Tudo publicado sobre 'Iraque'
Barack Obama só chegou ao Iraque hoje, mas a edição mais recente da revista alemã Der Spiegel já lhe trazia uma boa notícia no fim de semana. São as palavras do premiê iraquiano Nouri al-Maliki: ‘Os EUA devem deixar o Iraque tão logo seja possível’, ele disse. ‘O candidato Barack Obama fala de deixar em 16 meses. Esta, imaginamos, seria uma boa perspectiva, com a possibilidade de pequenas mudanças.’
John McCain tem batido sistematicamente em Obama neste quesito. Ele argumenta que o candidato democrata entende pouco do que está acontecendo no Iraque e é imaturo para avaliar. Esta viagem de Obama à Ásia Central e Oriente Médio é um bocado defensiva, para poder dizer que esteve lá recentemente e que conversou com os comandantes.
Mas, quando o governo do Iraque diz que ele está certo, tudo muda de figura.
Al-Maliki, evidentemente, está de olho também na política interna de seu país. Ele, que assinou a ordem de execução de Saddam Hussein, é xiita. Os xiitas querem o controle do Iraque e, como são maioria, têm chances de conseguir. Xiita mas não excessivamente religioso. Anda de terno e gravata e não com vestes tradicionais. Ouve o clero, mas aproveita o que quer de seus conselhos e dispensa o resto. É de família tradicional. Seu avô foi ministro do rei Faisal I, irmão do avô do atual rei da Jordânia, quando o Iraque era uma monarquia. Prestar um favor ao futuro presidente dos EUA por certo renderá pontos. É uma aposta, claro, mas o tipo de aposta que ressoa bem em casa. O que ele está dizendo qualquer um que esteve no Iraque repete: querem os norte-americanos fora.
O fato é que McCain foi jogado para a defensiva. Até agora, vinha fazendo seu discurso na posição de veterano de guerra, filho e neto de almirantes, especialista em política externa perante o jovem e desqualificado oponente na eleição. É um papel difícil de sustentar quando o governo que os EUA deveriam estar ajudando concorda com a avaliação de Obama.
Neste momento, al-Maliki está sob pressão, já disse que foi mal interpretado. Qual que nada, o estrago foi feito. Um bocado de pressão também deve estar sobre o presidente Jalal Talabani. É o mínimo com o qual McCain pode esperar: ao menos a impressão de que o governo iraquiano está dividido. Mas Talabani está em silêncio e cada dia em que este silêncio se mantém, mais alto ele fala.
Do Oriente Médio, Obama seguirá para a Europa. Na Alemanha, fará um discurso para mais de um milhão de pessoas aos pés da Coluna da Vitória erguida pela Prússia nos tempos de Otto von Bismarck. Ele queria falar à frente do Portão de Brandenburgo, mesmo local em que John Kennedy disse ‘Ich bin ein Berliner’ e, anos depois, Ronald Reagan pediu a Mikhail Gorbachov que derrubasse ‘aquele muro’. É o local onde presidentes dos EUA foram grandes.
Foi com toda razão que o governo alemão gentilmente negou-lhe o espaço. Seria uma intromissão violenta na política interna norte-americana permitir a Obama que fosse filmado qual Kennedy ou Reagan perante um milhão de alemães. Mas é bem possível que as imagens tenham esta aparência de sucesso majestoso de qualquer jeito. Obama é popular na Europa.
(Não custa dizer: é exatamente o tipo de intromissão que al-Maliki cometeu. Mas ele deve ser perdoado. Seu país, afinal, está invadido. Ele tem interesse direto no resultado do pleito norte-americano.)
Tudo, é claro, pode ser posto a perder com uma gafe. É o maior fantasma ao redor de Obama. Se tudo der certo esta semana, ele volta com a imagem de um líder respeitado e admirado no exterior. É o tipo da coisa que os norte-americanos sentem falta. Depois de George W. Bush, tudo o que querem é um novo Kennedy, um novo Reagan. É esta a imagem que Obama quer vender.
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Mais soldados ocidentais morrem em batalha no Afeganistão, hoje, do que no Iraque. O Talibã está fortalecido, a chefia da al-Qaeda circula com facilidade. Na área de fronteira com o Paquistão, nenhum governo manda.
Há meses, o cenário eleitoral norte-americano, no que tange política externa, se resume assim: John McCain quer ficar no Iraque, Barack Obama acha que o foco deveria ser na fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Os fatos estão obrigando McCain a mudar.
Mas a política é de difícil costura. Primeiro, por causa do Irã.
EUA e Israel vêm mantendo forte pressão sobre o Irã, nos últimos meses. Cogitar uma guerra é irreal – a OTAN não vai se empenhar, a desastrada aventura no Líbano deixou o governo israelense capenga e os EUA não têm força. Um bombardeio é possível. O Irã revidaria com tanta força quanto possível. Primeiro, com mísseis contra Israel; depois, no Afeganistão e no Iraque, países com os quais faz fronteira.
O presidente afegão Hamid Karzai tem se equilibrado nesta linha fina. Elogia Bush, elogia Ahmadinejad. Ele não tem escolha. Precisa do apoio iraniano para reerguer o país. E a lição que teve é de que os EUA ajudam, mas esquecem rápido.
Nos EUA, faz um bocado de diferença. A força de McCain é que, para o eleitor, ele parece entender mais de Forças Armadas do que Obama; Obama, por sua vez, inspira mais confiança na economia, que anda em frangalhos e ameaçando piorar. Há anos Obama diz que o Iraque é uma distração enquanto McCain insiste que é o principal palco na luta contra o terrorismo. Até há pouco tempo, a percepção de que havia melhoras no Iraque favorecia John McCain. Com o acirramento do conflito no Afeganistão, a impressão pode passar rapidamente.
