Uma construção posto que é domingo

12/July/2009 - 00h01 - 5 Comentarios

sagrada_familia

Conflito étnico entre Hans e Uighurs? É a crise econômica à chinesa

08/July/2009 - 08h09 - 163 Comentarios

Hu Jintao, o presidente chinês, deixou a Itália às pressas sem esperar pelo encontro do G8, enquanto a crise na região da China mais próxima à Ásia Central se agrava. Oficialmente, morreram já 156 pessoas nos choques entre chineses de etnia Han (majoritária no país) e os Uighurs (turcomenos).

Os Uighurs compõem 45% da população da província de Xinjiang, noroeste do país. Desde que a al-Qaeda varou as torres gêmeas de Nova York, Beijing teme pela estabilidade da região. Xinjiang faz fronteira com a Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – que inclui o naco do mundo onde a vertente do extremismo islâmico do Talibã e de Osama bin-Laden encontrou abrigo. Os Uighurs são muçulmanos e, desde os anos 1990, há um grupo separatista que pratica atos de terror, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental – ETIM, na sigla em inglês.

Mas antes de sair com uma interpretação que passe pela al-Qaeda e sua inspiração, não custa entender melhor o cenário. Em 1940, os Hans compunham 5% da população da província. Hoje já são 40% – a China estimula a migração por considerar que estabiliza as regiões do país com etnias muito distintas.

Xinjiang é o canto mais rico em petróleo da China e a renda per capita na região também está entre as mais altas do país. Enquanto isso, o índice de desigualdade social é um dos piores. Chineses han têm os melhores empregos, o uighurs têm os piores. Alguns explicam que o problema é linguístico – num canto isolado do mundo, o grupo local não domina o mandarim, fala seu próprio dialeto de origem turcomena, uma língua parecida com o uzbeque que toma palavras emprestadas do persa. O problema é também educacional: os han têm acesso a mais anos de escola. O resultado prático é um só – os melhores empregos estão com uns, não com os outros.

Cenário propício para um conflito étnico? Sim, mas a razão é econômica. Condoleezza Rice, conta que quando secretária de Estado dos EUA ouviu a seguinte conta de Hu Jintao: sua missão é criar 25 milhões de empregos por ano. Em 2008, criou 9 milhões. A conta dos chineses é que sua estabilidade interna depende de uma economia que cresça rápido o bastante para que todos percebam ter chances de melhorar no futuro. Quando essa percepção for embora, Beijing tem medo.

Apesar das Olimpíadas, 2008 foi um ano ruim para a China. Terremoto grande, escândalo por causa de tinta de brinquedos, altos níveis de poluição em Beijing e uma crise econômica particularmente difícil.

Conflito étnico? Sim. Mas a causa é esta: 9 milhões de empregos em 2008 e um número provavelmente parecido em 2009.

Codex Sinaiticus, uma das Bíblias mais antigas do mundo, online

07/July/2009 - 09h18 - 40 Comentarios

A notícia se espalhou pela rede entre ontem e anteontem e é divertida: o Codex Sinaiticus foi ao ar. Cada página digitalizada está num site para quem quiser consultar. Como a AP a chamou de a ‘Bíblia mais antiga do mundo’, os sites repetiram a informação. E como o artigo da Wikipedia é muito técnico mas não dá muitas pistas básicas, não custa ampliar a explicação.

Não é que a informação esteja errada, mas não dá para afirmar que o Sinaiticus é a Bíblia mais antiga. Ele tem um concorrente, o Codex Vaticanus. Codex é o termo latino para o que em português chamamos códice. É o nome oficial daquilo que entendemos por livro: páginas amontoadas uma após a outra e devidamente encadernadas. Sinaiticus quer dizer ‘do Sinai’. O ‘Livro do Sinai’, encontrado no século 19 por um estudioso alemão no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai. Destaca-se a palavra livro para indicar que não é um rolo – muitos documentos antigos eram compilados na forma de rolo.

Livros eram, evidentemente, copiados a mão. No período que estava iniciando a conversão do Império Romano ao cristianismo, no século 4, Constantino encomendou 50 cópias da Bíblia – um empreendimento, diga-se, caríssimo. É bastante possível que estes dois códices – Vaticanus e Sinaiticus – venham desta primeira ‘edição oficial’. Mas, copiados a mão e muito provavelmente em locais distintos, os textos têm suas diferenças. Ambos em grego, o texto de Daniel no Codex Vaticanus usa a tradução do hebraico de Teodócio, ao invés da Septuaginta, tradução considerada hoje oficial pela Igreja.

No entanto, não há nenhuma grande diferença nos textos. Embora incompletos, ambos os códices respeitam um bocado aquilo no que se tornou o Novo Testamento. Sinaiticus inclui dois livros apócrifos – a Epístola de Barnabás e o Pasto de Hermas. Em alguns jornais, destacaram o fato. Mas a presença dos livros não quer dizer que os editores considerassem-nos parte do cânon. Podem ter vindo de brinde por serem considerados boas leituras cristãs.

Sinaiticus é um documento histórico mas não altera particularmente nossa compreensão de como a Bíblia cristã se formou. Nos meios dos estudiosos, é mais comumente chamado Aleph (א), a primeira letra do alfabeto hebraico. É um documento bonito, escrito em grego uncial – um estilo comum na Antigüidade e Alta Idade Média, que só usa capitulares, praticamente sem pontuação ou espaço entre as palavras.

Uma boa fonte para esses assuntos costuma ser Jim Davila, professor de estudos bíblicos da Universidade de St. Andrews, a mais antiga da Escócia. Ele escreve há vários anos o melhor blog do ramo: Paleojudaica. Davila vem acompanhando o processo de digitalização do documento.

