Os 10 países mais perigosos do mundo

10/August/2009 - 10h14 - 323 Comentarios

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Obama inicia conversa sem pré-condições com Coreia do Norte

05/August/2009 - 08h02 - 99 Comentarios

Em 1994, Jimmy Carter visitou a Coreia do Norte e esteve com o então ditador Kim Il-sung. O presidente Bill Clinton não gostava da ideia. Não é sempre que as aventuras diplomáticas de Carter dão certo e a estratégia norte-americana era a de isolar o ditador coreano o máximo possível. Mas, naquele caso, a visita de Carter deu certo. Até então, os EUA estavam decididos a promover um ataque aéreo que destruísse o sítio de obras de instalações nucleares. Carter retornou com uma proposta de diálogo que congelou o projeto norte-coreano por quase uma década.

Oficialmente, nada é oficial.

Bill Clinton, agora um ‘homem privado’, entrou na Coreia do Norte em uma avião sem qualquer identificação com a missão exclusiva de soltar as repórteres Laura Ling e Euna Lee, da TV Current.

Estive na Current, em San Francisco. É uma operação miúda com alta tecnologia. No pequeno prédio de tijolos vermelhos esmagado por dois arranha-céus, a sala de Al Gore, toda envidraçada e com um enorme pôster do planeta Terra na parede, se destaca. A operação é tão pequena que não tem muitos jornalistas além de Robin Sloan, um sujeito jovem mas talvez a cabeça mais criativa na união entre tevê e internet que há nos EUA. A Current de Al Gore funciona contratando freelancers. As repórteres não são suas empregadas. Propuseram uma matéria, a turma topou. Era muito mais arriscado do que parecia a primeira vista.

(Vida de repórter online, independente, é bonito; ter uma grande empresa jornalística para defendê-lo em caso de algum problema em missões delicadas é fundamental. As moças tiveram a sorte de ter por chefe o ex-vice-presidente dos EUA.)

Já estava garantido a Clinton que, se ele viesse e conhecesse o filho de Kim Il-sun, Kim Jong-il, ele voltaria com as moças. Deu certo. Obama, oficialmente, não falou com o ex-presidente. Mas não é coincidência que Clinton, além de ex-presidente, é também marido de quem comanda a diplomacia norte-americana. E que, a seu lado, estava John Podesta, assessor informal do atual presidente. A missão de Clinton só era informal em nome. Trancado por trás das portas, ele e Kim Jong-il não conversaram apenas sobre as moças.

Durante a campanha presidencial, Barack Obama disse que seu governo negociaria sem estabelecer pré-condições com qualquer outro governo. Na época, Hillary Clinton fez graça.

Pois Obama acaba de começar a fazê-lo. Através de um Clinton.

E se a Guerra da Coreia voltasse?

09/July/2009 - 10h42 - 60 Comentarios

Em seu blog, o editor de internacional do Financial Times, Gideon Rachman, destaca uma análise de Zhang Lianggui, um dos principais especialistas chineses em Coreia do Norte.

O professor acha que a Coreia do Norte está se preparando para uma guerra.

A análise chamou atenção de Rachman por um motivo: foi publicada, inicialmente, num veículo oficial do governo chinês. E os chineses não costumam ser alarmistas ou abertamente críticos ao governo de Kim Jong Il. Diz o professor:

A probabilidade de um conflito na península coreana é alta. Provavelmente terá início no mar e poderia se alastrar além do paralelo 38 rapidamente. Se uma guerra estourar, é difícil prever o resultado. Os norte-coreanos acreditam ter armas nucleares e que isto faz deles mais fortes. Eles acreditam ter superioridade militar sobre o sul e que uma vitória seria inevitável.

Zhang Lianggui considera que reverter a capacitação nuclear da Coreia do Norte deveria ser prioridade na política externa chinesa.

Conflito étnico entre Hans e Uighurs? É a crise econômica à chinesa

08/July/2009 - 08h09 - 163 Comentarios

Hu Jintao, o presidente chinês, deixou a Itália às pressas sem esperar pelo encontro do G8, enquanto a crise na região da China mais próxima à Ásia Central se agrava. Oficialmente, morreram já 156 pessoas nos choques entre chineses de etnia Han (majoritária no país) e os Uighurs (turcomenos).

Os Uighurs compõem 45% da população da província de Xinjiang, noroeste do país. Desde que a al-Qaeda varou as torres gêmeas de Nova York, Beijing teme pela estabilidade da região. Xinjiang faz fronteira com a Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – que inclui o naco do mundo onde a vertente do extremismo islâmico do Talibã e de Osama bin-Laden encontrou abrigo. Os Uighurs são muçulmanos e, desde os anos 1990, há um grupo separatista que pratica atos de terror, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental – ETIM, na sigla em inglês.

Mas antes de sair com uma interpretação que passe pela al-Qaeda e sua inspiração, não custa entender melhor o cenário. Em 1940, os Hans compunham 5% da população da província. Hoje já são 40% – a China estimula a migração por considerar que estabiliza as regiões do país com etnias muito distintas.

Xinjiang é o canto mais rico em petróleo da China e a renda per capita na região também está entre as mais altas do país. Enquanto isso, o índice de desigualdade social é um dos piores. Chineses han têm os melhores empregos, o uighurs têm os piores. Alguns explicam que o problema é linguístico – num canto isolado do mundo, o grupo local não domina o mandarim, fala seu próprio dialeto de origem turcomena, uma língua parecida com o uzbeque que toma palavras emprestadas do persa. O problema é também educacional: os han têm acesso a mais anos de escola. O resultado prático é um só – os melhores empregos estão com uns, não com os outros.

