Os 10 países mais perigosos do mundo

10/08/2009 - 10h14 - 323 Comentários

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Ahmadinejad é presidente. Por ora.

4/08/2009 - 00h01 - 70 Comentários

Pela primeira vez desde a Revolução Islâmica, um presidente do Irã tomou posse, ontem, sem que a cerimônia fosse veiculada ao vivo pela tevê. Havia motivo. Por tradição, o presidente anterior sempre está presente. Mas Mohammad Khatami não estava lá. Os candidatos derrotados costumam aparecer para demonstrar a unidade do regime – mas nem Mir Hossein Mousavi nem Mehdi Karoubi deram as caras. Akbar Rafsanjani, presidente da assembléia que elege o supremo líder também não estava.

Mahmoud Ahmadinejad recebeu do líder aiatolá Ali Khamenei a carta que lhe garante a presidência e deu início ao seu segundo mandado. Algumas horas antes, falando a policiais da milícia Basiji que trabalhou na repressão dos protestos eleitorais, descreveu assim o que faria com os manifestantes: ‘vamos erguê-los pelo colarinho e enfiar suas cabeças no teto’. (Em persa há de soar melhor.)

Mousavi, mesmo após dois meses, continua a questionar publicamente a eleição. Vários clérigos e gente ligada à história da Revolução, também.

Estão todos livres. Os que foram presos – jornalistas, estudantes, profissionais liberais e mesmo políticos começaram a ser julgados no sábado. Estes não protestam, muito pelo contrário. Na tevê, dizem que foram manipulados pela imprensa ocidental, que tramaram contra o regime, que desejaram uma revolução de cores aos moldes das ex-repúblicas soviéticas. Mousavi diz que foram torturados como ‘nos tempos da Idade Média’. Eles negam veementemente. Só mudaram de idéia, mesmo.

Ahmadinejad, ao que parece, continua o mesmo. Mas há algo de diferente ocorrendo no Irã. Não houve um apaziguamento. Não houve um acordão. O regime simplesmente rachou. O aiatolá Khamenei parece convicto de que conseguirá sufocar a revolta. Mas os líderes da oposição permanecem de pé, apesar das prisões e tortura. O governo segue em frente como se nada houvesse mudado.

Algo, no entanto, mudou.

O Irã vive tempos interessantes.

A revolução sexual do Irã

20/07/2009 - 04h58 - 203 Comentários

Está nas bancas a última edição da Trip e, nela, dois textos meus. Um conta a história de Karen Junqueira, a atriz moça desta segunda que o Duran fotografou e que fará Bruna Surfistinha no cinema. O outro texto é de onde vem esse trecho:

Entre 2000 e 2007, Pardis Mahdavi havia viajado todo verão para o Irã, terra de seus pais. Quando pisou pela primeira vez em Teerã e conheceu as primas de sua idade, tinha 21 anos. Falava fluentemente a língua persa, embora com um ligeiro sotaque que todos logo identificavam como americano. A vida em Teerã não era nada como imaginara. Esperava encontrar na terra dos aiatolás um mundo repressor – encontrou entre as primas e suas amigas mais liberdade do que ela, criada na comunidade do exílio nos arredores de Los Angeles, tivera. Descobriu o que ela, nos anos seguintes, passou a chamar de Revolução Sexual Iraniana. Mas nada do que vira até ali a preparara para aquela festa em sua última visita.

Eram 40 ou mais jovens. No meio da grande sauna, uma piscina esvaziada. Calor, vapor. Ecstasy rolava e a batida do tecno ensurdecia. Pardis encostou-se numa parede. Buscou sua amiga, mas ela estava abraçada a três homens que a beijavam e despiam. Todos nus. Sexo – sexo de todas as formas praticado ali na sua frente. Ainda vestida, a jovem antropóloga sentia calor, suava, sua roupa encharcada. Achou melhor ir-se embora, deixou a sauna e de longe viu a casa grande. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água gelada. Um empregado a encontrou. Tinha a cara amarrada. “O que você quer?”, ele perguntou. “Um táxi”, ela disse. Ele pediu pelo telefone.

Escrevi a primeira versão desta reportagem antes de as eleições presidenciais terminarem no impasse. Por baixo dos panos, uma profunda mudança social está acontecendo no Irã. Mudanças de comportamento raramente deixam o status quo inalterado. Foi assim com os anos 1960 no ocidente. Faltamente será assim na antiga Pérsia.

Quem tem medo de Internet?

10/07/2009 - 02h10 - 92 Comentários

internet

É certamente injusto sugerir que Hugo Chávez busca conter a Internet como Raúl Castro e Mahmoud Ahmadinejad. Mas as imagens no blog de Lia Caldas são divertidas ainda assim.

Ahmadinejad de terno branco qual ditador cucaracho é imbatível.

Saddam Hussein e o Irã

3/07/2009 - 09h15 - 34 Comentários

Um dos grandes mistérios a respeito da Guerra do Iraque é por que Saddam Hussein não permitiu que os inspetores da ONU confirmassem que ele não tinha armas de destruição em massa. Se a informação fosse comprovada, o ditador ainda governaria o Iraque. Agora, suas entrevistas com George Piro, agente do FBI, foram tornadas públicas pelo Freedom of Information Act, FOIA, uma lei norte-americana freqüentemente usada por jornalistas e ongs e que obriga o governo a mais transparência.

É comum que informação previamente secreta seja liberada pelo FOIA, mas o governo não raro posterga, faz o que pode para segurar, para abrir apenas parcialmente. Se liberou agora, e como Saddam trata do Irã, parece ser jogo de pressão.