O abuso sistemático, sexual e físico,
de crianças da Irlanda pela Igreja

06/June/2009 - 16h46 - 348 Comentarios

Há duas questões importantes levantadas nos comentários abaixo, sobre o escândalo de abuso infantil na Igreja Católica da Irlanda.

A primeira me cobra uma distinção: foi abuso físico de crianças, mas não sexual.

Não é verdade.

No relatório, que trata de casos documentados entre a década de 1940 e a de 1970, há inúmeros casos de abuso sexual. De estupro de crianças por padres de batina e funcionários. Tão logo o relatório começou a ser divulgado, esta semana, o Dublin Rape Crisis Center – especializado em vítimas de estupro – passou a receber ligações de mais vítimas da Igreja querendo contar suas histórias. O premiê irlandês Brian Cowen, com o texto na mão, declarou que nas escolas públicas administradas por 18 ordens católicas diferentes, “o abuso sexual de crianças era endêmico”.

Se ainda restam dúvidas, as palavras seguintes estão publicadas no site Catholic Spirit e são de Sean Brady, cardeal de Armagh: “Este relatório deixa claro o mal que fizemos a algumas das crianças mais vulneráveis de nossa sociedade. Ele documenta uma vergonhosa lista de crueldades – negligência e abuso físico, sexual e emocional – impostas a crianças.”

Segundo o relatório, abuso sexual era sistemático nas escolas para meninos, embora também ocorresse com menor frequência nas escolas para meninas.

Se há algo omisso no post anterior é que a história irlandesa não é apenas de estupro. É também de abuso físico – e não se trata, aqui, de palmatória, instrumento cruel, porém ainda usado vastamente na educação britânica até os anos 40. Nas escolas tocadas pela Igreja, havia chibatadas em crianças nuas. Banhos com água fervendo ou com água no limite do gelo do inverno irlandês. Ameaça com cachorros raivosos – sim, Abu Ghraib imediatamente vem à mente. As surras eram sistemáticas e arbitrárias. As crianças ouviam seus colegas apanhando, quando não assistiam. O resultado era a criação de um ambiente de terror.

O que as crianças vítimas têm em comum é que todas estavam internadas nas escolas industriais, instituições criadas na Revolução Industrial para oferecer abrigo e proteção a crianças pobres, muitas vezes abandonadas pelos pais, outras órfãs. Eram escolas públicas, e o governo concedia à Igreja sua administração.

A segunda cobrança é a de que tenho uma mão pesada para tratar da Igreja. Que não tenho distanciamento.

Vocês sabem que sou ateu. Mas não sigo a linha Richard Dawkins – não acredito que a religião é um mal do mundo. Lembro até hoje de uma freirinha italiana que me dava aulas de religião, quando eu era criança. A irmã Gina. Ainda a vejo como a emanação da bondade – era uma figura extremamente generosa. Naquele tempo, eu devia ter uns oito ou nove anos, flertei com religião. Não deu. Sou ateu desde a pia.

Desculpe. Mesmo. Não acho que meu problema seja falta de distanciamento. Tenho total distanciamento.

Acho que a questão é outra: bons católicos sentem o ímpeto de defender sua Igreja. Essas histórias, tornadas públicas, não batem com sua imagem da Madre Igreja. E eu só posso imaginar como deve ser duro, difícil, encarar este lado negro da Igreja. O post anterior tem motivo: um cardeal britânico veio chamar pessoas como eu de sub-gente no momento em que sua Igreja, na ilha ao lado, revela um histórico recente de crueldade profunda, de desprezo completo pelo que é ser humano. Só uma completa falta de auto-crítica e nenhuma noção de timing pode levar um sujeito como ele a questionar a humanidade dos outros neste momento. Aí seu sucessor o que faz? Elogia a coragem da Igreja.

Pois esta é a Igreja que eu enxergo. A questão básica é a seguinte: sempre que um país decide investigar os porões da Igreja, descobre uma história recente igual – nela, as crianças são sempre vítimas. Não acredito que Boston, Los Angeles e Irlanda sejam casos isolados. São os casos investigados, apenas. Quem for mexer na Igreja da Itália encontrará o mesmo. Na da Espanha? Não tenho dúvidas. Também na do Brasil. Por que não tenho dúvidas? Porque sexualidade é coisa humana. Gente que decide sufocar a própria sexualidade sai de órbita. A maioria dos padres, evidentemente, arranja namorados e namoradas adultos e discretos. Mas uns e outros partem para as vítimas fáceis.

Muitos cardeais, quando abrem a boca para falar sobre os casos de abuso, dão mostras de que não perceberam sua gravidade. O papa Bento 16 diz que é lamentável, uma nódoa, e aí muda de assunto. Não é lamentável. Não é uma nódoa: é a Igreja como ela é, uma instituição que tolerou sistematicamente abusos dos piores tipos às crianças mais frágeis – quase sempre pobres – da sociedade. A Igreja, que neste pontificado é uma instituição que se julga no direito de querer ensinar amor e tolerância ao mundo, precisa urgentemente se abrir, reconhecer seus males, discuti-los publicamente, pedir desculpas e se reformar.

Mas não faz isso. Quando, pressionada por vítimas e pelo Estado em alguns lugares, só coopera com investigações depois de fazer acordos em que os nomes de seus criminosos não serão divulgados.

Perdoem: não acho que todos os padres e freiras sejam assim. Não acho sequer que a maioria deles seja assim – tenho certeza de que é uma minoria. Mas a instituição é assim. As pessoas de poder na Igreja são assim: é o que revelam em seus acordos e, invariavelmente, em seus comunicados públicos.

Atualização- Nos comentários, o Saladino dá o link para o relatório (PDF) sobre os abusos da Igreja na Irlanda.