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Na década de 20 do século passado, o arqueólogo inglês Leonard Woolley escavou cinco tabuleiros de um jogo das tumbas reais de Ur, a antiga cidade da Suméria localizada no atual Iraque. O mais luxuoso deles misturava pedras coloridas várias cuidadosamente encaixadas e data de 2.600 a.C.
Com o tempo, novos tabuleiros ou indícios de sua existência foram descobertos no Irã, Síria, Egito, Líbano, Sri Lanka, Chipre e Creta.
Ele ficou conhecido como o Jogo Real de Ur. E ninguém sabia como jogá-lo até que Irving Finkel o descobriu.
Desde menino, Finkel era fascinado com o mundo dos jogos de tabuleiros e o da Mesopotâmia. Na universidade, estudou a escrita cuneiforme e, em 1979, foi contratado pelo Museu Britânico como especialista para decifrar a coleção 130.000 de tabletes de argila. Num deles, descobriu instruções.
Cuidadosamente, ao longo dos anos, ele recuperou a forma de jogar o Jogo Real de Ur, fez o Museu botar a venda uma reprodução com instruções, descobriu sua história.
O Jogo Real de Ur foi o mais popular da antigüidade até que, uns 2.000 anos atrás, ele morreu de vez, substituído por outro jogo bem mais sofisticado no seu equilíbrio entre sorte e técnica. O Gamão.
Ou quase morreu: há alguns anos, folheando uma obscura revista técnica israelense de arqueologia e história, Finkel passou por fotos da comunidade judaica de Cochin, na Índia. Eram imagens do início do século 20 e, ali no meio, havia um tabuleiro de jogo. Era do Jogo Real.
Não há mais judeus em Cochin, todos vivem em Israel. O velho professor rastreou, num kibutz, uma senhora que ainda tinha memória de como jogar. Pegou um avião para encontrá-la. Havia algumas modificações nas regras, mas era ele próprio. Passaram uma tarde gasta em partidas. Ainda vivo até, ao menos, o início dos 1900s.
(No site do Museu Britânico, há uma versão online para ser jogada. É preciso instalar o plugin Shockwave.)
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Em 1990, Mike Goodwin estabeleceu o princípio reductio ad Hitlerum na Internet: ‘conforme uma discussão na rede se estende, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de 1′. É a Lei de Goodwin. Os ânimos se exaltam e alguém terminará chamando o outro de Hitler. Na política do belicismo, relembrar 1939 é também um argumento sempre levantado – e George W. Bush não foi o primeiro, tampouco será o último a fazê-lo.
O argumento segue assim, sucintamente: o inimigo é muito perigoso, buscar conversa é coisa para ingênuos, é repetir o que lord Chamberlain fez com Hitler. Um, por assim dizer, reductio ad Chamerlainum.
O argumento, como cabe aos argumentos simplistas, além de hiperbólico é falacioso. Neville Chamberlain, o premiê britânico anterior a Churchill que o Partido Conservador gostaria de esquecer, de fato é responsabilizado por não ter sido agressivo o suficiente durante os anos 30 perante a Alemanha Nazista. Mas seu pecado não foi conversar, tampouco o de fazer diplomacia.
Seu pecado foi, em 1938, assinar o Tratado de Munique.
Como Hitler já demonstrava desejos imperiais, Chamberlain concordou em permitir que a Alemanha anexasse metade da Tchecoslováquia em troca de ele se restringir a isto. Bem – entregar um país de bandeja não adiantou de nada.
O problema não foi diplomacia: foi entregar um país em troca de uma vaga promessa de paz.
A comparação entre o Irã e a Alemanha Nazista (ou o Hamas e o Partido Nazista) não é inadequada apenas por conta disto. É inadequada também porque a Alemanha era, provavelmente, a maior potência militar de seu tempo. A relação diplomática se dava com um inimigo que, se quisesse, tinha chances concretas de conquistar a Europa inteira. (Como, aliás, quase fez.) O Irã não chega sequer perto. E para o Hamas, coitado, até a conquista da Cisjordânia parece ambicioso demais.
Isto não quer dizer que Irã e Hamas não tenham algum potencial de destruição. Numa região em crise, como é o caso do Oriente Médio, só há dois caminhos. O da guerra ou o da diplomacia. Sentar à mesa não quer dizer que os EUA estejam dispostos a entregar uma parte do Iraque ao Irã, por exemplo. Sentar à mesa quer dizer apenas que se pretende evitar a continuidade da guerra ou o risco de outras guerras.
Como Yitzhac Rabin disse, e o Elias costuma repetir cá nos comentários do Weblog, negociação se faz é com inimigos, mesmo. Com os amigos, ela não é necessária.
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‘A morte era o mínimo que ela merecia’, diz Abdel-Qader. ‘Não me arrependo. Tive o apoio de meus amigos, que também são pais e, portanto, sabem o que é aceitável ou não para qualquer muçulmano que honre sua religião’, ele disse.
Sentado em frente à sua porta, cercado por gérberas e margaridas brancas que ele plantou no jardim da família, Abdel-Qader se justifica.
‘Não tenho mais uma filha e prefiro dizer que nunca tive uma. Essa menina me humilhou na frente da família e dos amigos. Ao conversar com um soldado estrangeiro, ela perdeu o que há de mais precioso para uma mulher. Talvez as pessoas do ocidente se choquem, mas nossas meninas não são como as filhas de lá que podem dormir com o homem que quiserem e às vezes engravidar sem ter casado. Nossas meninas devem respeitar sua religião, sua família e seus corpos.’
‘Agora, só tenho dois filhos. Aquela filha foi um erro em minha vida. Sei que Deus me abençoa pelo que fiz’, ele disse, sua voz soa honrada. ‘Meus filhos estão do meu lado e eles foram homens o suficiente para me ajudar a terminar a vida de alguém que nos trouxe vergonha.’
