Ontem, o Irã testou mísseis de longo alcance, provando que consegue atingir Israel se o desejar. Nos EUA, o secretário de Defesa Robert Gates de presto se adiantou, dizendo que um conflito é de todo improvável. Na seqüência, a secretária de Estado Condoleezza Rice interceptou a mensagem informando que, não importa o que diga Gates, os EUA intervirão se considerarem necessário.
Esquizofrenia? Nada. Good cop, bad cop – policial bonzinho e o malvado. É tática.
Karim Sajdadpour especialista em Irã entrevistada pela Foreign Policy explica o lado de Teerã nesta história:
Na semana passada, o Irã soava conciliador, o ministro das Relações Exteriores Manouchehr Mottaki falava de uma ‘nova tendência’ nas negociações nucleares. Esta semana, o governo do Irã fala de atacar os EUA ou Israel em resposta a uma ofensiva e testam mísseis que podem chegar a Tel Aviv. O que explica a mudança?
As últimas duas semanas mostram a maneira de o líder supremo aiatolá Ali Khamenei enxergar o mundo e seu método de operação que não prevê nem confronto, nem acomodação, com o ocidente. Semana passada, os sinais vindos de Teerã diziam ‘nós somos capazes de praticar diplomacia’. Esta semana, o Irã informa a Israel e aos EUA, ’se vocês partirem para uma escalada, seremos recíprocos’. Khamenei quer enviar um sinal claro: ‘não achem que pressão vai moderar nosso comportamento’. Ele acredita que quem cede a pressão acaba convidando mais pressão.
O presidente Mahmoud Ahmadinejad se referiu à possibilidade de um ataque ao Irã como uma piada. O que o senhor acha que ele está tentando fazer?
Ele sempre acreditou que a possibilidade de um ataque ao Irã é muito pequena. Ele interpreta a vitória parlamentar dos democratas, nas eleições de 2006, como um indício de que a população norte-americana não deseja mais aventuras no Oriente Médio. Assim, ele acha que os políticos dos EUA têm as mãos atadas. Isto posto, um ataque militar norte-americano contra o Irã seria ótimo para Ahmadinejad. Só há duas coisas que poderiam reabilita-lo perante a opinião pública do Irã. Uma é esse ataque. Outra é uma ofensiva diplomática violenta dos EUA contra seu país. Na minha opinião, os EUA não deviam fazer nenhum dos dois.
Perguntar não custa: de que adiantou botar o Líbano abaixo se, no fim, o governo de Israel terminaria por capitular perante o Hizbolá?
A decisão do gabinete de Ehud Olmert é de que trocará cinco prisioneiros (vivos) pelos corpos (mortos) dos soldados que o grupo terrorista xiita seqüestrou. Estes seqüestros foram a desculpa para a guerra que tirou o último vestígio de moral do governo libanês.
Era melhor ter feito a negociação pela troca antes, quando soldados e vítimas libanesas da guerra estavam vivos e o governo libanês ainda tinha alguma força perante o Hizbolá.
Então é bom elucidar: nada, nele, é minha opinião. Tudo é reprodução do artigo do professor Feldman. Um trecho entre aspas, outro resumido. A comparação com o arcaísmo católico, por exemplo, é dele. Este argumento, o de que os muçulmanos são os novos judeus da Europa, tampouco é novo.
Pessoalmente, não conheço o velho continente o bastante para afirmar que sim ou que não. Mas, também numa visão pessoal, e sem a ênfase do professor, me incomoda a semelhança entre muito do que se diz hoje sobre islâmicos e do que se disse no passado, sobre judeus. Não é apenas a respeito de muçulmanos. Há um par de anos, ouvi frases sobre ciganos, na França e na Espanha, que, no Brasil ou nos EUA, ninguém diria hoje. Poderia pensar. Mas teria vergonha de dizer. Uma das coisas que mais impressionou na Europa, sempre, foi esta falta de pudores no exercício do preconceito.
Uma das questões não postas em nossa contínua discussão a respeito de Israel e Palestina é que sua situação atual, de disputa de terras, nasceu porque ambos são vítimas da Europa. Os judeus foram expulsos de lá. Não exatamente, alguns dirão. Expulsos, sim. Após séculos de perseguição incrementada para pogroms, aumentada para o Holocausto, se você é um judeu na Europa, em 1948, tudo o que quer é ir embora. Na próxima, a história deixa claro, será você. Ou seus filhos. No mesmo passo, a divisão artificial do Oriente Médio em Estados nacionais, incluindo-se aí a partição entre Israel e Palestina, é fruto do imperialismo europeu. A ascensão do Wahabismo, esta seita fanática e obscurantista do Islã por trás do Talibã e da al-Qaeda, é fruto de uma decisão política européia de aumentar o poder do clã al-Saud, atuais donos de Meca e Medina.
De certa forma, Hitler conseguiu seu intento de limpar a Europa de judeus. Foram-se praticamente todos, para as Américas e para Israel. E o convívio com os muçulmanos é, sim, e num ritmo crescente, o primeiro desafio de grande porte europeu para lidar com uma comunidade diferente.
Poderia ser diferente? Os EUA estão vivendo algo parecido. Não é igual – parecido. No sudoeste norte-americano, de uns quinze, dez anos para cá, o espanhol é língua corrente. Não era assim. Há rádios em espanhol, jornais, revistas, tevês – um império crescente. Norte-americanos criados num mundo branco, anglo-saxão, protestante, já falam – nesta região sudoeste – espanhol como segunda língua. E a grita contra os ‘imigrantes ilegais’ é alta. Claro. Às vezes, escorrega nitidamente para o preconceito. Mas nenhum político fala que os ‘mexicanos têm dificuldades de assimilação’. Seria uma frase racista demais. Eles se assimilam? Nada. Substituem a comida, a língua, mudam a maneira de rezar a fé. (O parco contato que os EUA tinham com o catolicismo era irlandês, italiano e polonês, nada a ver com o mexicano, sincrético que só.) Mexicanos, hispânicos em geral, trazem sua própria cultura. E, quando um político fala que o inglês devia lhes ser imposto, é logo ridicularizado. Eles têm vergonha de parecerem racistas.