Os ateus do cardeal, as crianças da Irlanda

05/June/2009 - 16h07 - 55 Comentarios

Em sua despedida da arquidiocese de Westminster, o cardeal católico Cormac Murphy-O’Connor disse o seguinte em entrevista à BBC:

Na minha opinião, há algo não totalmente humano naqueles que abandonam aquilo que transcende. Naqueles que deixam algo para o qual todos nós fomos feitos, a busca por um encontro transcendental que chamamos Deus. Sem isso, há uma diminuição do que é ser humano. Sem isso, você não é completamente humano.

É uma graça.

Enquanto ateus seguem subhumanos, o sucessor de O’Connor apanha. O cardeal Vincent Nichols, perante um relatório de 2.600 páginas que acusa centenas de casos de abuso sexual infantil da Igreja Católica na Irlanda, de presto observou que foi necessária muita coragem por parte dos padres para enfrentar a sujeira dentro de casa. O instintivo e natural, disse Nichols, é olhar para o outro lado.

Sobre responsabilidade, sobre a mínima obrigação evidente, nada. Trata-se de coragem. (Uma ‘coragem’, diga-se, motivada não internamente mas por centenas de denúncias.) O instinto natural dos padres é olhar para o outro lado.

Subhumanos são os ateus, aos olhos da Igreja.

Atualização importante – o primeiro crítico do novo cardeal de Westminster é outro cardeal, Diarmuid Martin, de Dublin. É um que tem as prioridades no lugar: “minha raiva está do lado das vítimas. Elas são os reais heróis, quem realmente teve coragem de vir à frente e denunciar.” Segundo Martin, o relatório final, a ser publicado este mês, chocará a todos. A Igreja irlandesa fez um acordo com o governo para permitir ampla investigação. Os responsáveis pelos atos não serão identificados, embora sejam afastados de suas funções.

Qual a estratégia de Obama
para lidar com o terror islâmico

05/June/2009 - 12h02 - 181 Comentarios

Gostei muito de ler as opiniões de vocês a respeito do discurso do presidente norte-americano Barack Obama, no Cairo. Não é a opinião de jornalistas, que tendem a pensar parecido entre si, que importa. É como pensam as pessoas que não são nem políticos, nem jornalistas, nem têm interesses imediatamente ligados à questão que vale.

Tenho um método para ler opiniões. Começo identificando os extremistas, os radicais. Na caixa de comentários abaixo, são os suspeitos de sempre, à esquerda e à direita. Os primeiros em que presto atenção sempre são os radicais. Falaram algo que surpreenda? Quando radicais falam algo que você não espera, preste atenção. Tem uma mudança de rumo aí. A possibilidade de uma nova tendência. Mas os radicais não falaram nada de surpreendente. Radicais não pensam: reagem. Suas idéias já vem empacotadas doutras fontes. Às vezes, alguns radicais podem ser brilhantes nos argumentos. Mas, ainda assim, quase nunca surpreendem. Radicais têm uma visão maniqueísta do mundo. Sabem que estão certos, não têm dúvidas. Sabem quais são as soluções do mundo e identificam muito rápido vilões absolutos.

Conviver com certezas por certo deve ser agradável. Não é uma bênção que a maioria de nós têm. Temos que lidar com o mundo do jeito que ele veio.

Não sei se o discurso de Barack Obama vai dar certo. O tempo é que dirá e qualquer pesquisa ou comentário que venha nas próximas semanas será apenas especulação. Isso não quer dizer que não exista nada a ser dito a respeito do discurso: é possível revelar suas intenções.

Obama é o político que reinventou a arte do discurso no Ocidente. A habilidade de políticos era medida por sua capacidade oratória até o fim da era do rádio. A televisão mudou essa linguagem, exigindo frases cada vez mais curtas. O grande talento para um político passou a ser a capacidade de emanar empatia pela tela da tevê.

Com seu discurso sobre relações raciais nos EUA, durante as primárias do Partido Democrata no ano passado, Obama mudou o jogo. O YouTube reinventou o rádio de certa forma: ao longo dos dias seguintes ao discurso, cada qual em seu tempo, os eleitores norte-americanos foram à Internet ouvir os quase 50 minutos daquele discurso de Obama com calma. Em geral, diz-se que a Internet acelera o tempo. Nem sempre. Às vezes, faz o oposto. Dá tempo para que uma mensagem um pouco mais complexa do que permitem os 30 segundos de tevê tenha chance de reverberar.

O que o presidente dos EUA tentou fazer ontem, no Cairo, é repetir o fenômeno do discurso sobre raça. A dúvida é o filtro cultural: do outro lado não estão norte-americanos, nem gente que foi educada num ambiente de cultura européia.

Ainda assim, ele conta com a Internet para que milhões de pessoas em todo o mundo muçulmano o ouçam ao longo dos próximos dias e semanas. Foi, como no caso do race speech, um discurso longo. Seu alvo são jovens. Jovens, afinal, são os que têm acesso à Internet. E, não custa lembrar, é via Internet que a al-Qaeda distribui seu material inflamatório. É via Internet, com discursos gravados em áudio e em vídeo, que a al-Qaeda seduz mentes. É neste mercado que Obama decidiu entrar. Sua aposta é de que conseguirá plantar um dúvida na mente de incontáveis jovens muçulmanos de 13, 16 ou 19 anos. Ele só precisa disso: plantar a dúvida.

Radicais têm certezas, afinal. Se jovens o suficiente vacilarem na hora de se abraçar a uma bomba que levará suas vidas, a política no Oriente Médio caminha três ou quatro passos à frente. Se dará certo? Não depende apenas do discurso. O discurso desarma. Se der certo, ele faz com que seu público alvo cogite a possibilidade de que os EUA – e o ocidente – não sejam vilões absolutos.

