Dragão

14/February/2007 - 15h02 - 0 Comentarios

Astérix não conseguia livrar-se da imagem ?daquele nariz?. Shakespeare a descreve como a mais bonita e sedutora de todas as mulheres – e, que frustração, basta correr os olhos pelos jornais do dia, Cleópatra não era nada disso.

Aliás, pior.

Cleópatra, coitada, era feinha que só. A rainha do Egito – do Egito grego, entenda-se, a moça era grega – não tinha nada de Elizabeth Taylor, muito menos de Monica Bellucci.

O único testemunho de sua aparência mais ou menos contemporâneo vem de Plutarco.

Sua beleza, dizem, não era assim tanta que não pudesse ser comparada a ninguém. Mas sua presença, se você estivesse com ela, era irresistível. Seu charme, sua conversa fluida, uma personalidade capaz de prestar atenção em todos é que atraíam. Enfeitiçavam. Era um prazer ouvir apenas o som de sua voz.

Cleópatra era do tipo gente boa, pois. (Plutarco soube dela por um amigo de seu pai.)

Diplomacia de resultados

14/February/2007 - 00h01 - 113 Comentarios

Em até 60 dias, o governo da Coréia do Norte vai desativar sua maior usina nuclear, Yongbyon. Permitirá, também, que os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica voltem ao país.

É uma mudança e tanto de rumo, e um avanço surpreendente nas negociações que envolvem o país de King Jon-Il e cinco outros, Rússia, China, Japão, EUA e Coréia do Sul.

Os chineses vão fornecer petróleo a rodo para os norte-coreanos e os norte-americanos se comprometeram a descongelar dinheiro da ditadura espalhado pelo mundo. É a moeda de troca.

É só o começo. A Coréia do Norte nem discute a possibilidade de entregar seus estoques de plutônio e urânio. Mas já é um indício de que, às vezes, conversa traz resultados.

Igreja quebrada ao meio

13/February/2007 - 00h01 - 139 Comentarios

O arcebispo de Canterbury não é exatamente um papa da Igreja Anglicana, mas é o pároco mais respeitado, aquela figura a quem todos seus pares buscam quando há um dilema. Por tradição.

É uma Igreja curiosa: é cristã mas não é católica, tampouco protestante. Segue os ritos católicos, mas não tem poder central. E está rachada, profundamente rachada, como jamais esteve desde o dia em que sua majestade Henrique 8? decidiu fundá-la para poder se separar. (O papa, em Roma, se recusava a conceder permissão.)

Começou hoje o grande encontro dos líderes anglicanos na Tanzânia, África. Grupos de bispos estão concentrados em bunkers discutindo articulações. O problema dos párocos africanos, mais conservadores, é com a Igreja Episcopal.

Igreja Episcopal é a Anglicana nos EUA. Mesma coisa, só não leva no nome referência ao país de origem. Pinimba dos tempos da independência.

Em 2003, os Episcopais nomearam um arcebispo gay em Boston, uma das principais dioceses do país. Os africanos dizem que não aceitam menos do que a excomunhão de toda Igreja Episcopal.

Rowan Williams, arcebispo de Canterbury, pretende acomodar e pacificar as diferenças mantendo tudo como está. Não está claro, ainda, se conseguirá.

O método

11/February/2007 - 00h01 - 108 Comentarios

Em 1995, no Sudão, o doutor Ayman al-Zawahiri pôs dois adolescentes em julgamento por traição, sodomia e tentativa de assassinato num tribunal de xariá que ele mesmo criou. Um dos rapazes, Ahmed, tinha apenas 13 anos. Zawahiri, sócio no terror de Osama bin-Laden, os despiu, mostrou que já haviam chegado à puberdade e que, portanto, já eram adultos. Foram julgados culpados. Zawahiri fez com que fossem executados, filmou tudo incluindo as confissões e distribuiu cópias do filme para alertar possíveis traidores. Seus hóspedes sudaneses ficaram tão horrorizados que expulsaram Zawahiri e seu grupo do país.

Nada exonera Zawahiri, nem, como explica Lawrence Wright, o fato de que os garotos tinham de fato tentado assassiná-lo. Ahmed contou a espiões egípcios onde Zawahiri iria encontrá-lo para tratar sua malária; o outro, Musab, tentou por duas vezes plantar uma bomba. As tentativas de assassinato eram parte dos esforços brutais do governo egípcio para destruir Zawahiri e sua organização, a al-Jihad, após a al-Jihad chegar bem perto de assassinar o presidente egípcio, Hosni Mubarak. ?Brutal?, neste caso, é adjetivo merecido. O método usado pela inteligência egípcia para recrutar os rapazes – ambos eram filhos de membros seniores da al-Jihad, o pai de Musab mais tarde foi tesoureiro da al-Qaeda – foi drogá-los, estuprá-los, mostrar-lhes as fotos da violência e chantageá-los. Os rapazes estavam numa sinuca de bico. As fotos levariam a sua execução pela al-Jihad assim como a traição que seguiu.

