens libertos de Guantánamo que estão em seus quadros terroristas. O grupo de Osama bin-Laden vem se empenhando numa campanha de propaganda, no Oriente Médio, para pintar o novo presidente dos EUA como um igual a todos os que o antecederam, apesar do sobrenome Hussein e da cor da pele negra.

A al-Qaeda não é apenas um grupo terrorista: é, também, uma força política que disputa o afeto de um eleitorado específico. São os homens e mulheres sunitas. A al-Qaeda tem um objetivo político: a instalação, em todo o mundo muçulmano, de um califado que siga uma vertente particularmente rígida da lei islâmica. Neste sentido, alimentar o ódio ao inimigo externo é sua arma para manipulação deste eleitorado. Obama é, do ponto de vista de imagem, uma ameaça séria.

No momento em que decidiu falar aos árabes em sua primeira entrevista, foi esta briga política que Obama comprou.

Pervez Musharraf conta sua visão de mundo

17/January/2009 - 16h26 - 19 Comentarios

O general de reserva e ex-ditador paquistanês Pervez Musharraf deu uma conferência aqui em Stanford, ontem. Ele falou por aproximadamente uma hora sobre como vê o problema do terrorismo e ofereceu sua receita ‘holística’ para tratá-lo. Aí, abriu para o público. Os estudantes e professores de Stanford perguntaram-lhe a respeito da segurança das armas nucleares paquistanesas, cobraram-lhe a respeito da ditadura – às vezes, exaltados. Alguns estudantes indianos ensaiaram um protesto. Musharraf não piscou um segundo. Foi irônico, charmoso, em alguns momentos fez cara de sincero. Sempre tinha uma resposta com aparência de ponderada. É um político nato.

Gravei a conferência em áudio – está online para quem quiser ouvir. Mas aqui vai um resumo do mundo visto pelos olhos de Pervez Musharraf.

Extremismo e terrorismo

É preciso distinguir entre extremistas e terroristas. São parecidos mas distintos. Nem todo extremista é terrorista. A maioria não é. Os extremistas têm que ser transformados. Os terroristas devem ser presos. Mas não há consenso internacional a respeito de quem é terrorista: o terrorista de um é aquele que luta pela liberdade de outro. Até hoje, temos enfocado o problema com táticas de combate no curto prazo. A solução, no entanto, só virá a longo prazo, com outro tipo de esforço.

Terroristas enquanto folhas

Os terroristas são como as folhas de uma árvore. As organizações terroristas são como os galhos. Não adianta podar folhas ou cortar galhos porque nascem outros. É preciso atacar a raiz da árvore. As raízes, na Ásia Central e no Oriente Médio, são três. A primeira é analfabetismo. A maioria dos extremistas e terroristas são pessoas iletradas que compram qualquer discurso que aponte um culpado externo para seus problemas. A segunda causa é a pobreza, e pobreza e analfabetismo caminham juntos na região. Pobreza e analfabetismo confirmam a impressão de que há uma profunda injustiça, que tudo lhes é negado.

Mas os perpetradores do Onze de Setembro e das bombas de Londres não eram nem analfabetos, nem pobres. E aí entra a terceira causa: política. Há questões políticas que não foram resolvidas e que devem ser endereçadas. Principalmente Caxemira e Palestina. O que está acontecendo em Gaza, agora, apenas reforça a sensação de impotência e injustiça na rua islâmica, alimentando ainda mais o extremismo que, por sua vez, é explorado por organizações terroristas.

Alguns sugerem que há uma diferença fundamental no sistema de valores do Islã e do Ocidente. Não é verdade. O IRA, na Irlanda, não era diferente. Uma solução apenas militar para o problema do terrorismo fracassará.

A história da al-Qaeda

Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. Nesse momento, os EUA quiseram que nós, no Paquistão, organizássemos a resistência. Vocês americanos quiseram que nós lutássemos a jihad. Então, entre 1979 e 1989, treinamos e armamos os mujahedins, estrangeiros que vinham de todo o mundo islâmico, para lutarem no Afeganistão.

O Afeganistão tinha sua estabilidade. Havia um pacto entre todas as etnias, todos os clãs, para dar apoio ao rei. Os dez anos da invasão soviética desmontaram toda a estrutura que existia há tanto tempo. A elite do Afeganistão abandonou o país a sua própria sorte, mudaram-se para o exterior. Aí, em 1989, caiu o muro de Berlim, os soviéticos deixaram o Afeganistão desmontado e terminou a Guerra Fria. O fim da Guerra Fria deixou dividendos. Eles foram todos para a Europa. Países receberam investimentos, puderam se reestruturar.

O que Afeganistão e Paquistão, que lutaram contra a União Soviética por dez anos, ganharam? Nada. Fomos esquecidos por todos. ‘Agora é com vocês’, eles nos disseram.

E onde estavam os mujahedins que vieram lutar contra os soviéticos? Continuaram no mesmo lugar. Mudaram apenas seu foco: de contra os comunistas, viraram-se contra os EUA. Formaram a al-Qaeda. Após a tomada de poder do Talibã, no Afeganistão, 4 milhões de refugiados se bandearam para o Paquistão. O problema continuava sendo apenas nosso. A estrutura social que sustentava o Afeganistão havia sido arruinada pelos soviéticos e de quem era o problema? Do Paquistão. Então, em 1999, os mesmos radicais começaram a se estruturar na Caxemira, na Índia. E o Paquistão continua tendo que lidar com a situação toda.

Só quando aconteceu o Onze de Setembro é que o mundo decidiu prestar atenção no que estava ocorrendo. Ainda assim, os Estados Unidos já investiram 1 trilhão de dólares no Iraque. Quanto investiram no Paquistão desde então? 10 bilhões. O problema continua lá e tem o mesmo tamanho.

