Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Oriente Médio'

O favor que al-Maliki prestou a Obama,
que deseja ser Kennedy ou Reagan

21/July/2008 · 39 Comentários

Barack Obama só chegou ao Iraque hoje, mas a edição mais recente da revista alemã Der Spiegel já lhe trazia uma boa notícia no fim de semana. São as palavras do premiê iraquiano Nouri al-Maliki: ‘Os EUA devem deixar o Iraque tão logo seja possível’, ele disse. ‘O candidato Barack Obama fala de deixar em 16 meses. Esta, imaginamos, seria uma boa perspectiva, com a possibilidade de pequenas mudanças.’

John McCain tem batido sistematicamente em Obama neste quesito. Ele argumenta que o candidato democrata entende pouco do que está acontecendo no Iraque e é imaturo para avaliar. Esta viagem de Obama à Ásia Central e Oriente Médio é um bocado defensiva, para poder dizer que esteve lá recentemente e que conversou com os comandantes.

Mas, quando o governo do Iraque diz que ele está certo, tudo muda de figura.

Al-Maliki, evidentemente, está de olho também na política interna de seu país. Ele, que assinou a ordem de execução de Saddam Hussein, é xiita. Os xiitas querem o controle do Iraque e, como são maioria, têm chances de conseguir. Xiita mas não excessivamente religioso. Anda de terno e gravata e não com vestes tradicionais. Ouve o clero, mas aproveita o que quer de seus conselhos e dispensa o resto. É de família tradicional. Seu avô foi ministro do rei Faisal I, irmão do avô do atual rei da Jordânia, quando o Iraque era uma monarquia. Prestar um favor ao futuro presidente dos EUA por certo renderá pontos. É uma aposta, claro, mas o tipo de aposta que ressoa bem em casa. O que ele está dizendo qualquer um que esteve no Iraque repete: querem os norte-americanos fora.

O fato é que McCain foi jogado para a defensiva. Até agora, vinha fazendo seu discurso na posição de veterano de guerra, filho e neto de almirantes, especialista em política externa perante o jovem e desqualificado oponente na eleição. É um papel difícil de sustentar quando o governo que os EUA deveriam estar ajudando concorda com a avaliação de Obama.

Neste momento, al-Maliki está sob pressão, já disse que foi mal interpretado. Qual que nada, o estrago foi feito. Um bocado de pressão também deve estar sobre o presidente Jalal Talabani. É o mínimo com o qual McCain pode esperar: ao menos a impressão de que o governo iraquiano está dividido. Mas Talabani está em silêncio e cada dia em que este silêncio se mantém, mais alto ele fala.

Do Oriente Médio, Obama seguirá para a Europa. Na Alemanha, fará um discurso para mais de um milhão de pessoas aos pés da Coluna da Vitória erguida pela Prússia nos tempos de Otto von Bismarck. Ele queria falar à frente do Portão de Brandenburgo, mesmo local em que John Kennedy disse ‘Ich bin ein Berliner’ e, anos depois, Ronald Reagan pediu a Mikhail Gorbachov que derrubasse ‘aquele muro’. É o local onde presidentes dos EUA foram grandes.

Foi com toda razão que o governo alemão gentilmente negou-lhe o espaço. Seria uma intromissão violenta na política interna norte-americana permitir a Obama que fosse filmado qual Kennedy ou Reagan perante um milhão de alemães. Mas é bem possível que as imagens tenham esta aparência de sucesso majestoso de qualquer jeito. Obama é popular na Europa.

(Não custa dizer: é exatamente o tipo de intromissão que al-Maliki cometeu. Mas ele deve ser perdoado. Seu país, afinal, está invadido. Ele tem interesse direto no resultado do pleito norte-americano.)

Tudo, é claro, pode ser posto a perder com uma gafe. É o maior fantasma ao redor de Obama. Se tudo der certo esta semana, ele volta com a imagem de um líder respeitado e admirado no exterior. É o tipo da coisa que os norte-americanos sentem falta. Depois de George W. Bush, tudo o que querem é um novo Kennedy, um novo Reagan. É esta a imagem que Obama quer vender.

Tags: EUA · Europa · Iraque

O Afeganistão nas eleições dos EUA

16/July/2008 · 13 Comentários

Mais soldados ocidentais morrem em batalha no Afeganistão, hoje, do que no Iraque. O Talibã está fortalecido, a chefia da al-Qaeda circula com facilidade. Na área de fronteira com o Paquistão, nenhum governo manda.

Há meses, o cenário eleitoral norte-americano, no que tange política externa, se resume assim: John McCain quer ficar no Iraque, Barack Obama acha que o foco deveria ser na fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Os fatos estão obrigando McCain a mudar.

Mas a política é de difícil costura. Primeiro, por causa do Irã.

EUA e Israel vêm mantendo forte pressão sobre o Irã, nos últimos meses. Cogitar uma guerra é irreal – a OTAN não vai se empenhar, a desastrada aventura no Líbano deixou o governo israelense capenga e os EUA não têm força. Um bombardeio é possível. O Irã revidaria com tanta força quanto possível. Primeiro, com mísseis contra Israel; depois, no Afeganistão e no Iraque, países com os quais faz fronteira.

O presidente afegão Hamid Karzai tem se equilibrado nesta linha fina. Elogia Bush, elogia Ahmadinejad. Ele não tem escolha. Precisa do apoio iraniano para reerguer o país. E a lição que teve é de que os EUA ajudam, mas esquecem rápido.

