Tudo publicado sobre 'El Camino de Santiago'
Nenhuma cultura vem à toa, do nada. Nenhuma cultura substitui a outra do zero. O transformar da Ibéria bárbara em católica não poderia ser diferente – e Santiago é um ponto chave para compreender o processo.
Porque Santiago, na Espanha, ou em algumas regiões da França e das ilhas britânicas, tem ares de um deus por conta própria se prestamos atenção nas lendas. Aí vai uma questão delicada: a religião Católica é politeísta? Os teólogos modernos afirmam que não convictos – e o atual papa é tido como um teólogo da melhor qualidade. Isto é mais ou menos como dizer um excelente filósofo.
Mas o papa anterior costumava falar mais de Santa Maria do que das Pessoas da Trindade. (Nada que um católico vá confirmar.)
A Igreja tem problemas suficientes. Cá na Espanha, é difícil encontrar alguém com menos de 45 que não olhe para uma igreja e não lembre de Franco. Se o ditador ajudou na sustentação do catolicismo, envenenou-o para as gerações futuras. Ir à missa era obrigação patriótica para muita gente quando criança. Rejeitar a Igreja é um pouco como lembrar Guernica.
A Igreja sempre teve problemas com esta impressão de politeísmo – e destes problemas não apenas nasceu a Reforma como sustentou-se o judaísmo e criou-se o Islã. Protestantes, judeus e muçulmanos são profundamente monoteístas. Para os católicos, se já é difícil explicar a Santíssima Trindade, quanto mais o panteão de santos. Porque o povo católico profundo, do interior, quando quer coisa específica, jamais reza para Deus particularmente mas para santos. Há um santo para cada coisa, como havia deuses no Olimpo. Um tem o dom de casamenteiro, outro de encontrar coisas perdidas – pergunte para quê e há um santo para quem rezar.
O Yaacov original era um pescador. Nas lendas mais antigas da região, seja nas ilhas britânicas ou na costa norte de França e Espanha, ele aparece aqui num barco de pedra, ali num barco desgovernado sem velas, acolá salvando pescadores de uma grande tempestade. Eram as aflições nítidas de pescadores. Saint Jack, Jacques ou Santiago. Os celtas eram pescadores e Yaacov, o apóstolo do rev Yehoshua bar Yossef, bem se adequava a eles.
Muitos reis guerreiros, diz a tradição, fizeram o Camino. Carlos Magno, El Cid. E, dizem as lendas, Santiago tomou parte em algumas batalhas. Aparecia dos céus armado para vencer os inimigos. Se são lendas que não se repetem mais nas ruas, foram guardadas pelo relato de folcloristas. Não eram raras até um quê depois da Idade Média. (No Rio de Janeiro, já na década de 1560, há relatos de como São Sebastião desceu das nuvens com sua espada de fogo para defender os portugueses de um ataque tupi pouco antes da fundação da cidade.)
A diferença é que Santiago defendeu muito os espanhóis – e por toda Idade Média. Sempre com armadura e espada em punho, uma figura bem distinta do pescador pacato com a missão de espalhar a Palavra. Uma figura, diga-se, com a qual a Igreja tem dificuldades de lidar.
Lug é um deus celta. Guerreiro, dominava os trovões. Um deus típico de seu tempo, veja-se Júpiter, Zeus ou Odin. Não é à toa que os povos celtas transformaram o pescador que acompanhava Jesus em seu santo particular – se identificavam com ele. Tampouco é à toa que fizeram de um local de reunião de druidas o lugar de adoração deste santo. E faz algum sentido que tenham concentrado em sua imagem também a idéia de seu deus guerreiro quando tantas guerras aconteciam.
Assim nasceu Santiago e a catolização celta.
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O casal holandês é simpático. Devem estar próximo dos setenta, ambos com os cabelos muito brancos, magros, altos. No ano passado, ele foi até Santiago de bicicleta, partindo de seu país. Este ano vem com a mulher, fazem a pé.
A seu lado, um alemão talvez uns dez anos mais novo, vermelho que só pelo Sol espanhol, um alemão brinca. ‘Eles ficam nestes albergues, eu estou num quarto de hotel. Uma cama só para mim e chuveiro de verdade. Cento e vinte euros.’ Os holandeses levam na esportiva – estão pagando cinco. Como eu.
