Os 10 países mais perigosos do mundo

10/August/2009 - 10h14 - 323 Comentarios

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Uma construção posto que é domingo

19/July/2009 - 11h44 - 9 Comentarios

versailles

Lembrando a Alemanha comunista

12/July/2009 - 13h18 - 154 Comentarios

No segundo semestre de 1989, 20 anos atrás, uma série de acontecimentos levaram à Queda do Muro de Berlim.

A Der Spiegel está com uma mostra de fotografias do cotidiano na antiga Alemanha Oriental em sua última década de existência.

Um dia com Peter Sunde, da Pirate Bay

25/June/2009 - 06h32 - 143 Comentarios

Peter Sunde não pertence ao Partido Pirata. “Eles são de direita, eu não sou”, explica. “Não votei neles, mas acho bom que existam.” Passei o dia de ontem com Peter, aqui em Porto Alegre. Grande sujeito, um bom humor de enfrentar com sorrisos a maratona de fotos, entrevistas, apertos de mão, mesmo após mais de um dia viajando da Suécia para o Brasil. E, no Fórum Internacional de Software Livre, ele é pop star. A garotada o reconhece, quer tocá-lo, trocar dois dedos de prosa.

Pudera: com Fredrik Nei e Gottfrid Svartholm, Peter fundou em 2003 o Piratbyrån (Birô da Pirataria) para fazer piada da organização criada pela indústria fonográfica para combater a cópia de material com copyright online, o Antipiratbyrån. Em 2004, a organização deu origem à Pirate Bay, o maior site de bit-torrent do mundo. Eles oferecem links que levam a arquivos de músicas, software ou filmes. Desde que a Pirate Bay foi condenada pela Justiça sueca – o julgamento provavelmente será cancelado – o Partido Pirata aumentou. Terá dois deputados no Parlamento Europeu, a partir do segundo semestre.

O argumento legal da PirateBay é que eles são como o Google. Só dão links, não se responsabilizam por quem guarda o que não deve em seu computador. Mas Peter sabe que isso é só formalidade: “meu problema é que Hollywood é daninha à cultura.”

Peter é filiado ao Partido Verde. Na Suécia, é um dos responsáveis pelo grupo que estipula a plataforma tecnológica do partido. Tudo leva a crer que a coalizão de centro-esquerda que inclui os verdes chegue ao governo, nas próximas eleições.

Seu argumento é o seguinte: Hollywood e as quatro grandes gravadoras representam muito dinheiro, mas não são os maiores produtores de cultura do mundo. “Eles produzem quanto? 0,0001% de toda cultura?” Em última análise, leis de direitos autorais beneficiam estes grandes conglomerados, não a maioria dos artistas. Se ficasse nisso, tudo bem. Mas, por conta do poder econômico – e este é sempre o raciocínio de Peter –, estes conglomerados entopem o mercado, aumentam a barreira de entrada para quem é novo. O copyright, em sua visão, ao invés de contribuir para o sustento de artistas, produz um ambiente em que a maior parte da produção cultural tem pouco espaço para circular.

Eles não mantém estatísticas de o que é mais baixado no Pirate Bay. Alguns estudos sugerem que é cinemão e grandes hits. Para Peter e seus sócios, não importa. Se vai prejudicar os grandes, tanto melhor.

Ele não é radical. Não vê problema em quem queira cobrar pelo serviço de oferecer algum tipo de informação. Se alguém conseguir, ótimo. A informação, a música, o filme – estes devem ser livres. Esta é sua opinião. É bom ouvi-la e compreender, mesmo que seja para discordar depois. Na Europa, representa uma linha de pensamento crescente, que captura gente tanto à esquerda quanto à direita.

O abuso sistemático, sexual e físico,
de crianças da Irlanda pela Igreja

06/June/2009 - 16h46 - 348 Comentarios

Há duas questões importantes levantadas nos comentários abaixo, sobre o escândalo de abuso infantil na Igreja Católica da Irlanda.

A primeira me cobra uma distinção: foi abuso físico de crianças, mas não sexual.

Não é verdade.