Nos EUA, faz um bocado de diferença. A força de McCain é que, para o eleitor, ele parece entender mais de Forças Armadas do que Obama; Obama, por sua vez, inspira mais confiança na economia, que anda em frangalhos e ameaçando piorar. Há anos Obama diz que o Iraque é uma distração enquanto McCain insiste que é o principal palco na luta contra o terrorismo. Até há pouco tempo, a percepção de que havia melhoras no Iraque favorecia John McCain. Com o acirramento do conflito no Afeganistão, a impressão pode passar rapidamente.

Tags: EUA · Iraque · Ásia Central

Enquanto o Irã testa mísseis

10/July/2008 · 64 Comentários

Ontem, o Irã testou mísseis de longo alcance, provando que consegue atingir Israel se o desejar. Nos EUA, o secretário de Defesa Robert Gates de presto se adiantou, dizendo que um conflito é de todo improvável. Na seqüência, a secretária de Estado Condoleezza Rice interceptou a mensagem informando que, não importa o que diga Gates, os EUA intervirão se considerarem necessário.

Esquizofrenia? Nada. Good cop, bad cop – policial bonzinho e o malvado. É tática.

Karim Sajdadpour especialista em Irã entrevistada pela Foreign Policy explica o lado de Teerã nesta história:

Na semana passada, o Irã soava conciliador, o ministro das Relações Exteriores Manouchehr Mottaki falava de uma ‘nova tendência’ nas negociações nucleares. Esta semana, o governo do Irã fala de atacar os EUA ou Israel em resposta a uma ofensiva e testam mísseis que podem chegar a Tel Aviv. O que explica a mudança?

As últimas duas semanas mostram a maneira de o líder supremo aiatolá Ali Khamenei enxergar o mundo e seu método de operação que não prevê nem confronto, nem acomodação, com o ocidente. Semana passada, os sinais vindos de Teerã diziam ‘nós somos capazes de praticar diplomacia’. Esta semana, o Irã informa a Israel e aos EUA, ’se vocês partirem para uma escalada, seremos recíprocos’. Khamenei quer enviar um sinal claro: ‘não achem que pressão vai moderar nosso comportamento’. Ele acredita que quem cede a pressão acaba convidando mais pressão.

O presidente Mahmoud Ahmadinejad se referiu à possibilidade de um ataque ao Irã como uma piada. O que o senhor acha que ele está tentando fazer?

Ele sempre acreditou que a possibilidade de um ataque ao Irã é muito pequena. Ele interpreta a vitória parlamentar dos democratas, nas eleições de 2006, como um indício de que a população norte-americana não deseja mais aventuras no Oriente Médio. Assim, ele acha que os políticos dos EUA têm as mãos atadas. Isto posto, um ataque militar norte-americano contra o Irã seria ótimo para Ahmadinejad. Só há duas coisas que poderiam reabilita-lo perante a opinião pública do Irã. Uma é esse ataque. Outra é uma ofensiva diplomática violenta dos EUA contra seu país. Na minha opinião, os EUA não deviam fazer nenhum dos dois.

Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina

O mundo em busca de reformas

6/July/2008 · 57 Comentários

Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.

E o planeta não poderia estar mais diferente.

Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.

As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:

Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.

A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.

Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.

Tags: Argentina · Brasil · China · EUA · Europa · Japão · Mundo · Oriente Médio · Rússia · África

A costura diplomática entre Irã, EUA e Europa

4/July/2008 · 45 Comentários

Há definitivamente tensão no ar por conta da possibilidade de um ataque ao Irã. Esta semana, em vários pontos do mundo, distintos esforços diplomáticos saíram à tona veladamente na imprensa.

Na edição de semana passada da revista The New Yorker, o decano dos repórteres investigativos Seymour Hersh publicou um longo texto a respeito dos conflitos internos entre Casa Branca e Congresso, nos EUA.

Segundo Hersh, a liderança democrata e republicana, no Congresso, autorizou o financiamento de operações secretas dentro do Irã por parte da CIA e das Forças Armadas. Em geral isso quer dizer dar dinheiro e treinar forças de oposição. Há receio, no entanto, de que estas atividades estejam indo além.

Um dos que manifestam preocupação é o secretário de Defesa Robert Gates. Falando numa reunião privada a senadores, Gates disse que se houver ataque ‘vamos criar gerações de jihadistas e nossos netos vão lutar contra esses inimigos aqui nos EUA’. Perguntaram-lhe se ele falava em nome do presidente Bush ou do vice, Dick Cheney. ‘Digamos que falo apenas em meu nome.’ Sim, o ministro de Bush é contra os aparentes esforços da Casa Branca de atacar o Irã. Hersh diz ainda que a resistência entre os generais também é muito grande. Mas que a pressão por um ataque continua.

Ali Ettefagh, um financista iraniano que mora entre Irã e Europa, analisa assim a situação: ‘Estes são vazamentos propositais vindos direto do escritório do vice-presidente para Seymour Hersh. É um jogo psicológico, uma onda cíclica de noticiário intenso contra o Irã que demonstra a falta de boa vontade do governo norte-americano. Essas notícias de operações secretas chegam para desestabilizar o Irã no momento em que o grupo 5+ 1 (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia) fazem uma oferta de acordo para resolver a questão nuclear. O Irã não deve se permitir confundir pelo jogo.’

Segundo Ettefagh, sempre que algum tipo de acordo está sendo seriamente discutido, vaza na imprensa dos EUA alguma notícia que afasta o Irã das mesas de negociação. O Irã fica parecendo o vilão. Talvez. Aí, passam-se uns dias, o presidente Bush vem deixar claro que nada disso está acontecendo e que a solução que seu país busca é diplomática. Exatamente como aconteceu esta semana. A questão, porém, é mais complexa.