O alemão esteve em São Paulo faz uns anos, é onde sua sobrinha estuda. Gostou muito de Ilhabela mas achou a cidade muito perigosa. Pergunto por quê. Ele apenas reitera a afirmação. Explica que só andava com seguranças. Não explica em que trabalha. Conta apenas que um jornalista da Der Spiegel escreveu o atual best-seller alemão sobre sua passagem pelo Jakobsweg – o Camino – e que também ele passou ao largo dos albergues. Não quis pegar desinteria.
O casal de holandeses faz o Camino pela cultura, pela paisagem, pelo desafio e pela religião. Pergunto se são católicos. Protestantes. Protestantes seguindo relíquias de um apóstolo? Eles riem – ‘Não faz qualquer sentido, não é?’
A perna menos inchada está para cima na pequena Viana. Cidade pequenina e um dia inteiro e lento para gastar. No restaurante, a entrada é uma sopa de lentilhas seguida de um pato guisado. Está bem bom. O vinho da Casa desce suave. O garçom pergunta se sou italiano, explico que não. É o segundo na viagem. Vou começar a dizer que sou. Por outro lado, os italianos não são tão simpáticos quanto os brasileiros. Futebol tem suas vantagens.
De manhã cedo, os velhos tomam a conta da praça central, seus casaquinhos, suas boinas. Falam devagar, lêem jornais. Depois do almoço, as portas das lojas vão fechando e mães jovens aparecem com crianças de três ou quatro ou cinco. Um menininho chora enquanto outro fica atiçando mais. O que chora dá uma corrida, as duas mães assistem à distância o quando se implicam. É hora da siesta. Talvez seja hábito tirar as pestes de casa para que os outros durmam.
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Em Viana, a 20 km de Los Arcos, estamos hospedados todos num convento do século 13. É a última cidade do País Basco antes de La Rioja, a província que produz os melhores vinhos espanhóis. Daqui até a capital de Rioja não dá 15km – mas, hoy, me quedo aquí.
A canelite não era uma canelite. Doeu tanto que decidi passar num hospital – o médico tocou na canela, estava quente. Infecção. Hora de penicilina. A notícia é boa, por um lado. Um dia de parada não chega exatamente a ser um atraso – estou adiantado de qualquer jeito. E, como o problema não é muscular, amanhã caminha-se de novo. Por outro lado, antibiótico às portas do estado que produz alguns dos melhores vinhos do mundo não é de empolgar ninguém.
Me encontrei novamente com a chica tedesca, a alemãzinha de camiseta hindu que distribui o Evangelho de São João. Pensei em perguntar o porquê. É o Jesus menos simpático de todos, o mais impaciente, ditatorial. É o Jesus menos Jesus. Não combina com motivos indianos. Sem me conformar, não perguntei nada. Ela estava em paz, dentro de uma igreja.
Comigo, também parada por aqui, está uma guria israelense. Seu pé é uma lástima de bolhas e sangue.
Ibéria, pois é: é daqui que viemos todos, brasileiros, com este hábito de misturar as religiões. Só seguindo no caminho que leva à tumba de um dos apóstolos de Cristo é possível encontrar uma judia, uma alemã hinduísta que encontrou Deus no Evangelho de São João e onde quase todos os espanhóis são ateus. Vale.
É uma cidadezinha miúda, Viana, que acabará por me permitir mergulhar um pouco mais nas histórias do Camino.
Há um jardim bonito, cá no prédio, de onde trabalhar e ler (foto). Aproveitarei a tarde para descobrir que trecho vou pular para chegar a Santiago no dia 11.
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Os católicos passaram a Idade Média em peregrinação. Tudo quanto é lugar que tivesse uma lasca que – garantida – pertencera à cruz de Cristo, ou a ossada dos reis magos, ou onde aconteceu uma visão da virgem, todos eram possíveis focos de peregrinação.
Mas três caminhos se destacavam perante todos os outros: o de Jerusalém, onde o povo buscava reviver através do cenário o drama do Calvário; o de Roma, onde os dois homens mais importantes da Igreja primitiva, São Pedro e São Paulo, foram martirizados e enterrados; e o Caminho de Santiago.
Foi para proteger o caminho dos que rumavam a Jerusalém que nasceram os Cavaleiros Templários; e um pouco por conta da popularização deste caminho que vieram as Cruzadas. Ordens irmãs surgiram em todo o Continente Europeu, a Ordem dos Cavaleiros de Santiago é uma delas.