Cenário propício para um conflito étnico? Sim, mas a razão é econômica. Condoleezza Rice, conta que quando secretária de Estado dos EUA ouviu a seguinte conta de Hu Jintao: sua missão é criar 25 milhões de empregos por ano. Em 2008, criou 9 milhões. A conta dos chineses é que sua estabilidade interna depende de uma economia que cresça rápido o bastante para que todos percebam ter chances de melhorar no futuro. Quando essa percepção for embora, Beijing tem medo.

Apesar das Olimpíadas, 2008 foi um ano ruim para a China. Terremoto grande, escândalo por causa de tinta de brinquedos, altos níveis de poluição em Beijing e uma crise econômica particularmente difícil.

Conflito étnico? Sim. Mas a causa é esta: 9 milhões de empregos em 2008 e um número provavelmente parecido em 2009.

Uma construção posto que é domingo

05/July/2009 - 10h21 - 14 Comentarios

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A história do Massacre de Tiananmen,
a Praça da Paz Celestial

04/June/2009 - 13h10 - 15 Comentarios

Hu Yaobang, sexto secretário geral do Partido Comunista da China, encarou como sua a missão de promover reformas políticas e econômicas no país. Em 87, no entanto, a linha dura do partido o pôs para fora. Dois anos após derrubado, Yaobang morreu: 15 de abril de 1989.

A morte mexeu com os estudantes. Yaobang representara esperanças sufocadas. Naquele dia, após receberem a notícia, um grupo de mil estudantes deixou o campus da Universidade de Beijing em direção à Praça da Paz Celestial (Tiananmen) para chorar o morto perante o monumento dos Heróis do Povo. Pessoas de toda cidade começaram a vir para a praça.

E não foram embora. Nos dias seguintes, permaneceram lá. No dia 21, já eram mais de 100.000 – e, no dia 5 de maio, 100.000 marcharam pelas ruas de Beijing pedindo liberdades. Um grupo de estudantes que tinha entre seus líderes Wuer Kaixi decidiu fazer uma greve de fome.

No governo, o secretário geral do partido em pessoa, Zhao Ziyang, sucessor de Hu Yaobang, tentava manobrar para que houvesse tolerância com os protestos. No dia 18 de maio, ele foi convocado à residência do líder máximo, Deng Xiaoping. Sofreu um descompostura. No dia 19, Ziyang foi pessoalmente tentar dissipar os protestos. “Não se sacrifiquem à toa”, ele disse. “Os rapazes em greve de fome estão fracos. Vocês nos criticam, e vocês tem razão. O processo é lento, nos dêem uma chance, mas não continuem a greve de fome. As respostas não virão rápidas.” Ele encerrou o comovente discurso com sua frase mais lembrada. “Nós já somos velhos, nós não somos mais importantes.”

Os protestos não foram dispersados. No dia 20 de maio, o governo implantou Lei Marcial, Zhao Ziyang perdeu o cargo e foi colocado em prisão domiciliar. A linha dura assumiu o comando. Batalhões de todo o país foram trazidos a Beijing.

Na noite do dia 3 de junho, tanques e soldados com baionetas começaram a avançar sobre a praça. Abriram fogo, os tanques avançaram. Quando o dia amanheceu no 4 de junho, a Praça Tiananmen estava vazia.

A Cruz Vermelha chinesa chegou a anunciar 2.600 mortos ao longo da madrugada, depois negou que tivesse tal número. O governo diz que morreram 241.

Hoje, a revista eletrônica Guernica publica uma entrevista com Wuer Kaixi, o jovem estudante que liderou a greve de fome:

Logo após Tiananmen, veio a idependência do Timor Leste, Mandela deixou a prisão, o Muro de Berlim caiu. O mundo parecia estar ficando melhor. Depois do Onze de Setembro, veio a guerra no Oriente Médio e a idéia de que o mundo está melhor ficou difícil de defender.

Mas depois de 1989, a China ficou melhor. Depois de Tiananmen, o Partido Comunista decidiu fazer um acordo com o povo chinês. Ofereceu liberdade econômica em troca de cooperação chinesa. É um acordo ruim, porque tanto liberdade política quanto econômica não pertencem ao governo para que ele possa oferecê-la. Mas, de qualquer forma, o povo aceitou o acordo e o Partido Comunista deixou o dia-a-dia das pessoas.

Não há mais um Estado ideológico e é por isso que o povo chinês concordou com apenas liberdade econômica.

O dia que definiu o destino da China faz, hoje, 20 anos.

Kim Jong-Il tem sucessor oficial

02/June/2009 - 13h14 - 37 Comentarios

Kim Jong-Un, filho caçula do ditador norte-coreano Kim Jong-Il, acaba de ser designado oficialmente como sucessor do trono comunista.

Neste meio tempo, mui discretamente, os EUA começaram a vender bombas arrasa bunker para a Coréia do Sul.

Embora nenhuma afirmação garanta que Kim Jong-Il está para deixar o governo, seu filho trará pelo menos uma mudança ao fechado governo norte-coreano. Kim Jong-Il, de quem não se sabe muito, foi educado entre a União Soviética, a China e seu país. Embora tenha freqüentado a Ilha de Malta para aprender inglês, durante os anos 1970, não é lá um homem muito viajado.