The looming towers: al-Qaeda and the road to 9/11 – A aparição das torres: al-Qaeda e o caminho até o Onze de setembro –, livro do jornalista Lawrence Wright, obra definitiva que conta a história da al-Qaeda, está à venda na Inglaterra. No Brasil, ainda não chegou.

Adivinhe quem vem para o jantar

09/February/2007 - 00h01 - 188 Comentarios

De onde não se espera nada, às vezes, vem algo. Fatah e Hamas assinaram um acordo de paz, o casamento do presidente Mahmoud Abbas e do premiê Ismail Haniyeh teve por testemunha o rei da Jordânia, Abdullah.

Juraram a Deus e assinaram o termo na cidade sagrada de Meca.

Pelo acordo, os dois grupos majoritários no parlamento palestino conseguirão, enfim, dar conjunto a um gabinete – e, assim, haverá governo. Haniyeh também se comprometeu a reconhecer – e a obedecer – todos os acordos de paz assinados quando o Fatah estava no poder.

A paz entre os dois e a formação de um governo conjunto não quer dizer que o boicote por parte de Israel terminará. A transferência de recursos para a Autoridade Palestina volta no momento em que o novo governo reconhecer o direito de Israel à existência.

O que o acordo entre Hamas e Fatah diz é que a luta do governo será pela implantação de um país que reúne Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Não menciona as terras israelenses.

Mas não há palavra sequer sobre reconhecer Israel.

Os paranóicos têm seus inimigos

08/February/2007 - 00h01 - 52 Comentarios

O mundo é como ele é – e, tal como é, é estranho à beça. Veja-se a briga entre o pequeno site Online Marxist Archive e – pasme – o governo chinês.

Parece irônico para as pessoas que não sabem o que se passa na China. O dito governo ?comunista? da China nada tem a ver com comunismo. Já caminha em direção ao capitalismo faz muito tempo.

As palavras, assim tão generosas, são de Brian Basgen, que trabalha no arquivo desde 1990. Lá, aparecem em traduções para várias línguas, os escritos dos principais pensadores comunistas, começando por Karl Marx e seu financiador, Friederich Engels.

Hackers estão atacando o trecho em chinês do Arquivo Marxista. Os ataques vêm da China para impedir o acesso.

Os fundadores do Marxist Archive têm certeza de que é coisa do governo.

dica do André Fucs

O papa é pop?

07/February/2007 - 00h01 - 231 Comentarios

Há muito isto não acontecia: mas os discursos do papa são comentados. Acontece por conta da polêmica – caso das críticas ao Islã. Acontece quando fala de amor – sua primeira encíclica; se abre um grupo de discussão a respeito de uso de camisinha, discute-se o que Bento 16 tem a dizer.

Não é a mera repercussão do que pensa o Papa. Isto sempre houve.

No caso de Bento 16, os argumentos do papa são discutidos pelos principais editorialistas europeus, principalmente na sua Alemanha natal onde a norma sempre foi, em grande parte, a imprensa ignorar a existência de religião como se estivesse (talvez esteja) um quê abaixo da razão.

A tese, não sem fundamentos, é da revista alemã Der Spiegel: Joseph Ratzinger é o papa que os intelectuais gostam.

E isto é uma surpresa – trata-se de um reacionário ao pé da letra.

Ele pôs fim à Teologia da Libertação. Ele despreza rock e música pop mesmo que acompanhe alguma reza. Ele não gosta de missas ecumênica e recusa a quem se divorciou a comunhão. Ele fraterniza com os discípulos anti-modernistas [do cardeal Henri] Lefebvre, com os anti-aborto, mas padres gays são banidos dos seminários. E, para terminar, todo seu poder é expresso na voz ligeiramente afeminada de um homem idoso: ?Cari fratelli e sorelle…?

Então o que é, em Bento 16, que tanto atrai intelectuais? Primeiro, ele respeita idéias, respeita pensamento e produção acadêmica. Antes de tudo, ele próprio é um acadêmico. Então, se acaso é o homofóbico que se veste carregado de jóias, também é um homem capaz de conversar com ateus. Bento 16, diferentemente de seu antecessor, não fala de fé como um processo místico. Para ele é um processo racional. Falar de razão o põe no mesmo campo dos homens de idéias. Argumentos, eles respeitam mesmo que discordem.

Mas há algo além: a principal questão do papa é o relativismo que ele acusa existir na sociedade.

Na Era Pós-Moderna, tudo estava mais ou menos ok. Os valores eram relativos e acreditávamos que isto era bom. Em setembro de 2001, esta crença foi questionada. Não havia mais espaço para ironia.

Como uma verdade pode existir numa sociedade pluralista? Joseph Ratzinger ponderou a respeito desta pergunta toda sua vida. E ela jamais foi tão relevante quanto hoje.

Que não se tenha dúvida: o discurso é reacionário, profundamente conservador. A ?relativização? é uma busca de tolerância. Numa troca de cartas, certa vez, o cardeal Carlo Maria Martini perguntou a Umberto Eco como era possível ter ética sem uma crença nalgo mais profundo.

