Os 10 países mais perigosos do mundo

10/August/2009 - 10h14 - 323 Comentarios

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Refugiados políticos em número recorde

17/June/2009 - 09h24 - 43 Comentarios

Existem, hoje, 28 milhões de pessoas que deixaram suas casas por causa de grandes conflitos para seguir para outros lugares em seus países. Inclua-se na lista gente que chegou ao ponto de se deslocar para outros países e o número sobe para 45 milhões de refugiados. É um número jamais visto, recorde.

A Colômbia lidera a lista, com 3 milhões de refugiados internos que fugiram das áreas controladas pelas Farc. Em segundo lugar vem o Sudão, com 2 milhões de refugiados internos, seguido pelo Iraque, com 1,4 milhões. A violência do Talibã, na área do vale do Swat, trouxe o Paquistão para a lista onde já estavam Sri Lanka, Congo e Somália.

O Paquistão, por causa do vizinho Afeganistão, é também o país que mais recebe refugiados estrangeiros – gente que fugiu da violência em casa e decidiu atravessar a fronteira: 1,8 milhões de afegãos vivem lá. Mais 980.000 vivem no Irã. A Síria, por causa do Iraque, é o segundo país que mais recebe refugiados no mundo: 1,1 milhão.

Atualização – Fui pego no contra-pé, aqui: estas estatísticas vêm do relatório da UNHCR, agência da ONU dedicada a cuidar de refugiados. Oficialmente, 4,7 milhões de palestinos vivem como refugiados mas como a agência encarregada deles é a UNRWA, eles não foram listados nas estatísticas.

via FP Passport

Tortura em fotografias, dilema dos EUA

28/May/2009 - 11h11 - 130 Comentarios

Hoje saíram mais alguns detalhes a respeito das fotos de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, que são mantidas em segredo pelo governo norte-americano. Segundo o general da reserva Antonio Taguba, oficial responsável pela investigação de abusos em 2004 naquela prisão, as imagens contém: um soldado dos EUA estuprando uma prisioneira, um tradutor do Exército dos EUA estuprando um prisioneiro, uma prisioneira sendo despida à força, penetração com objetos como bastões, cabos e um tubo de lâmpada fluorescente.

As fotos não divulgadas de Abu Ghraib fazem parte de um conjunto de 2.000 imagens que o presidente Barck Obama decidiu não tornar públicas. Tratam, todas, de cenas de abusos de prisioneiros tanto no Iraque quanto no Afeganistão, entre 2002 e 2004. Por conta, seu governo vem sendo alvo de pesadas críticas por falta de transparência.

Estas fotografias, todas elas, documentam crimes previstos por lei nos EUA. Todos os oficiais envolvidos nas ações foram ou estão sendo julgados. Onze já foram condenados.

Obama argumenta que os crimes estão sendo punidos. Divulgar imagens tão violentamente explícitas, no entanto, poderia disparar um processo pior do que o dos cartuns dinamarqueses, acirrando ânimos, piorando uma situação já ruim e dificultando a vida dos 200.000 soldados norte-americanos – a maioria não envolvida com tortura – que estão nos dois países.

Não custa lembrar que as vítimas de tortura possivelmente não querem estas imagens públicas.

Jane Mayer, repórter da New Yorker, faz um contraponto: há um poder que as imagens têm que nenhum texto é capaz de simular. Apenas imagens como estas são capazes de expor a população dos EUA – e do mundo – aos horrores praticados nos porões da guerra.

Houve uma virada de mesa nesta questão. Inicialmente, o presidente Obama anunciou que divulgaria as imagens agora em maio. Foi após vê-las e ouvir alertas de cautela por parte dos generais que mudou de ideia.

Existe, no entanto, um processo em curso na Justiça dos EUA que vem sendo vencido instância após instância por quem deseja acesso ao material. O governo pretende recorrer, agora, à Suprema Corte. Possivelmente perderá. Se realmente desejar mantê-las em segredo, só tem uma alternativa: a de baixar uma lei especificamente com este objetivo. Já existe um projeto do tipo no Senado, mas não há movimentação da Casa Branca em seu apoio.

Obama pode estar fazendo um jogo de cena: faz um aceno para os militares porque sabe que as imagens serão tornadas públicas de qualquer jeito. Seu apoio a uma lei para proibi-las deixará clara sua real posição a respeito.

Há uma questão em paralelo que nada tem a ver com as fotografias: é o debate a respeito de waterboarding, simulação de afogamento com uma bacia d’água, que o governo do ex-presidente George W. Bush considerou legal, mas que o novo governo considera uma forma de tortura. De acordo com os detalhes divulgados até agora, as fotografias proibidas nada têm a ver com afogamento simulado. São tortura mesmo – do tipo que nem Dick Cheney tem coragem de defender. (Ao menos, não em público.)

Propaganda à moda Talibã

25/May/2009 - 13h47 - 37 Comentarios

O Council of Foreign Relations tem um novo relatório na praça que mostra que aquele antigo Talibã, meio ignorante das coisas do mundo, circunscrito ao Afeganistão, já não existe mais. O grupo está dando uma surra nos EUA: é capaz de se comunicar melhor, expor seu ponto de vista, dominar a discussão.

Após um ataque norte-americano no Afeganistão ou norte do Paquistão, o Talibã demora menos de meia hora para ter um comunicado oficial sobre número de mortos, feridos e outros detalhes. É a sua versão que chega primeiro à imprensa, e já circula o mundo pela BBC de Londres antes de os EUA terem começado a explorar o tema. Não é só a imprensa em inglês: aquela em Dari e Pashto, as línguas locais, e a em árabe, no Oriente Médio, também pode contar com o Talibã para ter notícias rapidamente. (Imprensa precisa de notícia, algum tipo de notícia, e na pressa, o primeiro a dar informação oficial leva o prêmio. No dia seguinte, nenhum leitor lembra do ’segundo informou o Talibã’, só lembra o número de mortos.)

O grupo opera uma rádio local, distribui centenas de programas para outras rádios, além de fitas cassete, um dos meios típicos aos quais afegãos e paquistaneses do norte, pobres, têm acesso. Para ir além da região, fazem uso da Internet. Nem tudo em sua estratégia é cordial – entregam localmente aquilo que, naquele canto do mundo, chamam de ‘cartas noturnas’, ameaças por escrito depositadas à porta no meio da noite para lembrar quem manda. Os EUA – com um histórico de habilidade em comunicação e propaganda em tempos de guerra – ainda não aprenderam a operar.

Sem justificar seus atos e explicar o que faz, não há chances de vitória neste tipo de guerra.