No relatório, que trata de casos documentados entre a década de 1940 e a de 1970, há inúmeros casos de abuso sexual. De estupro de crianças por padres de batina e funcionários. Tão logo o relatório começou a ser divulgado, esta semana, o Dublin Rape Crisis Center – especializado em vítimas de estupro – passou a receber ligações de mais vítimas da Igreja querendo contar suas histórias. O premiê irlandês Brian Cowen, com o texto na mão, declarou que nas escolas públicas administradas por 18 ordens católicas diferentes, “o abuso sexual de crianças era endêmico”.

Se ainda restam dúvidas, as palavras seguintes estão publicadas no site Catholic Spirit e são de Sean Brady, cardeal de Armagh: “Este relatório deixa claro o mal que fizemos a algumas das crianças mais vulneráveis de nossa sociedade. Ele documenta uma vergonhosa lista de crueldades – negligência e abuso físico, sexual e emocional – impostas a crianças.”

Segundo o relatório, abuso sexual era sistemático nas escolas para meninos, embora também ocorresse com menor frequência nas escolas para meninas.

Se há algo omisso no post anterior é que a história irlandesa não é apenas de estupro. É também de abuso físico – e não se trata, aqui, de palmatória, instrumento cruel, porém ainda usado vastamente na educação britânica até os anos 40. Nas escolas tocadas pela Igreja, havia chibatadas em crianças nuas. Banhos com água fervendo ou com água no limite do gelo do inverno irlandês. Ameaça com cachorros raivosos – sim, Abu Ghraib imediatamente vem à mente. As surras eram sistemáticas e arbitrárias. As crianças ouviam seus colegas apanhando, quando não assistiam. O resultado era a criação de um ambiente de terror.

O que as crianças vítimas têm em comum é que todas estavam internadas nas escolas industriais, instituições criadas na Revolução Industrial para oferecer abrigo e proteção a crianças pobres, muitas vezes abandonadas pelos pais, outras órfãs. Eram escolas públicas, e o governo concedia à Igreja sua administração.

A segunda cobrança é a de que tenho uma mão pesada para tratar da Igreja. Que não tenho distanciamento.

Vocês sabem que sou ateu. Mas não sigo a linha Richard Dawkins – não acredito que a religião é um mal do mundo. Lembro até hoje de uma freirinha italiana que me dava aulas de religião, quando eu era criança. A irmã Gina. Ainda a vejo como a emanação da bondade – era uma figura extremamente generosa. Naquele tempo, eu devia ter uns oito ou nove anos, flertei com religião. Não deu. Sou ateu desde a pia.

Desculpe. Mesmo. Não acho que meu problema seja falta de distanciamento. Tenho total distanciamento.

Acho que a questão é outra: bons católicos sentem o ímpeto de defender sua Igreja. Essas histórias, tornadas públicas, não batem com sua imagem da Madre Igreja. E eu só posso imaginar como deve ser duro, difícil, encarar este lado negro da Igreja. O post anterior tem motivo: um cardeal britânico veio chamar pessoas como eu de sub-gente no momento em que sua Igreja, na ilha ao lado, revela um histórico recente de crueldade profunda, de desprezo completo pelo que é ser humano. Só uma completa falta de auto-crítica e nenhuma noção de timing pode levar um sujeito como ele a questionar a humanidade dos outros neste momento. Aí seu sucessor o que faz? Elogia a coragem da Igreja.

Pois esta é a Igreja que eu enxergo. A questão básica é a seguinte: sempre que um país decide investigar os porões da Igreja, descobre uma história recente igual – nela, as crianças são sempre vítimas. Não acredito que Boston, Los Angeles e Irlanda sejam casos isolados. São os casos investigados, apenas. Quem for mexer na Igreja da Itália encontrará o mesmo. Na da Espanha? Não tenho dúvidas. Também na do Brasil. Por que não tenho dúvidas? Porque sexualidade é coisa humana. Gente que decide sufocar a própria sexualidade sai de órbita. A maioria dos padres, evidentemente, arranja namorados e namoradas adultos e discretos. Mas uns e outros partem para as vítimas fáceis.

