Tudo publicado sobre 'Ásia Sudeste & Pacífico'
Thaís Oyama registra como a China está recebendo a imprensa:
[…] A surpresa foi a recepção reservada aos jornalistas estrangeiros – uma pequena mostra de como a China está determinada a impressionar o mundo e, principalmente, a não deixar que nada atrapalhe os seus planos. Logo na alfândega, fila especial para os portadores de crachá olímpico. Enquanto os outros passageiros se espremiam no guichê vizinho, eu passei sozinha pela minha fila vip. Do outro lado, me aguardava um chinês de pouco mais de vinte anos de idade, vestido com uniforme nas cores oficiais das Olimpíadas. Apresentou-se como voluntário incumbido de recepcionar a imprensa, perguntou como tinha sido a minha viagem, me ajudou a pegar a bagagem, a trocar dinheiro e a alugar um celular – sempre gentil, sempre com um sorriso nervoso no rosto. Se alguma coisa ameaçava demorar ou dar errado, meu amigo voluntário ficava muito aflito. Quando fui me despedir, ele estava na companhia de seis policiais em uniforme verde. Juntos, todos me escoltaram até um táxi: quatro postaram-se ao lado do carro, um se dirigiu à motorista para dar o endereço do meu hotel e outro sacou uma filmadora com a qual registrou a placa dianteira e traseira do veículo. Quando o táxi deu partida, todos acenaram para mim, dando adeus.
dica do Mr X
Tags: China · Mídia
Conflito internacional tem de todo tipo. Uns despertam guerras sanguinárias. A briga pela posse das Ilhas Liancourt não deve chegar a tanto.
O nome é francês mas elas ficam mais ou menos no meio do caminho entre Coréia do Sul e Japão. ‘Ilhas’ talvez seja um nome por demais formal. São pedras, mais de 90, com uma área total que não chega a 0,2 quilômetros quadrados. Os coreanos as chamam de Dokdo, ilha solitária; os japoneses de Takeshima, ilha do bambu.
Três pessoas moram lá, são policiais contratados por Seul.
Na segunda-feira, a Coréia do Sul reconvocou seu embaixador no Japão em nome delas. Sul-coreanos foram às ruas para, ofensa das ofensas, comer a bandeira japonesa.
O alarde vem por conta de um dentre os 14 livros didáticos infantis aprovados este ano citarem as Ilhas Liancourt como parte do território imperial do Sol Nascente.
Enquanto não se decidem, não custa seguir usando o nome que o colonizador branco deu para as pedras. Liancourt era um baleeiro francês que, no século 19, aportou por lá. Não compromete.
(O premiê japonês Yasuo Fukuda estava todo feliz; era o primeiro em anos em sua posição que tinha conseguido não ofender os sul-coreanos. É uma tarefa árdua.)
via Japundit
Atualização - Em 2006, Lucia Malla deu uma aula sobre o que está em jogo entre Japão e Coréia. É bem mais do que meu post irônico faz parecer. A questão não são as pedras e sim os recursos pesqueiros e o gás natural no mar em volta.
Atualização 2 - Diogo Shimizu Lima traz mais detalhes, nos comentários, sobre os conflitos territoriais japoneses.
Tags: Ásia Sudeste & Pacífico
Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.
E o planeta não poderia estar mais diferente.
Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.
As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:
Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.
A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.
Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.
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Após 15 anos sem fazer nada, as Forças Armadas russas voltaram a suas patrulhas planetárias. Missões aéreas de reconhecimento já chegaram perto de invadir o espaço aéreo norte-americano e o britânico, já invadiram de fato o japonês, têm sido avistadas pela marinha dos EUA com regularidade.
Enriquecida com dinheiro do petróleo, Moscou anuncia planos de refazer seu arsenal. Desenvolve armas e as produz. Pretende atingir a marca de 50 aviões bombardeiros em 2015, tem um tanque novo que lançará em 2009, e uma nova geração de mísseis balísticos já ativos. A velha Moscou anuncia sua volta e por conta disso Robert Gates, o secretário da Defesa dos EUA (equivalente a ministro), anda falando para seus oficiais que é bom manter o arsenal nuclear nos trinques.
Os russos não se incomodam: gostam de ser levados a sério. Mas, pergunta-se a Der Spiegel alemã, este é o início de uma nova corrida armamentista? De uma Guerra Fria, portanto? Principalmente, o que quer Moscou? Pode ser angariar apoio patriótico. Pode ser um recado para vizinhos como Ucrânia e Geórgia para que não se distanciem muito da esfera de influência. Pode ser que os russos de fato achem necessário estar prontos para qualquer ofensiva ocidental.
Stanislav Belkovsky, do Instituto Moscovita de Estratégia Nacional, é especialista no assunto e não anda impressionado. Segundo ele, as Forças Armadas mantiveram a capacidade herdada do período soviético até a virada do século. Desde então, o arsenal está em declínio. Dá números: durante o governo Putin, 405 mísseis e 2.498 cargas nucleares foram aposentadas. Apenas 27 mísseis foram produzidos no mesmo período. Esses novos mísseis balísticos, os Topol-M, são grandes e fáceis de eliminar ainda em solo. O veredito de Belkovsky é simples. Em oito ou dez anos, a Rússia terá o potencial militar de uma nação européia de porte médio, incapaz de enfrentar Japão ou Turquia.
