O abuso sistemático, sexual e físico,
de crianças da Irlanda pela Igreja

06/June/2009 - 16h46 - 348 Comentarios

Há duas questões importantes levantadas nos comentários abaixo, sobre o escândalo de abuso infantil na Igreja Católica da Irlanda.

A primeira me cobra uma distinção: foi abuso físico de crianças, mas não sexual.

Não é verdade.

No relatório, que trata de casos documentados entre a década de 1940 e a de 1970, há inúmeros casos de abuso sexual. De estupro de crianças por padres de batina e funcionários. Tão logo o relatório começou a ser divulgado, esta semana, o Dublin Rape Crisis Center – especializado em vítimas de estupro – passou a receber ligações de mais vítimas da Igreja querendo contar suas histórias. O premiê irlandês Brian Cowen, com o texto na mão, declarou que nas escolas públicas administradas por 18 ordens católicas diferentes, “o abuso sexual de crianças era endêmico”.

Se ainda restam dúvidas, as palavras seguintes estão publicadas no site Catholic Spirit e são de Sean Brady, cardeal de Armagh: “Este relatório deixa claro o mal que fizemos a algumas das crianças mais vulneráveis de nossa sociedade. Ele documenta uma vergonhosa lista de crueldades – negligência e abuso físico, sexual e emocional – impostas a crianças.”

Segundo o relatório, abuso sexual era sistemático nas escolas para meninos, embora também ocorresse com menor frequência nas escolas para meninas.

Se há algo omisso no post anterior é que a história irlandesa não é apenas de estupro. É também de abuso físico – e não se trata, aqui, de palmatória, instrumento cruel, porém ainda usado vastamente na educação britânica até os anos 40. Nas escolas tocadas pela Igreja, havia chibatadas em crianças nuas. Banhos com água fervendo ou com água no limite do gelo do inverno irlandês. Ameaça com cachorros raivosos – sim, Abu Ghraib imediatamente vem à mente. As surras eram sistemáticas e arbitrárias. As crianças ouviam seus colegas apanhando, quando não assistiam. O resultado era a criação de um ambiente de terror.

O que as crianças vítimas têm em comum é que todas estavam internadas nas escolas industriais, instituições criadas na Revolução Industrial para oferecer abrigo e proteção a crianças pobres, muitas vezes abandonadas pelos pais, outras órfãs. Eram escolas públicas, e o governo concedia à Igreja sua administração.

A segunda cobrança é a de que tenho uma mão pesada para tratar da Igreja. Que não tenho distanciamento.

Vocês sabem que sou ateu. Mas não sigo a linha Richard Dawkins – não acredito que a religião é um mal do mundo. Lembro até hoje de uma freirinha italiana que me dava aulas de religião, quando eu era criança. A irmã Gina. Ainda a vejo como a emanação da bondade – era uma figura extremamente generosa. Naquele tempo, eu devia ter uns oito ou nove anos, flertei com religião. Não deu. Sou ateu desde a pia.

Desculpe. Mesmo. Não acho que meu problema seja falta de distanciamento. Tenho total distanciamento.

Acho que a questão é outra: bons católicos sentem o ímpeto de defender sua Igreja. Essas histórias, tornadas públicas, não batem com sua imagem da Madre Igreja. E eu só posso imaginar como deve ser duro, difícil, encarar este lado negro da Igreja. O post anterior tem motivo: um cardeal britânico veio chamar pessoas como eu de sub-gente no momento em que sua Igreja, na ilha ao lado, revela um histórico recente de crueldade profunda, de desprezo completo pelo que é ser humano. Só uma completa falta de auto-crítica e nenhuma noção de timing pode levar um sujeito como ele a questionar a humanidade dos outros neste momento. Aí seu sucessor o que faz? Elogia a coragem da Igreja.

Pois esta é a Igreja que eu enxergo. A questão básica é a seguinte: sempre que um país decide investigar os porões da Igreja, descobre uma história recente igual – nela, as crianças são sempre vítimas. Não acredito que Boston, Los Angeles e Irlanda sejam casos isolados. São os casos investigados, apenas. Quem for mexer na Igreja da Itália encontrará o mesmo. Na da Espanha? Não tenho dúvidas. Também na do Brasil. Por que não tenho dúvidas? Porque sexualidade é coisa humana. Gente que decide sufocar a própria sexualidade sai de órbita. A maioria dos padres, evidentemente, arranja namorados e namoradas adultos e discretos. Mas uns e outros partem para as vítimas fáceis.

Muitos cardeais, quando abrem a boca para falar sobre os casos de abuso, dão mostras de que não perceberam sua gravidade. O papa Bento 16 diz que é lamentável, uma nódoa, e aí muda de assunto. Não é lamentável. Não é uma nódoa: é a Igreja como ela é, uma instituição que tolerou sistematicamente abusos dos piores tipos às crianças mais frágeis – quase sempre pobres – da sociedade. A Igreja, que neste pontificado é uma instituição que se julga no direito de querer ensinar amor e tolerância ao mundo, precisa urgentemente se abrir, reconhecer seus males, discuti-los publicamente, pedir desculpas e se reformar.