Não basta que cogitem, tem que se convencer. A maneira como a política externa dos EUA é percebida também terá que mudar. O discurso de ontem faz parte da nova estratégia norte-americana. É uma estratégia ousada, e vai ser fácil bater nela se não der certo.

O mundo é assim mesmo: fazer com que as coisas funcionem é difícil. Bom mesmo é ser radical. Certezas sem obrigação de resolver problemas está entre as posições mais confortáveis que podem haver. Mas não deixa de ser engraçado quando gente que olha para o mundo e só vê pretos e brancos, nenhum cinza, chama os outros de ingênuo.

Obama no Cairo

04/June/2009 - 13h44 - 141 Comentarios

Barack Obama fez, hoje, o discurso mais importante desde que assumiu a presidência dos EUA.

Interessante será acompanhar a repercussão – e a partir dela escrevo mais.

Tenho a impressão de que foi a primeira vez na qual um presidente dos EUA reconheceu em público que seu país participou do golpe que derrubou um governo democrático no Irã, em 1953.

Quando socialistas viram antissemitas

19/May/2009 - 15h16 - 283 Comentarios

Foi estranho – um bocado estranho – o ataque antissemita em Buenos Aires, no domingo. Judeus foram agredidos quando deixavam a festa dos 61 anos de Israel na embaixada por rapazes com bastões, pedras. Um deles estava armado.

Os agressores eram militantes socialistas com histórico de ataques. Vestiam Che Guevara nas camisas. Tinham bandeiras de agrupações nanicas como a Frente de Acción Revolucionaria e a Convergencia Socialista.

O antissemitismo jamais foi marca ideológica da esquerda. Marx era judeu. Leon Trotsky – e, como ele, vários dos líderes bolcheviques. Os nazistas jamais se referiam ao ‘judeo-bolchevismo’ para designar o tipo de governo soviético. O Projeto Sionista é socialista – e foi o projeto socialista, transferindo judeus da Europa para a Palestina, comprando-lhes terras e erguendo os kibutzim, fazendas comunitárias, que iniciou a implantação do Estado de Israel. Este movimento é que deu origem ao Partido Trabalhista de David Ben-Gurion. De gente de esquerda se formou o Exército de Israel. Ainda hoje, o mito do israelense que trabalha a terra para erguer o país, Eretz Israel, a Terra de Israel, é um dos mais fortes no imaginário nacional.

Incompetência, paranóia sem limites, perda de noção do razoável e falta de diplomacia transformaram Israel, principalmente nos últimos anos, em um Estado agressor.

Na última década e meia, talvez duas, houve uma inversão. A direita bate no peito para defender Israel. A esquerda faz o contrário. Em parte, é fruto das ações mais recentes do governo de Israel. Também é herança dos tempos da Guerra Fria, quando o maniqueísmo de ambos os flancos ideológicos se alinha pró e contra o lado dos EUA mais por simplismo do que por compreensão. Podem ter suas razões – mas entre criticar as ações de um governo e o racismo ainda há uma diferença.

Há está linha tênue com a qual a extrema esquerda flerta com cada vez mais ousadia. Alguns países, culturalmente, estão mais expostos ao antissemitismo do que outros. O Brasil, menos. A Argentina, mais. O problema, no entanto, não é localizado geograficamente. É uma tendência internacional.

Um militante socialista que ataca um judeu por sua etnia não contradiz apenas seus valores. Ele desconhece sua história. Perdeu noção daquilo pelo que deveria estar lutando. Repete os atos de quem sempre o perseguiu. Não atenta apenas contra sua ideologia: ele a esvazia. A aniquila. E cede o argumento à direita. Próximo passo é algum louco de lá vir com a história de que o nazismo era na verdade socialista.

O perfil religioso dos EUA
mais ateu, menos cristão

15/May/2009 - 11h42 - 85 Comentarios

Os EUA são, por fama e direito, reconhecidos como o país mais religioso do ocidente desenvolvido. Até isso, no entanto, pode mudar. O Trinity College de Connecticut, uma das mais tradicionais instituições católicas do país, realizou sua terceira pesquisa a respeito do perfil da fé norte-americana.

Descobriu um país mais laico e menos cristão.

Em 1990, 8,2% dos entrevistados se identificavam como ’sem religião’. O número em 2001 era 14,2%. Agora é de 15%.

O percentual de cristãos na população caiu 10%.

Os católicos, que estavam em sua maioria no nordeste, hoje se concentram no sudoestes. São menos descendentes de irlandeses, italianos e poloneses e mais latino-americanos. Há mais católicos na Califórnia, agora, do que na Nova Inglaterra – uma brutal mudança demográfica. (Escândalos de pedofilia concentrados em Boston ajudam.)

Dentre os cristãos, as denominações tradicionais do protestantismo estão perdendo espaço para as igrejas modernas, os evangélicos genéricos. Em 1990, 200.000 se identificavam como ‘cristãos que não seguem nenhuma denominação’. Passaram a 2,5 milhões em 2001. São 8 milhões, hoje. Eram 5% da população, são 11,8%.

A proporção de muçulmanos aumentou: 0,3% em 90, 0,6% agora. A de judeus, diminuiu – de 2,7% passou a 1,2%.

Avó de Obama fará
peregrinação islâmica a Meca

04/May/2009 - 12h17 - 27 Comentarios

A avó queniana de Barack Obama, Sarah Obama, fará a peregrinação a Meca este ano. (O Hajj cai no final de novembro.) O convite veio de Sulaiman Al-Fahim, dono do time de futebol Manchester City e um dos homens mais ricos de Dubai.

É o mais importante ritual muçulmano.

A viagem de Mama Sarah, madrasta do pai de Obama, por certo não escapará à direita hidrófoba norte-americana. Por outro lado, pode criar boa vontade no mundo árabe.