Culturas não são assimiladas. São misturadas. É ver a nossa: portuguesa, africana, tupi. Tão misturada que a gente não sabe quando termina uma e começa a outra. Quando um novo povo chega, a cultura local também muda. A julgar pelo tom dos discursos correntes na Europa, ‘eles são bem-vindos desde que virem franceses’. Ou alemães, ingleses, italianos, espanhóis. Não vão virar. Alguém poderia argumentar, ‘mas os mexicanos sempre estiveram do outro lado do Rio Grande.’ Já faziam parte daquele mundo. Bem, é verdade. O Egito também sempre esteve do outro lado do Mediterrâneo. O Marrocos, idem. Sempre cruzou-se o mar de um lado para o outro. E nenhum europeu jamais teve pudores de entrar, conquistar, dominar, levar o que considerava de valor. É fácil ser imperialista durante quatro séculos e, vinte ou trinta anos passados do fim do imperialismo, dizer que não tem compromissos com o passado.
Há uma geração européia que parece querer romper os vínculos com a própria história. Houve o nazismo, agora somos diferentes; houve a religião, agora somos diferentes; houve o imperialismo, agora somos diferentes. Só que história é uma linha contínua: o nazismo deixou conseqüências que vivemos até hoje. As religiões deixam conseqüências visíveis – e enquanto gays não puderem casar livremente, ainda estaremos vivendo uma imposição da Igreja. O imperialismo também deixou vítimas. Nações inteiras. A Europa enriqueceu. O custo de sua própria riqueza foi pago com o futuro de outras nações.
Os bárbaros estão às portas da cidade, reclamavam os romanos. Eles querem usufruir de uma riqueza que seus antepassados construíram.
O New York Times traz uma excelente reportagem sobre como ficou Gaza sob o governo do Hamas, um ano após o golpe que expulsou o Fatah da região.
Por um lado, a religião tomou conta da Justiça. É proibido xingar, beijar ou beber em público.
Gaza sempre foi pobre e religiosa, diferente da Cisjordânia. Mas um ano de governo do Hamas aguçou a diferença. A idéia de que Gaza é uma entidade separada e completamente distinta da Cisjordânia está se solidificando, fazendo que fique ainda mais difícil para que os palestinos concordem entre si a respeito da paz com Israel.
Comparada a um atrás, em Gaza há mais mulheres cobertas, mais homens barbados, sites são filtrados e encontros de pessoas não relacionadas ao Hamas são proibidos. Com o bloqueio israelense reduzindo a oferta de combustível, peças sobressalentes e outros bens básicos, menos esgoto é tratado e mais peixe aparece contaminado. Em Gaza, os palestinos sentem-se acuados e estão desesperançosos.
A polícia é violenta, prende com facilidade quem desconfiam ser um inimigo político, há tortura. Quando alguma entidade reclama, o governo rapidamente aponta o exemplo de Guantánamo. ‘Colaboradores do inimigo não podem ser tratados com delicadeza.’ Gaza não é o Afeganistão sob o Talibã. E, embora muitos não gostem da polícia política e religiosa, o lugar está melhor governado com o corrupto Fatah longe. Há segurança para o homem comum nas ruas, os hospitais estão limpos. As pessoas habitualmente não pagavam suas contas de luz e o imposto de registro dos carros. Agora tudo é pago em dia. A principal fonte de renda do governo, fora o dinheiro que vem do Irã ou da Síria, são os impostos cobrados sobre as mercadorias contrabandeadas via Egito.
Ethan Bronner, o repórter do Times, pondera que a questão não é apenas se o Hamas mudou Gaza mas também se governar Gaza mudou o Hamas. Os indícios são de que sim.
Apesar de dizer que nunca reconhecerão Israel, os líderes do Hamas dizem que se as fronteiras de 1967 forem restabelecidas, um Estado Palestino for criado em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental e os direitos dos refugiados forem encarados, aí estarão dispostos a negociar uma trégua de longo prazo. Não é diferente daquilo que o mundo árabe diz ou mesmo a posição do Fatah.
Jawad Tibi, o ministro da Saúde nos tempos do governo do Fatah, que hoje vive no sul de Gaza, odeia os atuais governantes. Ainda assim, diz, ‘O Hamas fala de uma trégua de 30 anos e isso não é diferente daquilo que propomos. Hamas é o Fatah com barbas.
Muitos dentre os fundadores do Hamas, já dizem que a tática de ficar lançando foguetes contra Israel é um erro e que o relacionamento com o Irã é imposto pela necessidade, não pela afinidade.
Dion Nissenbaum, diretor da sucursal em Israel do grupo de jornais McClatchy (que inclui o Miami Herald), está a toda com seu excelente blog Checkpoint Jerusalem. A última é o comercial da distribuidora de tevê a cabo Yes.
Falado em persa, com legendas em hebraico, apresenta um ator interpretando o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falando numa coletiva de imprensa e sendo assistido, via televisão, pelo povo.
Ahmadinejad: Meus irmãos, o urânio está em nossas mãos. Depois de segunda-feira, adeus Israel!
Povo: Adeus Israel!
Homem na coletiva: Como assim adeus Israel? Segunda tem o último episódio de Danny Hollywood (série popular da rede Yes).
Homem vendo TV: Como assim segunda-feira?
Outro na coletiva: As séries Papadizi e Srogim começaram agora.
Homem na rua: Não exploda, Ahmadinejad!
Pessoas na multidão: Estou no meio de um episódio! Vou enlouquecer se a série for interrompida! O que será de Teerã sem mais séries? Vou ficar perdida! O que podemos fazer? Deixe as bombas! Viva as estrelas das series do Yes!
Ele foi o maior soldado que jamais serviu nas Forças de Defesa de Israel. O mais hábil praticante da arte do Krav Maga. Um dia, depôs as armas para perseguir um sonho.
Ser cabeleireiro.
Rejeitado em seu país, encontrou emprego em Nova York. No salão de uma jovem palestina.