Antes de morrer, Jesus recomendou a seus apóstolos que tomassem o rumo do mundo para que sua palavra pudesse ser espalhada. A tradição da Ibéria, desde o tempo de fins do Império Romano, era de que São Thiago fora para lá, onde deixou um bispo nomeado na Lusitânia.
Isto é o que o povo falava.
O Novo Testamento não diz nada. Diz que o santo foi condenado à morte em Jerusalém – e que lá morreu. Na Bíblia Católica está escrito, também, que São Paulo pretendia pregar na Ibéria; o mesmo São Paulo que dizia não pregar por onde já houvesse passado outro alguém com a Palavra.
Para a Igreja medieval, a contradição entre suas próprias Escrituras e a memória popular não constituía qualquer problema. Se incentivava a crença do povo – que assim fosse. E que viessem os peregrinos. Embora tenha sido já no século 19 que um papa reconheceu oficialmente que aquele enterrado em Santiago de Compostela era o próprio, a verdade é que oficialmente a Igreja ficou cada vez mais reticente. Não quer desestimular os peregrinos, mas também não pretende brigar com seus textos oficiais.
Talvez, informa a Enciclopédia Católica, entre a morte de Jesus e seu martírio em Jerusalém, São Thiago tenha dado um pulo na Ibéria e voltado. Ou talvez – já que São Paulo não pensaria em ir para Espanha e Portugal caso soubesse da passagem doutro – o corpo do apóstolo tenha sido transportado para o lugar onde pretendia pregar mas não teve tempo.
O que a Igreja considera é que, na verdade, não importa. Religião é coisa que trata de símbolos – então se aquele local é reconhecido por tanta gente como um ponto de adoração de São Thiago, que assim seja. A tradição é valorizada porque o sentimento dos crentes é sincero.
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Foi mais ou menos às 10h que nos separamos, eu e a turma com quem andei os primeiros dias do Camino. Sem mochila, apressei o passo para alcançar a cidadezinha de Los Arcos, quase no fim do País Basco, a 40 quilômetros de onde estávamos.
Cheguei quase às 20h, não propriamente cansado, ofegante, mas com dores – canelite na perna esquerda, umas picadas de tendinite na direita. Nos últimos 15 quilômetros, só pensava em chegar.
Se decididamente não dá para sequer cogitar outra esticada de 40, ainda assim foi o melhor de todos os dias. A paisagem mudou. A arquitetura já é bem conhecida e prédios erguidos no século 18 começam a soar lugar comum – para chamar a atenção, tem que vir da Idade Média; mas onde havia florestas, agora só grandes fincas, fazendas. São longos trechos cortados em retângulos, uns plantados, outros descansando, o que mais se vê são vinhas e erva-doce.
De quando em quando no Camino, quando há uma encruzilhada que pode deixar o peregrino na dúvida de para onde seguir, ou quando já se vão centenas de metros sem qualquer notícia, há pequenos marcos no chão, com plaquinhas azuis de setas amarelas, indicando o caminho. Foi justamente neste período de 15 quilômetros finais que percebi que havia um livrinho em cada um dos marcos. Na capa, Procura sentido?, no miolo, sempre, o Evangelho de São João – é justamente aquele em que Jesus está menos humano e mais Deus. O sentido estaria lá.
Uns poucos quilômetros adiante, uma árvore de copa larga fazia sombra para uma pequena fonte de água. Havia mochilas – peregrinos descansando. Sentei-me também. Eram três alemãs, todas com cara de não ter mais que vinte. Estavam tirando frutas de uma árvores, me ofereceu uma – nêsperas dulcíssimas. Perguntei o que sempre pergunto: por que faz o Camino? Ela sorriu um sorriso plácido e respondeu Para limpar a mente e ficar mais próxima de Deus.
A menina era magrinha com pernas fortes, vestia uma cueca samba-canção e uma camiseta com um deus hindu estampado. Perguntei para onde ia, ela disse Para Los Arcos, talvez, temos barraca aqui, não precisamos de albergue, não pensamos muito em onde queremos chegar. Isto não é importante, frisou com o mesmo sorriso plácido que lembrava um quê o de uma freira. Imaginei que devia ter um conceito bem particular de Deus.
Me lembrou da pichação que alguém deixou numa placa perdida de algum dia: Você faz o Camino ou só quer chegar a Santiago?