Afinal, essa é a explicação que o ditador dá: não queria que a ausência de armas de destruição em massa fossem tornadas públicas para não se expor ao Irã. Segundo Saddam, o governo dos aiatolás continuava a desenvolver seu armamento pesado. Temia um ataque. Ele considerava que todos os países do Oriente Médio eram incapazes de se defender contra um ataque iraniano.

Hussein disse também que considerava Osama bin Laden um fanático e a história de que tinha sósias para evitar tentativas de assassinato era ‘fantasia de cinema’. Seu método para evitar que o encontrassem era não falar ao telefone e nunca dormir uma noite no mesmo lugar que a outra.

Como o governo Obama vê o Irã (Parte 1 de 2)

1/07/2009 - 16h49 - 99 Comentários

Myth, Illusions and Peace – Mitos, Ilusões e Paz – é o livro recém-lançado, nos EUA, de Dennis Ross, o diplomata encarregado no governo Obama de negociar com o Irã. O volume trata de todo o Oriente Médio mas, neste momento de crise, não custa focar nos capítulos a respeito do Irã.

É disto que este post trata: um resumo de como Ross vê o país e a diplomacia recente com ele. Amanhã, no segundo e último post da série, sua fórmula para negociar com os iranianos. Não custa lembrar: é a visão e a opinião do homem cujo escritório fica ao lado do de Obama na Casa Branca. Irã é assunto que pertence a ele.

Dentro do Oriente Médio, o Irã é visto como um país particularmente agressivo. Seu governo declara ter por objetivo exportar sua Revolução Islâmica e se pautar pela ’solidariedade muçulmana’. Ativamente, interfere internamente em três países. O Iraque, onde financia e treina milícias xiitas, o Líbano, onde financia e treina o Hizbolá, e os territórios palestinos, onde financia o Hamas. Nos três casos, o Irã sustenta exércitos paralelos àquele controlado pelo Estado.

O Irã segue a vertente xiita do Islã. Os países árabes, em sua maioria sunitas, não compram a história de ’solidariedade muçulmana’. Um diplomata árabe consultado por Ross descreveu o Irã como uma máfia: oferece proteção, quem não paga de alguma forma, sofre. E o governo do Irã é solidário apenas quando convém. Em casos como a Chechênia invadida pelos russos e literalmente posta abaixo, Teerã ficou calada. Acontece que os russos, assim como os chineses, são aliados. Por motivos semelhantes, já se manfiestou num conflito armado contra o Azerbaijão, onde a maioria da população é xiita.

Boa parte da Europa ocidental consome petróleo e gás iranianos. Eles até impõem algumas sanções, mas há limites para o que conseguem fazer. O governo dos EUA não faz negócios com quaisquer empresas que façam negócios com Teerã, o que é razoavelmente eficaz. Mas China e Rússia têm acordos comerciais com o Irã e, mais importante, fazem transferência de tecnologia petroleira. Nenhum jogo de pressão dará certo se os dois não forem incluídos.

Existem dois objetivos principais em uma negociação com o país. O primeiro é o de evitar que ele consiga armamento nuclear. O Irã não opera como o bloco comunista operava. A garantia de mútua destruição forçou que a Guerra Fria jamais esquentasse. Sempre que havia uma crise, Washington e Moscou tinham uma linha direta que permitia comunicação entre os altos níveis de governo. EUA e União Soviética se compreendiam. Não é o caso aqui.

Num governo movido por uma religião messiânica e disposta ao martírio, como é o caso do islamismo xiita, em que o presidente Mahmoud Ahmadinejad não cansa de declarar que o Imame Desaparecido está para retornar à Terra, as motivações podem ser diferentes. Israel é um país pequeno. Vários de seus mísseis não destruiriam o Irã por completo; poucos mísseis transformam Israel em terra arrasada.

Um ataque real não é o único medo. O Irã não é o único país do Oriente Médio com ambições de controle regional. A Arábia Saudita também é. Se o Irã subir o degrau nuclear, os sauditas poderão se ver obrigados a fazer o mesmo. No seu caso, eles sequer precisam desenvolver a tecnologia, o que demoraria alguns anos. Um acordo com o governo paquistanês para a transferência de alguns mísseis apontados para Teerã é viável. A Arábia Saudita, não custa lembrar, é o berço da al-Qaeda e radicais é o que não faltam no país. Além disso, se os sauditas tiverem seus nukes, os egípcios se verão motivados a seguir o mesmo caminho. Eles não poderiam deixar a Arábia Saudita ser o único país árabe com esse tipo de armamento.

Então há dois objetivos numa conversa com o Irã: evitar uma corrida armamentista em uma das regiões mais instáveis do mundo e fazer com que o país pare de financiar e treinar grupos que colaboram para a instabilidade interna da região.

O governo de George W. Bush, na leitura de Ross, cometeu uma série de erros políticos dentro e fora dos EUA com os quais é possível aprender. O primeiro foi não ter aproveitado o momento após a invasão do Iraque.

Quando o governo de Saddam Hussein caiu em duas semanas, Teerã levou um susto. Afinal, a guerra entre Irã e Iraque levou vários anos e o país não foi capaz de derrotar Saddam. A demonstração de poderio militar norte-americana não foi apenas convincente. Foi aterradora. De presto, via a Embaixada Suíça, o aiatolá Khamenei fez passar a Washington um apelo por diálogo e uma proposta de pauta escrita por seu embaixador na França. Queriam ir à mesa. A pauta incluía todas as garantias que os EUA pudessem querer, incluindo inspeções amplas, de que o país não buscaria armas de destruição em massa. A reação da Casa Branca foi a de repreender o embaixador por ter se excedido em suas prerrogativas. Khamenei ficou sem resposta.