Mesmo quando nós jornalistas não percebamos o jogo – e, muitas vezes, não percebemos mesmo que estamos sendo usados – diplomatas percebem. Sabem exatamente o que acontece, tanto no Irã quanto fora. O desconforto com o governo iraniano é grande. O presidente Mahmoud Ahmadinejad fala demais e não tem qualquer vontade de diplomacia. É um incendiário. E é por isso que uma carta publicada ontem no jornal francês Liberatión é particularmente importante.

No ano passado, o presidente francês Nicolas Sarkozy procurou ser recebido pelo aiatolá supremo Ali Khamenei. Para negociar em que condições tal encontro poderia ocorrer, o velho aiatolá ordenou que seu braço direito, Ali Akbar Velayati, fosse à França. Velayati então procurou o presidente Mahmoud Ahmadinejad para informá-lo da missão numa visita de cortesia. Ahmadinejad deixou-o esperando por horas madrugada adentro até recebê-lo e foi rude. Então, o presidente do Irã escreveu uma carta a Sarkozy chamando seu par francês de ‘jovem e inexperiente’ e fazendo ameaças veladas. O fato de que Sarkozy é cinco meses mais velho do que Ahmadinejad é irrelevante. A conversa foi abortada antes de ser negociada.

A carta publicada no Liberatión é de Velayati. Parece que veio do nada. Responde, naquele tom floreado da prosa persa, a uma pergunta jamais feita. ‘Apesar de seu vasto poder, o líder supremo só intervém em casos muito importantes, deixando a maior parte das questões para os responsáveis pelo Estado. Ao receber dignitários e líderes de outros países, ao se comunicar com eles, o líder dá mostras de sua presença crucial na diplomacia iraniana.’

Quer dizer que, no ano passado, Ahmadinejad cruzou uma linha de poder interno que não deveria ter cruzado. Foi um recado para o governo francês: desculpem a grosseria do rapaz, aqui em casa quem manda ainda é o velho.

Não é dizer, de forma alguma, que Sarkozy e Khamenei estejam prontos para se encontrar na semana que vem. O encontro talvez jamais aconteça. Mas Khamenei acaba de desautorizar o presidente Ahmadinejad perante a França. É a maneira iraniana de usar a imprensa em sua diplomacia. Seu objetivo é botar panos quentes.

Tags: EUA · Europa · Irã

Israel se curva ao Hizbolá

30/June/2008 · 70 Comentários

Perguntar não custa: de que adiantou botar o Líbano abaixo se, no fim, o governo de Israel terminaria por capitular perante o Hizbolá?

A decisão do gabinete de Ehud Olmert é de que trocará cinco prisioneiros (vivos) pelos corpos (mortos) dos soldados que o grupo terrorista xiita seqüestrou. Estes seqüestros foram a desculpa para a guerra que tirou o último vestígio de moral do governo libanês.

Era melhor ter feito a negociação pela troca antes, quando soldados e vítimas libanesas da guerra estavam vivos e o governo libanês ainda tinha alguma força perante o Hizbolá.

Guerra estúpida – coberta por este Weblog – para resultados piores ainda.

Tags: Israel e Palestina

O petróleo saudita e as fontes alternativas

26/June/2008 · 23 Comentários

A Arábia Saudita promete que aumentará o fluxo de petróleo em direção ao mundo. Maior oferta, cai o preço. Quem sabe assim o barril a 200 dólares nunca chegue.

Muitos analistas estão céticos. Uns dizem que os sauditas já fizeram essa promessa antes e não a cumpriram; outros sugerem que eles sequer têm como. Seu maior campo está próximo do pico e não agüentará o tranco de aumento.

É sempre tudo muito nebuloso quando o assunto envolve Arábia Saudita e petróleo. Há pouca informação e muita interpretação.

Thomas Friedman, do New York Times, vai na contracorrente. Ele acha que os sauditas vão mesmo aumentar a oferta. Acha mais: que eles não têm escolha. George W. Bush está tentando diminuir o preço da gasolina nos EUA a todo custo e combustível é um dos grandes temas das eleições presidenciais.

Para os sauditas, não é apenas o impacto no eleitor norte-americano e o tipo de presidente que podem eleger o que importa. É também o mercado para energias alternativas. Com combustíveis fósseis em alta, mais fábricas de painéis de energia solar ou moinhos de vento surgirão. Maior oferta, menor preço. Nos EUA, por exemplo, onde a energia elétrica vem de combustíveis fósseis, alimentar a casa ou a empresa com uma fonte própria sai em conta conforme aumenta o preço do petróleo.

Vai ainda além: petróleo caro faz com que o desenvolvimento de fontes alternativas seja melhor financiado e, portanto, fica mais eficiente.

Há um ponto ótimo para que a máquina comece a girar. Os sauditas querem mais dinheiro, evidentemente, mas temem uma crise financeira mundial como a dos anos 1970. É preciso alimentar o vício mas sem matar o hospedeiro. E temem que alternativas ao seu combustível comecem a surgir com maior rapidez. Assim vai o raciocínio de Friedman.

E, evidentemente, sempre há um ou outro que vive no mundo maravilhoso de Gordon Brown, o premiê britânico. Ele tem essa idéia: os sauditas ganharam 3 trilhões de dólares. Por que não investem eles próprios em fontes alternativas de energia?

Ora, pois. Quem sabe pedindo por favor não ajuda.

Tags: EUA · Energia e Aquecimento global · Europa · Oriente Médio

Bomba iraniana em seis meses?

26/June/2008 · 97 Comentários

Há uma mudança de discurso no ar – uma daquelas na qual deve-se prestar atenção.