Os EUA investem 25 vezes mais nas Forças Armadas e contam com um contingente de 1,5 milhão de homens. Os russos têm 600.000.
Ainda assim, Moscou confunde, age como se fosse um superpoder. No ano passado, o país deixou o Tratado Europeu de Forças Armadas Convencionais. Parece uma afronta, mas é faz de conta. A Rússia não tem condições de manter sequer o contingente que o tratado lhe permitia. E o governo sente-se cercado. Por um lado, a influência norte-americana na Ucrânia e na Geórgia incomoda Moscou profundamente. A idéia dos EUA de colocar mísseis nas vizinhas Polônia e República Tcheca provoca compreensíveis acesso de fúria.
O medo maior, no entanto, não é com o Ocidente. Há um vizinho à espreita: a China. A demonstração de poder, as patrulhas, a exibição de armas, o abandono de tratados de paz, no fim, são um recado simples. Não há uma nova Guerra Fria. Mas o jogo de poderes no mundo está mudando a galopadas de tão rápido.
dica do André Monsores
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O governo chinês está nervoso com a aproximação das Olimpíadas – e, daí, apertando o cerco pesadamente. Há mais policiais nas ruas de Beijing. Está cada vez mais difícil conseguir um visto de entrada no país e muitos dos estrangeiros estão sendo virtualmente expulsos. O movimento mais recente é de censura dos poucos veículos de comunicação em língua inglesa.
A Time Out Beijing é o caso da vez. A edição de junho sequer chegou às bancas – foi proibida de circular. O governo alega que sua papelada não está em dia. Sem a licença para publicar, nada feito. Os editores reclamam que ter os papéis em ordem não é uma opção – o governo simplesmente não o permite. Ainda assim, a revista vinha saindo mensalmente faz três anos e meio. É uma marca estrangeira, popular em várias cidades grandes, e oferece um guia com o que fazer na metrópole. Estaria certamente nas mãos de todos os estrangeiros que chegará à China.
Ao que parece, o governo deseja controlar qual paranóide toda informação que sairá do país nos próximos meses. A expulsão dos estrangeiros que residem no momento serve para se livrar de terroristas em potencial, por certo, mas também mira evitar que jornalistas tenham com quem conversar sobre impressões do país; o controle sobre quaisquer publicações em língua inglesa – mesmo revistas inofensivas como a Time Out – tem o mesmo objetivo.
Mas são decisões que trazem incertezas. Cria instabilidade para os estrangeiros que gostariam de viver no mundo globalizado que inclui a China: não apresenta qualquer incentivo de residência. Afasta as publicações internacionais e, portanto, derruba a idéia de que Beijing e Xangai são cidades do mundo, cosmopolitas, como Tóquio, Paris ou Nova York. Em suma, nos lembra a todos que a China ainda é uma ditadura à moda antiga.
Este Weblog está no momento censurado pelo governo chinês, o acesso limitado. A maioria dos leitores, no entanto, consegue lê-lo via proxy.
Tags: China
A edição que está nas bancas dos EUA da revista FastCompany traz uma interessante análise das atividades chinesas na África.
A África Subsaariana vem crescendo 6% ao ano desde 2004 – lideram os países produtores de petróleo e minerais. Não é pouco para um continente considerado perdido até há bem pouco tempo. Este crescimento, com apoio chinês, tem se traduzido em nítida melhoria da infra-estrutura: estradas, eletricidade – e, com elas, hotéis, postos de gasolina, serviços. Negócios. Neste sentido, a China é uma boa influência que traz, para o continente, algo que o imperialismo e o pós-imperialismo ocidental não trouxeram.
Mas há um problema, aí, comum a todo o planeta mas particularmente grave no caso africano. Um bom naco do dinheiro que entra, sai de imediato. Há algo como 500 bilhões de dólares fruto da corrupção governamental em bancos do ocidente. É um dinheiro que, se repatriado, pagava a gigantesca dívida externa.
Governos e empresas no ocidente costumam dizer que não fazem mais negócios com a África porque, afinal, as coisas mudaram e tolerar trabalho infantil, subcondições de emprego e os altos valores em suborno cobrados pelas autoridades não é mais possível. Como a China não está nem aí para este tipo de ética, ela faz negócios com quem estiver disposto a topar suas condições.
É hipócrita o discurso ocidental. Se há 500 bilhões de dólares em dinheiro da corrupção em bancos da Europa e EUA, não há qualquer esforço para investigá-lo. Os EUA são o país que menos coopera com os investigadores africanos que tentam levantar os fundos dos ex-ditadores e seus comparsas. Em segundo lugar, lá está o Reino Unido. Ninguém quer ver centenas de milhões de dólares deixando sua economia repentinamente. Dependendo da quantia – e, no caso da corrupa africana, o porte é grande –, poderia provocar um desequilíbrio no sistema bancário.
Há uma última razão. Acaso uma investigação séria tenha livre espaço para ser realizada, ficará evidente o quanto de cumplicidade houve por parte das instituições financeiras.
A China faz a África crescer, o corrupção suga um naco dos lucros, mas ainda assim os países vão melhorando. O discurso chinês é de um pragmatismo só: transparência e bom governo são bons, mas não são necessários para que haja desenvolvimento. É o contrário. Transparência e bom governo são o resultado do desenvolvimento. É um discurso conveniente.