Eco respondeu que há um quê em nós humanos que dita esta ética universal. Todos sentimos dor, então infligir dor é antiético. Todos andamos – então restringir o caminho que escolhemos seguir é antiético. Seguindo seu raciocínio àquilo que é mais básico no Homem é possível chegar a valores universais que nos sirvam de mapa. Que expliquem o que é tolerável numa cultura diferente – e o que não é tolerável.

Se resolve o problema?

Evidentemente que não. Não resolve o aborto, por exemplo, enquanto não chegarmos – se é que é possível – a uma convenção universal a respeito do momento do início da vida.

Ratzinger defende seu ponto de vista e é um papa relevante: fala de questões cruciais do tempo. Fala com autoridade, com honestidade intelectual. O que não quer dizer, de forma alguma, que esteja certo.

Revolução cultural

06/February/2007 - 00h01 - 62 Comentarios

Dentro do Partido, o debate sobre se um enfoque diferente não deveria ser tomado para lidar com religião está crescendo. Não quer dizer que pretendam ser mais liberais a respeito de atividades anti-governamentais. Mas pode ser que queiram descer o tom da retórica atéia do Partido e sugerir maior apoio a crenças que têm raízes históricas profundas entre a etnia majoritária, Han. O Partido tem noção de que sua própria ideologia é pouco atraente para a maior parte das pessoas comuns. Já que a maioria é levada a estas crenças, talvez seja melhor ganhar apoio da opinião pública dando força às crenças do que apenas tolerando-as ou mesmo perseguindo seitas.

Na China, são cinco as religiões permitidas pelo Estado. Por ordem de quem tem mais seguidores: Budismo, Islã, Taoísmo, Protestantismo e Catolicismo – consideram os dois braços cristãos como religiões distintas. As outras, principalmente as muitas seitas ancestrais e braços diversos das grandes, são proibidas.

Agora, há sinais de mudança.

Hora de ir de nuclear

04/February/2007 - 23h07 - 133 Comentarios

É hora de acabar o romantismo verde.

A frase tem impacto – e mais ainda, por vir de um dos cientistas com maior aura de romântico. É James Lovelock, o homem que provou que os cloro-fluorcarnonetos estavam consumindo a camada de ozônio e que anda mais conhecido por sua Teoria Gaia.

(Para Lovelock, a Terra funciona como um grande organismo que ele chama de Gaia.)

O velho cientista, de 87 anos, acha que cinco sextos da humanidade vão desaparecer no século 21 por conta do Aquecimento Global. Isto quer dizer que sobrarão 1 bilhão de nós.

Lembra Buck Rogers, o personagem de ficção científica, um astronauta que se vê congelado na atmosfera e, quando volta para a Terra do futuro, vê de um lado uma civilização avançada que vive dentro de bolhas, do outro humanos disformes vítimas da radiação dum holocausto nuclear.

É um cenário Buck Rogers ao contrário: o fim do ‘romantismo verde’ que Lovelock propõe é outro. Energia solar não está pronta, álcool não resolve tudo ainda, vento não se aproveita tanto quanto é possível. Os EUA alimentam suas cidades com termoelétricas, queimando carvão, gás e petróleo. Tem que acabar.

Energia nuclear é a solução que existe agora. É tecnologia pronta, segura como jamais foi. E é o velho romântico quem está cobrando este caminho.

É com a gente

03/February/2007 - 19h40 - 105 Comentarios

Terminou hoje em Paris a reunião do IPCC, Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas que reúne 2.500 cientistas de 130 países. Foi o dia dos políticos, com direito a discurso do presidente francês Jacques Chirac no encerramento. Importante foi ontem, quando saiu o quarto relatório do IPCC.

Está em todos os sites, em todos os jornais, estará em todas as revistas: o aquecimento global é pior do que parecia, é irreversível, do ponto de vista científico não há dúvidas de que o responsável é o homem.

Estancar o uso de combustíveis fósseis é imprescindível.

Mas ali, não tão discreto para quem está disposto a ler, está uma notícia um quê desagradável do ponto de vista político.

O Brasil é um dos principais responsáveis pelo aquecimento global.

Sim, EUA, China, Europa Ocidental são mesmo os campeões de queima de combustível e, segundo o relatório, 80% do excesso de carbono na atmosfera vem de petróleo e derivados. O resto é com as queimas de florestas – e, destas, a Amazônia é o pior problema.

Estes ‘80%’, informa o Estadão, estão pró-forma no relatório. Foi lobby brasileiro que jogou para baixo o impacto das queimadas. Faz parte do jogo. Importante, no entanto, é, na hora de criticar George W. e seus pares, da próxima vez, lembrar que é conosco aqui também.

