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Duas observações sobre o post anterior, a respeito da Rússia.
Primeiro: o leitor Mr. Z fez uma interessantíssima análise a respeito da Rússia nos comentários. Vale a pena ler.
Segundo: alguns de vocês rapidamente compararam com Chamberlain e 1938. O apaziguamento. Lembrar daquele momento é sempre complicado e esta é uma das metáforas mais abusadas que há em situações como essa. Mas, neste caso, há realmente mais proximidades do que em geral.
Em 1938, Adolf Hitler queria incorporar à Alemanha um pedaço da Tchecoslováquia no qual viviam alemães. Embora não fale claramente de incorporação, Putin diz estar defendendo cidadãos russos.
Em 1938, a França tinha um tratado com a Tchecoslováquia que a obrigava a partir em sua defesa caso houvesse ataque. O Império Britânico partiu em ajuda à França. E não houve pudores para sacrificar o território tchecoslovaco para impedir um conflito maior. Não há um tratado, hoje, que obrigue qualquer um a defender a Geórgia (ou a Ucrânia). Mas há a mesma falta de pudor de ignorar um ataque a dois países fracos para evitar um conflito muito maior.
Ainda assim, há diferenças importantes. Em 1938, havia o consenso de que o Tratado de Versalhes e a humilhação alemã subseqüente, após a Primeira Guerra, havia sido um erro. Após sua derrota em 1918, a Alemanha havia concretamente perdido território – incluindo aquele que Hitler requeria. Havia uma vontade de reparação. As fronteiras atuais da ex-União Soviética foram definidas após a dissolução da URSS por consenso.
Em 1938, a Alemanha era uma clara e solitária agressora. Hoje, os EUA determinam que podem invadir quem querem, quando quiserem, independentemente de qualquer órgão internacional. A Rússia não está sozinha.
Mais importante: Hitler queria conquistar toda a Europa para seu Reich. Hitler queria eliminar etnias inteiras da face do planeta. Isso talvez não estivesse claro em 1938 – mas Hitler era Hitler. Vladimir Putin não é Hitler.
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As tropas de monitoramento da União Européia que chegaram hoje à Geórgia tiveram permissão russa para entrar em parte do território da Ossétia do Sul. O cessar-fogo parece estar sendo obedecido e, até o dia 10, os russos deverão deixar o território. Um grupo mínimo de soldados fica para ‘manter a segurança’.
Há muito falatório a respeito da Geórgia estes dias, tanto na imprensa norte-americana quanto na européia. As populações da Ossétia do Sul e da Abecásia, as duas províncias separatistas, não pertencem à mesma etnia dos georgianos. Mas também não são russos. Ao longo da última década, no entanto, vieram recebendo passaportes russos por conta de uma política planejada de Moscou. São cidadãos russos, portanto. E Vladimir Putin se reserva o direito de defender cidadãos russos não importa onde eles estejam.
Aí começa a dificuldade: ninguém está realmente preocupado com a Geórgia. Mas assim como ossétios e abecásios, os moradores da Criméia vem recebendo passaportes russos faz pouco mais de uma década. E a Criméia faz parte da Ucrânia, país que, de pequeno, não tem nada. Mais: tem fronteiras com Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia. Está no meio da Europa. Se o argumento de Putin é aceito para a situação da Geórgia, à frente terá que ser aceito para a Ucrânia.
A situação vai ficando mais complexa: as conversas de livre comércio entre União Européia e Ucrânia estão acontecendo. O país tem um objetivo. Quer se juntar à UE. Também quer fazer parte da OTAN. Mesmos objetivos da Geórgia. Os vizinhos imediatos – Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia – já fazem parte da UE e da OTAN. E a população ucraniana, como a da Geórgia – excetuados os separatistas – querem ambos. Mas a OTAN tem na base um tratado, uma garantia de que se um de seus membros for atacado, os outros partem em sua defesa.
E a Rússia, neste momento, está deixando tão claro quanto possível que tem planos de atacar a Ucrânia. Fez o movimento contra a Geórgia, o mundo ficou quieto.
Em negociações do tipo, o blefe faz parte. Mas quem blefa e não cumpre perde a credibilidade. Quando George W. Bush declarou que a Coréia do Norte não poderia desenvolver armas nucleares senão teria que se ver com sei lá o quê, blefou. Os norte-coreanos conseguiram suas armas. Nada ocorreu. Bush também se reserva, como Putin, o direito de atacar o país que considerar necessário para a segurança dos EUA. E já o fez. A diferença, talvez, é que Putin vem se mostrando fiel à palavra. Cumpre o que ameaça. E os EUA não têm muito como censurá-lo.
Putin também se sente ameaçado. Ucrânia e Geórgia viveram revoluções eleitorais – as revoluções Laranja e a Rosa – que o governo russo não gosta nem de imaginar ocorrendo em sua casa. A OTAN, criada contra a União Soviética, ainda é vista em Moscou como um grupo anti-Rússia. E o crescimento dela nos arredores acirra a paranóia. Não bastasse, os EUA insistem em instalar mísseis na Polônia voltados para a Rússia. Não é contra a Rússia, eles dizem. Não é o que poloneses ou tchecos pensam. E, olhando friamente, o Kremlin não tem qualquer obrigação de acreditar na palavra norte-americana. Os paranóicos, afinal, têm seus inimigos.
