Obama inicia conversa sem pré-condições com Coreia do Norte

5/08/2009 - 08h02 - 99 Comentários

Em 1994, Jimmy Carter visitou a Coreia do Norte e esteve com o então ditador Kim Il-sung. O presidente Bill Clinton não gostava da ideia. Não é sempre que as aventuras diplomáticas de Carter dão certo e a estratégia norte-americana era a de isolar o ditador coreano o máximo possível. Mas, naquele caso, a visita de Carter deu certo. Até então, os EUA estavam decididos a promover um ataque aéreo que destruísse o sítio de obras de instalações nucleares. Carter retornou com uma proposta de diálogo que congelou o projeto norte-coreano por quase uma década.

Oficialmente, nada é oficial.

Bill Clinton, agora um ‘homem privado’, entrou na Coreia do Norte em uma avião sem qualquer identificação com a missão exclusiva de soltar as repórteres Laura Ling e Euna Lee, da TV Current.

Estive na Current, em San Francisco. É uma operação miúda com alta tecnologia. No pequeno prédio de tijolos vermelhos esmagado por dois arranha-céus, a sala de Al Gore, toda envidraçada e com um enorme pôster do planeta Terra na parede, se destaca. A operação é tão pequena que não tem muitos jornalistas além de Robin Sloan, um sujeito jovem mas talvez a cabeça mais criativa na união entre tevê e internet que há nos EUA. A Current de Al Gore funciona contratando freelancers. As repórteres não são suas empregadas. Propuseram uma matéria, a turma topou. Era muito mais arriscado do que parecia a primeira vista.

(Vida de repórter online, independente, é bonito; ter uma grande empresa jornalística para defendê-lo em caso de algum problema em missões delicadas é fundamental. As moças tiveram a sorte de ter por chefe o ex-vice-presidente dos EUA.)

Já estava garantido a Clinton que, se ele viesse e conhecesse o filho de Kim Il-sun, Kim Jong-il, ele voltaria com as moças. Deu certo. Obama, oficialmente, não falou com o ex-presidente. Mas não é coincidência que Clinton, além de ex-presidente, é também marido de quem comanda a diplomacia norte-americana. E que, a seu lado, estava John Podesta, assessor informal do atual presidente. A missão de Clinton só era informal em nome. Trancado por trás das portas, ele e Kim Jong-il não conversaram apenas sobre as moças.

Durante a campanha presidencial, Barack Obama disse que seu governo negociaria sem estabelecer pré-condições com qualquer outro governo. Na época, Hillary Clinton fez graça.

Pois Obama acaba de começar a fazê-lo. Através de um Clinton.

E se a Guerra da Coreia voltasse?

9/07/2009 - 10h42 - 60 Comentários

Em seu blog, o editor de internacional do Financial Times, Gideon Rachman, destaca uma análise de Zhang Lianggui, um dos principais especialistas chineses em Coreia do Norte.

O professor acha que a Coreia do Norte está se preparando para uma guerra.

A análise chamou atenção de Rachman por um motivo: foi publicada, inicialmente, num veículo oficial do governo chinês. E os chineses não costumam ser alarmistas ou abertamente críticos ao governo de Kim Jong Il. Diz o professor:

A probabilidade de um conflito na península coreana é alta. Provavelmente terá início no mar e poderia se alastrar além do paralelo 38 rapidamente. Se uma guerra estourar, é difícil prever o resultado. Os norte-coreanos acreditam ter armas nucleares e que isto faz deles mais fortes. Eles acreditam ter superioridade militar sobre o sul e que uma vitória seria inevitável.

Zhang Lianggui considera que reverter a capacitação nuclear da Coreia do Norte deveria ser prioridade na política externa chinesa.

Uma construção posto que é domingo

5/07/2009 - 10h21 - 14 Comentários

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Kim Jong-Il tem sucessor oficial

2/06/2009 - 13h14 - 37 Comentários

Kim Jong-Un, filho caçula do ditador norte-coreano Kim Jong-Il, acaba de ser designado oficialmente como sucessor do trono comunista.

Neste meio tempo, mui discretamente, os EUA começaram a vender bombas arrasa bunker para a Coréia do Sul.

