Os 10 países mais perigosos do mundo

10/August/2009 - 10h14 - 323 Comentarios

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Desetendem-se, Rússia e Venezuela

21/May/2009 - 07h27 - 90 Comentarios

Desde 2006, Rússia e Venezuela vêm num contínuo flerte militar. O governo Hugo Chávez comprou aviões Sukhoi e helicópteros Mi num valor que pode chegar a 5.4 bilhões de dólares. O próximo passo era a aquisição, este ano, de seis submarinos Kilo.

Era.

As naves estão chegando no Vietnã, a Venezuela cancelou sua compra.

A especulação que corre na web é que, quando fez uma operação amistosa na costa venezuelana, ano passado, a marinha russa comprou briga com guarda-costas de Hugo Chávez. Ao menos houve briga – briga mesmo, punhos cerrados – entre alguns marinheiros e os homens encarregados de proteger o presidente, quando Chávez tentava subir a bordo do cruzador Pedro, o Grande.

Irritado, Chávez teria interrompido o contrato.

Parece que a briga houve de fato. Se ela virou incidente comercial é outra história. Outra versão que corre: o governo George W. Bush acabou, o presidente bolivariano não vê mais a necessidade de irritar os EUA.

Versão mais provável? No blog da revista American Prospect, lembram o óbvio. O petróleo está em baixa. Chávez está contando os centavos já não tão fartos.

E o G20 se encontra

02/April/2009 - 03h17 - 114 Comentarios

Oficialmente, os líderes do G-20 se reúnem hoje, em Londres. Mas as conversas já vêm acontecendo com intensidade há meses. Um dia Lula está com Obama. No outro, Sarkozy e Angela Merkel estão juntos – e aí é a vez de Merkel com Putin. O papa escreve a Gordon Brown – premiê britânico que, evidentemente, já se encontrou com todos nas últimas duas semanas: Lula, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin.

Os EUA chegam a Londres com o pires na mão.

Querem que os governos do G-20 soltem mais dinheiro em suas economias, grandes pacotes como aquele que Obama espera ver aprovado. Querem também que os governos do G-20 o ajudem a injetar dinheiro no FMI.

Os dois pedidos de dinheiro são complicados.

Os europeus não desejam injetar mais dinheiro. Eles acreditam que a teia de serviços sociais – da previdência ao seguro desemprego – em seus países serão suficientes para conter o agravamento da crise.

Na questão do FMI, a situação é conosco – Brasil, Rússia, Índia e China. Os BRICs não têm nenhum estímulo para ajudar o FMI. O Fundo Monetário Internacional conta, hoje, com 250 bilhões de dólares em caixa para ajudar nações em apuros. Receberá mais 100 bi dos EUA, o Japão prometeu outros 100, a União Européia contribuirá com igual quantia. Mas, para engordar mais o fundo, é preciso dar mais poderes aos sócios em ascensão.

Hoje, os europeus indicam quem manda no FMI e os norte-americanos escolhem a chefia do Banco Mundial. Enquanto o jogo de comadres continuar, não haverá mais dinheiro. Se o jogo de comadres ainda fosse viável, não haveria esta reunião do G20. Estariam ainda no G8 discutindo os destinos do mundo.

Por outro lado, a Europa quer algo que os EUA não parecem dispostos a dar: mais regulamentação dos bancos. Os europeus, com exceção do Reino Unido, têm uma proposta. Primeiro, obrigam os bancos a juntar mais dinheiro quando a economia estiver em alta. Precisam ter mais em caixa, não podem jogar tudo. Os EUA até são capazes de topar uma variação deste item. O que mata é o segundo.

Angela Merkel e Nicolas Sarkozy sugerem que instituições financeiras devem ser punidas se oferecerem a seus executivos bonificações por comportamento arriscado.

Tudo pode ser resumido assim: Europa quer regulamentar. Os EUA querem injetar dinheiro na economia.

Enquanto os membros do G8 não se entendem, outros têm preocupações distintas: defendem o livre mercado. Ao longo do último ano, a União Européia aumentou os subsídios agrícolas, os EUA injetaram cláusulas de compra de produtos americanos em seus contratos, a Rússia passou a taxar carros. A China comunista, quem diria, é a mais aguerrida defensora da livre circulação de produtos e capital pelo mundo neste momento. (Circulação de produtos, que se entenda bem; livre circulação de pessoas e idéias, internamente, continua não podendo.)