Também por uma análise fria, é possível concluir que é irresponsável trazer Geórgia ou Ucrânia para a OTAN. Se Putin invadir a Criméia, será preciso intervir militarmente. Uma guerra entre OTAN e Rússia é uma idéia que se aproxima um bocado de qualquer definição de pesadelo. Em diplomacia, é bom não se colocar numa posição em que não existam mais escolhas.
Mas, ainda assim, há sempre a questão moral: agora, entrega-se um pedaço da Geórgia aos russos. E tudo bem. Depois, um pedaço da Ucrânia. Onde pára a fome de Putin? Com muita velocidade, este conflito que parece vindo dos tempos da Guerra Fria pode se transformar na crise internacional mais importante que existe no planeta.
Ao menos há uma boa notícia: os chineses não gostam nada dessa idéia de incentivar grupos a conseguir a independência ou autonomia de seus territórios. Nessa, os russos estão sozinhos.
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Informa a Der Spiegel alemã que os últimos relatórios da OTAN e Organização pela Segurança e Cooperação Européia dão indícios de que a Geórgia não apenas provocou como iniciou os ataques que levaram à invasão russa na Ossétia do Sul. Os primeiros tiros dados na capital da província foram georgianos. Tanto em Washington quanto nas principais capitais européias, a visão é de que o presidente Mikhail Saakashvili provocou uma situação para obter apoio militar e até mesmo angariar vantagens diplomáticas.
O que leva a uma questão que vem sendo muito debatida aqui nos EUA: filiação de Geórgia e Ucrânia à OTAN. De uma forma ou de outra, ambos os candidatos se colocam favoráveis à idéia. Mas pergunte aos especialistas em negociações do tipo – e há uma penca deles aqui no campus de Stanford – e há quase unanimidade. Acham que os candidatos estão errados. (E, na presidência, ambos provavelmente reveriam a idéia.)
Criada para fazer frente à União Soviética, a Organização do Tratado do Atlântico Norte existe para basicamente um único fim. É um compromisso entre os signatários de que todos partirão em defesa militar de qualquer membro que seja atacado sem provocação prévia. Se há uma coisa que o atual comando russo deixou claro é que não tem medo. Se considerar que deve entrar numa disputa militar, entrará. Moscou não hesitará em invadir Geórgia ou Ucrânia se considerar adeqüado.
Se um dos países fosse membro da OTAN, o resultado é que Reino Unido, França e EUA teriam de enviar forças militares para combater a Rússia. Ou, então, teriam que romper o tratado, quebrando sua palavra e pondo fim a uma instituição importante. Países como Reino Unido, França e EUA não podem se expor a uma guerra com a Rússia à toa. Se não dá para confiar em Vladimir Putin, melhor não desafiá-lo – ao menos, não por um capricho.
Uma guerra contra a Rússia é uma guerra mundial.
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A Rússia enviará um cruzador nuclear para fazer exercícios navais com a marinha venezuelana. No Caribe.
É o primeiro exercício do tipo desde a Guerra Fria assim tão próximo dos EUA.
Vladimir Putin e seu presidente, Dmitry Medvedev, são assim. Acham que os EUA querem comprar briga. Então consideram que devem responder à altura. Os EUA enviam a marinha para o Mar Negro, quase nas suas terras, para ajudar a Geórgia? Lançam mão do telefone para falar com Hugo Chávez.
Mas não são apenas eles. Em entrevista ao espanhol El País, Mikhail Gorbachev diz que os EUA vêm armando pesadamente Geórgia e Ucrânia e incentivando ambos à dissensão. Diz mais:
A Europa deveria propor uma nova arquitetura de segurança regional com a constituição de um Conselho de Segurança continental. Seria um diretório em que estejam representadas todas as nações européias com poderes para operações de manutenção da paz. Desse jeito, sairíamos de uma situação em que os EUA decidem o que será feito no mundo. Havia uma proposta assim à mesa em 1990, mas o Ocidente achou que havia ganho e decidiu não cumprir suas promessas.
Gorbachev acusa os governos Clinton e Bush de terem promovido uma geopolítica que provoca divisões na Europa e diz que o escudo de defesas anti-mísseis é contra a Rússia. O Irã é só uma desculpa.
via Foreign Policy, com dica de Mario Nobre
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Kosovo é uma história de crise, informa na Newsweek a professora Ruth Wedgwood. Entre os jovens, o desemprego é de 60%. O medo é de que, estando no coração do Leste Europeu, busquem se dedicar ao tráfico de drogas, armas ou mulheres, criando um centro de ilegalidade no continente. Ou, então, esperam um êxodo para a Itália, Suíça ou Alemanha.
O jovem país não tem juízes, policiais ou quem cuide da alfândega. Não tem exército que o proteja (a OTAN mantém tropas lá). Não tem eletricidade – todo dia a luz cai. Não tem estradas que escoe a produção agrícola ainda inexistente de uma terra fértil. (Em cinco anos, espera-se, uma grande rodovia para a Albânia. Mas essa não é a melhor rota de escoamento.) Não é reconhecido pela ONU, e nem o será enquanto a Rússia mantiver o veto. Bósnia, Grécia, Macedônia, Montenegro, Romênia, Eslováquia e Geórgia são os vizinhos imediatos que não reconhecem sua independência.