Nouriel Roubini, o respeitado economista e professor da Universidade de Nova York, conta em seu blog de uma recente conversa que teve com o ex-chanceler alemão Joschka Fischer. Fischer está convencido de que Israel fará um ataque às instalações nucleares do Irã antes de o governo Bush chegar ao fim. Ele vai além: o próprio Bush teria dado o sinal verde quando esteve em Israel, nas celebrações de seus 60 anos.
Joschka Fischer é um nome que deve ser respeitado e tem muitas fontes de excelente qualidade. Mas isso não quer dizer que acontecerá.
O premiê israelense Ehud Olmert chegou hoje aos EUA para uma visita de dois dias. Investigado pela polícia por sérias denúncias de corrupção, há muito pouco o que o sustenta no poder e não é claro quem o sucederá.
Novos líderes fazem cálculos diferentes. Da última vez que o governo israelense decidiu por uma guerra – no caso libanês – destruiu o país vizinho, espalhou tragédias e não ganhou absolutamente nada além de uma imagem externa pior.
É importante ressaltar o ‘não adiantou de nada’ na conclusão da Guerra do Hizbolá. Porque, agora, o mesmo governo israelense está fazendo exatamente o que devia ter feito desde o início. Está negociando com o mesmo Hizbolá.
A situação também não é clara no ponto de vista norte-americano. A praxe sugere que presidente em último ano de mandato não cria confusão desnecessária para quem o suceder. George W. Bush sabe que um dos candidatos nesta contenda, Barack Obama, tem idéias diferentes a respeito de como lidar com o Irã. Obama quer negociar. Agora, cabe à população norte-americana decidir se deseja esse rumo.
Se Bush de fato autorizou um ataque ao Irã, ele está interferindo diretamente no próximo governo. É uma decisão não apenas anti-democrática – que não representa o desejo dos eleitores – mas, principalmente, de sabotagem.
Um ataque às instalações nucleares do Irã por parte de Israel não derrubaria o governo dos aiatolás. Mas certamente seria recebido com alívio, em Teerã, pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Enfrentando uma séria crise de impopularidade por conta de sua incompetência na administração da economia, ele precisa urgentemente de um inimigo externo para ser reeleito, no primeiro semestre do ano que vem.
Do ponto de vista geopolítico, as conseqüências imediatas seriam um Oriente Médio pior no qual as desconfianças existentes são ampliadas e o sustento de Hizbolá e Hamas, aumentado. Ninguém vence, mas tudo é garantido que piore. Essa gente que acredita em mais destruição para o Oriente Médio se ajeitar nunca cessa de surpreender.
Atualização - ‘As agências de inteligência dos EUA acreditam que o Irã interrompeu o esforço de construir armas nucleares em meados de 2003. A Agência Internacional de Energia Atômica, que investiga o programa iraniano, não encontrou qualquer indício de que exista um projeto ativo para produção de armas nuclares.’ A notícia está hoje em vários jornais dos EUA.
Recebi três cobranças diferentes para falar a respeito da expulsão de Norman Finkelstein, autor de A indústria do Holocausto, de Israel. O Idelber Avelar conta a história no Biscoito fino.
Finkelstein, crítico antigo da política israelense, foi deportado logo após chegar ao país. Pretendia participar de protestos na Palestina.
Evidentemente, há uma boa turma pulando para cima e para baixo dizendo que é um absurdo, que é uma censura, e tudo mais.
Há muitos anos, após ser demitido de um jornal carioca, servi por um ano como assessor de imprensa de uma certa Câmara Municipal. Foi um treinamento excelente. Câmaras Municipais raramente têm boas imagens. O trabalho do responsável pela comunicação é, constantemente, o de prever danos à imagem da instituição e tentar evitar estragos. Na maioria das vezes, isso quer dizer optar pelo menos pior.
Foi um treinamento fascinante na arte do cinismo.
Que ninguém tenha dúvidas: Israel tem o direito de impedir a entrada de qualquer estrangeiro. No caso de Finkelstein, deviam ter aberto a mão do direito por dois motivos.
O primeiro é que seu protesto na Palestina teria publicidade mediana. Os suspeitos de sempre tratariam dele e nisto ficaria. A partir do momento em que alguém achou adequado botar o peso do Estado numa tentativa de impedir seu acesso à Palestina, a publicidade do protesto ganhou cara de matéria para a grande imprensa. A mensagem de Finkelstein ganhou mais ouvidos. Foi uma decisão incompetente.
O segundo motivo é mais sutil: é uma traição ao ideal sionista. O motivo da existência de Israel é criar uma nação na qual todos os judeus do mundo são bem-vindos, não importa em que acreditam. No momento em que Israel recusa entrada a um judeu porque ele quer mudar as políticas do Estado judaico, Israel trai o ideal sionista. Ao trair o que há de mais nobre no sionismo original, Israel dá mostra de que está perdendo sua identidade. É sua própria identidade que vai lhe garantir uma existência no futuro. É exatamente isto que deveria resguardar.
Em setembro de 1982, as tropas do exército israelense pararam em frente aos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila. Lá, permaneceram imóveis conforme a Falange, um grupo cristão maronita libanês, invadiu trucidando. Segundo a Cruz Vermelha, por volta de 800 mortos; para a Falange, quase 3.000.
Sob o comando de Ariel Sharon, Israel não interferiu – ao contrário, estimulou o massacre.
O filme é importantíssimo, entre outros motivos, só por existir. É um mea culpa criado por alguém que esteve em contato íntimo com o que ocorreu. O diretor (e protagonista) Ari Folman não se esvai, não alivia, não busca desculpas. Ele apresenta o filme como terapia. É sua tentativa de recuperar memórias bloqueadas do que aconteceu. Ao fazê-lo, ele faz uma conexão entre os campos da morte que os judeus deixaram, na Europa, e os campos de refugiados nos quais os palestinos foram trancafiados e brutalizados no Líbano. Folman não foge do assunto.
É também um filme incrível por ser quase todo animado. A animação nasceu de desenhos feitos sobre filme e há toques de uma fantasia ameaçadora do tipo que há nos pesadelos. Entremeado há cenas – todas criadas com inegável brilhantismo – de combate, patrulhas, massacre e miséria. De certa forma, é uma resposta israelense a Persépolis, já que nasce da imaginação perturbada de um único homem. Este mundo semi-interpretado da animação é a mídia perfeita para a mensagem.