Numa entrevista em árabe para a rede a cabo al-Arabiya, o responsável pela Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed El Baradei declarou que o Irã tem condições técnicas de produzir uma bomba nuclear em algo entre seis meses e um ano. Basta começar.

Até há muito pouco, El Bardei falava de uma janela entre três e oito anos.

Em diplomacia, uma mudança desta ordem no discurso pode ter um de dois significados.

O primeiro é, simplesmente, que a Agência tem informações novas a respeito do país.

O segundo é que este é um recado para o Irã: a paciência está acabando. É hora de ceder às exigências da AIEA, abrir todos seus documentos e permitir as inspeções.

Tags: Irã

Racismo na Europa?

23/June/2008 · 119 Comentários

O último post causou incômodo em alguns.

Então é bom elucidar: nada, nele, é minha opinião. Tudo é reprodução do artigo do professor Feldman. Um trecho entre aspas, outro resumido. A comparação com o arcaísmo católico, por exemplo, é dele. Este argumento, o de que os muçulmanos são os novos judeus da Europa, tampouco é novo.

Pessoalmente, não conheço o velho continente o bastante para afirmar que sim ou que não. Mas, também numa visão pessoal, e sem a ênfase do professor, me incomoda a semelhança entre muito do que se diz hoje sobre islâmicos e do que se disse no passado, sobre judeus. Não é apenas a respeito de muçulmanos. Há um par de anos, ouvi frases sobre ciganos, na França e na Espanha, que, no Brasil ou nos EUA, ninguém diria hoje. Poderia pensar. Mas teria vergonha de dizer. Uma das coisas que mais impressionou na Europa, sempre, foi esta falta de pudores no exercício do preconceito.

Uma das questões não postas em nossa contínua discussão a respeito de Israel e Palestina é que sua situação atual, de disputa de terras, nasceu porque ambos são vítimas da Europa. Os judeus foram expulsos de lá. Não exatamente, alguns dirão. Expulsos, sim. Após séculos de perseguição incrementada para pogroms, aumentada para o Holocausto, se você é um judeu na Europa, em 1948, tudo o que quer é ir embora. Na próxima, a história deixa claro, será você. Ou seus filhos. No mesmo passo, a divisão artificial do Oriente Médio em Estados nacionais, incluindo-se aí a partição entre Israel e Palestina, é fruto do imperialismo europeu. A ascensão do Wahabismo, esta seita fanática e obscurantista do Islã por trás do Talibã e da al-Qaeda, é fruto de uma decisão política européia de aumentar o poder do clã al-Saud, atuais donos de Meca e Medina.

De certa forma, Hitler conseguiu seu intento de limpar a Europa de judeus. Foram-se praticamente todos, para as Américas e para Israel. E o convívio com os muçulmanos é, sim, e num ritmo crescente, o primeiro desafio de grande porte europeu para lidar com uma comunidade diferente.

Poderia ser diferente? Os EUA estão vivendo algo parecido. Não é igual – parecido. No sudoeste norte-americano, de uns quinze, dez anos para cá, o espanhol é língua corrente. Não era assim. Há rádios em espanhol, jornais, revistas, tevês – um império crescente. Norte-americanos criados num mundo branco, anglo-saxão, protestante, já falam – nesta região sudoeste – espanhol como segunda língua. E a grita contra os ‘imigrantes ilegais’ é alta. Claro. Às vezes, escorrega nitidamente para o preconceito. Mas nenhum político fala que os ‘mexicanos têm dificuldades de assimilação’. Seria uma frase racista demais. Eles se assimilam? Nada. Substituem a comida, a língua, mudam a maneira de rezar a fé. (O parco contato que os EUA tinham com o catolicismo era irlandês, italiano e polonês, nada a ver com o mexicano, sincrético que só.) Mexicanos, hispânicos em geral, trazem sua própria cultura. E, quando um político fala que o inglês devia lhes ser imposto, é logo ridicularizado. Eles têm vergonha de parecerem racistas.

Culturas não são assimiladas. São misturadas. É ver a nossa: portuguesa, africana, tupi. Tão misturada que a gente não sabe quando termina uma e começa a outra. Quando um novo povo chega, a cultura local também muda. A julgar pelo tom dos discursos correntes na Europa, ‘eles são bem-vindos desde que virem franceses’. Ou alemães, ingleses, italianos, espanhóis. Não vão virar. Alguém poderia argumentar, ‘mas os mexicanos sempre estiveram do outro lado do Rio Grande.’ Já faziam parte daquele mundo. Bem, é verdade. O Egito também sempre esteve do outro lado do Mediterrâneo. O Marrocos, idem. Sempre cruzou-se o mar de um lado para o outro. E nenhum europeu jamais teve pudores de entrar, conquistar, dominar, levar o que considerava de valor. É fácil ser imperialista durante quatro séculos e, vinte ou trinta anos passados do fim do imperialismo, dizer que não tem compromissos com o passado.

Há uma geração européia que parece querer romper os vínculos com a própria história. Houve o nazismo, agora somos diferentes; houve a religião, agora somos diferentes; houve o imperialismo, agora somos diferentes. Só que história é uma linha contínua: o nazismo deixou conseqüências que vivemos até hoje. As religiões deixam conseqüências visíveis – e enquanto gays não puderem casar livremente, ainda estaremos vivendo uma imposição da Igreja. O imperialismo também deixou vítimas. Nações inteiras. A Europa enriqueceu. O custo de sua própria riqueza foi pago com o futuro de outras nações.

Os bárbaros estão às portas da cidade, reclamavam os romanos. Eles querem usufruir de uma riqueza que seus antepassados construíram.