Não estão sozinhos: apenas 45 países reconheceram o Kosovo, afinal ninguém busca uma zona de desgaste gratuita com a Rússia. O resultado é que, com seu passaporte, kosovares só têm 45 países no mundo com os quais fazer negócios ou visitar. Estão isolados e nada indica que algo mudará.
Incentivar a independência do Kosovo valeu a pena? Agora a Rússia quer o direito de independência para a Ossétia do Sul, na Geórgia. Nada como uma boa desculpa e, diz o professor Otto Luchterhandt, Ucrânia e Moldávia estão preocupadas. Semana passada, o presidente russo Dmitry Medvedev informou ao presidente da Moldávia Vladimir Voronin que não aconselhável que seu país tentasse impor autoridade sobre o estado da Transnistria. Qualquer estado rebelado terá o apoio da Rússia. Convém que os ucranianos tampouco pensem na Criméia como sua.
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Os jovens adultos nos países que pertenceram à União Soviética já não sabem como era viver naquela versão de comunismo, a falta de tudo, as filas intermináveis, a variedade nula e a opressão onipresente.
O lituano R?ta Vanagaite decidiu resolver este problema e idealizou um reality show. Um grupo de jovens com seus 18 anos viveria um tempo nas mesmas condições às quais seus pais e avós foram submetidos. Mas a televisão da Lituânia não comprou a idéia: achou que o público mais velho não ia gostar da lembrança.
Pois o novo projeto de Vanagaite está funcionando: é um parque temático. (Mas não exatamente um parque de diversões.) Quem o visita come comida soviética, vai ao médico, aprende a Internacional sob ameaças, é interrogado por um agente da KGB. Os atores do parque pertenceram todos ao Exército Vermelho.
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O analista de política latino-americana Carlos Alberto Montaner, um cubano badalado na imprensa hispanoablante, tem uma teoria a respeito dos próximos passos russos: Cuba ou Venezuela.
Hugo Chávez, em visita a Moscou, já havia mencionado a possibilidade de uma base militar russa na Venezuela. A própria Rússia já havia soltado um balão de ensaio cogitando a inclusão de Havana entre os aeroportos pelos quais aviões militares russos fazem escalas regulares.
Conforme a OTAN seduz a Ucrânia e os EUA insistem em uma rede de mísseis na Polônia e na República Tcheca, os russos mexem suas peças de xadrez como se o ano fosse 1960.
Mas o ano não é 1960 e a Rússia não é uma potência mundial. Suas ações afetam diretamente a Europa e os vizinhos imediatos na Ásia. Mas não muito mais. Os países/grupos que têm realmente o poder de influenciar a economia ou a política de todo o mundo com um espirro são China, EUA e, quando consegue agir em bloco, União Européia.
Putin está, evidentemente, dedicado a mudar este quadro. Não quer dizer que consiga.
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Na discussão sobre a Geórgia, é interessante repassar os comentários do leitor ROFL, que vive na área da antiga União Soviética.
A população russófona tem toda a vida facilitada pra eles, releia meus posts sobre a ajuda de custo que o governo estoniano dá àqueles que querem ter a cidadania. No horário nobre, tem meia hora da programação pro jornal nacional em russo. Publicidade nas ruas em estoniano e em russo. Minha TV a cabo tem 77 canais e mais de 50!! são em russo.
O povo estoniano que reclama da minoria russa? Por um simples motivo: os russos não engolem que esses países sao independentes hoje em dia, e ainda estão mal acostumados com a vida mansa que levavam durante os tempos soviéticos. Época de igualdade, ou como diz minha esposa, uns eram ‘mais iguais do que os outros’. Logicamente aqueles que eram do partido comunista.
O comentário acima em sua íntegra está aqui. Mas há também este sobre o movimento separatista na Estônia e este, sobre a relação com os russos no dia-a-dia.
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Vladimir Putin mapeou tudo. Percebeu que os EUA, alquebrados pelo Iraque e Afeganistão, ainda desejosos do apoio russo para sanções contra o Irã, não tinham mais aliados na Europa e seguiam ambivalentes à crise no Cáucaso. Putin percebeu que o líder da Geórgia, Mikhail Saakashvili, apesar de seu pendor nacionalista, era o presidente fraco de uma democracia com Forças Armadas frágeis. Olhou o mapa da Geórgia e viu um país engolfado pela Rússia e o Ocidente lá longe. Ali é diferente dos Bálcãs, que têm a boa sorte de fazerem fronteira com a Europa Central e, portanto, terem a sorte de contar com envolvimento da OTAN. No Cáucaso, os vizinhos são Rússia, Irã, o naco mais pobre da Turquia e o Mar Cáspio.
