Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Irã'

Enquanto o Irã testa mísseis

10/July/2008 · 64 Comentários

Ontem, o Irã testou mísseis de longo alcance, provando que consegue atingir Israel se o desejar. Nos EUA, o secretário de Defesa Robert Gates de presto se adiantou, dizendo que um conflito é de todo improvável. Na seqüência, a secretária de Estado Condoleezza Rice interceptou a mensagem informando que, não importa o que diga Gates, os EUA intervirão se considerarem necessário.

Esquizofrenia? Nada. Good cop, bad cop – policial bonzinho e o malvado. É tática.

Karim Sajdadpour especialista em Irã entrevistada pela Foreign Policy explica o lado de Teerã nesta história:

Na semana passada, o Irã soava conciliador, o ministro das Relações Exteriores Manouchehr Mottaki falava de uma ‘nova tendência’ nas negociações nucleares. Esta semana, o governo do Irã fala de atacar os EUA ou Israel em resposta a uma ofensiva e testam mísseis que podem chegar a Tel Aviv. O que explica a mudança?

As últimas duas semanas mostram a maneira de o líder supremo aiatolá Ali Khamenei enxergar o mundo e seu método de operação que não prevê nem confronto, nem acomodação, com o ocidente. Semana passada, os sinais vindos de Teerã diziam ‘nós somos capazes de praticar diplomacia’. Esta semana, o Irã informa a Israel e aos EUA, ’se vocês partirem para uma escalada, seremos recíprocos’. Khamenei quer enviar um sinal claro: ‘não achem que pressão vai moderar nosso comportamento’. Ele acredita que quem cede a pressão acaba convidando mais pressão.

O presidente Mahmoud Ahmadinejad se referiu à possibilidade de um ataque ao Irã como uma piada. O que o senhor acha que ele está tentando fazer?

Ele sempre acreditou que a possibilidade de um ataque ao Irã é muito pequena. Ele interpreta a vitória parlamentar dos democratas, nas eleições de 2006, como um indício de que a população norte-americana não deseja mais aventuras no Oriente Médio. Assim, ele acha que os políticos dos EUA têm as mãos atadas. Isto posto, um ataque militar norte-americano contra o Irã seria ótimo para Ahmadinejad. Só há duas coisas que poderiam reabilita-lo perante a opinião pública do Irã. Uma é esse ataque. Outra é uma ofensiva diplomática violenta dos EUA contra seu país. Na minha opinião, os EUA não deviam fazer nenhum dos dois.

Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina

A costura diplomática entre Irã, EUA e Europa

4/July/2008 · 45 Comentários

Há definitivamente tensão no ar por conta da possibilidade de um ataque ao Irã. Esta semana, em vários pontos do mundo, distintos esforços diplomáticos saíram à tona veladamente na imprensa.

Na edição de semana passada da revista The New Yorker, o decano dos repórteres investigativos Seymour Hersh publicou um longo texto a respeito dos conflitos internos entre Casa Branca e Congresso, nos EUA.

Segundo Hersh, a liderança democrata e republicana, no Congresso, autorizou o financiamento de operações secretas dentro do Irã por parte da CIA e das Forças Armadas. Em geral isso quer dizer dar dinheiro e treinar forças de oposição. Há receio, no entanto, de que estas atividades estejam indo além.

Um dos que manifestam preocupação é o secretário de Defesa Robert Gates. Falando numa reunião privada a senadores, Gates disse que se houver ataque ‘vamos criar gerações de jihadistas e nossos netos vão lutar contra esses inimigos aqui nos EUA’. Perguntaram-lhe se ele falava em nome do presidente Bush ou do vice, Dick Cheney. ‘Digamos que falo apenas em meu nome.’ Sim, o ministro de Bush é contra os aparentes esforços da Casa Branca de atacar o Irã. Hersh diz ainda que a resistência entre os generais também é muito grande. Mas que a pressão por um ataque continua.

Ali Ettefagh, um financista iraniano que mora entre Irã e Europa, analisa assim a situação: ‘Estes são vazamentos propositais vindos direto do escritório do vice-presidente para Seymour Hersh. É um jogo psicológico, uma onda cíclica de noticiário intenso contra o Irã que demonstra a falta de boa vontade do governo norte-americano. Essas notícias de operações secretas chegam para desestabilizar o Irã no momento em que o grupo 5+ 1 (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia) fazem uma oferta de acordo para resolver a questão nuclear. O Irã não deve se permitir confundir pelo jogo.’

Segundo Ettefagh, sempre que algum tipo de acordo está sendo seriamente discutido, vaza na imprensa dos EUA alguma notícia que afasta o Irã das mesas de negociação. O Irã fica parecendo o vilão. Talvez. Aí, passam-se uns dias, o presidente Bush vem deixar claro que nada disso está acontecendo e que a solução que seu país busca é diplomática. Exatamente como aconteceu esta semana. A questão, porém, é mais complexa.

Mesmo quando nós jornalistas não percebamos o jogo – e, muitas vezes, não percebemos mesmo que estamos sendo usados – diplomatas percebem. Sabem exatamente o que acontece, tanto no Irã quanto fora. O desconforto com o governo iraniano é grande. O presidente Mahmoud Ahmadinejad fala demais e não tem qualquer vontade de diplomacia. É um incendiário. E é por isso que uma carta publicada ontem no jornal francês Liberatión é particularmente importante.

