A história do Massacre de Tiananmen,
a Praça da Paz Celestial

04/June/2009 - 13h10 - 15 Comentarios

Hu Yaobang, sexto secretário geral do Partido Comunista da China, encarou como sua a missão de promover reformas políticas e econômicas no país. Em 87, no entanto, a linha dura do partido o pôs para fora. Dois anos após derrubado, Yaobang morreu: 15 de abril de 1989.

A morte mexeu com os estudantes. Yaobang representara esperanças sufocadas. Naquele dia, após receberem a notícia, um grupo de mil estudantes deixou o campus da Universidade de Beijing em direção à Praça da Paz Celestial (Tiananmen) para chorar o morto perante o monumento dos Heróis do Povo. Pessoas de toda cidade começaram a vir para a praça.

E não foram embora. Nos dias seguintes, permaneceram lá. No dia 21, já eram mais de 100.000 – e, no dia 5 de maio, 100.000 marcharam pelas ruas de Beijing pedindo liberdades. Um grupo de estudantes que tinha entre seus líderes Wuer Kaixi decidiu fazer uma greve de fome.

No governo, o secretário geral do partido em pessoa, Zhao Ziyang, sucessor de Hu Yaobang, tentava manobrar para que houvesse tolerância com os protestos. No dia 18 de maio, ele foi convocado à residência do líder máximo, Deng Xiaoping. Sofreu um descompostura. No dia 19, Ziyang foi pessoalmente tentar dissipar os protestos. “Não se sacrifiquem à toa”, ele disse. “Os rapazes em greve de fome estão fracos. Vocês nos criticam, e vocês tem razão. O processo é lento, nos dêem uma chance, mas não continuem a greve de fome. As respostas não virão rápidas.” Ele encerrou o comovente discurso com sua frase mais lembrada. “Nós já somos velhos, nós não somos mais importantes.”

Os protestos não foram dispersados. No dia 20 de maio, o governo implantou Lei Marcial, Zhao Ziyang perdeu o cargo e foi colocado em prisão domiciliar. A linha dura assumiu o comando. Batalhões de todo o país foram trazidos a Beijing.

Na noite do dia 3 de junho, tanques e soldados com baionetas começaram a avançar sobre a praça. Abriram fogo, os tanques avançaram. Quando o dia amanheceu no 4 de junho, a Praça Tiananmen estava vazia.

A Cruz Vermelha chinesa chegou a anunciar 2.600 mortos ao longo da madrugada, depois negou que tivesse tal número. O governo diz que morreram 241.

Hoje, a revista eletrônica Guernica publica uma entrevista com Wuer Kaixi, o jovem estudante que liderou a greve de fome:

Logo após Tiananmen, veio a idependência do Timor Leste, Mandela deixou a prisão, o Muro de Berlim caiu. O mundo parecia estar ficando melhor. Depois do Onze de Setembro, veio a guerra no Oriente Médio e a idéia de que o mundo está melhor ficou difícil de defender.

Mas depois de 1989, a China ficou melhor. Depois de Tiananmen, o Partido Comunista decidiu fazer um acordo com o povo chinês. Ofereceu liberdade econômica em troca de cooperação chinesa. É um acordo ruim, porque tanto liberdade política quanto econômica não pertencem ao governo para que ele possa oferecê-la. Mas, de qualquer forma, o povo aceitou o acordo e o Partido Comunista deixou o dia-a-dia das pessoas.

Não há mais um Estado ideológico e é por isso que o povo chinês concordou com apenas liberdade econômica.

O dia que definiu o destino da China faz, hoje, 20 anos.

A China cresce para dentro

12/May/2009 - 11h17 - 37 Comentarios

Durante os últimos anos, a China alimentou seu estupendo crescimento econômico vendendo para os EUA. O que os chineses conseguiam manufaturar, norte-americanos compravam. Com a crise interrompendo a ânsia compradora dos consumidores daqui, o medo imediato foi de que a maior locomotiva econômica mundial – lá – parasse repentinamente, piorando ainda mais o quadro global.

As vendas no varejo chinês aumentaram 16% entre março de 2008 e de 2009. Uma pesquisa recente envolvendo 64 milhões de famílias chinesas em 189 cidades revelou que 51% dos habitantes de cidades de médio porte pretendem gastar mais dinheiro em compras, neste ano, do que gastaram no ano passado. Pelo menos uma empresa hoteleira tem planos de abrir 250 hotéis até 2010. Em pelo menos uma cidade, Chongqing, a Wallmart pretende abrir mais 4 lojas, saltando de 5 para 9. É mais do que existe em Beijing e Shangai.

Segundo o analista James Kynge, do Financial Times, os indícios são de que o mercado interno chinês, o das cidades médias, está crescendo. De superpoder exportador, a China está se transformando numa economia capaz de crescer por conta própria, movida pelo consumo interno.

Avanço chinês sobre a América Latina

17/April/2009 - 03h34 - 49 Comentarios

Enquanto o presidente norte-americano Barack Obama se prepara para a reunião que terá com seus pares latino-americanos, no fim de semana, o New York Times dá destaque ao avanço chinês na região. O continente – não surpreenderá a muitos – foi conhecido por décadas como quintal dos EUA. O abandono político do governo George W. Bush, no entanto, abriu espaço que foi devidamente ocupado.