Putin olhou e se moveu. Liberou a Ossétia do Sul, um estado sob o domínio de gângsters e contrabandistas, do frágil poder militar da Geórgia. Fez o mesmo em Abecásia, outro estado da Geórgia. Segundo as últimas notícias, as forças russas já controlam uma base militar no leste do país e parecem dispostos a manter o controle militar em toda região na qual o poder central é fraco. Ao cortar a Geórgia ao meio, os russos controlam o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, crítico para a energia do ocidente, fazendo com que o Kremlin passe a decidir o fluxo de combustível para o Mediterrâneo e Europa. Norte-americanos e europeus vão querer sentar à mesa, e a Rússia fará concessões. Mas farão isso de uma posição de força. A Geórgia provavelmente nunca mais terá um governo independente como aquele que teve até 8 de agosto de 2008.
É o que diz Robert Kaplan, um dos grandes especialistas na região, no blog da Atlantic Monthly.
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Há duas coisas a dizer sobre a guerra na Geórgia. A primeira é que a Geórgia tem todo o direito de garantir o controle sobre a Ossétia do Sul – é parte de seu país e não há dúvida de que os separatistas apoiados pelos russos vêm provocando.
Em segundo, a Geórgia cometeu dois erros terríveis. Desde maio, suas ameaças de abater caças russos já sugeriam uma desculpa para que os russos iniciassem uma operação militar. O ataque à Ossétia do Sul por parte da Geórgia é um erro pior. Como foram os primeiros a derramar sangue, perderam a moral e deram de graça para os russos um motivo de guerra.
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Repentinamente, um jornalista brasileiro encontra um bosque e, no bosque, uma pequena tragédia humana.
É uma história da Ossétia, agora cenário de guerra, que o marco conta nos comentários do post abaixo.
Tags: Rússia
Pesados tiroteios vêm acontecendo na Ossétia do Sul, desde o dia 1. É uma pequena república separatista cuja população é em boa parte russa mas que a ONU – e quase todas as nações do mundo – consideram parte da Geórgia. No sábado passado, a Rússia permitiu a vinda de refugiados para seu território. Na quarta, a Geórgia perdeu um tanque de guerra. Ontem, caças do país atacaram – ou assim segue a acusação – um comboio humanitário russo.
Hoje pela manhã, o presidente russo Dmitry Medvedev deu ordens para que um comboio de tanques cruzasse a fronteira. Geórgia e Rússia estão a um passo da guerra.
Tags: Rússia
Duas décadas após Ronald Reagan e Mikhail Gorbachov combinarem o início de uma política de desarmamento nuclear, um grupo dos mais influentes homens especializados em segurança nacional, nos EUA, pede ao país que lidere uma campanha global para pôr fim às armas nucleares. São George Shultz, Henry Kissinger, William Perry e Sam Nunn.
Nenhum deles (dois ex-secretários de Estado, um ex-secretário de Defesa e um ex-presidente do Comitê de Forças Armadas do Senado) tende a sonhos utópicos – ou mesmo a sonhos de qualquer outro tipo. O que desejam é chocar para despertar uma idéia. […]
Eles desejam a implementação de políticas há muito ignoradas pelos militaristas: isto inclui a proibição total de testes nucleares, tirar mísseis norte-americanos e russos da condição de alerta, e a costura de acordos ‘para redução substancial’ dos arsenais de ambos os países.
‘Não vamos conseguir nada enquanto formos países que têm armas nucleares exigindo coisas de países que não as têm’, diz Kissinger.
É difícil negar que estas propostas sejam uma rejeição da política do atual presidente Bush para armas nucleares. Os assessores do presidente passaram oito anos ridicularizando acordos de controle de armamento, caracterizando-os como ‘idéias velhas’. Durante o governo, Bush sempre negou que exista uma relação entre o que os EUA fazem com suas armas nucleares e sua evidente inabilidade de impedir comportamento armamentista de outros.
Do New York Times.
via Nieman Watchdog
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Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.
E o planeta não poderia estar mais diferente.
Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.
As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:
Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.
A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.
Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.
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Após 15 anos sem fazer nada, as Forças Armadas russas voltaram a suas patrulhas planetárias. Missões aéreas de reconhecimento já chegaram perto de invadir o espaço aéreo norte-americano e o britânico, já invadiram de fato o japonês, têm sido avistadas pela marinha dos EUA com regularidade.
Enriquecida com dinheiro do petróleo, Moscou anuncia planos de refazer seu arsenal. Desenvolve armas e as produz. Pretende atingir a marca de 50 aviões bombardeiros em 2015, tem um tanque novo que lançará em 2009, e uma nova geração de mísseis balísticos já ativos. A velha Moscou anuncia sua volta e por conta disso Robert Gates, o secretário da Defesa dos EUA (equivalente a ministro), anda falando para seus oficiais que é bom manter o arsenal nuclear nos trinques.
Os russos não se incomodam: gostam de ser levados a sério. Mas, pergunta-se a Der Spiegel alemã, este é o início de uma nova corrida armamentista? De uma Guerra Fria, portanto? Principalmente, o que quer Moscou? Pode ser angariar apoio patriótico. Pode ser um recado para vizinhos como Ucrânia e Geórgia para que não se distanciem muito da esfera de influência. Pode ser que os russos de fato achem necessário estar prontos para qualquer ofensiva ocidental.