Kim Jong-Un, por outro lado, foi educado na Escola Internacional de Berna, na Suíça, falando inglês. Também é fluente em francês e alemão. Seus colegas não sabiam de quem se tratava – oficialmente atendia por outro nome e era filho do motorista da embaixada, fã de Michael Jordan e basquete da NBA, de Jean-Claude Van Damme. Uma educação ocidental, portanto, no coração da Europa, poliglota.

Fará diferença? Uma das dificuldades que diplomatas encontram com Kim Jong-Il é seu provincianismo. Ele não tem muita noção de como é o mundo fora de seu país, que conhece mais pelo cinema do que de fato.

Coréia do Norte, ninguém de olho nos EUA

29/May/2009 - 09h21 - 89 Comentarios

Informação interessante: o responsável no momento pela diplomacia dos EUA com a Coréia do Norte é Stephen Bosworth. Não é um trabalho ao qual dedica todo seu tempo. Bosworth é também reitor da Fletcher School of Law and Diplomacy, em Boston.

um motivo por não haver alguém inteiramente dedicado à Coréia do Norte. Em abril, Obama nomeou Kurt Campbell, um ex-oficial da Inteligência da Marinha e diplomata de carreira para o cargo. Mas seu nome ainda não foi aprovado pelo Senado.

Que passa com a Coréia do Norte?

27/May/2009 - 11h47 - 211 Comentarios

O governo dos EUA considera que a Coréia do Norte deve fazer um novo teste nuclear nos próximos meses. Estão desafiando, mesmo. Mandando um recado para o mundo: se afaste de nós.

É uma situação delicada – talvez a mais complexa que existe na diplomacia. Ninguém gosta do regime da Coréia do Norte e todos desconfiam do país. Nem os mais bitolados à esquerda a defendem como defendem o Irã, por exemplo. Tampouco os mais rábicos à direita metralham a necessidade de sua invasão imediata. Ponha um pé militar na Coréia do Norte e mísseis serão disparados contra a Coréia do Sul de presto. Má ideia.

A questão que perturba qualquer conversa, no momento, é a saúde do ditador, Kim Jong-Il. Seus filhos são todos muito jovens para assumir o poder. (O favorito é o caçula, Kim Il-Sung, que tem por volta de 25 anos, ninguém sabe ao certo.) Quando provavelmente sofreu um derrame, em agosto passado, Kim Jong-Il alçou ao Conselho de Defesa Nacional seu cunhado, Jang Song-Taek. Ele agora é o número dois do país, provavelmente a pessoa responsável pelo governo quando o líder está mal. E, possivelmente, o futuro regente.

O recado para que todos se afastem tem motivo de ser: a Coréia do Norte está tratando de sua sucessão governamental.

Trata-se de uma ditadura estranha. Não é apenas o país mais misterioso do planeta, onde quase ninguém entra. É uma ditadura cruel com a povo ao qual impõe fome com relativa frequência. Mas o povo corresponde a apenas metade da população. A outra metade dos 24 milhões de habitantes são as ‘elites’, membros do Partido Comunista e suas famílias, funcionários públicos e militares todos, a gente que aparece nos desfiles e que vive uma vida razoavelmente organizada, com apartamento pago e comida na mesa.

(É um país misterioso, por certo – mas já é possível fazer um tour virtual. Curtis Melvin, aluno de doutorado da Universidade George Mason, vem construindo um mapa detalhado do país usando Google Earth e tudo quanto é pequena notícia publicada na imprensa. É um processo de inteligência aberta, inteligência pública. Lá estão campos de prisioneiros, praias da elite, palácios, plataformas de lançamento de mísseis…)

A Índia se move para não mudar

18/May/2009 - 11h45 - 24 Comentarios

A vitória do Partido do Congresso, na Índia, vai contra a estimativa de analistas. Manmohan Singh é o segundo premiê indiano reeleito da história – não é feito pequeno, principalmente quando se leva em conta que o primeiro foi Jawaharlal Nehru, herói da independência.

A expectativa era de que os antecessores de Singh no governo, o BJP, Partido Bharatiya Janata da direita hindu, angariasse mais votos. Os partidos comunistas (que estão na coligação do atual governo) também vinham aparentemente crescendo em apelo popular. Mas a Índia não caiu nem à direita, nem à esquerda. Deu, isto sim, ao Partido do Congresso, que nasceu do movimento pela independência do país, uma ampla maioria, que lhe permitirá governar com uma coalizão menor.

No Asia Times, o ex-diplomata indiano M K Bhadrakumar interpreta o resultado da eleição. Nem a direita hindu tradicional, nem os partidos comunistas, adaptaram suas plataformas para o mundo atual. Continuam com o mesmo discurso de duas décadas atrás. A aposta no tradicional Congresso, no entanto, é uma aposta conservadora. Literalmente, não mudar para, numa época de dúvidas, continuar com a tradição.

Terrorismo recente e a crise econômica criaram insegurança. A resposta da ultra-direita ao terror mais assusta do que atrai. Segundo Bhadrakumar, o Congresso conseguiu atrair pelo menos três grupos importantes: os pobres, a crescente classe média e os jovens. Inclua-se na lista uma minoria importante. Os muçulmanos. Mas há nessa vitória, também, algo do apelo indiano pela sua família real. Não foi o charme de Manmohan Singh que garantiu a eleição. Foi um jovem político, o carismático Rahul Gandhi. É filho de Rajiv Gandhi, neto de Indira Gandhi, bisneto de Nehru. Todos os três foram primeiro-ministros.