Quando me perguntam por que faço o Camino, me acostumei a responder que é para emagrecer. O nonsense me diverte. Mas aquilo de Deus era tão sincero na alemãzinha que respondi, quando ela me perguntou, que na verdade não sabia. E era verdade.
Continuamos o Camino, rapidamente me separei das três. Passei por um marco, continuei, num momento olhei para trás procurando comparar minha velocidade de passo com a delas, reparei que ela estava no marco. Deixando o livrinho. Esteve fazendo isso por quilômetros. Distribuía o Evangelho segundo João e vestia uma camiseta com um deus com cara de elefante.
Acabei decidindo que o encontro todo pareceu meio cena de Alice procurando o seu coelho.
Foi bom chegar a Los Arcos. Cidadezinha toda muito antiga, de corredores estreitos e sinuosos entre as casas. Não tinha qualquer vontade de sair do albergue. Mas saí para buscar um bocadillo, sanduíche quente para jantar. Quando cruzei a praça principal, gentes e mais gentes vestidas de branco e o lenço vermelho dos bascos olhavam maravilhadas uma pequena arena improvisada. No meio da praça. E um touro lá. Vez por outra, um adolescente pulava na arena para provocar o animal. Uma hora, o touro lançou para cima um destes, que caiu torto mas saiu correndo rindo. Foi quando todos gritaram: toro! É para quem torciam, parecia. Pela primeira vez, não tinha câmera – estava cansado, sem vontade de trabalhar. Sobrou a do celular.
Olhei em volta: velhos de casaquinho de lã e boina, senhoras matronas de cabelo muito negro, vestido e avental. Gente com a roupagem basca, garotada, umas barracas de comidinhas de beliscar e de sorvetes, nos bares lotados muito vinho e muita cerveja e muito pacharán rolando. Bebi uma Coca-cola, só.
Não fosse o Camino, jamais teria visto algo tão tipicamente espanhol. Não havia turistas, só as gentes locais – a maioria dos peregrinos enojados pelo jeito de tratar os animais. Provavelmente têm razão.
Mas hoje vi a Espanha.
As fotos do dia vão amanhã – cá está um repórter cansado.)
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Foi um dia lento e arrastado o que nos trouxe de Pamplona para Puente La Reina. É neste trecho que o Camino Francés – que nasce de San Jean – se encontra com o Camino Aragonés, um quê mais longo, na rota para Santiago. Então estamos vendo umas figuras novas.
As mais engraçadas são duas irmãs inglesas que só falam entre si e com mais ninguém. Vestem camisas iguais, casacos iguais, bermudas iguais, botas iguais, suas mochilas são iguais, o saco de dormir – igual – é amarrado no mesmo ponto. Andam sempre juntas, o par de jarros, embora não sejam idênticas – uma, aliás, parece consideravelmente mais velha que a outra. As meias são de cores diferentes.
Há também o alemão, que surge vez por outra na estrada desde que saímos de San Jean, há quatro dias. É um quadrúpede. Muito magro, muito alto, sempre disposto a dois dedos de prosa. Quadrúpede, entenda-se: anda com dois cajados, um em cada mão, num movimento sinuoso e rítmico. Andarilho profissional. Sempre que aparece tem uma lição de andarilho para oferecer. Dia desses aprendi que tendinite vinha de falta de água, mochila pesada ou passo apressado demais. Deve ser. Ele anda lento, muito lento, mas todo dia passa por nós – lento e contínuo.
O amor surgiu: Tania e John não se largam embora finjam que nada ocorre.
Lento foi também o dia: chegamos ao albergue de Puente la Reina apenas às 17h. Não estávamos particularmente cansados. Na verdade, as reclamações mudaram. Se antes nos doía todo o corpo, agora são todos incômodos pontuais. Minha tendinite no calcanho direito ameaça voltar; o joelho esquerdo de John ameaça virar uma dor de cabeça. Majella tem uma coleção de bolhas. Tania não tem nada, só anda dando saltinhos.
É uma boa turma, bons de copo e de risos. Somos como que velhos amigos – e amanhã nos separamos. A mochila vai-se embora de carro para que eu tente esticar 40km.
