Lembrando a Alemanha comunista

12/July/2009 - 13h18 - 154 Comentarios

No segundo semestre de 1989, 20 anos atrás, uma série de acontecimentos levaram à Queda do Muro de Berlim.

A Der Spiegel está com uma mostra de fotografias do cotidiano na antiga Alemanha Oriental em sua última década de existência.

Os últimos nazistas vão à Justiça

14/April/2009 - 13h36 - 63 Comentarios

A Justiça alemã está preparando uma nova ofensiva contra criminosos do Holocausto. São cinco homens, quatro cidadãos norte-americanos nascidos na Europa e um quinto que vive na Alemanha.

O norte-americano nascido na Áustria Josias Kumpf, 83 anos, foi deportado dos EUA há algumas semanas, após ter tido sua cidadania cassada. Ele provavelmente esteve envolvido com o assassinato de 8.000 pessoas em um único dia no Campo de Concentração de Trawniki, em 1943.

Em março, o governo alemão pediu a extradição de John ‘Ivan’ Demjanjuk, de 89 anos, um ucraniano-americano suspeito de ter participado de 29.000 assassinatos. Em seu primeiro movimento, a Justiça dos EUA impediu a deportação com o argumento de que, idoso, Demjanjuk estaria frágil demais para enfrentar uma viagem intercontinental. Mais recentemente, o Departamento de Imigração dos EUA decidiu por permitir sua deportação.

A nova série de casos sendo preparados para ir à Justiça não envolve altos oficiais, mas alemães, austríacos, ucranianos, lituanos, gente que trabalhava no dia-a-dia dos campos e que participou ativamente do processo de genocídio nazista. Muitos não haviam sido julgados até hoje porque, estando tão abaixo na hierarquia, era difícil provar que não estavam apenas seguindo ordens. Em alguns casos especiais, no entanto, já há documentos o suficiente para mostrar quem se gabava de uma particular eficiência e que cumpria a missão para além das ordens.

É, possivelmente, a última chance de levar os últimos nazistas para a cadeia antes que todos morram.

O Vaticano recua perante a Alemanha

04/February/2009 - 21h01 - 105 Comentarios

A capa da principal revista alemã, Der Spiegel, dá o tom da recepção do país das últimas ações de Bento 16: ‘um papa alemão traz desgraça à Igreja’. Os alemães se perguntam: como um conhecido antissemita, um antissemita declarado, pôde conseguir o perdão papal?

O Vaticano havia declarado que o papa havia decidio e não havia mais o que fazer. Agora, sentiu a pressão e voltou atrás: o secretário de Estado cardeal Tarcisio Bertone deu ordens para que o bispo Richard Williamson peça perdão de forma ‘absoluta, inequívoca e pública’ por ter negado o Holocausto e ter elogiado o regime Nazista.

Senão, voltará à excomunhão.

A história da fundação de Israel

30/January/2009 - 00h01 - 318 Comentarios

O leitor Gustavo me recomendou este filme que segue abaixo. Tem uma hora, foi produzido pela BBC e reconta a história da fundação de Israel. As legendas para o português vêm por cortesia da comunidade de piratas CPturbo.

Para quem só conhece a história por alto, é uma excelente introdução. Programa para o fim de semana.

Faço apenas um reparo à legenda: aquilo que eles traduzem por ‘gangue inflexível’ é a Stern Gang. O erro é natural. Com pronúncia britânica, ao invés de alemã/iídiche, fica parecendo que se trata da palavra inglesa ’stern’, duro, inflexível. Trata-se da Lehi, um grupo terrorista judaico de extrema-direita que operou na Palestina britânica entre os anos 1930 e 40. Seu líder era Avraham Stern e, por isso, os ingleses apelidaram de ‘a gangue de Stern’.

A Lehi é responsável por um dos piores massacres impetrados contra os palestinos, aquele de Deir Yassin. Escrevi uma reportagem para o Estadão sobre essa história, há quase um ano.

A BBC faz um bom trabalho de distinguir o que é polêmico e o que não é na história. E esta é uma história que ninguém pode contar sem coragem. De um lado e do outro, cada um quer forçar sua versão, sua própria narrativa.

Então talvez caiba uma introdução ao filme.

Um dos temas recentes mais polêmicos é a questão daquilo que o historiador marxista israelense Ilan Pappé chamou de ‘limpeza étnica’ da Palestina. O termo limpeza étnica é extremamente carregado e remete, de imediato, a genocídio. Houve limpeza étnica na Palestina no sentido de que, no lugar onde antes morava uma enorme quantidade de árabes, sobraram muito poucos. O lugar foi limpo da etnia árabe. O que não houve foram assassinatos em massa.

Durante décadas, a história oficial de Israel contou que os árabes deixaram suas casas porque os líderes dos países árabes vizinhos deram ordens para isso. Os principais historiadores de Israel, hoje, não aceitam esta versão. Os árabes deixaram suas aldeias porque tinham medo de serem massacrados.

A história do que ocorreu em Deir Yassin, a matança sanguinária e cruel de pouco mais de 100 palestinos desarmados – velhos, mulheres, crianças – se espalhou muito rápido pela região. Em parte, era o grupo terrorista judeu Irgun fazendo sua propaganda. Em parte, eram os líderes árabes que, assim, achavam que conseguiriam mobilizar mais gente para a luta. O resultado prático é que os rumores aumentados aterrorizaram a população.

É injusto sugerir que apenas os terroristas da Irgun e da Stern Gang foram responsáveis pela limpeza étnica da Palestina. Havia consenso, na liderança da Agência Judaica, de que Israel não seria viável como país se tivesse uma população árabe muito grande. O presidente da Agência Judaica, David Ben-Gurion, aproveitou-se do fato de que os países árabes invadiram Israel, em 1948, para expulsar quantos árabes fosse possível da terra. Ben-Gurion o fez, segundo o historiador Benny Morris, sem jamais deixar uma ordem por escrito, sem sequer dar uma ordem direta. Deixava subentendido.

Mas há, nessa história, um outro lado.

Estamos em 1948. O Holocausto, com seus 6 milhões de mortos, acabou faz exatos três anos. Tudo o que a história européia está dizendo para todo judeu do mundo é: você vai morrer. Foi a Inquisição, foram os pogroms, o Holocausto nazista. A perseguição está crescendo em incrementos. No último capítulo, quase exterminou todos os judeus da Europa. A única informação que o povo judeu tem é que, da próxima, não sobrará ninguém. A maioria dos países do mundo, neste instante, se recusam a receber refugiados judeus da Europa. E ninguém quer voltar para a Polônia, para a Tchecoslováquia, para a Alemanha, para a Holanda. Ninguém quer ver mais aqueles lugares, aqueles vizinhos que os entregaram. Querem botar o pesadelo para trás tendo perdido quase toda família.