Tags: Europa · História · Israel e Palestina · África

O Jogo Real de Ur

21/June/2008 · 16 Comentários

Na década de 20 do século passado, o arqueólogo inglês Leonard Woolley escavou cinco tabuleiros de um jogo das tumbas reais de Ur, a antiga cidade da Suméria localizada no atual Iraque. O mais luxuoso deles misturava pedras coloridas várias cuidadosamente encaixadas e data de 2.600 a.C.

Com o tempo, novos tabuleiros ou indícios de sua existência foram descobertos no Irã, Síria, Egito, Líbano, Sri Lanka, Chipre e Creta.

Ele ficou conhecido como o Jogo Real de Ur. E ninguém sabia como jogá-lo até que Irving Finkel o descobriu.

Desde menino, Finkel era fascinado com o mundo dos jogos de tabuleiros e o da Mesopotâmia. Na universidade, estudou a escrita cuneiforme e, em 1979, foi contratado pelo Museu Britânico como especialista para decifrar a coleção 130.000 de tabletes de argila. Num deles, descobriu instruções.

Cuidadosamente, ao longo dos anos, ele recuperou a forma de jogar o Jogo Real de Ur, fez o Museu botar a venda uma reprodução com instruções, descobriu sua história.

O Jogo Real de Ur foi o mais popular da antigüidade até que, uns 2.000 anos atrás, ele morreu de vez, substituído por outro jogo bem mais sofisticado no seu equilíbrio entre sorte e técnica. O Gamão.

Ou quase morreu: há alguns anos, folheando uma obscura revista técnica israelense de arqueologia e história, Finkel passou por fotos da comunidade judaica de Cochin, na Índia. Eram imagens do início do século 20 e, ali no meio, havia um tabuleiro de jogo. Era do Jogo Real.

Não há mais judeus em Cochin, todos vivem em Israel. O velho professor rastreou, num kibutz, uma senhora que ainda tinha memória de como jogar. Pegou um avião para encontrá-la. Havia algumas modificações nas regras, mas era ele próprio. Passaram uma tarde gasta em partidas. Ainda vivo até, ao menos, o início dos 1900s.

(No site do Museu Britânico, há uma versão online para ser jogada. É preciso instalar o plugin Shockwave.)

Tags: Harry Potter · História · Iraque · Pop

O que Churchill faria?

17/June/2008 · 66 Comentários

A Newsweek da semana traz uma excelente reportagem chamada A mitologia de Munique. É, fundamentalmente, uma constatação e, a partir dela, uma análise.

O texto constata que dos anos 1970 para cá a política externa norte-americana caiu na armadilha de dois clichês.

O primeiro já um bocado discutido aqui no Weblog é o de Munique e do Apaziguamento. Segundo ele, quem busca a paz com ditadores periga cometer o erro de quem negociou a paz com Hitler.

O segundo é o do Atoleiro no Vietnã – é o clichê resposta. Envia soldados, põe dinheiro, e a guerra é impossível de ser vencida. Quanto mais anda, mais afunda.

Não deixa de ser curioso o fato de que os EUA se meteram no atoleiro do Vietnã para não apaziguarem como acontecera em Munique. Mas não importa – os clichês estão dados e, perante eles, o editor de política da Newsweek, Evan Thomas, se põe a pensar.

Como político, John McCain passou a acreditar no tudo ou nada: os EUA só deveriam entrar numa guerra se estivessem plenamente comprometidos com todo o necessário para a vitória. Assim, em 1983, ele foi contra a intervenção no Líbano porque acreditou (corretamente) que os EUA não estariam plenamente comprometidos com o esforço de paz necessário ao fim do conflito. Em finais dos anos 1990, quando Washington se envolveu na Península Balcânica, McCain queria enviar tropas norte-americanas porque acreditava (erradamente) que os sérvios não recuariam perante um ataque aéreo. No Iraque, ele se opôs ao governo Bush quando este não enviou soldados o suficiente. E se tornou o principal aliado do governo quando mais soldados foram enviados. McCain alerta para as graves conseqüências de uma derrota para a região e para a alma das Forças Armadas norte-americanas.

O conceito do tudo ou nada faz algum sentido e traz um quê de pureza e nobreza. Mas não reflete a realidade desorganizada de guerras locais contra grupos insurgentes. O chefe de Estado, principalmente de uma superpotência, inevitavelmente tem de encontrar um acordo mesmo que isso, em alguns casos, seja dizer uma coisa e fazer outra. Os melhores estadistas sabem disso e, intuitivamente, a maioria das pessoas também o sabe. Basta que abandonem os clichês.

Thomas logo saca do bolso um exemplo: Ronald Reagan. Só se referia à União Soviética como o Império do Mal. E, no entanto, a partir do final de seu primeiro mandato, negociou com os líderes soviéticos o tempo todo. Reagan tinha poder, principalmente após investir muito em armas que não usaria. E este poder que não usou foi o que lhe permitiu negociar.

John Kennedy era outra que compreendia que não é preciso escolher entre apaziguamento e uso da força. Quando os soviéticos instalaram mísseis em Cuba apontando para os EUA, Kennedy falou duro em público, fazendo toda sorte de ameaças. Nos bastidores, Robert Kennedy negociava a retirada de mísseis velhos dos EUA na Turquia em troca de os russos tirarem os seus de Cuba. E foi esta negociação que resolveu a pior crise da Guerra Fria.