Nós peregrinos somos muitos. Há uns cem, sempre, no Camino, só se vê aquela gente toda andando, cajados, mochilas. As pessoas nos cumprimentam na rua com um silêncio respeitoso – como se fôssemos especiais. Conforme Santiago se aproxima – e ainda está longe – o número de gente andando aumenta.
É bonito demais o País Basco – o resto da Espanha há de ser, também. Gente vestida de branco e lenço vermelho, homens, mulheres, vê-se por toda parte. Há uma cadeia de restaurantes populares que pertencem ao ETA, que financiam o ETA, e no qual todos comem. Menos nós peregrinos. Vê-se a bandeira do País Basco por toda parte, em todas as casas; a da Espanha, só em prédios públicos.
De manhã bem cedo, antes das sete, já estávamos na rua, em Pamplona. Um carro da polícia era o único sinal de vida na cidade. Andava uns dez metros, parava; o policial saltava, tirava um cartaz do ETA duma parede qualquer, voltava para o carro. Andava dez metros, repetia-se. Calmamente. Entra-se por uma cidadezinha e lá está uma placa com seu nome em espanhol. Alguém riscou e escreveu a versão em basco. Dá a impressão de ser uma briga lenta, vagarosa, jogo de paciência.
Bebe-se muito pacharán, uma bebida forte que lembra um Campari. Talvez eles não saibam que é na verdade é um campari – enjoa um pouco. Mas é bom não dizer isto, ofende. Tratam como se fosse muito especial. Vai ver que é. Nos restaurantes, há sempre um menu do peregrino, não mais que sete euros pelo vinho, entrada, prato principal e sobremesa. O vinho é um pouco rascante – então faz-se à espanhola: ele é misturado com La Casera, um refrigerante local com gosto ligeiramente parecido com água tônica.
Outra coisa que ofende: chamar jamón serrano de jamón de Parma. Mas que é presunto de Parma, isto é.
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O que a previsão de tempo dizia era que ia chover mais. O que ela dizia, na semana anterior, é que seria Sol toda vida. Errou na semana anterior – errou novamente de véspera. Não choveu. E o dia de trilha mais feia foi também o dia mais agradável. Terra seca, céu aberto, roupas da véspera penduradas na mochila.
Dizer que a trilha é feia é exagero só permitido pela comparação com os dias anteriores. O caminho da pequena Zubiri até Pamplona passa por autoestradas demais, mas pouco mais da metade é pelo meio do mato. E se o mato é uma repetição da mesma paisagem da trilha entre Roncesvalles e Zubiri, com céu azul a coisa é outra. As mesmas amoras estão lá, as mesmas flores silvestres, os rebanhos de gado e de ovelha, as mesmas ameixas selvagens.
Quando o mato acaba e não há autoestrada, vêm as fazendas. Enormes rolos de feno interrompem a paisagem de campos e então, repentinamente, há um prédio alto de três ou quatro andares, uma torre, erguido com grandes paralelepípedos de pedra amarela. Toda hora se passa pelo desenho de uma bandeira de duas faixas, brancas e vermelhas, os bascos fazem questão de dizer o que são.
Pamplona é um caso à parte. Cruza-se uma ponte medieval de arcos construída em pedra, anda-se um pouco atravessando o subúrbio, vêm um bosque e então, repentinamente, uma enorme muralha de pedra, literalmente um castelo, se ergue, a muralha toda interrompida por pequenas torres de vigília.
A ponte que leva ao interior da muralha e levadiça. Mesmo: com corrente e tudo.
E é uma surpresa encontrá-la assim, a cidade tão conhecida pela corrida de touros no meio da rua, porque o que se espera ao cruzar as paredes do castelo é uma repetição da paisagem medieval. No entanto, não é. Vários prédios coloridos, todos muito charmosos, uma arquitetura harmônica que de certa forma lembra, até, o Pelourinho em Salvador – fosse possível substituir a mistura de brasileiro com português pelo conceito espanhol. São várias ladeiras que sobem e que descem, ruas de paralelepípedos, aqui e ali um basco vestido com sua camisa branca e o lenço vermelho.
Amanhã promete ser um dia difícil: há subida, e subida íngreme: uns 500 metros para cima, antes de descer. E, por conta, é hora de começar a planejar. Para completar o Camino até o dia 11, terei que fazer alguns estirões de 40 quilômetros por dia. Com 13kg na mochila, não dá: fica-se na casa dos vinte e poucos por dia. São duas opções. A primeira é pegar o ônibus – soa trapaça. A trapaça menor custa cinco euros. De ponto em ponto do Camino há empresas que levam de carro sua mochila para onde você mandar.