O que estes refugiados querem? Um país. Ninguém os defendeu durante a Segunda Guerra. A não ser que tenham um país seu e um exército seu, ninguém os defenderá. E toda história passada confirma esta interpretação. Que país querem? O seu país. Aquele do qual foram expulsos séculos de perseguições atrás. É a ONU que lhes concede este país.

E o que dizem os árabes à volta? Que vão afogar todos os judeus no Mediterrâneo.

Em 1948, se você é judeu, se alguém diz que pretende afogar a você e aos seus no Mediterrâneo, você não tem dúvidas de que a ameaça é real. Talvez estivessem certos. É bem possível que a guerra de independência de Israel terminaria com uma limpeza étnica ou com outra. Alguém seria expulso daquelas terras. Talvez, se a vitória fosse árabe, houvesse muito mais sangue. Mas não foi o que aconteceu.

Muitos aqui, em nossas constantes discussões, deixam claro que acreditam que a história é um processo que se dá pelos conflitos entre grupos sociais. Eu acredito que grandes líderes fazem grande diferença. O que aconteceu em 1948 é que Israel tinha David Ben-Gurion e os palestinos não tinham ninguém em seu nível. Ben-Gurion entendeu política e militarmente cada momento daquela disputa. Tomou decisões difíceis, se adiantou quando era necessário, usou grupos terroristas por um tempo e os desmantelou logo que possível, soube manter seu povo unido, inspirou. Criou Israel. Fez Israel crescer e se tornar um país formidável. Sem petróleo, é talvez a nação mais avançada do Oriente Médio.

Os líderes árabes estavam divididos, mais preocupados com apunhalarem-se pelas costas e faturarem o território que, tinham certeza, ganhariam. Eram incompetentes. Muitos eram covardes: tinham medo da população e viviam por tentar seduzir o povo com bravatas. Quase nenhum deles durou muito no governo. Os palestinos jamais tiveram um grande líder. Yasser Arafat teve a chance de sê-lo, mas não chegou a tanto.

É evidente que a história não se resume a Israel tinha Ben-Gurion e os palestinos, não. Mas Israel tinha Ben-Gurion e o povo trazia consigo uma gana tremenda por sobreviver não importa o quê. Para os palestinos, foi a catástrofe. Foram expulsos de suas casas. Muito tempo se passou. Compreender 1948 é importante. A paz, no entanto, só será construída quando todos forem capaz de deixar 1948 para trás.

Atualização – Uma versão anterior deste post afirmava que o mufti de Jerusalém, Haj Muhammed Amin al-Husseini, fora morto em batalha. A informação estava errada. Al-Hussseini morreu no Líbano, em 1974.

Joschka Fischer e sua União Européia ideal
entre EUA, Rússia, G20 e o mundo que muda

18/November/2008 - 09h44 - 18 Comentarios

O El País de hoje publica uma entrevista com o ex-chanceler alemão Joschka Fischer, um dos mais influentes políticos europeus. Fischer é um dos proponentes da idéia de que a União Européia deve ser fortalecida para que a Europa continue a ter influência, no futuro.

Como vê a UE em meio à tormenta financeira? E a Comissão Européia?

Precisamos fazer referência ao euro. Não entendo porque os líderes europeus não são mais agressivos em sublinhar para a opinião pública a importância do euro e do Banco Central. Onde estaríamos agora sem eles? Este é o maior bem que temos e esta é a hora de convencer os europeus do que é a UE: nossa força, nossa proteção, nosso interesse, nossa voz comum no mundo de amanhã. O que vimos no sábado em Washington foi histórico. O G8 é o passado. O G20 é o futuro. Nosso futuro é a Europa, mas a Europa vai mal. Perdemos a constituição. O Tratado de Lisboa está no limbo. Os EUA elegeram o futuro, sabem se reinventar perante suas piores crises. A Europa está no caminho contrário.

O Tratado de Lisboa tinha por objetivo aumentar a relevância política da União Européia. O Parlamento teria mais poderes, entre outras questões, ampliando a importância da União em detrimento das nações individuais. O Tratado entraria em vigor no primeiro de janeiro próximo após, este ano, ser ratificado pelos eleitores em todo o continente. República Checa e Suécia ainda devem votar por sua aceitação. Em junho, os irlandeses o rejeitaram, bloqueando todo o processo.

Cada vez mais pensamos em todo o processo como nações. E a Comissão Européia é fraca. Seu presidente é ainda mais fraco. E sua fraqueza será premiada com outro mandato. É preocupante porque o mundo está mudando muito rápido. É este o momento de decidir. A Europa, dividida e fraca, corre o risco de terminar sendo um lugar agradável para viver e visitar, mas sem qualquer influência no mundo de amanhã.

A Europa também aparece dividida perante a Rússia, principalmente após a crise na Geórgia. Por um lado, os defensores de uma atitude mais dura, por outro os que propõem uma saída pelo diálogo.

Sempre teremos interesses distintos. Internamente, os EUA também têm impulsos diferentes. Mas, no fim do processo, falam com uma só voz. Alemanha, Itália, França e Reino Unido têm interesses importantes na Rússia. É claro que não podemos aceitar que a Rússia volte à dinâmica imperialista que um dia teve. Mas o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili deu a Putin uma oportunidade de ouro. Antes, Sarkozy e Merkel fizeram bem em bloquear a adesão da Geórgia à OTAN. Não estava madura. Para o futuro, a melhor resposta ao desafio russo é a formação de um mercado de gás europeu plenamente integrado. E o desenvolvimento de um fórum de política energética. Juntos, temos interesses comuns. Só desta forma podemos impedir que a Rússia jogue uma partida de divide et impera.

Independência do Kosovo. Ampliação da OTAN. Escudo antimísseis. Você crê…

[Interrompe.] O Kosovo é idferente. Conheço a posição espanhola. Mas o Kosovo é outro assunto, não o misturaria com o escudo etc.

Fischer está falando a um jornal espanhol – por isso sua informação. A Espanha viu e vê com maus olhos qualquer movimento separatista por conta de suas questões com os bascos.

Mas todos esses itens são percebidos como provocações pela Rússia.

Não. Não. O Kosovo não foi uma provocação. O Kosovo foi o resultado das ações de Milosevic.

E o escudo? E a ampliação?

Essas são políticas dos EUA. O Kosovo é fruto de um amplo debate internacional que deu uma resposta realista a um problema. A Rússia interpretou a independência como uma provocação de uma forma míope, burra. E sejamos claros: o escudo antimísseis também é uma política míope.