Durante os anos seguintes, três questões fizeram o Irã mudar de opinião a respeito dos EUA. A primeira foi a total falta de controle no Iraque. Ficou evidente que Washington não sabia o que estava fazendo, o que afastou o risco real de uma invasão ao Irã. A segunda foi o excesso de ameaças. O governo Bush fez vários ultimatos contra o Irã, advertindo para as consequências de descumprir esta ou aquela resolução. Teerã fez o que quis e as consequências foram ralas. Por último, houve o relatório da inteligência norte-americana publicado em 3 de dezembro de 2007.

Segundo a versão pública do relatório, o Irã havia interrompido seu programa de armamentos nucleares em 2003. O documento de fato tinha muito mais nuances e dúvidas, mas foi apresentado à imprensa ressaltando a interrupção. Resultado: dia de festa em Teerã, a Europa afrouxou, os vizinhos relaxaram, Rússia e China que já não ligavam muito ganharam uma desculpa.

As agências de inteligência fizeram de propósito – e, aí, o que pegou foi a política interna. A Casa Branca deturpou o que lhe informaram CIA e outras para entrar no Iraque. Perante o desastre, a culpa sobrou para os espiões. Não queriam ser responsabilizados por outro desastre. Jogando na defensiva, bloquearam a diplomacia do governo ressaltando a parte amena do relatório. Desde então, o governo iraniano aumentou o tom de voz e os EUA ficaram sem espaço para ameaçar.

Este é o cenário herdado pelo governo de Barack Obama.

Conversar com o Irã não é elementar. É um país com política interna complexa e instável. No livro, Ross sugere uma estratégia ampla para iniciar a conversa. Por certo, um tanto mudou da reeleição de Ahmadinejad para cá. Mas não o principal. Este é um post que fica para amanhã.

Onde está Maziar Bahari?

1/07/2009 - 00h30 - 62 Comentários

Ontem, a agência de notícias iraniana Fars informou que o repórter Maziar Bahari, da Newsweek, deu uma entrevista coletiva na qual admitiu que sua cobertura das eleições presidenciais do país era tendenciosa em favor de Mir Hossein Mousavi. Bahari informou que faz parte da máquina capitalista que tem por objetivo questionar a legitimidade da eleição. Segundo a Fars, ele disse ainda que além de sua Newsweek, CNN e New York Times também fazem parte do complô internacional.

Não há, ainda, como confirmar se essa coletiva ocorreu de fato ou não.

Bahari, conhecido do Ryff, trabalha em Teerã com um amigo meu, o também repórter da Newsweek Babak Dehghanpisheh. Quando foi preso em sua casa, Babak de presto escreveu a todos que conhecia pedindo publicidade máxima para o assunto. Ambos são repórteres ideais para trabalhar no país por sua origem persa. Conhecem a cultura e a língua, embora tenham sido criados no exterior. A contrapartida é que o governo do Irã os considera cidadãos – e os trata como trata seus cidadãos.

A ‘confissão’ em entrevista coletiva de Bahari assusta. Era um jornalista tentando relatar o que se passa no país – agora diz fazer parte de um complô que não existe. Ou está assustado o suficiente para dizer qualquer coisa para se libertar. Ou o pior já aconteceu.

A Newsweek pediu publicidade máxima justamente para evitar o que parece ter ocorrido. Quando uma ditadura cruza esta linha, a de torturar jornalistas estrangeiros, em geral consegue o que quer: bloqueia o fluxo de informação para fora. Na era do Twitter, talvez seja um gesto inútil de desespero.

Mas se havia dúvidas de quem estava no comando, é a linha dura.

Agora é oficial: Mahmoud Ahmadinejad presidente

30/06/2009 - 10h35 - 30 Comentários

Ontem, enquanto o Weblog estava fechado para mudanças, o Conselho dos Guardiães anunciou seu veredito final, no Irã. Por certo não surpreende o fato de que descobriram que a eleição foi limpa de fraudes – talvez a mais limpa da história da República Islâmica – e que Mahmoud Ahmadinejad deve ser reconduzido à presidência. E qual a cara de um governo Ahmadinejad?

Hoje, dos 21 ministros, oito são membros reformados da Guarda Revolucionária e cinco foram comandantes da milícia Basij. É a mesma basij que descia o sarrafo ontem mesmo nos manifestantes que ainda têm coragem de ir às ruas para reclamar do golpe.

Não é só nas ruas que tem quebra-pau. Segundo o Huffington Post, alguns deputados chegaram a partir para a briga no parlamento. Mir Hossein Mousavi, em sua página no Facebook, continua clamando contra a ilegitimidade da eleição. Tem gente importante do regime do seu lado.

Mas esta batalha parece perdida.

Há provavelmente milhares de presos nas cadeias iranianas. E sabe-se lá quantos mortos. O Guardian, com ajuda da turma online do Irã e em parceria com as (seriíssimas) ongs Human Rights Watch e Repórteres Sem Fronteiras tenta compilar a lista de todo mundo.

O uso da palavra ‘batalha’, aqui, não é acidental. Há uma guerra em concurso pelo poder político no Irã. Ao longo dos próximos meses, haverá outras batalhas.

Na geopolítica do Oriente Médio, o Irã é um país cada vez mais importante. O medo do xadrez é o seguinte: se o país levar em frente seu projeto nuclear e se este projeto culminar com armamento, a dinâmica da região muda por completo. Ali, o Irã xiita e a Arábia Saudita sunita disputam os espaços de influência. É possível que, para retornar o equilíbrio de forças, os sauditas busquem também seu projeto nuclear. Para estes, há uma saída fácil e rápida: negociar com o Paquistão para botar mísseis em sua casa. Se a Arábia Saudita seguir o caminho nuclear, outro equilíbrio é rompido e o Egito não poderá permitir que os Sauds sejam o único poder nuclear árabe sunita.