No ano passado, o presidente francês Nicolas Sarkozy procurou ser recebido pelo aiatolá supremo Ali Khamenei. Para negociar em que condições tal encontro poderia ocorrer, o velho aiatolá ordenou que seu braço direito, Ali Akbar Velayati, fosse à França. Velayati então procurou o presidente Mahmoud Ahmadinejad para informá-lo da missão numa visita de cortesia. Ahmadinejad deixou-o esperando por horas madrugada adentro até recebê-lo e foi rude. Então, o presidente do Irã escreveu uma carta a Sarkozy chamando seu par francês de ‘jovem e inexperiente’ e fazendo ameaças veladas. O fato de que Sarkozy é cinco meses mais velho do que Ahmadinejad é irrelevante. A conversa foi abortada antes de ser negociada.

A carta publicada no Liberatión é de Velayati. Parece que veio do nada. Responde, naquele tom floreado da prosa persa, a uma pergunta jamais feita. ‘Apesar de seu vasto poder, o líder supremo só intervém em casos muito importantes, deixando a maior parte das questões para os responsáveis pelo Estado. Ao receber dignitários e líderes de outros países, ao se comunicar com eles, o líder dá mostras de sua presença crucial na diplomacia iraniana.’

Quer dizer que, no ano passado, Ahmadinejad cruzou uma linha de poder interno que não deveria ter cruzado. Foi um recado para o governo francês: desculpem a grosseria do rapaz, aqui em casa quem manda ainda é o velho.

Não é dizer, de forma alguma, que Sarkozy e Khamenei estejam prontos para se encontrar na semana que vem. O encontro talvez jamais aconteça. Mas Khamenei acaba de desautorizar o presidente Ahmadinejad perante a França. É a maneira iraniana de usar a imprensa em sua diplomacia. Seu objetivo é botar panos quentes.

Tags: EUA · Europa · Irã

Bomba iraniana em seis meses?

26/June/2008 · 97 Comentários

Há uma mudança de discurso no ar – uma daquelas na qual deve-se prestar atenção.

Numa entrevista em árabe para a rede a cabo al-Arabiya, o responsável pela Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed El Baradei declarou que o Irã tem condições técnicas de produzir uma bomba nuclear em algo entre seis meses e um ano. Basta começar.

Até há muito pouco, El Bardei falava de uma janela entre três e oito anos.

Em diplomacia, uma mudança desta ordem no discurso pode ter um de dois significados.

O primeiro é, simplesmente, que a Agência tem informações novas a respeito do país.

O segundo é que este é um recado para o Irã: a paciência está acabando. É hora de ceder às exigências da AIEA, abrir todos seus documentos e permitir as inspeções.

Tags: Irã

Israel atacará o Irã autorizado por Bush?

3/June/2008 · 179 Comentários

Nouriel Roubini, o respeitado economista e professor da Universidade de Nova York, conta em seu blog de uma recente conversa que teve com o ex-chanceler alemão Joschka Fischer. Fischer está convencido de que Israel fará um ataque às instalações nucleares do Irã antes de o governo Bush chegar ao fim. Ele vai além: o próprio Bush teria dado o sinal verde quando esteve em Israel, nas celebrações de seus 60 anos.

Joschka Fischer é um nome que deve ser respeitado e tem muitas fontes de excelente qualidade. Mas isso não quer dizer que acontecerá.

O premiê israelense Ehud Olmert chegou hoje aos EUA para uma visita de dois dias. Investigado pela polícia por sérias denúncias de corrupção, há muito pouco o que o sustenta no poder e não é claro quem o sucederá.

Novos líderes fazem cálculos diferentes. Da última vez que o governo israelense decidiu por uma guerra – no caso libanês – destruiu o país vizinho, espalhou tragédias e não ganhou absolutamente nada além de uma imagem externa pior.

É importante ressaltar o ‘não adiantou de nada’ na conclusão da Guerra do Hizbolá. Porque, agora, o mesmo governo israelense está fazendo exatamente o que devia ter feito desde o início. Está negociando com o mesmo Hizbolá.

A situação também não é clara no ponto de vista norte-americano. A praxe sugere que presidente em último ano de mandato não cria confusão desnecessária para quem o suceder. George W. Bush sabe que um dos candidatos nesta contenda, Barack Obama, tem idéias diferentes a respeito de como lidar com o Irã. Obama quer negociar. Agora, cabe à população norte-americana decidir se deseja esse rumo.

Se Bush de fato autorizou um ataque ao Irã, ele está interferindo diretamente no próximo governo. É uma decisão não apenas anti-democrática – que não representa o desejo dos eleitores – mas, principalmente, de sabotagem.

Um ataque às instalações nucleares do Irã por parte de Israel não derrubaria o governo dos aiatolás. Mas certamente seria recebido com alívio, em Teerã, pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Enfrentando uma séria crise de impopularidade por conta de sua incompetência na administração da economia, ele precisa urgentemente de um inimigo externo para ser reeleito, no primeiro semestre do ano que vem.

Do ponto de vista geopolítico, as conseqüências imediatas seriam um Oriente Médio pior no qual as desconfianças existentes são ampliadas e o sustento de Hizbolá e Hamas, aumentado. Ninguém vence, mas tudo é garantido que piore. Essa gente que acredita em mais destruição para o Oriente Médio se ajeitar nunca cessa de surpreender.