O ridículo nas religiões
(em todas elas)

02/May/2009 - 03h22 - 110 Comentarios

Está começando a ser distribuído em DVD, aqui nos EUA, Religulous, o divertido documentário/comédia de Bill Maher a respeito de religiões. Não, este filme não leva religião a sério. (Não importa que religião.) O nome mistura ‘religion’ com ‘ridiculous’, ridículo. Tampouco é um documentário sério – Maher, misto de comediante e analista político ácido, jamais se identificou falando a verdade enquanto fazia as filmagens. (Dizia que preparava um filme sobre espiritualidade.)

Os abusos da Igreja Católica
e a sombra de Fernando Lugo

29/April/2009 - 00h03 - 265 Comentarios

Ontem à noite, assisti a uma apresentação feita pelo repórter Mike Rezendes a respeito do escândalo de pedofilia na Igreja Católica de Boston. De todos meus amigos jornalistas, aqui nos EUA e aí no Brasil, Mike é o que chegou mais longe na prestação de um serviço público. Seu trabalho junto à equipe de reportagem investigativa do Boston Globe reuniu durante um ano provas e depoimentos que demonstravam que a alta hierarquia da Igreja não só tinha conhecimento de que alguns padres se envolviam sexualmente com crianças como não fizeram nada para retirá-los do púlpito.

O que nos traz a Fernando Lugo, presidente do Paraguai, ex-bispo.

No momento, são três mulheres diferentes que vieram a público identificando-o como pai de seus filhos. Segundo o Washington Post, Lugo pode ser pai de até seis crianças. Como no caso norte-americano, a Igreja tinha conhecimento e não interferiu.

Há uma larga distância entre um padre pedófilo e um padre que mantém relações com mulheres adultas. O filho mais jovem do presidente tem pouco mais de um ano; uma das mães, a jovem Viviana Carrillo, sugere que ainda tem algum tipo de relação com o presidente. (Seu filho tem quase dois anos.) Lugo era bispo em uma das regiões mais pobres do país e, aparentemente, tinha relações com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Há desconfianças de que, com Viviana, o namoro começou quando ela ainda tinha 16 anos e chegou ao bispado para virar noviça. “Ele falava bonito”, ela diz.

O padrão que Mike Rezendes encontrou em Boston era diferente mas com muito em comum. Padres pedófilos que em geral buscavam crianças do mesmo sexo. Suas vítimas vinham principalmente dentre os mais pobres, filhos de mães solteiras que ficavam pouco tempo em casa para trabalhar, gente que já convivia com algum tipo de desajuste social. Os mais frágeis. Padres, como professores mais velhos, como psicólogos, exercem um poder de influência muito grande, principalmente naqueles que vivem momentos de fragilidade na vida.

No caso de Lugo, seu comportamento de limpo teve pouco: teve filhos em série com mulheres diferentes, às vezes mantendo relacionamentos aparentemente simultâneos, sempre impondo segredo. Para os paraguaios, o que importa é tentar compreender quem é seu presidente. Que tipo de homem é. Se é confiável. Até mesmo se tem caráter.

Mas há uma questão maior do ponto de vista mundial que é esta instituição, a Igreja Católica. A Igreja protege os seus, não importa que vítimas façam. É uma instituição corporativista ao limite. Os escândalos com os quais a Igreja se envolve são quase sempre sexuais. Sempre que vem a público, o comportamento de padres com sexo chega próximo à doença. E a Igreja, buscando abafá-lo, passa a seguinte mensagem: Não entende a relação de um homem com uma mulher. Não entende casamento. Não entende família. Não entende crianças.

Não deixa de ser irônico que é sobre estes assuntos que mais gosta de dar lições.

Ahmed Rashid: como (e por quê)
cresce a al-Qaeda

16/March/2009 - 11h48 - 65 Comentarios

Há um mecanismo nos arredores do Afeganistão que está alimentando e fortalecendo a al-Qaeda. Este post é o segundo (e último) que sai a partir da conversa com Ahmed Rashid, o primeiro foi sobre o Talibã. A al-Qaeda está mais forte e intimamente ligada à cúpula do Talibã, mais até do que antes do Onze de Setembro,. O grupo liderado por Osama bin-Laden tem proteção na região em que vive, a fronteira do Paquistão e Afeganistão, por causa da influência do Talibã ali, pelo surgimento nos últimos anos de um Talibã paquistanês e pela proteção da ISI, serviço secreto do Paquistão.

A ISI é a responsável pelo desenvolvimento e execução da política externa do Paquistão. Como se trata de um braço das Forças Armadas, tal política se resume a ser contra a Índia. Daí, consideram adequado insuflar o radicalismo islâmico. A tranquilidade concedida à al-Qaeda nos últimos anos reverteu uma tendência inicial de diminuição e permitiu um retorno à expansão. O único fracasso do grupo terrorista nos últimos dez anos foi no Iraque. Hoje, a al-Qaeda tem bases no Iêmen, no Sudão e grupos afiliados em todos os países da Europa. Nos últimos seis meses, houve prisões de membros da organização na França e na Alemanha. Mas haverá um novo ataque em solo europeu. O grupo está forte.

O que isto diz a respeito da Guerra ao Terror imposta por George W. Bush? Há dois argumentos que os partidários do ex-presidente norte-americano usam para defendê-lo. O primeiro, de que ele realmente evitou novas tentativas de ataque em solo dos EUA. E o segundo de que, afinal, ele venceu a al-Qaeda no Iraque.