Rahul está nesse caminho.

A China cresce para dentro

12/May/2009 - 11h17 - 37 Comentarios

Durante os últimos anos, a China alimentou seu estupendo crescimento econômico vendendo para os EUA. O que os chineses conseguiam manufaturar, norte-americanos compravam. Com a crise interrompendo a ânsia compradora dos consumidores daqui, o medo imediato foi de que a maior locomotiva econômica mundial – lá – parasse repentinamente, piorando ainda mais o quadro global.

As vendas no varejo chinês aumentaram 16% entre março de 2008 e de 2009. Uma pesquisa recente envolvendo 64 milhões de famílias chinesas em 189 cidades revelou que 51% dos habitantes de cidades de médio porte pretendem gastar mais dinheiro em compras, neste ano, do que gastaram no ano passado. Pelo menos uma empresa hoteleira tem planos de abrir 250 hotéis até 2010. Em pelo menos uma cidade, Chongqing, a Wallmart pretende abrir mais 4 lojas, saltando de 5 para 9. É mais do que existe em Beijing e Shangai.

Segundo o analista James Kynge, do Financial Times, os indícios são de que o mercado interno chinês, o das cidades médias, está crescendo. De superpoder exportador, a China está se transformando numa economia capaz de crescer por conta própria, movida pelo consumo interno.

Avanço chinês sobre a América Latina

17/April/2009 - 03h34 - 49 Comentarios

Enquanto o presidente norte-americano Barack Obama se prepara para a reunião que terá com seus pares latino-americanos, no fim de semana, o New York Times dá destaque ao avanço chinês na região. O continente – não surpreenderá a muitos – foi conhecido por décadas como quintal dos EUA. O abandono político do governo George W. Bush, no entanto, abriu espaço que foi devidamente ocupado.

A China vai bancar os custos de um bilhão de dólares para uma hidrelétrica no Equador, investirá 12 bilhões na Venezuela, emprestará 10 bilhões para a Argentina e outros 10 seguirão para os cofres da Petrobras. O gigantesco País do Centro tem dinheiro e está gastando. Gasta com critério: os argentinos aproveitarão o alívio do empréstimo para comprar produtos chineses, os brasileiros agradecerão o investimento garantindo exportação de petróleo, mesma promessa venezuelana.

No caso específico da Argentina, o empréstimo seguirá em yuans, a moeda chinesa. É para importar mesmo, um ajuda que chega em boa hora, quando os vizinhos ao sul andam com o crédito em baixa e os EUA recusam-se a dar mais.

Não é, de forma alguma, jogo perdido para os EUA. Mas, em Washington, o alerta foi bem compreendido.

O que mata na questão é que Obama tem uma brutal crise econômica com a qual lidar. A China, por outro lado, parece ter motivos para otimismo. Cresceu no primeiro trimestre do ano num ritmo maior do que no trimestre anterior. As exportações continuam em baixa, mas segundo a revista britânica The Economist, os indicadores sugerem que o ano chinês não será tão terrível quanto previsto inicialmente.

Para o resto do mundo – incluindo para os EUA –, a notícia é excelente.

O incrível Taro Aso, um premiê japonês
popular que ajuda Obama no Irã

13/April/2009 - 02h51 - 18 Comentarios

Poucos pacotes econômicos para combate à crise global têm o escopo do japonês. Não no valor – são 150 bilhões de dólares, bem menos do que na maioria do mundo desenvolvido – mas na ampla distribuição. Na conta, sobra até dinheiro de graça. Todo residente no país – incluindo estrangeiros – tem direito a sacar 12.000 yenes (120 dólares, 260 reais) para fazer o que bem entender.

Taro Aso, o premiê japonês, tem até algo que premiês japoneses não conseguem faz décadas: popularidade. O Japão é o país em que mais se lê jornal do mundo e o esporte nacional é criticar políticos. Dado que o sistema é parlamentarista, em que os primeiros-ministros têm flexibilidade para convocar eleições, Aso anda incrivelmente apressado.

Seu Partido Liberal Democrata esteve no comando por quase todos os últimos 60 anos e seus chefes costumam deixar o governo por meio de renúncias midiáticas para evitar derrotas eleitorais. O sujeito novo assume sempre, evitando uma vitória da oposição.

Só que Aso tem sorte. Desta vez – contrariando a regra japonesa – o escândalo de corrupção vem do campo oposicionista. Takanori Okubo, um dos principais assessores de Ichiro Ozawa, líder do Partido Democrata, está respondendo a um processo por angariar ilegalmente fundos para campanha. Seu partido não tem a menor vontade de enfrentar qualquer eleição, no momento.

O enfoque do pacote econômico de Aso é distribuir subsídios para pequenas e médias empresas que se comprometam a não demitir. A crise vem sendo particularmente cruel com os pobres. Desde setembro, quase meio milhão de japoneses perderam seus empregos e os programas sociais são os mais escassos do mundo desenvolvido. 77% dos desempregados não ganham qualquer auxílio desemprego – nos EUA, este índice é de 57% e, na Alemanha, 13%. A expectativa é que o número de desabrigados esteja para aumentar violentamente.

É uma situação de crise social profunda e, portanto, momento curioso para um premiê ser tão popular. Mas trata-se do Japão onde as regras que valem no resto do mundo são curiosamente ignoradas.