A filha de Abdel-Qader se chamava Rand. Tinha 17 anos. Foi espancada e morta por seu pai em Basra, no Iraque, por ter conversado com um soldado britânico. Para uma amiga, ela disse que estava apaixonada pelo rapaz. Era seu primeiro amor. Não trocou mais que palavras. Horrorizada, a mãe da Rand, pediu o divórcio. Foi espancada, teve o braço quebrado. Está escondida. Os irmãos mais velhos da moça ajudaram o pai. São muçulmanos xiitas.
Abdel-Qader ficou detido por duas horas na delegacia. Aí foi liberado. Os policiais o congratularam.
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Na semana passada, incontáveis especialistas testemunharam perante o Senado norte-americano a respeito do Iraque. O argumento defendido pelo presidente George W. Bush e o candidato republicano John McCain é conhecido: o aumento de soldados no Iraque fez, nos últimos meses, com que a violência diminuísse. Esta trégua, se persistente, permitirá ao governo do Iraque que se consolide e que um Estado nacional estável nasça das cinzas do regime de Saddam Hussein.
Há muita gente que diz o contrário. Mas seu argumento é menos agradável de ouvir. O general da reserva William Odom, que comandou os serviços de inteligência militar no governo Ronald Reagan e atualmente é professor da Universidade de Yale, foi um dos que o apresentou.
O maior sucesso alegado pelo governo é a pacificação de várias províncias no centro-norte do país, de origem árabe sunita. É a turma da etnia e religião de Saddam.
No primeiro momento após a invasão, sentindo-se derrotada, esta trupe convidou ao país quem estivesse disposto a lutar contra os estrangeiros. A al-Qaeda – um grupo sunita e, em geral, árabe – veio por conta. Mas o racha entre os clãs sunitas iraquianos e a al-Qaeda veio antes do aumento do número de soldados dos EUA. Entraram em conflito pelo poder e os chefes locais os puseram para fora. Hoje, como segue a tradição milenar árabe, cada chefe local tem o controle de sua região. O Iraque árabe-sunita, que fora unificado por Saddam Hussein a base de violência extrema, está fragmentado.
A ‘paz’ trazida pelos EUA tem a ver com várias questões. A primeira é que, após um período inicial de conflito, o Iraque sunita voltou ao seu ‘estágio natural’. Os clãs tradicionais diversos assumiram o controle de sua região. A violência que existe se dá pela disputa entre clãs. E eles mantém uma certa estabilidade porque são pagos pelos EUA para isso. Em algumas regiões, informa o general Odom, a lealdade vem ao custo de 250.000 dólares por dia em ‘taxas’ que os norte-americanos pagam.
Os resultados são dois. Primeiro, a al-Qaeda não tem chances de se firmar no Iraque. Estrangeiros não disputarão poder que é dos locais. Segundo, o conflito entre clãs é inevitável. Cada um está montando seu exército particular. Há séculos que é assim na Mesopotâmia. O choque entre eles virá com os EUA lá ou sem. Até que, sugerem os pessimistas, um novo Saddam Hussein surja com mão de ferro.
O Iraque é composto de uma maioria árabe-xiita, os árabes-sunitas e os curdos-sunitas. Estes últimos, principais vítimas do governo Saddam, eram os maiores parceiros norte-americanos. Mas os desejos de independência curda não são um problema apenas no Iraque. Também o são na Síria, no Irã e na Turquia. Quando a Turquia fez sua ofensiva militar dentro do território iraquiano contra os curdos os EUA tiveram que fazer uma escolha. Ou traíam o governo turco, parceiro militar na OTAN. Ou traíam os curdos. No jogo geopolítico, a Turquia era mais importante. Mas ao fechar os olhos dos curdos, deixou clara uma mensagem: os EUA não apóiam os desejos de independência curda e não lhe serão fiéis em qualquer disputa na região. Assim, os EUA perderam o apoio de curdos.
Por fim, restam os xiitas do sul. Não custa lembrar que, embora dividam a religião com o Irã, no Irã a etnia é persa e, no Iraque, árabe. Se há aquilo que aproxima os dois, também há muito que os separa.
Jawad al-Maliki, o premiê iraquiano, é árabe-xiita. Ao longo de seu governo, tem usado a proximidade com os EUA para fazer do exército norte-americano o seu exército nas disputas de poder que também existem entre os xiitas. E é assim, na região xiita, que a Casa Branca é percebida: como a turma de Maliki.
A questão mais dolorosa de lidar está no centro de quem defende a permanência norte-americana no Iraque. Se os EUA saírem, o país implode. O problema, segundo o general Odom, é que o país já implodiu. Os EUA são responsáveis pela implosão? Sim. Os EUA podem fazer algo para desfazer o problema? Não lá dentro. Quando um país se fragmenta, as forças da história – ódios seculares, preconceitos, luta por poder e dinheiro – são irreversíveis. É verdade para os Balcãs na Europa, é verdade para o Afeganistão – é verdade para o Iraque.
Não há rigorosamente um único caso na história do mundo em que um emaranhado de feudos foi unificado sem doses extremas de violência. Uma solução só terá início no momento em que os EUA deixarem o país. E não será bonita de testemunhar.
(O argumento mais curioso do governo Bush é a necessidade de oferecer treinamento militar para o ‘exército nacional iraquiano’. Aquele é um país militar. Todo mundo sabe conduzir guerras, lá.)
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O general David Petraeus, responsável pela guerra no Iraque, testemunhou ontem perante o Senado. Todos tiveram sua chance de questioná-lo: Hillary Clinton, Barack Obama e John McCain.