Um rosto na multidão

02/February/2007 - 00h01 - 110 Comentarios

Na terça-feira, o presidente Bush apareceu de surpresa no Restaurante Sterling Family, uma pequena lanchonete em Peoria, Illinois. É um hábito contumaz deste governo e dos anteriores: um presidente que aparece repentinamente entre americanos comuns que, não importa o que pensem daquele político em particular, em geral se portam emocionados e impressionados ao ver o líder do mundo livre a um ou dois metros deles.

Mas, na terça, a surpresa ficou com Bush. Ele estava na cidade para fazer um discurso sobre a economia quando entrou na lanchonete, onde foi recebido com o que só pode ser descrito como uma recepção sedada. Ninguém se apressou para apertar-lhe a mão. Não houve nenhuma exclamação ou grito de emoção típicos deste tipo de visita. Há seis meses, uma mulher quase desmaiou quando Bush apareceu numa visita surpresa a uma loja de donuts no lendário restaurante de Lou Mitchell, em Chicago. Esta semana em Peoria, muitos dos clientes acharam suas panquecas mais interessantes. Não fosse o clique das câmeras e o barulho dos pratos vindos da cozinha, o silêncio seria ensurdecedor.

?Desculpe interrompê-las?, disse Bush para um grupo de mulheres que estava à mesa com crianças. ?Como está a comida?? Conforme ele assinava um autógrafo ou outro e apertava mãos, um homem no balcão acendeu seu cigarro e pediu outro café. Outra mulher, observando Bush e seus acompanhantes, suspirou profundo e voltou a seu jornal. Lia os obituários. ?Desculpe interromper seu café da manhã?, disse um assessor da Casa Branca a ela. ?Sem problemas?, ela respondeu de forma pouco amistosa. ?No fim, a vida continua.?

Às vezes, é difícil ser George W. Bush.

Mudança de postura

30/January/2007 - 17h21 - 76 Comentarios

O governo Bush parece ter-se convencido de que o risco de os EUA ou de norte-americanos serem processados [no Tribunal Criminal Internacional] é menor do que temia originalmente. Gente do governo ficou bem impressionada com os argumentos da Corte para rejeitar as centenas de alegações que recebeu a respeito do papel dos norte-americanos no Iraque – incluindo sugestões de que seriam culpados de agressão ou mesmo genocídio.

Luís Moreno-Ocampo, o procurador-chefe do Tribunal, argumentou assim: primeiro, a guerra envolve países (Iraque e EUA) que não são membros e, portanto, que estão fora de sua jurisdição a não ser que o Conselho de Segurança da ONU (no qual os EUA têm veto) decida o contrário. Segundo, a Corte só intervém quando o país responsável não o faz. Os EUA já puseram alguns de seus próprios soldados na Justiça por crimes cometidos no Iraque.

Terceiro, o crime de ?agressão? não está bem definido e, portanto, não é aplicável. Quarto, Moreno-Ocampo não encontrou qualquer indício que substancie a acusação de genocídio definida, pelos estatutos da Corte, como ?a intenção de destruir, parcial ou totalmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso?. Também não encontrou de crime contra a humanidade, ?um ataque sistemático e continuado contra uma população civil?. Embora ele tenha encontrado indícios de casos isolados de estupro, tratamento desumano e ?assassinato desnecessário? de civis, não são casos contumazes o suficiente para caracterizar como algo que não pontuais.

O resultado é que o Tribunal Criminal Internacional, diferentemente do que acontecia há alguns anos, vem sendo observado com simpatia pelos EUA. Há gente – o senador John McCain, candidato a candidato à presidência pelo Partido Republicano, é um deles – que gostaria de ver seu país assinando o tratado.

Talvez não aconteça tão cedo, mas a postura mudou.

Que Irã é este?

29/January/2007 - 00h01 - 388 Comentarios

Há uma excelente reportagem na revista dominical do New York Times analisando, pela política interna iraniana, a figura do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

As grandes perguntas são: ele tem algum tipo de apoio do aiatolá supremo Ali Khamenei? Se não tem, por que pode avançar tanto?

Ahmadinejad foi eleito presidente por conta de dois fatores. Atraiu uma quantidade muito grande de votos da periferia pobre e conservadora de Teerã, cidade da qual foi prefeito, e contou com um boicote por parte da classe média mais arejada, que recusou-se a votar nas eleições em busca de abertura.

Seu grupo é novo na política iraniana. Composto de militares e paramilitares, com o apoio do clero extremista liderado por Mesbah-Yazdi, Ahmadinejad comanda uma trupe que, ironicamente, é conhecida no Irã por ‘neoconservadores’.

Nunca nenhum presidente iraniano trocou tanta gente no governo quanto ele, ao entrar: 20.000 cargos ganharam novos donos. Quando vieram as eleições de 2006, ao invés de aliar-se aos conservadores tradicionais, liderados pelo aiatolá Khamenei, Ahmadinejad achou por bem defender seu próprio time de candidatos. Queria que novos clérigos orientados por Mesbah-Yazdi, que defende uma teocracia pura, tomassem o comando do Conselho de Guardiões.