Embora nenhuma afirmação garanta que Kim Jong-Il está para deixar o governo, seu filho trará pelo menos uma mudança ao fechado governo norte-coreano. Kim Jong-Il, de quem não se sabe muito, foi educado entre a União Soviética, a China e seu país. Embora tenha freqüentado a Ilha de Malta para aprender inglês, durante os anos 1970, não é lá um homem muito viajado.

Kim Jong-Un, por outro lado, foi educado na Escola Internacional de Berna, na Suíça, falando inglês. Também é fluente em francês e alemão. Seus colegas não sabiam de quem se tratava – oficialmente atendia por outro nome e era filho do motorista da embaixada, fã de Michael Jordan e basquete da NBA, de Jean-Claude Van Damme. Uma educação ocidental, portanto, no coração da Europa, poliglota.

Fará diferença? Uma das dificuldades que diplomatas encontram com Kim Jong-Il é seu provincianismo. Ele não tem muita noção de como é o mundo fora de seu país, que conhece mais pelo cinema do que de fato.

Coréia do Norte, ninguém de olho nos EUA

29/05/2009 - 09h21 - 89 Comentários

Informação interessante: o responsável no momento pela diplomacia dos EUA com a Coréia do Norte é Stephen Bosworth. Não é um trabalho ao qual dedica todo seu tempo. Bosworth é também reitor da Fletcher School of Law and Diplomacy, em Boston.

um motivo por não haver alguém inteiramente dedicado à Coréia do Norte. Em abril, Obama nomeou Kurt Campbell, um ex-oficial da Inteligência da Marinha e diplomata de carreira para o cargo. Mas seu nome ainda não foi aprovado pelo Senado.

Que passa com a Coréia do Norte?

27/05/2009 - 11h47 - 211 Comentários

O governo dos EUA considera que a Coréia do Norte deve fazer um novo teste nuclear nos próximos meses. Estão desafiando, mesmo. Mandando um recado para o mundo: se afaste de nós.

É uma situação delicada – talvez a mais complexa que existe na diplomacia. Ninguém gosta do regime da Coréia do Norte e todos desconfiam do país. Nem os mais bitolados à esquerda a defendem como defendem o Irã, por exemplo. Tampouco os mais rábicos à direita metralham a necessidade de sua invasão imediata. Ponha um pé militar na Coréia do Norte e mísseis serão disparados contra a Coréia do Sul de presto. Má ideia.

A questão que perturba qualquer conversa, no momento, é a saúde do ditador, Kim Jong-Il. Seus filhos são todos muito jovens para assumir o poder. (O favorito é o caçula, Kim Il-Sung, que tem por volta de 25 anos, ninguém sabe ao certo.) Quando provavelmente sofreu um derrame, em agosto passado, Kim Jong-Il alçou ao Conselho de Defesa Nacional seu cunhado, Jang Song-Taek. Ele agora é o número dois do país, provavelmente a pessoa responsável pelo governo quando o líder está mal. E, possivelmente, o futuro regente.

O recado para que todos se afastem tem motivo de ser: a Coréia do Norte está tratando de sua sucessão governamental.

Trata-se de uma ditadura estranha. Não é apenas o país mais misterioso do planeta, onde quase ninguém entra. É uma ditadura cruel com a povo ao qual impõe fome com relativa frequência. Mas o povo corresponde a apenas metade da população. A outra metade dos 24 milhões de habitantes são as ‘elites’, membros do Partido Comunista e suas famílias, funcionários públicos e militares todos, a gente que aparece nos desfiles e que vive uma vida razoavelmente organizada, com apartamento pago e comida na mesa.

(É um país misterioso, por certo – mas já é possível fazer um tour virtual. Curtis Melvin, aluno de doutorado da Universidade George Mason, vem construindo um mapa detalhado do país usando Google Earth e tudo quanto é pequena notícia publicada na imprensa. É um processo de inteligência aberta, inteligência pública. Lá estão campos de prisioneiros, praias da elite, palácios, plataformas de lançamento de mísseis…)

Promessas que Obama não cumprirá (1 de 3)
Conversas incondicionais com inimigos

20/10/2008 - 11h59 - 45 Comentários

Como todo político, durante sua campanha Barack Obama fez promessas e algumas delas definiram como ele é percebido pelo eleitorado. Neste momento, Obama tem mais chances de ser eleito presidente do que John McCain.