A China vai bancar os custos de um bilhão de dólares para uma hidrelétrica no Equador, investirá 12 bilhões na Venezuela, emprestará 10 bilhões para a Argentina e outros 10 seguirão para os cofres da Petrobras. O gigantesco País do Centro tem dinheiro e está gastando. Gasta com critério: os argentinos aproveitarão o alívio do empréstimo para comprar produtos chineses, os brasileiros agradecerão o investimento garantindo exportação de petróleo, mesma promessa venezuelana.

No caso específico da Argentina, o empréstimo seguirá em yuans, a moeda chinesa. É para importar mesmo, um ajuda que chega em boa hora, quando os vizinhos ao sul andam com o crédito em baixa e os EUA recusam-se a dar mais.

Não é, de forma alguma, jogo perdido para os EUA. Mas, em Washington, o alerta foi bem compreendido.

O que mata na questão é que Obama tem uma brutal crise econômica com a qual lidar. A China, por outro lado, parece ter motivos para otimismo. Cresceu no primeiro trimestre do ano num ritmo maior do que no trimestre anterior. As exportações continuam em baixa, mas segundo a revista britânica The Economist, os indicadores sugerem que o ano chinês não será tão terrível quanto previsto inicialmente.

Para o resto do mundo – incluindo para os EUA –, a notícia é excelente.

E o G20 se encontra

02/April/2009 - 03h17 - 114 Comentarios

Oficialmente, os líderes do G-20 se reúnem hoje, em Londres. Mas as conversas já vêm acontecendo com intensidade há meses. Um dia Lula está com Obama. No outro, Sarkozy e Angela Merkel estão juntos – e aí é a vez de Merkel com Putin. O papa escreve a Gordon Brown – premiê britânico que, evidentemente, já se encontrou com todos nas últimas duas semanas: Lula, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin.

Os EUA chegam a Londres com o pires na mão.

Querem que os governos do G-20 soltem mais dinheiro em suas economias, grandes pacotes como aquele que Obama espera ver aprovado. Querem também que os governos do G-20 o ajudem a injetar dinheiro no FMI.

Os dois pedidos de dinheiro são complicados.

Os europeus não desejam injetar mais dinheiro. Eles acreditam que a teia de serviços sociais – da previdência ao seguro desemprego – em seus países serão suficientes para conter o agravamento da crise.

Na questão do FMI, a situação é conosco – Brasil, Rússia, Índia e China. Os BRICs não têm nenhum estímulo para ajudar o FMI. O Fundo Monetário Internacional conta, hoje, com 250 bilhões de dólares em caixa para ajudar nações em apuros. Receberá mais 100 bi dos EUA, o Japão prometeu outros 100, a União Européia contribuirá com igual quantia. Mas, para engordar mais o fundo, é preciso dar mais poderes aos sócios em ascensão.

Hoje, os europeus indicam quem manda no FMI e os norte-americanos escolhem a chefia do Banco Mundial. Enquanto o jogo de comadres continuar, não haverá mais dinheiro. Se o jogo de comadres ainda fosse viável, não haveria esta reunião do G20. Estariam ainda no G8 discutindo os destinos do mundo.

Por outro lado, a Europa quer algo que os EUA não parecem dispostos a dar: mais regulamentação dos bancos. Os europeus, com exceção do Reino Unido, têm uma proposta. Primeiro, obrigam os bancos a juntar mais dinheiro quando a economia estiver em alta. Precisam ter mais em caixa, não podem jogar tudo. Os EUA até são capazes de topar uma variação deste item. O que mata é o segundo.

Angela Merkel e Nicolas Sarkozy sugerem que instituições financeiras devem ser punidas se oferecerem a seus executivos bonificações por comportamento arriscado.

Tudo pode ser resumido assim: Europa quer regulamentar. Os EUA querem injetar dinheiro na economia.

Enquanto os membros do G8 não se entendem, outros têm preocupações distintas: defendem o livre mercado. Ao longo do último ano, a União Européia aumentou os subsídios agrícolas, os EUA injetaram cláusulas de compra de produtos americanos em seus contratos, a Rússia passou a taxar carros. A China comunista, quem diria, é a mais aguerrida defensora da livre circulação de produtos e capital pelo mundo neste momento. (Circulação de produtos, que se entenda bem; livre circulação de pessoas e idéias, internamente, continua não podendo.)

Mas, neste caso, os chineses encontram no Brasil um de seus principais aliados.

É uma reunião de alto nível, esta, uma reunião particularmente importante, embora um bocado complexa. Nos próximos dias, saberemos se alguém conseguiu avançar em algum sentido ou se todo o sistema persistirá emperrado.

Lula, brancos de olhos azuis
e quem tem culpa nesta crise

30/March/2009 - 12h56 - 226 Comentarios

Vários de vocês têm me pedido, nos últimos dias, para repercutir o comentário do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que culpou ‘essa gente branca com olhos azuis’ pela crise mundial.

O presidente cometeu uma gafe ao revelar preconceito e analisou errado o problema.