Mesbah é um arqui-conservador. Em Qom, o seminário de onde saiu o aiatolá Khomeini, ele é atualmente o reitor. Defende a franca censura do discurso e considera que execuções públicas são parte da essência do islã xiita. Como Mesbah soa como a palavra em persa para crocodilo, muitos o chamam de aiatolá crocodilo. Uma frase sua: “Não importa o que pensa o povo, são ovelhas ignorantes. Islã é o governo de Deus, não do povo.”

Os cientistas políticos iranianos garantem não compreender o sentido da união política entre Ahmadinejad e um grupo do clero visto como radical por boa parte da sociedade.

Então, nas eleições de 2006, libeirais e conservadores se uniram em torno da candidatura do ex-presidente Akbar Rafsanjani para o Conselho de Guardiões. Ahmadinejad sofreu uma derrota. Na reportagem de Laura Secor, há um trecho que bem descreve o dilema vivido pelos iranianos:

Os debates entre eleitores comuns vão para o centro da fraqueza institucional do Estado iraniano. Fundada com base em duas idéias conflitantes — a soberania do povo e o governo inspirado por Deus do clero –, a República Islâmica do Irã sofre uma crise de legitimidade. Nada forçou mais esta crise do que o movimento reformista apesar, ou até por conta de seu temperamento cauteloso e legalista. Durante a presidência de Khatami, os iranianos tiveram de enfrentar duas questões inevitáveis: para que serve um líder supremo numa democracia? Para que servem eleições numa teocracia? O surgimento de Ahmadinejad força as mesmas questões vindo pelo outro lado. Quão longe os conservadores podem ir com seu autoritarismo? E se não pode ir tão longe quanto querem, por que não?

Em casa, forçando a mão diplomática no exterior, incapaz de cumprir as promessas para a economia internamente, Mahmoud Ahmadinejad não goza do apoio popular que já teve. Mas isto não quer dizer que, no comando do governo, não continue sendo um homem perigoso que está mudando profundamente a política interna de todo o Oriente Médio.

E Oriente e Ocidente se estranharam

28/January/2007 - 00h01 - 83 Comentarios

Professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Deepak Lal faz uma defesa do capitalismo globalizado contra seus inimigos. A parte histórica de seu argumento é interessante. Ele vê no nascimento do capitalismo o momento em que as culturas do ocidente e do oriente se separam profundamente:

A grande divergência surgiu numa decisão legal do século 11 instigada pelo papa Gregório 7? que, em 1075, pôs a Igreja acima do Estado criando a Igreja-Estado e toda infra-estrutura legal e administrativa necessária para uma economia de mercado. Muitas das instituições específicas do capitalismo são anteriores a esta revolução papal mas elas eram instáveis e frequentemente baseadas na confiança entre famílias de mercadores. A revolução papal do século 11, ao criar a Igreja-Estado, providenciou um sistema cujo alcance, diferentemente dos pequenos Estados políticos, incluía todo o Ocidente cristão. Permitiu aos novidadeiros e aos capitalistas dispostos ao risco que buscassem negócios num espaço maior e mesmo com estranhos, iniciando o sistema econômico que mudou o mundo.

A revolução papal que mudou as crenças ?materiais? do Ocidente foi precedida e precipitada por outra revolução, do século 6, do papa Gregório o Grande, que mudou as crenças ?cosmológicas? do ocidente, levando o homem de sua vida comunal típica de toda Eurásia para o individualismo, particularmente no domínio doméstico de casamento e sexo. Ao promover casamentos baseados no sentimento efêmero mas universal do amor, ele foi contra o padrão comum na Eurásia de casamentos arranjados, sem o qual ficavam ameaçadas as famílias agrícolas. Para controlar a instabilidade nascida do individualismo no domínio doméstico, a Igreja Cristã criou uma estupenda cultura da culpa, desmontada apenas pelas revoluções de Darwin e Freud.

Estas duas revoluções papais criaram um novo mundo. A mudança nas crenças ?cosmológicas? que promoveram o individualismo não são necessárias para a mudança nas crenças ?materiais? que promoveram o capitalismo. É esta segunda que a globalização está espalhando pelo mundo, ao exportar a infra-estrutura institucional da economia de mercado criada pelo papa Gregório 7?.

Assim posto: proletários de todo o mundo, na hora de culpar alguém, saibam pois, é com Gregório 7?.

Quando presidentes mentem

27/January/2007 - 00h01 - 81 Comentarios

Políticos mentem – presidentes, mais ainda.

Eric Alterman, jornalista político norte-americano, é autor do livro When Presidents lie – Quando presidente mentem – e, na edição da Atlantic deste mês, Carl Cannon o cita.