Stanislav Belkovsky, do Instituto Moscovita de Estratégia Nacional, é especialista no assunto e não anda impressionado. Segundo ele, as Forças Armadas mantiveram a capacidade herdada do período soviético até a virada do século. Desde então, o arsenal está em declínio. Dá números: durante o governo Putin, 405 mísseis e 2.498 cargas nucleares foram aposentadas. Apenas 27 mísseis foram produzidos no mesmo período. Esses novos mísseis balísticos, os Topol-M, são grandes e fáceis de eliminar ainda em solo. O veredito de Belkovsky é simples. Em oito ou dez anos, a Rússia terá o potencial militar de uma nação européia de porte médio, incapaz de enfrentar Japão ou Turquia.
Os EUA investem 25 vezes mais nas Forças Armadas e contam com um contingente de 1,5 milhão de homens. Os russos têm 600.000.
Ainda assim, Moscou confunde, age como se fosse um superpoder. No ano passado, o país deixou o Tratado Europeu de Forças Armadas Convencionais. Parece uma afronta, mas é faz de conta. A Rússia não tem condições de manter sequer o contingente que o tratado lhe permitia. E o governo sente-se cercado. Por um lado, a influência norte-americana na Ucrânia e na Geórgia incomoda Moscou profundamente. A idéia dos EUA de colocar mísseis nas vizinhas Polônia e República Tcheca provoca compreensíveis acesso de fúria.
O medo maior, no entanto, não é com o Ocidente. Há um vizinho à espreita: a China. A demonstração de poder, as patrulhas, a exibição de armas, o abandono de tratados de paz, no fim, são um recado simples. Não há uma nova Guerra Fria. Mas o jogo de poderes no mundo está mudando a galopadas de tão rápido.
dica do André Monsores
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A Newsweek da semana traz uma excelente reportagem chamada A mitologia de Munique. É, fundamentalmente, uma constatação e, a partir dela, uma análise.
O texto constata que dos anos 1970 para cá a política externa norte-americana caiu na armadilha de dois clichês.
O primeiro já um bocado discutido aqui no Weblog é o de Munique e do Apaziguamento. Segundo ele, quem busca a paz com ditadores periga cometer o erro de quem negociou a paz com Hitler.
O segundo é o do Atoleiro no Vietnã – é o clichê resposta. Envia soldados, põe dinheiro, e a guerra é impossível de ser vencida. Quanto mais anda, mais afunda.
Não deixa de ser curioso o fato de que os EUA se meteram no atoleiro do Vietnã para não apaziguarem como acontecera em Munique. Mas não importa – os clichês estão dados e, perante eles, o editor de política da Newsweek, Evan Thomas, se põe a pensar.
Como político, John McCain passou a acreditar no tudo ou nada: os EUA só deveriam entrar numa guerra se estivessem plenamente comprometidos com todo o necessário para a vitória. Assim, em 1983, ele foi contra a intervenção no Líbano porque acreditou (corretamente) que os EUA não estariam plenamente comprometidos com o esforço de paz necessário ao fim do conflito. Em finais dos anos 1990, quando Washington se envolveu na Península Balcânica, McCain queria enviar tropas norte-americanas porque acreditava (erradamente) que os sérvios não recuariam perante um ataque aéreo. No Iraque, ele se opôs ao governo Bush quando este não enviou soldados o suficiente. E se tornou o principal aliado do governo quando mais soldados foram enviados. McCain alerta para as graves conseqüências de uma derrota para a região e para a alma das Forças Armadas norte-americanas.
O conceito do tudo ou nada faz algum sentido e traz um quê de pureza e nobreza. Mas não reflete a realidade desorganizada de guerras locais contra grupos insurgentes. O chefe de Estado, principalmente de uma superpotência, inevitavelmente tem de encontrar um acordo mesmo que isso, em alguns casos, seja dizer uma coisa e fazer outra. Os melhores estadistas sabem disso e, intuitivamente, a maioria das pessoas também o sabe. Basta que abandonem os clichês.
Thomas logo saca do bolso um exemplo: Ronald Reagan. Só se referia à União Soviética como o Império do Mal. E, no entanto, a partir do final de seu primeiro mandato, negociou com os líderes soviéticos o tempo todo. Reagan tinha poder, principalmente após investir muito em armas que não usaria. E este poder que não usou foi o que lhe permitiu negociar.
John Kennedy era outra que compreendia que não é preciso escolher entre apaziguamento e uso da força. Quando os soviéticos instalaram mísseis em Cuba apontando para os EUA, Kennedy falou duro em público, fazendo toda sorte de ameaças. Nos bastidores, Robert Kennedy negociava a retirada de mísseis velhos dos EUA na Turquia em troca de os russos tirarem os seus de Cuba. E foi esta negociação que resolveu a pior crise da Guerra Fria.
A questão, fundamentalmente, é como se colocar numa posição de força no momento de sentar à mesa de negociação. Thomas, infelizmente, não chega tão longe quanto a fazer uma avaliação do cenário que John McCain e Barack Obama encontrarão quando chegarem à Casa Branca. E negociar com a União Soviética – que embora muito mais poderosa tinha um único governo central – é mais simples do que negociar com meio Oriente Médio.
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Norte-americanos, britânicos e soviéticos entraram nos campos de concentração no princípio de 1945. Os soldados e oficiais não estavam preparados para lidar com o que encontraram. Aquelas pessoas ali haviam chegado a um ponto tal de degradação que não conseguiam sequer comer. Umas porque não tinham força. Outras porque o choque de proteína era tamanho que, incrivelmente, matava. Não sentiam cheiro. Mal falavam. Beijavam mãos agradecidos.