A. Q. Khan

A. Q. Khan, o pai da bomba paquistanesa, que vendeu seus segredos para a Coréia do Norte e Irã, está em prisão domiciliar. Não creio que tenha sido extremismo que o moveu. Ele não teria tido contato com os norte-coreanos, caso tivesse sido isso. Foi ganância. Não permitimos que fale com investigadores de outras nações porque, para nós, a questão é sensível. Há segredos envolvidos e ele é um homem muito popular nas ruas do Paquistão. Os EUA também têm sob sua custódia homens que venderam segredos nucleares para nações estrangeiras. Alguma vez os EUA cogitaram permitir que investigadores de outros países os interrogassem? Claro que não. Funciona da mesma maneira.

Relações com a Índia

Se houver provas de que paquistaneses estiveram envolvidos nos ataques a Mumbai, é evidente que devem ser punidos. Mas não culpe o governo por isso. A comunidade internacional não está contribuindo, como deveria, para abrandar as tensões na região da Caxemira. Algumas nações fazem uma campanha contra a ISI, serviço secreto paquistanês. A ISI funciona sob ordens do governo e de ninguém mais. Sua função é garantir a integridade do Paquistão. Suas técnicas são as mesmas técnicas de qualquer serviço secreto. O serviço secreto da Índia faz o mesmo mas ninguém lhes cobra mudança. A Índia é um grande país. É um país poderoso. Todos os países na região sabem disso – ninguém tem dúvidas. E a Índia pressiona. O que a Índia tem que compreender é que não pode sair por aí pressionando os menores. O Paquistão também é um grande país.

Uma história do Hamas

08/January/2009 - 06h49 - 348 Comentarios

A indignação de parte a parte é importante. E compreensível. Mas há vários sinais ocorrendo em Gaza que boa parte da cobertura jornalística não está pegando.

Por que, por exemplo, o Hizbolá não está atacando Israel do Líbano?

Por que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que por muito menos já ameaçou Israel das piores formas, anda tão ameno em seus discursos das últimas semanas? (Diz que o Hamas está ficando mais forte e não passa disso.)

Precisamos compreender o Hamas: de onde vem, e o que é hoje.

Israel informa que está atacando o Hamas, em Gaza, neste momento. As vítimas, no entanto, são palestinos. Morrem às centenas. Alguns – muitos – não têm qualquer ligação com o Hamas. Mas como declaradamente o ataque é ao Hamas, aqueles que tomam as dores das vítimas defendem o Hamas; e aqueles cujo coração bate por Israel sugerem que quase todos os mortos são do grupo.

O Hamas, no entanto, não representa todos os palestinos. A se contar as pesquisas eleitorais de dezembro, em 2009 46% dos eleitores em Gaza planejavam votar no Fatah e apenas 32% no Hamas. Levando-se em conta também os eleitores na Cisjordânia, a outra parte da futura Palestina, a derrota eleitoral do Hamas seria de acachapantes 42 a 28%.

O que é, então, o Hamas?

É o grupo que, durante muito tempo, recebeu dinheiro da Arábia Saudita. É o grupo que durante anos foi parcialmente financiado por Saddam Hussein. São aqueles que se sustentam, hoje, com o dinheiro do Irã.

Mas, antes de tudo isso, é o grupo financiado de nascença por Israel. E esta que segue é sua história.

O Hamas

Em árabe, a palavra quer dizer zelo e serve de acrônimo para a sigla Movimento de Resistência Islâmica. Seu berço ideológico é um grupo árabe dos anos 40, fundado no Egito, chamado Irmandade Muçulmana. Durante sua existência, a Irmandade misturou o discurso nacionalista com o religioso, em oposição ao nacionalismo laico que daria origem aos partidos Baath na Síria, Iraque e outros países dali. A Irmandade atentou contra a vida do presidente egípcio Gamal Abdul I-Nasser e assassinou o sucessor, Anwar Sadat.

O Hamas nasceu em 1988, nos territórios ocupados por Israel, como braço armado da Irmandade pouco antes da primeira Intifada. Até aquela Intifada, havia sido financiado por Israel. Estimulado por Israel. A crença era de que, incentivando um movimento religioso, seria construída uma forte oposição à Organização pela Libertação da Palestina (OLP) de Yasser Arafat. A crença dos líderes políticos em Israel é que, se estivessem ocupados com religião, os palestinos não lutariam. Era outro mundo e outro tempo. Antes do acordo de Oslo, antes de Yitzhak Rabin e Arafat apertarem suas mãos nos jardins da Casa Branca. Muito antes de o Fatah, nascido da OLP, ser o aliado com quem a paz parece mais plausível.

Em 2003, antes de chegar ao governo, o orçamento anual do Hamas girava entre 40 a 70 milhões de dólares, angariados por caridades no ocidente entre árabes no exílio e governos vários no Golfo Pérsico, principalmente a Arábia Saudita. Investiam quase tudo em creches, escolas, hospitais e mesquitas caras à enorme parcela pobre da população. Sua segunda atividade eram os serviços de inteligência, uma espécie de polícia secreta que ainda hoje persegue palestinos acusados de cooperar com o governo israelense e blasfemar contra o Coorão. Bate, tortura, às vezes mata.

O braço terrorista, embora mais famoso, sempre recebeu pouco dinheiro. É barato.

