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O mundo visto pelos leitores: Argentina

24/April/2008 · 77 Comentários

Por Mr X

Faz uns bons seis meses que estou em Buenos Aires. Já conhecia a cidade, mas é a primeira vez que estou efetivamente morando aqui.

A visão estereotipada da capital argentina é o tango, churrasco, cemitério da Recoleta e feira de San Telmo. A cidade vai além: Buenos Aires é literária como poucas. Jorge Luis Borges localizou vários de seus contos na sua topografia e escreveu em um poema: A mi se me hace cuento que empezó Buenos Aires / La juzgo tan eterna cuanto el agua y el aire. Cortázar marcou o encontro dos personagens de ‘Los Premios’ no café London City, na esquina de Perú e Avenida de Mayo. Isaac Bahevis Singer visitou Buenos Aires e escreveu uma novela, ‘Escória’, que se passa em parte aqui. Não li o romance, não sei se o título foi inspirado na população local. O escritor vanguardista polonês Withold Gombrowicz morou aqui por trinta anos. O filósofo espanhol Ortega y Gasset também visitou e escreveu, ficou famoso, ‘Argentinos, a las cosas!’. Recomendava menos sonhos e mais ação. Italo Calvino também visitou e talvez tenha encontrado inspiração aqui para escrever o ótimo conto ‘A formiga argentina’.

Mas a visita mais famosa é a relatada pelo escritor portenho Marcos Aguinis no seu ótimo livro ‘O atroz encanto de ser argentino. É a visita do prêmio Nobel Jacinto Benavente. Contam que a todo momento o dramaturgo espanhol era incomodado com perguntas sobre o que achava da Argentina e dos argentinos. Não lhe davam sossego um único momento. E ele, calado, preferia não se pronunciar. Até que, do barco que o levou de volta à Europa, ele finalmente respondeu: ‘Formem a única outra palavra que pode ser formada com as letras de argentino.’ O barco já estava longe quando a multidão se deu conta que a única outra palavra que podia ser formada era ‘ignorante’.

Com o real alto, o dólar baixo e o peso irrisório, há muitos brasileiros hoje vindo de visita a Buenos Aires: escuta-se o português em qualquer esquina ou café. Na verdade, às vezes até parece que nem saí do Brasil. Tem brasileiro até demais. Xô, xô.

Buenos Aires recentemente também está virando a capital latino-americana do turismo gay. O que é curioso, pois, assim como ocorre no Irã, não existem homossexuais na Argentina. O que existem são só ‘muchachos medio alegres’.

As mulheres argentinas, em contrapartida, são muito bonitas, e de tipos quase tão variados quanto as brasileiras.

Teoricamente, os personagens recentes mais famosos da Argentina são Gardel, Perón e Evita. Mas um estrangeiro que julgasse apenas pela quantidade de imagens vendidas nas bancas de jornais em cartazes, pôsteres e calendários, acharia que os personagens mais famosos da história argentina recente são Che Guevara e Homer Simpson.

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Tags: Argentina · Depoimentos

O mundo visto pelos leitores: Itália

7/February/2008 · 50 Comentários

Por Sabrina

Modena é uma bela cidadezinha medieval encravada no coração da Bassa Padana (uma parte da Planície Padana) que dista 40 quilômetros de Bologna, capital da região Emilia Romagna. É uma das melhores cidades do norte italiano para viver quando se é estrangeiro: existem várias iniciativas visando a integração entre italianos e estrangeiros, como festas étnicas e círculos de amizade. Talvez sejam mais abertos por conta das indústrias automobilísticas da região, que contratam no exterior. A Lamborghini fica a 10 quilômetros de onde moro; a Maserati, a 14.

Tanto a comunidade islâmica quanto a sul-americana são grandes no norte da Itália. Em Modena, vivem principalmente os norte-africanos (Marrocos e Líbia) e, vindos da América do Sul, peruanos e venezuelanos. Brasileiros são raros. (Estes vivem principalmente em Piacenza, província que faz fronteira com a Lombardia, outra região do norte.)