Muito rapidamente, em Londres e em Washington, gente em várias posições de poder perceberam que teriam um problema perante a história: alguém, no futuro, tentaria negar que aquilo acontecera. A extensão da crueldade era tamanha – no número de vítimas e no ponto ao qual os nazistas levaram os sobreviventes – que nada parecia, de fato, muito crível.
Decidiram produzir um filme.
Não pensavam no século 21. Pensavam nos anos imediatamente à frente. Pensavam, principalmente, na população alemã. Como convencê-los de que seu país havia chegado àquele ponto? Em Londres, coletaram as cenas filmadas pelas tropas ocidentais nos campos e as puseram nas mãos de Sidney Bernstein, diretor do departamento de propaganda do exército britânico. Sua missão seria produzir um documentário para apresentar ao público alemão os feitos de seu país durante a Guerra.
Quando Bernstein começou a produzir o filme, em maio de 1945, os Aliados ainda não tinham total noção do plano de Solução Final para o problema judaico de Adolf Hitler. Conheciam a crueldade, sabiam do genocídio, mas não tinham ainda levantado todos os documentos que provavam a intenção de eliminar uma etnia. O governo britânico também tinha medo de que, insistindo no fato de que as vítimas eram judeus, afastariam o público alemão.
O filme não citaria judeus, portanto. Falaria de pessoas. De gente.
Revisando as imagens que chegavam do continente, o cineasta da propaganda britânica percebeu que o trabalho talvez exigisse mãos mais hábeis que as suas. Lembrou de um amigo dali mesmo de Londres, que durante a Guerra achou por bem se radicar nos EUA.
Alfred Hitchcock.
Os dois jamais terminaram o filme batizado Memória dos Campos, também lembrado como o ‘documentário de Hitchcock sobre o Holocausto’. Hitchcock serviu como consultor no processo e orientou a edição. Se preocupou em inserir a maior quantidade possível de planos gerais. Temia que, só mostrando as pessoas de perto, alguém achasse que havia sido montagem. Os planos gerais davam mostras das inacreditáveis montanhas de corpos esqueléticos, nus. Pois é que não há nudez escondida neste filme – nudez de gente viva e de gente morta, seios, sexos à mostra, em corpos cujos rostos por vezes lembram caveiras cobertas por um fino tecido. é um documentário cru, violento, muitas vezes difícil de ver.
Os EUA logo abandonaram aquela que deveria ser uma co-produção entre eles e Inglaterra. Alguém, ao ver as primeiras imagens montadas por Hitchcock e Bernstein também decidiu arquivar o projeto. Era duro demais. O mundo não estava preparado para ser exposto a estas imagens de terror. O ‘documentário de Hitchcock sobre o Holocausto’ terminou esquecido.
Em 1985, a rede pública de tevê norte-americana PBS comprou do governo britânico a única cópia conhecida dos originais. As imagens, já editadas, não tinham som. Mas havia um roteiro que a equipe de Bernstein escrevera e texto para narração que acompanhava as imagens. Convidaram o ator Trevor Howard para colocar voz no filme. E o exibiram. Agora está na Internet.
dica do André Fucs
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Em uma semana, Vladimir Putin deixará a presidência russa para assumir o comando de seu partido Rússia Unida.
Do ponto de vista econômico, deixa um país melhor do que aquele que herdou de Boris Yeltsin. Nada tem a ver com sua competência. Yeltsin lidou com um mundo no qual o preço médio do barril de petróleo era 16 dólares. Durante o governo Putin, esteve cotado a 40 dólares em média. Não há porque acreditar que, daqui para a frente, venha a estar abaixo dos 100 dólares.
Mas em que a pujança econômica melhorou a vida russa?
No dia-a-dia do cidadão comum, a aparência é de que melhorou muito. Tanto que Dmitry Medvedev, herdeiro de Putin, venceu com facilidade o pleito. Faça umas pesquisas na rua e ninguém se enganará: venceu porque a esperança popular é de que Putin esteja no comando de fato.
Neste período, Putin privatizou um bom naco das empresas estatais. Só os negócios de mídia da estatal energética Gazprom, vendidos em 2005 por 166 milhões de dólares, hoje são estimados em 7,5 bilhões. (Sim, a estatal energética tinha órgãos de imprensa; e, não, os números não estão errados – a ‘valorização’ representa um aumento de 45 vezes o valor. Não foi vendida. Foi dada de presente.) A privatização na era Putin, e este é apenas um exemplo, representou uma manobra para transferir para as mãos de uns poucos aliados do presidente alguns dos principais negócios do Estado.
A esperança de vida do homem russo, hoje, é de 59 anos. Concorre com a África. Álcool (2,5 milhões de alcoólatras estimados), cigarros e acidentes de trânsito estão entre os responsáveis por estas mortes prematuras. (O número de acidentes de trânsito aumentou 60% de 2000 para cá.) Crimes violentos, e os números são do governo, aumentaram em 170% no mesmo período. O sistema de saúde pública entrou em colapso – algum atendimento, só com suborno. A Organização Mundial de Saúde estima que, numa lista de 190 países, a Rússia está na 130a colocação, pior do que Bolívia e Guiana. O sistema de previdência social também não ajuda. Há um pensionista para cada 1,7 contribuinte. A aposentadoria média é de 160 dólares por mês.