É um documentário de animação que vasculha as memórias de um veterano da Guerra do Líbano.
O Iraque é um caos. O Afeganistão é outro caos. Quantos países caóticos mais serão necessários para que essa gente que defende a guerra e a bomba percebam que a tática piora uma situação já ruim?
Há uma divisão na política norte-americana a respeito de como tratar o Irã. John McCain defende a atual doutrina de que qualquer conversa é impossível; Barack Obama se mostra disposto a sentar ele mesmo, caso seja eleito presidente, para conversar com o líder do pais. George W. Bush, no Knesset israelense, sacou do bolso uma analogia histórica: conversar é cometer o erro de Chamberlain com Hitler.
O assunto já rendeu três posts cá no Weblog. É bem capaz de que este seja o último. Analogias históricas são úteis mas jamais perfeitas. O primeiro post tinha o objetivo de mostrar que o erro de Chamberlain não foi conversar com Hitler; foi entregar meia Tchecoslováquia aos nazistas. Ninguém está sugerindo que um país seja entregue ao Irã. O segundo post, lembrando a Quase Guerra entre França e EUA no final do século 18, queria mostrar só uma coisa: às vezes, mesmo sob pressão popular, mesmo que lhe custe a carreira política, evitar uma guerra ao máximo pode ser mostra de um grande líder. John Adams o foi. O terceiro, citando a China de princípios da década de 1970, sugere que mesmo quando um determinado país renegado está armando seu inimigo numa guerra, o presidente dos EUA talvez deva sentar-se com o chefe de Estado contrário.
O objetivo dos três era desarmar os argumentos simplistas. Quem evita a guerra numa situação de provocação não é necessariamente mau líder. E chefes de Estado podem se encontrar, sim, mesmo que um esteja financiando o inimigo do outro. Não é entreguismo. O encontro de Mao com Nixon abriu as portas para que a China ocupasse o espaço de legitimidade na comunidade internacional de hoje.
Mas é hora de abandonar as metáforas para ir direto ao assunto: faz sentido iniciar um trabalho de negociação com o Irã que possa, no fim do processo, envolver até mesmo uma visita do presidente dos EUA a Teerã?
Com Mahmoud Ahmadinejad, provavelmente não. Seu discurso é rábico, faz pose de bom moço para a comunidade islâmica mas jura a aniquilação de Israel e flerta abertamente com o anti-semitismo ao negar o Holocausto. Mas três informações são úteis, aqui:
1. Há eleição para presidente do Irã no meio de 2009.
2. A inflação do país chegou a 24% ao mês e cresce, um quarto dos jovens estão desempregados, 15 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Ahmadinejad não anda nada popular por conta. Até entre o clero vem ganhando inimigos, caso do ex-primeiro-ministro aiatolá Mohammad Reza Mahdavikani, que sugeriu que o presidente se preocupa mais com religião, que não é de sua competência, do que com a economia – que é sua responsabilidade.
3. E, no fim, pouco importa. Não é Ahmadinejad quem manda de fato no Irã. É o aiatolá Ali Khamenei.
O post é um bocado longo – então, aqui, vai uma interrupção. No clique abaixo, o resto.
Em 1990, Mike Goodwin estabeleceu o princípio reductio ad Hitlerum na Internet: ‘conforme uma discussão na rede se estende, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de 1′. É a Lei de Goodwin. Os ânimos se exaltam e alguém terminará chamando o outro de Hitler. Na política do belicismo, relembrar 1939 é também um argumento sempre levantado – e George W. Bush não foi o primeiro, tampouco será o último a fazê-lo.
O argumento segue assim, sucintamente: o inimigo é muito perigoso, buscar conversa é coisa para ingênuos, é repetir o que lord Chamberlain fez com Hitler. Um, por assim dizer, reductio ad Chamerlainum.
O argumento, como cabe aos argumentos simplistas, além de hiperbólico é falacioso. Neville Chamberlain, o premiê britânico anterior a Churchill que o Partido Conservador gostaria de esquecer, de fato é responsabilizado por não ter sido agressivo o suficiente durante os anos 30 perante a Alemanha Nazista. Mas seu pecado não foi conversar, tampouco o de fazer diplomacia.
Seu pecado foi, em 1938, assinar o Tratado de Munique.
Como Hitler já demonstrava desejos imperiais, Chamberlain concordou em permitir que a Alemanha anexasse metade da Tchecoslováquia em troca de ele se restringir a isto. Bem – entregar um país de bandeja não adiantou de nada.
O problema não foi diplomacia: foi entregar um país em troca de uma vaga promessa de paz.
A comparação entre o Irã e a Alemanha Nazista (ou o Hamas e o Partido Nazista) não é inadequada apenas por conta disto. É inadequada também porque a Alemanha era, provavelmente, a maior potência militar de seu tempo. A relação diplomática se dava com um inimigo que, se quisesse, tinha chances concretas de conquistar a Europa inteira. (Como, aliás, quase fez.) O Irã não chega sequer perto. E para o Hamas, coitado, até a conquista da Cisjordânia parece ambicioso demais.
Isto não quer dizer que Irã e Hamas não tenham algum potencial de destruição. Numa região em crise, como é o caso do Oriente Médio, só há dois caminhos. O da guerra ou o da diplomacia. Sentar à mesa não quer dizer que os EUA estejam dispostos a entregar uma parte do Iraque ao Irã, por exemplo. Sentar à mesa quer dizer apenas que se pretende evitar a continuidade da guerra ou o risco de outras guerras.
Como Yitzhac Rabin disse, e o Elias costuma repetir cá nos comentários do Weblog, negociação se faz é com inimigos, mesmo. Com os amigos, ela não é necessária.
