O abuso sistemático, sexual e físico,
de crianças da Irlanda pela Igreja
Há duas questões importantes levantadas nos comentários abaixo, sobre o escândalo de abuso infantil na Igreja Católica da Irlanda.
A primeira me cobra uma distinção: foi abuso físico de crianças, mas não sexual.
Não é verdade.
No relatório, que trata de casos documentados entre a década de 1940 e a de 1970, há inúmeros casos de abuso sexual. De estupro de crianças por padres de batina e funcionários. Tão logo o relatório começou a ser divulgado, esta semana, o Dublin Rape Crisis Center – especializado em vítimas de estupro – passou a receber ligações de mais vítimas da Igreja querendo contar suas histórias. O premiê irlandês Brian Cowen, com o texto na mão, declarou que nas escolas públicas administradas por 18 ordens católicas diferentes, “o abuso sexual de crianças era endêmico”.
Se ainda restam dúvidas, as palavras seguintes estão publicadas no site Catholic Spirit e são de Sean Brady, cardeal de Armagh: “Este relatório deixa claro o mal que fizemos a algumas das crianças mais vulneráveis de nossa sociedade. Ele documenta uma vergonhosa lista de crueldades – negligência e abuso físico, sexual e emocional – impostas a crianças.”
Segundo o relatório, abuso sexual era sistemático nas escolas para meninos, embora também ocorresse com menor frequência nas escolas para meninas.
Se há algo omisso no post anterior é que a história irlandesa não é apenas de estupro. É também de abuso físico – e não se trata, aqui, de palmatória, instrumento cruel, porém ainda usado vastamente na educação britânica até os anos 40. Nas escolas tocadas pela Igreja, havia chibatadas em crianças nuas. Banhos com água fervendo ou com água no limite do gelo do inverno irlandês. Ameaça com cachorros raivosos – sim, Abu Ghraib imediatamente vem à mente. As surras eram sistemáticas e arbitrárias. As crianças ouviam seus colegas apanhando, quando não assistiam. O resultado era a criação de um ambiente de terror.
O que as crianças vítimas têm em comum é que todas estavam internadas nas escolas industriais, instituições criadas na Revolução Industrial para oferecer abrigo e proteção a crianças pobres, muitas vezes abandonadas pelos pais, outras órfãs. Eram escolas públicas, e o governo concedia à Igreja sua administração.
A segunda cobrança é a de que tenho uma mão pesada para tratar da Igreja. Que não tenho distanciamento.
Vocês sabem que sou ateu. Mas não sigo a linha Richard Dawkins – não acredito que a religião é um mal do mundo. Lembro até hoje de uma freirinha italiana que me dava aulas de religião, quando eu era criança. A irmã Gina. Ainda a vejo como a emanação da bondade – era uma figura extremamente generosa. Naquele tempo, eu devia ter uns oito ou nove anos, flertei com religião. Não deu. Sou ateu desde a pia.
Desculpe. Mesmo. Não acho que meu problema seja falta de distanciamento. Tenho total distanciamento.
Acho que a questão é outra: bons católicos sentem o ímpeto de defender sua Igreja. Essas histórias, tornadas públicas, não batem com sua imagem da Madre Igreja. E eu só posso imaginar como deve ser duro, difícil, encarar este lado negro da Igreja. O post anterior tem motivo: um cardeal britânico veio chamar pessoas como eu de sub-gente no momento em que sua Igreja, na ilha ao lado, revela um histórico recente de crueldade profunda, de desprezo completo pelo que é ser humano. Só uma completa falta de auto-crítica e nenhuma noção de timing pode levar um sujeito como ele a questionar a humanidade dos outros neste momento. Aí seu sucessor o que faz? Elogia a coragem da Igreja.
Pois esta é a Igreja que eu enxergo. A questão básica é a seguinte: sempre que um país decide investigar os porões da Igreja, descobre uma história recente igual – nela, as crianças são sempre vítimas. Não acredito que Boston, Los Angeles e Irlanda sejam casos isolados. São os casos investigados, apenas. Quem for mexer na Igreja da Itália encontrará o mesmo. Na da Espanha? Não tenho dúvidas. Também na do Brasil. Por que não tenho dúvidas? Porque sexualidade é coisa humana. Gente que decide sufocar a própria sexualidade sai de órbita. A maioria dos padres, evidentemente, arranja namorados e namoradas adultos e discretos. Mas uns e outros partem para as vítimas fáceis.
Muitos cardeais, quando abrem a boca para falar sobre os casos de abuso, dão mostras de que não perceberam sua gravidade. O papa Bento 16 diz que é lamentável, uma nódoa, e aí muda de assunto. Não é lamentável. Não é uma nódoa: é a Igreja como ela é, uma instituição que tolerou sistematicamente abusos dos piores tipos às crianças mais frágeis – quase sempre pobres – da sociedade. A Igreja, que neste pontificado é uma instituição que se julga no direito de querer ensinar amor e tolerância ao mundo, precisa urgentemente se abrir, reconhecer seus males, discuti-los publicamente, pedir desculpas e se reformar.
Mas não faz isso. Quando, pressionada por vítimas e pelo Estado em alguns lugares, só coopera com investigações depois de fazer acordos em que os nomes de seus criminosos não serão divulgados.
Perdoem: não acho que todos os padres e freiras sejam assim. Não acho sequer que a maioria deles seja assim – tenho certeza de que é uma minoria. Mas a instituição é assim. As pessoas de poder na Igreja são assim: é o que revelam em seus acordos e, invariavelmente, em seus comunicados públicos.
Atualização- Nos comentários, o Saladino dá o link para o relatório (PDF) sobre os abusos da Igreja na Irlanda.