Muitos cardeais, quando abrem a boca para falar sobre os casos de abuso, dão mostras de que não perceberam sua gravidade. O papa Bento 16 diz que é lamentável, uma nódoa, e aí muda de assunto. Não é lamentável. Não é uma nódoa: é a Igreja como ela é, uma instituição que tolerou sistematicamente abusos dos piores tipos às crianças mais frágeis – quase sempre pobres – da sociedade. A Igreja, que neste pontificado é uma instituição que se julga no direito de querer ensinar amor e tolerância ao mundo, precisa urgentemente se abrir, reconhecer seus males, discuti-los publicamente, pedir desculpas e se reformar.

Mas não faz isso. Quando, pressionada por vítimas e pelo Estado em alguns lugares, só coopera com investigações depois de fazer acordos em que os nomes de seus criminosos não serão divulgados.

Perdoem: não acho que todos os padres e freiras sejam assim. Não acho sequer que a maioria deles seja assim – tenho certeza de que é uma minoria. Mas a instituição é assim. As pessoas de poder na Igreja são assim: é o que revelam em seus acordos e, invariavelmente, em seus comunicados públicos.

Atualização- Nos comentários, o Saladino dá o link para o relatório (PDF) sobre os abusos da Igreja na Irlanda.

Os ateus do cardeal, as crianças da Irlanda

05/June/2009 - 16h07 - 55 Comentarios

Em sua despedida da arquidiocese de Westminster, o cardeal católico Cormac Murphy-O’Connor disse o seguinte em entrevista à BBC:

Na minha opinião, há algo não totalmente humano naqueles que abandonam aquilo que transcende. Naqueles que deixam algo para o qual todos nós fomos feitos, a busca por um encontro transcendental que chamamos Deus. Sem isso, há uma diminuição do que é ser humano. Sem isso, você não é completamente humano.

É uma graça.

Enquanto ateus seguem subhumanos, o sucessor de O’Connor apanha. O cardeal Vincent Nichols, perante um relatório de 2.600 páginas que acusa centenas de casos de abuso sexual infantil da Igreja Católica na Irlanda, de presto observou que foi necessária muita coragem por parte dos padres para enfrentar a sujeira dentro de casa. O instintivo e natural, disse Nichols, é olhar para o outro lado.

Sobre responsabilidade, sobre a mínima obrigação evidente, nada. Trata-se de coragem. (Uma ‘coragem’, diga-se, motivada não internamente mas por centenas de denúncias.) O instinto natural dos padres é olhar para o outro lado.

Subhumanos são os ateus, aos olhos da Igreja.

Atualização importante – o primeiro crítico do novo cardeal de Westminster é outro cardeal, Diarmuid Martin, de Dublin. É um que tem as prioridades no lugar: “minha raiva está do lado das vítimas. Elas são os reais heróis, quem realmente teve coragem de vir à frente e denunciar.” Segundo Martin, o relatório final, a ser publicado este mês, chocará a todos. A Igreja irlandesa fez um acordo com o governo para permitir ampla investigação. Os responsáveis pelos atos não serão identificados, embora sejam afastados de suas funções.

AirFrance 447 desaparecido

01/June/2009 - 12h49 - 128 Comentarios

Entendi que vários de vocês estão aflitos com o desaparecimento do AF 447 – eu mesmo já peguei este vôo, é uma das linhas mais populares rumo a Paris. Direcionem para cá as discussões novidades.

1 –Leitores da França e do Brasil estão discutindo aqui, neste momento, a percepção da tragédia de um lado e do outro do Atlântico.

2 – Para observar ao longo do dia. Vejam como se portam as autoridades francesas e as brasileiras na tragédia que envolve cidadãos de ambos os países.

3 – Há funcionários da Vale, Siderúrgica Atlântico, Prefeitura do Rio e Michelin entre as vítimas. Números no momento: 228 mortos, oito deles crianças, 12 tripulantes. 58 passageiros brasileiros e 61 franceses.

4 – Destroços foram encontrados 650 quilômetros a nordeste de Fernando de Noronha.