Fischer é um homem ouvido e respeitado – mas não tem mais poder. Atualmente, presta serviços à empresa de consultoria da ex-secretária de Estado dos EUA Madeleine Allbright. Persiste sendo um dos políticos mais populares da Alemanha. É a melhor voz para se ouvir o que pensam os melhores dentre os defensores do Projeto Europeu. Ele imagina uma UE que não tem qualquer animosidade em relação aos EUA mas que age de forma independente, de acordo com seus interesses. Tem uma visão aguda de como funciona a geopolítica.

Kosovo valeu a pena? Pergunte à Ucrânia,
à Geórgia ou à Moldávia

01/September/2008 - 14h09 - 57 Comentarios

Kosovo é uma história de crise, informa na Newsweek a professora Ruth Wedgwood. Entre os jovens, o desemprego é de 60%. O medo é de que, estando no coração do Leste Europeu, busquem se dedicar ao tráfico de drogas, armas ou mulheres, criando um centro de ilegalidade no continente. Ou, então, esperam um êxodo para a Itália, Suíça ou Alemanha.

O jovem país não tem juízes, policiais ou quem cuide da alfândega. Não tem exército que o proteja (a OTAN mantém tropas lá). Não tem eletricidade – todo dia a luz cai. Não tem estradas que escoe a produção agrícola ainda inexistente de uma terra fértil. (Em cinco anos, espera-se, uma grande rodovia para a Albânia. Mas essa não é a melhor rota de escoamento.) Não é reconhecido pela ONU, e nem o será enquanto a Rússia mantiver o veto. Bósnia, Grécia, Macedônia, Montenegro, Romênia, Eslováquia e Geórgia são os vizinhos imediatos que não reconhecem sua independência.

Não estão sozinhos: apenas 45 países reconheceram o Kosovo, afinal ninguém busca uma zona de desgaste gratuita com a Rússia. O resultado é que, com seu passaporte, kosovares só têm 45 países no mundo com os quais fazer negócios ou visitar. Estão isolados e nada indica que algo mudará.

Incentivar a independência do Kosovo valeu a pena? Agora a Rússia quer o direito de independência para a Ossétia do Sul, na Geórgia. Nada como uma boa desculpa e, diz o professor Otto Luchterhandt, Ucrânia e Moldávia estão preocupadas. Semana passada, o presidente russo Dmitry Medvedev informou ao presidente da Moldávia Vladimir Voronin que não aconselhável que seu país tentasse impor autoridade sobre o estado da Transnistria. Qualquer estado rebelado terá o apoio da Rússia. Convém que os ucranianos tampouco pensem na Criméia como sua.

Melhor que energia nuclear: economia

08/July/2008 - 07h15 - 62 Comentarios

Não raro, recentemente, mais especialistas vêm defendendo o uso de energia nuclear. É mais limpa que os combustíveis fósseis e as usinas são mais seguras. No El País, o ex-ministro do meio ambiente alemão Jürgen Trittin vai contra.

Desde finais dos anos 70, ele diz, só foi construída uma usina nuclear na Europa, ao passo que cinco foram fechadas. Elas são responsáveis por 3% da energia do continente. Não é só por uma questão de segurança: o quilowatt nuclear é caro, mesmo com o preço do petróleo nos píncaros. Seria, portanto, preciso subsidiá-la.

O caminho, ele argumenta, não é este. Os que os europeus precisam fazer é enfrentar o fato de que importam 75% de sua energia. Precisam, portanto, economizá-la. Sai mais barato, coisa aconselhável em tempos de crise, e é melhor para o ambiente. É sua receita, aliás, para o mundo todo. Na Alemanha, a regulamentação para as construção de casas é rigorosa. Devem ter, por exemplo, isolamento térmico, que economiza na refrigeração ou no aquecimento do ambiente. É uma obra que se paga na conta de luz. O carro, evidentemente, deve ficar em casa de vez em quando.

Trittin defende que, se é para gastar dinheiro, os governos devem esquecer o nuclear e investir em projetos de economia energética, incluindo-se subsídios e incentivos fiscais para obras. É boa política econômica e ecológica.

O mundo em busca de reformas

06/July/2008 - 12h05 - 57 Comentarios

Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.

E o planeta não poderia estar mais diferente.

Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.

As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:

Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.

A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.

Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.

A costura diplomática entre Irã, EUA e Europa

04/July/2008 - 09h18 - 45 Comentarios

Há definitivamente tensão no ar por conta da possibilidade de um ataque ao Irã. Esta semana, em vários pontos do mundo, distintos esforços diplomáticos saíram à tona veladamente na imprensa.

Na edição de semana passada da revista The New Yorker, o decano dos repórteres investigativos Seymour Hersh publicou um longo texto a respeito dos conflitos internos entre Casa Branca e Congresso, nos EUA.

Segundo Hersh, a liderança democrata e republicana, no Congresso, autorizou o financiamento de operações secretas dentro do Irã por parte da CIA e das Forças Armadas. Em geral isso quer dizer dar dinheiro e treinar forças de oposição. Há receio, no entanto, de que estas atividades estejam indo além.

Um dos que manifestam preocupação é o secretário de Defesa Robert Gates. Falando numa reunião privada a senadores, Gates disse que se houver ataque ‘vamos criar gerações de jihadistas e nossos netos vão lutar contra esses inimigos aqui nos EUA’. Perguntaram-lhe se ele falava em nome do presidente Bush ou do vice, Dick Cheney. ‘Digamos que falo apenas em meu nome.’ Sim, o ministro de Bush é contra os aparentes esforços da Casa Branca de atacar o Irã. Hersh diz ainda que a resistência entre os generais também é muito grande. Mas que a pressão por um ataque continua.

Ali Ettefagh, um financista iraniano que mora entre Irã e Europa, analisa assim a situação: ‘Estes são vazamentos propositais vindos direto do escritório do vice-presidente para Seymour Hersh. É um jogo psicológico, uma onda cíclica de noticiário intenso contra o Irã que demonstra a falta de boa vontade do governo norte-americano. Essas notícias de operações secretas chegam para desestabilizar o Irã no momento em que o grupo 5+ 1 (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia) fazem uma oferta de acordo para resolver a questão nuclear. O Irã não deve se permitir confundir pelo jogo.’

Segundo Ettefagh, sempre que algum tipo de acordo está sendo seriamente discutido, vaza na imprensa dos EUA alguma notícia que afasta o Irã das mesas de negociação. O Irã fica parecendo o vilão. Talvez. Aí, passam-se uns dias, o presidente Bush vem deixar claro que nada disso está acontecendo e que a solução que seu país busca é diplomática. Exatamente como aconteceu esta semana. A questão, porém, é mais complexa.

Mesmo quando nós jornalistas não percebamos o jogo – e, muitas vezes, não percebemos mesmo que estamos sendo usados – diplomatas percebem. Sabem exatamente o que acontece, tanto no Irã quanto fora. O desconforto com o governo iraniano é grande. O presidente Mahmoud Ahmadinejad fala demais e não tem qualquer vontade de diplomacia. É um incendiário. E é por isso que uma carta publicada ontem no jornal francês Liberatión é particularmente importante.