Sua tese é de que as mentiras contadas por Franklin Roosevelt durante a Segunda Guerra, especificamente aquelas a respeito das promessas que fez a Stálin em Ialta, ajudaram a botar em marcha a Guerra Fria; as expectativas pouco realistas do Ocidente a respeito do Leste Europeu alimentaram as suspeitas soviéticas. Estas suspeitas, ele argumenta, foram aumentadas por Dwight Eisenhower quando negou publicamente o sobrevôo do avião U2 sobre a União Soviética. A perda de credibilidade norte-americana ajudou a fomentar a crise dos mísseis cubanos. Por sua conta, John Kennedy e seu time na Casa Branca, ao negar um compromisso norte-americano na região, em 1962, ajudaram a produzir o Vietnã. Sempre preocupado com seu rival político Robert Kennedy, Lyndon Johnson manteve o discurso mítico de luta implacável contra o comunismo quando John Kennedy já havia trocado mísseis nucleares da OTAN na Turquia pelos soviéticos em Cuba.

Uma mentira após a outra ajuda numa história de incompreensões e desentendimentos pioram um pouco o mundo. Mas mentiras às vezes fazem sentido. Enquanto Franklin Roosevelt e seu vice, Harry Truman, mentiam a respeito da saúde do presidente, alimentavam o ideal de um governo forte e sadio em sua luta contra o nazismo na Europa.

George W. Bush é um tipo particular, sugere o jornalista da Atlantic. Que ele mentiu a respeito das armas de destruição em massa no Iraque, não há dúvida. Que ele mentiu a respeito de quão fácil seria o pós-guerra é igualmente inegável. A questão real é: em quanto Bush acreditava em suas mentiras? De certa forma, sua aparente convicção de que estava certo, sua capacidade de se iludir, é não apenas seu pior defeito mas, num presidente da república, num presidente de um país assim tão poderoso, um defeito perigosíssimo.

Se mentiras conscientes, às vezes cuidadosamente calculadas politicamente, são capazes de gerar conseqüências graves, o que dirá mentiras convictas de razão do tipo que não calculam a possibilidade do erro.

Um mestre que se vai

26/January/2007 - 00h01 - 41 Comentarios

No início desta semana, morreu um dos heróis cá deste blogueiro.

Por três meses vivi em Luanda, no Hotel Tívoli. De minha janela, tinha uma vista para a baía e para o porto. Nas águas ficavam vários cargueiros sob bandeiras européias. Seus capitães mantinham contato por rádio com a Europa e tinham melhor idéia do que estava acontecendo em Angola do que nós – estávamos prisioneiros de uma cidade sitiada. Quando circulou pelo mundo a notícia de que a batalha de Luanda se aproximava, os navios foram ao mar até o limite do horizonte. A última esperança de fuga se foi com eles, o escape por terra impossível, e os rumores davam conta de que o inimigo iria bombardear e imobilizar o aeroporto. Mais tarde descobrimos que a data do ataque a Luanda havia mudado e a frota voltou à baía na espera continuada por seus carregamentos de algodão e de café.

Ryszard Kapuściński tinha 74 anos, era polonês, um dos grandes mestres do jornalismo literário. Viajou pelo mundo todo escrevendo para a agência de notícias estatal polonesa. Seus livros eram livros de aventura, passavam ao largo do que muitos chamariam de reportagem. Por isso mesmo, eram reportagens melhores. Misturava suas impressões pessoais, sempre muito precisas, com fatos. Os eventos, para ele, tinham motivos. E se o tom era de aventura, era porque as revoluções que cobriu eram mesmo aventuras; mas por trás desta aventura estava uma explicação do porquê, do como, do onde. Suas reportagens explicavam as coisas do mundo.

O trecho acima é de meu Kapuściński favorito, Another day of life – Um outro dia de vida –, ainda não traduzido no Brasil.

Em seu blog, Daniel Piza compara o mestre polonês a George Orwell nesta tentativa de explicar o mundo colonial que desmoronava. Prefiro outra comparação: Joseph Conrad. A comparação com Orwell é precisa no sentido de que eram ambos jornalistas preocupados com o mundo colonial; Conrad escrevia ficção. Mas era também polonês – o que não quer dizer nada, provavelmente – mas escrevia sobre as colônias britânicas com sensibilidade ímpar, com um olhar atento para detalhes.

Como Kapuściński: nesta passagem, que abre o livro, o leitor é jogado num tempo que passa devagar, o da espera de um ataque, já logo convidado à angústia, à vontade de virar a página. Escrevia bem, o cara.

No Open Democracy, Neal Ascherson pinça outro trecho, do livro sobre a queda do xá Reza Pahlavi, no Irã.

Há uma passagem reveladora no fim de Shah of Shahs – Xá dos xás – na qual ele descreve o projeto da ?Grande civilização? do governo como um implante rejeitado. ?A rejeição … quando começa, o processo é irreversível. Tudo o que basta é que a sociedade aceite a convicção de que a forma imposta de sociedade fará mais mal do que bem. Logo o descontentamento se manifesta … não haverá paz enquanto o corpo alienígena imposto não foi expulso … E, no entanto, havia intenções nobres e ideais sinceros na Grande civilização. Mas as pessoas as viam como caricaturas.? Este é o veredito de Ryszard Kapuściński para o século 20, para o 21. Os grandes credos totalitários passaram mas o contínuo implante de formas sociais alienígenas continua ao redor.