Este é o primeiro de uma série de três posts: as promessas que Obama não será capaz de cumprir, caso chegue à presidência. Os outros virão amanhã e quarta-feira.

Na quinta e na sexta-feira, haverá uma outra série, esta de dois posts. O que é possível saber nos programas e promessas de John McCain (na quinta) e Barack Obama (na sexta) que interferem no Brasil.

Mas, antes, a uma introdução. É um fato da política que é impossível passar por uma campanha sem promessas que não serão cumpridas. Por isso mesmo, o trabalho de escolha do eleitor sofisticado não é simples. Ele precisa entender que políticos exageram e que, sem exageros, não conseguem se eleger. Este eleitor precisa ser tolerante, também, com uma certa dose de alianças. Precisa compreender que políticos precisam se unir a outros e que este processo nem sempre é bonito.

A maioria do público cobra afirmações peremptórias e certezas, mas a arte de governar é cheia de indecisões e improviso; verdades pétreas, dogmas, não têm espaço. As promessas devem ser compreendidas – vindas de qualquer político – como uma tendência a uma determinada posição, mas não como uma posição imutável. Isto posto:

Barack Obama não se encontrará incondicionalmente com chefes de Estado.

Em julho de 2007, durante o debate CNN/YouTube, Obama foi perguntado se ele se encontraria incondicionalmente com os líderes de países como Coréia do Norte, Irã, Cuba e Venezuela. Ele respondeu categoricamente: sim. Na seqüência, Hillary Clinton informou que ela, enquanto presidente, pessoalmente, não o faria. Mas que seu governo investiria sim em diplomacia. Gente nos segundo e terceiro escalões procurariam conversas. Hillary estava simplesmente repetindo aquela que é a política do Partido Democrata há décadas. Não há nenhum mistério aqui. O governo George W. Bush tentou inovar ‘punindo’ países com ausência de diplomacia. Não conseguiu rigorosamente nada, acirrou alguns ânimos, e teve que se engajar agora no fim. Aqui está a resposta que iniciou tudo:

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É impossível saber porque Obama, naquele dia, disse que se encontraria pessoalmente com Kim Jong-Il e seus pares. Eram debates com muitos candidatos nos quais a maioria dos eleitores não estava prestando atenção. Talvez ele mesmo, distraído, tenha achado que a pergunta se referia a seu governo e não a ele mesmo. O fato é que foi uma resposta tão diferente que ganhou manchetes nos dias seguintes. Obama se destacou, talvez por acidente. E, como é pecado mortal voltar atrás numa afirmação, Obama ficou preso a ela.

Durante as primárias, a afirmação agiu em seu favor. O que os pré-candidatos democratas tinham para diferenciar um do outro, afinal, eram suas personalidades. A plataforma de todos eles é a plataforma do Partido. Diferenças mínimas de opinião. Quando a eleição se acirrou entre Hillary e Obama, eles se agarraram aos pequenos detalhes para se distanciarem um do outro. E, naquele momento, as ‘conversas incondicionais’ viraram um tema forte. Hillary batendo, Obama defendendo. Ao insistir tanto no caminho da responsabilidade, Hillary se colocou numa posição que parecia criticar a diplomacia. Estava mais próxima das políticas de George W. Bush do que de sua oposição. Como disputavam o comando do partido de oposição, este foi um dos fatores que fortaleceu Obama e a enfraqueceu.

Mas, desde que as eleições presidenciais de fato começaram, muito cautelosamente, para que ninguém o acuse de flip-flop, de vira-casaca, Obama tem voltado atrás. Conversas incondicionais com líderes? Claro, mas com negociações preparatórias antes, disse em um debate. Mahmoud Ahmadinejad não é realmente o líder do Irã, alertou numa entrevista, dizendo que com Ahmadinejad provavelmente não se encontrará. Talvez com o aiatolá Khamenei.

A mensagem importante aqui é: enquanto presidente, Barack Obama vai investir pesadamente em diplomacia. Ele estará disposto a se encontrar com líderes estrangeiros para grandes acordos. Mas nenhum encontro do tipo será incondicional. Esta é uma promessa que ele não cumprirá.