No ano passado, o presidente francês Nicolas Sarkozy procurou ser recebido pelo aiatolá supremo Ali Khamenei. Para negociar em que condições tal encontro poderia ocorrer, o velho aiatolá ordenou que seu braço direito, Ali Akbar Velayati, fosse à França. Velayati então procurou o presidente Mahmoud Ahmadinejad para informá-lo da missão numa visita de cortesia. Ahmadinejad deixou-o esperando por horas madrugada adentro até recebê-lo e foi rude. Então, o presidente do Irã escreveu uma carta a Sarkozy chamando seu par francês de ‘jovem e inexperiente’ e fazendo ameaças veladas. O fato de que Sarkozy é cinco meses mais velho do que Ahmadinejad é irrelevante. A conversa foi abortada antes de ser negociada.

A carta publicada no Liberatión é de Velayati. Parece que veio do nada. Responde, naquele tom floreado da prosa persa, a uma pergunta jamais feita. ‘Apesar de seu vasto poder, o líder supremo só intervém em casos muito importantes, deixando a maior parte das questões para os responsáveis pelo Estado. Ao receber dignitários e líderes de outros países, ao se comunicar com eles, o líder dá mostras de sua presença crucial na diplomacia iraniana.’

Quer dizer que, no ano passado, Ahmadinejad cruzou uma linha de poder interno que não deveria ter cruzado. Foi um recado para o governo francês: desculpem a grosseria do rapaz, aqui em casa quem manda ainda é o velho.

Não é dizer, de forma alguma, que Sarkozy e Khamenei estejam prontos para se encontrar na semana que vem. O encontro talvez jamais aconteça. Mas Khamenei acaba de desautorizar o presidente Ahmadinejad perante a França. É a maneira iraniana de usar a imprensa em sua diplomacia. Seu objetivo é botar panos quentes.

Neville Chamberlain, o Tratado de Munique,
Mahmoud Ahmadinejad, o Irã e o Hamas

16/May/2008 - 15h49 - 86 Comentarios

Em 1990, Mike Goodwin estabeleceu o princípio reductio ad Hitlerum na Internet: ‘conforme uma discussão na rede se estende, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de 1′. É a Lei de Goodwin. Os ânimos se exaltam e alguém terminará chamando o outro de Hitler. Na política do belicismo, relembrar 1939 é também um argumento sempre levantado – e George W. Bush não foi o primeiro, tampouco será o último a fazê-lo.

O argumento segue assim, sucintamente: o inimigo é muito perigoso, buscar conversa é coisa para ingênuos, é repetir o que lord Chamberlain fez com Hitler. Um, por assim dizer, reductio ad Chamerlainum.

O argumento, como cabe aos argumentos simplistas, além de hiperbólico é falacioso. Neville Chamberlain, o premiê britânico anterior a Churchill que o Partido Conservador gostaria de esquecer, de fato é responsabilizado por não ter sido agressivo o suficiente durante os anos 30 perante a Alemanha Nazista. Mas seu pecado não foi conversar, tampouco o de fazer diplomacia.

Seu pecado foi, em 1938, assinar o Tratado de Munique.

Como Hitler já demonstrava desejos imperiais, Chamberlain concordou em permitir que a Alemanha anexasse metade da Tchecoslováquia em troca de ele se restringir a isto. Bem – entregar um país de bandeja não adiantou de nada.

O problema não foi diplomacia: foi entregar um país em troca de uma vaga promessa de paz.

A comparação entre o Irã e a Alemanha Nazista (ou o Hamas e o Partido Nazista) não é inadequada apenas por conta disto. É inadequada também porque a Alemanha era, provavelmente, a maior potência militar de seu tempo. A relação diplomática se dava com um inimigo que, se quisesse, tinha chances concretas de conquistar a Europa inteira. (Como, aliás, quase fez.) O Irã não chega sequer perto. E para o Hamas, coitado, até a conquista da Cisjordânia parece ambicioso demais.

Isto não quer dizer que Irã e Hamas não tenham algum potencial de destruição. Numa região em crise, como é o caso do Oriente Médio, só há dois caminhos. O da guerra ou o da diplomacia. Sentar à mesa não quer dizer que os EUA estejam dispostos a entregar uma parte do Iraque ao Irã, por exemplo. Sentar à mesa quer dizer apenas que se pretende evitar a continuidade da guerra ou o risco de outras guerras.

Como Yitzhac Rabin disse, e o Elias costuma repetir cá nos comentários do Weblog, negociação se faz é com inimigos, mesmo. Com os amigos, ela não é necessária.

‘A Alemanha se curva perante Israel’

18/March/2008 - 15h44 - 256 Comentarios

Estar perante vocês é uma grande honra. O Holocausto enche a nós, alemães, de vergonha. Me curvo perante as vítimas. Me curvo perante os sobreviventes e todos aqueles que os ajudaram a sobreviver.

Este ano, Israel celebra seus 60 anos. São 60 anos lutando pela paz, 60 anos da construção de um país, 60 anos absorvendo imigrantes. Como já disse mais de uma vez, a Alemanha aprova a idéia de dois Estados com fronteiras pacíficas. A nação judaica de Israel e a nação palestina de nome Palestina. Temos consciência de que isto exigirá força e concessões dolorosas. Estabilidade na região não interessa apenas a vocês. Estabilidade também afeta a Alemanha e a Europa.

Não cabe ao mundo provar que o Irã busca uma arma nuclear. É ao Irã que cabe provar que não procura. Se o Irã não aceitar isto, a Alemanha apoiará novas sanções. Se o Irã obtiver armas nucleares, as conseqüências seriam perigosas.

É aqui, neste lugar, que quero enfatizar: todo governo alemão e todo chanceler anterior a mim teve um compromisso especial, uma responsabilidade particular alemã, pela segurança de Israel. Esta responsabilidade histórica é parte da política de meu país. Isto quer dizer que para mim, como chanceler da Alemanha, não há negociação possível que comprometa a segurança de Israel.

Angela Merkel, chanceler alemã, agora há pouco, no Knesset. É a primeira governante alemã a discursar perante o parlamento de Israel.