Mas, neste caso, os chineses encontram no Brasil um de seus principais aliados.

É uma reunião de alto nível, esta, uma reunião particularmente importante, embora um bocado complexa. Nos próximos dias, saberemos se alguém conseguiu avançar em algum sentido ou se todo o sistema persistirá emperrado.

Cuba, Rússia e EUA: dois
movimentos de xadrez

04/March/2009 - 03h18 - 60 Comentarios

Raul Castro demitiu ministros fiéis a seu irmão, Fidel. Colocou em seus lugares novos ministros, oriundos do Exército, que lhe são fiéis. Outro Castro manda em Cuba.

Dmitry Medvedev recebeu uma carta do presidente norte-americano oferecendo uma troca: os EUA abrem mão do sistema de mísseis no Leste Europeu, a Rússia ajuda a conter o avanço nuclear iraniano.

Obama acena para os russos?

26/February/2009 - 16h04 - 62 Comentarios

Conforme as primeiras análises mais aprofundadas do discurso de Barack Obama às duas Casas do Parlamento começam a surgir, um assunto se destaca: o presidente dos EUA pode desistir da barreira de mísseis no Leste Europeu.

Obama não deu detalhes, no discurso disse apenas que é preciso ‘revisar o orçamento de defesa para que não paguemos por sistemas militares do tempo da Guerra Fria que não usamos nunca.’ Bem, só há um grande projeto de defesa que data da Guerra Fria presente constantemente nos jornais. A barreira de mísseis, que seria instalada na Polônia e na República Tcheca, é vestígio do Programa Guerra nas Estrelas de Ronald Reagan. É, também, o maior motivo de disputa entre russos e norte-americanos. Os mísseis, que teoricamente serviriam para derrubar outros mísseis vindo contra os EUA ou Europa do Irã, talvez da China, apontam para a Rússia.

Pelo menos uma deputada, a democrata Ellen Tauscher, que lidera a Comissão de Assuntos Militares, já está trabalhando para extirpar o programa. Pelo menos um ministro, o secretário de Defesa Robert Gates, é a favor de mantê-lo.

Arquivar a barreira de mísseis, no entanto, faria horrores para as relações EUA/Rússia e criaria boa vontade em Moscou na lida com o Irã. Ao menos, isto sempre foi prometido.

Rússia repentinamente humilde

18/February/2009 - 02h41 - 63 Comentarios

Embora em tom de desafio, a retórica russa mudou. Na Der Spiegel, o ministro das relações exteriores Sergey Lavrov fala de cooperação com os EUA. ‘Não podemos mais nos dar ao luxo de jogos geopolíticos’, ele diz. ‘Precisamos encarar os problemas reais.’

O mesmo país que ameaçava a Europa ocidental com cortes de venda de gás natural, agora fala em permitir que empresas alemãs possam a vir explorar suas reservas.

A retórica pode ser não mais que retórica, mas há uma diferença no ar: no último mês, a popularidade de Dmitry Medvedev, o presidente, caiu de 79 para 69%. A do premiê Vladimir Putin foi de 81 para 74%. E o fenômeno tem causa conhecida. A crise econômica recaiu sobre o país.

O método Putin de governo tem uma fórmula. O dinheiro da energia mantém a economia a pleno vapor, o povo empregado e devidamente alimentado. O governo mantém rígido controle da mídia, persegue a oposição, mas a população não liga muito. Externamente, fala duro. As trapalhadas do governo da Geórgia e um conflito que quase não houve foram vendidos internamente como uma vitória sobre os EUA. A população adora.

Mas tudo é sustentado por dinheiro. O medo de que um movimento pró-democracia nasça do caos econômico é real. Passeatas nas ruas de Moscou, até agora, foram raras e pequenas.

O governo tem medo de que isto mude. Para isso, precisa do retorno da estabilidade econômica. Portanto, de estabilidade internacional que, de repente, ficou incrivelmente valiosa.