A questão, fundamentalmente, é como se colocar numa posição de força no momento de sentar à mesa de negociação. Thomas, infelizmente, não chega tão longe quanto a fazer uma avaliação do cenário que John McCain e Barack Obama encontrarão quando chegarem à Casa Branca. E negociar com a União Soviética – que embora muito mais poderosa tinha um único governo central – é mais simples do que negociar com meio Oriente Médio.

Tags: EUA · História · Oriente Médio · Rússia

Gaza: um ano de governo Hamas

16/June/2008 · 75 Comentários

O New York Times traz uma excelente reportagem sobre como ficou Gaza sob o governo do Hamas, um ano após o golpe que expulsou o Fatah da região.

Por um lado, a religião tomou conta da Justiça. É proibido xingar, beijar ou beber em público.

Gaza sempre foi pobre e religiosa, diferente da Cisjordânia. Mas um ano de governo do Hamas aguçou a diferença. A idéia de que Gaza é uma entidade separada e completamente distinta da Cisjordânia está se solidificando, fazendo que fique ainda mais difícil para que os palestinos concordem entre si a respeito da paz com Israel.

Comparada a um atrás, em Gaza há mais mulheres cobertas, mais homens barbados, sites são filtrados e encontros de pessoas não relacionadas ao Hamas são proibidos. Com o bloqueio israelense reduzindo a oferta de combustível, peças sobressalentes e outros bens básicos, menos esgoto é tratado e mais peixe aparece contaminado. Em Gaza, os palestinos sentem-se acuados e estão desesperançosos.

A polícia é violenta, prende com facilidade quem desconfiam ser um inimigo político, há tortura. Quando alguma entidade reclama, o governo rapidamente aponta o exemplo de Guantánamo. ‘Colaboradores do inimigo não podem ser tratados com delicadeza.’ Gaza não é o Afeganistão sob o Talibã. E, embora muitos não gostem da polícia política e religiosa, o lugar está melhor governado com o corrupto Fatah longe. Há segurança para o homem comum nas ruas, os hospitais estão limpos. As pessoas habitualmente não pagavam suas contas de luz e o imposto de registro dos carros. Agora tudo é pago em dia. A principal fonte de renda do governo, fora o dinheiro que vem do Irã ou da Síria, são os impostos cobrados sobre as mercadorias contrabandeadas via Egito.

Ethan Bronner, o repórter do Times, pondera que a questão não é apenas se o Hamas mudou Gaza mas também se governar Gaza mudou o Hamas. Os indícios são de que sim.

Apesar de dizer que nunca reconhecerão Israel, os líderes do Hamas dizem que se as fronteiras de 1967 forem restabelecidas, um Estado Palestino for criado em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental e os direitos dos refugiados forem encarados, aí estarão dispostos a negociar uma trégua de longo prazo. Não é diferente daquilo que o mundo árabe diz ou mesmo a posição do Fatah.

Jawad Tibi, o ministro da Saúde nos tempos do governo do Fatah, que hoje vive no sul de Gaza, odeia os atuais governantes. Ainda assim, diz, ‘O Hamas fala de uma trégua de 30 anos e isso não é diferente daquilo que propomos. Hamas é o Fatah com barbas.

Muitos dentre os fundadores do Hamas, já dizem que a tática de ficar lançando foguetes contra Israel é um erro e que o relacionamento com o Irã é imposto pela necessidade, não pela afinidade.

Tags: Israel e Palestina

Não destrua Israel, Ahmadinejad

12/June/2008 · 23 Comentários

Dion Nissenbaum, diretor da sucursal em Israel do grupo de jornais McClatchy (que inclui o Miami Herald), está a toda com seu excelente blog Checkpoint Jerusalem. A última é o comercial da distribuidora de tevê a cabo Yes.

Falado em persa, com legendas em hebraico, apresenta um ator interpretando o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falando numa coletiva de imprensa e sendo assistido, via televisão, pelo povo.

Ahmadinejad: Meus irmãos, o urânio está em nossas mãos. Depois de segunda-feira, adeus Israel!

Povo: Adeus Israel!

Homem na coletiva: Como assim adeus Israel? Segunda tem o último episódio de Danny Hollywood (série popular da rede Yes).

Homem vendo TV: Como assim segunda-feira?

Outro na coletiva: As séries Papadizi e Srogim começaram agora.

Homem na rua: Não exploda, Ahmadinejad!

Pessoas na multidão: Estou no meio de um episódio! Vou enlouquecer se a série for interrompida! O que será de Teerã sem mais séries? Vou ficar perdida! O que podemos fazer? Deixe as bombas! Viva as estrelas das series do Yes!

Enquanto der para rir, ainda há esperança.

Tags: Israel e Palestina · TV

Israel e Palestina se encontram num
salão de cabeleireiro de Nova York

10/June/2008 · 45 Comentários

Ele foi o maior soldado que jamais serviu nas Forças de Defesa de Israel. O mais hábil praticante da arte do Krav Maga. Um dia, depôs as armas para perseguir um sonho.

Ser cabeleireiro.

Rejeitado em seu país, encontrou emprego em Nova York. No salão de uma jovem palestina.

Mas aí seu passado voltou para perseguí-lo.

via Checkpoint Jerusalem

Tags: Cinema · Israel e Palestina

Open thread da semana que começa

9/June/2008 · 483 Comentários

Já era hora.

Tags: Oriente Médio

Israel atacará o Irã autorizado por Bush?

3/June/2008 · 179 Comentários

Nouriel Roubini, o respeitado economista e professor da Universidade de Nova York, conta em seu blog de uma recente conversa que teve com o ex-chanceler alemão Joschka Fischer. Fischer está convencido de que Israel fará um ataque às instalações nucleares do Irã antes de o governo Bush chegar ao fim. Ele vai além: o próprio Bush teria dado o sinal verde quando esteve em Israel, nas celebrações de seus 60 anos.