Uma parte dos políticos tentam fazer da vida dos estrangeiros, principalmente dos muçulmanos, um inferno. No último governo, de direita, era até pior, por causa da coalizão entre o Forza Italia, partido do magnata Silvio Berlusconi, a Lega Nord, partido separatista chefiado por Umberto Bossi e a Alleanza Nazionale, um partido filo-fascista. Para se ter uma idéia da corja: uma vez tentaram abrir uma mesquita em Lodi (província da Lombardia), e, para impedí-lo, um expoente da Lega Nord, Roberto Calderoli, regou o terreno da mesquita com urina de porco. Tornou o local impuro.

Por outro lado, a comida é ótima, os amigos são verdadeiros.

Se você foi convidado para o almoço numa casa italiana, prepare-se pra comer bem e bastante, pois aqui tem o costume do primo, secondo, contorno, às vezes incluindo o antipasto, ou entrada. O primo (ou prato principal) normalmente é pasta ou risoto. O secondo é carne (aqui se come, além da carne de vaca e de frango, também faisão, cervo, cordeiro, avestruz, cavalo), peixe (salmão, atum, merluza, bacalhau, sardinha). E o contorno normalmente é verdura cozida.

Os italianos têm muito ciúme da sua culinária, pois é o traço principal da própria cultura. É uma forma de eles se reconhecerem. Apesar da unificação da Itália no fim do século 19, o povo não se sente ‘italiano’. Primeiro se sentem parte da cidadezinha onde nasceram, depois da província e, se sobrar espaço, da Itália. Um italiano que se sente cidadão da Europa e depois do mundo é raro. Para chegar a esse ponto, precisa se despir da própria mentalidade moglie e buoi dei paesi tuoi (traduzindo, ‘tanto a esposa quanto o rebanho devem vir de sua cidade’). Pela experiência que estou acumulando, abrir mão disso parece ser doloroso.

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Tags: Depoimentos

O mundo visto pelos leitores: Angola

24/January/2008 · 144 Comentários

Por Caco

Angola é um país em obras divididas por empreiteiras brasileiras, nas quais a Odebrecht aparece como a principal quanto ao volume, além de portuguesas e chinesas. Os chineses foram os últimos a desembarcar por aqui, mas já formam o maior contingente. Ninguém sabe ao certo, mas dizem que já são mais de 600.000 deles espalhados pelo país – dá algo como 3% da população. Trabalhando em turnos que causam inveja pela velocidade das obras e disposição para trabalhar 24 horas por dia e sete dias por semana. E, num fenômeno esperado, começaram a se integrar à sociedade de forma tão forte que a primeira geração de crianças sino-angolanas já começa a dar seus passos.

Os chineses começam a tomar um espaço no coração das angolanas que até agora era dos brasileiros. Nós entramos nas casas todos os dias através das novelas da Rede Globo e da Rede Record. É inegável e surpreendente a influência da cultura brasileira por aqui. Nossa moda e costumes estão por toda parte. Na música, nos restaurantes, nas roupas, nas gírias dos jovens. O maior mercado de Angola chama-se Roque Santeiro. E há também o mercado Beato Salú. Sacoleiras desembarcam diariamente no aeroporto com sacolas abarrotadas de roupas que são vistas na última novela das oito do Globo. Cantores brasileiros chegam até aqui para estadas de quatro dias, tempo suficiente para um show e a gravação de um comercial. Também aproxima brasileiros e angolanos o passado de colônias que se livraram de Portugal. Há muito tempo e sem guerras, no caso do Brasil. E há 33 anos e com uma guerra de 20 anos, no caso dos angolanos.

Às voltas com taxas de crescimento que rondam os 20% nos últimos cinco anos, o país tem se transformado no mais recente Eldorado de uma legião de empreendedores. Associados sempre a angolanos, esses empresários chegam diariamente a Luanda em vôos lotados da TAP, TAAG e SAS. Há uma crença geral de que vale a pena explorar qualquer atividade econômica por aqui. Há demanda por tudo e restrições de oferta de toda ordem. Também colabora para essa situação o fato de a economia estar baseada fortemente na exploração de petróleo e minerais (principalmente diamante e ouro). Em tempos de barris de petróleo nas alturas, há uma natural liquidez no mercado provocada pelas petrolíferas e companhias mineradoras.