Quando o Hamas foi eleito para o governo palestino, o Ocidente o rejeitou. Então o Hamas tomou Gaza. Quando o Hizbolá foi tomar parte do governo libanês, os norte-americanos o rejeitaram. Agora, o Hizbolá tomou parte de Beirute. Os paralelos não são exatos, claro. O Hamas venceu as eleições de forma convincente. O Hizbolá era minoria no governo do Líbano. Quando o Hizbolá deixou o gabinete do premiê Fouad Siniora foi por conta das políticas pró-EUA deste e porque, com poucos votos, não tinha como mudá-las. Assim como os palestinos, os libaneses não querem uma república islâmica. Mas quando Sayed Hassan Nasrallah, líder do Hizbolá, falou que uma ‘nova era’ estava surgindo no Líbano, ele falava seriíssimo.
Nada está certo no futuro do Líbano. O governo, no entanto, se sustenta por um fio e o Hizbolá terá muito mais espaço no próximo regime. (Isto, se não decidir partir para o golpe e assumir o governo completamente.)
O Hizbolá representa os xiitas. Mas responder quantos são os xiitas, no Líbano, não é trivial. O último censo oficial foi há mais de 70 anos. O New York Times estabelece assim: 35% muçulmanos xiitas, 25% cristãos maronitas católicos, 25% muçulmanos sunitas, 10% cristãos outros, 5% muçulmanos drusos. Os xiitas, portanto, são maioria. Mas sunitas, drusos e cristãos costumam ter mais facilidade de se entender entre si.
Um Líbano dominado pelo Hizbolá teria que conseqüências para a região? (Por enquanto, Israel treme.)
O Hizbolá vem sendo financiado por Irã e por Síria. Os dois países têm interesses distintos. A Síria tem uma disputa territorial e geopolítica com Israel. Israel atrapalha militar, diplomática e financeiramente a influência síria sobre o Líbano e há uma velha briga pela posse das Colinas de Golan.
O problema do Irã, por sua vez, é ideológico, religioso e de uma geopolítica mais ampla. Teerã nega a Israel o direito de existir e vê sua oposição ao país como uma peça num conflito maior, com os EUA. Além do mais, o Hizbolá, como o governo iraniano, é xiita.
A população xiita, na Síria, é pequena e o governo, uma ditadura secular, usa com muita cautela qualquer discurso religioso. Prefere insuflar o espírito nacionalista. O Hizbolá o interessa porque mantém pressão indireta sobre Israel. Em outras palavras, a ligação Hizbolá-Síria é mais frágil do que a Hizbolá-Irã.
Já há em Israel quem defenda uma negociação com a Síria. Em troca de a Síria abrir mão de Golan, Israel não se opõe a uma tomada do Líbano. Melhor do que ter no vizinho um representante do Irã.
Hoje, é um cenário improvável.
Que Hizbolá seria esse no comando do Líbano? Um Hizbolá mais sírio ou mais iraniano? Para os países árabes, Egito, Arábia Saudita e outros tantos, a conversa com os sírios é amena; com o Irã, tensa. Um Irã potencialmente nuclear com o Líbano e boa parte do Iraque sob sua área de influência é ver surgir uma nova potência no Oriente Médio. Um cenário talvez bizarro que poderia fazer do mundo árabe e Israel curiosíssimos parceiros.
A ‘nova era’ prometida por Nasrallah não é apenas libanesa. Algo de muito diferente pode surgir nos próximos meses.
A única coisa certa: o Líbano segue sendo um peão no jogo de outros.
Hoje é Yom Haatzmaut. Ou Nakba. É o Dia da Independência, em Israel; ou a Catástrofe, para os Palestinos. O Estado judaico foi inaugurado na Terra Santa em 14 de maio de 1948 – pelo calendário judaico, cairia na sexta-feira próxima. Para não se chocar com o Shabat, dia santo, anteciparam.
É hoje.
Em 1881, viviam na Terra Santa, que fazia parte do Império Otomano, 450.000 árabes e 25.000 judeus. A partir do Caso Dreyfuss, na França, vários setores das população judaica européia começaram a se dar conta de um crescente anti-semitismo no continente. Esta tensão inspirou vários processos migratórios, principalmente para os EUA. Mas também nasceu, ainda no século 19, o Movimento Sionista, que pregava o retorno à terra da qual haviam sido expulsos pelo Império Romano.
Os primeiros sionistas eram judeus pobres porém bem educados, socialistas, que pregavam a vida em comunas. Juntavam suas economias e aproveitavam a doações da comunidade judaica européia para comprar terras e erguer fazendas nas quais todos dividiam as tarefas. Conforme a Primeira Guerra cedeu lugar à Segunda, a migração começou a aumentar em larga escala. Era gente fugindo do terror que se avizinhava. Após a Segunda Guerra, judeus em grandes campos de refugiados na Europa serviram à pressão diplomática para a oficialização de um Estado Judaico na Palestina.
Mas lá já viviam árabes.
Israel tem pai. Chama-se David Ben-Gurion, o líder da comunidade judaica na Terra Santa. ‘Por que os árabes deveriam querer paz?’, ele se perguntou ainda em vida. ‘Nós pegamos o país deles. Claro, sei que Deus nos prometeu essa terra, mas o que isso tem a ver com eles? O nosso não é o Deus deles. Nós todos viemos originalmente de Israel, também é verdade. Mas isso foi há dois mil anos. O que eles têm a ver com isso?’ Ben-Gurion era um pragmático.
Por sua vez, os palestinos tinham muitos líderes. Um dos mais marcantes foi o grão-mufti de Jerusalém Mohammad Amin al-Husayni, escolhido a dedo pelos britânicos quando assumiram o controle da Palestina após o colapso do Império Otomano. Durante boa parte dos anos 20, foi um aliado do governo de Sua Majestade. Os britânicos, no entanto, faziam um jogo duplo. Pressionados por judeus de um lado e árabes do outro, faziam promessas igualmente tentadoras para ambos. Quando a Segunda Guerra estourou, al-Husayni não teve dúvidas em bandear-se para o lado nazista. Era um anti-semita convicto.
Cada vila árabe na Palestina funcionava de forma autônoma e tinha liderança própria, alguns fiéis ao mufti, outros nem tanto. Os principais líderes árabes nos países vizinhos – Ibn Saud, na Arábia Saudita, os reis irmãos Abdullah, da Transjordânia, e Faisal, do Iraque, Farouk I do Egito e o presidente sírio Shukri al-Quwatli tinham seus próprios projetos de anexação, além de não confiarem muito no mufti.