Desetendem-se, Rússia e Venezuela

21/May/2009 - 07h27 - 90 Comentarios

Desde 2006, Rússia e Venezuela vêm num contínuo flerte militar. O governo Hugo Chávez comprou aviões Sukhoi e helicópteros Mi num valor que pode chegar a 5.4 bilhões de dólares. O próximo passo era a aquisição, este ano, de seis submarinos Kilo.

Era.

As naves estão chegando no Vietnã, a Venezuela cancelou sua compra.

A especulação que corre na web é que, quando fez uma operação amistosa na costa venezuelana, ano passado, a marinha russa comprou briga com guarda-costas de Hugo Chávez. Ao menos houve briga – briga mesmo, punhos cerrados – entre alguns marinheiros e os homens encarregados de proteger o presidente, quando Chávez tentava subir a bordo do cruzador Pedro, o Grande.

Irritado, Chávez teria interrompido o contrato.

Parece que a briga houve de fato. Se ela virou incidente comercial é outra história. Outra versão que corre: o governo George W. Bush acabou, o presidente bolivariano não vê mais a necessidade de irritar os EUA.

Versão mais provável? No blog da revista American Prospect, lembram o óbvio. O petróleo está em baixa. Chávez está contando os centavos já não tão fartos.

Vida cotidiana na política

16/May/2009 - 14h05 - 23 Comentarios

Às vezes, políticos não conseguem disfarçar em que estão pensando.

via Attu sees all

Quanto gastam do dinheiro público
os parlamentares do Reino Unido

08/May/2009 - 00h45 - 22 Comentarios

Gordon Brown, o premiê britânico, está começando a enfrentar um escândalo por conta de seus gastos e dos de outros ministros, todos deputados do parlamento do Reino Unido.

Brown pagou a seu irmão 6.577 libras para gastos com limpeza do apartamento que têm em comum, embora Brown não more lá. Dá pouco mais de 20.000 reais em um ano. Uma deputada gastou 5.000 libras (16.000 reais) com móveis para um apartamento no qual viveu por quatro meses. Outro tomou dinheiro para pagar seus advogados; o advogado deu-lhe um desconto, que ele não repassou aos cofres públicos. Houve um terceiro que, em dois anos, mudou quatro vezes de casa e reformou-as todas. O truque: como o Parlamento se responsabiliza pelos gastos com uma moradia dos parlamentares, o esperto aproveitou-se para reformar todos seus imóveis.

Os gastos são todos legais, ao menos na letra da lei. Mas feios que só. A imprensa britânica não trata de outro assunto.

Como diz Ancelmo Góis: deve ser horrível viver num país assim.

Pequeno Dicionário Português-Brasileiro

30/April/2009 - 11h46 - 10 Comentarios

(Ou um guia curto para quem deseja trabalhar com publicidade em Portugal.)

Inferno da Reforma Ortográfica

17/April/2009 - 11h43 - 59 Comentarios

Do Paulo Roberto Pires:

O acordo ortográfico é a derradeira e cabal prova de minha decrepitude. Faz a vista cansada e as dores nas costas parecerem um ressaquinha passageira. Entrei, inapelavelmente, para aquele time de velhos (assim eu os chamava) que jamais se entenderam com as mudanças ortográficas e, no meu tempo, botavam acento em ôvo (êpa, o corretor ortográfico já chiou). Agora, hélas, é minha vez de experimentar o melancólico analfabetismo geracional.

Cá eu, do meu lado, andava me dando desculpas. É porque não estou mais na redação. Se estivesse num ambiente onde todos escrevem português a toda hora, já teria me habituado. Ou, então, é culpa da Microsoft, que não produziu um dicionário para o Word. Devia usar OpenOffice. A mais cruel das desculpas: preguiça. Preguiça pura.

Se adaptar a uma nova ortografia é um dos processos mais difíceis que podem existir. Quando escrever é atividade profissional continuada, o que não deixa escolha, é o inferno.

Reino Unido à porta do FMI

15/April/2009 - 12h45 - 11 Comentarios

A Polônia é o primeiro país a requerer um empréstimo do FMI nesta nova rodada de crise econômica mundial.

Alguns analistas – dentre eles lady Margaret Thatcher em pessoa – prevêem que o Reino Unido será o próximo batendo à porta do fundo. Gordon Brown, o premiê britânico, continua a dizer que não há a mais vaga possibilidade.