Atualização - ‘As agências de inteligência dos EUA acreditam que o Irã interrompeu o esforço de construir armas nucleares em meados de 2003. A Agência Internacional de Energia Atômica, que investiga o programa iraniano, não encontrou qualquer indício de que exista um projeto ativo para produção de armas nuclares.’ A notícia está hoje em vários jornais dos EUA.

dica do Marcelo P.

Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina

A.Q. Khan, o vendedor dos nukes
paquistaneses rompe silêncio

2/June/2008 · 41 Comentários

Em 2004, o físico Abdul Qadeer Khan foi à televisão paquistanesa, caiu aos prantos, e admitiu ter vendido o segredo da bomba nuclear para o Irã, a Coréia do Norte e a Líbia. O pai da bomba de seu país, um herói nacional, está em silêncio desde então. Ou estava. O jornal britânico The Guardian o entrevistou.

A.Q. Khan retira o pedido de desculpas. Diz que foi forçado pelo presidente Pervez Musharraf. E diz que não pretende jamais cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU. “Por que deveria conversar com eles? Não tenho qualquer obrigação. Não somos signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear e não quebrei qualquer lei internacional.” Os detalhes da rede de distribuição de informação e material nuclear são “problemas que dizem respeito a mim, a meu país e a ninguém mais”.

O cientista nem nega, nem confirma ser o fornecedor de informação e material. Diz que o segredo da bomba paquistanesa veio do ocidente e que quem quiser e tiver dinheiro tem onde comprar segredos e material no próprio ocidente. Isto inclui Coréia do Norte e Irã.

Há um assunto sobre o qual ele não fala: dizem que ele foi o bode expiatório e que assumiu a culpa da venda que na verdade cabia a um círculo de generais. “Não falo sobre isso, é melhor esquecer.”

via Gideon Rachman

Tags: Irã · Ásia Central · Ásia Sudeste & Pacífico

O Irã, os EUA e a mesa de negociação

21/May/2008 · 182 Comentários

O Iraque é um caos. O Afeganistão é outro caos. Quantos países caóticos mais serão necessários para que essa gente que defende a guerra e a bomba percebam que a tática piora uma situação já ruim?

Há uma divisão na política norte-americana a respeito de como tratar o Irã. John McCain defende a atual doutrina de que qualquer conversa é impossível; Barack Obama se mostra disposto a sentar ele mesmo, caso seja eleito presidente, para conversar com o líder do pais. George W. Bush, no Knesset israelense, sacou do bolso uma analogia histórica: conversar é cometer o erro de Chamberlain com Hitler.

O assunto já rendeu três posts cá no Weblog. É bem capaz de que este seja o último. Analogias históricas são úteis mas jamais perfeitas. O primeiro post tinha o objetivo de mostrar que o erro de Chamberlain não foi conversar com Hitler; foi entregar meia Tchecoslováquia aos nazistas. Ninguém está sugerindo que um país seja entregue ao Irã. O segundo post, lembrando a Quase Guerra entre França e EUA no final do século 18, queria mostrar só uma coisa: às vezes, mesmo sob pressão popular, mesmo que lhe custe a carreira política, evitar uma guerra ao máximo pode ser mostra de um grande líder. John Adams o foi. O terceiro, citando a China de princípios da década de 1970, sugere que mesmo quando um determinado país renegado está armando seu inimigo numa guerra, o presidente dos EUA talvez deva sentar-se com o chefe de Estado contrário.

O objetivo dos três era desarmar os argumentos simplistas. Quem evita a guerra numa situação de provocação não é necessariamente mau líder. E chefes de Estado podem se encontrar, sim, mesmo que um esteja financiando o inimigo do outro. Não é entreguismo. O encontro de Mao com Nixon abriu as portas para que a China ocupasse o espaço de legitimidade na comunidade internacional de hoje.

Mas é hora de abandonar as metáforas para ir direto ao assunto: faz sentido iniciar um trabalho de negociação com o Irã que possa, no fim do processo, envolver até mesmo uma visita do presidente dos EUA a Teerã?

Com Mahmoud Ahmadinejad, provavelmente não. Seu discurso é rábico, faz pose de bom moço para a comunidade islâmica mas jura a aniquilação de Israel e flerta abertamente com o anti-semitismo ao negar o Holocausto. Mas três informações são úteis, aqui:

1. Há eleição para presidente do Irã no meio de 2009.

2. A inflação do país chegou a 24% ao mês e cresce, um quarto dos jovens estão desempregados, 15 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Ahmadinejad não anda nada popular por conta. Até entre o clero vem ganhando inimigos, caso do ex-primeiro-ministro aiatolá Mohammad Reza Mahdavikani, que sugeriu que o presidente se preocupa mais com religião, que não é de sua competência, do que com a economia – que é sua responsabilidade.

3. E, no fim, pouco importa. Não é Ahmadinejad quem manda de fato no Irã. É o aiatolá Ali Khamenei.

O post é um bocado longo – então, aqui, vai uma interrupção. No clique abaixo, o resto.

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Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina · Terror

Neville Chamberlain, o Tratado de Munique,
Mahmoud Ahmadinejad, o Irã e o Hamas

16/May/2008 · 86 Comentários

Em 1990, Mike Goodwin estabeleceu o princípio reductio ad Hitlerum na Internet: ‘conforme uma discussão na rede se estende, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de 1′. É a Lei de Goodwin. Os ânimos se exaltam e alguém terminará chamando o outro de Hitler. Na política do belicismo, relembrar 1939 é também um argumento sempre levantado – e George W. Bush não foi o primeiro, tampouco será o último a fazê-lo.