A Europa, o Holocausto e a cegueira

18/February/2008 - 10h02 - 293 Comentarios

Não se consegue pensar a sério o holocausto porque isso implica mexer na história de todos os países. A Alemanha ficou com as culpas todas; o anti-semitismo passou a ser sinónimo de Alemanha. Mas na verdade o anti-semitismo era de toda a Europa. Toda. Era uma espécie de anti-americanismo, mas a sério; do que mata. E todos os países - todos (talvez a Dinamarca escape) – colaboraram com os nazis neste particular. Sarko quer ensinar aos miúdos franceses o holocausto feito pelos alemães maus. Pois, que jeito dá Hitler: assim Vichy fica convenientemente debaixo do tapete. Ao lado, os austríacos criminalizam quem nega o Holocausto, mas a Áustria nunca assumiu nada, nunca pediu desculpas. Sim, a Áustria foi um aliado (melhor, um anexo) completo e consciente da Alemanha nazi. A Áustria, tal como a Alemanha, quis o Holocausto (um 1/3 dos guardas dos campos eram austríacos; aquele tipo do bigode, by the way, era austríaco). A Áustria mete na prisão um idiota que nega o Holocausto, mas continua a vender banha da cobra, continua a dizer que foi a primeira vítima dos alemães. Coitadinhos dos austríacos.

Mais noBlogue Atlântico.

E quem afinal está certo na
Guerra Civil Espanhola?

22/November/2007 - 05h54 - 98 Comentarios

Boa a discussão aí abaixo esta a respeito da Guerra Civil Espanhola. E como é polarizado este tempo em que vivemos: dê um assunto e, rapidamente, dois bandos se formam sem vontade de ceder um palmo de terreno ao adversário. Não faz muito tempo, dizia-se que esquerda e direita eram conceitos ultrapassados. Aí, de repente, duas visões absolutamente distintas da história recente e da ética que deve nos conduzir em sociedade estão sob a mesa.

E qual será a correta?

No caso espanhol, há um livro precioso do ensaísta Juan Eslava Galán. Chama-se Una historia de la guerra civil que no va a gustar a nadie; Isto mesmo: Uma história da guerra civil da qual ninguém gostará. A sua versão, fascinante, é uma na qual só há vilões e incompetentes.

Espanha, 1931. Um país agrário quase falido, pobre, com alto índice de analfabetismo, 24 milhões de habitantes. Crise. O Partido Republicano vence as eleições municipais em todas as grandes capitais. Temendo um golpe, o rei Alfonso 13 parte para o exílio. No vácuo do poder, os vencedores das eleições vão às ruas e nasce a Segunda República. Tinham um projeto de modernização: reforma agrária em primeiro lugar. A terra era má gerida, fazendas falidas existiam às pencas. Daí, a reforma do exército, incompetente e corrupto, com mais caciques do que índios, que havia sofrido derrotas no Marrocos. Na seqüência, a reforma da Igreja, que tinha o monopólio da educação e das cerimônias civis e sempre arranjava um jeito de se meter mais nas coisas do Estado. Por fim, descentralização e autonomia para Catalunha, País Basco, Valência, Galícia, verdadeiros países dentro do país, com língua e cultura próprias, que há muito cobravam alguma liberdade.

Nada é tão simples. Latifundiários, Exército e Igreja tinham problemas evidentes com o plano. Não só eles. Comunistas – que não eram muitos – e anarquistas – uma multidão forte e com poder sindical para emperrar qualquer governo – acusavam os republicanos de planejarem um Estado burguês.

Em janeiro de 1936, a Frente Popular – um pacote desigual de agremiações de esquerda menos os anarquistas – vence a CEDA, coligação de direita da qual só não participou a Falange Española. Eleição apertada à beça, 4,6 milhões de votos contra 4,5 milhões. O país em crise agora era também o país rachado em dois. Temendo um golpe, o presidente Manuel Azaña manda para longe os generais mais perigosos, Francisco Franco entre eles. Foi para as Canárias. Mas a conjuração vem. Apóiam os militares golpistas: monarquistas, latifundiários, industrialistas, banqueiros e a Igreja. Enquanto isso, a maioria parlamentar não adianta de nada que os partidos de esquerda não se entendem.

No dia 12 de julho, o deputado socialista José Castillo é assassinado por militantes de direita; no dia seguinte, o monarquista líder conservador no Parlamento, José Calvo Sotelo, é assassinado em represália por um militante socialista.

Os militares se aquartelam e o governo reage: ‘Ficam desde já licenciados os soldados cujos quadros de comando se levantam contra a legalidade republicana.’ Mas alguém pergunta: se o exército sai todo de licença, quem defende a República?

Em Barcelona, defendem-na os anarquistas; em Valência, gente leal ao governo. Madri não cai perante o golpe. Esta turma são os Republicanos. Terão, durante a Guerra, o apoio da União Soviética, do México, da Internacional Socialista e de militantes anti-fascistas de 53 países, incluindo uma penca de norte-americanos que formam a célebre Brigada Abraham Lincoln, que inclui o escritor Ernest Hemingway.

Mas o país racha. No lado Nacionalista, está o exército, a Igreja, a Alemanha Nazista, Portugal e, alguns meses mais tarde, a Itália Fascista, e estes dominam a Galícia, metade de Castela e Aragão, Andaluzia, Mallorca e Ibiza. Os golpistas comandam território com 10,5 milhões de habitantes. Mas o governo legal tem as regiões industriais e mineradoras. Tem também quase toda frota aérea e naval.

A Inglaterra fica neutra – ’se fascistas e bolchevistas querem se matar, que o façam’.

Não fora o apoio alemão, o jogo militar estaria decidido. Ou quase. Os comunistas se debatem se é melhor ficar fiel ao lado republicano ou se o ideal não seria partir para a Revolução. Internamente, trotskistas e stalinistas não se entendem. Por sua vez, os anarquistas não querem saber de comunistas. Socialistas acham todos radicais demais. E, desesperados por união em suas forças, os republicanos de centro no governo formal que já não governa de todo buscam um entendimento impossível.

Em meio a tanto ódio, a matança. No lado Republicano do território, grupos de militantes vão às ruas. Vizinhos denunciam quem é de direita. Detenções, tortura, fuzilamentos. Fraco, o governo tenta impor ordem. Quer impedir a violência, a matança, decretos são publicados e ignorados. Na Catalunha, em 1937, anarquistas e comunistas chegam a travar uma grande batalha pelo comando de Barcelona entre si. Do lado Nacionalista, falangistas vão a cada pequena aldeia e batem na porta da Igreja. Perguntam ao padre quem é sindicalizado, os padres têm a lista já completa. São os delatores. Os falangistas juntam todos – prendem, torturam, fuzilam. Raivas acirradas por anos vêm à tona. Gente tenta se bandear para o lado onde viverá em segurança, famílias são separadas.

Os números da Guerra Civil Espanhola são controversos mas a violência e a brutalidade vieram de ambos os lados. Atualmente, o governo reconhece uma estimativa de 500.000 vítimas. Um quarto vítimas dos Republicanos, três quartos dos vencedores Nacionalistas. (Mas há quem conteste esta proporção e não há documento que sustente com segurança um lado ou o outro.) Em fevereiro de 1939, Inglaterra e França reconheceram o governo de Francisco Franco, encerrando a guerra oficialmente. Mas, aí, a Alemanha invadiu a Polônia e essa já é outra história.