Os últimos nazistas vão à Justiça

14/April/2009 - 13h36 - 63 Comentarios

A Justiça alemã está preparando uma nova ofensiva contra criminosos do Holocausto. São cinco homens, quatro cidadãos norte-americanos nascidos na Europa e um quinto que vive na Alemanha.

O norte-americano nascido na Áustria Josias Kumpf, 83 anos, foi deportado dos EUA há algumas semanas, após ter tido sua cidadania cassada. Ele provavelmente esteve envolvido com o assassinato de 8.000 pessoas em um único dia no Campo de Concentração de Trawniki, em 1943.

Em março, o governo alemão pediu a extradição de John ‘Ivan’ Demjanjuk, de 89 anos, um ucraniano-americano suspeito de ter participado de 29.000 assassinatos. Em seu primeiro movimento, a Justiça dos EUA impediu a deportação com o argumento de que, idoso, Demjanjuk estaria frágil demais para enfrentar uma viagem intercontinental. Mais recentemente, o Departamento de Imigração dos EUA decidiu por permitir sua deportação.

A nova série de casos sendo preparados para ir à Justiça não envolve altos oficiais, mas alemães, austríacos, ucranianos, lituanos, gente que trabalhava no dia-a-dia dos campos e que participou ativamente do processo de genocídio nazista. Muitos não haviam sido julgados até hoje porque, estando tão abaixo na hierarquia, era difícil provar que não estavam apenas seguindo ordens. Em alguns casos especiais, no entanto, já há documentos o suficiente para mostrar quem se gabava de uma particular eficiência e que cumpria a missão para além das ordens.

É, possivelmente, a última chance de levar os últimos nazistas para a cadeia antes que todos morram.

As Últimas: Política Portuguesa e Tecnologia

13/April/2009 - 11h26 - 18 Comentarios

Há duas novas páginas em As Últimas, ambas promessas antigas.

A primeira é a de Política Portuguesa. Para esta, contei com a colaboração de Paulo Querido, que me serviu de guia pela blogosfera lusa. As Últimas não tem por objetivo ser um agregador brasileiro; é, e será, um agregador em português. Portanto, todas as sugestões de bons blogs e sites portugueses (ou africanos, ou asiáticos) que caibam nos outros temas serão bem-vindas.

(O Paulo me deu dicas – a ordem dos sites, no entanto, é de inteira responsabilidade minha.)

A segunda página é a de Tecnologia. Demorou demais, pois é. Em casa de ferreiro, o espeto é de pau. Sou colunista de tecnologia do Estadão e, no entanto, demorei tanto a incluir esta página sobre um dos assuntos mais populares da rede. Não por isso – já está no ar.

Silvio Berlusconi e a Itália de hoje

10/April/2009 - 04h07 - 147 Comentarios

Não faz muito tempo – uns vinte anos, talvez? – e qualquer um apostaria com segurança que a Itália seria um grande país e a Espanha, coitada, ainda demoraria um tempo para livrar-se da herança franquista. Nada poderia ser mais distinto da realidade atual.

É Silvio Berlusconi.

Ao público norte-americano, a revista de esquerda The New Republic tenta explicar quem é o estranho premiê italiano:

Será que há lógica para o que parece uma estranha forma de Síndrome de Tourette do premiê? Seus comentários pouco apropriados são o comportamento de um homem tão poderoso em seu próprio país, onde sua riqueza pessoal e poder político estão profundamente conectados, que ele não faz distinção entre comportamento pessoal e público. E não precisa. Ele é cercado de empregados e interesseiros que riem de suas piadas e elogiam cada comentário, além de jornalistas que jamais fazem perguntas difíceis ou embaraçosas. Ele se comporta numa conferência internacional como se estivesse em sua sala de jantar. Ele, aliás, se sente mais confortável recebendo convidados estrangeiros em sua fantástica casa na Sardenha (misturando o público com o privado), onde estrelas de TV e chefes-de-estado se encontram. Nessas horas, Berlusconi diz o que lhe passa à cabeça sem medo de vergonha pública.