O argumento segue assim, sucintamente: o inimigo é muito perigoso, buscar conversa é coisa para ingênuos, é repetir o que lord Chamberlain fez com Hitler. Um, por assim dizer, reductio ad Chamerlainum.

O argumento, como cabe aos argumentos simplistas, além de hiperbólico é falacioso. Neville Chamberlain, o premiê britânico anterior a Churchill que o Partido Conservador gostaria de esquecer, de fato é responsabilizado por não ter sido agressivo o suficiente durante os anos 30 perante a Alemanha Nazista. Mas seu pecado não foi conversar, tampouco o de fazer diplomacia.

Seu pecado foi, em 1938, assinar o Tratado de Munique.

Como Hitler já demonstrava desejos imperiais, Chamberlain concordou em permitir que a Alemanha anexasse metade da Tchecoslováquia em troca de ele se restringir a isto. Bem – entregar um país de bandeja não adiantou de nada.

O problema não foi diplomacia: foi entregar um país em troca de uma vaga promessa de paz.

A comparação entre o Irã e a Alemanha Nazista (ou o Hamas e o Partido Nazista) não é inadequada apenas por conta disto. É inadequada também porque a Alemanha era, provavelmente, a maior potência militar de seu tempo. A relação diplomática se dava com um inimigo que, se quisesse, tinha chances concretas de conquistar a Europa inteira. (Como, aliás, quase fez.) O Irã não chega sequer perto. E para o Hamas, coitado, até a conquista da Cisjordânia parece ambicioso demais.

Isto não quer dizer que Irã e Hamas não tenham algum potencial de destruição. Numa região em crise, como é o caso do Oriente Médio, só há dois caminhos. O da guerra ou o da diplomacia. Sentar à mesa não quer dizer que os EUA estejam dispostos a entregar uma parte do Iraque ao Irã, por exemplo. Sentar à mesa quer dizer apenas que se pretende evitar a continuidade da guerra ou o risco de outras guerras.

Como Yitzhac Rabin disse, e o Elias costuma repetir cá nos comentários do Weblog, negociação se faz é com inimigos, mesmo. Com os amigos, ela não é necessária.

Tags: História · Iraque · Irã · Israel e Palestina

O Hizbolá e o futuro do Líbano

12/May/2008 · 44 Comentários

De Robert Fisk, no Independent:

Quando o Hamas foi eleito para o governo palestino, o Ocidente o rejeitou. Então o Hamas tomou Gaza. Quando o Hizbolá foi tomar parte do governo libanês, os norte-americanos o rejeitaram. Agora, o Hizbolá tomou parte de Beirute. Os paralelos não são exatos, claro. O Hamas venceu as eleições de forma convincente. O Hizbolá era minoria no governo do Líbano. Quando o Hizbolá deixou o gabinete do premiê Fouad Siniora foi por conta das políticas pró-EUA deste e porque, com poucos votos, não tinha como mudá-las. Assim como os palestinos, os libaneses não querem uma república islâmica. Mas quando Sayed Hassan Nasrallah, líder do Hizbolá, falou que uma ‘nova era’ estava surgindo no Líbano, ele falava seriíssimo.

Nada está certo no futuro do Líbano. O governo, no entanto, se sustenta por um fio e o Hizbolá terá muito mais espaço no próximo regime. (Isto, se não decidir partir para o golpe e assumir o governo completamente.)

O Hizbolá representa os xiitas. Mas responder quantos são os xiitas, no Líbano, não é trivial. O último censo oficial foi há mais de 70 anos. O New York Times estabelece assim: 35% muçulmanos xiitas, 25% cristãos maronitas católicos, 25% muçulmanos sunitas, 10% cristãos outros, 5% muçulmanos drusos. Os xiitas, portanto, são maioria. Mas sunitas, drusos e cristãos costumam ter mais facilidade de se entender entre si.

Um Líbano dominado pelo Hizbolá teria que conseqüências para a região? (Por enquanto, Israel treme.)

O Hizbolá vem sendo financiado por Irã e por Síria. Os dois países têm interesses distintos. A Síria tem uma disputa territorial e geopolítica com Israel. Israel atrapalha militar, diplomática e financeiramente a influência síria sobre o Líbano e há uma velha briga pela posse das Colinas de Golan.

O problema do Irã, por sua vez, é ideológico, religioso e de uma geopolítica mais ampla. Teerã nega a Israel o direito de existir e vê sua oposição ao país como uma peça num conflito maior, com os EUA. Além do mais, o Hizbolá, como o governo iraniano, é xiita.

A população xiita, na Síria, é pequena e o governo, uma ditadura secular, usa com muita cautela qualquer discurso religioso. Prefere insuflar o espírito nacionalista. O Hizbolá o interessa porque mantém pressão indireta sobre Israel. Em outras palavras, a ligação Hizbolá-Síria é mais frágil do que a Hizbolá-Irã.

Já há em Israel quem defenda uma negociação com a Síria. Em troca de a Síria abrir mão de Golan, Israel não se opõe a uma tomada do Líbano. Melhor do que ter no vizinho um representante do Irã.

Hoje, é um cenário improvável.

Que Hizbolá seria esse no comando do Líbano? Um Hizbolá mais sírio ou mais iraniano? Para os países árabes, Egito, Arábia Saudita e outros tantos, a conversa com os sírios é amena; com o Irã, tensa. Um Irã potencialmente nuclear com o Líbano e boa parte do Iraque sob sua área de influência é ver surgir uma nova potência no Oriente Médio. Um cenário talvez bizarro que poderia fazer do mundo árabe e Israel curiosíssimos parceiros.