Quando, em 1947, a ONU decidiu pela divisão da Palestina em dois territórios, um que formaria o país árabe, outro o judaico, o conflito implodiu. Os países árabes tinham exércitos razoavelmente poderosos. A Haganá, força paramilitar considerada ilegal pelo governo britânico que funcionava sob comando de Ben-Gurion mal tinha rifles velhos. Foram à Europa comprar armas, munição e carros blindados dentre a sucata da Segunda Guerra. Tudo feito às pressas mas com razoável organização. O dinheiro para pagar a conta vinha de judeus americanos endinheirados. Enquanto isso, os árabes discutiam entre si como dividiriam o território que pretendiam conquistar sem jamais chegar a algum consenso. Estavam mal organizados. Não que do lado judaico tudo fosse claro – além da Haganá, lutaram a guerra duas organizações terroristas, a Stern Gang e a Irgun, que não reconheciam a liderança de Ben-Gurion.
A guerra foi, na verdade, duas: uma, civil, não declarada, se deu em vários conflitos e ataques terroristas de ambas as partes entre 1947 e o dia da Independência. A segunda é a invasão pelos países árabes de Israel.
Na primeira, enquanto havia razoável união judaica e um objetivo comum, o mesmo não houve entre palestinos. Havia dois árabes para cada judeu na Terra Santa, mas não conseguiram fazer com que a vantagem numérica tivesse resultado prático. Nem todos seguiam o mufti e as aldeias não se relacionavam. Divididos, não tiveram chances. O grupo de novos historiadores israelenses não têm dúvidas de que Ben-Gurion, embora jamais tenha dado ordens claras, incentivou a expulsão de palestinos de suas terras. Se os árabes não tivessem partido para o conflito primeiro, ele jamais teria tido a desculpa; se não expulsasse um bom número de palestinos, seu Estado judaico não teria maioria judaica.
Nas contas de um destes historiadores, Benny Morris, 700.000 palestinos cujas famílias viviam há séculos no mesmo local foram lançados ao exílio. Morris mapeou 389 aldeias árabes na região. Segundo sua pesquisa, pode afirmar que em 49 delas a Haganá ou outro grupo judaico expulsou a população; em 62, os árabes fugiram por conta dos boatos de que massacres estavam acontecendo nas vizinhanças; em seis, a fuga foi seguindo ordens diretas da liderança política palestina. Ataques terroristas, a explosão de casas, hotéis e mercados judaicos davam a resposta palestina.
Conforme a guerra civil corria, temendo que um genocídio pudesse ocorrer, os EUA retiraram apoio à idéia de partição. Isto, e um silêncio obsequioso britânico, deu aos árabes a impressão de que a comunidade internacional não rejeitaria seu ataque. Se tivessem vencido, talvez não rejeitasse mesmo. Egito, Iraque, Síria e Transjordânia invadiram a Terra Santa no momento em que os britânicos a deixaram. Um dos principais líderes militares árabes era um oficial inglês, o general e lorde John Bagot Glubb. Com Israel recém-nascida, Ben-Gurion fez dissolver Stern Gang, Irgun e Haganá e os juntou num exército que batizou, como convinha à época, de Forças de Defesa de Israel. Os países árabes, em conjunto, representavam uma população de 40 milhões de habitantes; a população judaica de Israel não chegava a 2 milhões. A guerra durou quase um ano e Israel rechaçou os invasores. Vários tratados de armistício foram assinados em princípios de 1949.
Israel nascera.
No total, morreram 12.000 palestinos, 6.000 judeus, 1.400 egípcios, e centenas de iraquianos, trasjordanianos e sírios.
Até 1950, uma série de pogroms, passeatas anti-semitas, incêndios de casas e sinagogas, explosões de bombas e assassinatos ocorreram em quase todos os países islâmicos – Egito, Iraque, Síria, Irã, Iêmen e Líbia. O resultado foi a expulsão de 500.000 judeus das casas nas quais suas famílias viviam fazia séculos e sua conseqüente migração para Israel. Estes, em grande parte, viriam a compor o primeiro eleitorado do Likud, o conservador partido linha-dura israelense.
Se naquela decisão de 1947 a ONU tivesse optado por não dividir a Palestina e não estabelecer um Estado judeu, ainda assim haveria a guerra. A diferença é que o lado judaico a iniciaria. O processo, nascido do pesado anti-semitismo que assolou a Europa entre os séculos 19 e 20, e do colapso dos impérios otomano e britânico, estava em curso fazia tempo.
Está em curso, diga-se. Há 60 anos.
Sim, a história é complicada. Talvez alguns de vocês queiram discutir a maneira como a conto. Há muitas versões – procurei ser o mais isento possível, tarefa que na verdade é impossível. Mas tenta-se, ainda assim. Principalmente, tenhamos uma discussão civilizada a respeito de Israel e Palestina. Civilizada quer dizer algo simples: podemos ter idéias fortes, podemos ter convicções profundas, mas respeitemos aqueles com quem não concordamos. Não vamos partir do princípio de que o outro age de má-fé. Esta é uma história que mexe com razão e com emoção ao mesmo tempo. Convicções são honestas. Lealdade para com o adversário também.
Israel parou hoje em memória às vítimas do Holocausto. (Fotos.)
As sirentes anti-aéreas soaram, como é de praxe no 1o de maio, quem estava de carro parou, quem estava nas ruas voltou os olhos para o chão. Por dois minutos. Ao fim deles, no Knesset, teve início o ritual da leitura dos nomes de cada uma das seis milhões de vítimas.
Yehezkel Dror, cientista político israelense, traça dois cenários para Israel em 2040:
No primeiro, houve um aumento populacional de 50%, dois terços dos judeus do mundo vivem lá e quatro quintos da população é judia. O quinto restante é composto por cidadãos árabes que aceitaram a identidade judaica do Estado graças às políticas anti-discriminatórias e à criação do Estado da Palestina. O país está florescendo graças a uma economia baseada no conhecimento, uma vida cultural intensa, uma sociedade justa e boas relações comerciais com o Oriente Médio. Um balanço sereno entre valores sionistas e humanistas permeia as coisas públicas e o cotidiano das pessoas. Reformas estabilizaram o sistema político. Transporte público eficiente minimizou as distâncias já pequenas do país, encorajando mobilidade. Muitos cidadãos dividem seu tempo entre a vida em Israel e em outros países.