A gafe é simples: presidentes cometem gafes a toda hora. Todos eles – vacilou, um fala besteira e revela preconceito. Fernando Henrique e seu pé na cozinha que o digam. Com Obama foi uma descrição dos norte-americanos pobres do sul que cultivariam suas armas e a Bíblia por ressentimento. George W. Bush e Gordon Brown, que estava do lado de Lula, têm longo histórico. A besteira rende um bocado de discussão na imprensa, repercute internacionalmente e continua querendo dizer absolutamente nada. Não afeta o comércio exterior, não altera a crise para melhor ou para pior. Mas rende assunto, nós jornalistas precisamos escrever sobre alguma coisa e o público adora uma desculpa para malhar seus políticos.

O maior problema da gafe de Lula não é o preconceito – brancos de olhos azuis ricos, afinal, costumam ter bastante gente que os proteja. O maior problema é que se trata de uma análise demagógica e, no fim das contas, errada.

Primeiro, porque crises econômicas são cíclicas. Elas sempre vêm. E segundo porque, neste caso em particular, havia muita gente não necessariamente branca e não necessariamente norte-americana fazendo apostas e faturando na alta.

Os EUA estão sofrendo particularmente. O valor líquido do país despencou nos últimos dois anos de quase 70 trilhões de dólares para 53; são 15 trilhões que ‘desapareceram’ do mundo.

É fácil culpar ‘os bancos’ – ou ‘os brancos’ –, mas é mais complexo do que isso. Os bancos emprestaram para alguém. A classe média norte-americana também é responsável pelo seu próprio endividamento. Não apenas porque a classe média dos EUA comprou casas a prazo que não teria condições de pagar. É um fenômeno cultural mais profundo do que isso: a classe média dos EUA passou os últimos quinze anos criando dívidas. Aproveitando-se de taxas de juro muito baixas, não há um que não tenha entre cinco e dez cartões de crédito na carteira e que, por hábito, não role a dívida de um cartão em outro, pague os juros mensalmente sem jamais tocar no principal, e siga acumulando 10, 20, 50, 100.000 dólares em débitos a pagar.

Ainda estaríamos no universo dos EUA se parássemos aí – mas alguém estava produzindo aquilo que os norte-americanos consumiram a prazo. O crescimento da China nos últimos anos não veio do nada. Tampouco o da Índia. Ou mesmo o do Brasil. Foi porque os EUA fizeram uma aposta em sua ampla capacidade de endividamento, que o maior mercado consumidor do planeta passou a consumir ainda mais e houve quem lhe vendesse enquanto, ora pois, rolava sua dívida. Somos todos credores dos EUA: China, Índia, Brasil e alguns tantos outros que fizeram gordas reservas em dólares.

O PIB norte-americano é de quase 14 trilhões de dólares. É capaz de escorregar para a casa dos 12, este ano. Por sua vez, a dívida interna passou a marca dos 10 trilhões em outubro passado. Já está em 11 trilhões. É bem possível que, ao longo de 2009, todos os norte-americanos devam juntos, na praça, o equivalente àquilo que o país produz em valores brutos anualmente. É um feito e tanto, principalmente porque os EUA são a maior máquina de produção de riqueza jamais criada pela humanidade. Ninguém produziu tanto anualmente na história. E dever tudo aquilo que você faz não dá certo.

Não é negócio para ninguém que os EUA quebrem. Mas duas culturas diferentes vêm sido criadas entre as duas maiores potências do mundo. A China guarda dinheiro com vistas a produzir uma poupança absurda capaz de salvá-la na hora do aperto. Os EUA, que nos anos 1940 e 50 tiveram uma cultura de poupança, hoje gastam como se não houvesse amanhã. A China terá que aprender a gastar e os EUA, a poupar. Para o bem de todos.

Nada disso, evidentemente, quer dizer que não exista irresponsabilidade no jogo. Nos EUA, bancos sempre tiveram vários limites de atuação, agências reguladoras razoavelmente atentas, regras para a quantidade de dinheiro que poderiam emprestar dependendo do que tinham de lastro no cofre. A desregulamentação que teve início no governo de Bill Clinton, no entanto, ampliou os poderes de outras empresas financeiras. Fundos de investimento, seguradoras, agências de classificação de risco – todos começaram a agir em conjunto, numa louca ciranda promíscua, que permitiu que várias empresas assumissem mais funções do que jamais puderam.

Os papéis negociados em mercado nos últimos anos, que juntavam cortes de hipotecas, fragmentos de dívidas, ficaram impossíveis de serem acompanhados. Quando ninguém – nem quem classifica o risco, nem quem faz o balanço, nem quem deveria regulamentar – sabe fazer a conta do tamanho do buraco é porque alguém permitiu algo que não devia ter sido permitido. Balanços existem para ser legíveis.

Sim, Wall Street faturou com a ciranda louca e muita gente de terno e gravata – olhos azuis ou não – cometeu crimes nesse meio tempo. Mas crises são cíclicas. E, no caso desta, os ricos não têm a culpa sozinhos.

Silêncio no Tibete

27/February/2009 - 00h01 - 24 Comentarios

Na quarta-feira, os tibetanos celebraram seu ano novo.