Diante da escassez de mão de obra especializada, essas empresas operam com mão de obra estrangeira que, evidentemente, condiciona sua vinda para cá às custas da manutenção de um padrão de vida similar aos de seus países de origem. Tudo isso faz com que Luanda seja uma das cidades mais caras do mundo para viver. Quer alugar um apartamento no centro com dois quartos? Quatro mil dólares com contrato de dois anos e pagamento adiantado. Almoço rápido com uma Coca-cola? Separe 25 dólares. E não espere qualidade, conforto, opções e pontualidade, como se espera noutros cantos. Opções de restaurantes também não há. São poucos e a culinária invariavelmente segue uma linha portuguesa com muitos peixes, frutos do mar, carneiros etc. No início é gostoso para um brasileiro, mas em pouco tempo começamos a ter saudades de arroz, feijão, pizza e churrasco.

Aqui cabe uma explicação. Qualquer pessoa, angolana ou estrangeira, chama a capital de Luanda, como se Luanda fosse um município. Na verdade, Luanda é uma província composta por nove municípios que formam uma grande região metropolitana. Moram em Luanda aproximadamente quatro milhões de habitantes. A população total do país gira em torno dos 16 milhões. Todos esses números são estimados pois não há registros de censos demográficos nos últimos 30 anos. Em geral, os angolanos inflacionam todos os números que dizem respeito ao país com indisfarçável orgulho.

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Tags: Depoimentos · África

O mundo visto pelos leitores: China

17/January/2008 · 114 Comentários

Por Zictor

O ano novo chinês é a maior festa do ano. Todos os chineses retornam para suas províncias, querem estar com as famílias. Os trens ficam impossíveis. O início das celebrações é o Festival da Primavera, dia em que soltam fogos e foguetes – eles gostam mais de barulho do que de luzes. Em 2006, passei o Festival da Primavera em Xangai. A cidade parecia cenário da Terceira Guerra. Tinha até daquelas carreirinhas de bombinhas vermelhas, que a gente via nos desenhos animados quando criança. As festas só terminam quinze dias depois, com o Festival das Lanternas. E este ano, para os que estiverem curiosos, a festa começa na noite do dia 6 para 7 de fevereiro. Entraremos no Ano do Rato.

A folga, mesmo, é só de três dias. Os feriados são sempre assim, de três dias. Além do Festival da Primavera, há também o Primeiro de Maio e o Primeiro de Outubro, data em que foi fundada a República Popular da China. Em geral, trabalha-se um sábado e um domingo para compensar mais dois dias, e assim dá para esticar cada feriado por uma semana. Recentemente, tem havido muito debate sobre acabar com as ’semanas douradas’ e transferir os feriados para datas mais tradicionamente chinesas, como forma de estimular a cultura. Ouvi dizer que o Primeiro de Maio não é mais feriado.

O restaurante preferido dos estrangeiros em Beijing é o Alameda, que serve cozinha brasileira contemporânea. Muito bom. Em Xangai, a churrascaria brasileira também faz sucesso. Nas duas cidades, você encontra uns poucos restaurantes americanos, russos, cubanos, italianos. Mas não são muitos. O que mais se come é comida chinesa, que varia de acordo com a província, comida japonesa e coreana. E bebe-se muito chá.

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Tags: China · Depoimentos

O mundo visto pelos leitores: Austrália

10/January/2008 · 142 Comentários

Por André Fucs

A saga do índio judeu na ilha de Croc

Jamais irei esquecer os debates que se seguiram ao recebimento de minha oferta de trabalho na Austrália. Não havia dúvidas acerca da oferta mas já sobre a Austrália… também, pudera: anos e anos sendo bombardeado por imagens de ondas perfeitas, crocodilos gigantes, cobras, escorpiões, aranhas assassinas e, claro, tubarões antropófagos. A imagem do lugar não poderia se lá das melhores: Terra de surfistas e cheia de animais perigosos!

Meu primeiro destino era Perth. A capital mais isolada do mundo fica definitivamente no fim dele! Para dar idéia, Adelaide, a cidade mais próxima com mais de um milhão de habitantes, fica a 2104 quilômetros de distância. Perth é rica, Western Australia é responsável por 40% do PIB nacional, sendo a mineração e a agricultura duas de suas principais indústrias. Não é uma cidade pequena. São cerca de 1,5 milhão de habitantes e uma ótima produção musical. Eskimo Joe, um dos hits australianos em 2007, é cria de Perth.