Atualização – fiz uma mudança no número de vítimas; quando, no ano passado, a Guerra completou 70 anos, o El Mundo publicou um especial na web com os rostos de quem lutou nas diversas frentes.

O mundo visto por olhos turcos

31/October/2007 - 10h56 - 66 Comentarios

Não custa fazer um exercício e olhar o mundo como um turco o vê – e é duro ser turco. Há um século, a Turquia comandava um império. Hoje, não sobrou-lhe sequer aquilo que sobrou para os outros poderes imperiais fracassados. A Turquia não é um Reino Unido ou uma França: tem problemas de terceiro mundo.

Mas estas são águas passadas. O presente não é mais simples: há nítidos esforços para estruturar uma democracia e uma economia fortes. Na Alemanha e na França, no entanto, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy fazem o possível para que seu país não entre na União Européia. Desconfiam que você é oriental demais e, isto não dizem com todas as palavras, também que você é muçulmano demais. Enquanto isso, em uma de suas fronteiras mais delicadas, iraquianos ficam matando seus soldados a torto e a direito. Seu principal aliado o que faz a respeito? Os EUA passam semanas discutindo se vão fazer uma reprimenda formal por conta de um genocídio que você cometeu quase um século atrás.

Do ponto de vista turco, o que resta fazer?

Num país no limite entre ocidente e oriente, se o ocidente dá as costas, resta olhar para os vizinhos orientais. Estes são parceiros antigos – milenares, diga-se. Todos por ali já eram grandes civilizações antes de os europeus erguerem sua primeira aldeia. Tradição é isso, o resto é piada. E, por vizinhos entenda-se, Irã e Síria. Se são inimigos dos principais aliados turcos no ocidente? O ocidente não tem ajudado muito – e não faltou esforço da parte turca.

Este movimento em direção ao oriente não começou esta semana, e a Newsweek o mostra. Há dez anos, a Turquia ameaçava invadir a Síria acusando-a de acobertar as operações do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdo que hoje esconde-se no Iraque. De lá para cá, turcos são os maiores empreendedores na Síria, tendo construído o maior estádio de futebol do país e o novo e gigantesco shopping center em Damasco. Quando Israel invadiu o espaço aéreo sírio há uns meses, o governo turco de imediato apresentou seu protesto diplomático. Bashar Assad, o ditador sírio, acaba de voltar da capital turca. Esteve em Ankara para uma visita oficial.

Comoo Irã, um negócio de extração de gás natural por empresas turcas que vale 3,5 bilhões de dólares está quase fechado. O serviço de inteligência persa está colaborando com os turcos na luta contra o terrorismo curdo. A Turquia se recusa a censurar oficialmente o Irã por conta de seus desejos nucleares. Diplomaticamente, limita-se a manter o canal de diálogo aberto numa tentativa de persuadir o governo iraniano a obedecer a ONU. (O que, do ponto de vista estritamente oficial, o Irã faz.)

Hoje, a Turquia está lá e cá. É um dos maiores poderes regionais. Se não encontrar apoio no Ocidente, sozinha não ficará.

Turquia, curdos, Iraque e como uma
situação difícil pode piorar

22/October/2007 - 13h22 - 99 Comentarios

O PKK – Partido Curdo dos Trabalhadores – é um problema. O grupo – considerado terrorista por EUA, OTAN e União Européia – havia declarado um cessar-fogo em setembro de 2006, mas rompeu-o em setembro deste ano, abrindo fogo contra um ônibus na fronteira entre Turquia e Iraque. Mataram 13 pessoas, dentre eles sete soldados turcos e uma criança. No início de outubro, mais um ataque, mas 13 vítimas – desta vez, todos soldados.

A resposta do parlamento turco foi autorizar por esmagadora maioria o país a invadir o Iraque para responder à provocação do PKK. Ontem, o terceiro ataque: 12 soldados mortos, sete desaparecidos.

A ação remete à tática do Hezbollah contra Israel, há um ano. Na época, o misto de partido com grupo terrorista provocou o quanto pode até que Israel decidiu por invadir o Líbano, criando um desastre humanitário e militar no qual não houve vitoriosos que não o Hezbollah que conseguiu exatamente o que mais queria: incitar ódio a Israel em sua região de domínio.

Fundado nos anos 1970, originalmente de influência comunista, o PKK abandonou as origens marxistas para se aproximar do movimento islâmico nacionalista local após a queda da União Soviética. A região onde moram os curdos inclui Turquia, Irã, Síria e Iraque. Eles têm um projeto nacionalista não diferente do basco ou do irlandês. Por isso, embora taticamente se aproxime do Hezbollah, o PKK não pode ser comparado de todo. Ele mais se aproxima do ETA ou do IRA. Há um projeto nacional claro, dividido por alguns curdos, mas não por todos.

A Turquia provavelmente só perde para o Irã em sua longa história nacional. De Bizâncio ao Império Otomano, tem tradição nacionalista de fôlego – e orgulho. Isto impõe armadilhas e benefícios para políticos. É fácil disparar o apelo patriótico, o povo responde. Neste momento, há uma sensação de desânimo quanto ao projeto europeu – a União Européia deixa claro que gosta cada vez menos da idéia do país em suas fileiras. Por outro lado, há a vergonha do genocídio armênio, no início do século. O Congresso dos EUA quer passar, agora em novembro, uma resolução simbólica que estabelece o governo turco como culpado.

É culpado mesmo. A vocação turca é imperialista e, como todo imperialista, vez por outra marca sua história com um episódio de brutalidade ímpar. França, Inglaterra, Espanha, Portugal, Alemanha – todos são países que convivem bem com a mesma descrição. A diferença é que França, Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha fizeram em algum ponto de suas histórias recentes, ainda que, em alguns casos, parcialmente, um mea culpa. A Turquia jamais reconheceu o assassinato de algo entre centenas de milhares e 1,5 milhão de armênios. (O número depende da fonte.)

Não é agora que vai reconhecer, certamente. No momento em que o Congresso dos EUA passarem a condenação simbólica por algo que aconteceu entre 1915 e 17, o governo turco se sentirá ainda mais pressionado a agir. O resultado poderá ser uma invasão ao Iraque.

Nos EUA há plena separação de poderes e o Congresso faz o que bem quiser. Com um longo histórico de ignorar o Legislativo sempre que pode, o presidente George W. Bush não tem como pressionar para que a história seja abafada. Ainda assim, deveria tentar. Mas não há registro de telefonema que tenha feito neste sentido à Speaker of the House – equivalente a Presidente da Câmara – Nancy Pelosi.