Não custa lembrar: Putin não é Hitler

02/October/2008 - 06h25 - 36 Comentarios

Duas observações sobre o post anterior, a respeito da Rússia.

Primeiro: o leitor Mr. Z fez uma interessantíssima análise a respeito da Rússia nos comentários. Vale a pena ler.

Segundo: alguns de vocês rapidamente compararam com Chamberlain e 1938. O apaziguamento. Lembrar daquele momento é sempre complicado e esta é uma das metáforas mais abusadas que há em situações como essa. Mas, neste caso, há realmente mais proximidades do que em geral.

Em 1938, Adolf Hitler queria incorporar à Alemanha um pedaço da Tchecoslováquia no qual viviam alemães. Embora não fale claramente de incorporação, Putin diz estar defendendo cidadãos russos.

Em 1938, a França tinha um tratado com a Tchecoslováquia que a obrigava a partir em sua defesa caso houvesse ataque. O Império Britânico partiu em ajuda à França. E não houve pudores para sacrificar o território tchecoslovaco para impedir um conflito maior. Não há um tratado, hoje, que obrigue qualquer um a defender a Geórgia (ou a Ucrânia). Mas há a mesma falta de pudor de ignorar um ataque a dois países fracos para evitar um conflito muito maior.

Ainda assim, há diferenças importantes. Em 1938, havia o consenso de que o Tratado de Versalhes e a humilhação alemã subseqüente, após a Primeira Guerra, havia sido um erro. Após sua derrota em 1918, a Alemanha havia concretamente perdido território – incluindo aquele que Hitler requeria. Havia uma vontade de reparação. As fronteiras atuais da ex-União Soviética foram definidas após a dissolução da URSS por consenso.

Em 1938, a Alemanha era uma clara e solitária agressora. Hoje, os EUA determinam que podem invadir quem querem, quando quiserem, independentemente de qualquer órgão internacional. A Rússia não está sozinha.

Mais importante: Hitler queria conquistar toda a Europa para seu Reich. Hitler queria eliminar etnias inteiras da face do planeta. Isso talvez não estivesse claro em 1938 – mas Hitler era Hitler. Vladimir Putin não é Hitler.

O difícil quebra-cabeças de Rússia e Geórgia
(e do resto do mundo todo)

01/October/2008 - 14h57 - 16 Comentarios

As tropas de monitoramento da União Européia que chegaram hoje à Geórgia tiveram permissão russa para entrar em parte do território da Ossétia do Sul. O cessar-fogo parece estar sendo obedecido e, até o dia 10, os russos deverão deixar o território. Um grupo mínimo de soldados fica para ‘manter a segurança’.

Há muito falatório a respeito da Geórgia estes dias, tanto na imprensa norte-americana quanto na européia. As populações da Ossétia do Sul e da Abecásia, as duas províncias separatistas, não pertencem à mesma etnia dos georgianos. Mas também não são russos. Ao longo da última década, no entanto, vieram recebendo passaportes russos por conta de uma política planejada de Moscou. São cidadãos russos, portanto. E Vladimir Putin se reserva o direito de defender cidadãos russos não importa onde eles estejam.

Aí começa a dificuldade: ninguém está realmente preocupado com a Geórgia. Mas assim como ossétios e abecásios, os moradores da Criméia vem recebendo passaportes russos faz pouco mais de uma década. E a Criméia faz parte da Ucrânia, país que, de pequeno, não tem nada. Mais: tem fronteiras com Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia. Está no meio da Europa. Se o argumento de Putin é aceito para a situação da Geórgia, à frente terá que ser aceito para a Ucrânia.

A situação vai ficando mais complexa: as conversas de livre comércio entre União Européia e Ucrânia estão acontecendo. O país tem um objetivo. Quer se juntar à UE. Também quer fazer parte da OTAN. Mesmos objetivos da Geórgia. Os vizinhos imediatos – Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia – já fazem parte da UE e da OTAN. E a população ucraniana, como a da Geórgia – excetuados os separatistas – querem ambos. Mas a OTAN tem na base um tratado, uma garantia de que se um de seus membros for atacado, os outros partem em sua defesa.