A base que elegeu o Hamas para o governo palestino, em 2006, veio por intermédio de fisiologismo político – aquele que oferece à população os serviços que o Estado não garante – e a boa e velha exploração do ódio ao inimigo externo. O muito citado e pouco lido documento que serve de doutrina ao grupo, assinado em 18 de agosto de 1988, não prega apenas que haverá ‘um dia do Julgamento Final no qual muçulmanos matarão todos os judeus, que se esconderão atrás de pedras e árvores, e as pedras e árvores acusarão ó, muçulmano, cá atrás está um judeu’. Baseado numa ideologia confusa, racista e com uma boa queda por teorias conspiratórias, o mesmo documento enxerga no Sionismo o responsável por vários dos males do mundo. Dentre tais males, os ideólogos do Hamas citam a Revolução Francesa, a Revolução Russa de 1917, o Rotary Club e a Maçonaria.

Segundo o Council of Foreign Relations, de Nova York, o Hamas está por trás de pelo menos 350 atentados terroristas distintos desde 1993 que custaram a vida de mais de 500 pessoas, dentre eles árabes. Em 1996, quando o Partido Trabalhista no poder israelense ainda tentava consolidar um acordo de paz como o Fatah, uma série de atentados do Hamas o fizeram parecer fraco. O resultado foi a eleição do candidato da direita do Likud, Benjamin Netanyahu. Foi também após outra série de atentados do Hamas, entre 2001 e 2003, que Israel decidiu construir o muro que separa o país dos territórios ocupados na Cisjordânia. Esta mesma segunda série de atentados tiveram por outra conseqüência a adoção israelense da política de assassinatos seletivos. A vítima mais famosa, em 2004, foi o líder supremo do Hamas, o sheik Ahmed Yassin, um homem paralítico e cego, inspirador de inúmeras mortes.

Seu assassinato apenas fortaleceu o Hamas.

Israel costuma ser eficiente no campo de batalha, mas de todo inepta no planejamento político das batalhas que decide lutar. No longo prazo, à direita e à esquerda, são não apenas incompetentes em planejamento estratégico como seu governo reage com freqüência sem pensar nas conseqüências de seus atos. Esta, no entanto, é uma história do Hamas. E não é possível contar a história do Hamas sem seu próprio rastro de sangue.

Em 2005, o Hamas decidiu disputar as eleições da Autoridade Palestina e, em janeiro de 2006, as venceu. Não foi apenas o sucesso de seu fisiologismo concentrado nas regiões extremamente pobres de Gaza. Até lá, a Autoridade Palestina vinha sendo governada pelo Fatah que demonstrava indecisão, incompetência gerencial e uma profunda tendência à corrupção. Causou surpresa a eleição do Hamas – mas não devia. À direita, alguns comentaristas sugeriram que ali estava uma prova de que muçulmanos não eram capazes de lidar com democracia. Escolheriam sempre os radicais. Talvez a lição fosse outra: perante um mau governo, o povo que pode escolher o substitui pela oposição.

No governo, Ismail Haniyeh, líder do Hamas, descobriu que política era uma arte mais difícil do que esperava. Costurar uma coligação com o Fatah para montar seu gabinete foi extremamente difícil. Por um ano, governou de forma hesitante, com um partido bloqueando o outro politicamente enquanto Israel seguia com a política agressiva de muros e cercas. Em dezembro de 2006, policiais ligados ao Fatah, na Cisjordânia, abriram fogo contra uma passeata do Hamas. A luta armada entre palestinos se estendeu até fevereiro, quando um cessar-fogo foi acordado por intermédio saudita. Não durou: em maio, pelo menos 50 palestinos morreram em Gaza nos choques entre militantes de um grupo e do outro. Enquanto lutava contra seus rivais internos, o Hamas disparava foguetes contra Israel. Os israelenses retrucaram. Sob fogo, o Hamas cercou em 10 de junho o prédio administrativo do Fatah em Gaza, a guerra civil estourou, Israel fechou as fronteiras. No final, Gaza estava tomada pelo Hamas e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, destituiu Haniyeh do cargo de premiê.

Segundo a constituição provisória da AP, o presidente tem de fato este poder quando um gabinete não parece conseguir governar – e as circunstâncias, uma tentativa de golpe, pareciam sugerir tal necessidade. O presidente também pode, como fez Abbas na seqüência, indicar um novo primeiro ministro. Mas ele não pode impor este nome ao Conselho Legislativo da Palestina. O Parlamento deve aprová-lo. Enquanto um novo nome não passa, o premiê anterior segue interino. Abbas ignorou a Constituição porque não conseguiria a aprovação no parlamento rachado. É nesta situação, dividida, que a Palestina se encontra hoje.

Desde 2001, às vezes com mais freqüência, às vezes com menos, o Hamas vem lançando foguetes Qassam contra Israel. Morreram 15 pessoas até hoje por conta deles. São poucas vítimas porque Israel aponta radares para detectá-los e sirenes altas alertam aqueles na região onde vão cair. É cotidiano tenso que, se não mata pelo fogo, tira pelo estresse uma boa década de vida. Os Qassam são foguetes domésticos fabricados com tubos de aço e explosivos em geral à base de fertilizantes.

Segundo a Human Rights Watch, talvez a organização mais isenta na avaliação de conflitos internacionais, o histórico do Hamas é de esconder armamento em localidades civis. A HRW também acusa o grupo de disparar contra o exército de Israel do meio de agrupamentos civis, atraindo fogo para vítimas indefesas. O que a ong não confirma é a acusação israelense de que o Hamas usa crianças como escudo. Acontece que Gaza é densamente povoada e crianças estão por toda parte. Sob artilharia pesada, sua morte é inevitável. Israel, de inocente, não tem nada. Tem histórico de ter matado homens feridos sob sua guarda e de disparar contra agrupamentos mistos de civis e militantes sem piscar. O ataque à escola da ONU, que deixou pelo menos 40 mortos, é só o mais gritante deste momento.