Enquanto esta novela continua, o Iraque está numa situação delicada. Precisa do apoio turco. É um vizinho importante, pode servir de contra-balanço à pressão de Síria e Irã e, além do mais, o problema do separatismo curdo é também iraquiano. Mas se a Turquia invadir, o presidente Jalal Talabani – ele próprio, curdo – terá poucas escolhas. Terá de agir como se estivesse em guerra perante a invasão de seu território nacional, rompendo relações diplomáticas. Fará isso exatamente como fizeram os libaneses. Será uma guerra simbólica e humilhante que enfraquecerá ainda mais seu governo que mal tem condições de sobreviver à guerra civil que já vive.

Diferentemente do governo israelense, o governo turco parece compreender o jogo perigoso e sem chances de vitória real no qual está sendo convidado a entrar. Jogar para o público é fácil. Mas quem joga para o público com bravatas pode terminar incendiando ainda mais uma situação já fora de controle.

Muçulmanos dos EUA e os da Europa

21/September/2007 - 05h35 - 21 Comentarios

Seis anos após o Onze de Setembro, os EUA e seus imigrantes muçulmanos parecem se dar, surpreendentemente, muito bem. Se relacionam, encontram interesses comuns e, às vezes parece, aqueles dentre os imigrantes mais recentes tentam provarem-se os melhores dentre os cidadãos norte-americanos.

A maioria dos imigrantes muçulmanos chegaram em meados dos anos 1970 vindos do sudeste asiático, Irã, Afeganistão, países árabes, Europa e África. São eles os responsáveis pela imagem do Islã no país. Estima-se que são algo entre 3 e 7 milhões, ninguém sabe exatamente quantos, pois nos EUA o censo não pergunta por religião e as mesquitas não fazem pesquisas internas, como é hábito das igrejas.

A maioria deles se adaptou rapidamente, dispostos a se transformarem em cidadãos modelo. Diferentemente de outras minorias – como chineses e italianos – os muçulmanos não se isolam em bairros distintos nas cidades e tendem a se misturar. São discretos, trabalhadores e, a partir do momento em que têm o asilo garantido, ficam no país, dedicados a fazer dinheiro. Querem que seus filhos tenham uma vida melhor, que estudem, que se formem para que sejam advogados, médicos, professores. Não se interessavam por política. Aí, veio o Onze de Setembro.

Houve de tudo, relembra a Der Spiegel em sua interessante reportagem. Crimes de ódio, deportações – foi um período tumultuado para a comunidade islâmica dos EUA. Eles se organizaram politicamente, fizeram-se ouvir. O Congresso dos EUA se interessou: ofereceu bolsas para estagiários muçulmanos – e a prática se estendeu por todos os níveis da administração.

Os islâmicos tendiam ao conservadorismo e, em grande parte, votavam no Partido Republicano. Isto mudou.

Mais de metade dos muçulmanos dos EUA nasceram fora do país – e, no entanto, não há, lá, conflitos como aqueles entre muçulmanos e europeus. Diferentemente do caso do Velho Continente, onde os grupos são mais ou menos monolíticos – argelinos na França ou turcos na Alemanha, por exemplo – os muçulmanos dos EUA têm origens mais diversificadas.

O que os une é o bom convívio com o país que adotaram.

via Arts & letters daily

Uma entrevista aos sábados

01/September/2007 - 05h02 - 43 Comentarios

O motivo inicial para ter entrado no Projeto Manhattan foi que os alemães eram perigosos e esta convicção me lançou num ritmo de ação concentrada para desenvolver este sistema primeiro em Princeton, depois em Los Alamos, pra fazer com que a Bomba funcionasse. Tentamos redesenhar o negócio várias vezes para piorar a bomba. Mas o que eu fiz, imoralmente, foi esquecer o motivo que tinha me colocado nisso. Então, quando a Alemanha foi derrotada, jamais passou pela minha cabeça que isto queria dizer que eu deveria reconsiderar este trabalho. Simplesmente não pensei nisso, ok?

A única reação de que lembro – talvez eu estivesse cego pela minha própria reação – era um estado de excitação porque havia festas e bebíamos muito e isso fazia um contraste brutalmente interessante entre o que rolava em Los Alamos e aquilo que acontecia em Hiroshima. Eu estava ali no meio daquela coisa feliz e bebendo e batendo meus tambores, andando de jipe e batendo mais os tambores e correndo por toda parte em Los Alamos e ao mesmo tempo as pessoas estavam morrendo em Hiroshima.

Tive uma reação muito forte depois da guerra, talvez só pela bomba ou talvez por causa de outros motivos psicológicos, minha mulher tinha acabado de morrer, mas lembro de estar em Nova York com minha mãe, num restaurante, e isto era imediatamente depois de Hiroshima, e eu pensava sobre Nova York e eu sabia o tamanho da bomba, o tamanho da área que ela atingia, e pensei que aqui estamos, na rua 59, e se ela fosse jogada na 34 chegaria até ali e todos em volta morreriam e embora não houvesse nenhuma bomba, era fácil construí-la. Estávamos todos condenados. Eu sentia esse desconforto e pensei, mas acreditava muito nisso, que tudo era tolo: eu olhava para as pessoas construindo uma ponte e dizia ‘eles não entendem’. Não via mais sentido em construir qualquer coisa porque tudo seria destruído e ninguém entendia isso e eu olhava para toda construção que via sendo feita e pensava: para quê?

Richard Feynman.

Hiroshima, Nagasaki e o racismo dos EUA

09/August/2007 - 05h07 - 165 Comentarios

Há 62 anos hoje, o B-29 norte-americano Bockscar sobrevoou a cidade de Kokura, no Japão, carregando a bomba atômica ‘Fat Man’. Uma nuvem espessa impedia contato visual com o lugar. O major Charles Sweeney, que comandava a missão, decidiu partir para Nagasaki, seu alvo secundário. Às 11h01, o artefato carregando 6,4kg de plutônio-239 foi solto no ar e caiu por 43 segundos até que, 469 metros acima da superfície, explodiu. A temperatura foi elevada a 4.000 graus e o desclocamento de ar provocou ventos de 1.000 km/h. Tudo o que havia num raio de 1,6km desapareceu.

Aí, 70.000 pessoas morreram. A elas, somaram-se outras 10.000, nos meses seguintes.

Mick Hume é o tipo do marxista que a direita gosta. (Ele é daqueles que acha aquecimento global uma forçada de barra.) Colunista do Times de Londres, ex-editor-chefe da revista online Sp!ked, Hume é inteligente, bom argumentador e polemista dos bons. Agora, tem uma provocação nova na praça: as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram atos racistas.