E a Rússia, neste momento, está deixando tão claro quanto possível que tem planos de atacar a Ucrânia. Fez o movimento contra a Geórgia, o mundo ficou quieto.

Em negociações do tipo, o blefe faz parte. Mas quem blefa e não cumpre perde a credibilidade. Quando George W. Bush declarou que a Coréia do Norte não poderia desenvolver armas nucleares senão teria que se ver com sei lá o quê, blefou. Os norte-coreanos conseguiram suas armas. Nada ocorreu. Bush também se reserva, como Putin, o direito de atacar o país que considerar necessário para a segurança dos EUA. E já o fez. A diferença, talvez, é que Putin vem se mostrando fiel à palavra. Cumpre o que ameaça. E os EUA não têm muito como censurá-lo.

Putin também se sente ameaçado. Ucrânia e Geórgia viveram revoluções eleitorais – as revoluções Laranja e a Rosa – que o governo russo não gosta nem de imaginar ocorrendo em sua casa. A OTAN, criada contra a União Soviética, ainda é vista em Moscou como um grupo anti-Rússia. E o crescimento dela nos arredores acirra a paranóia. Não bastasse, os EUA insistem em instalar mísseis na Polônia voltados para a Rússia. Não é contra a Rússia, eles dizem. Não é o que poloneses ou tchecos pensam. E, olhando friamente, o Kremlin não tem qualquer obrigação de acreditar na palavra norte-americana. Os paranóicos, afinal, têm seus inimigos.

Também por uma análise fria, é possível concluir que é irresponsável trazer Geórgia ou Ucrânia para a OTAN. Se Putin invadir a Criméia, será preciso intervir militarmente. Uma guerra entre OTAN e Rússia é uma idéia que se aproxima um bocado de qualquer definição de pesadelo. Em diplomacia, é bom não se colocar numa posição em que não existam mais escolhas.

Mas, ainda assim, há sempre a questão moral: agora, entrega-se um pedaço da Geórgia aos russos. E tudo bem. Depois, um pedaço da Ucrânia. Onde pára a fome de Putin? Com muita velocidade, este conflito que parece vindo dos tempos da Guerra Fria pode se transformar na crise internacional mais importante que existe no planeta.

Ao menos há uma boa notícia: os chineses não gostam nada dessa idéia de incentivar grupos a conseguir a independência ou autonomia de seus territórios. Nessa, os russos estão sozinhos.

A Geórgia iniciou o conflito com a Rússia
(ou por que é melhor deixar a OTAN como está)

18/September/2008 - 08h45 - 114 Comentarios

Informa a Der Spiegel alemã que os últimos relatórios da OTAN e Organização pela Segurança e Cooperação Européia dão indícios de que a Geórgia não apenas provocou como iniciou os ataques que levaram à invasão russa na Ossétia do Sul. Os primeiros tiros dados na capital da província foram georgianos. Tanto em Washington quanto nas principais capitais européias, a visão é de que o presidente Mikhail Saakashvili provocou uma situação para obter apoio militar e até mesmo angariar vantagens diplomáticas.

O que leva a uma questão que vem sendo muito debatida aqui nos EUA: filiação de Geórgia e Ucrânia à OTAN. De uma forma ou de outra, ambos os candidatos se colocam favoráveis à idéia. Mas pergunte aos especialistas em negociações do tipo – e há uma penca deles aqui no campus de Stanford – e há quase unanimidade. Acham que os candidatos estão errados. (E, na presidência, ambos provavelmente reveriam a idéia.)

Criada para fazer frente à União Soviética, a Organização do Tratado do Atlântico Norte existe para basicamente um único fim. É um compromisso entre os signatários de que todos partirão em defesa militar de qualquer membro que seja atacado sem provocação prévia. Se há uma coisa que o atual comando russo deixou claro é que não tem medo. Se considerar que deve entrar numa disputa militar, entrará. Moscou não hesitará em invadir Geórgia ou Ucrânia se considerar adeqüado.

Se um dos países fosse membro da OTAN, o resultado é que Reino Unido, França e EUA teriam de enviar forças militares para combater a Rússia. Ou, então, teriam que romper o tratado, quebrando sua palavra e pondo fim a uma instituição importante. Países como Reino Unido, França e EUA não podem se expor a uma guerra com a Rússia à toa. Se não dá para confiar em Vladimir Putin, melhor não desafiá-lo – ao menos, não por um capricho.