Neste período, o Hamas vem sendo financiado cada vez mais pelo governo xiita do Irã. A ligação provoca dúvidas em seus vizinhos árabes: sauditas e egípcios não têm qualquer amor pelo grupo atualmente. Arábia Saudita e Irã disputam há anos, com suas vertentes distintas do Islã, influência nas ruas do Oriente Médio. O presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad investe particularmente no ódio generalizado a Israel. Em 2006, sustentou financeiramente o Hizbolá, no Líbano. A guerra custou, ao Irã, um bilhão de dólares, postos nas mãos do sheik Hassan Nasrallah, líder do Hizbolá, que indenizou quem perdeu casa ou familiares. Após a ofensiva israelense, o Hizbolá estava mais forte e saiu mais querido pelos libaneses.

E aí encontra-se o maior problema do Hamas no conflito atual: no Irã, o desemprego atualmente é de 35% entre aqueles com menos de 30 anos. A crise econômica está forte no país, que aguarda ansioso alguma ajuda de FMI e Banco Mundial. Com a queda do preço do petróleo, os fundos são parcos. Ahmadinejad pode vencer eleitoralmente por conta da invasão de Gaza, mas não tem dinheiro e para continuar governando precisará de empréstimos internacionais. O que faz do Líbano em 2006 diferente de Gaza em 2009 é o preço do barril de petróleo.

Mas isto não quer dizer que a causa esteja perdida para o Hamas. Se, após a ofensiva, ele continuar de pé, já terá vencido. David terá resistido a Golias. E, mesmo que não fosse representativo dos anseios palestinos apenas um mês atrás, o governo de Israel terá, ao custo de muito sangue, fortalecido politicamente dois de seus piores inimigos.

O adeus a Samuel Huntington

30/December/2008 - 05h03 - 60 Comentarios

Samuel Huntington morreu na quarta-feira passada e já deveria ter aparecido por aqui, no Weblog. Mas aí houve o bombardeio de Gaza.

Ele é um dos mais influentes cientistas políticos do tempo em que vivemos. Seu livro mais lembrado, nos últimos tempos, é O Choque de Civilizações, mas ele escreveu muito durante mais de 50 anos de carreira como pensador.

Para ele, democracia não funcionaria para qualquer um. Houve o tempo em que, considerou, a cultura católica ibérica por exemplo seria incompatível com democracia. E, com Salazar e Franco, com milicos vários América Latina afora, os fatos faziam parecer que estava certo. Até que deixou de estar.

Huntington ocupa um lugar na história do Brasil: ele serviu como consultor dos generais no período de transição. E se gabava de ter feito um bom trabalho, do tipo que garantiu ao Brasil uma democracia estável.

Suas teorias se punham em oposição às chamadas teorias da Modernização. Um bom grupo de cientistas políticos considera que uma mistura de elementos como maior nível educacional da população, melhor distribuição econômica, enriquecimento do país, infra-estrutura etc. levam naturalmente ao desenvolvimento. Huntington, não. Para ele, a receita ideal para países em desenvolvimento são ordem e estabilidade. Democracia e liberdade podem ser dispensados para um futuro longínquo. Sua fórmula foi aplicada entre os governos Médici e Figueiredo no processo de abertura brasileiro. Anos depois, olhando para o Brasil, o velho cientista costumava dizer que tinha acertado.

Há quem sugira que simplesmente teoriza justificativas racionais para a opressão.

Suas teorias a respeito de democratização costumam ficar restritas aos ambientes acadêmicos. Seu trabalho a respeito do choque entre civilizações, não.

A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, sugeriu Francis Fukuyama, teria posto fim à história. Para Huntington, um novo ciclo teria tido início. Nele, não seriam nem razões primordialmente econômicas, muito menos ideológicas, que provocariam os conflitos militares. Os novos conflitos seriam culturais, partindo da fricção entre as ‘oito civilizações’: a ocidental (EUA, Canadá, Europa e Austrália), latino-americana, islâmica, chinesa, hindu, japonesa e africana.

O livro saiu em meados da década de 1990 mas, dado o que disse, não é à toa que virou herói de quatro em cada cinco neoconservadores quando houve o Onze de Setembro. Ter-se tornado o principal ideólogo da visão de mundo do governo George W. Bush é uma triste ironia. Democrata convicto, Huntington foi assessor das campanhas derrotadas de Adlai Stevenson (1956) e Hubert Humphrey (1968) e, pasme, foi um dos idealizadores da Doutrina Carter para o Irã.

Um homem absolutamente perspicaz? Ou o homem que costurou em 1995 uma teoria sob medida para justificar um possível ataque norte-americano à China que, por acidente, serviu ao enfrentamento do terror islâmico? A principal crítica a seu trabalho é que, apesar da aparente perspicácia, a teoria é simplista. É como se ela ignorasse o fato de que a globalização fez com que entre as ‘civilizações’ houvesse intensa troca de informação. Como se ele considerasse que suas ‘civilizações’ fossem entidades homogêneas e não cheias de conflitos internos.

(Aliás: alguém aí se sente ‘latino-americano’ ao invés de ocidental?)

Cumpre não transformar suas idéias em caricatura: Huntington considerou a guerra contra o Iraque um equívoco desde que foi anunciada. Ele argumentava o seguinte: embora seja verdade que o conflito entre civilizações esteja presente, aos EUA não cabe aumentar as feridas. O objetivo do país, por ser bem mais poderoso, deveria ser reconciliar as culturas.