Ou melhor: o governo chinês fez de tudo para que o celebrassem. Numa cautelosa desobediência civil, ficaram em casa. Não viam motivo para festa.

via Boing boing

A China faz o mundo girar
(Todos juntos: EUA, Brasil, África, Irã…)

19/February/2009 - 14h53 - 53 Comentarios

Aqui nos EUA, a imprensa fala compulsivamente a respeito da viagem da secretária de Estado Hillary Clinton à China. Há muito o que se falar. Internamente, há uma difícil batalha entre Hillary e o secretário do Tesouro Timothy Geithner sobre quem comandará a relação entre os dois países. (No governo Bush, considerava-se que a Fazenda, não a diplomacia, devia ditar o tom desta relação.) A China, afinal, é o maior credor externo dos EUA.

Ontem, quarta-feira, chegou ao Brasil o vice-presidente chinês Xi Jinping. Ele traz na pasta uma linha de crédito de 10 bilhões de dólares para a Petrobras, em troca da garantia de fornecimento de petróleo para seu país. Foi há exatos 35 anos, em 1974, que o Brasil restabeleceu relações com a China. Durante o governo Lula, as trocas de visitas entre os dois país se intensificaram: Lula viajou em 2004, seu par Hu Jintao retribuiu a cortesia no mesmo ano. Em 2005, o vice-presidente José Alencar foi. Em 2006, veio o presidente do Congresso. Quase todo ano, desde então, meio que sem a imprensa brasileira dar muita bola, uma visita de alto nível destas ocorre.

O objetivo não é apenas fortalecer a aliança diplomática Brasil, China, Índia que vem conseguindo algumas vitórias no cenário mundial. O principal objetivo é dinheiro. Nos últimos oito anos, o comércio entre China e Brasil cresce num ritmo de 30% ao ano. Em 2008, a China ultrapassou a Argentina como segundo maior parceiro comercial do Brasil. Só perde para os EUA. Hoje, a China é responsável por 9% das exportações brasileiras. Os EUA, aproximadamente 18%. Mas o comércio com os EUA está diminuindo. E, bem, 30% de crescimento ao ano é um bocado.

Os chineses não param. Enquanto recebem Hillary em Beijing e Xi Jinping aterrissa no Brasil, o presidente Hu Jintao está viajando rumo à África. O comércio entre seu país e a África Subsaariana cresceu 1000% nos últimos dez anos. Mas ponha o comércio de lado e observe o itinerário da viagem de Hu e o padrão da diplomacia chinesa começa a se revelar. Primeira parada: Oriente Médio, Arábia Saudita. Faça o elo com o acordo China-Petrobrás.

No início do ano, pires na mão, o presidente de Angola José Eduardo dos Santos foi dar em Beijing. Queria renegociar sua dívida para com os chineses e ainda levar um troco para casa. O governo Santos apostou que o preço do petróleo continuaria alto, perdeu. O governo da Namíbia fez o mesmo – e também pede compaixão chinesa. A princípio, não recebem muito mais do que um olhar frio com vaga esperança de ajuda. Em relação aos países realmente pobres do mundo, a China age como se fora um misto de poder imperial e FMI dos anos 1980. Ao mesmo tempo, conta com estes países. Afinal, na ONU, ou na OMC, a China é só um voto. Contar com a possibilidade de manobrar votos africanos conforme seus desejos é útil.

Não é à toa que os responsáveis pela economia dos EUA considerem que eles, não os diplomatas, deveriam ser responsáveis pela relação. Também não é à toa que um dos consensos positivos a respeito do governo Bush, na equipe Obama, é que a política para a China estava certa: reclama de vez em quando de direitos humanos (nunca a sério), busca ajuda para negociações delicadas (Coréia do Norte, Irã) e discute negócios, negócios, negócios. Business makes the world go ’round.

Hoje, a China é o maior importador do Irã. Nenhum tipo de negociação afetará realmente o país de Mahmoud Ahmadinejad se a China não estiver disposta a fazer pressão. E, por enquanto, os chineses não estão muito preocupados. Sua relação com quem provê combustível é mais importante do que suas preocupações com violações de direitos humanos. Sudão que o diga. Com a Coréia do Norte, é diferente. A Coréia do Norte serve aos chineses para manter japoneses, sul-coreanos e mesmo EUA assustados. Mas a relação com os EUA é considerada fundamental para Beijing, sacrificar a Coréia do Norte não é problema. O Irã tem algo a lhe oferecer. A Coréia do Norte, não. A moeda de troca dos EUA é Taiwan. A relação amistosa entre potência e ilhota é mantida para irritar os chineses.

O principal desafio dos dois países é aquilo que têm em comum: são os maiores fornecedores de carbono para a atmosfera. Com tanto petróleo que consomem, não é surpresa. E ambos os governos estão cientes de que, economicamente, o Aquecimento Global é mau negócio. O problema é que, em tempos de crise, é difícil encará-lo.

Mas é sempre engraçado quando alguém sugere que a China é uma futura potência. A China já é.

O difícil quebra-cabeças de Rússia e Geórgia
(e do resto do mundo todo)

01/October/2008 - 14h57 - 16 Comentarios

As tropas de monitoramento da União Européia que chegaram hoje à Geórgia tiveram permissão russa para entrar em parte do território da Ossétia do Sul. O cessar-fogo parece estar sendo obedecido e, até o dia 10, os russos deverão deixar o território. Um grupo mínimo de soldados fica para ‘manter a segurança’.