Uma guerra contra a Rússia é uma guerra mundial.

A Marinha russa avança sobre o Caribe
e Gorbachev dispara pró-Putin, contra Bush

09/September/2008 - 13h36 - 66 Comentarios

A Rússia enviará um cruzador nuclear para fazer exercícios navais com a marinha venezuelana. No Caribe.

É o primeiro exercício do tipo desde a Guerra Fria assim tão próximo dos EUA.

Vladimir Putin e seu presidente, Dmitry Medvedev, são assim. Acham que os EUA querem comprar briga. Então consideram que devem responder à altura. Os EUA enviam a marinha para o Mar Negro, quase nas suas terras, para ajudar a Geórgia? Lançam mão do telefone para falar com Hugo Chávez.

Mas não são apenas eles. Em entrevista ao espanhol El País, Mikhail Gorbachev diz que os EUA vêm armando pesadamente Geórgia e Ucrânia e incentivando ambos à dissensão. Diz mais:

A Europa deveria propor uma nova arquitetura de segurança regional com a constituição de um Conselho de Segurança continental. Seria um diretório em que estejam representadas todas as nações européias com poderes para operações de manutenção da paz. Desse jeito, sairíamos de uma situação em que os EUA decidem o que será feito no mundo. Havia uma proposta assim à mesa em 1990, mas o Ocidente achou que havia ganho e decidiu não cumprir suas promessas.

Gorbachev acusa os governos Clinton e Bush de terem promovido uma geopolítica que provoca divisões na Europa e diz que o escudo de defesas anti-mísseis é contra a Rússia. O Irã é só uma desculpa.

via Foreign Policy, com dica de Mario Nobre

Kosovo valeu a pena? Pergunte à Ucrânia,
à Geórgia ou à Moldávia

01/September/2008 - 14h09 - 57 Comentarios

Kosovo é uma história de crise, informa na Newsweek a professora Ruth Wedgwood. Entre os jovens, o desemprego é de 60%. O medo é de que, estando no coração do Leste Europeu, busquem se dedicar ao tráfico de drogas, armas ou mulheres, criando um centro de ilegalidade no continente. Ou, então, esperam um êxodo para a Itália, Suíça ou Alemanha.

O jovem país não tem juízes, policiais ou quem cuide da alfândega. Não tem exército que o proteja (a OTAN mantém tropas lá). Não tem eletricidade – todo dia a luz cai. Não tem estradas que escoe a produção agrícola ainda inexistente de uma terra fértil. (Em cinco anos, espera-se, uma grande rodovia para a Albânia. Mas essa não é a melhor rota de escoamento.) Não é reconhecido pela ONU, e nem o será enquanto a Rússia mantiver o veto. Bósnia, Grécia, Macedônia, Montenegro, Romênia, Eslováquia e Geórgia são os vizinhos imediatos que não reconhecem sua independência.

Não estão sozinhos: apenas 45 países reconheceram o Kosovo, afinal ninguém busca uma zona de desgaste gratuita com a Rússia. O resultado é que, com seu passaporte, kosovares só têm 45 países no mundo com os quais fazer negócios ou visitar. Estão isolados e nada indica que algo mudará.

Incentivar a independência do Kosovo valeu a pena? Agora a Rússia quer o direito de independência para a Ossétia do Sul, na Geórgia. Nada como uma boa desculpa e, diz o professor Otto Luchterhandt, Ucrânia e Moldávia estão preocupadas. Semana passada, o presidente russo Dmitry Medvedev informou ao presidente da Moldávia Vladimir Voronin que não aconselhável que seu país tentasse impor autoridade sobre o estado da Transnistria. Qualquer estado rebelado terá o apoio da Rússia. Convém que os ucranianos tampouco pensem na Criméia como sua.

De volta à URSS

20/August/2008 - 08h25 - 79 Comentarios

Os jovens adultos nos países que pertenceram à União Soviética já não sabem como era viver naquela versão de comunismo, a falta de tudo, as filas intermináveis, a variedade nula e a opressão onipresente.