Esqueçamos o genocídio do Sudão. Os ditadores, a tortura, as guerras civis, os sanguessugas diversos da terra africana. Agora que há uma potência realmente interessada na África, o desenvolvimento virá? De acordo com a FastCompany, não necessariamente. As exportações chinesas esmagaram no nascedouro a indústria de têxteis e calçados em Botsuana, África do Sul, Quênia e Suazilândia. Fizeram o mesmo com a indústria de plásticos da Nigéria. Sem qualquer chance de ver surgir uma indústria produtora de bens os mais básicos, que rumo tomaria o continente para escapar de ser um mero produtor de carvão, petróleo e algum metal? Esta não é, ainda, uma resposta que se possa dar.
Tags: China · África
3030 é o livro que reúne 30 designers gráficos chineses que têm por volta de 30 anos. Ou seja: nasceram no momento em que o país começava seu processo de abertura.
Para o olhar sensível, muito de como um país se vê, entre a tradição e o futuro, está no design ou nas fotografias produzidas internamente. Refletem tanto a arte quanto o olhar do cidadão típico.
Infelizmente, o site revela pouco do livro. (É só clicar na faixa azul, abaixo das páginas, para passá-las.)
via The China blog
Atualização - A Confetti, nos comentários, dá a dica da exposição China Design Now, que bem complementa o post.
Tags: China
Há um elefante no meio da sala geopolítica. O sempre excelente Gideon Rachman, editor de internacional do Financial Times, o apresenta.
É tudo muito desconfortável. China e Índia estão enriquecendo. E, ao que parece, a nova classe média de lá quer todas as coisas que queremos: carros, máquinas de lavar, até mesmo carne. Aqui no ocidente, temos de nos controlar para não dizer: ‘Parem! Vocês não podem viver como nós. O planeta não agüenta. Nossas carteiras não agüentam. Vocês viram o preço do petróleo?
Igualdade global é a questão desconfortável por trás da crise mundial de alimentos. Também será o problema fundamental nas discussões de energia e aquecimento global.
Não é uma questão de ser contra ou a favor. São os fatos como eles são. O planeta não agüenta. E ninguém tem realmente o direito de dizer que eles não podem.
Tags: China · Energia e Aquecimento global · Mundo
Em 2004, o físico Abdul Qadeer Khan foi à televisão paquistanesa, caiu aos prantos, e admitiu ter vendido o segredo da bomba nuclear para o Irã, a Coréia do Norte e a Líbia. O pai da bomba de seu país, um herói nacional, está em silêncio desde então. Ou estava. O jornal britânico The Guardian o entrevistou.
A.Q. Khan retira o pedido de desculpas. Diz que foi forçado pelo presidente Pervez Musharraf. E diz que não pretende jamais cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU. “Por que deveria conversar com eles? Não tenho qualquer obrigação. Não somos signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear e não quebrei qualquer lei internacional.” Os detalhes da rede de distribuição de informação e material nuclear são “problemas que dizem respeito a mim, a meu país e a ninguém mais”.
O cientista nem nega, nem confirma ser o fornecedor de informação e material. Diz que o segredo da bomba paquistanesa veio do ocidente e que quem quiser e tiver dinheiro tem onde comprar segredos e material no próprio ocidente. Isto inclui Coréia do Norte e Irã.
Há um assunto sobre o qual ele não fala: dizem que ele foi o bode expiatório e que assumiu a culpa da venda que na verdade cabia a um círculo de generais. “Não falo sobre isso, é melhor esquecer.”
via Gideon Rachman
Tags: Irã · Ásia Central · Ásia Sudeste & Pacífico
A Revolução Islâmica do Irã não é a Revolução Francesa. E a situação que motivou John Adams a evitar uma guerra a todo custo em nada se compara à atual.
Afinal, como bem lembram alguns dos comentaristas abaixo, os EUA eram muito mais pobres do que hoje e a França era uma potência militar, embora praticamente acéfala. Não era diferente apenas nisso. Naquela época, o comando militar dos EUA, representado pelo general George Washington e de seu lugar-tenente, Alexander Hamilton, queriam a guerra. Quem não queria é o comando civil. Hoje, é o contrário – os belicistas são os civis. Os militares consideram que o país não tem condições de entrar numa nova guerra.
A história de 1800 só serve a um propósito: afirmar que, às vezes, esperar para que as negociações aconteçam é a coisa sábia a fazer.
Mas analogias históricas são assim: imperfeitas. Encaixa num lado, na outra ponta afrouxa. Alguns querem crer que comparar o atual momento com Chamberlain faz todo sentido. Não faz, é só um clichê. Assim como as revoluções do Irã e da França têm pouco a ver, sugerir que Mahmoud Ahmadinejad seja um Hitler não é apenas exagero. É ignorância histórica.
Pois outra analogia histórica talvez se aproxime mais do cenário atual. Neste, os EUA são já uma superpotência. Do outro lado está um país que, embora não seja uma potência, se envolve nos assuntos das nações vizinhas. Está fora da comunidade internacional. Financia os inimigos de guerra dos EUA. Pior: diferentemente do caso do Irã, o país deste exemplo já tinha declaradamente armamento nuclear.
China, princípio dos anos 1970.