Nos últimos anos, não era o Islã que o preocupava mais. Éramos nós, latino-americanos. As ondas migratórias da América colonizada pela Ibéria em direção aos EUA, ele sugeria, poderiam rachar definitivamente seu país, descaracterizar sua cultura, talvez até criar uma nação com duas línguas.

Talvez.

Samuel Huntington tinha 81 anos e deu aulas em Harvard dos 23 até o ano passado.

Meca como Maomé não a reconheceria

16/December/2008 - 07h30 - 47 Comentarios

Pelo menos dois arquitetos, o britânico Norman Foster, e a iraquiana Zaha Hadid, já foram contatados pela coroa saudita para reformar a Grã-Mesquita de Meca. Hoje, ela abriga 900.000 pessoas. Os planos são de expandir sua capacidade para 1,5 milhão e, posteriormente, 3 milhões.

Todo dezembro, quando é época do Haj, muçulmanos de todo o planeta tomam rumo da capital sagrada do Islã para cumprir sua obrigação de visitar a terra do Profeta ao menos uma vez em vida. Como é cada vez mais fácil fazer a viagem, cada vez mais gente a faz e, com ano após ano, algumas dezenas morrem pisoteados.

Não-muçulmanos não podem pôr os pés em Meca. Assim, se Foster for contratado, terá de fazer tudo sem jamais ter visto a mesquita.

Hadid, por sua vez, meio iraquiana, meio inglesa, 57 anos, é considerada (talvez) o maior nome da arquitetura mundial. É mulher e, na Arábia Saudita, mulheres têm parcos direitos.

A última vez em que a mesquita foi ampliada foi em 1988, exatos vinte anos atrás. No mundo islâmico, a reforma é cada vez mais polêmica.

(Em, Meca, só pisa muçulmano – mas há MacDonald’s, Kentucky Fried Chicken e café Starbucks. Afinal, os muçulmanos em peregrinação precisam da comida com a qual estão acostumados.)

Cerco a Mumbai: Como medir a vitória do Terror

28/November/2008 - 01h07 - 68 Comentarios

Li os comentários com atenção. Alguns questionam a existência de um terrorismo hindu. Talvez por cinismo, talvez por apenas buscar a informação que confirma seus próprios preconceitos e nenhuma outra, repetem uma discussão que se dá na Índia. O ódio religioso é intenso, no norte do país. Terrorismo hindu é uma expressão cunhada pela imprensa de língua inglesa de Mumbai e agressivamente criticada pela elite política hindu. Dizem que não existe. A página a respeito do terrorismo hindu foi apagada quatro vezes da Wikipedia. Não custa lembrar que não há maniqueísmo, aqui: a imprensa de língua inglesa da Índia é composta, em geral, por jornalistas hindus.

Mas vale a pena ler, nos comentários do post abaixo, aqueles escritos pelo leitor SK. Ele entende do que fala, é de origem indiana e discorda da leitura que faço aqui em alguns pontos.

A violência contra a comunidade muçulmana na Índia não é pequena e vem de décadas. Em 2002, no estado Gujarat, 790 muçulmanos foram mortos, assim como 254 hindus, em confrontos após o incêndio do trem Godhra. O governo afirma que o trem foi atacado por muçulmanos, a afirmação é contestada. Difícil afirmar o que houve. Mas o resultado daqueles confrontos ainda está evidente, nos campos de refugiados a céu aberto do estado. Os muçulmanos expulsos de suas casas então até hoje vivem em tendas. Conheço o assunto bem graças a uma companheira de Knight Fellowship em Stanford, a jornalista Dionne Bunsha, ela própria hindu de Mumbai, repórter premiada, com mestrado pela London School of Economics e, à época, a serviço da principal revista semanal indiana, Frontline. Dionne é autora do livro Scarred, que denuncia os constantes maus-tratos e a insegurança continuada imposta aos indianos muçulmanos no estado.

Não custa lembrar: até a quarta-feira, o Esquadrão Anti-Terrorismo da polícia de Mumbai havia tido mais trabalho investigando ataques contra muçulmanos do que impetrados por eles. Do último ataque, em setembro, prenderam entre outros uma sacerdotisa hindu e acusaram o exército local de ter fornecido treinamento para os atacantes.

Reitero que os partidos nacionais indianos são fracos e que evitam enfrentar a política hindu local, que acoberta a violência. Dionne não é minha única fonte, aqui. A mesma descrição é feita por Fareed Zakaria em seu livro mais recente, O Mundo Pós-Americano. Zakaria, indiano, PhD por Harvard, foi diretor de redação da mais conceituada revista de relações internacionais – a Foreign Affairs – antes de assumir a editoria de internacional da Newsweek e um programa semanal na CNN. O livro já tem edição brasileira – e é excelente.

Mas é evidente que o cerco a Mumbai, imposto por terroristas muçulmanos, internacionalizou o conflito. Repetindo o que já estava no post abaixo, adotaram táticas da al-Qaeda, buscando conquistar atenção da imprensa estrangeira e querendo vincular a briga interna, na Índia, com o conflito internacional que se dá no Oriente Médio. Não é claro, ainda, se os terroristas têm relação com o conflito na Caxemira, ou se o enfoque é apenas nacional.

No momento em que escrevo este post, a polícia indiana entrou nos dois hotéis e preparava uma ofensiva contra a sinagoga. Já são 119 mortos em dois dias de cerco.

