O incrível Taro Aso, um premiê japonês
popular que ajuda Obama no Irã
Poucos pacotes econômicos para combate à crise global têm o escopo do japonês. Não no valor – são 150 bilhões de dólares, bem menos do que na maioria do mundo desenvolvido – mas na ampla distribuição. Na conta, sobra até dinheiro de graça. Todo residente no país – incluindo estrangeiros – tem direito a sacar 12.000 yenes (120 dólares, 260 reais) para fazer o que bem entender.
Taro Aso, o premiê japonês, tem até algo que premiês japoneses não conseguem faz décadas: popularidade. O Japão é o país em que mais se lê jornal do mundo e o esporte nacional é criticar políticos. Dado que o sistema é parlamentarista, em que os primeiros-ministros têm flexibilidade para convocar eleições, Aso anda incrivelmente apressado.
Seu Partido Liberal Democrata esteve no comando por quase todos os últimos 60 anos e seus chefes costumam deixar o governo por meio de renúncias midiáticas para evitar derrotas eleitorais. O sujeito novo assume sempre, evitando uma vitória da oposição.
Só que Aso tem sorte. Desta vez – contrariando a regra japonesa – o escândalo de corrupção vem do campo oposicionista. Takanori Okubo, um dos principais assessores de Ichiro Ozawa, líder do Partido Democrata, está respondendo a um processo por angariar ilegalmente fundos para campanha. Seu partido não tem a menor vontade de enfrentar qualquer eleição, no momento.
O enfoque do pacote econômico de Aso é distribuir subsídios para pequenas e médias empresas que se comprometam a não demitir. A crise vem sendo particularmente cruel com os pobres. Desde setembro, quase meio milhão de japoneses perderam seus empregos e os programas sociais são os mais escassos do mundo desenvolvido. 77% dos desempregados não ganham qualquer auxílio desemprego – nos EUA, este índice é de 57% e, na Alemanha, 13%. A expectativa é que o número de desabrigados esteja para aumentar violentamente.
É uma situação de crise social profunda e, portanto, momento curioso para um premiê ser tão popular. Mas trata-se do Japão onde as regras que valem no resto do mundo são curiosamente ignoradas.
O segundo elemento do plano de resgate econômico japonês envolve obras de infra-estrutura e substituição da base energética por fontes renováveis – principalmente energia solar. Nos EUA e na Europa, o plano vem sendo esse. Os governos estão aproveitando a crise e o fato de que terão de injetar uma quantidade brutal de dinheiro na economia para investir pesadamente contra combustíveis fósseis.
As relações no exterior também andam boas. O governo Aso foi convocado a auxiliar os EUA em suas relações com o Irã, uma das prioridades do governo Obama. Os japoneses têm uma boa relação com o Cazaquistão, um dos maiores produtores de urânio – combustível para usinas nucleares – do mundo. Washington deseja que o Japão, com o Cazaquistão, costurem um acordo que viabilize a exploração civil de energia nuclear pelos iranianos. É um plano delicado e um voto de confiança diplomática e tanto.
Mas se a política sorri para o conservador partido que comanda o Japão há tanto tempo, a crise ainda está longe de ser resolvida. A impressão do povo é de que alguém está no comando da crise. Mas, se ela não for resolvida, a falta de uma malha de segurança social pode começar a corroer rapidamente esta popularidade.