Rashid explica assim: o Iraque foi um caso particular, onde a população sunita não é radical do ponto de vista religioso. É mais difícil envolvê-la por muito tempo numa guerra em nome de Deus. Lá, o problema é nacionalista. Mas, de qualquer forma, o Iraque foi o único lugar no mundo em que os homens de bin-Laden realmente enfrentaram o exército dos EUA numa batalha aberta. Tais homens, hoje, vivem no Afeganistão e estudam dedicados as circunstâncias daquela derrota. Aprenderam muito sobre como o maior exército do mundo funciona em batalha. E estão prontos para um novo confronto armado no Afeganistão. O Afeganistão, não custa lembrar, é onde Alexandre, o Grande, o Império Britânico, e a União Soviética caíram.

E quanto a ataques diretos aos EUA? Rashid os considera mais difíceis pela natureza do país. Não só os EUA são mais isolados – estão a um Atlântico ou Pacífico de distância – como é um país de imigrantes. As comunidades islâmicas, nos EUA, estão integradas à sociedade. Sentem-se norte-americanas. O discurso da jihad simplesmente não pega. Esta integração não é algo que os europeus tenham conseguido fazer. E é do sentimento de exclusão social que são reforçados os laços com o país original e a raiva da nova terra. Ironicamente, as críticas ao ‘multiculturalismo’ que nasceram dentro do movimento neo-conservador dos EUA ignoraram o fato de que são os próprios EUA um dos maiores exemplos de multiculturalismo bem sucedido do mundo. (O Brasil certamente está na mesma lista.) É porque os muçulmanos norte-americanos sentem-se norte-americanos mais do que iraquianos, paquistaneses ou o que for que a al-Qaeda não encontra solo fértil para se implantar.

Outros fatos explicam o recente fortalecimento da al-Qaeda e o primeiro é o tráfico de drogas baseadas em ópio, principalmente heroína. O Talibã já protegia, quando estava no governo afegão, os fazendeiros de papoula, o que lhe rendia 200 milhões de dólares anuais. Mas o envolvimento é mais profundo, agora. O grupo e a al-Qaeda estão envolvidos não só com proteção mas com o tráfico. Lucram alto fazendo o escoamento da produção, seja via Dubai, Tashkent (Uzbequistão) ou Islamabad (Paquistão). Ninguém sabe ao certo quanto o negócio dá. Mas é muito.

O Islã não permitiria este envolvimento, mas os mulás da al-Qaeda o justificam seguindo um raciocínio tortuoso: não se envolvem com haxixe, baseado em cannabis, porque há um histórico de uso de maconha por muçulmanos. Com heroína não é assim – já que muçulmanos não a consomem, só os outros. Simplesmente não é verdade. O uso de opiácios por afegãos e paquistaneses vem crescendo e é um portentoso problema social.

Por outro lado, Ahmed Rashid não espera que ocorra, com a al-Qaeda, aquilo que aconteceu com as FARC. De um grupo de guerrilhas comunistas e de esquerda, após se envolverem com o tráfico foram corrompidas ao ponto de se transformarem, agora no fim de sua existência, em um mero grupo de bandidos. A ‘ideologia’ islâmica é mais forte do que isso e os homens ligados a bin-Laden são totalmente centrados no objetivo da jihad. O tráfico pode financiá-los, mas não vai virar atividade fim.

O outro elemento que fortalece a al-Qaeda é o empobrecimento da região, reforçado agora pela crise econômica mundial. Não é só o Afeganistão. O sul do Tajiquistão passou boa parte do inverno sem luz – é uma região pobre, profundamente pobre, e gelada. Há passeatas motivadas pelo preço dos alimentos no Uzbequistão e no Quirguistão. Pobres, famintos, sem quaisquer perspectivas, jovens muçulmanos destes países descem ao sul em busca da al-Qaeda e abraçam a jihad. O número de soldados está aumentando.

Nos 200 anos de Charles Darwin

12/February/2009 - 12h58 - 161 Comentarios

Nosso Darwinista escreve:

Uma das principais estratégias daqueles que combatem as teorias evolucionistas é relacionar os erros cometidos por Darwin. E ele realmente cometeu erros e deixou lacunas importantes.

Darwin, por exemplo, não tinha conhecimentos sobre genética, ciência que estava surgindo naquela mesma época com os experimentos de Gregor Mendel. Aliás, Darwin tinha ideias hoje em dia consideradas bizarras quanto à transmissão das características hereditárias. Ele nunca explicou de maneira convincente como as variações, sobre as quais a seleção natural atua, eram passadas de pais para filhos. Um erro que talvez tivesse sido corrigido, se ele tivesse lido os trabalhos de Mendel. E não foi por falta de oportunidades.

Mas, apesar da fragilidade que pretendem comprovar a respeito de sua teoria, Darwin demonstrou de maneira brilhante e inequívoca que as espécies se transformam ao longo do tempo. A evolução biológica é tão fartamente comprovada e documentada que o meio acadêmico há muito tempo não debate mais se ela ocorre ou não, e sim de que maneira ocorre.

O texto completo está no De olho no fato.

O Vaticano recua perante a Alemanha

04/February/2009 - 21h01 - 105 Comentarios

A capa da principal revista alemã, Der Spiegel, dá o tom da recepção do país das últimas ações de Bento 16: ‘um papa alemão traz desgraça à Igreja’. Os alemães se perguntam: como um conhecido antissemita, um antissemita declarado, pôde conseguir o perdão papal?

O Vaticano havia declarado que o papa havia decidio e não havia mais o que fazer. Agora, sentiu a pressão e voltou atrás: o secretário de Estado cardeal Tarcisio Bertone deu ordens para que o bispo Richard Williamson peça perdão de forma ‘absoluta, inequívoca e pública’ por ter negado o Holocausto e ter elogiado o regime Nazista.

Senão, voltará à excomunhão.