Mudança na Coréia do Norte

9/09/2008 - 12h09 - 17 Comentários

Kim Jong Il pode ter tido um derrame? Os rumores são intensos.

As celebrações dos 60 anos do país, que é hoje, foram diminuídas consideravalmente e o presidente não apareceu.

(Não custa lembrar que rumores muitas vezes são infundados E Kim Jong Il é um excêntrico que faz o que quer.)

Bush se encontrará com Kim Jong Il
(As coisas mais estranhas acontecem)

29/07/2008 - 09h48 - 35 Comentários

No próximo dia 8, se cumprir sua palavra e algo excepcional não ocorrer, George W. Bush estará em Beijing para assistir ao lado do anfitrião Hu Jintao a abertura dos Jogos Olímpicos.

Não distante dele estará Kim Jong Il. O convite ao ditador norte-coreano foi feito oficialmente mas ainda não há resposta. Jong Il está com algumas viagens internacionais marcadas para este período ali pelas redondezas. Como seu país depende da China, não seria diplomacia das mais hábeis furtar-se à visita.

Assim sendo, periga acontecer pela primeira vez o encontro acidental entre o presidente dos EUA e um ditador da Coréia do Norte.

Barack Obama perdeu essa.

A.Q. Khan, o vendedor dos nukes
paquistaneses rompe silêncio

2/06/2008 - 17h38 - 41 Comentários

Em 2004, o físico Abdul Qadeer Khan foi à televisão paquistanesa, caiu aos prantos, e admitiu ter vendido o segredo da bomba nuclear para o Irã, a Coréia do Norte e a Líbia. O pai da bomba de seu país, um herói nacional, está em silêncio desde então. Ou estava. O jornal britânico The Guardian o entrevistou.

A.Q. Khan retira o pedido de desculpas. Diz que foi forçado pelo presidente Pervez Musharraf. E diz que não pretende jamais cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU. “Por que deveria conversar com eles? Não tenho qualquer obrigação. Não somos signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear e não quebrei qualquer lei internacional.” Os detalhes da rede de distribuição de informação e material nuclear são “problemas que dizem respeito a mim, a meu país e a ninguém mais”.

O cientista nem nega, nem confirma ser o fornecedor de informação e material. Diz que o segredo da bomba paquistanesa veio do ocidente e que quem quiser e tiver dinheiro tem onde comprar segredos e material no próprio ocidente. Isto inclui Coréia do Norte e Irã.

Há um assunto sobre o qual ele não fala: dizem que ele foi o bode expiatório e que assumiu a culpa da venda que na verdade cabia a um círculo de generais. “Não falo sobre isso, é melhor esquecer.”

via Gideon Rachman

A China como ela se vê 3: Hegemonia mundial

21/03/2008 - 08h08 - 48 Comentários

Na visão de Yang Yi, um almirante na Marinha chinesa dentre os principais pensadores da estratégia do país, os EUA estão em vantagem militar e cercam a China. A vantagem não é dada pela quantidade ou modernidade de armas. Os EUA não precisam disso porque o cerco é muito mais sutil – está no argumento. Sempre que a China procura modernizar ou ampliar seu poderio militar, de presto ela é apresentada como ameaça. E o mundo compra esta idéia. Para Yi, a impressão de que a China é uma ameaça militar acaso decida se armar é o maior obstáculo de sua política externa.

Este é o terceiro e último post baseado no artigo de Mark Leonard na Prospect. Leonard é autor de What does China think?, à venda na Amazon dos EUA e do Reino Unido. O assunto de hoje é a relação da China com o resto do mundo.

Hoje, o pensamento hegemônico – embora não unitário – na China passa ao largo das opiniões de Yi. A palavra de ordem é quanli, equivalente ao soft power norte-americano. A diplomacia do país busca ações que vendam a idéia do ’sonho chinês’ em oposição ao americano. Daí que, enquanto os EUA falam de mudança de regime pelo mundo, Beijing defende o respeito à soberania dos países. A mensagem que querem passar é que a China representa crescimento econômico, soberania política e respeito às leis internacionais. A idéia é: a China ouve outros países. E é esta China que aceita o papel de mediadora em conversas com a Coréia do Norte ou o Irã.