Não era a potência de hoje, mas era uma rogue nation, um país evidentemente nocivo, envolvido no seu pequeno imperialismo regional, buscando influência por toda parte, financiando e armando o Vietnã que estava em guerra contra os EUA. Aliás, era um país preocupadíssimo com a presença norte-americana nas redondezas. Não fazia parte da comunidade internacional e sequer parecia interessada em estar.
Em 1971, secretamente, o secretário de Estado Henry Kissinger visitou a China e esteve com o líder revolucionário do país, Mao Zedong. O principal resultado daquelas conversas foi a decisão de que conversas formais deveriam acontecer. Mao queria que o mundo aceitasse a China e compreendia que esta aceitação passava pelos EUA. Então o presidente norte-americano, Richard Nixon, foi ele próprio a Beijing, visitou a Grande Muralha, apertou perante os fotógrafos a mão do líder revolucionário.
Aquele encontro de 1972 serviu mais às fotografias e imagens que correram o mundo, uma evidência de disposição para a conversa, do que a resultados diplomáticos concretos. A diplomacia de fato começou após o aperto de mãos e seu resultado está na China de hoje.
Tags: China · EUA · História
Pescando dos comentários abaixo, diz a Ana, que assina o blog Ana no Império do Meio e que vive em Xangai:
O que aconteceu ontem, mesmo com os prédios que o governo diz ter evacuado, foi uma trapalhada. Xangai é considerado um lugar seguro para terremotos. Mas, estando na Ásia, tão perto de locais como Mianmar e com histórico prévio de catástrofes, era de se imaginar que as pessoas saberiam como agir. O que aconteceu foi um monte de gente correndo como barata tonta, guardas sem saberem lidar com situação, nenhuma sirene tocando para avisar aos moradores para deixarem suas casas.
Através de uma mídia controlada, o Estado traça a sua lista de prioridade para políticas públicas e determina que tipo de informação os veículos de comunicação devem focar. Assim como poucos chineses sabem que se deve escovar os dentes após as refeições, também não sabem agir diante de um terremoto.
Na minha ex-cidade Wuhan, caiu até prédio.
A mortandade está grande, mas, apesar de não ter provas, algo me diz que haverá alardes e alardes para sufocar a questão do Tibete na mídia.
Ana fez dois comentários, e o acima é um condensado de ambos. No segundo, ela tece críticas à cobertura da televisão brasileira.
Zictor, autor do Mundo visto pelos leitores sobre a China, e que vive em Beijing, continua:
Sobre o fato de o povo não estar preparado para lidar com o terremoto, isso não me surpreendeu. Os chineses só aprendem batendo cabeça, faz parte da cultura deles. É difícil falar de prevenção aqui sem que eles ou alguém que eles conheçam tenham sofrido de um problema semelhante.
Assim, mesmo que a mídia fosse livre, a chance de que ela tentaria cavucar ‘responsáveis’ pela desgraça seria pouca. Os chineses não se preparam muito mesmo. Vão começar a se preparar agora, mas só perto da área afetada.
Da mesma forma, a mídia chinesa não tem motivos para tentar esconder o número de mortos. Eles têm uma razoável liberdade de manobra. A partir de informações conseguidas de fontes confiáveis (não posso dar muitos detalhes), a imprensa chinesa só aperta mesmo em tópicos politicamente sensíveis, como os 3 T’s (Taiwan, Tibet e Tian’anmen). Tirando esses campos minados, o que rola mais é auto-censura mesmo.
Os políticos chineses também não são burros. Assim como ocorreu quando houve a nevasca, Wen Jiabao (primeiro-ministro) e Hu Jintao (presidente) já estão no local, pra tirar foto e dar ordens. Os políticos locais também se mexem, é a chance de eles mostrarem serviço e conseguir promoções.
A mídia está focada nos esforços de resgate. Se alguma autoridade local fizer merda ou embaçar, tá lascada. Há uma chance de a mídia cair em cima. A responsabilidade vai toda em cima da pessoa e o partido sai quase ileso. Aqui, os chineses dissociam as autoridades locais do partido.
O importante é fazer a liderança do topo sair bem na fita. Os locais correm riscos.
Para concluir, discordo do PD, este NÃO é um teste para a abertura da China. Durante o Grande Salto para frente eles já haviam culpado desastres naturais por problemas econômicos. Pelos padrões dos chineses, as notícias mais importantes para o mundo podem ser liberadas. Somente o enfoque e a direção em que apontam as coberturas precisam ser ‘guiados’. E essa manipulação sutil dificilmente será percebida ou destacada pela mídia mundial.
Os comentários do Zictor também foram condensados – o completo está lá embaixo. Nós, eu e ele, percebemos a China de maneira diferente. E este é um bom debate. A China já é uma potência mundial – e pelo seguinte motivo: sua política externa determina o futuro de muitos países. Sanções a lugares como o Sudão são impossíveis sem a colaboração chinesa. E, enquanto a China mantiver a bênção sobre lugares como o Sudão, crimes podem acontecer. (Ser potência não é simples.)
O governo da China, como qualquer potência, joga dois jogos de imagem simultaneamente. O primeiro é interno e tanto Ana quanto Zictor estão nos dando uma aula sobre como os chineses se vêem e se compreendem. O segundo é externo. Perante a tragédia de Nova Orleans, o governo liderado por George W. Bush fracassou em ambos os jogos de imagem. Aparentemente, pelo menos no que toca à percepção interna, o governo chinês tem a crise sob controle. A percepção externa, que andou problemática por conta do Tibete, ainda está aberta.