O papa Bento 16, o Holocausto negado
e o Vaticano de férias da realidade

04/February/2009 - 14h42 - 182 Comentarios

O Vaticano está começando a se mover, com seu jeito tortuoso de sempre, para reparar o impacto das últimas decisões do papa Bento 16. Ele suspendeu a punição aos padres e bispos excomungados por João Paulo 2o por pertencerem à seita radical Sociedade de São Pio 10. Um deles, o bispo britânico Richard Williamson, é um velho revisionista histórico que nega o Holocausto. (Para Williamson, câmaras de gás nunca existiram e os nazistas mataram no máximo 300.000 judeus.)

O cardeal Walter Kasper, que toca no Vaticano as relações com a comunidade judaica, já falou oficialmente que parece ter havido um equívoco na ‘gerência do problema’ dentro da Cúria. É uma maneira leve de dizer.

A imprensa alemã está cobrindo pesadamente a questão. Há bispos indignados e pelo menos um cardeal, Karl Lehmann de Mainz (Mogúncia), descreveu a decisão do papa como ‘catastrófica’. Hoje, a premiê alemã Angela Merkel pediu oficialmente explicações ao Vaticano.

‘O papa’, sugere o teólogo Hans Küng, um antigo colega de trabalho e eterno rival, ‘está tão afastado do mundo real que já não tem mais idéia de quais as conseqüências de suas decisões.’ Na semana passada, um padre austríaco que foi elevado a bispo mexeu com toda a igreja local. Gerhard Maria Wagner havia declarado que o furacão Katrina fora punição pelo número de bordéis em Nova Orleans; que o tsunami fora punição para os turistas brancos que visitam a pobre Tailândia, que Harry Potter espalha o satanismo.

Um padre austríaco, quando soube da notícia da elevação de Wagner, comentou: ’será que a Igreja sabe que estamos no século 21?’ A revista alemã Der Spiegel sugere outra teoria: o papa tirou férias da realidade.

A entrevista de Barack Obama ao mundo
árabe e o problema da al-Qaeda

28/January/2009 - 14h00 - 49 Comentarios

Pois aconteceu: em sua primeira entrevista (transcrição em inglês) para a televisão, o presidente norte-americano Barack Obama optou pela rede Al Arabya. Não falou a seus compatriotas ou aos europeus ou mesmo aos israelenses. Falou ao mundo árabe.

‘Nós americanos não somos seus inimigos’, disse Obama. O presidente falou longamente sobre o conflito entre Israel e Palestina. Reiterou que os EUA têm total interesse na segurança de Israel, mas reconheceu que a situação de vida dos palestinos não melhorou em nada ao longo dos últimos anos. Para Obama, um acordo de paz só sairá se a conversa abandonar as questões do passado e focar no futuro. ‘Uma criança na Palestina estará melhor após o acordo?’, ele se perguntou. ‘Será capaz de construir um futuro para si? E uma criança em Israel terá maior segurança para viver?’

George W. Bush falava vez por outra aos árabes, mas seu discurso vinha na forma de promoção da democracia. Obama não seguiu por aí – até porque, nos últimos anos, norte-americano que fala em promoção de democracia no mundo árabe não tem credibilidade. Obama preferiu apresentar um bom acordo não como aquele em que leva a um regime democrático, mas um em que as crianças de ambas as partes saem com um futuro melhor pela frente.

Falar prioritariamente ao povo árabe é um gesto ousado.

‘O governo dos EUA fará uma distinção clara’, disse o presidente, ‘entre organizações como a al-Qaeda, que empregam a violência e o terror, e grupos com os quais não concordamos. É perfeitamente possível que discordemos mas mantenhamos o respeito uns pelos outros. Só não respeitamos grupos terroristas que matam civis inocentes.’

A al-Qaeda vem martelando no governo Obama bem antes da posse. ‘É o negro manso’, sugeriu Ayman al-Zawahiri logo após a eleição. Apresentaram homens libertos de Guantánamo que estão em seus quadros terroristas. O grupo de Osama bin-Laden vem se empenhando numa campanha de propaganda, no Oriente Médio, para pintar o novo presidente dos EUA como um igual a todos os que o antecederam, apesar do sobrenome Hussein e da cor da pele negra.

A al-Qaeda não é apenas um grupo terrorista: é, também, uma força política que disputa o afeto de um eleitorado específico. São os homens e mulheres sunitas. A al-Qaeda tem um objetivo político: a instalação, em todo o mundo muçulmano, de um califado que siga uma vertente particularmente rígida da lei islâmica. Neste sentido, alimentar o ódio ao inimigo externo é sua arma para manipulação deste eleitorado. Obama é, do ponto de vista de imagem, uma ameaça séria.

No momento em que decidiu falar aos árabes em sua primeira entrevista, foi esta briga política que Obama comprou.

Bento 16 vídeo-blogueiro

23/January/2009 - 19h27 - 27 Comentarios

O Vaticano tem canal oficial no YouTube. Ainda não existe versão em português, mas ela é prometida.

O objetivo é encontrar um canal que permita à Igreja Católica conversar com os mais jovens.

Pervez Musharraf conta sua visão de mundo

17/January/2009 - 16h26 - 19 Comentarios

O general de reserva e ex-ditador paquistanês Pervez Musharraf deu uma conferência aqui em Stanford, ontem. Ele falou por aproximadamente uma hora sobre como vê o problema do terrorismo e ofereceu sua receita ‘holística’ para tratá-lo. Aí, abriu para o público. Os estudantes e professores de Stanford perguntaram-lhe a respeito da segurança das armas nucleares paquistanesas, cobraram-lhe a respeito da ditadura – às vezes, exaltados. Alguns estudantes indianos ensaiaram um protesto. Musharraf não piscou um segundo. Foi irônico, charmoso, em alguns momentos fez cara de sincero. Sempre tinha uma resposta com aparência de ponderada. É um político nato.