Ele também está tão acostumado com o controle quase total da imprensa italiana que reage com raiva quando a imprensa internacional deixa de tratá-lo com deferência equivalente. Quando chamou um deputado alemão de oficial nazista, o comentário foi apresentado em todo mundo, mas não na tevê italiana. O mesmo ocorreu recentemente, quando Berlusconi fez um comentário que parecia indicar que estupro era um produto natural da libido masculina: ‘para impedir o estupro, eu precisaria ter um policial acompanhando cada mulher bonita na Itália.’

Parte da má reputação de Berlusconi no exterior tem a ver com seu desejo de controlar todo o espaço e sua frustração ao sentar na fileira de trás em encontros internacionais. Ao comunicar que não estaria na cerimônia de posse de Obama, em Washington, ele fez um comentário revelador: ‘Não faço papéis secundários, sou o protagonista.’ Berlusconi não gosta que Obama, que acabou de chegar ao cenário mundial e que pessoalmente só tem alguns milhões de dólares, possa ser uma estrela maior.

Para Alexander Stille, autor do artigo, que Berlusconi esteja ainda no comando do governo italiano é indício do país no qual a Itália se transformou. Um país em que a oposição é tão medíocre que não consegue derrotá-lo, em que políticos são incrivelmente rejeitados, e que estagnado economicamente perdeu o próprio rumo.

E o G20 se encontra

02/April/2009 - 03h17 - 114 Comentarios

Oficialmente, os líderes do G-20 se reúnem hoje, em Londres. Mas as conversas já vêm acontecendo com intensidade há meses. Um dia Lula está com Obama. No outro, Sarkozy e Angela Merkel estão juntos – e aí é a vez de Merkel com Putin. O papa escreve a Gordon Brown – premiê britânico que, evidentemente, já se encontrou com todos nas últimas duas semanas: Lula, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin.

Os EUA chegam a Londres com o pires na mão.

Querem que os governos do G-20 soltem mais dinheiro em suas economias, grandes pacotes como aquele que Obama espera ver aprovado. Querem também que os governos do G-20 o ajudem a injetar dinheiro no FMI.

Os dois pedidos de dinheiro são complicados.

Os europeus não desejam injetar mais dinheiro. Eles acreditam que a teia de serviços sociais – da previdência ao seguro desemprego – em seus países serão suficientes para conter o agravamento da crise.

Na questão do FMI, a situação é conosco – Brasil, Rússia, Índia e China. Os BRICs não têm nenhum estímulo para ajudar o FMI. O Fundo Monetário Internacional conta, hoje, com 250 bilhões de dólares em caixa para ajudar nações em apuros. Receberá mais 100 bi dos EUA, o Japão prometeu outros 100, a União Européia contribuirá com igual quantia. Mas, para engordar mais o fundo, é preciso dar mais poderes aos sócios em ascensão.

Hoje, os europeus indicam quem manda no FMI e os norte-americanos escolhem a chefia do Banco Mundial. Enquanto o jogo de comadres continuar, não haverá mais dinheiro. Se o jogo de comadres ainda fosse viável, não haveria esta reunião do G20. Estariam ainda no G8 discutindo os destinos do mundo.

Por outro lado, a Europa quer algo que os EUA não parecem dispostos a dar: mais regulamentação dos bancos. Os europeus, com exceção do Reino Unido, têm uma proposta. Primeiro, obrigam os bancos a juntar mais dinheiro quando a economia estiver em alta. Precisam ter mais em caixa, não podem jogar tudo. Os EUA até são capazes de topar uma variação deste item. O que mata é o segundo.

Angela Merkel e Nicolas Sarkozy sugerem que instituições financeiras devem ser punidas se oferecerem a seus executivos bonificações por comportamento arriscado.

Tudo pode ser resumido assim: Europa quer regulamentar. Os EUA querem injetar dinheiro na economia.

Enquanto os membros do G8 não se entendem, outros têm preocupações distintas: defendem o livre mercado. Ao longo do último ano, a União Européia aumentou os subsídios agrícolas, os EUA injetaram cláusulas de compra de produtos americanos em seus contratos, a Rússia passou a taxar carros. A China comunista, quem diria, é a mais aguerrida defensora da livre circulação de produtos e capital pelo mundo neste momento. (Circulação de produtos, que se entenda bem; livre circulação de pessoas e idéias, internamente, continua não podendo.)