Uma das perguntas de McCain ao general era se ele tinha certeza de que a al-Qaeda no Iraque não era algum obscuro grupo xiita.
É uma dúvida estranha.
Há um mês, na Jordânia, McCain afirmou que o Irã estava auxiliando a al-Qaeda, no Iraque. Esta seria uma das justificativas para a manutenção da presença norte-americana.
McCain é tido como um candidato preparado. Da primeira vez, é uma gafe desconfortável. Na segunda, é apavorante.
Não compreender a diferença entre sunitas e xiitas é como não compreender a diferença entre protestantes e católicos. Uma pista: são enormes. Gigantescas. Grandes o suficiente para que os mais extremados de ambos os lados sequer reconheçam o outro como muçulmano.
A al-Qaeda, que adota uma visão particularmente radical do Islã, não reconhece o xiismo. Considera os xiitas uma influência para o mal tanto quanto os cristãos ‘cruzados’. Não é preciso muita profundidade na discussão geopolítica para compreender isto. É um conceito, na verdade, um tanto básico.
Autoridades norte-americanas acusam o Irã de influenciar, armar, treinar e financiar milícias muçulmanas xiitas, verdade. Mas xiitas não financiam a al-Qaeda. Ninguém tem sequer dúvidas a esse respeito.
De dois cenários, um: McCain sabe muito bem a diferença e seu jogo é demagógico, quer produzir uma sensação de medo – se for, desaponta; ou McCain não tem muita clareza a respeito da diferença entre sunitas e xiitas. É mais ou menos o mesmo que dizer: McCain é completamente despreparado para lidar com o Islã.
via MyDD
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Os Estados Unidos nunca mais vão torturar um único preso sob sua custódia. A prisão de Guantánamo será fechada imediatamente e todos os prisioneiros, lá, serão transferidos para o Forte Leavenworth, no Kansas. Vou enfrentar as mudanças climáticas e tentarei ao máximo encontrar neste tema algum acordo que inclua Índia e China. Os EUA voltarão a atuar de forma multilateral.
John McCain, em entrevista ao diário espanhol El País, sobre que tipo de governo faria caso fosse eleito.
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Permaneci no Partido Comunista não por motivos políticos mas por razões autobiográficas. Não é por idealismo em relação à Revolução de Outubro. Não sou idealista. Ninguém deveria se iludir a respeito das pessoas ou coisas com as quais nos preocupamos. Comunismo é justamente uma das coisas com as quais tratei de não me iludir, embora tenha feito o que pude para permanecer leal a ele e a sua memória. O fenômeno do comunismo e a paixão que ele levantou foi algo específico ao século 20. Foi uma combinação de grandes esperanças nascidas do progresso e da crença na melhoria da humanidade durante o século 19 além da descoberta de que a sociedade burguesa na qual vivemos, não importa quanto sucesso tenha feito, não funciona e, em alguns momentos, pareceu próxima ao colapso. Como não entrou em colapso, criou grandes pesadelos.
Os EUA obviamente escolheram a barbárie contra o socialismo, no Afeganistão. Eles financiaram a al-Qaeda e o Talibã porque acreditavam que o comunismo era uma opção pior. Eu não acho isso. Também não acho que a al-Qaeda ou o fundamentalismo sejam os maiores perigos enfrentados pelo capitalismo. O capitalismo sobreviverá a eles e fará dinheiro com eles. O fundamentalismo islâmico não é um grande perigo porque não é capaz de vencer guerras. Para compreender a situação atual, é preciso compreender que o Onze de Setembro jamais ameaçou os EUA. Foi uma tragédia humana que humilhou os EUA, mas o país não estava de forma alguma mais fraco após os ataques. Três ou quatro ataques equivalentes não mudarão a posição de poder dos EUA no mundo.
Os EUA são o grande poder propagandístico do mundo. A França o foi em 1789, depois o foram os comunistas, e agora são os EUA, em si também um regime revolucionário. Quando você tem a chance de espalhar sua influência, termina se transformando num império. É o caso francês no período de Napoleão. Eles alegavam estar fazendo o bem para os países que conquistavam, mas eram considerados simples conquistadores pelo resto do mundo. A diferença é que, diferentemente do caso alemão, que não quis fazer bem para todo mundo, os franceses e os russos tinham e os americanos têm mesmo o objetivo de fazer o bem ao espalhar suas idéias. Agora, os americanos têm a chance de fazer o que os franceses fizeram no tempo de Napoleão, e os argumentos pró e contra são parecidos.
Eles usaram o Onze de Setembro como oportunidade para demonstrar que são o único poder com a capacidade de domínio. Agora, qual o objetivo deles além de provar que conseguem dominar outro país é difícil de dizer. Não há qualquer justificativa racional para a Guerra do Iraque. Os EUA terão de aprender que há limites até mesmo para seu poder e, com alguma sorte, acho que isto acontecerá. Neste momento, no entanto, o processo de aprendizado mal começou.
Eric Hobsbawm, 2002
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Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?
Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.
O raciocínio é todo de Fuller.
Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.
São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:
Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.
Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.
Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.
Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.
Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.
A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.
(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)
Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.
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Andrew Sullivan é um dos mais interessantes comentaristas políticos norte-americanos. É conservador, entenda-se. Esteve ao lado da política Bush na guerra contra o Iraque. Mas, nascido na Inglaterra, residente em Nova York, é cosmopolita. E é gay. Soropositivo, diga-se. Militante.
É de Sullivan um ensaio sobre a candidatura Barack Obama à presidência dos EUA, que sairá na edição de dezembro da Atlantic Monthly. (Nos EUA, já está nas bancas.) É um ensaio ousado, incrivelmente pró-Obama.