O Japão era um problema para as elites ocidentais desde que a vitória sobre a Rússia, em 1905, o lançou no cenário mundial. Emergiu como um dos grandes poderes capitalistas mas jamais realmente fez parte do clube. Sua população não era branca. A noção de superioridade racial e das ‘responsabilidades do homem branco’ estavam na base ideológica e na auto-imagem do imperialismo ocidental. Uma nação asiática não poderia ter o direito de sentar-se livremente à mesa do poder.

A Conferência de Versailles, realizada em 1919 após a Primeira Guerra, dá evidência deste duplo padrão racial. Enquanto norte-americanos e britânicos se comprometiam com os novos movimentos de afirmação nacional europeus, negaram ao Japão a inclusão de uma cláusula de ‘igualdade racial’ no tratado que deu forma à Liga de Nações (precursora da ONU). Um testemunho diz que a emenda japonesa rejeitada era ‘um evidente desafio à teoria da superioridade da raça branca na qual se baseavam as pretensões imperiais britânicas’.

Para Hume, o governo dos EUA tinha plena consciência de que o Japão se renderia. Relatórios da inteligência norte-americana já davam notícia de que a liderança militar japonesa se movimentava para a rendição três meses antes das bombas. Outros documentos indicam que, mesmo antes de a derrota nazista estar clara, os EUA jamais tiveram a intenção de jogar a bomba que construíam na Europa. Não, nem mesmo na Alemanha que causava o Holocausto.

Acontece, ele segue seu raciocínio, que a bomba não seria jogada contra a Europa mas tinha que ser jogada de qualquer forma. Motivo: ela consolidava o domínio mundial econômico e militar dos EUA para o tempo que estava para vir no pós-Guerra.

Exagero de Hume? A discussão é boa. Os documentos que apresenta indicando que não havia a intenção de jogar a bomba contra a Europa são intrigantes. Costumamos pensar que só a Alemanha Nazista era racista. Mas, embora talvez jamais viessem a criar uma máquina de genocídio como a do Holocausto, todos os poderes imperiais europeus criam, ainda na primeira metade do século 20, na superioridade de sua civilização perante todas as outras do mundo. É um tempo que nos soa distante, hoje, mas ainda há gente por aí que viveu tal momento. Tintim na África foi tema deste Weblog não faz muito tempo.

(O Bitt escreveu dois bons posts sobre o assunto no Neuromaníaco.)

O papa é pop?

07/February/2007 - 00h01 - 231 Comentarios

Há muito isto não acontecia: mas os discursos do papa são comentados. Acontece por conta da polêmica – caso das críticas ao Islã. Acontece quando fala de amor – sua primeira encíclica; se abre um grupo de discussão a respeito de uso de camisinha, discute-se o que Bento 16 tem a dizer.

Não é a mera repercussão do que pensa o Papa. Isto sempre houve.

No caso de Bento 16, os argumentos do papa são discutidos pelos principais editorialistas europeus, principalmente na sua Alemanha natal onde a norma sempre foi, em grande parte, a imprensa ignorar a existência de religião como se estivesse (talvez esteja) um quê abaixo da razão.

A tese, não sem fundamentos, é da revista alemã Der Spiegel: Joseph Ratzinger é o papa que os intelectuais gostam.

E isto é uma surpresa – trata-se de um reacionário ao pé da letra.

Ele pôs fim à Teologia da Libertação. Ele despreza rock e música pop mesmo que acompanhe alguma reza. Ele não gosta de missas ecumênica e recusa a quem se divorciou a comunhão. Ele fraterniza com os discípulos anti-modernistas [do cardeal Henri] Lefebvre, com os anti-aborto, mas padres gays são banidos dos seminários. E, para terminar, todo seu poder é expresso na voz ligeiramente afeminada de um homem idoso: ?Cari fratelli e sorelle…?

Então o que é, em Bento 16, que tanto atrai intelectuais? Primeiro, ele respeita idéias, respeita pensamento e produção acadêmica. Antes de tudo, ele próprio é um acadêmico. Então, se acaso é o homofóbico que se veste carregado de jóias, também é um homem capaz de conversar com ateus. Bento 16, diferentemente de seu antecessor, não fala de fé como um processo místico. Para ele é um processo racional. Falar de razão o põe no mesmo campo dos homens de idéias. Argumentos, eles respeitam mesmo que discordem.

Mas há algo além: a principal questão do papa é o relativismo que ele acusa existir na sociedade.

Na Era Pós-Moderna, tudo estava mais ou menos ok. Os valores eram relativos e acreditávamos que isto era bom. Em setembro de 2001, esta crença foi questionada. Não havia mais espaço para ironia.

Como uma verdade pode existir numa sociedade pluralista? Joseph Ratzinger ponderou a respeito desta pergunta toda sua vida. E ela jamais foi tão relevante quanto hoje.

Que não se tenha dúvida: o discurso é reacionário, profundamente conservador. A ?relativização? é uma busca de tolerância. Numa troca de cartas, certa vez, o cardeal Carlo Maria Martini perguntou a Umberto Eco como era possível ter ética sem uma crença nalgo mais profundo.

Eco respondeu que há um quê em nós humanos que dita esta ética universal. Todos sentimos dor, então infligir dor é antiético. Todos andamos – então restringir o caminho que escolhemos seguir é antiético. Seguindo seu raciocínio àquilo que é mais básico no Homem é possível chegar a valores universais que nos sirvam de mapa. Que expliquem o que é tolerável numa cultura diferente – e o que não é tolerável.

Se resolve o problema?

Evidentemente que não. Não resolve o aborto, por exemplo, enquanto não chegarmos – se é que é possível – a uma convenção universal a respeito do momento do início da vida.

Ratzinger defende seu ponto de vista e é um papa relevante: fala de questões cruciais do tempo. Fala com autoridade, com honestidade intelectual. O que não quer dizer, de forma alguma, que esteja certo.

Ahmadinejad e seu encontro alucinado

13/December/2006 - 15h34 - 183 Comentarios

A conferência de negação do Holocausto em Teerã deve fazer-nos reavaliar a eficácia de transformar a negação do Holocausto em crime. As leis aprovadas na Alemanha, Áustria e França nos anos 90 contribuíram significativamente para tirar a legitimidade da negação no Ocidente e representaram um golpe duro para as atividades dos que negam o Holocausto. Elas não tiveram sucesso, no entanto, e talvez até tenham encorajado a aliança entre negadores e o regime iraniano. Além disto, estas leis ajudam os negadores a se apresentarem como vítimas e ao regime do Irã a se mostrar como defensor da liberdade de expressão acadêmica.

Amiram Barkat, do diário israelense Ha’aretz, defendendo o óbvio: criminalizar o discurso, mesmo quando se trata de criminalizar o discurso do ódio e da estupidez, não tem qualquer eficácia.

Ainda não foi inventado nada melhor que a liberdade total de expressão.