A adaptação não foi lá das melhores e me mandei tão logo foi possível. Explico: cheguei em Perth numa quarta-feira, cansado das incontáveis horas de viagem entre Tel Aviv e Austrália, ainda digerindo o gafanhoto e o sapo comidos em Bangkok, onde encontrei um amigo francês com quem trabalhei em Israel. Cansado, dormi um pouco antes de sair para o reconhecimento da área e jantar. Quando saí, a surpresa: a cidade encontrava-se às moscas, totalmente fechada às 18h30. No dia seguinte, a cena se repetiu – e só no terceiro dia, me explicaram: ali, como em boa parte da Austrália, o comércio fecha às 17h durante quatro dos cinco dias úteis, e estendem-se um pouco na quinta ou sexta-feira, quando fecham às 21h. Sou do tipo que tem hábitos noturnos – e gosto de ir ao supermercado às 22h30.

Daí, o supermercado. Certo dia, pensei, que tal comer um delicioso queijo nesse final de semana? Ótima idéia, é só escolher: cheddar, light cheddar, vintage cheddar, vintage light cheddar ou parmesão com gosto de cheddar? Esqueça a variedade dos Pão de Açúcar em São Paulo, essa é Austrália e aparentemente uma mistura de quarentena sanitária e patriotismo tornam as prateleiras em um campo de batalha onde frutas e legumes são separados de acordo com sua origem, como se o últimos batalhões de tomates australianos estivesse a encarar o recém desembarcado exército de tomates chineses.

Meses depois trabalhando em projeto Canberra, carinhosamente conhecida como ‘A capital (pornô) da Austrália’ forjei minha máxima sobre Perth: “Um estado federado que deseja se tornar independente por ‘levar os outros nas costas’ não é lá muito normal”. Bom, não que Canberra fosse “normal”. Canberra fica a três horas de Sydney e como sede do governo lembra Brasília, com suas avenidas gigantes, embaixadas, políticos e a malha de profissionais que sustentam a cidade com hotéis, restaurantes e informática, além de servir de sede a algumas das principais universidades australianas. Essa mistureba faz com que seja uma das cidades mais educadas do país, onde você provavelmente pode discutir fisico-química com a garçonete, ainda que certa vez eu e um alemão tenhamos gasto uma certa saliva tentando convencer um pinguço local de que ‘english is not the universal language mate!’, o alemão morava em Fiji mas, orgulhoso da popularidade de seu idioma no leste europeu, levantou-se e foi embora. Fui logo depois. Como havia dito um conhecido em um jantar meses antes: Não se enganem, a Austrália é apenas uma ilha de proporções continentais.

Ainda assim, Canberra é muito legal, não bastassem as divertidíssimas transmissões da “TV Parlamento”, seus arredores são repletos de cangurus, ainda que eu nunca tenha visto um pulando por lá, fato que virou piada para meus dois camaradas locais com quem discutia receitas para preparar aquela levíssima carne.

Só dois meses depois eu viria um canguru fora do meu próprio prato!

Sydney, finalmente uma metrópole. (Ainda que o Rio de Janeiro deva ter o dobro de gente na metade da área). É inegável que Sydney é a ‘capital não oficial da Austrália’, repleta de turistas e bares, mais bares e é claro, mais bares! Sydney lembra um pouco o Rio. (Metade das cidades do mundo me lembram o Rio.) Mas a mistura é quase a mesma, baía e praia oceânica, ponte, sol, praia, mulheres de biquíni, bêbados fanáticos por esporte e muito asiático. (Ok, não há tantos asiáticos assim no Rio.) Por aqui, eles já chegam à casa dos 30%. Chineses, filipinos, malaios, indonésios, japoneses, indianos, paquistaneses, bangladeshis, coreanos, enfim, uma mistura de noodles com curry.