Na visão de Sullivan – e de meio mundo – os EUA estão rachados. Entre os arroubos do ultra-conservadorismo caricato das Ann Coulter e Bill O’Reillys da vida e os exageros e forçadas de barra dos Michael Moores, à esquerda, o cenário é de um país no qual metade cai para um lado e a outra metade, para o outro, numa divisão tão radical que qualquer conciliação é impossível. E, isto, Sullivan não acha que é verdade.
A guerra civil que racha os EUA desde o Vietnã é uma guerra a respeito de ‘cultura, religião e raça’. Para Sullivan, Obama é o único candidato capaz de oferecer uma trégua.
Porque embora o racha seja nítido na retórica da maioria dos candidatos, ele não é um racha real. Não importa quem for eleito em 2008, este será um presidente que manterá soldados no Iraque por um bom tempo. (É simplesmente impossível tirá-los todos de lá sem por em risco de guerra civil todo o Oriente Médio.) Uma das questões domésticas que mais mexem, a do seguro de saúde universal, também não é tão divisiva. Apesar dos debates inflamados, mesmo os republicanos mais empedernidos concordam que é preciso expandir a cobertura da saúde pública que existe hoje. Até nos estados mais conservadores as pesquisas indicam que a maioria apóia o aborto no primeiro trimestre da gravidez.
Os EUA não estão profundamente rachados, sugere Andrew Sullivan. Mas grupos de interesse radicais, de um lado e do outro do espectro político, todos muito bem financiados, fazem parecer que sim. A imprensa – e a blogosfera, posto que também é mídia – são parcialmente culpados por fazer parecer que há um racha. Ao dar voz aos extremos do espectro ideológico, mas quase nunca às vozes moderadas, apresentam uma caricatura que assusta mas não corresponde à realidade. O governo Bush, ao apostar pesadamente em um dos flancos isolando o outro, acirrou ainda mais a tensão.
Assim, segue a tese de Andrew Sullivan, Barack Obama é o melhor nome. É ele o democrata favorito dos eleitores republicanos. É jovem: já não representa mais o racha dos anos 1960.
O que Obama oferece? Antes de tudo, seu rosto. É a mais eficiente transformação da imagem dos EUA desde a promovida por Ronald Reagan. Esta mudança de imagem não é trivial – é essencial para uma estratégia de guerra. A guerra contra o terrorismo islâmico, afinal, tem duas vertentes: uma de poder militar, a outra de poder diplomático. Vimos o potencial militar na derrubada do Talibã e de Saddam Hussein. E vimos seu fracasso na lida com o Iraque, nas suas evidentes limitações para enfrentar uma longa guerra contra o Islã radical. O próximo presidente terá de criar um mix sofisticado de poder militar e diplomático para isolar o inimigo, uma matriz ideológica capaz de sustentar a vantagem do Ocidente a longo prazo. Não há candidato melhor do que Obama para isto. Por causa de seu rosto.
Imagine este cenário: estamos em novembro de 2008. Um jovem paquistanês muçulmano assiste televisão e vê que este homem – Barack Hussein Obama – é a nova face dos EUA. Em uma única imagem, o poder diplomático norte-americano foi catapultado numa escalada logarítmica. Um homem moreno cujo pai era africano, que foi criado entre a Indonésia e o Havaí, que freqüentou uma escola na qual muitos eram muçulmanos, este é o novo rosto do inimigo. Quem procura o melhor instrumento para combater a demonização dos EUA, o rosto de Barack Obama é ele. Prova que os radicais muçulmanos estão completamente errados a respeito da América.
Mas seu argumento vai além. Como Barack Obama é o único dos candidatos viáveis que esteve sempre contra a Guerra no Iraque, é ele que terá mais autoridade, inclusive, para enviar mais soldados se isto for necessário estrategicamente.
E, assim, um dos principais comentaristas conservadores dos EUA acaba de anunciar que apóia um democrata à presidência.
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Não custa fazer um exercício e olhar o mundo como um turco o vê – e é duro ser turco. Há um século, a Turquia comandava um império. Hoje, não sobrou-lhe sequer aquilo que sobrou para os outros poderes imperiais fracassados. A Turquia não é um Reino Unido ou uma França: tem problemas de terceiro mundo.
Mas estas são águas passadas. O presente não é mais simples: há nítidos esforços para estruturar uma democracia e uma economia fortes. Na Alemanha e na França, no entanto, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy fazem o possível para que seu país não entre na União Européia. Desconfiam que você é oriental demais e, isto não dizem com todas as palavras, também que você é muçulmano demais. Enquanto isso, em uma de suas fronteiras mais delicadas, iraquianos ficam matando seus soldados a torto e a direito. Seu principal aliado o que faz a respeito? Os EUA passam semanas discutindo se vão fazer uma reprimenda formal por conta de um genocídio que você cometeu quase um século atrás.
Do ponto de vista turco, o que resta fazer?
Num país no limite entre ocidente e oriente, se o ocidente dá as costas, resta olhar para os vizinhos orientais. Estes são parceiros antigos – milenares, diga-se. Todos por ali já eram grandes civilizações antes de os europeus erguerem sua primeira aldeia. Tradição é isso, o resto é piada. E, por vizinhos entenda-se, Irã e Síria. Se são inimigos dos principais aliados turcos no ocidente? O ocidente não tem ajudado muito – e não faltou esforço da parte turca.
Este movimento em direção ao oriente não começou esta semana, e a Newsweek o mostra. Há dez anos, a Turquia ameaçava invadir a Síria acusando-a de acobertar as operações do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdo que hoje esconde-se no Iraque. De lá para cá, turcos são os maiores empreendedores na Síria, tendo construído o maior estádio de futebol do país e o novo e gigantesco shopping center em Damasco. Quando Israel invadiu o espaço aéreo sírio há uns meses, o governo turco de imediato apresentou seu protesto diplomático. Bashar Assad, o ditador sírio, acaba de voltar da capital turca. Esteve em Ankara para uma visita oficial.