O lituano R?ta Vanagaite decidiu resolver este problema e idealizou um reality show. Um grupo de jovens com seus 18 anos viveria um tempo nas mesmas condições às quais seus pais e avós foram submetidos. Mas a televisão da Lituânia não comprou a idéia: achou que o público mais velho não ia gostar da lembrança.

Pois o novo projeto de Vanagaite está funcionando: é um parque temático. (Mas não exatamente um parque de diversões.) Quem o visita come comida soviética, vai ao médico, aprende a Internacional sob ameaças, é interrogado por um agente da KGB. Os atores do parque pertenceram todos ao Exército Vermelho.

A Rússia quer Venezuela e Cuba?

19/August/2008 - 11h58 - 85 Comentarios

O analista de política latino-americana Carlos Alberto Montaner, um cubano badalado na imprensa hispanoablante, tem uma teoria a respeito dos próximos passos russos: Cuba ou Venezuela.

Hugo Chávez, em visita a Moscou, já havia mencionado a possibilidade de uma base militar russa na Venezuela. A própria Rússia já havia soltado um balão de ensaio cogitando a inclusão de Havana entre os aeroportos pelos quais aviões militares russos fazem escalas regulares.

Conforme a OTAN seduz a Ucrânia e os EUA insistem em uma rede de mísseis na Polônia e na República Tcheca, os russos mexem suas peças de xadrez como se o ano fosse 1960.

Mas o ano não é 1960 e a Rússia não é uma potência mundial. Suas ações afetam diretamente a Europa e os vizinhos imediatos na Ásia. Mas não muito mais. Os países/grupos que têm realmente o poder de influenciar a economia ou a política de todo o mundo com um espirro são China, EUA e, quando consegue agir em bloco, União Européia.

Putin está, evidentemente, dedicado a mudar este quadro. Não quer dizer que consiga.

Como é viver na área da antiga URSS

12/August/2008 - 19h35 - 47 Comentarios

Na discussão sobre a Geórgia, é interessante repassar os comentários do leitor ROFL, que vive na área da antiga União Soviética.

A população russófona tem toda a vida facilitada pra eles, releia meus posts sobre a ajuda de custo que o governo estoniano dá àqueles que querem ter a cidadania. No horário nobre, tem meia hora da programação pro jornal nacional em russo. Publicidade nas ruas em estoniano e em russo. Minha TV a cabo tem 77 canais e mais de 50!! são em russo.

O povo estoniano que reclama da minoria russa? Por um simples motivo: os russos não engolem que esses países sao independentes hoje em dia, e ainda estão mal acostumados com a vida mansa que levavam durante os tempos soviéticos. Época de igualdade, ou como diz minha esposa, uns eram ‘mais iguais do que os outros’. Logicamente aqueles que eram do partido comunista.

O comentário acima em sua íntegra está aqui. Mas há também este sobre o movimento separatista na Estônia e este, sobre a relação com os russos no dia-a-dia.

A Geórgia dançou; a Europa também

12/August/2008 - 16h41 - 71 Comentarios

Vladimir Putin mapeou tudo. Percebeu que os EUA, alquebrados pelo Iraque e Afeganistão, ainda desejosos do apoio russo para sanções contra o Irã, não tinham mais aliados na Europa e seguiam ambivalentes à crise no Cáucaso. Putin percebeu que o líder da Geórgia, Mikhail Saakashvili, apesar de seu pendor nacionalista, era o presidente fraco de uma democracia com Forças Armadas frágeis. Olhou o mapa da Geórgia e viu um país engolfado pela Rússia e o Ocidente lá longe. Ali é diferente dos Bálcãs, que têm a boa sorte de fazerem fronteira com a Europa Central e, portanto, terem a sorte de contar com envolvimento da OTAN. No Cáucaso, os vizinhos são Rússia, Irã, o naco mais pobre da Turquia e o Mar Cáspio.