Soa particularmente agradável a idéia de caminhar carregando uma câmera, a carteira e não muito mais.
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Chuva. A chuva no País Basco é assim: primeiro ela começa devagar. As luzes do albergue – um enfileirado de beliches no interior de um prédio de pedra com uns duzentos anos, anexo a uma igreja – acordam às seis. Às oito, todos devem estar do lado de fora. E os pingos caem.
Levanta-se, escovam-se os dentes, um ou outro toma banho, mochilas são preparadas, coisas importantes ensacadas por dentro, e todos têm capas que protejam suas mochilas. É chuva leve.
O Camino, todo ele devidamente sinalizado por setas amarelas, tem trechos curtos na auto-estrada e longos estirões de trilha mato adentro. É uma floresta bonita de árvores espaçadas e, se pareciam encantadas ontem, na chuva parecem saídas dum filme de batalhas medievais. O tipo de rocha local é sedimentar e muito, muito lisa. Solta-se em lascas no caminho, caem todas inclinadas.
A chuva aumenta. A trilha têm subidas curtas e descidas íngremes. Onde o chão não é barro, é de pedra lisa: um convite à queda. Se ontem a primeira lição imposta pelo Camino é a de respeitar o corpo, seus limites, suas vontades – a de hoje é a de respeitar (ou odiar) seu equipamento. Repentinamente, depende-se muito dele.
A chuva aumenta mesmo – então um trovão. Se houve esperança de que aqui é Espanha, não os trópicos, ela se foi. É chuva pesada, um toró carioca de verão, cede um pouco vez por outra, mas volta intensa.
Acordei com o plano de, se o corpo permitisse, esticar os 42 quilômetros até Pamplona. Impossível: foi uma caminhada tão dolorosa intensa quanto a longa subida do primeiro dia. As pernas doem, a planta dos pés doem. Cada um lida como pode.
Paul se distancia do grupo, junta-se a outros espanhóis – falamos inglês demais que ele mal acompanha. Ficamos em quatro. Aparece um campo mais aberto, Tania se lança nele rodopiando e cantarola alto como se fosse Julie Andrews na Noviça rebelde. Como seus tênis já estão mesmo atolados, John vê uma poça um pouco mais funda e decide sapatear nela. Ri-se. Majella está tensa e tem dificuldade de achar graça nas coisas.
Eu também. Chove muito, falta muito para chegar, estamos no meio de uma floresta. Passamos por uma pichação que diz Estrangeiros, lembrem-se que aqui não é a Espanha. Meu mau humor interno é todo direcionado para o raio dos terroristas e separatistas do mundo. Mas sempre que a trilha da floresta é interrompida por um vilarejo de pequenas casas de pedra, uma meia dúzia ou pouco mais, cada uma datada – mil setecentos e isto, mil oitocentos e aquilo – todas em duas águas, lindinhas que só, fonte de pedra no meio da praça, imagino que o País Basco não é tão ruim assim. Aliás, é uma lindeza.
Então, no meio do mato, um galho de espinhos me pesca, corto mão, fura a capa um cadinho. Xingo alto em português – é um galho de amoras. Umas amoras negras e grandes e lindas e dulcíssimas. O mau humor se vai.
Vou pensando do que gosto mais, do que gosto menos. Meu suéter esquenta demais quando ando e não esquenta o suficiente quando paro – está gelado à chuva. A capa de chuva até que protege um bocado, mas não permite que o suor vá para fora – e como poderia? – então não gosto dela. As botas e o cajado seguem até o finalzinho do estirão de 22km competindo pelo lugar de favorito. Um impede qualquer queda além de tirar um peso atroz das pernas e pés. O outro mantém seca pelo menos uma parte do corpo: e em pés secos não há bolhas.
Não falta meia hora para chegarmos quando enfim alguma água vaza para dentro. Agüentaram um bocado os sapatos: sete horas de caminhada no total, muitas vezes lenta.
E a água no albergue é gelada.
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Tem uma coisa que você aprende muito rápido no Caminho: seu corpo fica a coisa mais importante do mundo. Se está com sede, beba; se tem câimbras, alongue; fome – coma chocolates. É preciso ser generoso com o corpo. Se há asfalto e grama, como há tantas vezes no caminho, ande pela grama. A sola dos pés agradecem. Não é possível parar no meio do caminho e as nuvens negras à frente prometem chuva. É preciso ir.