Mas, neste caso, os chineses encontram no Brasil um de seus principais aliados.

É uma reunião de alto nível, esta, uma reunião particularmente importante, embora um bocado complexa. Nos próximos dias, saberemos se alguém conseguiu avançar em algum sentido ou se todo o sistema persistirá emperrado.

Cuba, Rússia e EUA: dois
movimentos de xadrez

04/March/2009 - 03h18 - 60 Comentarios

Raul Castro demitiu ministros fiéis a seu irmão, Fidel. Colocou em seus lugares novos ministros, oriundos do Exército, que lhe são fiéis. Outro Castro manda em Cuba.

Dmitry Medvedev recebeu uma carta do presidente norte-americano oferecendo uma troca: os EUA abrem mão do sistema de mísseis no Leste Europeu, a Rússia ajuda a conter o avanço nuclear iraniano.

Obama acena para os russos?

26/February/2009 - 16h04 - 62 Comentarios

Conforme as primeiras análises mais aprofundadas do discurso de Barack Obama às duas Casas do Parlamento começam a surgir, um assunto se destaca: o presidente dos EUA pode desistir da barreira de mísseis no Leste Europeu.

Obama não deu detalhes, no discurso disse apenas que é preciso ‘revisar o orçamento de defesa para que não paguemos por sistemas militares do tempo da Guerra Fria que não usamos nunca.’ Bem, só há um grande projeto de defesa que data da Guerra Fria presente constantemente nos jornais. A barreira de mísseis, que seria instalada na Polônia e na República Tcheca, é vestígio do Programa Guerra nas Estrelas de Ronald Reagan. É, também, o maior motivo de disputa entre russos e norte-americanos. Os mísseis, que teoricamente serviriam para derrubar outros mísseis vindo contra os EUA ou Europa do Irã, talvez da China, apontam para a Rússia.

Pelo menos uma deputada, a democrata Ellen Tauscher, que lidera a Comissão de Assuntos Militares, já está trabalhando para extirpar o programa. Pelo menos um ministro, o secretário de Defesa Robert Gates, é a favor de mantê-lo.

Arquivar a barreira de mísseis, no entanto, faria horrores para as relações EUA/Rússia e criaria boa vontade em Moscou na lida com o Irã. Ao menos, isto sempre foi prometido.

Rússia repentinamente humilde

18/February/2009 - 02h41 - 63 Comentarios

Embora em tom de desafio, a retórica russa mudou. Na Der Spiegel, o ministro das relações exteriores Sergey Lavrov fala de cooperação com os EUA. ‘Não podemos mais nos dar ao luxo de jogos geopolíticos’, ele diz. ‘Precisamos encarar os problemas reais.’

O mesmo país que ameaçava a Europa ocidental com cortes de venda de gás natural, agora fala em permitir que empresas alemãs possam a vir explorar suas reservas.

A retórica pode ser não mais que retórica, mas há uma diferença no ar: no último mês, a popularidade de Dmitry Medvedev, o presidente, caiu de 79 para 69%. A do premiê Vladimir Putin foi de 81 para 74%. E o fenômeno tem causa conhecida. A crise econômica recaiu sobre o país.

O método Putin de governo tem uma fórmula. O dinheiro da energia mantém a economia a pleno vapor, o povo empregado e devidamente alimentado. O governo mantém rígido controle da mídia, persegue a oposição, mas a população não liga muito. Externamente, fala duro. As trapalhadas do governo da Geórgia e um conflito que quase não houve foram vendidos internamente como uma vitória sobre os EUA. A população adora.

Mas tudo é sustentado por dinheiro. O medo de que um movimento pró-democracia nasça do caos econômico é real. Passeatas nas ruas de Moscou, até agora, foram raras e pequenas.

O governo tem medo de que isto mude. Para isso, precisa do retorno da estabilidade econômica. Portanto, de estabilidade internacional que, de repente, ficou incrivelmente valiosa.