Uma corrida armamentista num dos cantos mais instáveis do mundo dá medo em qualquer um.

Que tipo de governo fará Mahmoud Ahmadinejad em seu segundo mandato? A forte reação a ele nas ruas de Teerã o fará um presidente acuado? Ou, pelo contrário, com mais gana de ir ao confronto?

E, não menos importante, qual será a reação dos EUA? Barack Obama foi eleito prometendo conversar com o Irã. Os eventos recentes mudaram de alguma forma sua perspectiva? Como Obama vê realmente o país?

O futuro de Ahmadinejad é impossível de prever. Mas pelo menos a última pergunta dá para arriscar: enquanto as ruas de Teerã pegavam fogo, Denis Ross transferia seu gabinete do Departamento de Estado para a Casa Branca, onde ficará mais próximo do presidente. Ele, o diplomata encarregado de Irã no governo Obama, lançou há dois meses um livro sobre o assunto. E o livro está aqui do lado. Amanhã, quando já tiver lido as últimas páginas, conto.

We Shall Overcome

28/06/2009 - 00h01 - 335 Comentários

We shall overcome foi popularizada durante os anos 1950, no movimento dos negros por seus direitos civis, nos EUA. Ela simbolizava a resistência à violência do Estado com paz. É uma letra simples, de olho no futuro: We shall overcome, some day; Oh, deep in my heart, I do believe; We shall overcome, some day.

Nós vamos conseguir, um dia; do fundo do coração, eu acredito que conseguiremos, um dia.

Joan Baez popularizou a música mundialmente, na década de 60. Semana passada, regravou-a.

Em persa.

Embaixador iraniano
sugere que a CIA matou Neda

26/06/2009 - 06h17 - 212 Comentários

O embaixador iraniano no México, Mohammed Ghadiri, declarou ontem à CNN que desconfia que a CIA está por trás da morte da jovem Neda Agha-Soltan. Nenhum iraniano, afinal, faria algo do tipo.

A cada passo, nessa história, a decência do governo iraniano perde um pouco mais.

O Huffington Post tem imagens (não é agradável de ver) do primeiro iraniano abatido a tiros na frente das câmeras. A Al Jazeera tem imagens de um basiji atirando contra a população.

Ali Khamenei

25/06/2009 - 13h36 - 16 Comentários

khamenei_guardian

Steve Bell, do Guardian

Ruas vazias em Teerã, bastidores tumultuados

24/06/2009 - 15h31 - 92 Comentários

O Asharq Al-Awsat, maior jornal em língua árabe, que circula na Europa e no Oriente Médio, tem uma notícia interessante. Confirma algo já dito: que Mahmoud Ahmadinejad vem tentando conseguir a bênção dos grão-aiatolás em Qom e esta vem sendo negada.

O resultado imediato é que o Conselho dos Guardiães, responsável por rever o pleito, pediu mais cinco dias para tomar sua decisão.

Há um movimento nos bastidores da política. E há um símbolo forte, aqui. Se for verdade, põe o aiatolá Khamenei numa situação desconfortável. Ser o fiel da balança, afinal, era o seu papel constitucional. Não o do alto-clero de Qom. Mas, com o país rachado, ele começa a ser visto como alguém de um partido contra outro. O cardialato decidiu por se apresentar neutro.

Segundo o jornal árabe, os grão-aiatolás estão convencidos de que as manifestações na rua indicam a alta popularidade do grupo reformista. E que o fato de que o protesto contra as eleições vem na forma de gritos de “Deus é Grande” na noite mostra algo que não deveria ser ignorado pelo governo.

Mousavi negou ter participado da organização dos protestos hoje, em frente à Majlis, o parlamento. Pode ser sinal de que a conversa começa a avançar. É confirmado pelo fato de que mais políticos estão vindo à frente. Mohammad-Baqer Qalibaf, o prefeito de Teerã, defendeu a legalidade dos protestos. Ali Larijani, presidente do Parlamento, tenta permissão para que o candidato ‘derrotado’ Mir Hossein Mousavi possa falar aos deputados abertamente.

Algo está acontecendo. Há menos gente na rua, mas a política continua se movendo como se ainda fossem milhões.

A tentativa de protesto hoje contou com algo entre 500 e 1.000 manifestantes. A grande presença de batalhões de choque, segundo depoimentos, foi suficiente para dispersar o grupo com a violência habitual.

Enquanto isso, a televisão iraniana vem apresentando supostos manifestantes presos nas últimas semanas que confessam ter sido influenciados pela imprensa estrangeira – BBC e Voice of America, principalmente. Eles confessam atos de vandalismo contra a pátria. O ministro do Interior Sadeq Mahsouli informou ao parlamento que o governo já tem indicações de que os protestos nas ruas foram atiçados pelo Reino Unido, Estados Unidos e o ‘regime sionista’.

Esta é a história que os iranianos ouvem em sua imprensa.

Traduções iranianas

23/06/2009 - 12h30 - 22 Comentários

A Translation and Interpretation Initiative for Iranian Protesters (TIIIP) – Iniciativa pela Tradução e Interpretação para os Manifestantes Iranianos – tem o objetivo de traduzir do persa para o inglês a maior quantidade possível de documentos, cartas e textos diversos sendo produzidos pelos manifestantes no país.

O grupo tem um blog e um wiki.