Há muito falatório a respeito da Geórgia estes dias, tanto na imprensa norte-americana quanto na européia. As populações da Ossétia do Sul e da Abecásia, as duas províncias separatistas, não pertencem à mesma etnia dos georgianos. Mas também não são russos. Ao longo da última década, no entanto, vieram recebendo passaportes russos por conta de uma política planejada de Moscou. São cidadãos russos, portanto. E Vladimir Putin se reserva o direito de defender cidadãos russos não importa onde eles estejam.

Aí começa a dificuldade: ninguém está realmente preocupado com a Geórgia. Mas assim como ossétios e abecásios, os moradores da Criméia vem recebendo passaportes russos faz pouco mais de uma década. E a Criméia faz parte da Ucrânia, país que, de pequeno, não tem nada. Mais: tem fronteiras com Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia. Está no meio da Europa. Se o argumento de Putin é aceito para a situação da Geórgia, à frente terá que ser aceito para a Ucrânia.

A situação vai ficando mais complexa: as conversas de livre comércio entre União Européia e Ucrânia estão acontecendo. O país tem um objetivo. Quer se juntar à UE. Também quer fazer parte da OTAN. Mesmos objetivos da Geórgia. Os vizinhos imediatos – Polônia, Hungria, Romênia e Eslováquia – já fazem parte da UE e da OTAN. E a população ucraniana, como a da Geórgia – excetuados os separatistas – querem ambos. Mas a OTAN tem na base um tratado, uma garantia de que se um de seus membros for atacado, os outros partem em sua defesa.

E a Rússia, neste momento, está deixando tão claro quanto possível que tem planos de atacar a Ucrânia. Fez o movimento contra a Geórgia, o mundo ficou quieto.

Em negociações do tipo, o blefe faz parte. Mas quem blefa e não cumpre perde a credibilidade. Quando George W. Bush declarou que a Coréia do Norte não poderia desenvolver armas nucleares senão teria que se ver com sei lá o quê, blefou. Os norte-coreanos conseguiram suas armas. Nada ocorreu. Bush também se reserva, como Putin, o direito de atacar o país que considerar necessário para a segurança dos EUA. E já o fez. A diferença, talvez, é que Putin vem se mostrando fiel à palavra. Cumpre o que ameaça. E os EUA não têm muito como censurá-lo.

Putin também se sente ameaçado. Ucrânia e Geórgia viveram revoluções eleitorais – as revoluções Laranja e a Rosa – que o governo russo não gosta nem de imaginar ocorrendo em sua casa. A OTAN, criada contra a União Soviética, ainda é vista em Moscou como um grupo anti-Rússia. E o crescimento dela nos arredores acirra a paranóia. Não bastasse, os EUA insistem em instalar mísseis na Polônia voltados para a Rússia. Não é contra a Rússia, eles dizem. Não é o que poloneses ou tchecos pensam. E, olhando friamente, o Kremlin não tem qualquer obrigação de acreditar na palavra norte-americana. Os paranóicos, afinal, têm seus inimigos.

Também por uma análise fria, é possível concluir que é irresponsável trazer Geórgia ou Ucrânia para a OTAN. Se Putin invadir a Criméia, será preciso intervir militarmente. Uma guerra entre OTAN e Rússia é uma idéia que se aproxima um bocado de qualquer definição de pesadelo. Em diplomacia, é bom não se colocar numa posição em que não existam mais escolhas.

Mas, ainda assim, há sempre a questão moral: agora, entrega-se um pedaço da Geórgia aos russos. E tudo bem. Depois, um pedaço da Ucrânia. Onde pára a fome de Putin? Com muita velocidade, este conflito que parece vindo dos tempos da Guerra Fria pode se transformar na crise internacional mais importante que existe no planeta.

Ao menos há uma boa notícia: os chineses não gostam nada dessa idéia de incentivar grupos a conseguir a independência ou autonomia de seus territórios. Nessa, os russos estão sozinhos.

China carvoeira lidera em emissões de carbono

29/September/2008 - 11h36 - 16 Comentarios

O declínio de atividade econômica no mundo não diminuiu o uso de energia. Ao contrário: as emissões de carbono, em 2008, estão batendo no pior cenário imaginado pelo IPCC da ONU, há um ano.

Há algumas mudanças: a China ultrapassou os EUA e, agora, é o maior responsável pelos índices de carbono na atmosfera. As emissões da Índia também aumentaram um bocado. Até o ano passado, o mundo desenvolvido produzia muito mais carbono do que o em desenvolvimento. Também isto mudou.

Embora o consumo tenha aumentado em todo o planeta, metade deste aumento vem por conta da China e suas novas usinas de carvão.

De onde são os homens? E as mulheres?

18/September/2008 - 06h45 - 21 Comentarios

Na Austrália, os homens vão embora. Há um incrível número de mulheres sobrando na sociedade.

Na China, é o contrário.