Este é um ponto de vista particularmente defendido pela ‘nova esquerda’ do país. Gente como Yi representa o equivalente aos neo-conservadores e estes recorrem aos antigos pensadores da terra propondo um novo projeto. Há, dizem eles, dois tipos de influência. Wang é a influência do rei. O rei lança uma influência benigna ao longe; no outro lado está Ba, o ’senhor feudal’. Ele impõe pela força seu comando. Na antiguidade, propõem Yi e Yan Xuetong, a China aplicava tanto um quanto o outro. Para os vizinhos imediatos, Ba; para os países mais distantes, Wang.

Por enquanto, a China está empenhada em parecer conciliadora. Enquanto a Rússia não perde uma chance de provocar os EUA, a China se desvencilha de conflitos. Quando, na ONU, o Conselho de Segurança estava embrenhado na questão de ir ou não à guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, os chineses se calaram, permitindo aos russos e franceses que vocalizassem a oposição. Na questão dos direitos humanos, a China permitiu que os países muçulmanos se levantassem contra regras mais rígidas. Conseguiu o resultado que queria sem se expor ao desgaste. O resultado desta política é o seguinte: Em 1995, os EUA venceram 50,6% das votações na Assembléia Geral da ONU; em 2006, apenas 23,5% delas. George W. Bush não ajuda, evidentemente. Mas para aproveitar a fraqueza do inimigo carece esperteza. Em 95, a China venceu 43% das votações; em 2006, 82%.

Habilidade no jogo diplomático não quer dizer que a China vença o jogo de percepção – e este é o centro do argumento do almirante Yi. Ao promover o respeito à soberania de todas as nações, o cada um faz o que achar melhor, lava cinicamente as mãos perante o genocídio de Darfur, no Sudão.

A África é muito importante para a China. Em 2007, o país criou uma Zona de Economia Especial que engloba o continente. Seu modelo de crescimento está sendo implantado em vários bolsões pelo continente. Com o dinheiro chinês, a África dá as costas para o FMI e o velho sistema internacional. Tem crescido a partir de investimentos maciços. Estradas de ferro e indústrias, obras de infra-estrutura, surgem onde antes só havia miséria. O agrado à África dá de volta à China petróleo, produtos, influência. Não vem sem custo: a impressão de que há um imperialismo em curso e, principalmente, de que a China não liga para as piores aberrações. À China, tudo vale.

Não é que com os EUA seja diferente. Apenas que o almirante Yi está certo. No jogo de percepções, ainda há um longo caminho a percorrer. A crise da última semana, no Tibete, só mostra duas coisas: o fato de ser uma ditadura e, portanto, simplesmente ignorar as questões de direitos humanos persistem sendo o maior obstáculo ao ingresso da China no universo das superpotências.

O futuro da Coréia do Norte

16/10/2006 - 00h01 - 49 Comentários

Robert Kaplan, editor da excelente Atlantic Monthly, escreve um igualmente excelente artigo sobre a Coréia do Norte para o Aliás do Estadão. Para quem quer entender o inacreditável Kim Jong Il, vale cada linha. Trecho:

Demonstrar bravura com mísseis é sinal de fraqueza. Contrariamente à percepção popular, Kim não perde o sono preocupado com o que os americanos podem fazer contra ele. Sua preocupação é com a China. Ele sabe que os chineses sempre tiveram mais interesse na sua geografia - com saídas adicionais para o mar, próximo à Rússia - do que na sobrevivência a longo prazo do seu regime. Um dos principais objetivos de Kim ao mostrar agressivamente a capacidade bélica do seu país, é compelir os EUA a negociarem diretamente com ele, fazendo com que seu Estado enfraquecido pareça mais forte. E quanto mais forte Pyongyang aparentar, melhor se sairá nas negociações cruciais com Pequim. Para a consternação de Kim, porém, a resposta americana aos seus testes com mísseis foi de indiferença. Os pilotos das diversas esquadrilhas de caças foram avisados para não beberem muito nos dias de folga, pois poderiam ser convocadas, mas não passou disso.