Joschka Fischer é um nome que deve ser respeitado e tem muitas fontes de excelente qualidade. Mas isso não quer dizer que acontecerá.

O premiê israelense Ehud Olmert chegou hoje aos EUA para uma visita de dois dias. Investigado pela polícia por sérias denúncias de corrupção, há muito pouco o que o sustenta no poder e não é claro quem o sucederá.

Novos líderes fazem cálculos diferentes. Da última vez que o governo israelense decidiu por uma guerra – no caso libanês – destruiu o país vizinho, espalhou tragédias e não ganhou absolutamente nada além de uma imagem externa pior.

É importante ressaltar o ‘não adiantou de nada’ na conclusão da Guerra do Hizbolá. Porque, agora, o mesmo governo israelense está fazendo exatamente o que devia ter feito desde o início. Está negociando com o mesmo Hizbolá.

A situação também não é clara no ponto de vista norte-americano. A praxe sugere que presidente em último ano de mandato não cria confusão desnecessária para quem o suceder. George W. Bush sabe que um dos candidatos nesta contenda, Barack Obama, tem idéias diferentes a respeito de como lidar com o Irã. Obama quer negociar. Agora, cabe à população norte-americana decidir se deseja esse rumo.

Se Bush de fato autorizou um ataque ao Irã, ele está interferindo diretamente no próximo governo. É uma decisão não apenas anti-democrática – que não representa o desejo dos eleitores – mas, principalmente, de sabotagem.

Um ataque às instalações nucleares do Irã por parte de Israel não derrubaria o governo dos aiatolás. Mas certamente seria recebido com alívio, em Teerã, pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Enfrentando uma séria crise de impopularidade por conta de sua incompetência na administração da economia, ele precisa urgentemente de um inimigo externo para ser reeleito, no primeiro semestre do ano que vem.

Do ponto de vista geopolítico, as conseqüências imediatas seriam um Oriente Médio pior no qual as desconfianças existentes são ampliadas e o sustento de Hizbolá e Hamas, aumentado. Ninguém vence, mas tudo é garantido que piore. Essa gente que acredita em mais destruição para o Oriente Médio se ajeitar nunca cessa de surpreender.

Atualização - ‘As agências de inteligência dos EUA acreditam que o Irã interrompeu o esforço de construir armas nucleares em meados de 2003. A Agência Internacional de Energia Atômica, que investiga o programa iraniano, não encontrou qualquer indício de que exista um projeto ativo para produção de armas nuclares.’ A notícia está hoje em vários jornais dos EUA.

dica do Marcelo P.

Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina

A.Q. Khan, o vendedor dos nukes
paquistaneses rompe silêncio

2/June/2008 · 41 Comentários

Em 2004, o físico Abdul Qadeer Khan foi à televisão paquistanesa, caiu aos prantos, e admitiu ter vendido o segredo da bomba nuclear para o Irã, a Coréia do Norte e a Líbia. O pai da bomba de seu país, um herói nacional, está em silêncio desde então. Ou estava. O jornal britânico The Guardian o entrevistou.

A.Q. Khan retira o pedido de desculpas. Diz que foi forçado pelo presidente Pervez Musharraf. E diz que não pretende jamais cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU. “Por que deveria conversar com eles? Não tenho qualquer obrigação. Não somos signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear e não quebrei qualquer lei internacional.” Os detalhes da rede de distribuição de informação e material nuclear são “problemas que dizem respeito a mim, a meu país e a ninguém mais”.

O cientista nem nega, nem confirma ser o fornecedor de informação e material. Diz que o segredo da bomba paquistanesa veio do ocidente e que quem quiser e tiver dinheiro tem onde comprar segredos e material no próprio ocidente. Isto inclui Coréia do Norte e Irã.

Há um assunto sobre o qual ele não fala: dizem que ele foi o bode expiatório e que assumiu a culpa da venda que na verdade cabia a um círculo de generais. “Não falo sobre isso, é melhor esquecer.”

via Gideon Rachman

Tags: Irã · Ásia Central · Ásia Sudeste & Pacífico

Norman Finkelstein em Israel

28/May/2008 · 419 Comentários

Recebi três cobranças diferentes para falar a respeito da expulsão de Norman Finkelstein, autor de A indústria do Holocausto, de Israel. O Idelber Avelar conta a história no Biscoito fino.

Finkelstein, crítico antigo da política israelense, foi deportado logo após chegar ao país. Pretendia participar de protestos na Palestina.

Evidentemente, há uma boa turma pulando para cima e para baixo dizendo que é um absurdo, que é uma censura, e tudo mais.

Há muitos anos, após ser demitido de um jornal carioca, servi por um ano como assessor de imprensa de uma certa Câmara Municipal. Foi um treinamento excelente. Câmaras Municipais raramente têm boas imagens. O trabalho do responsável pela comunicação é, constantemente, o de prever danos à imagem da instituição e tentar evitar estragos. Na maioria das vezes, isso quer dizer optar pelo menos pior.

Foi um treinamento fascinante na arte do cinismo.

Que ninguém tenha dúvidas: Israel tem o direito de impedir a entrada de qualquer estrangeiro. No caso de Finkelstein, deviam ter aberto a mão do direito por dois motivos.

O primeiro é que seu protesto na Palestina teria publicidade mediana. Os suspeitos de sempre tratariam dele e nisto ficaria. A partir do momento em que alguém achou adequado botar o peso do Estado numa tentativa de impedir seu acesso à Palestina, a publicidade do protesto ganhou cara de matéria para a grande imprensa. A mensagem de Finkelstein ganhou mais ouvidos. Foi uma decisão incompetente.