A questão, agora, é tratar das conseqüências do ataque. Os terroristas tinham objetivos políticos – eles sempre têm. Diferentemente do que ocorre em vários países do Oriente Médio ou mesmo no Paquistão vizinho, os muçulmanos da Índia não se radicalizaram. Com exceção da Caxemira, que vive um ambiente próximo ao de uma guerra civil constante, não existem gritos por jihad ou fatwas soltas a torto e a direito pedindo a morte de inimigos. Um dos objetivos dos terroristas de hoje é certamente acirrar o conflito entre muçulmanos e hindus e, se possível, envolvê-los na jihad global abrindo mais uma frente de batalha.

Não custa lembrar que a jihad global recruta menos e menos jovens no árabe.

Há outro objetivo que pode estar entre as intenções dos Deccan Mujahedin: recentemente, a Índia se aproximou ainda mais dos EUA, com a assinatura de um acordo nuclear. Parte do processo de sedução do país vem da tentativa de pôr panos quentes nas relações da Índia com o Paquistão. Para que seja possível controlar o Talibã, na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, é preciso antes de um governo paquistanês estável. Para tal governo existir, idealmente as relações entre Paquistão e Índia devem estar nos melhores termos possíveis. E vinham melhorando a olhos vistos. Quando o premiê indiano Manmohan Singh aludiu a pressões vindas do exterior, hoje, ele falava do Paquistão e dois passos foram dados para trás. Sem controlar o Talibã, ninguém controla a al-Qaeda, Osama bin-Laden continua solto e as possibilidades do terrorismo egípcio-saudita permanecem abertas. O mundo é um só e todos estamos conectados uns aos outros.

Assim se medirá o sucesso dos terroristas: se os muçulmanos da Índia se radicalizarem e as relações entre Índia e Paquistão desandarem de forma séria.

É só quando o cerco terminar e ficar claro quem são os Deccan Mujahedin que começaremos a ter melhores informações sobre quais interesses realmente representam. Dá para sentir no hálito de alguns dos companheiros leitores, aí no post abaixo, a sede de mais sangue em troca do sangue derramado nos últimos dias, em Mumbai. O anti-islamismo radical e os terroristas islâmicos, ironicamente, têm o mesmo objetivo.

Cerco a Mumbai: Conflito interno da Índia?

27/November/2008 - 15h59 - 32 Comentarios

Uma atualização, posto que a informação vinda de Mumbai ainda é pouca. Ainda há reféns tanto no Taj Mahal Palace & Tower quanto no Hotel Oberoi. Também há reféns na sinagoga do grupo Chabad Lubavitch, a principal comunidade de judeus ortodoxos da cidade. É noite na Índia, os ataques já duram mais de vinte e quatro horas, e reféns vem sendo soltos paulatinamente. Parece tratar-se de tática: há muita gente nos hotéis. Manter um grupo pequeno mas importante de reféns pode ser a melhor maneira de gerenciar a situação por até dias.

Os terroristas do Deccan Mujahedin ainda não foram identificados. Um grupo com este nome, informa a revista britânica The Economist, já havia se manifestado uma vez anteriormente. Em setembro, assinaram um email às agências de notícias indianas informando que ‘nós estamos mantendo o olho em vocês e apenas esperamos o momento certo para o banho de sangue’, escreveram. ‘Alertem a todos de Mumbai que qualquer ataque sangrento que sofram no futuro terá sido responsabilidade da polícia de Mumbai e de seus líderes.’

Os atacantes, segundo testemunhas, falam hindi e têm uma tez mais clara, indicando serem ou indianos do norte ou paquistaneses do sul. Alguns especulam ligações com o grupo terrorista Lashkar-e-Toiba, que opera na região indiana da Caxemira. A Caxemira, na qual a maior parte da população é muçulmana, é disputada por Paquistão e Índia. Segundo o governo da Índia, o Lashkar-e-Toiba é financiado e treinado pelo ISI, serviço secreto paquistanês. Em seu discurso à nação, o premiê indiano Manmohan Singh declarou que os ataques têm influência estrangeira.

Não é necessariamente verdade mas é certamente possível. O que parece bastante seguro afirmar é que não se trata de um ataque da al-Qaeda. É um ataque extremamente bem organizado, mas de baixa tecnologia. São guerrilheiros com armas de guerrilheiros. Terrorismo hindu (ou terrorismo de açafrão, como é apelidado no país) e terrorismo islâmico fazem parte da história corrente do país. A diferença, e aí entra inspiração da al-Qaeda, é que desta vez escolheram vítimas diferentes: principalmente norte-americanos, britânicos e a comunidade judaica local. Parece ser uma busca por ligar os ataques ao terrorismo internacional e chamar a atenção do mundo inteiro para o conflito interno de seu país.

Neste quesito, certamente tiveram sucesso.

A carta dos Deccan Mujahedin liga o ataque em progresso à cidade de Mumbai e à sua região. Portanto, pode haver um elo aí com os diversos ataques que a comunidade muçulmana vem sofrendo nos últimos anos impetrados pelo terrorismo de açafrão. Na Índia, o poder político é mais estadual do que nacional. Não há grandes partidos nacionais. Nova Delhi é acusada de complacência com o terrorismo hindu porque ele é visto com simpatia pela população de algumas regiões ao norte e isto poderia comprometer seu sucesso eleitoral ou a produção de coalizões que sustentem o gabinete do primeiro-ministro. De qualquer primeiro-ministro.

Mas uma ligação com o conflito na Caxemira e, portanto, indiretamente, com o governo paquistanês não pode ser ignorada. Não custa lembrar que a ISI – que auxiliou o Talibã no Afeganistão e certamente incentiva os levantes muçulmanos na Caxemira – não é totalmente controlada pelo presidente paquistanês. Funciona, muitas vezes, por conta própria.

O mundo todo está de olho em Mumbai, hoje – e este é o primeiro sucesso deste ataque terrorista. Mas o conflito que ele representa é interno, talvez no máximo da Ásia Central.