A ‘nova era’ prometida por Nasrallah não é apenas libanesa. Algo de muito diferente pode surgir nos próximos meses.

A única coisa certa: o Líbano segue sendo um peão no jogo de outros.

Tags: Irã · Israel e Palestina · Oriente Médio

Beirute sitiada

9/May/2008 · 37 Comentários

A batalha campal que assolou Beirute, ontem, cedeu. O Hizbolá, grupo paramilitar xiita anti-Israel financiado por Irã e Síria que faz as vezes de partido político, tomou a sede da televisão sunita, o escritório particular do líder da maioria no Parlamento Saad Hariri e já controla vários bairros da periferia. Espalharam retratos do presidente sírio Bashar al-Asaad por toda parte.

O Palácio do governo está vazio – mas, aparentemente, ainda há governo.

O país está a um centímetro dum estado de guerra civil entre sunitas e drusos de um lado, xiitas do outro.

O país não tem presidente desde novembro e o premiê Fouad Siniora patina. Hariri implorou ao líder do Hizbolá, Hassan Nasrallah, que levante o cerco a Beirute.

‘Se nosso objetivo fosse um golpe de Estado’, disse Nasrallah na televisão, ‘o governo todo teria acordado na cadeia sem ter visto de onde partiu o ataque.’ Se seu objetivo não é um golpe de Estado sob inspiração sírio-iraniana, é difícil descobrir qual é. Nasrallah afirma que o governo está a soldo da CIA e do FBI, de ‘poderes estrangeiros’. Não deixa de ser irônico.

Tomar Beirute é mais fácil do que manter o controle sobre Beirute. Parece difícil antecipar um resultado no qual a comunidade muçulmana xiita não termine isolada e distanciada do resto da variada população libanesa, composta por muçulmanos sunitas e drusos além de cristãos maronitas. O Hizbolá é mais fraco que o exército do país e do que o resto junto. É difícil acreditar que consiga tomar o poder. Por outro lado, do jeito que se mostra o patente apoio sírio, a Síria pode se ver obrigada a se afastar. Ainda é cedo para dizer, mas um cenário futuro no qual o Hizbolá termine mais fraco após esta demonstração fútil de capacidade de fogo não é absurdo.

O Bruno Mota conta bem, em seu blog, como esta crise floresceu.

Tags: Irã · Oriente Médio

John McCain e a inacreditável dificuldade
de compreender o Islã

9/April/2008 · 133 Comentários

O general David Petraeus, responsável pela guerra no Iraque, testemunhou ontem perante o Senado. Todos tiveram sua chance de questioná-lo: Hillary Clinton, Barack Obama e John McCain.

Uma das perguntas de McCain ao general era se ele tinha certeza de que a al-Qaeda no Iraque não era algum obscuro grupo xiita.

É uma dúvida estranha.

Há um mês, na Jordânia, McCain afirmou que o Irã estava auxiliando a al-Qaeda, no Iraque. Esta seria uma das justificativas para a manutenção da presença norte-americana.

McCain é tido como um candidato preparado. Da primeira vez, é uma gafe desconfortável. Na segunda, é apavorante.

Não compreender a diferença entre sunitas e xiitas é como não compreender a diferença entre protestantes e católicos. Uma pista: são enormes. Gigantescas. Grandes o suficiente para que os mais extremados de ambos os lados sequer reconheçam o outro como muçulmano.

A al-Qaeda, que adota uma visão particularmente radical do Islã, não reconhece o xiismo. Considera os xiitas uma influência para o mal tanto quanto os cristãos ‘cruzados’. Não é preciso muita profundidade na discussão geopolítica para compreender isto. É um conceito, na verdade, um tanto básico.

Autoridades norte-americanas acusam o Irã de influenciar, armar, treinar e financiar milícias muçulmanas xiitas, verdade. Mas xiitas não financiam a al-Qaeda. Ninguém tem sequer dúvidas a esse respeito.

De dois cenários, um: McCain sabe muito bem a diferença e seu jogo é demagógico, quer produzir uma sensação de medo – se for, desaponta; ou McCain não tem muita clareza a respeito da diferença entre sunitas e xiitas. É mais ou menos o mesmo que dizer: McCain é completamente despreparado para lidar com o Islã.

via MyDD

Tags: EUA · Iraque · Irã · Islã

O TSE não sabe, mas…

5/April/2008 · 12 Comentários

Os ministros velhinhos do TSE talvez tenham dúvidas a respeito de como usar a Internet. Os aiatolás velhinhos não têm.

Houve um tempo em que os dois candidatíssimos para sucessão do grão aiatolá Ruhollah Khomeini eram os grão aiatolás Hussein Ali Montazeri e Ali Khamenei. O primeiro perdeu. Tinha umas idéias estranhas. Por exemplo, que a leitura que Khomeini fez do xiismo permitindo ao clero tomar o poder político, não fazia sentido.

Sem o cargo máximo mas querendo bagunçar as coisas, em 2000, Montazeri publicou na web sua autobiografia. A ele, ninguém teve coragem de censurar. Khamenei não teve dúvidas e levou ao ar também seu próprio site. O Irã, atrasado, censor, é aquele país no qual até o presidente anti-semita da República tem blog.