Comoo Irã, um negócio de extração de gás natural por empresas turcas que vale 3,5 bilhões de dólares está quase fechado. O serviço de inteligência persa está colaborando com os turcos na luta contra o terrorismo curdo. A Turquia se recusa a censurar oficialmente o Irã por conta de seus desejos nucleares. Diplomaticamente, limita-se a manter o canal de diálogo aberto numa tentativa de persuadir o governo iraniano a obedecer a ONU. (O que, do ponto de vista estritamente oficial, o Irã faz.)
Hoje, a Turquia está lá e cá. É um dos maiores poderes regionais. Se não encontrar apoio no Ocidente, sozinha não ficará.
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O PKK – Partido Curdo dos Trabalhadores – é um problema. O grupo – considerado terrorista por EUA, OTAN e União Européia – havia declarado um cessar-fogo em setembro de 2006, mas rompeu-o em setembro deste ano, abrindo fogo contra um ônibus na fronteira entre Turquia e Iraque. Mataram 13 pessoas, dentre eles sete soldados turcos e uma criança. No início de outubro, mais um ataque, mas 13 vítimas – desta vez, todos soldados.
A resposta do parlamento turco foi autorizar por esmagadora maioria o país a invadir o Iraque para responder à provocação do PKK. Ontem, o terceiro ataque: 12 soldados mortos, sete desaparecidos.
A ação remete à tática do Hezbollah contra Israel, há um ano. Na época, o misto de partido com grupo terrorista provocou o quanto pode até que Israel decidiu por invadir o Líbano, criando um desastre humanitário e militar no qual não houve vitoriosos que não o Hezbollah que conseguiu exatamente o que mais queria: incitar ódio a Israel em sua região de domínio.
Fundado nos anos 1970, originalmente de influência comunista, o PKK abandonou as origens marxistas para se aproximar do movimento islâmico nacionalista local após a queda da União Soviética. A região onde moram os curdos inclui Turquia, Irã, Síria e Iraque. Eles têm um projeto nacionalista não diferente do basco ou do irlandês. Por isso, embora taticamente se aproxime do Hezbollah, o PKK não pode ser comparado de todo. Ele mais se aproxima do ETA ou do IRA. Há um projeto nacional claro, dividido por alguns curdos, mas não por todos.
A Turquia provavelmente só perde para o Irã em sua longa história nacional. De Bizâncio ao Império Otomano, tem tradição nacionalista de fôlego – e orgulho. Isto impõe armadilhas e benefícios para políticos. É fácil disparar o apelo patriótico, o povo responde. Neste momento, há uma sensação de desânimo quanto ao projeto europeu – a União Européia deixa claro que gosta cada vez menos da idéia do país em suas fileiras. Por outro lado, há a vergonha do genocídio armênio, no início do século. O Congresso dos EUA quer passar, agora em novembro, uma resolução simbólica que estabelece o governo turco como culpado.
É culpado mesmo. A vocação turca é imperialista e, como todo imperialista, vez por outra marca sua história com um episódio de brutalidade ímpar. França, Inglaterra, Espanha, Portugal, Alemanha – todos são países que convivem bem com a mesma descrição. A diferença é que França, Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha fizeram em algum ponto de suas histórias recentes, ainda que, em alguns casos, parcialmente, um mea culpa. A Turquia jamais reconheceu o assassinato de algo entre centenas de milhares e 1,5 milhão de armênios. (O número depende da fonte.)
Não é agora que vai reconhecer, certamente. No momento em que o Congresso dos EUA passarem a condenação simbólica por algo que aconteceu entre 1915 e 17, o governo turco se sentirá ainda mais pressionado a agir. O resultado poderá ser uma invasão ao Iraque.
Nos EUA há plena separação de poderes e o Congresso faz o que bem quiser. Com um longo histórico de ignorar o Legislativo sempre que pode, o presidente George W. Bush não tem como pressionar para que a história seja abafada. Ainda assim, deveria tentar. Mas não há registro de telefonema que tenha feito neste sentido à Speaker of the House – equivalente a Presidente da Câmara – Nancy Pelosi.
Enquanto esta novela continua, o Iraque está numa situação delicada. Precisa do apoio turco. É um vizinho importante, pode servir de contra-balanço à pressão de Síria e Irã e, além do mais, o problema do separatismo curdo é também iraquiano. Mas se a Turquia invadir, o presidente Jalal Talabani – ele próprio, curdo – terá poucas escolhas. Terá de agir como se estivesse em guerra perante a invasão de seu território nacional, rompendo relações diplomáticas. Fará isso exatamente como fizeram os libaneses. Será uma guerra simbólica e humilhante que enfraquecerá ainda mais seu governo que mal tem condições de sobreviver à guerra civil que já vive.
Diferentemente do governo israelense, o governo turco parece compreender o jogo perigoso e sem chances de vitória real no qual está sendo convidado a entrar. Jogar para o público é fácil. Mas quem joga para o público com bravatas pode terminar incendiando ainda mais uma situação já fora de controle.
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Na London Review of Books, o escritor Jim Holt faz as contas para chegar a uma velha conclusão: o Iraque foi mesmo invadido por conta do petróleo. São 115 bilhões de barris em reservas conhecidas e outros 220 bilhões estimados. É um quarto do petróleo do mundo. Hoje valeria US$ 30 trilhões. Washington imagina que gastará US$ 1 trilhão com a guerra.
O projeto de lei que regulariza a exploração de petróleo e que circula no Parlamento Iraquiano passa quase toda operação para companhias estrangeiras.