Gravei a conferência em áudio – está online para quem quiser ouvir. Mas aqui vai um resumo do mundo visto pelos olhos de Pervez Musharraf.

Extremismo e terrorismo

É preciso distinguir entre extremistas e terroristas. São parecidos mas distintos. Nem todo extremista é terrorista. A maioria não é. Os extremistas têm que ser transformados. Os terroristas devem ser presos. Mas não há consenso internacional a respeito de quem é terrorista: o terrorista de um é aquele que luta pela liberdade de outro. Até hoje, temos enfocado o problema com táticas de combate no curto prazo. A solução, no entanto, só virá a longo prazo, com outro tipo de esforço.

Terroristas enquanto folhas

Os terroristas são como as folhas de uma árvore. As organizações terroristas são como os galhos. Não adianta podar folhas ou cortar galhos porque nascem outros. É preciso atacar a raiz da árvore. As raízes, na Ásia Central e no Oriente Médio, são três. A primeira é analfabetismo. A maioria dos extremistas e terroristas são pessoas iletradas que compram qualquer discurso que aponte um culpado externo para seus problemas. A segunda causa é a pobreza, e pobreza e analfabetismo caminham juntos na região. Pobreza e analfabetismo confirmam a impressão de que há uma profunda injustiça, que tudo lhes é negado.

Mas os perpetradores do Onze de Setembro e das bombas de Londres não eram nem analfabetos, nem pobres. E aí entra a terceira causa: política. Há questões políticas que não foram resolvidas e que devem ser endereçadas. Principalmente Caxemira e Palestina. O que está acontecendo em Gaza, agora, apenas reforça a sensação de impotência e injustiça na rua islâmica, alimentando ainda mais o extremismo que, por sua vez, é explorado por organizações terroristas.

Alguns sugerem que há uma diferença fundamental no sistema de valores do Islã e do Ocidente. Não é verdade. O IRA, na Irlanda, não era diferente. Uma solução apenas militar para o problema do terrorismo fracassará.

A história da al-Qaeda

Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. Nesse momento, os EUA quiseram que nós, no Paquistão, organizássemos a resistência. Vocês americanos quiseram que nós lutássemos a jihad. Então, entre 1979 e 1989, treinamos e armamos os mujahedins, estrangeiros que vinham de todo o mundo islâmico, para lutarem no Afeganistão.

O Afeganistão tinha sua estabilidade. Havia um pacto entre todas as etnias, todos os clãs, para dar apoio ao rei. Os dez anos da invasão soviética desmontaram toda a estrutura que existia há tanto tempo. A elite do Afeganistão abandonou o país a sua própria sorte, mudaram-se para o exterior. Aí, em 1989, caiu o muro de Berlim, os soviéticos deixaram o Afeganistão desmontado e terminou a Guerra Fria. O fim da Guerra Fria deixou dividendos. Eles foram todos para a Europa. Países receberam investimentos, puderam se reestruturar.

O que Afeganistão e Paquistão, que lutaram contra a União Soviética por dez anos, ganharam? Nada. Fomos esquecidos por todos. ‘Agora é com vocês’, eles nos disseram.

E onde estavam os mujahedins que vieram lutar contra os soviéticos? Continuaram no mesmo lugar. Mudaram apenas seu foco: de contra os comunistas, viraram-se contra os EUA. Formaram a al-Qaeda. Após a tomada de poder do Talibã, no Afeganistão, 4 milhões de refugiados se bandearam para o Paquistão. O problema continuava sendo apenas nosso. A estrutura social que sustentava o Afeganistão havia sido arruinada pelos soviéticos e de quem era o problema? Do Paquistão. Então, em 1999, os mesmos radicais começaram a se estruturar na Caxemira, na Índia. E o Paquistão continua tendo que lidar com a situação toda.

Só quando aconteceu o Onze de Setembro é que o mundo decidiu prestar atenção no que estava ocorrendo. Ainda assim, os Estados Unidos já investiram 1 trilhão de dólares no Iraque. Quanto investiram no Paquistão desde então? 10 bilhões. O problema continua lá e tem o mesmo tamanho.

A. Q. Khan

A. Q. Khan, o pai da bomba paquistanesa, que vendeu seus segredos para a Coréia do Norte e Irã, está em prisão domiciliar. Não creio que tenha sido extremismo que o moveu. Ele não teria tido contato com os norte-coreanos, caso tivesse sido isso. Foi ganância. Não permitimos que fale com investigadores de outras nações porque, para nós, a questão é sensível. Há segredos envolvidos e ele é um homem muito popular nas ruas do Paquistão. Os EUA também têm sob sua custódia homens que venderam segredos nucleares para nações estrangeiras. Alguma vez os EUA cogitaram permitir que investigadores de outros países os interrogassem? Claro que não. Funciona da mesma maneira.

Relações com a Índia

Se houver provas de que paquistaneses estiveram envolvidos nos ataques a Mumbai, é evidente que devem ser punidos. Mas não culpe o governo por isso. A comunidade internacional não está contribuindo, como deveria, para abrandar as tensões na região da Caxemira. Algumas nações fazem uma campanha contra a ISI, serviço secreto paquistanês. A ISI funciona sob ordens do governo e de ninguém mais. Sua função é garantir a integridade do Paquistão. Suas técnicas são as mesmas técnicas de qualquer serviço secreto. O serviço secreto da Índia faz o mesmo mas ninguém lhes cobra mudança. A Índia é um grande país. É um país poderoso. Todos os países na região sabem disso – ninguém tem dúvidas. E a Índia pressiona. O que a Índia tem que compreender é que não pode sair por aí pressionando os menores. O Paquistão também é um grande país.

Richard Feynman

09/January/2009 - 07h23 - 30 Comentarios