Tags: China
Um terremoto de 7.8 na escala Richter é um terremoto brutal. O Big One, que a Califórnia espera para algum momento nos próximos anos, terá uma intensidade de pouco mais que isso. Aquele de 1906, que desencadeou o incêndio de meia San Francisco, teve exatamente esta magnitude: 7.8. Vivi as conseqüências de outro, na mesma San Fran, de 7.1 (muito menor).
Este é um teste para a abertura da China. O New York Times trabalha com 7.600 mortes, já. A capacidade do governo de atender as vítimas, de lidar com a ajuda internacional, de explicar ao mundo o que se passa, darão mostras de que tipo de potência poderemos esperar. A China entrará num casulo de auto-proteção – como a URSS costumava fazer – ou permitirá à imprensa que torne tudo público, inclusive os vacilos das autoridades locais e nacionais? É certo que um caminho do meio é o mais provável. Do meio, sim, mas de que lado?
(Zictor: por aí? Como vão as coisas? Notícias?)
Atualização – A China já reconhece mais de 9.000 mortes.
Tags: China
Da Time:
As pessoas levam maus presságios a sério em Myanmar. Há séculos que astrólogos observam os caminhos dos planetas e as mudanças sutis do tempo em busca de traços que relacionem as irregularidades celestiais e os problemas terrenos. Assim, quando um ciclone tropical varreu o país entre 2 e 3 de maio matando mais de 22.000 pessoas e deixando centenas de milhares desabrigados no delta do Irrawaddy e na capital comercial Rangum, todos repararam um detalhe curioso. No dia 10 de maio, a junta linha dura que governa o país ia promover um referendo constitucional, o primeiro passo para aquilo que os militares chamam de ‘o alvorecer de uma democracia disciplinada’.
Os críticos rejeitam o plebiscito, que foi adiado por conta do desastre natural. Dizem que é um faz de conta político da junta para legitimar seu poder, já que a nova constituição prevê um bom naco das cadeiras no parlamento para os militares e proíbe os principais líderes oposicionistas de se candidatarem. Foi aí, pois, que os céus se abriram e os ventos sopraram. Os deuses, ao que parece, não estavam felizes com a liderança de Myanmar.
É um dos países mais pobres do mundo. Por isso mesmo, um dos menos preparados para um desastre natural destas proporções. Os militares ainda não se engajaram no processo de reerguer o país após a tempestade – e o fato de que eles não estão nas ruas trabalhando não passou despercebido à população.
O povo, diz Aung Zaw, que edita o principal jornal da comunidade birmanesa no exílio, ‘tem raiva da junta por ter reagido mal à tempestade e tem raiva da tempestade por não ter abatido a cidade de Naypyidaw, onde vivem os militares da junta’.
Tags: Ásia Sudeste & Pacífico
No fim de semana de 19 e 20 de abril, a China foi tomada por protestos anti-França. Eram os cidadãos respondendo à maneira como os franceses receberam a tocha olímpica.
Diz Simon Elegant, da Time:
Os manifestantes anti-França não são apenas uma minoria barulhenta e histérica; muitos dos chineses estão realmente com raiva daquilo que vêem como uma conspiração global para sujar o bom nome de seu país e arruinar as olimpíadas. É um momento ruim para um país que pretendia mostrar seu melhor lado ao mundo e, agora, está apresentando algo pior. Os chineses têm muito orgulho tanto daquilo que seu país conquistou nas últimas duas ou três décadas quanto do prestígio angariado com as olimpíadas. Mas muitos ainda sentem insegurança a respeito da posição da China no mundo e sentem-se assombrados pelas humilhações passadas nas mãos de estrangeiros que lhes são contadas desde a infância por um governo cada vez mais dependente de nacionalismo para manter sua legitimidade.
Ao invés de facilitar o serviço daqueles que, de dentro da China, procuram abrir mais o regime, os protestos ao redor do mundo estão unindo chineses e seu governo. Assim, aos poucos, vamos conhecendo um pouco mais da nova superpotência mundial. Na alma chinesa, incrustada, estão uma potente idéia de que se é vítima. De que o mundo conspira para derrubar a China.
O resultado, no entanto, é que qualquer crítica ao governo chinês é interpretada como uma ofensa ao país por um bom naco de chineses. Isto mantém o governo numa situação de conforto. Embora ele precise dar algum tipo de resposta internacional – uma conferência com emissários tibetanos, por exemplo – não precisar oferecer nada de muito sério. Não há pressão interna. O povo está ao seu lado.
Tags: China
Para Gideon Rachman, editor de Internacional do Financial Times, a globalização está ameaçada. Hoje, ele sugere, as elites políticas em todo o mundo estão convencidas de que a abertura global de mercados é o caminho a seguir. Os principais protestos ficaram para trás, nos anos 90 e princípios do século.