O avanço chinês na economia britânica

08/September/2008 - 11h35 - 13 Comentarios

Se há um país que está se saindo bem economicamente no mundo é a China. Um truísmo, por certo – todos o sabem. Mas aproveitando-se da crise econômica nos EUA, por exemplo, os chineses estão comprando mais e maiores participações societárias em empresas norte-americanas diversas. Não apenas, informa o Daily Telegraph: no Reino Unido, também.

A bolsa de valores britânica cai e o dinheiro chinês vai entrando: Cadbury, HSBC, a Bolsa de Valores de Londres, Marks & Spencer, Tesco, Old Mutual, Prudential. A se contar o valor atual das ações, são uns 16 bilhões de dólares que entraram no Reino Unido vindos do Banco Central Chinês. Este é o naco conhecido. Como as transações vêm através de uma complexa engenharia financeira, não é elementar traçar a origem de todos os investidores que estão aparecendo para aproveitar o momento ruim da bolsa.

Nesta faixa – dos 16 bilhões – os chineses já estão entre os 25 maiores investidores da Bolsa de Valores de Londres. É uma movimentação nova, esta, de sair comprando ações de empresas privadas no Ocidente. Até 2007, 18 bilhões de dólares era tudo o que tinham nas bolsas do exterior. Hoje, é quase o que têm só em Londres. O governo chinês dispõe de 1,7 trilhões de dólares em moeda estrangeira. Deste total, algo entre 70 e 80 bilhões foram separados para a formação deste fundo que investe nas bolsas. É o maior fundo em operação no mundo.

Mesmo internamente, na China, a movimentação gera críticas. Uma delas é de que alguns dos que governam estes fundos, em geral, têm experiência no comando da economia e dos bancos chineses. Não é pouco. Mas as grandes bolsas de valores do ocidente envolvem jogos de complexidade diferente. O maior fundo em operação no mundo, portanto, é comandado por gente com pouca experiência no ramo.

O objetivo, a princípio, é investir. Não dominar. Após quebrar a cara com a resistência do governo norte-americano com uma compra, no ano passado, os chineses hoje tentam não comprar mais do que 3% das ações de cada empresa. Assim, não chamam a atenção de ninguém.

Um quarto do mundo passa fome

27/August/2008 - 13h13 - 33 Comentarios

A linha da pobreza atual é de 1,25 dólares ao dia. Abaixo disso está a miséria humana.

Nas contas do Banco Mundial: 1,4 bilhão de pessoas. Em 1981, eram 1,9 bilhão. Somos 6,7 bilhões de pessoas. Em 81, éramos 4,4 bilhões. A miséria, portando, afetava quase metade da população, hoje afeta um quarto.

Mudou por causa da China: lá, havia mais de 800 milhões de miseráveis, hoje são 207 milhões. No resto do mundo, em termos percentuais, tudo se manteve mais ou menos igual. Na África, metade da população vive abaixo da linha de pobreza. A China é o único país que enfrentou de fato o problema.

E é um erro levar esta conta ao pé da letra acreditando que a escala é evolutiva. O Banco Mundial é conservador, a ong Oxfam não é: a inflação de alimentos, segundo ela, pode jogar até 500 milhões de pessoas entre África e Sudeste Asiático para baixo novamente.

via Foreign Policy

A China como ela é?

20/August/2008 - 13h47 - 63 Comentarios

Duas velhinhas, 77 e 79 anos, foram postas para fora de casa porque o governo tinha outro uso para o terreno. Não gostaram da indenização, foram à delegacia pedir autorização para protestar.

Voltaram à delegacia. E tornaram a ela. Cinco vezes, sem sucesso.

Quando enfim receberam notícia do governo, a surpresa: não foram autorizadas e, pior, por insistirem foram condenadas a um ano de trabalhos forçados no campo.

Se chama reeducação. Mao Zedong ia adorar.

A Rússia quer Venezuela e Cuba?

19/August/2008 - 11h58 - 83 Comentarios

O analista de política latino-americana Carlos Alberto Montaner, um cubano badalado na imprensa hispanoablante, tem uma teoria a respeito dos próximos passos russos: Cuba ou Venezuela.

Hugo Chávez, em visita a Moscou, já havia mencionado a possibilidade de uma base militar russa na Venezuela. A própria Rússia já havia soltado um balão de ensaio cogitando a inclusão de Havana entre os aeroportos pelos quais aviões militares russos fazem escalas regulares.

Conforme a OTAN seduz a Ucrânia e os EUA insistem em uma rede de mísseis na Polônia e na República Tcheca, os russos mexem suas peças de xadrez como se o ano fosse 1960.

Mas o ano não é 1960 e a Rússia não é uma potência mundial. Suas ações afetam diretamente a Europa e os vizinhos imediatos na Ásia. Mas não muito mais. Os países/grupos que têm realmente o poder de influenciar a economia ou a política de todo o mundo com um espirro são China, EUA e, quando consegue agir em bloco, União Européia.

Putin está, evidentemente, dedicado a mudar este quadro. Não quer dizer que consiga.

Quanto vale um país em medalhas?

07/August/2008 - 16h10 - 21 Comentarios

Mapa Olímpico

Após o link, o gráfico do New York Times mostra o tamanho de cada país em cada Olimpíada.