O segundo elemento do plano de resgate econômico japonês envolve obras de infra-estrutura e substituição da base energética por fontes renováveis – principalmente energia solar. Nos EUA e na Europa, o plano vem sendo esse. Os governos estão aproveitando a crise e o fato de que terão de injetar uma quantidade brutal de dinheiro na economia para investir pesadamente contra combustíveis fósseis.

As relações no exterior também andam boas. O governo Aso foi convocado a auxiliar os EUA em suas relações com o Irã, uma das prioridades do governo Obama. Os japoneses têm uma boa relação com o Cazaquistão, um dos maiores produtores de urânio – combustível para usinas nucleares – do mundo. Washington deseja que o Japão, com o Cazaquistão, costurem um acordo que viabilize a exploração civil de energia nuclear pelos iranianos. É um plano delicado e um voto de confiança diplomática e tanto.

Mas se a política sorri para o conservador partido que comanda o Japão há tanto tempo, a crise ainda está longe de ser resolvida. A impressão do povo é de que alguém está no comando da crise. Mas, se ela não for resolvida, a falta de uma malha de segurança social pode começar a corroer rapidamente esta popularidade.

E o G20 se encontra

02/April/2009 - 03h17 - 114 Comentarios

Oficialmente, os líderes do G-20 se reúnem hoje, em Londres. Mas as conversas já vêm acontecendo com intensidade há meses. Um dia Lula está com Obama. No outro, Sarkozy e Angela Merkel estão juntos – e aí é a vez de Merkel com Putin. O papa escreve a Gordon Brown – premiê britânico que, evidentemente, já se encontrou com todos nas últimas duas semanas: Lula, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin.

Os EUA chegam a Londres com o pires na mão.

Querem que os governos do G-20 soltem mais dinheiro em suas economias, grandes pacotes como aquele que Obama espera ver aprovado. Querem também que os governos do G-20 o ajudem a injetar dinheiro no FMI.

Os dois pedidos de dinheiro são complicados.

Os europeus não desejam injetar mais dinheiro. Eles acreditam que a teia de serviços sociais – da previdência ao seguro desemprego – em seus países serão suficientes para conter o agravamento da crise.

Na questão do FMI, a situação é conosco – Brasil, Rússia, Índia e China. Os BRICs não têm nenhum estímulo para ajudar o FMI. O Fundo Monetário Internacional conta, hoje, com 250 bilhões de dólares em caixa para ajudar nações em apuros. Receberá mais 100 bi dos EUA, o Japão prometeu outros 100, a União Européia contribuirá com igual quantia. Mas, para engordar mais o fundo, é preciso dar mais poderes aos sócios em ascensão.

Hoje, os europeus indicam quem manda no FMI e os norte-americanos escolhem a chefia do Banco Mundial. Enquanto o jogo de comadres continuar, não haverá mais dinheiro. Se o jogo de comadres ainda fosse viável, não haveria esta reunião do G20. Estariam ainda no G8 discutindo os destinos do mundo.

Por outro lado, a Europa quer algo que os EUA não parecem dispostos a dar: mais regulamentação dos bancos. Os europeus, com exceção do Reino Unido, têm uma proposta. Primeiro, obrigam os bancos a juntar mais dinheiro quando a economia estiver em alta. Precisam ter mais em caixa, não podem jogar tudo. Os EUA até são capazes de topar uma variação deste item. O que mata é o segundo.

Angela Merkel e Nicolas Sarkozy sugerem que instituições financeiras devem ser punidas se oferecerem a seus executivos bonificações por comportamento arriscado.

Tudo pode ser resumido assim: Europa quer regulamentar. Os EUA querem injetar dinheiro na economia.

Enquanto os membros do G8 não se entendem, outros têm preocupações distintas: defendem o livre mercado. Ao longo do último ano, a União Européia aumentou os subsídios agrícolas, os EUA injetaram cláusulas de compra de produtos americanos em seus contratos, a Rússia passou a taxar carros. A China comunista, quem diria, é a mais aguerrida defensora da livre circulação de produtos e capital pelo mundo neste momento. (Circulação de produtos, que se entenda bem; livre circulação de pessoas e idéias, internamente, continua não podendo.)

Mas, neste caso, os chineses encontram no Brasil um de seus principais aliados.

É uma reunião de alto nível, esta, uma reunião particularmente importante, embora um bocado complexa. Nos próximos dias, saberemos se alguém conseguiu avançar em algum sentido ou se todo o sistema persistirá emperrado.

Lula, brancos de olhos azuis
e quem tem culpa nesta crise

30/March/2009 - 12h56 - 226 Comentarios

Vários de vocês têm me pedido, nos últimos dias, para repercutir o comentário do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que culpou ‘essa gente branca com olhos azuis’ pela crise mundial.

O presidente cometeu uma gafe ao revelar preconceito e analisou errado o problema.

A gafe é simples: presidentes cometem gafes a toda hora. Todos eles – vacilou, um fala besteira e revela preconceito. Fernando Henrique e seu pé na cozinha que o digam. Com Obama foi uma descrição dos norte-americanos pobres do sul que cultivariam suas armas e a Bíblia por ressentimento. George W. Bush e Gordon Brown, que estava do lado de Lula, têm longo histórico. A besteira rende um bocado de discussão na imprensa, repercute internacionalmente e continua querendo dizer absolutamente nada. Não afeta o comércio exterior, não altera a crise para melhor ou para pior. Mas rende assunto, nós jornalistas precisamos escrever sobre alguma coisa e o público adora uma desculpa para malhar seus políticos.