A extinção da Coréia do Norte pode se prolongar. Robert Collins, suboficial aposentado e agora especialista na área civil do exército americano na Coréia do Sul, delineou as sete fases do colapso da Coréia do Norte: 1. Esgotamento dos recursos; 2. Fracasso na manutenção da infra-estrutura do país; 3. Ascensão dos feudos independentes controlados informalmente por ‘apparatchiks’ de partidos locais ou senhores da guerra, juntamente com uma corrupção generalizada para enredar o governo falido; 4. Tentativa de supressão desses feudos pelo regime de Kim; 5. Resistência enérgica contra o governo central; 6. Fragmentação do regime; 7. Formação de uma nova liderança nacional.

A Coréia do Norte provavelmente atingiu a fase 4 em meados da década de 90, mas foi salva pelos subsídios recebidos da China e da Coréia do Sul e também dos auxílios para combate à fome dos EUA. Voltou à fase 3.

Diferentemente do que aconteceu no Afeganistão e no Iraque, os EUA não têm controle sobre a possibilidade de uma guerra envolvendo a Coréia do Norte. Mesmo que jamais decidam se meter militarmente por ali, ainda assim é bem possível que a guerra venha.

E, aí, é bom que estejam preparados.

A Bomba nanica

10/10/2006 - 00h01 - 264 Comentários

Fala-se de bomba nuclear e a imagem que vêm a cabeça de um bom naco das pessoas é o cogumelo atômico em Hiroshima. As coisas não são tão simples. EUA e Rússia têm bombas incrivelmente menores e incrivelmente mais potentes. Então é preciso compreender o que exatamente os norte-coreanos fizeram para avaliar os riscos com os quais diplomatas estão lidando para traçar suas estratégias.

Segundo a revista britânica The Economist, em geral não apenas bem informada como conservadora no sentido de que entre publicar o certo e o altamente provável, fica sempre com a manchete menos impactante, a Bomba de Kim Jong Il não é das piores. Bombas nucleares são detonadas por bombas comuns. No caso da que os norte-coreanos explodiram embaixo da terra, a explosão foi detonada provavelmente por uma bomba de grande porte. Segundo a revista:

Em outras palavras, este tipo de bomba não é facilmente transportável. A Coréia do Norte ainda está a caminho de miniaturizar suas armas nucleares para usar em mísseis ou mesmo para transportá-las por aviões. Meios pouco usuais de envio, como um container, seriam necessários para que os norte-coreanos as enviassem. Então a ameaça imediata da nova capacidade da Coréia do Norte vem de vazamentos radioativos para a atmosfera ou para os lençóis freáticos.

A Bomba deles é maior do que a Fat Boy levada por avião contra Hiroshima e menos potente. Há tempo para uma intervenção militar – se for o caso.

Politicamente, no entanto, a ação norte-coreana não faz muito sentido. Desde que perdeu o apoio russo, com a queda da União Soviética, no entanto, seu único defensor é a China. A Coréia do Norte manteve-se interessante aos chineses por um motivo simples. Seu discurso intransigente e belicista, muitas vezes inconseqüente, serviu a Beijing pela beligerância. Como só a China controlava – e sustentava – a Coréia do Norte, era uma maneira de deixar os vizinhos preocupados, atentos, sem ter que sujar as mãos.

A China ainda sustenta a Coréia do Norte. Mas não a controla mais. Só foi avisada de que o teste nuclear aconteceria 20 minutos antes da detonação. Por outro lado, a China é mais poderosa hoje – econômica e militarmente – do que era há dez anos. O país, portanto, periga ficar dispensável. E é tudo o que o regime de Kim Jong Il não deveria querer. Sua inconseqüência parece ter ido além da esperteza geopolítica.

Outro risco que corre é o da mudança que está provocando na região. O Japão é odiado – e não à toa. Invadiu Coréia e China, matando cruelmente gente em quantidade. Não é à toa que a constituição imposta pelos EUA após o fim da Segunda Guerra no Pacífico obrigou a extinção virtual do exército. Era preciso aplainar o ânimo sanguinário dos samurai. Vez por outra, aparece um ou outro que diz que as Bombas de Hiroshima e Nagasaki não eram necessárias. A segunda, talvez não. Mas o Japão havia escolhido ir de piloto suicida em piloto suicida até o fim do conflito. Sem uma exposição de violência extrema, o Imperador infalível demoraria meses demais – e provavelmente a custo de mais vidas – no poder.