No segundo cenário, apenas metade dos judeus do mundo vivem em Israel, eles compõem dois terços da população – e diminuindo. ‘Sionismo’ virou um termo ao qual os jovens se referem fazendo graça. No resto do mundo, judeus vêem Israel como crescentemente retrógrada e irrelevante. Internamente, uma teimosia domina grupos distintos. Pressão interna e externa força o país a um processo amplo de democratização que abandone a característica sionista e garanta aos árabes israelenses maior autonomia. Os melhores e mais bem preparados emigraram e a economia vai mal. Os diversos grupos populacionais se guetificaram. A distribuição de renda é ruim. Uma Palestina declarada unilateralmente é hostil e o conflito constantemente ameaçado. O fundamentalismo islâmico cresce. Qualquer possibilidade de um acordo de paz com os vizinhos – agora com armas de destruição em massa – parece distante.
Estar perante vocês é uma grande honra. O Holocausto enche a nós, alemães, de vergonha. Me curvo perante as vítimas. Me curvo perante os sobreviventes e todos aqueles que os ajudaram a sobreviver.
Este ano, Israel celebra seus 60 anos. São 60 anos lutando pela paz, 60 anos da construção de um país, 60 anos absorvendo imigrantes. Como já disse mais de uma vez, a Alemanha aprova a idéia de dois Estados com fronteiras pacíficas. A nação judaica de Israel e a nação palestina de nome Palestina. Temos consciência de que isto exigirá força e concessões dolorosas. Estabilidade na região não interessa apenas a vocês. Estabilidade também afeta a Alemanha e a Europa.
Não cabe ao mundo provar que o Irã busca uma arma nuclear. É ao Irã que cabe provar que não procura. Se o Irã não aceitar isto, a Alemanha apoiará novas sanções. Se o Irã obtiver armas nucleares, as conseqüências seriam perigosas.
É aqui, neste lugar, que quero enfatizar: todo governo alemão e todo chanceler anterior a mim teve um compromisso especial, uma responsabilidade particular alemã, pela segurança de Israel. Esta responsabilidade histórica é parte da política de meu país. Isto quer dizer que para mim, como chanceler da Alemanha, não há negociação possível que comprometa a segurança de Israel.
Angela Merkel, chanceler alemã, agora há pouco, no Knesset. É a primeira governante alemã a discursar perante o parlamento de Israel.
Fundador do Partido Comunista de Israel, Pappé é parte de uma grande geração de novos historiadores israelenses que encararou de frente a história oficial para tentar descobrir o que exatamente aconteceu nas décadas anteriores à fundação de Israel e nos anos seguintes à criação do país.
Todos estão convidados a ler o livro e participar da conversa, numa série de posts e comentários publicados em 9 de junho, segunda-feira. Dá tempo para a Amazon entregar o livro e um tanto para a leitura.
Argumentos não nascem no ar e não é possível questionar o que Pappé diz sem contrapor com as descobertas e interpretações dos mesmos eventos de outros historiadores e analistas. Por isso, ao meu lado terei outros dois livros: The Birth of the Palestinian Refugee Problem (na Amazon UK, a edição inglesa via Livraria Cultura, mais barato comprar nos EUA) – O berço do problema dos refugiados palestinos, de Benny Morris – e The Case for Israel (na edição brasileira, na Amazon UK, em francês) – Uma defesa de Israel, de Alan Dershowitz.
Morris é um historiador da mesma geração de Pappé, de centro-esquerda, extremamente crítico da lida com a questão palestina. Mas não é contra Israel como seu colega.
Alan Dershowitz é professor de direito de Harvard, polemista, difícil de encaixar no espectro ideológico. De direita, a maioria das vezes, mas um defensor contumaz da pornografia e crítico freqüente do direito do cidadão de se armar.
Assim como Pappé, que hoje é professor da tradicional universidade britânica de Exeter, os outros dois têm um currículo acadêmico irretocável, trabalharam e estudaram em universidades de alto nível. Este é um dos critérios que determinaram estas escolhas. O outro é que representam facetas distintas do espectro ideológico.
Minha definição de tragédia é o choque entre quem está certo e quem também está certo. Neste sentido, o conflito entre Israel e Palestina é uma tragédia, o confronto entre um poderoso, convincente e doloroso argumento pela posse desta terra e outro igualmente poderoso, convincente e doloroso argumento. Este tipo de conflito pode ser resolvido de duas formas. A tradição shakesperiana resolve a tragédia com o palco, no final da peça, coberto de corpos mortos. Mas também há a tradição de Anton Tchekov. Na conclusão de uma tragédia de Tchekov, todo mundo está desapontado, desiludido, amargurado, todos têm o coração partido. Mas estão vivos. O que busco não é um fim sentimental de amor fraterno, de uma repentina lua de mel entre israelenses e palestinos. A mim, basta um final à moda de Tchekov.
O que sinto é que pela primeira vez em cem anos de conflito, os dois povos, israelenses e palestinos, estão à frente de seus líderes. Os dois povos sabem que, no fim, haverá dois países. Não gostam da solução. Você vai encontrar milhares de pessoas frustradas em ambos os lados. Mas eles sabem. Se você fizer uma pesquisa perguntando a todo judeu israelense e todo árabe palestino ‘o que você considera uma solução justa?’, ‘o que você acha que acontecerá no fim das contas’, imagino que a vasta maioria responderá que é o compromisso com a solução que prevê dois Estados. É um avanço.
As duas nações são atormentadas pelo passado. O judeu israelense quanto o árabe palestino são vítimas da Europa de duas formas distintas. Os árabes sofreram com o colonialismo, o imperialismo, a opressão e a exploração. Os judeus com a supressão, a discriminação e, por fim, com o genocídio. Agora, as duas vítimas do mesmo opressor não se tornam necessariamente irmãos. Dois filhos do mesmo pai cruel não necessariamente e abraçam. Às vezes, as piores rivalidades, na vida particular ou na pública, são justamente os conflitos entre duas vítimas do mesmo opressor. Dois filhos do mesmo pai cruel olham um para o outro e vêem a imagem daquele pai cruel, a imagem de seu opressor passado. É o que acontece entre o judeu e o árabe. É o conflito entre duas vítimas.
