Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Budismo'

Uma entrevista aos sábados

29/March/2008 · 141 Comentários

O budismo pressupunha uma enorme quantidade de tempo e solidão para uma transformação que acontecia gradualmente ao longo de anos. Hoje, queremos tudo de forma instantânea. Espiritualidade instantânea. Resultados rápidos, somos todos muito pragmáticos. Ele dizia que precisávamos tirar o ‘eu’ do centro de nosso universo. Sabe aquele ‘eu’ que nos faz acordar às três da manhã, ‘por que isso acontece comigo? Por que não sou valorizado?’ Essas coisas nos arruínam. Buda mostrou como viver sem ver as outras pessoas de um ponto de vista ganancioso, como gente que poderia nos levar à frente de alguma forma. Se libertados do ‘eu’, podemos ampliar nossa perspectiva, podemos nos alinhar com o sagrado. Buda era um radical, muito mais do que aqueles que se dizem budistas, hoje. No Reino Unido, muitos que não se interessam por religião pensam no budismo como um caminho light: sem Deus, sem pecado, um pouquinho de ioga.

Não encontramos entre as escolas budistas o tipo de inimizade que protestantes e católicos mostraram uns pelos outros. Hoje, há o início de algo que podemos chamar de fundamentalismo budista, mas jamais houve inquisição, perseguição, Cruzadas, matança em nome de Deus. Buda de vez em quando fala dos antigos deuses da Índia sem rancor; os profetas bíblicos só citavam os antigos deuses com fúria. Eu não diria que intolerância está na raiz das religiões ocidentais, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Mas intolerância nasce delas. É como se fosse uma tentação à qual os monoteístas se entregam de vez em quando. Quando você tem um deus personalizado, é muito tentador usar a religião para apoiar seus preconceitos. Religiões monoteístas são assim. Em toda geração há gente que caia nessa e há quem resista.

Karen Armstrong

Tags: Budismo · Cristianismo · Gente · História · Igreja Católica · Islã · Judaísmo · Religião

Ser monge e ter medo em Myanmar
Free Burma nos blogs

5/October/2007 · 13 Comentários

Cinco mosteiros próximos a Rangum foram invadidos pelo exército birmanês, na última quarta-feira – e mais monges foram presos. Outros tantos tentam deixar o país sem a cooperação do povo amedrontado. ‘Tenho medo quando a noite chega’, disse um monge à agência de notícias IPS. ‘Não consigo dormir, tenho medo de que os soldados batam à porta novamente.’ Enquanto falava ao repórter, na rua, o monge olhava para todos os lados, amedrontado. ‘Tenho medo de apanhar como os outros apanharam. Tenho medo de ser preso.’

Está tudo como dantes em Myamnmar. Pessoas continuam sendo presas indiscriminadamente à noite enquanto, de dia, um silêncio profundo preenche as ruas.

O diplomata nigeriano Ibrahim Gambari, enviado especial da ONU ao país, apresentou seu relatório hoje ao Conselho de Segurança. Nada que tenha abalado o representante da China, do conforto de sua cadeira permanente. ‘É compreensível que o mundo demonstre preocupação com o que ocorre por lá, mas pressão não servirá de nada, o contrário. Provocaria confronto ou mesmo o rompimento do diálogo entre Myanmar e a comunidade internacional, incluindo as Nações Unidas.’

Nada acontecerá na ONU – os generais têm cobertura; a cobertura se chama vendas de 1,5 bilhão de dólares ao ano com a China. É um percentual portentoso num país cujas exportações somam 4,3 bilhões ao ano e as importações, 3,9 bilhões.

Mas o futuro não é promissor para a ditadura. O argumento anti-democracia por parte da junta era de que ela lutava para preservar a tradição budista do país. Os generais sempre demonstraram gosto pela captura de imagens com monges, sendo abençoados, rezando circunspetos nos belos mosteiros. Agora, separaram-se de forma provavelmente irreconciliável. Sem este apoio, fundamental num país profundamente religioso, sobra o regime como ele é:

Um regime que estupra – e o número de estupros pelos militares vêm aumentando constantemente nos últimos anos. Um regime que periga criar a pior crise de refugiados da região – já há um milhão de fugidos e mais 500.000 se deslocando internamente para a região de fronteira com a Tailândia. Um país onde há escravidão: são noventa prisões e campos de escravos, de acordo com a Cruz Vermelha Internacional. Onde há o maior número de meninos soldados do mundo: eram 70.000 de acordo com a Human Rights Watch, em 2002.

Mais de 6.000 blogs publicaram o banner do movimento Free Burma, ontem, em todo o mundo, de acordo com o Technorati. Os administradores do site, que terão condições de oferecer números melhores, listam em mais de 10.000. Prometem um número mais preciso até domingo.