Há também os aborígenes, mas estes mal os vejo. Por trás da simpatia e hospitalidade, a Austrália ainda não resolveu muito bem a questão de identidade. Devastados por doenças, alcoolismo, criminalidade e privados do reconhecimento de seu status de ‘primeiros australianos’, os aborígenes que restam vagam pelas ruas exibindo um olhar vazio, perdido, assustador. Ainda assim, não basta culpar os australianos brancos, a costura é frágil e muitas vezes escuto imigrantes naturalizados a criticar o país de uma forma um tanto grosseira.

Foi na Austrália que sofri preconceito claro pela primeira vez. Um motorista de táxi Leste-Africano ficou curioso em saber porque eu e minha mulher estávamos a falar algumas palavras em árabe, mas não gostou muito de ouvir que éramos judeus (e no caso dela, israelense).

Mr Speaker, não se assuste! A Austrália não é um lugar ruim! A qualidade de vida é altíssima, tanta que não são poucos os profissionais europeus se mudando para cá. O mercado de trabalho também é enorme, de Tecnologia da Informação a torneiro mecânico, há vagas para todos. Esse é o lar de gente generosa, gente que mandou seus filhos para lutar na 1ª Guerra Mundial mesmo sem serviço compulsório, gente que absorveu enorme quantidade de imigrantes (somente Israel possui um número de imigrantes por habitante superior ao da Austrália) e gente que foi capaz de dar novas formas à comida oriental. Sydney e Melbourne são duas das capitais da chamada culinária Fusion e ótimos lugares para se descobrir novos sabores, basta que eles passem pela rigorosa quarentena! :-)

Tags: Depoimentos · Ásia Sudeste & Pacífico

O mundo visto pelos leitores: Israel

20/December/2007 · 129 Comentários

Por Gabriel

Todo ano, em Israel, há um dia no qual é tocada uma sirene no país inteiro para relembrar o Holocausto. O coração da gente gela, todo mundo pára e lembramos em que país a gente vive.

Tel Aviv é o que há. Ruazinhas mal planejadas ainda na década de 20, arborizadas e cheias de carros estacionados por todos os cantos. Arquitetura Bauhaus dos anos 30, espigões de aço e de vidro dos anos 90 e 00, predinhos caindo aos pedaços dos anos 50. Jovens de lambreta, de bicicleta, de patins, a pé, com ou sem seus cachorros. Religiosos, hippies anacrônicos, estudantes, casais de gays de mãos dadas… a única coisa que não anda por Tel Aviv é o trânsito. A única coisa que não se encontra em Tel Aviv é estacionamento. Têm rodinha de pedreiros chineses rachando um rango na Yarkon, de frente ao mar, quase em Yafo. Tem rodinha de aposentados marroquinos jogando conversa fora e falando mal do governo. Rodinha de religiosos devotos do Rabi Nachmad de Uman, cantando ‘Festa no Apê’ com letra reescrita em hebraico exaltando o tal Rabi no meio da faixa de pedestre durante o sinal fechado.

Em Tel Aviv tem muita, mas muita mulher bonita. Descendentes de poloneses, alemães, iraquianos, iranianos, marroquinos, romenos, etíopes, argelinos, iemenitas, búlgaros, russos, turcos… e a mistura disso tudo com qualquer outra coisa também. Minha esposa consegue ser descendente de romeno, polonês, marroquino e de argelinos – e tem cara de brasileira.

Em Tel Aviv também tem praia. São mais ou menos limpas, com a água mais ou menos suja, muito fria no inverno, e morna no verão. Praias entupidas nos finais de semana. Cheias de arsim e farofeiros. Mas sempre divertidas para quem gosta de musica oriental (estilo árabe) em volume bem alto e gente falando gritando. E frescobol que, aliás, os israelenses acham que inventaram. Durante a semana e/ou inverno as praias ficam cheias de gente da cidade fazendo esporte, bebendo um chope ou praticando a arte milenar de levar fora das mulheres.