O segundo motivo é mais sutil: é uma traição ao ideal sionista. O motivo da existência de Israel é criar uma nação na qual todos os judeus do mundo são bem-vindos, não importa em que acreditam. No momento em que Israel recusa entrada a um judeu porque ele quer mudar as políticas do Estado judaico, Israel trai o ideal sionista. Ao trair o que há de mais nobre no sionismo original, Israel dá mostra de que está perdendo sua identidade. É sua própria identidade que vai lhe garantir uma existência no futuro. É exatamente isto que deveria resguardar.

Tags: Israel e Palestina

A Guerra do Líbano em animação

22/May/2008 · 110 Comentários

Em setembro de 1982, as tropas do exército israelense pararam em frente aos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila. Lá, permaneceram imóveis conforme a Falange, um grupo cristão maronita libanês, invadiu trucidando. Segundo a Cruz Vermelha, por volta de 800 mortos; para a Falange, quase 3.000.

Sob o comando de Ariel Sharon, Israel não interferiu – ao contrário, estimulou o massacre.

O desenho Valsa com Bashir estreou em Cannes na última semana. Diz o Guardian:

O filme é importantíssimo, entre outros motivos, só por existir. É um mea culpa criado por alguém que esteve em contato íntimo com o que ocorreu. O diretor (e protagonista) Ari Folman não se esvai, não alivia, não busca desculpas. Ele apresenta o filme como terapia. É sua tentativa de recuperar memórias bloqueadas do que aconteceu. Ao fazê-lo, ele faz uma conexão entre os campos da morte que os judeus deixaram, na Europa, e os campos de refugiados nos quais os palestinos foram trancafiados e brutalizados no Líbano. Folman não foge do assunto.

É também um filme incrível por ser quase todo animado. A animação nasceu de desenhos feitos sobre filme e há toques de uma fantasia ameaçadora do tipo que há nos pesadelos. Entremeado há cenas – todas criadas com inegável brilhantismo – de combate, patrulhas, massacre e miséria. De certa forma, é uma resposta israelense a Persépolis, já que nasce da imaginação perturbada de um único homem. Este mundo semi-interpretado da animação é a mídia perfeita para a mensagem.

É um documentário de animação que vasculha as memórias de um veterano da Guerra do Líbano.

via Checkpoint Jerusalém

Tags: Cinema · História · Israel e Palestina

O Irã, os EUA e a mesa de negociação

21/May/2008 · 182 Comentários

O Iraque é um caos. O Afeganistão é outro caos. Quantos países caóticos mais serão necessários para que essa gente que defende a guerra e a bomba percebam que a tática piora uma situação já ruim?

Há uma divisão na política norte-americana a respeito de como tratar o Irã. John McCain defende a atual doutrina de que qualquer conversa é impossível; Barack Obama se mostra disposto a sentar ele mesmo, caso seja eleito presidente, para conversar com o líder do pais. George W. Bush, no Knesset israelense, sacou do bolso uma analogia histórica: conversar é cometer o erro de Chamberlain com Hitler.

O assunto já rendeu três posts cá no Weblog. É bem capaz de que este seja o último. Analogias históricas são úteis mas jamais perfeitas. O primeiro post tinha o objetivo de mostrar que o erro de Chamberlain não foi conversar com Hitler; foi entregar meia Tchecoslováquia aos nazistas. Ninguém está sugerindo que um país seja entregue ao Irã. O segundo post, lembrando a Quase Guerra entre França e EUA no final do século 18, queria mostrar só uma coisa: às vezes, mesmo sob pressão popular, mesmo que lhe custe a carreira política, evitar uma guerra ao máximo pode ser mostra de um grande líder. John Adams o foi. O terceiro, citando a China de princípios da década de 1970, sugere que mesmo quando um determinado país renegado está armando seu inimigo numa guerra, o presidente dos EUA talvez deva sentar-se com o chefe de Estado contrário.

O objetivo dos três era desarmar os argumentos simplistas. Quem evita a guerra numa situação de provocação não é necessariamente mau líder. E chefes de Estado podem se encontrar, sim, mesmo que um esteja financiando o inimigo do outro. Não é entreguismo. O encontro de Mao com Nixon abriu as portas para que a China ocupasse o espaço de legitimidade na comunidade internacional de hoje.

Mas é hora de abandonar as metáforas para ir direto ao assunto: faz sentido iniciar um trabalho de negociação com o Irã que possa, no fim do processo, envolver até mesmo uma visita do presidente dos EUA a Teerã?

Com Mahmoud Ahmadinejad, provavelmente não. Seu discurso é rábico, faz pose de bom moço para a comunidade islâmica mas jura a aniquilação de Israel e flerta abertamente com o anti-semitismo ao negar o Holocausto. Mas três informações são úteis, aqui:

1. Há eleição para presidente do Irã no meio de 2009.

2. A inflação do país chegou a 24% ao mês e cresce, um quarto dos jovens estão desempregados, 15 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Ahmadinejad não anda nada popular por conta. Até entre o clero vem ganhando inimigos, caso do ex-primeiro-ministro aiatolá Mohammad Reza Mahdavikani, que sugeriu que o presidente se preocupa mais com religião, que não é de sua competência, do que com a economia – que é sua responsabilidade.

3. E, no fim, pouco importa. Não é Ahmadinejad quem manda de fato no Irã. É o aiatolá Ali Khamenei.

O post é um bocado longo – então, aqui, vai uma interrupção. No clique abaixo, o resto.

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Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina · Terror