Mas não faz isso. Quando, pressionada por vítimas e pelo Estado em alguns lugares, só coopera com investigações depois de fazer acordos em que os nomes de seus criminosos não serão divulgados.

Perdoem: não acho que todos os padres e freiras sejam assim. Não acho sequer que a maioria deles seja assim – tenho certeza de que é uma minoria. Mas a instituição é assim. As pessoas de poder na Igreja são assim: é o que revelam em seus acordos e, invariavelmente, em seus comunicados públicos.

Atualização- Nos comentários, o Saladino dá o link para o relatório (PDF) sobre os abusos da Igreja na Irlanda.

Os ateus do cardeal, as crianças da Irlanda

05/June/2009 - 16h07 - 55 Comentarios

Em sua despedida da arquidiocese de Westminster, o cardeal católico Cormac Murphy-O’Connor disse o seguinte em entrevista à BBC:

Na minha opinião, há algo não totalmente humano naqueles que abandonam aquilo que transcende. Naqueles que deixam algo para o qual todos nós fomos feitos, a busca por um encontro transcendental que chamamos Deus. Sem isso, há uma diminuição do que é ser humano. Sem isso, você não é completamente humano.

É uma graça.

Enquanto ateus seguem subhumanos, o sucessor de O’Connor apanha. O cardeal Vincent Nichols, perante um relatório de 2.600 páginas que acusa centenas de casos de abuso sexual infantil da Igreja Católica na Irlanda, de presto observou que foi necessária muita coragem por parte dos padres para enfrentar a sujeira dentro de casa. O instintivo e natural, disse Nichols, é olhar para o outro lado.

Sobre responsabilidade, sobre a mínima obrigação evidente, nada. Trata-se de coragem. (Uma ‘coragem’, diga-se, motivada não internamente mas por centenas de denúncias.) O instinto natural dos padres é olhar para o outro lado.

Subhumanos são os ateus, aos olhos da Igreja.

Atualização importante – o primeiro crítico do novo cardeal de Westminster é outro cardeal, Diarmuid Martin, de Dublin. É um que tem as prioridades no lugar: “minha raiva está do lado das vítimas. Elas são os reais heróis, quem realmente teve coragem de vir à frente e denunciar.” Segundo Martin, o relatório final, a ser publicado este mês, chocará a todos. A Igreja irlandesa fez um acordo com o governo para permitir ampla investigação. Os responsáveis pelos atos não serão identificados, embora sejam afastados de suas funções.

Vida cotidiana na política

16/May/2009 - 14h05 - 23 Comentarios

Às vezes, políticos não conseguem disfarçar em que estão pensando.

via Attu sees all

Quanto gastam do dinheiro público
os parlamentares do Reino Unido

08/May/2009 - 00h45 - 22 Comentarios

Gordon Brown, o premiê britânico, está começando a enfrentar um escândalo por conta de seus gastos e dos de outros ministros, todos deputados do parlamento do Reino Unido.

Brown pagou a seu irmão 6.577 libras para gastos com limpeza do apartamento que têm em comum, embora Brown não more lá. Dá pouco mais de 20.000 reais em um ano. Uma deputada gastou 5.000 libras (16.000 reais) com móveis para um apartamento no qual viveu por quatro meses. Outro tomou dinheiro para pagar seus advogados; o advogado deu-lhe um desconto, que ele não repassou aos cofres públicos. Houve um terceiro que, em dois anos, mudou quatro vezes de casa e reformou-as todas. O truque: como o Parlamento se responsabiliza pelos gastos com uma moradia dos parlamentares, o esperto aproveitou-se para reformar todos seus imóveis.

Os gastos são todos legais, ao menos na letra da lei. Mas feios que só. A imprensa britânica não trata de outro assunto.

Como diz Ancelmo Góis: deve ser horrível viver num país assim.

Reino Unido à porta do FMI

15/April/2009 - 12h45 - 11 Comentarios

A Polônia é o primeiro país a requerer um empréstimo do FMI nesta nova rodada de crise econômica mundial.

Alguns analistas – dentre eles lady Margaret Thatcher em pessoa – prevêem que o Reino Unido será o próximo batendo à porta do fundo. Gordon Brown, o premiê britânico, continua a dizer que não há a mais vaga possibilidade.

Choque cultural

24/April/2006 - 15h30 - 45 Comentarios

Na Alemanha, tira-se a roupa um quê sem cerimônia. Na sauna, na praia – sempre em lugares adequados –, não se vê sensualidade, tira-se apenas, todo mundo tira.

Na Inglaterra, choca-se com pouco mas faz-se alarde de muito. Se puder salpicar um tanto de escândalo, melhor ainda.

Na Itália, vê-se tudo com malícia picante – é a cultura mediterrânea, cá sofremos do mesmo.

É por isso que quando a chanceler alemã Angela Merkel foi à praia, o tablóide londrino The Sun publicou tudo – e depois tirou do ar – e o Corriere della sera deu a notícia sem resistir ao registro discreto.