Quanto à conversa de que as tropas deixarão o país, nada é de todo sincero embora se preste bem à campanha eleitoral. Neste exato momento, sem que a imprensa faça muito alarde, estão sendo construídas cinco superbases militares auto-suficientes no Iraque. Uma delas, a 20 quilômetros de Bagdá, é uma fortaleza com um típico subúrbio dos EUA dentro. Descoberta pelo Washington Post, tem lanchonete, mini-golfe, cinema, um campo de futebol americano. É onde ficarão, segundo o governo Bush talvez até por décadas, as ‘forças residuais’ que manterão a vigília da Mesopotâmia.
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Mais fotos: 01 | 02 | 03 | 04 | 05 | 06 | 07Divulgação ACNUR / S.Malkawi
Estas aí são as últimas fotos do Campo de Refugiados de Ruweished, na Jordânia. O lugar está sendo desmontado, já, e os últimos palestinos que lá viviam vêm para o Brasil. São 96. Esta conclusão vem graças a Karmen Sakhr uma libanesa-brasileira que se criou na França e, atualmente, mora na Jordânia. Funcionária da ONU, ela acompanha o Campo desde que ele se criou, após a invasão do Iraque. Estes palestinos viviam em Bagdá.Há uns meses, a Trip publicou uma reportagem sobre eles, assinada por Marina Gomara, minha mulher. É graças a ela que o Weblog teve acesso a estas imagens do campo sendo desmontado. Infelizmente, o texto não está disponível no site. Mas cá vai um naco:
‘A primeira coisa que vou fazer quando chegar é beijar o chão do Brasil’, diz Abu Hanan. ‘Não quero voltar nunca mais para um país árabe.’ Ele tem 60 anos e vem com outros 95 palestinos. Foram acolhidos pelo governo brasileiro.
Nos últimos quatro anos, o grupo viveu no campo de refugiados de Ruweished, no deserto da Jordânia. Região conhecida como Terra de ninguém. Viveram enclausurados. Não era permitido entrar nem sair do acampamento sem autorização do Ministério do Interior. Quando alguém ficava doente, tinha de ser levado com escolta policial ao hospital mais próximo, três horas e meia distante. E só nos casos de emergência. […]
Aberto desde 2003, com a invasão americana no Iraque, o campo chegou a ter 700 pessoas. Dos quase 400 palestinos que estiveram ali, grande parte recebeu refúgio na Suécia, na Irlanda e no Canadá. Outros foram autorizados a morar em cidades da Jordânia por serem casados com jordanianas. Mas estes não têm direito a cidadania, trabalho ou educação.
Abu Hanan é casado com uma iraquiana. Tem quatro filhos, duas do segundo casamento. É diretor de teatro e compositor. Morou em Bagdá desde criança. Nasceu em Jaffa – hoje Israel – em 1947. Mas foi expulso junto com os pais um ano depois, com a formação do Estado israelense. Na época, cerca de 800 mil palestinos fugiram de suas casas. Foram para Jordânia, Síria, Líbano, Iraque, Egito.
O Brasil tem, ao todo, 3.400 refugiados políticos. É um número absurdo de pequeno, dado o tamanho da terra e tradição de receber bem imigrantes. Abu Hanan quer aprender samba – os palestinos todos que vêm querem virar brasileiros. Querem casa e paz. Compõem um grupo heterogêneo, solteiros e famílias, gente ainda estudando e gente com PhD. No geral, todos têm boa educação formal.
Por aqui, serão acompanhados pela ACNUR, Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – UNHCR na sigla em inglês –, órgão da ONU, e pelo Itamaraty. Começarão com direitos de cidadania um quê limitados mas, ao fim do processo de adaptação, serão cidadãos plenos. As notícias que chegam do campo é de que as crianças, principalmente, estão felizes. Circulavam pelo campo com a camisa da Seleção. Os refugiados irão morar em cidades no interior do Rio Grande do Sul e de São Paulo.
Oferecer refúgio a quem foge de guerras, genocídio, limpeza étnica ou seja que tragédia for é uma obrigação de cidadania internacional. Não faz sentido um país querer uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e não tomar parte ativa da política mundial.
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No final do ano passado, como acontece todos os anos com quem já está no oficialato há cinco anos, os formados pela Academia Militar de West Point no ano de 2001 puderam decidir se continuavam ou não nas Forças Armadas dos EUA. Trata-se da elite dos jovens oficiais. 44% deles pediram dispensa. É o percentual mais alto das últimas décadas.
Não se trata apenas do fato de os EUA estarem enfrentando sua pior guerra em 30 anos. Há uma crise mais séria em rumo, inédita. Atualmente, os oficiais de baixa patente têm mais experiência no campo de batalha do que seus superiores. E questionam os generais de frente. Agora, em público, num artigo assinado pelo coronel Paul Yingling:
O artigo, publicado na edição de maio do Armed Forces Journal, lembra que um dos trabalhos dos generais é aconselhar políticos e público a respeito do que é necessário para vencer uma guerra. ‘Se o general se silencia quando o Chefe de Estado leva a nação à guerra sem os recursos suficientes’, ele escreveu, ‘ele também é culpado’. Os generais de hoje ‘fracassaram no intuito de garantir às forças condições e preparo para o combate futuro’, e não aconselharam os políticos a respeito da quantidade de tropas que seriam necessárias para vencer e estabilizar o Iraque. Este fracasso, ele segue, vem não apenas dos líderes civis mas também de uma cultura militar na qual ‘não se premia a criatividade e a coragem moral’. E conclui: ‘do jeito que as coisas estão hoje, um soldado que perde seu rifle enfrenta conseqüências mais sérias do que o general que perde uma guerra’.