Mas há novas ameaças. Não importa em que lado da discussão estamos – se no de quem é contra ou no de quem é a favor da globalização –, sua leitura é interessante:
A ameaça mais óbvia é uma crise na relação política e econômica mais importante do mundo – aquela entre EUA e China. O governo Bush, apesar de sua reputação belicosa, teve sempre o cuidado de evitar confrontos com a China; da mesma forma, os chineses não demonstram qualquer interesse em choque com os EUA – ao menos, não por enquanto. A globalização criou uma teia de interesses mútuos. O maior risco para as relações sino-americanas é o de um erro de cálculo: um choque – sobre comércio ou Tibete ou Taiwan – que ganha tamanho e provoca estrago real. Combine uma recessão norte-americana, uma eleição presidencial e as Olimpíadas de Beijing e lá está uma fórmula para problemas futuros.
No longo prazo, terrorismo e mudanças climáticas também ameaçam o sistema. A globalização depende da facilidade de acesso a qualquer lugar. De formas diferentes, o aquecimento global e o terrorismo global dificultam nossa habilidade de pular num avião a qualquer momento para ir para um outro canto do mundo.
O maior de todos os riscos, no entanto, é o de que políticos comecem a perder a discussão em prol da globalização. Uma pesquisa de opinião recente mostrou que 58% dos norte-americanos acham que a globalização é ruim para os EUA e que apenas 28% acham que ela foi boa. Há dez anos, a globalização ganhava por uma fina margem. Os políticos já está reagindo à mudança. Os democratas argumentam com ceticismo a respeito do livre comércio entre nações. Os republicanos atacam a imigração.
Na Europa, Nicolas Sarkozy, o presidente francês, vem cobrando mais protecionismo para a comunidade européia. Ele quer restabelecer uma ‘preferência comunitária’ – ou seja, tarifas maiores para bens que venham de fora da União Européia. Sarkozy, por enquanto, não tem muitos aliados. Mas a eleição de Berlusconi, na Itália, pode mudar isso.
Quem está de fora considera os indianos e os chineses os maiores beneficiários da globalização. Mas o último governo indiano perdeu a eleição porque os moradores pobres do campo se sentiam excluídos do crescimento. Como há outra eleição se aproximando, nenhum político indiano tem pressa de assinar novos acordos de comércio. É mais difícil avaliar o clima político em países de um só partido, como a China. Mas é evidente a tensão do governo com o desemprego rural, protestos de ambientalistas e a crescente diferença entre o litoral rico e o interior pobre. O capitalismo global parece ser difícil de ser vendido até na China.
A impressão de que os mais pobres perderam com a globalização aumenta conforme aumentam os preços de alimento. A fome – a mais tradicional ameaça a quem está no poder – está de volta a muitos países que abraçaram a globalização.
Líderes políticos em todo o mundo estão se esforçando para agüentar a pressão e manter o consenso que tornou possível a globalização. Mas este é um esforço cada vez maior. A globalização foi possível porque houve mudança na mentalidade de políticos. Aquilo que a política faz, no entanto, a política também pode desfazer.
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Quando Hillary Clinton cobrou do presidente George W. Bush o boicote dos EUA à cerimônia de abertura dos Jogos de Beijing, aquilo era esperteza política. A campanha de Hillary está por um fio e ela acabara de demitir Mark Penn, seu número dois. Um pedido ao boicote fez os jornais mudarem de assunto.
Mas as vaias, primeiro nas ruas de Londres, depois num tom mais alto em Paris, o símbolo da tocha três vezes apagada e dos atletas carregando a chama olímpica circundados de policiais não têm nada de planejamento político.
São várias as ONGs, incluindo os Repórteres Sem Fronteiras, que estão planejando criar alarde no mundo a respeito das ações internacionais da China. Essas coisas colam ou não colam. Neste caso, agora está claro, colou.
As Olimpíadas serão um pesadelo incontrolável para o governo chinês.
O Comitê Olímpico Internacional tinha uma experiência de sucesso em mente quando escolheu Beijing para sediar os jogos: Seul, 1988. Quando a Coréia do Sul foi escolhida, o país vivia uma ditadura. Com a oportunidade de reapresentar sua imagem ao mundo, houve pressão popular e política para maior abertura. Os estudantes foram às ruas – um terminou torturado e morto. As eleições diretas foram marcadas para o ano das Olimpíadas.
Ninguém achava que o Partido Comunista Chinês deixaria em poder como fizeram os generais sul-coreanos. Mas havia uma clara esperança de que o holofote dos jogos produzisse um clima interno favorável a abertura. Talvez, como no caso sul-coreano, isto envolvesse protestos e alguma violência. Mas, no mundo ideal do COI, o governo chinês não teria opção que não ceder.
De sua parte, o governo chinês também fez planos. A televisão local mostra tudo com delay – assim, há tempo para cortar uma imagem de protesto ou outra; há postos de acesso a Internet voltados especialmente para jornalistas. A rede deles não tem censura, mas não é aquela que os chineses vêem. O governo tinha esperanças, também, que os jornalistas, em geral especializados em esportes, estariam tão envolvidos com a cobertura que a ditadura não ficaria exposta demais. Com manhas tecnológicas e um brutal empenho em propaganda, achava que mostraria ao mundo uma ditadura, assim, mais humana.
Não é que daria para prever o que está começando a acontecer. A aposta do COI poderia dar certo. A do governo chinês, também. Só que os planos de ambos vazaram água.