Ameaça do terror olímpico

07/August/2008 - 11h25 - 23 Comentarios

Dois norte-americanos e dois britânicos conseguiram pendurar, ontem, uma faixa entre postes de iluminação pedindo a liberdade do Tibete próximo do Estádio Olímpico, em Beijing.

Também ontem, três norte-americanos, ativistas cristãos, fizeram um protesto contra as políticas do governo chinês para com os direitos humanos na Praça da Paz Celestial (Tiananmen).

O fato de que não consegue controlar os ativistas que desejaria calar é problema da China e apenas dela. Mas por onde se infiltram ativistas com faixas também escorrem terroristas com bombas. A China é um país grande com extensas fronteiras. E as Olimpíadas têm um histórico próprio com o terrorismo.

China sulfúrica

06/August/2008 - 09h44 - 23 Comentarios

A poluição de Beijing é um dos itens mais comentados a respeito da sede das Olimpíadas deste ano. Em seu blog Dot Earth, do New York Times, o repórter de meio ambiente Andrew Revkin dá uma aula sobre o assunto. O ar da China é carregado de dióxido de enxofre (SO2).

No caso chinês, ele é produzido pela queima de carvão em usinas termoelétricas, junto com monóxido e dióxido de carbono e nitrogênio. São efeitos comuns da primeira fase de industrialização, um período em que, dedicados ao crescimento econômico, todos os países ignoraram quaisquer impactos ambientais. (A diferença é que durante a industrialização de finais do século 19 não se entendia de todo tais impactos.)

O dióxido de enxofre é transparente, denso e a inalação irrita as vias nasais. Quando a concentração do gás aumenta na atmosfera, ele começa a se liquefazer na forma de ácido sulfúrico, produzindo um aerosol. As partículas ficam suspensas no ar, formando esta névoa entre o amarelo e o vermelho. As terríveis malformações que afetaram bebês em Cubatão, nos anos 1980, eram efeitos diretos da substância.

O SO2 também alonga a vida das nuvens e diminui a quantidade de chuvas. Ele reflete a luz do Sol, produzindo um efeito localizado de esfriamento atmosférico. É um dos dois componentes fundamentais da chuva ácida.

China: um guia para leitores

31/July/2008 - 11h54 - 25 Comentarios

Nós, jornalistas, somos bichos que têm afeição por clichês. O clichê, no caso, vai além da expressão de efeito. Muitas vezes, viciamos à toa nosso olhar, repetimos padrões e não fazemos o que deveríamos de fato fazer: observar o que há de novo no mundo e colaborar para que o leitor entenda melhor o que se passa nos arredores. Nas próximas semanas, todos leremos um bocado sobre China. Simon Elegant, correspondente da Time por lá há alguns anos, antecipa a cobertura original que todos leremos.

1. Reportagens mais ou menos elogiosas tratarão da surpreendente infra-estrutura arquitetônica e de engenharia, que servirá de gancho para mostrar como a China cresce rápido.

2. Muitas piadinhas serão feitas a respeito da estranha língua que falam por lá. E muitas matérias serão escritas baseadas em matérias que saíram no jornal de língua inglesa local, o China Daily.

3. Após os elogios iniciais (1) à infra-estrutura e ao crescimento, novas reportagens mostrarão a China real que o governo ‘não quer’ que o mundo veja. E o mundo, sem que o governo chinês atrapalhe qualquer repórter, saberá como é a vida de um típico pobre urbano e conhecerá o drama daqueles que perderam seus barracos para a construção dos grandes estádios.

4. Muito será publicado a respeito da qualidade do ar em Beijing.

5. Todo membro do governo entrevistado parecerá estar repetindo mais ou menos a mesma linha ditada pelo Partido. E sempre haverá outro entrevistado, um chinês que fala inglês fluente e morou no exterior, que falará mal da China.

6. Chineses que falam bem da China serão chamados de ‘nacionalistas’. Tibetanos que defendem o Tibete livre não serão chamados de ‘nacionalistas’. O governo chinês será chamado de ‘regime’.

Nenhum leitor precisa se preocupar, Elegant termina por dizer. Os bravos jornalistas não se deixarão enganar pela aparente simpatia e sorrisos chineses.

Agora, sendo justo: se fosse eu o repórter pisando pela primeira vez em Beijing para produzir uma reportagem a cada dois dias, o resultado seria diferente dos clichês? Se tivesse lido a brincadeira de Simon Elegant antes, não. Sem ter sido alertado, tenho minhas dúvidas. Clichês existem por um motivo. São estereótipos. Atalhos para a real compreensão.

Há um ano, mais ou menos, um dos jornalistas mais importantes de uma das revistas mais importantes do Brasil posou na China para comandar uma edição especial. Numa de suas primeiras noites, ele foi jantar com um brasileiro, correspondente de outro grande veículo, que mora em Beijing faz alguns anos. O jornalista importante não calou a boca um segundo, passou a noite explicando o que é a China. O correspondente que lá morava teve pouco espaço para se manifestar.