Como são praias de enseada, em geral a faixa de areia é menor do que encontramos no Brasil, o que facilita na hora de fechar com muros e cercas. As praias dos religiosos têm que ser assim: homens de um lado, mulheres do outro. Nas outras praias, a maioria das mulheres usa um biquíni que, no Brasil, iria ser considerado não só ultra-conservador como também terminaria aproveitado como modelo de fralda descartável. Graças a Deus esse desastre está saindo de moda. Fio dental são poucas, mas geralmente bem selecionadas. Topless, só em Eilat. Mas aí são cinco horas de carro numa estrada meio perigosa para ver peito…

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Tags: Depoimentos · Israel e Palestina

O mundo visto pelos leitores: Irã

13/December/2007 · 76 Comentários

De um leitor Anônimo

Teerã é meio parecida com São Paulo, uma megalópole caótica com lá seus encantos. É uma cidade limpa, muito asseada, particularmente bonita no inverno, quando neve a cobre toda e se tem uma visão magnífica dos Montes Alborz, aos pés dos quais a capital se espalha. Nem parece Oriente Médio. A parte norte, onde reside a classe média alta secularizada e ocidentalizada, é bastante arborizada, com parques e praças muito bem cuidados. É onde vivo. O antecessor do Ahmadinejad na prefeitura de Teerã, Gholamhossein Karbaschi, realizou grandes obras paisagísticas por aqui.

Por aqui, cada dia levam menos a sério o Ahmadinejad – e isso inclui o povo que o elegeu. Com a classe média urbana de Teerã, ele não é nem um pouco popular. Seu apoio vem do sul da capital e do interior, sobretudo nas cidades mais conservadoras, como Mashad e Qom. Parece que ele foi um bom prefeito de Teerã, ganhou fama de honesto, se elegendo presidente com a promessa de acabar com a corrupção e botar o dinheiro do petróleo na mesa do povão. Para mim, ele é a versão iraniana do Jânio Quadros. Mas o que está acabando com sua popularidade é a condução desastrosa da economia. Embora devamos levar em conta as restrições mais rigorosas aplicadas contra o país nos últimos meses, elas não são as únicas responsáveis pela deterioração rápida de todos os indicadores econômicos: inflação, custo de vida, desemprego, taxa de juros, nível de renda. Ahmadinejad trocou vários quadros técnicos do Governo Khatami e colocou pessoas de sua confiança, sem experiência, nos cargos.

Os iranianos são abertos e cosmopolitas, uma gente bem informada que acompanha o que se passa no mundo com interesse. O nível educacional é alto. Mesmo na parte sul da cidade, onde moram os mais pobres, não é raro encontrar famílias com cinco ou seis filhos, todos com diploma universitário. Eles se orgulham de sua civilização, que remonta à Pérsia aquemênida. Para eles, receber bem estrangeiros é um traço superior de sua cultura. Ser um bom anfitrião é quase uma obrigação civilizacional. O único vizinho com quem me relaciono é meu senhorio, um sujeito muito gente boa. E as mulheres formam boa parte da força de trabalho do Irã, inclusive no serviço público e na polícia. Dizem que elas já são mais da metade dos estudantes universitários.

Aqui na capital, onde a maioria da população é de etnia persa, todo mundo fala a língua oficial, farsi, que é o persa moderno. Mas se perguntarem alguma coisa para os peões de obra ou para os zeladores de edifício no meu bairro, eles provavelmente responderão em dari, a variante do farsi falada no Afeganistão. A maioria dos imigrantes são afegãos que vêm trabalhar como mão-de-obra não-qualificada e o segundo maior grupo é composto pelos refugiados iraquianos que se estabeleceram depois da Primeira Guerra do Golfo. Teerã está também cheia de diplomatas e expatriados como eu, que trabalham em multinacionais. O resto da população nativa é composta pelas etnias azeri, armênia, curda, turcomena e balúchi, que normalmente fala o farsi como segunda língua, e mantém sua língua materna em casa.

A vida noturna é dentro de casa. Os iranianos fazem muita festa, convidam de amigos para casa e ficam dançando até altas horas – só tomam algumas precauções para evitar problemas com a polícia. Paquera é mais complicado. O rapaz ou a garota estão caminhando na rua ou de carro no trânsito. Quando um se interessa pelo outro, o aborda e oferece ou pede o número do telefone celular. Se a coisa for adiante, eles marcam um encontro num café ou na casa de um amigo. Um dos grandes eventos sociais de Teerã são os engarrafamentos da quinta-feira à noite, quando a garotada troca números de celular adoidado.