Putin olhou e se moveu. Liberou a Ossétia do Sul, um estado sob o domínio de gângsters e contrabandistas, do frágil poder militar da Geórgia. Fez o mesmo em Abecásia, outro estado da Geórgia. Segundo as últimas notícias, as forças russas já controlam uma base militar no leste do país e parecem dispostos a manter o controle militar em toda região na qual o poder central é fraco. Ao cortar a Geórgia ao meio, os russos controlam o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, crítico para a energia do ocidente, fazendo com que o Kremlin passe a decidir o fluxo de combustível para o Mediterrâneo e Europa. Norte-americanos e europeus vão querer sentar à mesa, e a Rússia fará concessões. Mas farão isso de uma posição de força. A Geórgia provavelmente nunca mais terá um governo independente como aquele que teve até 8 de agosto de 2008.

É o que diz Robert Kaplan, um dos grandes especialistas na região, no blog da Atlantic Monthly.

Os erros da Geórgia

11/August/2008 - 10h02 - 99 Comentarios

Há duas coisas a dizer sobre a guerra na Geórgia. A primeira é que a Geórgia tem todo o direito de garantir o controle sobre a Ossétia do Sul – é parte de seu país e não há dúvida de que os separatistas apoiados pelos russos vêm provocando.

Em segundo, a Geórgia cometeu dois erros terríveis. Desde maio, suas ameaças de abater caças russos já sugeriam uma desculpa para que os russos iniciassem uma operação militar. O ataque à Ossétia do Sul por parte da Geórgia é um erro pior. Como foram os primeiros a derramar sangue, perderam a moral e deram de graça para os russos um motivo de guerra.

O paraíso em meio à guerra

08/August/2008 - 23h26 - 15 Comentarios

Repentinamente, um jornalista brasileiro encontra um bosque e, no bosque, uma pequena tragédia humana.

É uma história da Ossétia, agora cenário de guerra, que o marco conta nos comentários do post abaixo.

Geórgia e Rússia a um passo da guerra

08/August/2008 - 09h44 - 119 Comentarios

Pesados tiroteios vêm acontecendo na Ossétia do Sul, desde o dia 1. É uma pequena república separatista cuja população é em boa parte russa mas que a ONU – e quase todas as nações do mundo – consideram parte da Geórgia. No sábado passado, a Rússia permitiu a vinda de refugiados para seu território. Na quarta, a Geórgia perdeu um tanque de guerra. Ontem, caças do país atacaram – ou assim segue a acusação – um comboio humanitário russo.

Hoje pela manhã, o presidente russo Dmitry Medvedev deu ordens para que um comboio de tanques cruzasse a fronteira. Geórgia e Rússia estão a um passo da guerra.

Um mundo sem armas nucleares é possível?

22/July/2008 - 10h19 - 59 Comentarios

Duas décadas após Ronald Reagan e Mikhail Gorbachov combinarem o início de uma política de desarmamento nuclear, um grupo dos mais influentes homens especializados em segurança nacional, nos EUA, pede ao país que lidere uma campanha global para pôr fim às armas nucleares. São George Shultz, Henry Kissinger, William Perry e Sam Nunn.

Nenhum deles (dois ex-secretários de Estado, um ex-secretário de Defesa e um ex-presidente do Comitê de Forças Armadas do Senado) tende a sonhos utópicos – ou mesmo a sonhos de qualquer outro tipo. O que desejam é chocar para despertar uma idéia. [...]

Eles desejam a implementação de políticas há muito ignoradas pelos militaristas: isto inclui a proibição total de testes nucleares, tirar mísseis norte-americanos e russos da condição de alerta, e a costura de acordos ‘para redução substancial’ dos arsenais de ambos os países.

‘Não vamos conseguir nada enquanto formos países que têm armas nucleares exigindo coisas de países que não as têm’, diz Kissinger.

É difícil negar que estas propostas sejam uma rejeição da política do atual presidente Bush para armas nucleares. Os assessores do presidente passaram oito anos ridicularizando acordos de controle de armamento, caracterizando-os como ‘idéias velhas’. Durante o governo, Bush sempre negou que exista uma relação entre o que os EUA fazem com suas armas nucleares e sua evidente inabilidade de impedir comportamento armamentista de outros.

Do New York Times.

via Nieman Watchdog

O mundo em busca de reformas

06/July/2008 - 12h05 - 57 Comentarios

Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.

E o planeta não poderia estar mais diferente.

Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.

As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:

Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.

A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.

Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.