Agora no início de agosto, quando dava uma palestra a jovens capitães recém-nomeados, o general Richard Cody, terceiro na cadeia hierárquica do Exército, percebeu isto quando um dos jovens – e depois vários outros – questionaram respeitosamente a capacitação dele e de seus pares. Eles foram gentilmente informados que não é seu papel questionar generais. Mas a cisão está aberta: os jovens oficiais não confiam na liderança.
Seu argumento é que se é verdade que o Secretário de Defesa insistiu em fazer a guerra com poucos homens, os generais deveriam ter-se recusado, deixando claro o que eles sabiam: não seria possível. Mas como são formados numa cultura de obediência cega aos superiores, ignoraram seu conhecimento técnico e partiram para uma missão que sabiam condenada.
Isto é dado, informa uma longa reportagem na revista dominical do New York Times, pelo tipo de oficial que ganha promoções, no Exército. Aquele que diz que será capaz de obedecer qualquer ordem de seus superiores, não importa sua avaliação pessoal, sobe. Quem respeitosamente pondera, fica estagnado. Os inovadores perdem-se nos corredores e os burocratas obedientes chegam aos postos mais altos.
Huba Wass de Czege, general de uma estrela da reserva, autor do manual de operações de combate do Exército, que lutou e comandou pelotão no Vietnã, diz ao Times que reconhece nas queixas dos oficiais subalternos de hoje aquelas que ele e seus pares faziam, nos tempos do Vietnã. Ele vê a coisa diferentemente: considera os generais de hoje melhor preparados do que os de décadas atrás. Mas admite que eles não estão habituados com o tipo de problema que os pelotões enfrentam em batalha, no momento em que criatividade, improviso e decisões rápidas são necessárias.
Durante a Segunda Guerra, o general e futuro presidente Dwight Eisenhower ameaçou demitir-se caso não tivesse o apoio aéreo para a invasão da Normandia que ele julgava necessário. Franklin Roosevelt e Winston Churchill cederam. Durante a Guerra da Coréia, o general Douglas MacArthur exigiu que o presidente Henry Truman autorizasse um ataque à China. Foi demitido.
Nem sempre os generais têm razão. Mas, houve o tempo, eles deixavam claro aquilo que pensavam.
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Michael Ignatieff foi acadêmico – professor em Harvard – e é político – deputado do Partido Liberal canadense:
O filósofo Isaiah Berlin disse certa vez que o problema de acadêmicos e comentaristas é que, perante novas idéias, eles se encantam mais com a originalidade de tais idéias do que com se representam ou não a verdade. Políticos também vivem em função de idéias, mas eles não podem se dar ao luxo de lidar com idéias que sejam apenas originais ou interessantes. Eles têm de trabalhar com o pequeno número de idéias que representam a verdade ou, pior, com o ainda menor número de idéias que representam a verdade e são aplicáveis à vida real. Na vida acadêmica, idéias falsas são apenas falsas e idéias inúteis podem ser divertidas de lidar em discussões. Na vida política, idéias falsas arruínam vidas de milhões e idéias inúteis desperdiçam recursos preciosos. A responsabilidade de um intelectual perante suas idéias é levá-las até o fim de suas conseqüências. A responsabilidade de um político é dominar estas conseqüências e impedir que causem mal. […]
A grande qualidade que um político deve ter é noção da realidade. ‘O que chamam de sapiência do estadista’, escreveu Berlin a respeito de figuras como Roosevelt e Churchill, ‘é compreensão, não conhecimento. Uma certa familiaridade com fatos relevantes que os permite saber o que se encaixa com o quê; o que pode ser feito em determinadas circunstâncias; que meios funcionarão para dadas situações e quão longe dá para ir, mesmo que sejam capazes de explicar como sabem ou mesmo o que sabem.’ Políticos não podem se fechar em casulos, num mundo ideal que imaginaram. Eles não podem confundir o mundo como ele é com o mundo como gostariam que fosse. Eles devem ver o Iraque – ou qualquer outro canto – como de fato é.
Invadir o Iraque foi uma idéia. Espalhar democracia pelo Oriente Médio a partir desta invasão foi uma idéia ousada. Partindo-se do princípio de que foi uma idéia honesta – discutível – e que houve boas intenções, ainda assim não funcionaria – como não funcionou.
Enquanto o presidente George W. Bush vive em seu mundo de fantasias fingindo que a decisão de invadir o Iraque fazia sentido ou que ainda há solução, o próximo presidente dos EUA tem duas opções pela frente, segue o raciocínio de Ignatieff. Ficar ou sair. Ficar representará mais norte-americanos mortos. Sair representará mais iraquianos mortos. Isto dá uma pista de qual será o caminho seguido por um chefe de Estado dos EUA.
Neste momento, com o país em frangalhos, o que é melhor para o Oriente Médio? Ignatieff não arrisca sua opinião. Mas, decididamente, não é uma decisão fácil ou mesmo elementar. Consertar o mundo depois que o atual presidente norte-americano o quebrou vai ser trabalho para muitas gerações.
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É complementar à análise abaixo a informação de que as sugestões da Comissão Baker ao presidente dos EUA sejam de:
1. Estreitar a relação com Irã e Síria.
2. Estimular a participação de Irã e Síria no presente e futuro do Iraque.
3. Preparar a retirada do exército norte-americano.
Há muita badalação mas não há qualquer indício de que Bush aceitará as conclusões da comissão de notáveis. Seu novo secretário de Defesa reconheceu, perante o Congresso, que a guerra vai mal para os EUA e a pressão popular, nitidamente, é para que a política mude. Mas Bush está preocupado, quer deixar claro que quem manda é ele, não os amigos de seu pai.
Os próximos dias prometem novidades.
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Em outubro, morreram 3.709 iraquianos.
É um Onze de Setembro por mês.
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