O país é mantido sob controle com mão de ferro e censura à imprensa. Nas contas da ong interna Fundação de Defesa da Glasnost, 75 jornalistas foram atacados de alguma forma e 8 foram assassinados no ano de 2007.
Nenhum dos casos de assassinato de jornalista desde que Putin assumiu o governo foi resolvido.
O governo age com mais tranqüilidade do que era seu padrão no início. O motivo é simples: os sinais que recebe de EUA e da União Européia é de que, na verdade, tanto faz. A Rússia é apenas criticada vez por outra mas ninguém ousa enfrentá-la. Não é tanto o medo de seus armamentos que conta. No caso, trata-se do país que alimenta de gás a Europa. Fora a Alemanha, que faz frente, os outros países – incluindo França e Reino Unido – se encolhem.
Enquanto isso, a Rússia Unida tem uma maioria de 70% na Duma, o parlamento do país. E a oposição está cheia de brigas e desavenças internas.
Este post é baseado no artige de Amy Knight, publicado na última edição da New York Review of Books, baseando-se em entrevistase no relatório Putin, os resultados, publicado na Rússia numa edição pequenina por alguns políticos de oposição. Na avaliação de Knight, Putin só perde poder caso o povo se sinta perdendo qualidade de vida. Até agora, o Estado tem se mostrado incapaz de transformar as benesses angariadas pelo barril de petróleo em alta em serviços.
Em janeiro, a inflação passou de 12% ao ano. O custo de vida está aumentando. O crédito popular também está aumentando – e há muita gente tomando dinheiro emprestado à banca. Para agüentar o tranco, o sistema bancário russo vem pedindo emprestado no exterior. Sinais de uma crise de liquidez? De uma bolha?
Por enquanto, as contas entre importação e exportação produzem um superávit comercial. Mas a diferença vem diminuindo ano a ano, apesar do constante aumento do petróleo. O governo Putin é, além de profundamente corrupto, também de uma extrema incompetência.
Talvez, no fim, a mistura de incompetência e ganância seja justamente a mistura que o derrubará seu grupo do poder.
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No próximo domingo, os russos elegerão o discreto Dmitry Medvedev seu novo presidente. Homem de confiança do atual Vladimir Putin, Medvedev é uma incógnita. O período de transição durará dois meses e, em maio, Putin deixará o Kremlin. Mas isto é apenas pró-forma. Não é o que a população deseja e, na posição de primeiro-ministro, ele promete que continuará no comando de fato. Será?
Um dos truísmos correntes da análise de política internacional é que Putin sequer precisava flertar com a ditadura: seria eleito ainda assim. Isto é apenas parcialmente verdade. O atual presidente é o segundo que o país tem desde a queda da União Soviética e do regime comunista. Durante os anos 1990, o governo de Boris Yeltsin se mostrou caótico, corrupto, autoritário e incompetente. O desemprego atingiu níveis recordes, a moeda virou frangalhos, a máfia nascida do período de privatizações fraudulentas do espólio estatal pareceu dominar o cotidiano.
A narrativa corrente na Rússia é que Putin, o discreto e apagado homem de confiança de Boris Yeltsin, assumiu com punho de ferro e eficiência.
Domou os três canais de televisão que haviam e produziam jornalismo independente e produziu a venda dos principais jornais do país aos ricos que lhe eram leais. A Rússia, hoje, é um dos países mais perigosos do mundo para se exercer o jornalismo. Putin também partiu contra a autonomia dos estados, dividindo o país em grandes regiões administrativas governadas por homens ex-KGB, como ele. E como o novo Medvedev. Os governadores das províncias foram expostos a grandes investigações, assim como várias das empresas petrolíferas. As alegações eram de corrupção – e é possível que muitas fossem verdade. Nas mãos do presidente, no entanto, o combate à corrupção e transformou-se num método de livrar-se de qualquer oposição.
Recentemente, a paranóia do regime tem aumentando. Dominada a imprensa e as empresas, o governo partiu para fechar ONGs. As que existem são, como convém, dominadas pelo pessoal que foi KGB. O direito de assembléia, de se juntar em reunião, está suspenso.
Isto explica a mão de ferro. A eficiência se conta em números que o Kremlin gosta de apregoar. O crescimento anual médio do PIB, desde que Putin assumiu o poder, é de quase 7%. O orçamento já não é deficitário faz oito anos, o país é credor internacional, a inflação mínima e as reservas em moeda estrangeira forte são grandes. O desemprego, que chegou a 12% em 1999, desceu para 6% em 2006. Até 41% dos russos estavam abaixo da linha de pobreza em 1999. Em 2006, eram 14%.
Não bastasse a bonança econômica, a influência na vizinhança foi ampliada. A Primeira Guerra da Chechênia, desastrosamente lutada por Yeltsin, foi substituída pela Segunda Guerra da Chechênia, com mais soldados, mais armamento e menos notícia. O presidente russo voltou a dizer ‘não’ para seu par norte-americano – e, aparentemente, a ser encarado com respeito. A política externa, como nos tempos da União Soviética, tornou a ser baseada nos interesses russos e apenas neles. Ao cidadão comum, uma Rússia humilhada e pobre parece ter engrenado de volta ao caminho que merece.