A atual política de Israel é um desastre. A promoção de uma carnificina na Palestina – sem esquecer a do Líbano – é uma tragédia humana. É também estúpido. Israel nasceu como a esperança de vida após uma das maiores tragédias da história humana. É uma esperança que o governo da coligação Kadima e Partido Trabalhista, hoje no poder, trai por incompetência, insensibilidade e a mais pura estupidez. Os facínoras estão no comando. Saudades de Yithzak Rabin.
O debate está ficando difícil. Na semana passada, meu amigo Marcos Guterman – que sempre argumentou pela linha da esquerda pacifista israelense – pediu o boné. Perdeu a graça para ele fazer o blog. Entre pessoas que defendem a causa palestina sempre há um jeito de os bons e velhos anti-semitas se misturarem. E raramente são condenados.
Não tenho qualquer pretensão – e jamais tive – de isenção nesta história. Laços de sangue e amizade me aproximam de Israel. Faz parte da minha identidade. Mas é justamente por querer o bem de Israel que quero o bem da Palestina. A Palestina faz parte da identidade de Israel como Israel faz parte da identidade da Palestina. É uma relação que existe desde que há civilização no mundo. O judaísmo está entranhado em cada esquina de Jerusalém; está marcado na ausência do Templo acima de seu monte. O Islã está igualmente em cada esquina, igualmente entranhado – assim como a pedra de onde subiu aos céus o profeta, perto de onde a belíssima cúpula dourada de al-Aqsa se ergue. Israel não será possível sem a Palestina. E a Palestina não será possível sem Israel.
Já achei, noutros tempos, que havia legitimidade para o argumento de que sequer havia palestinos ali – eram todos árabes sem uma identidade nacional própria. Besteira. Mas ainda há muita gente que não percebe o quanto a identidade judaica faz parte daquela terra, o quanto é íntima de sua cultura que sempre rezou pelo ano que vem em Yeroshalaim.
O Hamas se recusa a aceitar a existência de Israel. O governo de Israel, traindo sua história milenar de sofrimento pela opressão, reage com destruição e a mesma opressão. No meio do processo, o diálogo se perde de vez.
O sinal de que o diálogo se perdeu de vez está no ato do Guterman de pedir o chapéu. E está na resposta agressiva que um amigo querido escreveu para meu último post. Discordar é do jogo. Quando você vem com virulência, ao menos é de praxe alertar antes com uma mensagem. Um gesto ao menos de cortesia se espera no debate. Mas nem isso. A irracionalidade venceu de vez a partida quando um sujeito cordial e literato do quilate do Idelber Avelar perde até a capacidade de interpretar texto.
Uma de suas críticas ele pesca de uma frase minha: Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. Isolado do contexto, é um horror. Mas o parágrafo começa com ‘o raciocínio do Hamas é o seguinte’, dois pontos. Aí lista. O Hamas acredita no sacrifício humano. Não sou eu que digo. O que diz são seus programas infantis de tevê. As aulas em suas escolas. Eles preparam homens-bomba! Se isso não pode ser interpretado como ‘morrem sem se preocupar’, o que pode? Eu não acho que o Hamas represente o que pensam os palestinos todos. É por isso que após descrever como é o Hamas, concluo: A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim. Mas o Idelber esqueceu de ler o final. Mobilizado, estava cego. Tinha tirado uma conclusão a respeito do que penso e esqueceu de ler o que de fato escrevi.
Foi também isto que fez quando voltou a meus posts sobre o Líbano. Sim, eu disse no início do conflito que Israel tinha o direito de se defender. Depois disse que o ataque foi um ato covarde. Demorei alguns dias para chegar a tal conclusão? Sim. A guerra demorou alguns dias para se revelar em toda sua crueza. É o contexto no qual tais posts foram publicados. Caracterizar minha opinião por um trecho sem incluir o fato de que revi a posição depois é o quê? Não tenho nenhuma dificuldade de rever posições quando cabe. Só não quero ser acusado pelo que pensei e não penso mais.
Daí Idelber segue para mais uma frase pinçada. O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? O Hamas se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. É fato. Está no programa do Hamas o objetivo de acabar com Israel. É fato. Que este objetivo seja colocado de lado para conversar a paz é uma condição, no mínimo, razoável. Conversas de paz começam com a pressuposição de que as partes não desejam mais a mútua destruição. E não uso este argumento, em momento algum, para legitimar a política destrutiva de Israel. Nada legitima o que o governo de Israel está fazendo. Quem lê o Idelber sai com a impressão de que estou justificando uma coisa, não outra.
Idelber me acusa de estar justificando atos israelenses num post em que os condeno. Antes de mergulhar numa peça de Ionescu ou Beckett, num romance de Kafka, é melhor jogar a toalha.
Não pretendo voltar ao assunto Israel, Palestina tão cedo. Trégua. O que ele produz é isso: até os amigos queridos param de ouvir o que você está dizendo para interpretar o que julgam ser o discurso de alguém que defende Israel. Não tenho ânimo de entrar numa discussão histórica sobre o que houve em 1948. Cansa a perspectiva da repetição dos mesmos argumentos de um lado, de outro, a inevitabilidade da surdez de ambas as partes. Cansa a perspectiva de saber que alguém lançará mão da palavra Holocausto e que ela sempre estará num contexto que fere – porque é impossível lançar mão do Holocausto sem ferir. Cansa a perspectiva de ter que discutir com gente que a gente gosta. E de ter que ouvir todos aqueles que aproveitam-se do discurso legítimo de defesa da Palestina para levantar de novo, discretamente, sutilmente, como se nada quisessem, o mesmo discurso que levou ao pesadelo dos anos 1940. É fácil dizer que não aconteceria mais. O vampiro de Dusseldorf está sempre à espreita.