É natural. Lá, sabem que se desejam que a juventude urbana leia, que a informação circule, que haja impacto político, há que estar na Internet.

Tags: Blogosfera · Brasil · Irã

‘A Alemanha se curva perante Israel’

18/March/2008 · 256 Comentários

Estar perante vocês é uma grande honra. O Holocausto enche a nós, alemães, de vergonha. Me curvo perante as vítimas. Me curvo perante os sobreviventes e todos aqueles que os ajudaram a sobreviver.

Este ano, Israel celebra seus 60 anos. São 60 anos lutando pela paz, 60 anos da construção de um país, 60 anos absorvendo imigrantes. Como já disse mais de uma vez, a Alemanha aprova a idéia de dois Estados com fronteiras pacíficas. A nação judaica de Israel e a nação palestina de nome Palestina. Temos consciência de que isto exigirá força e concessões dolorosas. Estabilidade na região não interessa apenas a vocês. Estabilidade também afeta a Alemanha e a Europa.

Não cabe ao mundo provar que o Irã busca uma arma nuclear. É ao Irã que cabe provar que não procura. Se o Irã não aceitar isto, a Alemanha apoiará novas sanções. Se o Irã obtiver armas nucleares, as conseqüências seriam perigosas.

É aqui, neste lugar, que quero enfatizar: todo governo alemão e todo chanceler anterior a mim teve um compromisso especial, uma responsabilidade particular alemã, pela segurança de Israel. Esta responsabilidade histórica é parte da política de meu país. Isto quer dizer que para mim, como chanceler da Alemanha, não há negociação possível que comprometa a segurança de Israel.

Angela Merkel, chanceler alemã, agora há pouco, no Knesset. É a primeira governante alemã a discursar perante o parlamento de Israel.

Tags: Europa · Irã · Israel e Palestina

Eleições no Irã e, quem sabe,
o início do fim de Ahmadinejad

14/March/2008 · 123 Comentários

Os iranianos estão deixando suas casas, hoje, para votar. Em jogo estão as cadeiras na Majlis, o parlamento do país, órgão que além de legislar tem a função de sancionar acordos internacionais. Tem algum poder, mas não muito: o Conselho dos Guardiões, que não é eleito, misto de Senado e Supremo Tribunal, é que sanciona qualquer lei proposta pela Majlis.

Ainda assim, a eleição é importante. Os candidatos reformistas foram cassados – isto inclui até netos do falecido aiatolá Ruhollah Khomeini – mas o movimento reformista, liderado pelo ex-presidente Mohammad Khatami está incentivando seus eleitores a votarem assim mesmo. Se a eleição terminar por parecer uma derrota do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o impacto político interno será grande.

Os olhares estão voltados para um trio: Ali Larijani, que foi negociador em nome do Irã da questão nuclear, Mohsen Rezaii, ex-comandante da Guarda Revolucionária e Muhammad Qalibaf, atual prefeito de Teerã. A Economist os descreve como a ‘linha dura pragmática‘.

A política iraniana é um jogo sutil no qual o voto útil tem um papel mais importante do que nas democracias reais. O aiatolá Ali Khamenei apóia o presidente Ahmadinejad mas, além de líder religioso, é também um homem político atento aos recados do povo.

Qalibaf, que sucedeu Ahmadinejad na prefeitura da capital, pretende concorrer contra ele na disputa pela presidência em dois anos. Para ter chances, tem que ser bem votado agora. Se o grupo adversário de Ahmadinejad vencer mais cadeiras do que ele, gabaritando Qalibaf, Khamenei perceberá que é hora de deixar seu atual protegido.

Com os reformistas de fora, estes são os líderes conservadores que sobraram. A linha dura pragmática pode não representar o grupo dos sonhos de um bom naco da classe média urbana iraniana, mas sua eleição pode ser o início do fim de um governo Ahmadinejad. Sua derrota, por outro lado, fortalece o atual presidente. Não é à toa que ele passou as últimas semanas circulando pelo interior do país em campanha.

Há muito dinheiro petroleiro circulando no Irã mas, ainda assim, a inflação é alta e a condução da economia desastrosa. É o ponto fraco de Ahmadinejad perante os mais pobres no interior rural, embora estes sejam ainda seus eleitores mais fiéis.

E o que esperar de um futuro governo Qalibaf? As ambições nucleares iranianas permanecem. Mas a retórica anti-Israel vai embora.

Tags: Irã

Irã: o cotidiano em fotografias

5/March/2008 · 25 Comentários

Life goes on in Tehran – A vida continua em Teerã – apresenta o cotidiano da classe média na capital iraniana em fotografias tiradas por celular. É uma preciosidade. Seu autor, Azad, nasceu no Irã, se mudou aos 14 para Los Angeles onde estudou e fez faculdade para tornar a sua cidade no ano passado. É um jovem cineasta com dupla-cidadania que chegou à conclusão de que lá teria melhores oportunidades do que na vizinhança mais competitiva de Hollywood.

Trecho de uma entrevista da revista cultural Pars Arts, dedicada à arte persa:

Há muitos motivos para me manter anônimo. Um, não quero que o site seja a meu respeito. Gosto dele como é: Teerã do ponto de vista de alguém que viveu em Los Angeles, não importa que sujeito é esse. Além disso, aponto a câmera de meu celular para amigos e familiares em encontros pessoais. Como quero esconder suas identidades, tenho que esconder primeiro a minha. O motivo mais dramático é que quero evitar o presídio de Evin, em Teerão, ou uma prisão secreta qualquer da CIA na Europa Oriental. Mas, no fim das contas, se alguém se esforçar acaba descobrindo quem é o autor deste fotolog.