É um caso extremado, claro. Mas é uma anedota útil para compreendermos o processo pelo qual a notícia é construída. A imprensa em todo o mundo já chegou a um acordo a respeito da China como ela é. Essa narrativa é constantemente publicada por toda parte. Se ela ajuda a jogar uma luz inicial num país complexo, é também limitadora. Afeitos à narrativa padrão, temos – os repórteres – a tendência de ignorar os pequenos indícios que não confirmam a história que estamos preparados para contar.

No fim das contas, fica uma pista para recomendar a leitura: repórteres com mais de dois anos de China são fontes de informação mais confiáveis.

Rodada de Doha, OMC e o mundo
que não abre, mas não abre de jeito nenhum

30/July/2008 - 16h58 - 31 Comentarios

Poucos assuntos são tão áridos quanto negociações comerciais. Tentativas de acordo de grande porte, como a Rodada de Doha da OMC, são ainda mais difíceis. Mas o fracasso das reuniões da última semana, em Genebra, dizem um bocado sobre o estado do mundo.

Há um motivo para este grande encontro de ministros das relações exteriores ter acontecido agora. A idéia era ter um texto pronto para que o Congresso dos EUA pudesse aprová-lo rápido. Acordos de livre mercado são impopulares. Presidentes recém-eleitos e deputados recém-eleitos não mexem com esse tipo de assunto, não importa o que digam em campanha ou preferências partidárias. Como é fundamental a participação dos EUA nesse jogo, correram o calendário para conseguir algo.

Os próprios EUA entraram para conversar com o pé no freio, sua vontade de mexer nos próprios subsídios agrícolas era muito pequena. Estavam impedidos por novas leis aprovadas pelo Congresso.

De seu lado, a Índia se reserva o direito de manter proteções tarifárias contra a importação de produtos agrícolas se por algum motivo os preços aumentarem repentinamente. Se começar a entrar comida estrangeira demais em seu mercado, ela suspende tudo. Vários países pobres encontraram na Índia um seu defensor deste tipo de mecanismo de defesa. E, como a negociação já andava mesmo difícil, a China simplesmente não colocou nenhum tipo de concessão à mesa e embarcou no barco indiano.

Os diplomatas não rejeitaram a idéia de proteger os mercados emergentes de flutuação no preço dos produtos agrícolas. Mas ninguém chegou a algum tipo de acordo sobre que tipo de barreira tarifária poderia vigorar.

Quando essas negociações para a abertura de mercados ao comércio internacional tiveram início, em Doha, em 2001, o mundo era outro. Comida andava barato, o petróleo idem e aquecimento global não estava no mapa dos grandes problemas. Hoje, os países que têm população pobre querem proteções para o caso de a crise alimentar explodir repentinamente. O petróleo em alta pressiona as economias e o fato de que todos têm de lidar com contenção nas emissões de carbono aumenta o custo de vida.

Ao longo da semana passada e no início dessa, chegou-se a culpar China e Índia pelas negociações emperradas. Peter Mandelson, comissário de comércio da União Européia, diz que não. Para ele, a culpa é dos EUA. Sua nova legislação de subsídios mudou o rumo da prosa. Se um dos países mais ricos do mundo chega para conversas de liberalização de mercados dizendo que cederá pouco, ninguém se mexe. De fato. Mas subsídios agrícolas são uma área na qual os europeus, franceses em particular, de inocentes não têm nada.

A impressão para quem lê na imprensa brasileira é de que o Brasil saiu menor das conversações. É que o país não se alinhou de presto com China e Índia. Tentou salvar as negociações. A questão, aí, é que para o Brasil, quando a conversa é exportação de alimentos, os interesses são diferentes. Trata-se do maior produtor e o maior exportador do mundo. Mercados abertos é o que Brasília mais quer.

Se no auge da onda neoliberal alguém acreditou que o destino do mundo era a total abertura, pois bem, não é assim que as coisas funcionam. Todos são protecionistas quando as regras do jogo estão mudando rápido – e isso é assim independentemente de um republicano ou um democrata estar no Salão Oval.

Há, ainda, uma pergunta que cabe e já ronda este Weblog há algum tempo. As instituições internacionais criadas após a Segunda Guerra terão ficado obsoletas? A Organização Mundial do Comércio é uma delas. Na opinião do chanceler brasileiro Celso Amorim, o jogo, agora, será um de acordos bilaterais. Cada dois países vão fazendo seus acertos por conta própria. Ele não é único a considerar que este é o caminho. A OMC não serve para mais nada? Precisa ser repensada? E ainda há quem pense que a história acabou.

Bush se encontrará com Kim Jong Il
(As coisas mais estranhas acontecem)

29/July/2008 - 09h48 - 35 Comentarios

No próximo dia 8, se cumprir sua palavra e algo excepcional não ocorrer, George W. Bush estará em Beijing para assistir ao lado do anfitrião Hu Jintao a abertura dos Jogos Olímpicos.

Não distante dele estará Kim Jong Il. O convite ao ditador norte-coreano foi feito oficialmente mas ainda não há resposta. Jong Il está com algumas viagens internacionais marcadas para este período ali pelas redondezas. Como seu país depende da China, não seria diplomacia das mais hábeis furtar-se à visita.

Assim sendo, periga acontecer pela primeira vez o encontro acidental entre o presidente dos EUA e um ditador da Coréia do Norte.

Barack Obama perdeu essa.