Em busca de uma solução iraniana

23/06/2009 - 08h18 - 219 Comentários

A notícia publicada aqui, ontem, de que Akbar Rafsanjani teria em mãos um documento pedindo a anulação das eleições e assinado por 40 membros da Assembléia dos Especialistas não saiu em nenhum outro veículo iraniano. A fonte original é o site PeikNet, que pertence a gente que, nos tempos do xá, era do Tudeh, o Partido Comunista do Irã. O PeikNet arranja documentos inéditos com alguma frequência e, neste caso, eles apresentaram o documento inteiro. Mas também é verdade que o PeikNet publica tudo o que tem em mãos, sem se dar ao trabalho de checar.

A essas alturas, acho que a notícia é falsa. Desculpem.

Roger Cohen, do New York Times, esteve com Mehdi Rafsanjani, filho do aiatolá Rafsanjani. O filho informa que seu pai está trabalhando nos bastidores para conseguir a anulação das eleições perante o Conselho dos Guardiães. Cohen reconhece que o Conselho é leal a Khamenei, mas o fato de que já reconheceu que há discrepâncias nos resultados de 50 cidades que afetam 3 milhões de votos num universo total de 40 milhões é um grande passo.

Ali Larijani, presidente da Majlis, o Parlamento, criticou o Conselho dos Guardiães na IRIB, a tevê do governo. “A maioria do povo está certa de que o resultado das eleições é diferente do que foi anunciado oficialmente.” Larijani é leal ao aiatolá Khamenei – e isto faz diferença. Ex-presidente da IRIB, ele também criticou a tevê estatal por não noticiar aquilo que o povo vê na rua: que a maioria dos protestos foram pacíficos.

Que fique claro: não foram críticas veementes. As fissuras aparentes no regime são discretas.

Um dos rumores que não cedem é o de que o comandante da Guarda Revolucionária em Teerã, Ali Fazli, se recusou a cumprir ordens de partir contra os manifestantes e, dependendo da fonte, foi afastado do cargo ou preso.

O governo está preocupado, evidentemente. Mas a opressão de sábado certamente conteve o ímpeto dos manifestantes. Há relatos – alguns confiáveis – de levantes por parte de minorias étnicas. Há preocupação, muita preocupação, com a história da menina Neda. Dentro do país, chamam-na de ‘Joana D’Arc do Irã’. Na tradição muçulmana, um morto deve ser lembrado em cerimônias religiosas no terceiro, nono e trigésimo dia. Segunda-feira, o governo proibiu a família de Neda de celebrá-la publicamente.

É uma proibição quase ofensiva. Para quem tiver interesse, não custa indicar a entrevista da BBC com o noivo de Neda.

Mas o que realmente está acontecendo no Irã? Segue aqui a tirada de Gary Sick, um dos analistas que mais citei nesta última semana e meia, com algumas décadas estudando o país:

Não esperem um vencedor e um perdedor claros num período curto de tempo. A Revolução Iraniana teve início em janeiro de 1978 e o xá só deixou o país em janeiro de 1979. E esta é considerada uma das mais rápidas derrubadas de um regime com estrutura estável da história. Ao longo daquele ano, houve longas pausas e períodos de calma que, muitos imaginaram, indicava que a revolta popular havia morrido. Isto não é 100 metros rasos. É uma maratona. Resistência é no mínimo tão importante quanto velocidade.

Provavelmente não haverá vencedor ou perdedor claros. Os políticos iranianos são espertos. Preferem xadrez a futebol e uma ‘vitória’ pode ser, na verdade, uma solução negociada na qual todos saiam aparentemente bem. A atual liderança provavelmente cometeu um erro ao partir para a demonstração de força, mas se ela concluir que não há como vencer, vai partir para uma saída negociada. Que acordo seria esse, neste momento, é impossível dizer. Mas provavelmente significará concessões disfarçadas por uma aparência pública de que o regime está unido.

Sick estava dentro da Casa Branca quando acompanhou a Revolução que o aiatolá Khomeini liderou.

O Weblog, evidentemente, continuará a acompanhar atento e diariamente o Irã. Mas, ao menos por enquanto, vou diminuir o ritmo dos vários updates por dia.

Rafsanjani enfim se move e o Irã racha

22/06/2009 - 10h11 - 174 Comentários

15h15 –De Paulo Coelho, em seu blog:

Meu melhor amigo no Irã, um médico que me apresentou sua bela cultura quando visitei Teerã em 2000, que lutou a guerra em nome da República Islâmica (contra o Iraque), que cuidou de soldados feridos no front, que sempre se sustentou em pról de valores hmanos, é visto tentando ressucitar Neda, atingida em seu coração.

14h30 – Vez por outra, é puxar analistas que de fato são do ramo. Juan Cole é especialista em xiismo iraniano. De seu blog:

O Financial Times de hoje lembra que o contínuo desafio de Mousavi a Khamenei pode forçar o regime a prendê-lo, considerando que o passo é importante para limitar suas ações.

Mas os xiitas do Irã conhecem bem os riscos de criar mártires. Sua religião se baseia historicamente na resistência aos tiranos por mártires. Prender Mousavi pode botar tudo a perder para quem está no poder, ou consolidar o poder na mão da linha dura.

É um dos temores que o regime tem com a distribuição viral do vídeo da morte da moça Neda. Ninguém quer um mártir.

Em outro post, Cole examina um estudo (PDF) do think tank britânico The Chatham House, que examina os números oficiais das eleições divulgados pelo governo do Irã.

Em um terço das províncias do país, Ahmadinejad manteve todos os eleitores que votaram nos conservadores nas eleições anteriores, recebeu todos os votos dos eleitores que costumam votar no centro e ainda arrematou 44% dos votos dos eleitores que sempre votaram nos reformistas.

14h – A jovem Neda, informa a AP, era uma agente de viagens.