Jamais tive grandes expectativas ou pré-concepções a respeito da arte/cultura/mídia que os iranianos criam ou consomem. Como há muitos obstáculos e banimentos na criação e consumo, as pessoas em geral levam a sério qualquer oportunidade que nos EUA seria considerada cotidiana. Lá, você pode assistir qualquer filme que quiser, visitar o site que estiver a fim, ir ao teatro, mas não necessariamente você faz isso. É porque lá as pessoas acham essa liberdade corriqueira. No Irã, você começa a procurar aquilo que o governo quer impedir você de consumir. Assistir a um filme banido ou visitar um site proibido se torna uma experiência mais valiosa e mais prazerosa. Você se sente mais culto.

dica do André Fucs

Tags: Irã

Persépolis e o Irã no Oscar

24/February/2008 · 54 Comentários

Hoje, no Oscar, um dos candidatos ao prêmio de melhor longa de animação é Persépolis, da iraniana Marjane Strapi. O filme nasce do álbum em quadrinhos de mesmo nome – que é uma beleza de livro. No Estadão, Flávia Guerra conta da moça:

Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência ‘aprendendo’ a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. ‘Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?’, perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: ‘Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este’. O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano.

Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. ‘Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou. […]

Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história.

Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava Punk is not dead, seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia.

O texto de Flávia é do tipo que dá prazer ler. Os quadrinhos – e agora, possivelmente, seu filme – são peças essenciais para compreender o Irã contemporâneo.

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Mughniyeh, seu assassinato e
um mistério de espionagem

14/February/2008 · 213 Comentários

”Com este assassinato, neste momento, neste lugar, desta forma, vocês passaram do limite’, disse hoje Hassan Nasrallah, líder supremo do Hizbollah libanês. ‘Sionistas, se é guerra aberta assim que vocês querem, que todo o mundo ouça: a guerra começou.’ Ele estava, evidentemente, nos funerais de Imad Mughniyeh, comandante militar de seu grupo, que morreu quando uma bomba explodiu em seu carro, ontem, na capital síria, Damasco.

De santo, o sujeito não tinha nada. Deixou um rastro de sangue inocente que a imprensa lista incansavelmente, hoje. Planejou a explosão da embaixada norte-americana de Beirute em 1983, o seqüestro de um avião da TWA em 1985, o rapto de inúmeros jornalistas. Foi ele provavelmente o responsável pela explosão do Centro Cultural Judaico de Buenos Aires, em 1992. Ataques a prédios comerciais na Arábia Saudita e no Kuwait também contam em sua lista de feitos.

Mughniyeh é freqüentemente creditado como o inventor do homem-bomba no Oriente Médio contemporâneo. Não era apenas homem do Hizbollah: também era um elo entre a inteligência iraniana e a síria, para as quais prestava serviços. Era um agente experiente e não importam muito as ameaças do Hizbollah neste momento. Sem seu principal estrategista, sem a delicada rede de conhecidos que ele tinha pessoalmente, este misto de partido, milícia e grupo terrorista libanês que é o Hizbollah terá muita dificuldade de agir fora de suas fronteiras pátrias.

Ou será que não? O Hizbollah já perdeu líderes importantes antes e sua estrutura jamais sofreu impacto. São sobreviventes. É uma organização descentralizada e se por um lado sua ligação com a Síria não é confiável, o mesmo não pode ser dito dos elos com o Irã. O principal país xiita do mundo é um patrocinador constante e de primeira hora do principal movimento xiita do Líbano.

A guerra aberta está formalmente declarada. Isto não quer dizer que uma guerra contra Israel de fato acontecerá. Os seqüestros de soldados israelenses há alguns anos pelo Hizbollah serviram de desculpa para um duro e desastrado ataque israelense ao Líbano. Se a guerra e o desastre político que nasceu dela impactou duramente a administração israelense perante seus eleitores, ela também não foi uma vitória interna do Hizbollah. No Líbano, as constantes provocações do partido contra o vizinho mais forte são vistas com decrescente popularidade. Uma série de ataques contra Israel poderia piorar ainda mais a maneira como o grupo é visto internamente.

Era um assassino. Oficialmente, Israel nega que tenha qualquer coisa a ver com sua morte. Então quem o matou? A Economist lista mais duas teorias. Uma é de que os assassinos sejam seus anfitriões sírios. O ramo que mistura espionagem com terrorismo não tem regras claras tampouco nele se joga limpo. O amigo de um dia pode mudar seu foco de interesses. Outra teoria sugere que tenham sido agentes libaneses em algum tipo de parceria com a CIA. Muita gente no Líbano quer o Hizbollah mais fraco – trará uma chance de estabilidade ao país.

Seja como for, Mughniyeh não era visto há 9 anos. Vivia escondido e, alguns sugerem, disfarçado por inúmeras plásticas em Damasco. Foi coisa de gente que sabia exatamente o que estava fazendo.

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A Rússia, o Irã, seu míssil
e Chris de Burgh

7/February/2008 · 93 Comentários

Na segunda-feira, dia em pleno período de celebração dos 29 anos da Revolução Islâmica, o Irã lançou o foguete Explorer 1 para além da atmosfera terrestre. Comemorou, assim, sua capacidade de lançar satélites em órbita.