Muitas vezes há aquela vontade de explicar uma revolução, um levante, uma deposição, um momento qualquer dramático da história através de um encadeamento lógico. Nós jornalistas somos craques da arte: mas não é como se dá. Há sutilezas, apenas gente se comportando emocional e racionalmente ao mesmo tempo até que algo acontece. Kapuściński tratava melhor quando tratava disto, destes momentos dramáticos da história. E tinha a qualidade suprema de buscar explicá-los na sutileza, não pela lógica.

Há muito a aprender sobre política externa – e sobre gente – em seus livros.

Na cama com estranhos

25/January/2007 - 00h01 - 79 Comentarios

A guerra, diz um velho ditado britânico, faz estranhos parceiros em cama. E os prezados leitores por certo não imaginariam, assim tão juntinhos, sauditas e israelenses. Mas os esforços iranianos no incentivo de Hezbollah, Hamas e grupos xiitas iraquianos parece estar incentivando a nova – e mais que surreal – aliança.

Entre os passos que os sauditas parecem dispostos a dar, de acordo com [o vice-diretor do Instituto de Washington de Políticas para o Oriente Próximo Patrick] Clawson, está o financiamento significativo do presidente palestino Mahmoud Abbas, que enfrenta um levante de violência intra-palestina incentivada pelo Hamas, que tem os apoios de Síria e Irã. Clawson cita a referência positiva feita pelo premiê israelense Ehud Olmert a respeito do papel da Arábia Saudita na promoção de paz. ?Foi incrivelmente pouco usual para um premiê israelense citar estes três países como colaboradores? ?– Arábia Saudita, Egito e Síria. ?Não foi por acidente. Foram palavras cuidadosamente escolhidas.? A imprensa israelense chegou a levantar a hipótese de um raríssimo encontro reunindo líderes israelenses e sauditas.

A emergente aliança Washington-Saudita-Sunita-Israelense para se defender do Irã ?faz todo sentido?, diz Kenneth Katzman, um veterano analista de Irã e Iraque no Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA. ?É algo que vem de interesses comuns de Israel e Arábia Saudita e outros Estados do Golfo preocupados com o triunfalismo iraniano. Os sauditas estão encarando o Irã no Iraque e nos outros países do Golfo. Israel está encarando o Hezbollah em sua fronteira com o Líbano. Os sauditas estão interessados em seus velhos aliados no Líbano, a família Hariri.?

O Líbano, pobre Líbano, disputado por sustentados pelo Irã e sustentados pela Síria e sustentados pela Arábia Saudita, às vezes bombardeado pelo vizinho ao sul.

Bater com a cabeça na parede por conta própria é mais negócio.

Por um voto nos EUA

24/January/2007 - 21h02 - 48 Comentarios

Gente, acho que há um quê de preconceito nos comentários de muitos no post abaixo sobre a candidatura Obama.

Fosse um post sobre as eleições francesas, como já houve, ninguém diria ‘de que nos interessa?’, ‘o que muda para nós?’

Se interessar pelo que acontece no estrangeiro é se interessar por todo o estrangeiro e compreender que o mundo é um só.

Além do quê, perdoem, interessa sim. Se entra outro neoconservador, vai que dá de invadir o Irã e dispara de vez uma crise energética no mundo que pode arrasar com os empregos por aqui? Ou, então, que pode alavancar o valor da Petrobras e nos enriquecer a todos?

Ou nem precisa afetar diretamente. E se o Irã decide lançar um artefato atômico em Israel, não doerá em todos nós? E se Israel decidir lançar um artefato atômico no Irã – não será a mesma dor? Pois mesmo que não haja dor, quem ocupa a cabeceira no Salão Oval, na Casa Branca, terá de reagir. E desta reação depende um bocado da estabilidade mundial.

Depende de quem é presidente dos EUA o investimento pesado, ou não, em pesquisas com células-tronco. Ninguém investe mais do que os EUA neste tipo de pesquisa científica e se o governo corta os gastos por motivos ideológicos, certos trabalhos não avançam. Não interessa a nós brasileiros? A muito paraplégico interessa sim, e muito. É a possibilidade futura de andar ou não. A futuros doentes de câncer, basta estarmos vivos para estar nesta lista, pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Se um presidente norte-americano decidir pôr a máquina do país na busca de alternativas para combustíveis fósseis, o planeta agradece profundamente.

Então tupinambá acha que é deslumbre se preocupar com a política em Washington? Se bobear, não há eleição mais importante em curso. E este Weblog, ainda que precocemente, pretende acompanhá-la.

Enquanto isso, em Davos

24/January/2007 - 00h01 - 83 Comentarios

O tema deste ano no Fórum Econômico Mundial – ?a equação da mudança de poder? – confirma a idéia que a elite global, que se encontra em Davos, Suíça, que o poder está sendo drenado dos EUA e espalhado em centros múltiplos, em países como Brasil e China, que ultrapassaram a categoria de mercados ?emergentes? para se estabelecerem como jogadores importantes no cenário mundial.