São muitos os caminhos que levam a Santiago de Compostella, todas rotas com mais de 10.000 anos. O principal é o que os espanhóis batizaram de El camino francés. Começa em San Jean Pied de Port (foto), uma agradável cidadezinha no alto dos Prineus, ainda do lado francês da fronteira. É uma cidadela: cidade fechada, cercada por muros, capital da antiga Baixa Navarra.
Dela saiu um dia o jovem protestante Henri, herdeiro do trono de Navarra, para se casar com a jovem – e bela – Marguerite, filha de Catarina de Medicis. A festa do casamento foi o Massacre de São Bartolomeu.
Doutra feita, nela descansaram as tropas de Napoleão, antes de marchar Espanha a dentro – no limite expulsando a família real portuguesa para o Rio de Janeiro.
Fala-se francês, espanhol e basco. Ontem à noite, dia 15, como era dia de Santa Maria por aqui, houve festa. Uma bandinha na praça animou a turma, e então, sem roupas típicas ou qualquer coisa, uma turma foi se juntando, velhas, velhos, adultos, jovens, crianças, puseram-se em círculo e dançaram uma dança de roda típica. Como se fosse apenas a coisa certa para fazer: não há turistas, só peregrinos, e peregrinos não são exatamente turistas. Então houve fogos de artifício, assistidos por nós com copos de cerveja na mão. À frente, num barzinho, uma rapaziada tocava rock que soava como Nirvana. Em basco.
Fomos dormir já passava de meia-noite, acordamos às 6h.
Um grupo: eu, Paul – um representante comercial catalão –; Majella – uma estudante de psicologia irlandesa –; John, um cientista ambiental e fotógrafo norte-americano. Dormimos no mesmo albergue, no mesmo quarto, então fomos juntos. Tania, uma espanhola da Andaluzia que trabalha para o governo na lida com imigrantes, juntou-se a nós logo-logo. (Fotos na ordem.) Encontra-se gente a toda hora, todos caminhando, grupos se formam, aí se separam.
Cada um tem seu motivo. Paul andará por dez dias apenas – é o que tem de férias. Gosta de andar, só isso. Para Majella as questões são outras: estudante, precisava ocupar as cinco semanas de férias com algo barato. Além do mais, gosta de saber que completou algo difícil, então o Camino parecia bom. Paul já fez o trecho final, todo na província de Castela, agora quer completar. Faz pelas fotos. E também porque é budista e procura algum sentido místico no caminhar. Para Tania é uma fuga da cidade e um encontro com o campo, um estar pela natureza.
São 27km de San Jean até a primeira cidade espanhola, Roncesvalles. Destes, 24 de subida. Muita subida: 1.200 metros para cima. Há dois tipos de cansaço, você percebe logo. Um é cardio-respiratório. Está muito íngreme, o início é assim, as batidas passam de 180 por minuto, o ar falta, é preciso parar. O corpo avisa. O outro é muscular; as batidas não passam de 155, e isso após horas de andança, o terreno quase plano, mas se não há traço de ofegante, as pernas doem. Das 7h até 14h30, não mais que meia hora de pausas. Faltam mais de 700km, é o pior dia – daqui é quase tudo descida ou plano.
No caminho, o celular apita a toda hora, é como se vagássemos no limbo entre dois países. Aqui é a Orange dizendo seja bem-vindo à França; ali é a Telefónica desejando que a estadia nos seja agradável na Espanha. Competem por quem vai cobrá-lo até pouco depois que um marco de pedra simples, onde se lê apenas Navarre/Navarra, informa que a fronteira passou.
São florestas lindas em boa parte do caminho, florestas de árvores espaçadas uma da outra, um tapete de folhas apodrecendo no chão, uma trilha estreita para os caminhantes na qual não é difícil imaginar, picaretas às costas, os anões da Branca de Neve marchando para casa ou passeando a Bela Adormecida antes que seu destino seja interrompido por uma roca de fiar.
Quando não são florestas, a paisagem é de campos gramados com pequenas flores silvestres, gado aqui, pôneis adiante, ovelhas de cara negra e chifres curvos depois. E o caminho vai para cima.