Foguetes assim lançam satélites, é verdade. Ou enviam – e enviam longe – ogivas. É um feito aeroespacial e um aviso, ambos ao mesmo tempo.

O governo dos EUA reclamara, como era de se esperar. Mas, desta vez, também os russos fizeram muxoxo. O vice ministro das relações exteriores Alexander Losyukov reclamou preocupação, lembrando que ‘mísseis de longo alcance são componentes de armas nucleares’.

Que não se exagere a importância. Foi queixa do terceiro escalão, ou seja, cuidadosamente apresentada para não ter grande impacto. Só que é a primeira vez que a Rússia – uma constante defensora do Irã no Conselho de Segurança da ONU – põe o dedo na ferida.

Não que os iranianos estejam preocupados. Enviaram um recado, receberam resposta. Tudo segue como dantes.

Ou não tanto como dantes: Chris de Burgh, o cantor irlandês pop de The lady in red, deve se apresentar em Teerã este ano.

É a primeira vez desde a revolução em que a decadente música ocidental é permitida no país.

dica do André Fucs

Tags: Irã · Rússia

E se o Islã não existisse?

9/January/2008 · 85 Comentários

Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?

Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.

O raciocínio é todo de Fuller.

Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.

São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:

Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.

Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.

Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.

Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.

Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.

A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.

(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)

Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.

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+ sobre o Irã

19/December/2007 · 9 Comentários

Para quem perdeu, o autor de O mundo visto pelos leitores: Irã, respondeu nos comentários às várias perguntas que lhe foram feitas. Ele se assina Anônimo da Pérsia.

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O mundo visto pelos leitores: Irã

13/December/2007 · 76 Comentários

De um leitor Anônimo

Teerã é meio parecida com São Paulo, uma megalópole caótica com lá seus encantos. É uma cidade limpa, muito asseada, particularmente bonita no inverno, quando neve a cobre toda e se tem uma visão magnífica dos Montes Alborz, aos pés dos quais a capital se espalha. Nem parece Oriente Médio. A parte norte, onde reside a classe média alta secularizada e ocidentalizada, é bastante arborizada, com parques e praças muito bem cuidados. É onde vivo. O antecessor do Ahmadinejad na prefeitura de Teerã, Gholamhossein Karbaschi, realizou grandes obras paisagísticas por aqui.

Por aqui, cada dia levam menos a sério o Ahmadinejad – e isso inclui o povo que o elegeu. Com a classe média urbana de Teerã, ele não é nem um pouco popular. Seu apoio vem do sul da capital e do interior, sobretudo nas cidades mais conservadoras, como Mashad e Qom. Parece que ele foi um bom prefeito de Teerã, ganhou fama de honesto, se elegendo presidente com a promessa de acabar com a corrupção e botar o dinheiro do petróleo na mesa do povão. Para mim, ele é a versão iraniana do Jânio Quadros. Mas o que está acabando com sua popularidade é a condução desastrosa da economia. Embora devamos levar em conta as restrições mais rigorosas aplicadas contra o país nos últimos meses, elas não são as únicas responsáveis pela deterioração rápida de todos os indicadores econômicos: inflação, custo de vida, desemprego, taxa de juros, nível de renda. Ahmadinejad trocou vários quadros técnicos do Governo Khatami e colocou pessoas de sua confiança, sem experiência, nos cargos.

Os iranianos são abertos e cosmopolitas, uma gente bem informada que acompanha o que se passa no mundo com interesse. O nível educacional é alto. Mesmo na parte sul da cidade, onde moram os mais pobres, não é raro encontrar famílias com cinco ou seis filhos, todos com diploma universitário. Eles se orgulham de sua civilização, que remonta à Pérsia aquemênida. Para eles, receber bem estrangeiros é um traço superior de sua cultura. Ser um bom anfitrião é quase uma obrigação civilizacional. O único vizinho com quem me relaciono é meu senhorio, um sujeito muito gente boa. E as mulheres formam boa parte da força de trabalho do Irã, inclusive no serviço público e na polícia. Dizem que elas já são mais da metade dos estudantes universitários.

Aqui na capital, onde a maioria da população é de etnia persa, todo mundo fala a língua oficial, farsi, que é o persa moderno. Mas se perguntarem alguma coisa para os peões de obra ou para os zeladores de edifício no meu bairro, eles provavelmente responderão em dari, a variante do farsi falada no Afeganistão. A maioria dos imigrantes são afegãos que vêm trabalhar como mão-de-obra não-qualificada e o segundo maior grupo é composto pelos refugiados iraquianos que se estabeleceram depois da Primeira Guerra do Golfo. Teerã está também cheia de diplomatas e expatriados como eu, que trabalham em multinacionais. O resto da população nativa é composta pelas etnias azeri, armênia, curda, turcomena e balúchi, que normalmente fala o farsi como segunda língua, e mantém sua língua materna em casa.

A vida noturna é dentro de casa. Os iranianos fazem muita festa, convidam de amigos para casa e ficam dançando até altas horas – só tomam algumas precauções para evitar problemas com a polícia. Paquera é mais complicado. O rapaz ou a garota estão caminhando na rua ou de carro no trânsito. Quando um se interessa pelo outro, o aborda e oferece ou pede o número do telefone celular. Se a coisa for adiante, eles marcam um encontro num café ou na casa de um amigo. Um dos grandes eventos sociais de Teerã são os engarrafamentos da quinta-feira à noite, quando a garotada troca números de celular adoidado.

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Tags: Depoimentos · Irã