O tema da conferência também reconhece o pânico dos círculos tradicionais de negócios conforme o poder muda do produtor para o consumidor graças à Internet e à revolução da distribuição digital.

A opinião é de Nathan Gardels, editor do New Perspectives Quarterly, editado pelo Los Angeles Times. Ele freqüenta Davos desde que ninguém sabia do evento.

Para Gardels, o Fórum não é exatamente um encontro de conspiradores ou gatunos; é mais como um barômetro. Tendências, maneiras de ver o mundo vão surgindo em todos os cantos. Em Davos, nada nasce. Mas idéias que já estavam flutuando se consolidam e ganham aceitação.

Em outras palavras: o que se vê em Davos é mais ou menos um retrato do mundo naquele dado momento conforme visto por seus líderes de governo, de negócios, de imprensa etc. É o que os do poder pensam.

O tema do ano de uma mudança no balanço de poder completa um ciclo iniciado em 2000, no ápice do triunfalismo norte-americano, antes da queda das ponto com e do Onze de Setembro. Pela primeira vez em sua história, um presidente dos EUA, Bill Clinton, falou ao fórum. Ele veio a Davos com todo seu gabinete em helicópteros que rasgaram barulhentos o vale de sky em geral tão pacífico. Na época, escrevi que ?a presença de Clinton, paradoxalmente, simboliza o triunfo norte-americano no desafio que o Fórum foi criado para combater?. Era paradoxal porque este encontro anual neste local montanha acima a duas horas de Zurique foi organizado pela primeira vez há trinta anos com o nome de ?Seminário Europeu de Gerenciamento?. O objetivo era reunir líderes empresariais europeus para que discutissem e descobrissem um modo de responder àquilo que o autor francês Jean-Jacques Servan Schreiber chamou de ?o desafio norte-americano?.

Em 2000, a globalização era evidentemente uma vitória norte-americana. Era algo que parecia, e os franceses a chamavam assim, uma americanização. Não mais, tudo mudou. A globalização, hoje, é de quem souber dominá-la e fazer com que se dobre a seus interesses.

O Big Brother Casa Branca

23/January/2007 - 00h01 - 59 Comentarios

Tem algo diferente acontecendo na América: uma eleição que começou repentinamente e um quê cedo demais. George H. Bush – o pai – anunciou que seria candidato para as eleições de 1988 em outubro de 1987; Bill Clinton disparou sua candidatura em outubro de 1991, para vencer em novembro de 1992.

Um ano entre o anúncio da disposição a se candidatar e o dia do voto não parece mais o bastante. Wesley Clark, o general que quis um dia ser candidato, optou pelo mesmo prazo padrão em 2003 e não conseguiu arrecadar quase nada em dinheiro.

Os motivos são de ordem prática. A primeira coisa que um candidato precisa mostrar para ser escolhido por seu partido é a capacidade de arrecadar grandes quantidades de dinheiro. Esta fortuna agora é ainda maior – e, quanto mais cedo começar, melhor. Ainda mais se os adversários começaram cedo assim.

Assim, dois anos antes de seu governo terminar em janeiro de 2009, George W. Bush já pode assistir à disputa pela sua cadeira.

Há outra novidade: a qualidade dos candidatos. Um é imensamente carismático – Barak Obama; outra é não só conhecida como provavelmente a mais experiente candidata ao cargo de presidente que jamais houve – Hillary Clinton; um terceiro, John McCain, é veterano de guerra do tipo que sofreu tortura nas mãos do vietcongue e é um dos mais hábeis senadores que há. Conte-se o sorriso fácil e populista de John Edwards e pode estar lá um quarto nome forte.

São três democratas, um republicano. Obama e McCain ainda podem se vangloriar de, o primeiro pelo lado democrata, o segundo pelo republicano, atraírem votos também dos eleitores adversários. Hillary é um jogo de xadrez arriscado, mas ao que parece pode tirar muita mulher de casa para votar. Se de fato conseguir, não tem uma candidatura de forma alguma inviável; a direita religiosa não votaria nela, mas não votaria em praticamente nenhum candidato democrata de qualquer forma.

Só que, neste início tão precoce da campanha, é a democracia que perde. Democracia não serve para estar em campanha constante, serve para governar. Se toda energia política está investida na sucessão presidencial, o sujeito sentado na Casa Branca some, desaparece, não consegue mais aprovar nada, sequer ser lembrado. Escoa pelo ralo a autoridade presidencial.

George W. Bush fez por onde, é verdade. E a vitória democrata nas eleições parlamentares do ano passado cantaram a pedra de que o próximo presidente será, provavelmente, democrata, o que acelera o jogo num dos partidos.

Então o jogo deixa uma incógnita: a precocidade, a anulação política do governo Bush, vem porque é o governo Bush com histórico tão lastimável ou é porque o jogo nos tempos da Internet mudou, mesmo, e de vez?

Se mudou de vez, os EUA saem perdendo. A eleição acaba de virar uma espécie de Big Brother onde a função de governo ficou no detalhe.