Mesmo que houvesse imprensa livre, Vladimir Putin seria reeleito. E, na ausência de uma constituição que permita um terceiro mandato, que torne-se chefe de Governo como primeiro-ministro para um presidente feito rainha da Inglaterra.
Nada é tão simples, evidentemente. O sucesso do governo russo não vem da competência de Putin, muito menos de seu autoritarismo. O preço do petróleo vem subindo desde 1998. De 2002 para cá, o barril aumenta rápido de preço. E, conforme aumenta, ajuda a espalhar regimes autoritários que argumentam competência econômica. Mas, seja no Sudão, na Venezuela, no Irã ou na Rússia, é o petróleo e seus derivados que explica a bonança e o poder angariado nas relações externas.
A ‘competência’ do governo Putin, e sua intolerância para com corrupção, pode ser contada em outros números. No último ranking da Transparência Internacional, o país figura como o de número 143 numa lista de 179. O número 1 é o menos corrupto – e vai aumentando até o último. (Nesta lista, de 2007, o Brasil está em 72.) O conflito na Chechênia está menos noticiado do que nos anos Yeltsin, mas não menos brutal. O número de ataques terroristas aumentou. Num teatro em Moscou, em 2002, morreram 300 pessoas. Na escola de Beslan, 500. Tudo no governo Putin. O número médio de assassinatos por ano subiu de 30.200 para 32.200 do período Yeltsin para o Putin.
O regime está mais paranóico e repressivo e a ponto de mudar. O discurso corrente é este: Putin sai para continuar. Talvez. Mas que ninguém se surpreenda se o desconhecido Dmitry Medvedev fizer o mesmo que Putin fez com Yeltsin. Chega manso e, à moda russa, repentinamente assume o controle todo. Talvez não pareça mas, paranóico e repressivo, dependente do petróleo como vai, acumulando inimigos, o regime é instável.
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Não houve qualquer surpresa, ontem, quando o parlamento kosovar se reuniu e declarou sua independência. Também já se esperava que, perante a notícia, boa parte da população tivesse ido às ruas comemorar. Neste jogo de xadrez, todas as reações iniciais estavam previstas. A Sérvia declarou que sua província – administrada desde 1999 pela ONU – não podia simplesmente se separar. A Rússia se pôs a seu lado. Já EUA e a União Européia se mostraram simpáticos. Os 93% de kosovares de origem albanesa ficaram felizes. Os 5% sérvios estão preocupados.
E o problema começa agora.
O presidente sérvio Boris Tadic não deve reagir com violência. Ao menos, não a princípio. Ele acaba de ser eleito e é pró-União Européia. Mas elegeu-se no segundo turno por margem estreita e seu adversário era pró-Rússia. Ele vai falar duro – já declarou a ação ilegal – mas tentará ficar quieto. Tadic bem que gostaria de aceitar o convite da União Européia. Reconhece Kosovo livre, em troca a entrada na UE vai mais rápido. Gostaria mas não pode, sob o risco de alienar boa parte da população.
Aí o jogo começa a ficar mais complicado. A Rússia é contra e não poderia ser diferente. Ela tem problemas com regiões em seu território nacional que desejam independência. Não só a Rússia: China e Índia também têm. Se Kosovo inspira outros movimentos separatistas, dois países no Conselho de Segurança da ONU ficam numa situação ruim. A Rússia também quer manter intacta sua esfera de influência no Leste Europeu. Moscou pressiona o governo sérvio para que não ceda. E a Sérvia depende da Rússia como fonte de energia.
O Conselho de Segurança é importante, aqui. Com o veto certo da Rússia, a ONU não pode reconhecer Kosovo. Terá que retirar sua missão de Pristina. A União Européia planeja por uma sua no lugar. Rússia questiona a legalidade do ato: sem o aval da ONU, nem UE nem a OTAN podem reconhecer a independência. A discussão jurídica acontecerá ao mesmo passo em que a política e a diplomática. O mais provável é que a UE se posicione ignorando problemas legais.
São 200.000 sérvios morando em Kosovo. Há medo de que eles decidam migrar para a Sérvia. O plano de independência faz com que a minoria tenha ampla participação no governo, justamente para dispersar temores.
O governo sérvio terá de se equilibrar perante a pressão interna dos eleitores e a externa, por parte da Rússia. É onde há perigo. A ong Internation Crisis Group, que trabalha na prevenção de conflitos ao redor do mundo, sugere que a UE reconheça imediatamente o novo país e que assuma o papel que a ONU vinha exercendo.
Richard Holbrook, que foi embaixador dos EUA na ONU durante o período da Guerra do Kosovo, vê dois riscos. O primeiro é que os kosovares de etnia albanesa se virem contra os de etnia sérvia. O segundo, de que se isto ocorrer a Rússia decida intervir militarmente. Para evitar ambos os cenários, só há uma solução: tropas da OTAN ou da UE.
Mas nada estará resolvido enquanto a Rússia não mudar de posição.
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