Nos últimos anos, a imprensa internacional vem cobrindo a China como a grande potência do futuro. Este ano, um bocado por conta dos Jogos, isto acaba de mudar. A China é a potência do presente. A segunda maior depois dos EUA. E, assim como acontece com os EUA e como aconteceu noutros tempos com a URSS, sua política externa será vigiada. Haverá gente empenhada em mostrar ao mundo o que esta superpotência faz de mal. É, por assim dizer, uma benesse que acompanha o posto. Uma superpotência não pode fazer o que bem quiser e achar que ninguém vai reparar.
O curioso é que o governo chinês sempre reclamou que havia um duplo padrão, que os EUA podiam fazer o que bem quisessem mundo afora e eles, não. Os EUA descobriram com o Iraque que há limites: o desgaste de sua imagem nos últimos anos foi violentíssimo.
A China é uma ditadura. Seu governo está acostumado a fazer o que bem quer sem que o público interno ligue. Agora, há a pressão externa.
A tocha chega quarta-feira a San Francisco, na Califórnia. Os protestos estão armados. Esta volta ao mundo já virou um pesadelo.
Durante os jogos, será muito pior. Em metade das cerimônias de entrega de medalha, através de gestos diversos, de protestos nas arquibancadas, o mundo estará sendo lembrado dos desmandos chineses.
A ditadura não conseguirá controlar nenhum destes momentos. E não há marqueteiro que consiga restaurar depois.
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Os bons ministros do TSE tupinambá devem achar que Internet é só uma coisa a mais em eleição. Assim como tevê. Ou jornal. Nem desconfiam que, na comunicação em rede, o candidato azarão pode se fazer favorito; que uma eleição pode ser virada.
Os sul-coreanos, sabem.
Pois foi que, quando em 1997 veio a Crise Asiática arrastando consigo os Tigres, ficou todo mundo mal. Para resolver a bagunça e estimular a economia, o governo em Seul decidiu investir pesadamente em algumas áreas que consideraram essenciais. Telecomunicações, por exemplo. E foi tanto dinheiro sobrando que as telecoms, além de contratar muita gente, traçou todo o país com banda larga. Em 97, 98, isso era luxo em todo mundo. Na Coréia do Sul era cotidiano.
Em 2002, Roh Moo Hyun era um candidato diferente. Não tinha a mínima chance de ser eleito. Mas, ativista, entrou no pleito só para dizer algumas coisas que achava importantes. Ao seu lado, contou com um movimento que começava a se fazer presente: os netizens, cidadãos que se manifestavam na Internet em fóruns de discussão que, lá, a turma chama de Ágora. Como a praça grega.
Só se discutia Roh na Internet. Em toda parte. A imprensa tradicional começou a fazer editoriais contra ele. Os sul-coreanos mais velhos que não eram tão embrenhados na Internet foram para a rede guiados por seus filhos para saber sobre quem era esse estranho de quem tanto falavam. Mais a imprensa batia, mais gente falava mal da imprensa na rede e melhor de Roh.
Entrou azarão. Em 2003, assumiu o cargo de presidente.
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No início dos anos 20 do século passado, Iwase Yoshiyuki era um jovem advogado recém-formado que tornava à pequena cidadezinha de Onjuku, no Japão. Sua vida estava traçada: sua missão era assumir a destilaria de saquê da família. Mas, aí, alguém deu de presente para Iwase uma câmera fotográfica.
Ele foi para o mar.
Era frio, o mar. Tão frio que só é tolerável entre junho e setembro. As correntes eram fortes. Tão fortes que o mergulho só era possível durante uns 20 dias por ano. Naquele Japão ainda quase medieval no qual o contato do interior com o ocidente era quase nulo, viviam as amas. Eram moças, em geral jovens, que no período de mergulho enfrentavam o gelo da água e as fortes correntes para colher moluscos e algas.
As amas mergulhavam quase nuas em três turnos durante os dias de pouco risco, tinham uma considerável capa de gordura para agüentar o frio e muita força, um trabalho árduo e, por isso, valorizado. Mergulhavam por períodos curtos entre 60 e 80 vezes todos os dias. Ganhavam nestes 20 dias por ano muito mais do que a maioria das pessoas em Onjuku durante todo o ano.
As amas, durante muitos séculos, é que colhiam as algas que revestiriam os tekkas da culinária japonesa de sushis e sashimis. Mas conforme a modernidade foi chegando, as amas se foram. Já na década de 60, não existiam mais seus mergulhos quase nuas, como não existiam mais os samurais ou mesmo o Japão do fim da Era Meiji que representavam.
As belíssimas fotografias de Iwase Yoshiyuki são a única documentação feita delas. Iwase morreu em 2001, aos 97 anos.
via Metafilter
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O que diz Tenzin Gyatso, o 14o Dalai Lama, em sua entrevista à Newsweek desta semana:
O que o senhor acha que falta para que os líderes da China reconheçam sua sinceridade? O primeiro ministro Wen Jibao quer que o senhor aceite duas condições antes de o diálogo começar. Que renuncie à independência do Tibete e que renuncie à violência.
No ano passado, em Washington, estive com alguns professores chineses e alguns me perguntaram: ‘que garantia existe de que o Tibete não vai se separar da China no futuro?’ Eu respondi que minhas declarações não vão influenciar este processo, nem minha assinatura. A única garantia é a satisfação do povo tibetano. Eles precisam sentir que é seu benefício fazer parte da China. Quando sentirem isso, esta será a maior garantia para que o Tibete faça parte para sempre da República Popular Chinesa.