É só que o Japão de hoje é outro. E o novo premiê está conversando atentamente com Beijing. Mais atentamente ainda com os sul-coreanos e, neste caso, a reciprocidade do desejo da relação é óbvia. Mesmo que o conflito militar contra norte-coreanos não venha, Kim Jong Il periga criar um ambiente em que estão todos contra ele na região.

É tudo o que não deveria querer.

O mundo acaba de mudar

9/10/2006 - 00h34 - 182 Comentários

De acordo com a rede de tevê CNN, o governo da Coréia do Sul detectou um tremor de 3,5 na Escala Richter com epicentro na vizinha ao norte. É pouco para uma ogiva nuclear – mas este era para ser um teste no fundo, bem no fundo, da terra. Então não é possível dizer de presto que nada aconteceu.

O que há, no momento, é a afirmação do governo da Coréia do Norte de que, desde este domingo, o país se considera uma potência nuclear.

Nenhum outro país reconheceu oficialmente que o teste aconteceu, e talvez isto demore um pouco. Neste momento, na Coréia do Sul, no Japão, na China, na Rússia, nos EUA, computadores estão sendo alimentados com tantos dados quanto puderam ser captados para tentar avaliar o que aconteceu de fato.

Impossível descartar a possibilidade de um blefe – é cedo. Mas não demoraria muito mais que algumas semanas para ter certeza de que teste não houve, então seria estranho que fosse um blefe. Além do que, não é tão difícil fazer uma ogiva nuclear. A tecnologia é antiga e razoavelmente conhecida. Os problemas de engenharia, que poderiam demorar até uma década para serem resolvidos partindo-se do zero, estiveram à venda no mercado negro não faz muito tempo, cortesia do Paquistão. E a Coréia do Norte foi uma das compradoras.

O ditador Kim Jong Il é um inconseqüente megalômano e obcecado pela própria imagem. Também está lutando pela manutenção de seu regime. Desde que foi incluído pelos EUA na trinca do Eixo do Mal, sabe que corre risco. É o mesmo princípio do Irã, que jura de pés juntos que não quer a bomba – mas todo mundo acha que quer.

Foi um bom golpe político interno, por parte da administração Bush, inventar o conceito do Eixo do Mal. Pegou bem perante o eleitorado. A médio prazo, no entanto, provocou uma corrida nuclear. Não há outra maneira de ler a coisa: depois de o Iraque ser invadido, quem está no comando nos dois outros países só pode entender que o risco de ataque é concreto.

Com a Bomba, o inimigo pensa duas vezes.

O caso norte-coreano é talvez mais delicado que o iraniano. Embora ambos os países vivam ditaduras, ditaduras não são iguais. A do Irã está sujeita às flutuações da opinião pública. A classe empresarial nascente, principalmente por conta do bom comércio entre seu país e a China, que cresce a cada ano, não gosta da instabilidade e dos riscos de sanções econômicas que o governo Ahmadinejad traz. E se o conselho dos Aiatolás que dita as regras não corre risco de perder o poder, salvo revolução que o deponha, presidentes moderados podem vir nas próximas eleições. Não fosse a ameaça de invasão dos EUA, aliás, o ex-prefeito anti-semita de Teerã dificilmente teria sido eleito.

Na Coréia do Norte é diferente. O ditador manda, manda sozinho, é filho do ditador passado e nada, nem a extrema pobreza de seu povo, indica que sairá tão cedo. Ninguém está mais preocupado do que Japão e Coréia do Sul. A tecnologia de mísseis da Coréia do Norte é instável, os testes recentes indicam que talvez não consigam levar muito longe suas ogivas, mas este não é risco que alguém queira correr.

Principalmente o Japão. Bomba nuclear é muito pior do que sua mãe atômica. Mas os japoneses sabem do que a mãe é capaz. Fatalmente será inevitável que o país volte a estruturar seu exército, modificando a constituição imposta pelos EUA após a Segunda Guerra. E uma frota japonesa armada, por tradição agressiva e ousada, poderá impor uma corrida armamentista no Pacífico contra a China. É bem possível que os EUA gostem da idéia e, dificilmente, o Japão de hoje será como o de meio século atrás, que conseguia peitar o império chinês.