O maior problema da gafe de Lula não é o preconceito – brancos de olhos azuis ricos, afinal, costumam ter bastante gente que os proteja. O maior problema é que se trata de uma análise demagógica e, no fim das contas, errada.

Primeiro, porque crises econômicas são cíclicas. Elas sempre vêm. E segundo porque, neste caso em particular, havia muita gente não necessariamente branca e não necessariamente norte-americana fazendo apostas e faturando na alta.

Os EUA estão sofrendo particularmente. O valor líquido do país despencou nos últimos dois anos de quase 70 trilhões de dólares para 53; são 15 trilhões que ‘desapareceram’ do mundo.

É fácil culpar ‘os bancos’ – ou ‘os brancos’ –, mas é mais complexo do que isso. Os bancos emprestaram para alguém. A classe média norte-americana também é responsável pelo seu próprio endividamento. Não apenas porque a classe média dos EUA comprou casas a prazo que não teria condições de pagar. É um fenômeno cultural mais profundo do que isso: a classe média dos EUA passou os últimos quinze anos criando dívidas. Aproveitando-se de taxas de juro muito baixas, não há um que não tenha entre cinco e dez cartões de crédito na carteira e que, por hábito, não role a dívida de um cartão em outro, pague os juros mensalmente sem jamais tocar no principal, e siga acumulando 10, 20, 50, 100.000 dólares em débitos a pagar.

Ainda estaríamos no universo dos EUA se parássemos aí – mas alguém estava produzindo aquilo que os norte-americanos consumiram a prazo. O crescimento da China nos últimos anos não veio do nada. Tampouco o da Índia. Ou mesmo o do Brasil. Foi porque os EUA fizeram uma aposta em sua ampla capacidade de endividamento, que o maior mercado consumidor do planeta passou a consumir ainda mais e houve quem lhe vendesse enquanto, ora pois, rolava sua dívida. Somos todos credores dos EUA: China, Índia, Brasil e alguns tantos outros que fizeram gordas reservas em dólares.

O PIB norte-americano é de quase 14 trilhões de dólares. É capaz de escorregar para a casa dos 12, este ano. Por sua vez, a dívida interna passou a marca dos 10 trilhões em outubro passado. Já está em 11 trilhões. É bem possível que, ao longo de 2009, todos os norte-americanos devam juntos, na praça, o equivalente àquilo que o país produz em valores brutos anualmente. É um feito e tanto, principalmente porque os EUA são a maior máquina de produção de riqueza jamais criada pela humanidade. Ninguém produziu tanto anualmente na história. E dever tudo aquilo que você faz não dá certo.

Não é negócio para ninguém que os EUA quebrem. Mas duas culturas diferentes vêm sido criadas entre as duas maiores potências do mundo. A China guarda dinheiro com vistas a produzir uma poupança absurda capaz de salvá-la na hora do aperto. Os EUA, que nos anos 1940 e 50 tiveram uma cultura de poupança, hoje gastam como se não houvesse amanhã. A China terá que aprender a gastar e os EUA, a poupar. Para o bem de todos.

Nada disso, evidentemente, quer dizer que não exista irresponsabilidade no jogo. Nos EUA, bancos sempre tiveram vários limites de atuação, agências reguladoras razoavelmente atentas, regras para a quantidade de dinheiro que poderiam emprestar dependendo do que tinham de lastro no cofre. A desregulamentação que teve início no governo de Bill Clinton, no entanto, ampliou os poderes de outras empresas financeiras. Fundos de investimento, seguradoras, agências de classificação de risco – todos começaram a agir em conjunto, numa louca ciranda promíscua, que permitiu que várias empresas assumissem mais funções do que jamais puderam.

Os papéis negociados em mercado nos últimos anos, que juntavam cortes de hipotecas, fragmentos de dívidas, ficaram impossíveis de serem acompanhados. Quando ninguém – nem quem classifica o risco, nem quem faz o balanço, nem quem deveria regulamentar – sabe fazer a conta do tamanho do buraco é porque alguém permitiu algo que não devia ter sido permitido. Balanços existem para ser legíveis.

Sim, Wall Street faturou com a ciranda louca e muita gente de terno e gravata – olhos azuis ou não – cometeu crimes nesse meio tempo. Mas crises são cíclicas. E, no caso desta, os ricos não têm a culpa sozinhos.

Silêncio no Tibete

27/February/2009 - 00h01 - 24 Comentarios

Na quarta-feira, os tibetanos celebraram seu ano novo.

Ou melhor: o governo chinês fez de tudo para que o celebrassem. Numa cautelosa desobediência civil, ficaram em casa. Não viam motivo para festa.

via Boing boing

A China faz o mundo girar
(Todos juntos: EUA, Brasil, África, Irã…)

19/February/2009 - 14h53 - 53 Comentarios

Aqui nos EUA, a imprensa fala compulsivamente a respeito da viagem da secretária de Estado Hillary Clinton à China. Há muito o que se falar. Internamente, há uma difícil batalha entre Hillary e o secretário do Tesouro Timothy Geithner sobre quem comandará a relação entre os dois países. (No governo Bush, considerava-se que a Fazenda, não a diplomacia, devia ditar o tom desta relação.) A China, afinal, é o maior credor externo dos EUA.

