Tem algo diferente acontecendo na América: uma eleição que começou repentinamente e um quê cedo demais. George H. Bush – o pai – anunciou que seria candidato para as eleições de 1988 em outubro de 1987; Bill Clinton disparou sua candidatura em outubro de 1991, para vencer em novembro de 1992.
Um ano entre o anúncio da disposição a se candidatar e o dia do voto não parece mais o bastante. Wesley Clark, o general que quis um dia ser candidato, optou pelo mesmo prazo padrão em 2003 e não conseguiu arrecadar quase nada em dinheiro.
Os motivos são de ordem prática. A primeira coisa que um candidato precisa mostrar para ser escolhido por seu partido é a capacidade de arrecadar grandes quantidades de dinheiro. Esta fortuna agora é ainda maior – e, quanto mais cedo começar, melhor. Ainda mais se os adversários começaram cedo assim.
Assim, dois anos antes de seu governo terminar em janeiro de 2009, George W. Bush já pode assistir à disputa pela sua cadeira.
Há outra novidade: a qualidade dos candidatos. Um é imensamente carismático – Barak Obama; outra é não só conhecida como provavelmente a mais experiente candidata ao cargo de presidente que jamais houve – Hillary Clinton; um terceiro, John McCain, é veterano de guerra do tipo que sofreu tortura nas mãos do vietcongue e é um dos mais hábeis senadores que há. Conte-se o sorriso fácil e populista de John Edwards e pode estar lá um quarto nome forte.
São três democratas, um republicano. Obama e McCain ainda podem se vangloriar de, o primeiro pelo lado democrata, o segundo pelo republicano, atraírem votos também dos eleitores adversários. Hillary é um jogo de xadrez arriscado, mas ao que parece pode tirar muita mulher de casa para votar. Se de fato conseguir, não tem uma candidatura de forma alguma inviável; a direita religiosa não votaria nela, mas não votaria em praticamente nenhum candidato democrata de qualquer forma.
Só que, neste início tão precoce da campanha, é a democracia que perde. Democracia não serve para estar em campanha constante, serve para governar. Se toda energia política está investida na sucessão presidencial, o sujeito sentado na Casa Branca some, desaparece, não consegue mais aprovar nada, sequer ser lembrado. Escoa pelo ralo a autoridade presidencial.
George W. Bush fez por onde, é verdade. E a vitória democrata nas eleições parlamentares do ano passado cantaram a pedra de que o próximo presidente será, provavelmente, democrata, o que acelera o jogo num dos partidos.
Então o jogo deixa uma incógnita: a precocidade, a anulação política do governo Bush, vem porque é o governo Bush com histórico tão lastimável ou é porque o jogo nos tempos da Internet mudou, mesmo, e de vez?
Se mudou de vez, os EUA saem perdendo. A eleição acaba de virar uma espécie de Big Brother onde a função de governo ficou no detalhe.