Tags: Blogosfera · Budismo · China · Ásia Sudeste & Pacífico

Free Burma

3/October/2007 · 77 Comentários

Free Burma!

Um grupo grande de blogs irá suspender suas atividades por um dia, amanhã, para chamar atenção para Myanmar/Birmânia (Burma, em inglês). Sem quaisquer posts que não um banner ‘Free Burma’ como este acima, tentarão fazer o equivalente virtual ao minuto – ou dia inteiro – de silêncio.

Não será o caso deste Weblog, que continuará o ritmo de postagens habitual. Mas fica declarada a simpatia ao movimento.

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Os monges e o general Htay Win

3/October/2007 · 13 Comentários

Os mosteiros nos arredores de Rangum estão vazios. Shari Villarosa, diplomata norte-americana na cidade birmanesa, visitou ao menos 15 deles. Não há ninguém. Como em país budista os mortos são cremados, jamais será encontrada uma vala comum.

Alguns estão presos, outros estão mortos. Não se sabe quantos.

A Voz Democrática da Birmânia conseguiu confirmar 138 mortos, 6.000 presos – destes, 2.400 são monges. A Voz Democrática é um grupo de dissidentes com sede na Noruega. Eles estão intercedendo junto ao governo norueguês para que seja concedido asilo ao general de brigada Hla Htay Win (foto).

Htay Win está na mata, escondido, próximo à fronteira com a Tailândia. Segundo o Afterposten, principal jornal norueguês, o militar se encontrou com o repórter Jans-Joachim Schilde, que ajuda na intermediação.

Ele é jovem perante os outros oficiais – tem cerca de 50 anos – e, até semana passada, estava no comando do Exército em Rangum. Mas aí recusou-se a disparar contra os manifestantes. Foi preso, interrogado e posto na reserva. Aparentemente, fugiu. Se tiver asilo, promete contar tudo o que sabe.

A diplomacia do mundo todo está de olho em Hla Htay Win. Ele talvez saiba onde estão os monges.

Não há mais protestos. Um blogueiro solitário e anônimo continua postando relatos curtos, tudo o que sabe. Mas ninguém circula pelas ruas com câmera. Tampouco em grupo. Aqui e ali, uns se juntam, gritam slogans e de presto se afastam. Algumas pessoas já estão sendo soltas. Há medo e expectativa para saber o que o mundo fará.

Desde sábado, o enviado especial da ONU, Ibrahim Gambari, tenta se encontrar com o general Than Shwe, que preside a junta de comando. Ele deixa seu hotel, entra num carro que é levado até a distante nova capital – Naypyidaw. Não há embaixadas ou mesmo gente, por lá. A vida está toda em Rangum menos a cabeça do governo. Aí, senta-se e espera. No domingo, fizeram-no assistir a um seminário sobre relações comerciais Myanmar-Mundo. Ontem parece que conseguiu ser recebido. Ainda não há notícias de como foi a conversa.

O gás de Myanmar acende as luzes de Bangkok, a capital da Tailândia. Todos os vizinhos estão de olho no Campo de Shwe, que será licenciado em breve. É talvez o maior reservatório de gás natural de todo Oceano Índico. Foi descoberto pela empresa sul-coreana Daewoo e concorrem por sua exploração empresas da China, da Índia e da própria Coréia do Sul. O país está negociando a compra de um reator nuclear da Rússia. Não é à toa que tem amigos.

Shwe quer dizer ouro em birmanês.

Than Shwe, o líder da junta, recebeu enfim o enviado da ONU. Outro nome forte da junta, número dois do governo, acaba de voltar para Myanmar depois de meses na Cingapura. É o general Soe Win. Foi o último a mandar prender a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi. O general está morrendo, quer partir desta deitado em sua cama, em sua casa. Tranqüilo.

Htay Win, o general de brigada que tenta asilo na Noruega, era protegido de Maung Aye – o número três da junta. O poder se redistribui no comando.

Atualização: o general Soe Win, açougueiro de Depayin, morreu ontem à noite de leucemia.

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Myanmar: o medo de virar Ceaucescu

30/September/2007 · 30 Comentários

Os principais mosteiros de Myanmar foram trancados, os monges lá dentro. Estão proibidos de sair. Não aconteceu sem que, antes, o exército invadisse violentamente alguns deles. O governo chinês interveio para que a junta que comanda o país permitisse a entrada do enviado especial da ONU, Ibrahim Gambari. O diplomata chega hoje.

Talvez por este motivo, a Internet foi parcialmente reconectada e o toque de recolher que estava em vigor durante as noites foi suspenso. Ainda assim, pessoas como o ator Za Ga Na, uma das estrelas do país que se juntou aos monges, foi preso ontem à noite. Há notícias de pessoas sendo presas por toda parte.

Ainda assim, há gente indo para a rua.