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Tags: Depoimentos · Irã

O mundo visto pelos leitores: Índia

6/December/2007 · 117 Comentários

Por Ricardo

Quem chega à Índia pela primeira vez através de Bangalore, nota primeiro os suntuosos prédios da poderosa indústria de tecnologia da informação indiana. Um olhar mais apurado vai além: um simples trajeto do aeroporto ao hotel mais próximo é o suficiente para assustar pelo caos do trânsito e poluição, assim como encanta a beleza dos jardins da cidade.

Nas calçadas, as sáris vestidas pelas mulheres, roupa que cobre-lhes o corpo todo, em geral bordados à mão em cores vibrantes e com alguns penduricalhos, sempre incrivelmente belos, capturam a atenção. Mas nem todas as usam. Bangalore, no centro-sul indiano, é uma cidade bem ocidental e isso se traduz nas roupas. Não se vê moças de shorts ou saias mas, fora isso, os trajes não seriam muito diferentes daqueles no Brasil.

Ocidental é um termo chave aqui. A maioria das grandes multinacionais de tecnologia está presente – Microsoft, Google, Yahoo, Nokia, Motorola, HP. No entanto, ainda que se trate de um dos centros mais ocidentalizados do país, tudo é tão diferente. Moro na Índia, onde faço um mestrado em tecnologia da informação, desde julho. A chegada não foi fácil e mantenho um blog onde relato o choque que foi a primeira semana.

É difícil dizer se Bangalore é bonita ou feia. O que há são contrastes: num mesmo bloco, às vezes convivem prédios suntuosos e a miséria absoluta, gente que vive em tendas sem qualquer infra-estrutura. Há bairros só de casas e prédios de luxo, bem arborizados e cuidados. Não é muito diferente de uma grande cidade brasileira.

Se eu tiver que apontar um, diria que o maior problema da Índia ainda é a desigualdade social. Convive-se com a pobreza no dia-a-dia e ela é evidente por toda parte. Almoço em restaurantes onde os garçons ganham menos de 80 reais por mês. Numa construção ao lado de meu instituto, um dos mais ricos e prestigiosos do país, operários recebem 1 dólar por dia de trabalho – e é trabalho árduo, 12 horas debaixo de sol e chuva com apenas 30 minutos de intervalo. Para economizar, inclusive, muitos optam por dormir no próprio local, em casebres de madeira e telhas de alumínio, sem qualquer condição de higiene. Também são comuns casos de exploração do trabalho infantil.

(A pobreza não faz da Índia um país violento e não há tráfico de drogas. Se há um perigo que algum turista corra, não é o de assalto; é o de cair em golpes que o levam a pagar mais do que o devido numa transação.)

Não dá para falar da Índia sem mencionar que foi colônia britânica até 1947: algumas cicatrizes desse período ainda estão abertas e a principal talvez tenha a ver com o sistema de castas. Apesar de ser atribuído ao hinduísmo, alguns estudiosos defendem a idéia de que este sistema foi interpretado de maneira a enquadrar socialmente os indianos na cultura inglesa, exacerbando um conceito que, do ponto de vista religioso, nem era tão significante. (Muitas escrituras do hinduísmo sequer fazem referência às castas.)

Converso abertamente sobre este assunto, mas percebo certa resistência de meus companheiros indianos quando a pergunta é mais capciosa. É comum, por exemplo, que desconversem quando pergunto se lhes incomodaria estudar na mesma sala de aula que alunos da casta Dalits, os ‘intocáveis’. (Note que este sistema foi proibido na Índia, então o preconceito fica só nas entrelinhas.)

Logo após a independência, o primeiro primeiro-ministro Nehru, que era extremamente popular, dedicou-se a apaziguar estas diferenças e tentou colocar o país entre as grandes potências mundiais. Para isto, não mediu esforços ao investir em universidades e centros de pesquisa. Ele não tinha dúvidas de que a educação seria essencial para o progresso.

É o que explica, em parte, a falta de dedicação aos esportes. O esporte mais popular é o cricket e, dos outros, mal se fala. O que os pais acreditam, mesmo, é que seus filhos só obterão sucesso profissional com dedicação aos estudos. A maioria quer se tornar gerente ou diretor em empresas no exterior, principalmente no setor de tecnologia.