Cerco a Mumbai: Direto da Índia

27/November/2008 - 14h41 - 1 Comentarios

O leitor Ricardo, que mora na Índia, está respondendo várias dúvidas na caixa de comentários abaixo.

Índia: Mumbai cercada

27/November/2008 - 04h40 - 62 Comentarios

O grupo que assumiu o ataque terrorista generalizado a Mumbai, Índia, atende pelo nome Deccan Mujahedin. Ninguém os conhece. Deccan remete a um planalto no sul do país, onde não há muitos muçulmanos. Mas é um grupo muçulmano – mujahedin é a palavra árabe para guerreiro.

No momento em que este post foi escrito, a polícia indiana falava de 100 mortos, a maioria dos reféns soltos mas alguns – número indefinido – ainda sob o controle dos terroristas.

Ricardo, um dos leitores do Weblog, escreveu um artigo sobre o cotidiano na Índia para a seção O Mundo Segundo os Leitores.

Os primeiros sinais de que algo ia mal se deram na noite de quarta, no restaurante do imponente Taj Mahal Palace & Tower, um dos mais luxuosos hotéis do mundo. Jovens vestidos de jeans e camisetas, com AK-47s às mãos, entraram no salão chamando por todos os cidadãos norte-americanos e britânicos. O diário Haaretz de Israel informa que também buscavam israelsenses. Fizeram reféns. Ataques simultâneos aconteceram também no Hotel Oberoi, no Leopold Café, no mercado da cidade e na principal estação de trens. A maioria dos locais são freqüentados principalmente por estrangeiros. Mas isto não é verdade para a estação e para o mercado. Entre os mortos estão indianos pobres.

Mumbai tem um Esquadrão Anti-Terrorista, organizado por causa do terrorismo hindu, que é conhecido pela sua eficiência. É uma tropa de elite com 35 homens. Onze deles morreram, ontem à noite, entre eles seu comandante, Hemant Karkare.

Mumbai (antiga Bombaim) fica no noroeste do país e é a capital do maior estado, Maharashtra, que tem mais de 17 milhões de habitantes. Oitenta por cento dos indianos são hindus, mas quase 14% são muçulmanos – a maior das minorias, bem maior do que o número de cristãos, sikhs e budistas somados. Em Mumbai, onde uma das línguas mais faladas ainda é o inglês com o típico sotaque indiano, muçulmanos também representam 14% da população.

Em 29 de setembro último, sete pessoas morreram e mais de cem ficaram feridas quando um grupo terrorista hindu atacou o bairro muçulmano de Malegaon, não longe de Mumbai. Até este ataque, era o terrorismo hindu contra muçulmanos que vinha numa crescente, no país. A discussão a seu respeito vinha mexendo com a imprensa do país. O governo tem consciência de que ser muçulmano na Índia, hoje, quer dizer estar preocupado com a própria segurança. Há opressão e tensão étnica no norte do país.

É neste contexto que estes misteriosos Deccan Mujahedin aparecem. Foram buscar britânicos, norte-americanos e israelenses, tornando a crise internacional. Foi certamente um ataque planejado e caro.

Um blog para ficar de olho nos próximos dias: Indian Muslims.

Adam Smith e o Islã

19/November/2008 - 14h44 - 26 Comentarios

Boa parte de A Riqueza das Nações, o clássico fundador dos economistas, tem por base a descrição que o escocês Adam Smith faz da Divisão do Trabalho.

No livro, Smith puxa do bolso a descrição de uma fábrica de agulhas para explicar como ela funciona. Após visitá-la, ele conta dezoito tarefas diferentes que devem ser executadas para que metal bruto seja transformado numa ferramenta útil para costureiras. Proporcionalmente, 18 pessoas fazendo todo o processo não seriam capazes de produzir tantas agulhas quanto o mesmo número de pessoas executando tarefas específicas.

O argumento é maior, naturalmente: assim como numa fábrica a divisão de trabalho aumenta a produtividade, o mesmo se dá em toda a sociedade. E é sobre este processo de especialização do trabalho que nasce o capitalismo.

Não custa dizer que Smith jamais clamou para si a autoria do conceito. (Ele só disse que realmente visitou uma fábrica.)

Um texto obscuro do século 12 descoberto pelo economista sino-australiano Guang-Zhen Sun é provavelmente o inspirador do escocês. O autor é al-Ghazali, um dos mais importantes filósofos sufis da Pérsia. O pensador parte da importância da divisão de trabalho na sociedade para explicitar sua importância, incrivelmente, numa fábrica de agulhas. A diferença é que al-Ghazali identifica 25, e não 18 etapas.

Embora não exista uma data de publicação para o ensaio persa, sabe-se que al-Ghazali morreu em 1111. A Riqueza das Nações foi publicado em 1776. Mais de seis séculos separam os dois estudos. E não vai, aqui, qualquer demérito para o escocês. Embora seu estudo tenha por base a divisão do trabalho, ele vai muito além.

Mas, se Adam Smith é o pai do capitalismo, seu avô é um teólogo islâmico.

via O Hermenauta

Festas

29/September/2008 - 14h01 - 23 Comentarios

O Ramadã acaba amanhã e o Rosh Hashaná é hoje.

Que o ano lhes seja doce.

O Reino Unido contra o Terrorismo,
os Comuns, os Lordes e John le Carré

24/September/2008 - 01h54 - 68 Comentarios

No dia 13 de outubro, a Câmara dos Lordes britânica analisará a lei aprovada pela Câmara dos Comuns que permite ao governo prender sem provas ou acusação formal suspeitos de terrorismo por 42 dias. Os Lordes não são como senadores – sua Câmara tem poderes muito limitados. Por outro lado, também já não são os velhos nobres que herdavam o cargo de seus ainda mais velhos pais. São indicados. E, neste caso, têm o direito de vetar a lei.