Ontem, quarta-feira, chegou ao Brasil o vice-presidente chinês Xi Jinping. Ele traz na pasta uma linha de crédito de 10 bilhões de dólares para a Petrobras, em troca da garantia de fornecimento de petróleo para seu país. Foi há exatos 35 anos, em 1974, que o Brasil restabeleceu relações com a China. Durante o governo Lula, as trocas de visitas entre os dois país se intensificaram: Lula viajou em 2004, seu par Hu Jintao retribuiu a cortesia no mesmo ano. Em 2005, o vice-presidente José Alencar foi. Em 2006, veio o presidente do Congresso. Quase todo ano, desde então, meio que sem a imprensa brasileira dar muita bola, uma visita de alto nível destas ocorre.

O objetivo não é apenas fortalecer a aliança diplomática Brasil, China, Índia que vem conseguindo algumas vitórias no cenário mundial. O principal objetivo é dinheiro. Nos últimos oito anos, o comércio entre China e Brasil cresce num ritmo de 30% ao ano. Em 2008, a China ultrapassou a Argentina como segundo maior parceiro comercial do Brasil. Só perde para os EUA. Hoje, a China é responsável por 9% das exportações brasileiras. Os EUA, aproximadamente 18%. Mas o comércio com os EUA está diminuindo. E, bem, 30% de crescimento ao ano é um bocado.

Os chineses não param. Enquanto recebem Hillary em Beijing e Xi Jinping aterrissa no Brasil, o presidente Hu Jintao está viajando rumo à África. O comércio entre seu país e a África Subsaariana cresceu 1000% nos últimos dez anos. Mas ponha o comércio de lado e observe o itinerário da viagem de Hu e o padrão da diplomacia chinesa começa a se revelar. Primeira parada: Oriente Médio, Arábia Saudita. Faça o elo com o acordo China-Petrobrás.

No início do ano, pires na mão, o presidente de Angola José Eduardo dos Santos foi dar em Beijing. Queria renegociar sua dívida para com os chineses e ainda levar um troco para casa. O governo Santos apostou que o preço do petróleo continuaria alto, perdeu. O governo da Namíbia fez o mesmo – e também pede compaixão chinesa. A princípio, não recebem muito mais do que um olhar frio com vaga esperança de ajuda. Em relação aos países realmente pobres do mundo, a China age como se fora um misto de poder imperial e FMI dos anos 1980. Ao mesmo tempo, conta com estes países. Afinal, na ONU, ou na OMC, a China é só um voto. Contar com a possibilidade de manobrar votos africanos conforme seus desejos é útil.

Não é à toa que os responsáveis pela economia dos EUA considerem que eles, não os diplomatas, deveriam ser responsáveis pela relação. Também não é à toa que um dos consensos positivos a respeito do governo Bush, na equipe Obama, é que a política para a China estava certa: reclama de vez em quando de direitos humanos (nunca a sério), busca ajuda para negociações delicadas (Coréia do Norte, Irã) e discute negócios, negócios, negócios. Business makes the world go ’round.

Hoje, a China é o maior importador do Irã. Nenhum tipo de negociação afetará realmente o país de Mahmoud Ahmadinejad se a China não estiver disposta a fazer pressão. E, por enquanto, os chineses não estão muito preocupados. Sua relação com quem provê combustível é mais importante do que suas preocupações com violações de direitos humanos. Sudão que o diga. Com a Coréia do Norte, é diferente. A Coréia do Norte serve aos chineses para manter japoneses, sul-coreanos e mesmo EUA assustados. Mas a relação com os EUA é considerada fundamental para Beijing, sacrificar a Coréia do Norte não é problema. O Irã tem algo a lhe oferecer. A Coréia do Norte, não. A moeda de troca dos EUA é Taiwan. A relação amistosa entre potência e ilhota é mantida para irritar os chineses.

O principal desafio dos dois países é aquilo que têm em comum: são os maiores fornecedores de carbono para a atmosfera. Com tanto petróleo que consomem, não é surpresa. E ambos os governos estão cientes de que, economicamente, o Aquecimento Global é mau negócio. O problema é que, em tempos de crise, é difícil encará-lo.

Mas é sempre engraçado quando alguém sugere que a China é uma futura potência. A China já é.

Seja ateu, diz a propaganda

07/January/2009 - 05h13 - 143 Comentarios

Em Londres, o anúncio pago na lateral dos ônibus diz o seguinte: ‘Provavelmente não há Deus. Então pare de se preocupar e aproveite sua vida.’

A Associação Humanista Britânica já arrecadou mais de 200.000 dólares para manter a propaganda. Ela vêm em resposta ao anúncio de um site cristão que circulava nos ônibus da capital e prometia ‘a eternidade na tormenta do inferno’ para os incréus. Uma dona de casa leu e ficou revoltada. ‘Se alguém dissesse num anúncio que um leão estava solto nas ruas, os responsáveis pelo ônibus cobrariam evidências; se alguém quisesse publicar que os pedaços no suco de laranja não são fruta, são plástico, pediriam provas.’

Aos religiosos ninguém cobra provas para que possam sair fazendo ameaças e espalhando pânico para quem lhes dê ouvidos.

Aí ela teve a idéia de começar a campanha.

‘Para que acreditar em Deus?’, pergunta o anúncio nos ônibus de Washington, capital dos EUA. ‘Seja apenas bom, pelo amor de Deus’ ele termina. Na foto, aparece um sujeito com roupa de Papai Noel.

Na Austrália, o anúncio ‘Seja ateu e durma no domingo de manhã’ foi proibido.