Aprende-se muito rápido que é preciso respeitar o corpo: você depende dele e as condições são tão parcas que o vento gelado cortante ou a fome de depois de horas caminhando são sentidos com um quê de apreensão. Não dá para parar. Foi um dia sem bolhas nos pés: e um dia sem bolhas nos pés, no Camino, é um dia bom.
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Toda História é um pouco lenda, dizem, então talvez seja até injusto cobrar das lendas a respeito do passado que sejam minimamente fiéis à História. Esta história é um pouco assim: tem toda cara de lenda que o povo foi construindo para dar a sua versão dos fatos. Mas no fundo, no fundo, quando descemos à verdade das palavras, periga descobrirmos que pode muito bem ser História.
Dizem, pois, e isto é tudo tradição, que o jovem pastor teve seu sonho numa noite agitada do ano de 835 da Era Cristã. Viu imagens fantásticas e um homem que lhe pedia ajuda. Uma das várias versões relata que ele foi incumbido de seguir a Via Láctea, o caminho denso de estrelas que se desenhava no céu espanhol. Não tinha um porquê. Era só para que andasse. Um dia à noite, viu as estrelas caindo num ponto. Correu e contou para o bispo Teodomiro.
O homem do sonho não qualquer homem: um bispo como Teodomiro. E não qualquer bispo. Era Yaacov, o maior, um dos 12 apóstolos, escolhido pessoalmente por Jesus Cristo. O bispo mandou que se cavasse onde as estrelas caíram na noite anterior: e ali encontrou os restos mortais do apóstolo.
Se ele era chamado Yaacov entre os seguidores de Jesus, a corrupção do latim Iacov fez dele Iago e, na contração de Santo-Iago, Santiago em espanhol. É São Thiago, irmão de São João, filho de Zebedeu e Salomé. No local onde o bispo Teodomiro encontrou os restos, ergueu-se uma igreja, então uma cidade. Chama-se Santiago de Compostela.
A etimologia popular garante que a palavra nasce da contração do latim campus stellae, campo das estrelas, confirmando a lenda. Os dicionários sugerem que a explicação, um quê menos romântica, é outra: composita tella – a palavra vem do composto orgânico. É cemitério.
Um fenômeno belo e fascinante que ocorre em cemitérios despertou a curiosidade humana desde o início dos tempos: o fogo fátuo. A matéria orgânica em decomposição solta gás natural que, dependendo das condições climáticas, entra em combustão quando atinge a atmosfera. O que o observador vê, coitado, são pequenas explosões no ar, fogos de cores várias, estalidos, faíscas que flutuam no nada. Dependendo de em que ele acredita, pode ser fogo fátuo, ou o Boitatá dos tupis, o Jack O’ Lantern irlandês, os discos voadores. Ou podem ser estrelas em queda.
O pastor está cansado – gosto de imaginá-lo assim –, já anda há muito sem qualquer certeza a respeito do que procura. O que tem no íntimo é uma fé inabalável de que teve uma visão em sonho, que esta visão tinha a ver com São Thiago, e que algo deve estar para acontecer. Algo tem que estar para acontecer. Então numa noite vê luzes flutuando, explosões. Será um sinal? O sinal que ele esperava? Ele sabe que sim – não há outra explicação possível. Ao mesmo, tem medo. Precisa de algum tipo de permissão – precisa da certeza de que não está louco. O bispo, maior autoridade nas coisas do bem e do mal, vem à frente. Não precisam sequer cavar muito: é um cemitério antigo. Há um cadáver lá para ser encontrado.
O que é História e o que é lenda? A História mesmo, não se sabe ao certo. Mas mesmo para um ateu irresoluto é bem possível acreditar que naquela noite o bispo Teodomiro esteve absolutamente convencido de que vivera um milagre. E por certo viveu feliz o resto da vida por conta desta convicção.
Foi assim que, em finais do século 9, o povo europeu começou a tomar a Via Láctea, a Rota Jacobea, el Camino de Santiago, para estar mais próximo do santo.
Nos próximos dias, conforme conto minha história de viagem, parto também para uma tentativa de compreender um pouco da História deste caminho – da enorme cautela com a qual a Igreja Católica o enxerga, dos indícios de que é uma rota mística muito mais antiga do que a da tradição cristã; é também uma tentativa de compreender religião e o papel fundamental que as peregrinações têm em quase todas elas.
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