12h15 – O governo do Irã informa que vândalos infiltrados abriram fogo contra manifestantes para incriminar o governo, no último sábado. Tais vândalos desconhecidos são procurados por assassinato.

11h15 – A melhor história do dia vem de um grupo fiel ao aiatolá Khamenei, o Conselho dos Guardiães, responsável por fazer a ‘recontagem parcial’ dos votos. Os senhores do conselho negam peremptoriamente que tenha havido fraude generalizada. Segundo eles, apoiados pelo Ministério do Interior, apenas 50 cidades do país computaram mais votos do que havia eleitores.

Então, tá.

11h15 – No ar o site Neda’s Voice.

Já o site Revolution Martyrs tenta compilar todas as vítimas fatais mortas pelo regime dos aiatolás desde o dia da eleição.

11h10 – Segundo a Reuters, pelo menos 1.000 manifestantes tentaram organizar uma passeata hoje, em Teerã. A cidade está tomada por homens armados de prontidão para sufocar qualquer manifestação.

10h50 – O Huffington Post tem um bom vídeo, trecho de um documentário, que mostra a eleição de Ali Khamenei para chefe supremo. Seu principal cabo eleitoral foi seu atual maior inimigo, Akbar Rafsanjani.

10h40 – Não é apenas na blogosfera de extrema esquerda pátria que começam a pintar teorias de que a CIA, ou o ocidente, ou a imprensa ocidental, são os reais responsáveis pelo levante, no Irã. É exatamente isto que a governo do país está dizendo.

10h20 – Alguns de vocês me perguntaram a respeito da Embaixada Brasileira, em Teerã. No Twitter, chegou a ser anunciado que nossa Embaixada teria sido aberta para os feridos, no sábado. Não aconteceu pelo seguinte: a embaixada está localizada num ponto longe de onde ocorreram os protestos.

Oficialmente, se algum ferido bater à porta da Embaixada do Brasil, os diplomatas estão instruídos a agir de acordo com o direito internacional humanitário. Ninguém deixará de ser tratado.

10h15 – Está circulando no Irã um documento assinado por 40 dos 86 membros da Assembléia dos Especialistas. É o órgão que tem poder sobre o grão-aiatolá Ali Khamenei.

Eles pedem a anulação das eleições.

Se a veracidade desta carta for comprovada, é a primeira vez que o alto-cardialato do Irã entrou em confronto aberto com o líder supremo. O governo do país acaba de rachar oficialmente.

No Irã, tem início uma semana de indecisão

22/06/2009 - 09h08 - 7 Comentários

Depois do sábado sangrento e de um domingo relativamente calmo, a semana começa no Irã. Na sexta-feira, o aiatolá Khamenei havia prometido levar polícia às ruas e repreender os manifestantes que ousassem questionar o governo. Cumpriu sua promessa. As manifestações continuarão?

Um dos caminhos cogitados pela oposição é o de greve geral. Eles sempre retornam aos dias da Revolução Islâmica. Quando o xá respondeu com a polícia, ficou mais difícil levar gente à rua. Mas instauraram uma greve. Se os estudantes, impetuosos por serem jovens, continuam saindo apesar do risco de morte, não bastam apenas eles. Uma greve tem a qualidade de inviabilizar o país se arriscar a vida.

Mas há um protesto marcado para hoje: uma vigília com velas em homenagem aos mortos simbolizados pela jovem Neda Agha-Soltani, jovem com algo entre 26 e 27 anos cuja morte foi filmada por duas câmaras diferentes. Neda já é verbete na Wikipedia, tem página memorial no Facebook e é assunto recorrente no Twitter – hashtag #neda.

neda

Oficialmente, informa a polícia do Irã, 457 pessoas foram presas no sábado e 13 morreram. Também oficialmente, o número de mortos desde as eleições é de 17 (incluindo os 13).

São, não custa reforçar, os números oficiais.

Tenho uma fonte que me informa que só na prisão de Evin, localizada no noroeste de Teerã, há entre 1.500 e 2.000 novos presos. Desde os tempos do xá, é para lá que vai a maioria dos presos políticos. Akbar Rafsanjani andou por lá. Assim como o professor Abbas Milani, frequentemente consultado por aqui. Não posso dar muitos detalhes sobre como minha fonte tem essa informação: mas os gritos de tortura têm sido ouvidos por todos os presos.

Outra informação que recebi fala de 50 mortos na província Sistan-Baluchistan. É onde vive a minoria étnica balúchi, que tem um longo histórico de rejeição ao governo central. Lá, foi batalha aberta, com AK-47s. Uma terceira informação é que na província de Shiraz – de onde, diz a lenda, veio a uva que faz o melhor vinho – o exército regular anda demonstrando insatisfação em ter ordens para virar-se contra o povo.

Não tenho como atestar pelas informações no parágrafo acima: listo porque parecem coerentes. Tem muito analista de primeira viagem que não entende o Irã falando do ‘interior conservador’ que teria votado em peso em Mahmoud Ahmadinejad. O Irã não é como os EUA ou como o Brasil onde pode-se falar de uma grande população mais ou menos homogênea que divide a mesma língua e a mesma cultura, com variações regionais. Não existe um ‘interior conservador’ que funcione e pense de uma maneira igual.

O interior iraniano de verdade é composto por azeris como Mousavi (24% da população), gilanis (8%), mazandaranis (8%, Reza Pahlavi era), curdos (7%), árabes (3%), balúchis (2%), lurs (2%), turcomenos (2%), além de outras minorias como judeus, georgianos, assírios, ciganos, hazaras, cazaques, cada qual lá com seu 1%. O povo persa compõe apenas metade da população do país e cada minoria tem sua pauta política, não raramente em oposição ao governo central. E, como muitos já falaram, é improvável e certamente inédito que, por exemplo, os azeris tenham oficialmente votado em peso contra seu candidato.