Quem é pobre tem acesso mínimo a educação, cultura, lazer. Nas escolas, para os privilegiados, além do básico ensina-se hindi (uma das línguas oficiais e mais faladas do país), inglês (herança colonial que se manteve por interesses econômicos) e a língua oficial do estado. Não há consenso quanto ao total de língua faladas no país, mas oficialmente são reconhecidas 15 (só aqui, onde estudo, escuto diariamente pelo menos quatro – hindi, kannada, tamil e inglês). O inglês dos mais instruídos é muitas vezes meio enrolado devido a um sotaque característico muitas vezes incompreensível.

Os pais – o pai, principalmente – exercem grande influência sobre qualquer escolha de um filho. Ninguém se casa, por exemplo, sem aprovação paterna. O caso da mulher é ainda mais rigoroso: Se ela não encontra namorado até certa idade, os pais arranjam um, sem que ela tenha muito direito a escolha. Me dizem que isso já não é mais tão comum nos grandes centros, mas não é a impressão que tenho quando converso com casais amigos. Os mesmos não podem morar juntos nem casar sem a aprovação dos pais. Aliás, a própria menção da namorada aos pais é tratada com cautela pelos filhos. Fiquei na casa dos pais de um amigo e não pude mencionar sua namorada em nenhum momento.

Não faz calor em Bangalore, o que é raro na Índia. No inverno a temperatura chega a um mínimo de 15 graus e no verão não passa dos 30, 35. Delhi, no outro extremo, chega a bater os 50 graus no verão é extremamente úmida.

Os indianos são atenciosos e extremamente educados. Meus vizinhos responderam com paciência minhas perguntas mais esdrúxulas, independentemente do tópico. Certa vez perguntei a um o porquê dos casais não se beijarem em público. ‘Você faria sexo em público no Brasil?’, me perguntou de volta. ‘É a mesma coisa, porém com grau maior de rigor’. Grau de rigor bem maior: o homem corre o risco de ser apedrejado se for pego aos beijos em público e a mulher periga ser considerada prostituta para o resto da vida. Num caso recente veiculado na TV aqui, um homem beijou a força uma mulher e a mesma cometeu suicídio por conta disto.

São todos também muito religiosos. A principal religião é o hinduísmo, difícil de explicar em poucos parágrafos. Ela tem origem na religião Védica e acredita-se que, quando Brahma tomou ciência de que o mundo existia, todo o resto então passou a ’ser’. É uma religião com inúmeras divindades, lendas e festividades vinculadas a ela; a mitologia hindu é interessantíssima. A maioria dos feriados são religiosos e todos os celebram rigorosamente. Presenciei dois festivais ricos em sons hipnóticos, cores vibrantes e cheiros fortes dos incensos queimados. Mas há divergências de uma região para outra: uma festa religiosa no sul pode ter significado bem diferente no norte.

Dada a imensa quantidade de pessoas que vivem por aqui, o país acaba abrigando também grandes quantidades de mulçumanos e católicos, além claro de outras religiões locais como budismo e sufismo.

Para encerrar, alguns fatos breves. O governo é tão ou talvez mais corrupto que o brasileiro. Subornos são comuns, principalmente como forma de acelerar a burocracia. Um detalhe positivo é que a Índia possui no momento um governo de minorias: A presidente, pela primeira vez, é uma mulher, e o primeiro-ministro é o primeiro membro da religião Sikh a ocupar tal cargo. As televisões que assisti possuem canais do mundo todo e vários locais em línguas que ainda não consigo distinguir. A Índia é também grande produtora de filmes e a reprise de produções nacionais é comum na tevê. Novelas também são comuns: só o canal de maior audiência exibe 9 novelas diárias. Finalmente, festas, no melhor estilo brasileiro de virar a noite, não existem em Bangalore. A cidade tem restrições quanto a horários e tudo fecha a meia-noite. Parece até Cinderela.

Este post é o primeiro da série O mundo visto pelos leitores. Para compreender o que é, leia o post Este Weblog quer ouvir você.

Tags: Depoimentos · Ásia Sudeste & Pacífico