Mas teste nuclear mudou por completo o jogo político daquela região do mundo. Há um novo barril de pólvora no planeta.

Aconteceu

9/10/2006 - 00h07 - 17 Comentários

Segundo a Agência de Notícias Oficial da Coréia do Norte, o teste nuclear aconteceu. Mais em breve.

O ponto exato

7/10/2006 - 23h57 - 49 Comentários

Tem um bocado de gente, este fim de semana, apontando o GoogleEarth para a latitude 41.279 (N), longitude 129.087 (L). É um ponto na Coréia do Norte onde a maioria dos especialistas espera que venha a ocorrer o teste nuclear.

O GoogleEarth mostra o local – mas trata-se de uma fotografia, evidentemente, não de imagem ao vivo. E mesmo que fosse ao vivo, o teste é subterrâneo, não haveria nada para ver. Os governos de todo o mundo, no entanto, estarão informados de presto, todos procurando atividade sísmica que será o primeiro indício de que Kim Jong Il, o louco, detonou mesmo sua ogiva.

O Japão está apreensivo. São quase vizinhos, afinal, só um fio trecho de mar separa um país do outro. A China, que costuma olhar o país excentricamente comunista com complacência, está dando sinais de que segue ficando realmente preocupada.

É uma novidade que um país anuncie aos quatro ventos que pretende testar suas armas nucleares. Em toda a história, desde que os russos detonaram a primeira bomba em 1949, quebrando o monopólio atômico norte-americano, isto sempre foi matéria de segredo. Índia não revelou que tinha a Bomba, como Paquistão não o fez, Israel negou por anos até finalmente admitir.

Seria bem mais difícil esconder uma coisa destas hoje em dia, dados os avanços da tecnologia de espionagem, mas ainda assim anunciar hora e local não tem qualquer lógica. Um fracasso – coisa que acontece quando a sofisticação tecnológica é tão grande quanto neste caso – ficaria patente aos inimigos, por exemplo. E um sucesso pode entregar a quem está atento no mundo o tamanho de seu poder bélico.

Kim Jong Il, o mais que bizarro ditador comunista, jamais foi mesmo afeito a lógica ou estratégia.

Inverno nuclear

4/10/2006 - 18h43 - 114 Comentários

Não é claro se a Coréia do Norte realmente pretende conduzir algum teste nuclear, mas o monitoramento por satélite sugere que os preparativos estão em curso há meses. Kim Jong Il anseia por atenção internacional e pode estar tocando seus tambores por várias razões. Ele quer pressionar o governo dos Estados Unidos, neste momento preocupado com as eleições parlamentares em casa, distraído pela violência no Iraque e lutando para evitar que o Irã adquira as suas armas nucleares. (Mr. Kim provavelmente não gosta, também, da possível escolha do ministro do Exterior sul-coreano Ban Ki-moon para a secretaria geral da ONU.) Fazer barulho enquanto os EUA estão distraídos e apertados pode ser a maneira de Mr. Kim conseguir concessões do superpoder.

Uma tentativa de interpretar o que se passa na louca, muito louca, mente de Kim Jong Il, ditador norte-coreano.

Tiro ao alvo

5/07/2006 - 18h33 - 62 Comentários

Quanto ao teste de mísseis da Coréia do Norte, alguns pontos levantados pela imprensa internacional.

Os Scuds e Rodongs, mísseis de curto alcance, funcionaram todos – mas, que funcionavam nas mãos dos norte-coreanos, já se sabia. São uma ameaça principalmente para os vizinhos sul-coreanos.

O Taepodong-2, de longo-alcance, falhou. Não está pronto, o que é uma boa notícia. Teste serve para isso mesmo e, com uma carga pesada, ele pode chegar ao Japão. Os japoneses sabem disso. Precisa um bocado de ajustes até que chegue, com uma carga leve, não nuclear, aos EUA. Mas pode chegar.

A China havia recomendado mui gentilmente à ditadura nanica que não seguisse com os testes. Então não se trata de um desafio apenas aos norte-americanos; é também uma má-criação com o vizinho amigável.