Pode ser um exercício bastante perigoso. A 22a Divisão do Exército está de volta à capital, Rangum. Em geral, seu serviço é cuidar de grupos rebeldes na fronteira com a Tailândia. Mas, em 1988, foi ela a responsável pela carnificina que encerrou os protestos pela democracia.

A junta militar é composta por homens velhos que vivem num país isolado. Nos últimos anos, vem conseguindo, por conta de seu estoque de petróleo e gás natural, se relacionar bem com dois poderosos vizinhos: Índia e China. Myanmar não é capacho de nenhum dos dois porque os generais sempre foram hábeis o suficiente para aumentar as vendas de combustível a preços camaradas para um quando o outro começava a estrilar.

O mundo mudou sem que os generais tenham o percebido. Este ano, os protestos coincidiram com a abertura do ano na ONU, com chefes de Estado reunidos. Virou o assunto dos circuitos diplomáticos. Não bastasse, há Internet, há canais 24 horas de notícias de rádio e tevê, agências noticiosas ultra-rápidas. Nada disso existia em 1988. Uma carnificina em Myanmar será assistida ao vivo pelo mundo.

Os velhos generais podem não ter percebido – mas chineses e indianos sabem bem o jogo internacional contemporâneo. Para a China, é o pior dos problemas. Estabilidade no país vizinho só virá com a Junta militar fora. Mas ver a Junta derrubada por um movimento de povo na rua é um cenário igualmente desagradável para Beijing. Traz maus agouros.

Por enquanto, a Índia está evitando se manifestar.

Myanmar mal tem uma classe média. É um país isolado do comércio internacional. Isto quer dizer que não há uma elite cujos interesses dependam das boas relações com estrangeiros. Depois de tantas décadas, sua elite é o Exército. Enquanto os generais da Junta mantiverem o Exército fiel, bem pago, os principais líderes constantemente promovidos, têm tudo para garantir-lhe a fidelidade.

O problema é que, para manterem-se no poder, terão de gerenciar bem a fidelidade deste Exército de um lado enquanto dominam um levante popular sem brutalidade. Isto pode ser construído com medo. Se inspirarem terror na população, ela não vai à rua. O problema da fórmula é que ela vem sendo aplicada há anos. Se tiver esgotado, não há o que fazer.

A ponte com a oposição é repentinamente importante. Medo tem mão dupla: desperta ódio. E ódio popular inspira medo aos ditadores e suas famílias. Ninguém quer terminar pendurado como Mussolini, esmigalhado como Ceaucescu. Em um ponto, se mantiverem o contato com a oposição, bem costurado por diplomatas chineses, poderão negociar uma rendição.

As ruas estão tensas. Algo acontecerá. Ninguém sabe o quê.

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Ainda sobre Myanmar

28/September/2007 · 48 Comentários

Entrei tarde na Revolução de Açafrão – e devo desculpas a vocês.

Tive uma colega birmanesa na escola, nos EUA, em 1990. Ela e a mãe estavam exiladas, não lembro se era o pai ou um tio que estava preso por conta do levante de 1988. O pouco que sabia sobre o país foi o que ouvi desta moça. Era muito tímida, muito calada, muito perdida e deslocada naquele mundão de opulência californiano. Era também uma belezura, mas não oferecia qualquer chance de proximidade. Parecia viver noutro mundo – e provavelmente vivia, mesmo. Muito elegante, mas isto só fui perceber anos depois. Para meus 15 anos, parecia apenas vestir-se de forma diferente.

Certa vez, fiz uma piada a respeito do budismo. Minha colega ficou horrorizada com minha falta de respeito. Coisa de lágrimas saltando aos olhos. Serviu como lição: as pessoas às vezes levam religião bem mais a sério do que eu jamais percebera.

É difícil cair de pára-quedas num assunto desconhecido, e conheço pouco aquele mundão da Ásia para lá da Índia, antes da China. Mas é exoticamente fascinante. Ho Hitke, birmanês exilado em Londres, está blogando as notícias que recebe. O opulento casamento da filha do general Than Shwe, líder da junta, está no YouTube. Divulgado no país, chocou a população em grande parte pobre.

Por fim, esta é Aung San Suu Kyi, a bem-humorada líder da oposição birmanesa:

O governo está tentando controlar o acesso à Internet no país. Sem cortar a telefonia, talvez seja impossível, embora possa dificultar. Há tentativas de iniciar diálogo com os líderes oposicionistas.A junta está preocupada.

Esta é a segunda mais longeva ditadura em curso no mundo. Só perde para a de Fidel Castro. A partir de agora, tentarei fazer um update diário. Há alguma história e personagens por revelar. Principalmente, há uma revolução popular em curso. Revoluções populares, a luta por liberdade, são sempre comoventes.

Tags: Budismo · Ásia Sudeste & Pacífico