O governo da China quer que eu diga que por séculos o Tibete fez parte da China. Mesmo que eu diga isso, muitos vão rir. E minha declaração não mudará a história. História é história.
Não vale falar do passado. O passado ficou no passado e não importa se o Tibete fazia parte da China ou não. Devemos olhar para o futuro. Acredito sinceramente que uma nova realidade está nascendo. Os tempos são outros. Grupos étnicos diferentes e nações diferentes se reúnem porque faz sentido. Veja a União Européia… é fantástica. De que valem países pequenos lutando um contra o outro? É muito melhor para os tibetanos que se juntem à China. É isto que acredito.
Entre 1240 e 1913, o Tibete fez parte do Império Chinês. A dinastia do primeiro Dalai Lama foi imposta pelo imperador da China em 1578. (E o terceiro Dalai Lama era um dos netos deste imperador.) A China reconquistou o Tibete entre 1950 e 51.
Nos últimos anos, o Dalai Lama não pede a independência do Tibete. Sua proposta de um ‘Tibete Livre’ é um Tibete autônomo.
Tags: China
Na visão de Yang Yi, um almirante na Marinha chinesa dentre os principais pensadores da estratégia do país, os EUA estão em vantagem militar e cercam a China. A vantagem não é dada pela quantidade ou modernidade de armas. Os EUA não precisam disso porque o cerco é muito mais sutil – está no argumento. Sempre que a China procura modernizar ou ampliar seu poderio militar, de presto ela é apresentada como ameaça. E o mundo compra esta idéia. Para Yi, a impressão de que a China é uma ameaça militar acaso decida se armar é o maior obstáculo de sua política externa.
Este é o terceiro e último post baseado no artigo de Mark Leonard na Prospect. Leonard é autor de What does China think?, à venda na Amazon dos EUA e do Reino Unido. O assunto de hoje é a relação da China com o resto do mundo.
Hoje, o pensamento hegemônico – embora não unitário – na China passa ao largo das opiniões de Yi. A palavra de ordem é quanli, equivalente ao soft power norte-americano. A diplomacia do país busca ações que vendam a idéia do ’sonho chinês’ em oposição ao americano. Daí que, enquanto os EUA falam de mudança de regime pelo mundo, Beijing defende o respeito à soberania dos países. A mensagem que querem passar é que a China representa crescimento econômico, soberania política e respeito às leis internacionais. A idéia é: a China ouve outros países. E é esta China que aceita o papel de mediadora em conversas com a Coréia do Norte ou o Irã.
Este é um ponto de vista particularmente defendido pela ‘nova esquerda’ do país. Gente como Yi representa o equivalente aos neo-conservadores e estes recorrem aos antigos pensadores da terra propondo um novo projeto. Há, dizem eles, dois tipos de influência. Wang é a influência do rei. O rei lança uma influência benigna ao longe; no outro lado está Ba, o ’senhor feudal’. Ele impõe pela força seu comando. Na antiguidade, propõem Yi e Yan Xuetong, a China aplicava tanto um quanto o outro. Para os vizinhos imediatos, Ba; para os países mais distantes, Wang.
Por enquanto, a China está empenhada em parecer conciliadora. Enquanto a Rússia não perde uma chance de provocar os EUA, a China se desvencilha de conflitos. Quando, na ONU, o Conselho de Segurança estava embrenhado na questão de ir ou não à guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, os chineses se calaram, permitindo aos russos e franceses que vocalizassem a oposição. Na questão dos direitos humanos, a China permitiu que os países muçulmanos se levantassem contra regras mais rígidas. Conseguiu o resultado que queria sem se expor ao desgaste. O resultado desta política é o seguinte: Em 1995, os EUA venceram 50,6% das votações na Assembléia Geral da ONU; em 2006, apenas 23,5% delas. George W. Bush não ajuda, evidentemente. Mas para aproveitar a fraqueza do inimigo carece esperteza. Em 95, a China venceu 43% das votações; em 2006, 82%.
Habilidade no jogo diplomático não quer dizer que a China vença o jogo de percepção – e este é o centro do argumento do almirante Yi. Ao promover o respeito à soberania de todas as nações, o cada um faz o que achar melhor, lava cinicamente as mãos perante o genocídio de Darfur, no Sudão.
A África é muito importante para a China. Em 2007, o país criou uma Zona de Economia Especial que engloba o continente. Seu modelo de crescimento está sendo implantado em vários bolsões pelo continente. Com o dinheiro chinês, a África dá as costas para o FMI e o velho sistema internacional. Tem crescido a partir de investimentos maciços. Estradas de ferro e indústrias, obras de infra-estrutura, surgem onde antes só havia miséria. O agrado à África dá de volta à China petróleo, produtos, influência. Não vem sem custo: a impressão de que há um imperialismo em curso e, principalmente, de que a China não liga para as piores aberrações. À China, tudo vale.
Não é que com os EUA seja diferente. Apenas que o almirante Yi está certo. No jogo de percepções, ainda há um longo caminho a percorrer. A crise da última semana, no Tibete, só mostra duas coisas: o fato de ser uma ditadura e, portanto, simplesmente ignorar as questões de direitos humanos persistem sendo o maior obstáculo ao ingresso da China no universo das superpotências.
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