Ela é polêmica. Nos EUA, várias leis e regulamentos que vieram com o Onze de Setembro também são acusadas de ferir as liberdades básicas da população. Mas, no Reino Unido, enquanto a Câmara dos Comuns considera esta lei em particular essencial, a oposição entre os jornais e a população cresce. Alguns, não muitos, começam a levantar o tom da voz. O escritor de romances de espionagem John le Carré é um caso:

Tenho raiva. Raiva de que não haja raiva a meu redor por causa do que estão fazendo com nossa sociedade com o pretexto de protegê-la. Fomos levados à guerra por motivos falsos e nos tiraram nossas liberdades civis numa atmosfera de pânico. Mas nossos advogados não vão às ruas como eles fizeram no Paquistão.

Nossos deputados se permitiram enganar pelos seus próprios marqueteiros. Eles acreditam em sua própria propaganda. Nosso secretário de política externa vem às pressas de uma missão ao Oriente Médio só para votar nesta lei que dá 42 dias de detenção. Aí as pessoas me chamam de velho raivoso. Danem-se. Não é preciso ser velho para ter raiva disso. Estamos sacrificando nossa soberania por uma dita ‘relação especial’ que, de especial, não tem nada além do nome que nós damos.

A relação especial à que ele se refere é a de seu país com os EUA.

Acaso alguém tenha esquecido

11/September/2008 - 13h46 - 173 Comentarios

Hoje é Onze de Setembro.

O triste fim de Pervez Musharraf

18/August/2008 - 07h25 - 29 Comentarios

O presidente paquistanês Pervez Musharraf renunciou ao poder. O processo de impeachment já estava adiantado no parlamento e a única maneira de impedir sua continuidade era com a renúncia. São nove anos de ditadura, desde que derrubou Nawaz Sharif – seu atual algoz –, em 1999.

Instável no poder, sustentado por uma aliança entre as Forças Armadas leais a ele (era general) e a traíra IIS, grupo de inteligência do país, Musharraf foi salvo pelo Onze de Setembro. Parcialmente apoiada pela CIA, a IIS havia estruturado e dado todo o apoio ao grupo Talibã, que tomou o poder no vizinho nordeste, Afeganistão. Perante os ataques a Nova York e Washington, Musharraf não hesitou em bandear-se para o lado norte-americano, ganhando a confiança pessoal de George W. Bush e apoio dos EUA.

Muito da presidência Bush se deu na base desta ‘confiança pessoal’. Outros a gozarem dela fora Vladimir Putin, da Rússia, e Tony Blair, do Reino Unido. Blair mostrou-se merecedor até o fim. Putin e Musharraf são a mostra de que Bush talvez não fosse tão hábil assim em suas avaliações. Musharraf fez um jogo duplo durante todo o período, enquanto, mesmo após a queda do Talibã, seu serviço secreto dava apoio à seita-guerrilheira no Afeganistão e até mesmo dentro de casa.

Esta aliança mostrou-se um erro estratégico terrível para Washington. Muito da decisão de atacar o Iraque baseava-se na premissa de que o Paquistão daria apoio no combate ao Talibã enquanto os EUA estivessem distraídos. O que ocorreu na prática é que o Talibã e a al-Qaeda conseguiram sustentação para renascerem. Nem incompetência explica as falhas de Musharraf. Ele passou a perna nos EUA.

Os dois partidos noutros tempos rivais, de Nawaz Sharif e da ex-primeiro-ministro assassinada Benazir Bhutto se aliaram para retomar o poder nas primeiras eleições livres e, agora, no impeachment de Musharraf. É o tipo do ditador que vai tarde. Agora, o novo governo terá a missão de combater o Talibã. Não será fácil. O grupo inspira o tipo de religiosidade extrema e ordem que gera laços de fidelidade na região de fronteira. Para livrar-se deles, será preciso se imiscuir na complexa política tribal patane. Não é impossível. A IIS, afinal, já fez isso antes.

Derrubado o governo da Mauritânia

06/August/2008 - 16h35 - 24 Comentarios

Devemos um bocado à Mauritânia, país que hoje deixou a lista dos regimes democráticos para se juntar à das ditaduras. Encravado entre a África árabe e a sub-saariana, é de lá que saiu a dinastia Almorávida, que dominou um bom naco da Espanha e de Portugal. A eles devemos nosso alface, nossos alcaides, a beleza de Alhambra e a tecnologia naval de astrolábios e cartas astronômicas que permitiram o descobrimento do Brasil.

Colônia francesa durante um bom naco do século 20, ganhou a independência em 1960. Foi governada por um militar golpista após o outro. O último golpe aconteceu em agosto de 2005, há exatos três anos. O presidente que assumiu impôs um governo de transição garantindo democracia. Cumpriu a promessa. Em março de 2007, o povo elegeu seu presidente, Sidi Ould Cheikh Abdallahi.

O décimo primeiro golpe militar da história do país começou na manhã de hoje, quando os soldados invadiram o palácio presidencial e prenderam Abdallahi. O presidente havia demitido os quatro principais generais no início da semana. O chefe da Guarda Presidencial, general Mohamed Ould Abdelaziz, assumiu o poder.

Mesmo o Partido Islâmico, de oposição ao governo, criticou o golpe. Mas a situação está em suspenso. A República Islâmica da Mauritânia é um dos raros países muçulmanos que reconhecem o Estado de Israel.