É igualmente possível que o exército regular, ou que a polícia, hesite em partir contra a população. Há alguns depoimentos parecidos com os de minha fonte. Mas não custa lembrar que é com a Guarda Revolucionária e com a milícia basiji que o regime conta para fazer a repressão.

O domingo após a pancadaria no Irã

21/06/2009 - 09h49 - 209 Comentários

17h50 – Um amigo, o repórter e fotógrafo Maziar Bahari, da Newsweek, foi preso esta manhã em Teerã. Ele foi detido por policiais não uniformizados em sua própria casa e o governo do Irã não divulga sua localização ou a acusação que justifica sua prisão. A recomendação é de que a notícia seja amplamente divulgada.

10h20 – A filha de Akbar Hasmemi Rafsanjani foi presa ontem com mais quatro familiares. Rafsanjani continua em Qom tentando mobilizar o alto-clero. Ou, ao menos, é onde todos acreditam que ele esteja.

10h05 – A moça cujo assassinato pela milícia basij foi filmado, ontem, se chamava Neda. O homem de camisa com listas que aparece com ela ao colo é seu pai. Em persa, ‘Neda’ quer dizer voz, chamado.

9h55 – Gente: meus planos, hoje, não são de ficar acompanhando 100% do tempo. Mas estarei de volta ao longo do dia.

9h50 – A carta que o governo está divulgando como apoio oficial da Assembléia dos Especialistas é, na verdade, uma carta assinada por um único aiatolá – Mohammad Yazdi, vice-presidente do órgão e homem fiel a Khamenei.

O Irã que poderia ter sido, o Irã que existe

21/06/2009 - 06h40 - 73 Comentários

Ontem, publiquei aqui no Weblog uma cena de morte em vídeo. Em seis anos de existência, tenho quase certeza de que foi a primeira vez. É uma cena que me ofende, me deprime. Tenho certeza de que causa a mesma sorte de reação em vocês.

Publiquei por um motivo: a quantidade de vozes, aqui e alhures na rede, dizendo que era exagero. Que nada demais ocorria no Irã.

Sim, tem sido uma cobertura com informação incerta e a temperatura sempre alta. Não há como fazer diferente. Não há como ter informação mais certa. O governo do Irã está fazendo tudo o que pode para que informação não circule enquanto desce o cacete. Ditaduras são assim.

Alguns me acusam de não estar cobrindo, estar torcendo. Perdoem: não inventei a ditadura iraniana. Não tomei a decisão de proibir os iranianos de se manifestarem. Tampouco optei por abrir fogo.

Não adianta matar o mensageiro.

Tampouco adianta cobrar manifestações pró-Ahmadinejad. Não sei se elas ocorrem. Se elas ocorrerem, tenho certeza de que ninguém está morrendo por dizer que prefere ele.

Não, não acho que Mir Hossein Mousavi seja o melhor para o Irã. Quando foi premiê, muita gente foi fuzilada no país. Mas acredito que o grupo político que ele representa, dos reformistas, é melhor para os iranianos do que os conservadores, representados por Ahmadinejad. Sim, o ideal é que não exista ditadura. Só que entre uma ditadura que permite alguma liberdade individual no modelo chinês e outra que proíbe mulheres de entrarem num estádio de futebol ou apedreja quem faz sexo antes do casamento, fico com Mousavi contra Ahmadinejad.

Sim, os EUA têm culpa. O Irã ideal era um em que Mohammad Mossadegh pudesse ter governado sem que um golpe com influência estrangeira o tivesse apeado do poder para implantar a ditadura do xá.

Tem graça quem defende o xá achando que ele é o oposto dos aiatolás. Foi Reza Pahlavi quem deu poder ao clero. Não houvesse a ditadura do xá, não teria havido a tremenda multiplicação de mesquitas, a evangelização das massas nos bolsões pobres urbanos que culminou com a Revolução Islâmica.

Pois é: se Mossadegh tivesse continuado seu governo. Teria sido possível mesmo sem a CIA interferindo? Quem há de saber? Havia instabilidade política. De repente, mesmo que ele caísse, outro premiê o sucederia e o xá continuaria quieto em seu lugar.

Não importa porque não aconteceu. O Irã ideal não existe, o que existe é este que está aí. Não adianta brigar comigo ou achar que minha ‘torcida’ deturpa os fatos. O que está acontecendo é simples. Tem gente infeliz por lá. E o governo quer tratar essa infelicidade na base do porrete. Em geral, funciona. Nos últimos dias a turma está enfrentando.

Povo que se levanta contra um governo opressor merece respeito em qualquer lugar do mundo.

Uma construção posto que é domingo

21/06/2009 - 00h01 - 6 Comentários

qom

Hoje no Irã

20/06/2009 - 07h38 - 261 Comentários

18h45 – O professor Abbas Milani me responde a respeito da notícia abaixo: Este site é um dos sites oficiais do regime. Não vi essa notícia em nenhum outro lugar. Não quer dizer não seja verdade, pode ser. Jamais acreditei que Rafsanjani quisesse derrubar Khamenei. Ele não teria os votos para isso e Rafsanjani jamais entra em batalhas que pode perder.

18h25 – Estou tentando confirmar esta notícia: a Assembléia dos Especialistas teria anunciado, hoje, apoio irrestrito ao aiatolá Khamenei. É o grupo liderado por Rafsanjani que teria algum poder sobre o líder supremo. (Este post explica.)