Silvio Berlusconi à frente do G8

26/November/2008 - 05h15 - 36 Comentarios

Gideon Rachman, ex-Economist, atual Financial Times, prevê que o G8 periga acabar em 2009. É que caberá à Itália sua presidência rotativa. Ou seja, a Silvio Berlusconi.

Berlusconi tem um ’senso de humor’ que o faz particularmente desastrado no comando de organizações internacionais. Quando presidiu a União Européia, em 2003, foi uma catástrofe. Causou um levante no Parlamento Europeu ao comparar um político alemão a um guarda de Campo de Concentração nazista. Numa foto oficial, fez chifres em um ministro espanhol. Abriu um encontro dedicado a discutir o futuro da Europa sugerindo que talvez fosse mais divertido falar sobre mulheres ou futebol. Não satisfeito, virou-se para o então chanceler alemão, Gerhard Schorder, sugerindo que ele talvez estivesse melhor equipado para discutir futuro já que havia sido casado quatro vezes. Schroder não viu graça.

Ele, evidentemente, já fez alusões ao bronzeado de Barack Obama. Duas vezes.

Promessas que Obama não cumprirá (1 de 3)
Conversas incondicionais com inimigos

20/October/2008 - 11h59 - 45 Comentarios

Como todo político, durante sua campanha Barack Obama fez promessas e algumas delas definiram como ele é percebido pelo eleitorado. Neste momento, Obama tem mais chances de ser eleito presidente do que John McCain.

Este é o primeiro de uma série de três posts: as promessas que Obama não será capaz de cumprir, caso chegue à presidência. Os outros virão amanhã e quarta-feira.

Na quinta e na sexta-feira, haverá uma outra série, esta de dois posts. O que é possível saber nos programas e promessas de John McCain (na quinta) e Barack Obama (na sexta) que interferem no Brasil.

Mas, antes, a uma introdução. É um fato da política que é impossível passar por uma campanha sem promessas que não serão cumpridas. Por isso mesmo, o trabalho de escolha do eleitor sofisticado não é simples. Ele precisa entender que políticos exageram e que, sem exageros, não conseguem se eleger. Este eleitor precisa ser tolerante, também, com uma certa dose de alianças. Precisa compreender que políticos precisam se unir a outros e que este processo nem sempre é bonito.

A maioria do público cobra afirmações peremptórias e certezas, mas a arte de governar é cheia de indecisões e improviso; verdades pétreas, dogmas, não têm espaço. As promessas devem ser compreendidas – vindas de qualquer político – como uma tendência a uma determinada posição, mas não como uma posição imutável. Isto posto:

Barack Obama não se encontrará incondicionalmente com chefes de Estado.

Em julho de 2007, durante o debate CNN/YouTube, Obama foi perguntado se ele se encontraria incondicionalmente com os líderes de países como Coréia do Norte, Irã, Cuba e Venezuela. Ele respondeu categoricamente: sim. Na seqüência, Hillary Clinton informou que ela, enquanto presidente, pessoalmente, não o faria. Mas que seu governo investiria sim em diplomacia. Gente nos segundo e terceiro escalões procurariam conversas. Hillary estava simplesmente repetindo aquela que é a política do Partido Democrata há décadas. Não há nenhum mistério aqui. O governo George W. Bush tentou inovar ‘punindo’ países com ausência de diplomacia. Não conseguiu rigorosamente nada, acirrou alguns ânimos, e teve que se engajar agora no fim. Aqui está a resposta que iniciou tudo:

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É impossível saber porque Obama, naquele dia, disse que se encontraria pessoalmente com Kim Jong-Il e seus pares. Eram debates com muitos candidatos nos quais a maioria dos eleitores não estava prestando atenção. Talvez ele mesmo, distraído, tenha achado que a pergunta se referia a seu governo e não a ele mesmo. O fato é que foi uma resposta tão diferente que ganhou manchetes nos dias seguintes. Obama se destacou, talvez por acidente. E, como é pecado mortal voltar atrás numa afirmação, Obama ficou preso a ela.

Durante as primárias, a afirmação agiu em seu favor. O que os pré-candidatos democratas tinham para diferenciar um do outro, afinal, eram suas personalidades. A plataforma de todos eles é a plataforma do Partido. Diferenças mínimas de opinião. Quando a eleição se acirrou entre Hillary e Obama, eles se agarraram aos pequenos detalhes para se distanciarem um do outro. E, naquele momento, as ‘conversas incondicionais’ viraram um tema forte. Hillary batendo, Obama defendendo. Ao insistir tanto no caminho da responsabilidade, Hillary se colocou numa posição que parecia criticar a diplomacia. Estava mais próxima das políticas de George W. Bush do que de sua oposição. Como disputavam o comando do partido de oposição, este foi um dos fatores que fortaleceu Obama e a enfraqueceu.

Mas, desde que as eleições presidenciais de fato começaram, muito cautelosamente, para que ninguém o acuse de flip-flop, de vira-casaca, Obama tem voltado atrás. Conversas incondicionais com líderes? Claro, mas com negociações preparatórias antes, disse em um debate. Mahmoud Ahmadinejad não é realmente o líder do Irã, alertou numa entrevista, dizendo que com Ahmadinejad provavelmente não se encontrará. Talvez com o aiatolá Khamenei.

A mensagem importante aqui é: enquanto presidente, Barack Obama vai investir pesadamente em diplomacia. Ele estará disposto a se encontrar com líderes estrangeiros para grandes acordos. Mas nenhum encontro do tipo será incondicional. Esta é uma promessa que ele não cumprirá.