Se for verdade, esta é uma interpretação possível: o clero se unificou, os líderes políticos como Mousavi e Keroubi estão abandonados à própria sorte. E o povo? Pois é, o povo…

Estou tentando confirmar a confiabilidade deste site, a tradução do persa e encontrar alguém que tente me explicar o contexto da decisão.

16h10 – O Tehran Bureau afirma ter uma fonte no Hospital Fatemiyeh, na capital iraniana. Há entre 30 e 40 mortos lá, 200 feridos.

15h05 – Do Anônimo da Pérsia, nos comentários, direto de Teerã: Olha, o pessoal da minha vizinhança passou mais de uma hora gritando bem alto “Allah-u-Akbar”.

14h55 – Alguns de vocês estão questionando a parcialidade de minha cobertura. Sugerem que a temperatura está alta demais – quiçá sensacionalista.

Cá o Weblog não é a única fonte de informação desta hesitante cobertura ao vivo pela web. Tentamos confirmar as informações como dá, pela confiabilidade que certas fontes no Twitter tiveram no passado ou porque vêm pelos canais oficiais. Tenho procurado fazer uma cobertura mais conservadora, sem publicar a maior parte do que sai na rede. Tudo o que entrou aqui foi publicado também por alguns dos principais veículos jornalísticos do mundo.

Andrew Sullivan, da Atlantic Montly.
New York Times.
Huffington Post.
The Guardian.
Revolutionary Road – este é um blog iraniano, não sei confirmar quão confiável é.

14h40 – Não vou abrir este vídeo, mas cá está o link. Esta moça foi assassinada pela basij há pouco, em Teerã. ATENÇÃO: as imagens são fortes, muito diferente do tipo de coisa que o Weblog costuma publicar. Mas é importante para entender o que está ocorrendo na capital iraniana.

14h20 – A televisão iraniana, informa @iranbaan, está apresentando o depoimento de ‘manifestantes presos’. Um deles informa que estava a serviço dos britânicos e norte-americanos (Vênus) para atiçar tumulto.

14h10 – Tenho evitado de publicar esta informação: Mir Hossein Mousavi, falando aos manifestantes, disse que estava ritualmente preparado para o martírio e que, caso fosse preso ou morresse, a população deveria entrar em greve. A informação agora está em seu Facebook.

13h40 – Este vídeo das demonstrações de hoje foi publicado no Facebook de Mousavi.

12h55 – Helicópteros jogam água que queima, provavelmente com algum agente químico, na população. No Twitter há quem sugira ser gás CR, um lacrimogêneo que provoca forte ardência, principalmente nas mucosas.

12h41 – Noticiário crescente via Twitter de que Mousavi está com os manifestantes.

12h23 –

12h20 – De Al Giordano, via Andrew Sullivan:

A estratégia do governo parece ser bloquuear as várias entradas para a praça Enghalab, onde teria início a marcha. Vários iranianos no Twitter informam que os estudantes universitários têm sua saída dos campi interceptada, eles apanham antes de tomar caminho da passeata.

Se é isto que está ocorrendo, o objetivo é evitar que os manifestantes se agrupem a ponto de formar uma massa crítica de pessoas em um único lugar. Junte-se a prisão de repórteres e a proibição de imagens indicam uma estratégia midiática. Querem evitar que fotos e vídeos apresentem a magnitude dos protestos. Imagens de grupos divididos fugindo de tiros ou de bloqueios da polícia não têm o mesmo impacto emocional do que uma passeata com milhões de pessoas.

Às vezes, em situações assim (caso de Oaxaca, México, 14 de junho de 2006) os grupos divididos acabam conseguindo se encontrar e reunir em um único lugar para poder marchar em massa. Veremos…

12h16 – Várias fontes na Internet afirmam que o ex-prefeito de Teerã e chefe de campanha de Karoubi, Gholamhossein Karbaschi está nas ruas junto ao povo.

12h15 – O blog Revolutionary Road, que diz estar cobrindo ao vivo as manifestações, fala de choques constantes entre as forças de segurança e o público. Os basiji descem o cacete. Gás lacrimogêneo sendo usado. Gente sendo morta.

12h10 – Com franqueza, de tudo o que leio, não sei em que confiar. A Praça Enghelab parece estar fechada, bloqueada pelas forças de segurança. Ainda assim, as pessoas avançam. Uma história que circula fala de um homem-bomba que se explodiu aos pés do monumento ao aiatolá Khomeini.

9h40 – A imprensa estrangeira não consegue confirmar o que ocorre – melhor esperar para saber ao certo.

8h25 – Segundo Fershteh Ghazi, a usuária @iranbaan no Twitter, a Praça Enghelab está cheia de policiais do batalhão de choques, cassetetes à vista. Os celulares foram cortados naquela região. Líderes da oposição estão sendo presos. Ainda assim, as notícias são de que grandes ondas de gente de toda Teerã estão marchando em direção ao ponto de encontro.

8h20 – Gente, direto da fonte, a página no Facebook de Mousavi: as passeatas estão confirmadíssimas.

8h15 – A conspiração que inventa Revoluções de Cores, por George Soros/John McCain/Israel/Casa Branca, tenta derrubar o legítimo governo iraniano.

7h35 – A página de Mir Hossein Mousavi no Facebook amanheceu com este vídeo no ar:

É inspirador, quer levar o povo às ruas. Tenta dar dimensão histórica ao momento – confunde a biografia de Mousavi com a história da Revolução Islâmica. E abaixo do filmete, uma legenda: ‘Os olhos da história estarão sob nós, hoje… 16h, Praça Enghelab.’

O uso da internet neste momento da história iraniana é um dos casos mais impressionantes de uso da rede para política que já vi.