Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Ásia Central'

Índia Nuclear a um passo da legalidade

26/September/2008 · 35 Comentários

O mundo está caindo em Washington por causa da economia, então muitos talvez não tenham percebido a chagada do premiê indiano Manmohan Singh. Ele está lá para assinar um acordo delicado que ainda precisa ser aceito pelo Congresso dos EUA. (Isto, enquanto debatem o pacote econômico, Câmara e Senado ainda têm um acordo de cooperação internacional com o qual lidar.) A questão é que não é qualquer acordo de cooperação internacional.

É um acordo nuclear.

A Índia testou sua Bomba em maio de 1974. Hoje, ninguém sabe quantas ogivas tem – números rápidos pescados da Wikipédia variam de 50 a 250. É muito. Não à toa, o país não é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (NPT). Segundo o texto, apenas EUA, Reino Unido, França, China e Rússia podem tê-las. Os outros signatários têm o direito de participar do comércio internacional de equipamento nuclear mas prometem não produzir armas.

É isto que está para mudar.

Segundo o acordo que Bush e Singh provavelmente assinarão, já aceito por outras 40 nações, a Índia voltará ao mercado internacional. O objetivo é comprar e vender equipamento nuclear para uso civil. Mas ninguém garante que não será desviado para armamento. O fato de ter armas nucleares ilegalmente era um dos grandes obstáculos da entrada da Índia no Conselho de Segurança da ONU. Isto cai. (Ela é uma das adversárias do pleito brasileiro.)

Há um bocado de oposição à idéia, mas o acordo é considerado praticamente fechado. O clube dos países que têm o direito de ter armas nucleares, surpreendentemente, está para ganhar um sexto membro – o primeiro fora do Conselho de Segurança.

Tags: Ásia Central

No Afeganistão, a cara da morte

16/September/2008 · 64 Comentários

Na noite do último 21 de agosto, aviões militares norte-americanos sobrevoaram a cidade afegã de Nawabad para atacar um grupo talibã que enfrentava um grupo de soldados no chão. Mataram um dos principais seguidores do mulá Omar, mulá Sadiq, e com ele 35 combatentes inimigos e sete civis. Um comentarista da FoxNews, o ex-coronel Oliver North – envolvido com um escândalo durante o governo Reagan – corroborava a versão.

ONU e o governo do Afeganistão afirmavam o contrário: pelo menos 90 civis mortos. A maior matança de civis em um só ataque desde que a guerra teve início.

Agora, o vídeo amador feito por um médico com seu celular nos dias seguintes ao ataque dos EUA mostra quem tinha razão. O filmete foi divulgado pelo diário britânico The Times. O Pentágono reabriu as investigações.

Atualização – Deixei de publicar um alerta importante que está na reportagem do Times, no original em inlgês após o link. O vídeo foi editado para exibição na web. As cenas graficamente mais fortes de morte não estão lá.

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Acaso alguém tenha esquecido

11/September/2008 · 173 Comentários

Hoje é Onze de Setembro.

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O triste fim de Pervez Musharraf

18/August/2008 · 29 Comentários

O presidente paquistanês Pervez Musharraf renunciou ao poder. O processo de impeachment já estava adiantado no parlamento e a única maneira de impedir sua continuidade era com a renúncia. São nove anos de ditadura, desde que derrubou Nawaz Sharif – seu atual algoz –, em 1999.

Instável no poder, sustentado por uma aliança entre as Forças Armadas leais a ele (era general) e a traíra IIS, grupo de inteligência do país, Musharraf foi salvo pelo Onze de Setembro. Parcialmente apoiada pela CIA, a IIS havia estruturado e dado todo o apoio ao grupo Talibã, que tomou o poder no vizinho nordeste, Afeganistão. Perante os ataques a Nova York e Washington, Musharraf não hesitou em bandear-se para o lado norte-americano, ganhando a confiança pessoal de George W. Bush e apoio dos EUA.

Muito da presidência Bush se deu na base desta ‘confiança pessoal’. Outros a gozarem dela fora Vladimir Putin, da Rússia, e Tony Blair, do Reino Unido. Blair mostrou-se merecedor até o fim. Putin e Musharraf são a mostra de que Bush talvez não fosse tão hábil assim em suas avaliações. Musharraf fez um jogo duplo durante todo o período, enquanto, mesmo após a queda do Talibã, seu serviço secreto dava apoio à seita-guerrilheira no Afeganistão e até mesmo dentro de casa.

Esta aliança mostrou-se um erro estratégico terrível para Washington. Muito da decisão de atacar o Iraque baseava-se na premissa de que o Paquistão daria apoio no combate ao Talibã enquanto os EUA estivessem distraídos. O que ocorreu na prática é que o Talibã e a al-Qaeda conseguiram sustentação para renascerem. Nem incompetência explica as falhas de Musharraf. Ele passou a perna nos EUA.

Os dois partidos noutros tempos rivais, de Nawaz Sharif e da ex-primeiro-ministro assassinada Benazir Bhutto se aliaram para retomar o poder nas primeiras eleições livres e, agora, no impeachment de Musharraf. É o tipo do ditador que vai tarde. Agora, o novo governo terá a missão de combater o Talibã. Não será fácil. O grupo inspira o tipo de religiosidade extrema e ordem que gera laços de fidelidade na região de fronteira. Para livrar-se deles, será preciso se imiscuir na complexa política tribal patane. Não é impossível. A IIS, afinal, já fez isso antes.

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O Afeganistão ao longo dos anos

15/August/2008 · 8 Comentários

O fotógrafo Luke Powell vê o Afeganistão nos anos 1970. E, depois, nos 2000.

Cabe uma curta história para compreender o período. Em 1973, o rei Zahir Shah foi derrubado por um golpe de Estado; em 1979, a União Soviética invadiu o país; a URSS deixou o país em 1989 e começou a Guerra Civil; o grupo Talibã conquistou Kandahar em 1994, tinha o controle da capital, Cabul, em 96 e dominava 95% do território em 2000. Foi apeado do poder em 2001, pelos EUA. O estado de guerra continuada inaugurado pelos soviéticos persiste faz 29 anos.

via Metafilter

Tags: Ásia Central

Rodada de Doha, OMC e o mundo
que não abre, mas não abre de jeito nenhum

30/July/2008 · 31 Comentários

Poucos assuntos são tão áridos quanto negociações comerciais. Tentativas de acordo de grande porte, como a Rodada de Doha da OMC, são ainda mais difíceis. Mas o fracasso das reuniões da última semana, em Genebra, dizem um bocado sobre o estado do mundo.

Há um motivo para este grande encontro de ministros das relações exteriores ter acontecido agora. A idéia era ter um texto pronto para que o Congresso dos EUA pudesse aprová-lo rápido. Acordos de livre mercado são impopulares. Presidentes recém-eleitos e deputados recém-eleitos não mexem com esse tipo de assunto, não importa o que digam em campanha ou preferências partidárias. Como é fundamental a participação dos EUA nesse jogo, correram o calendário para conseguir algo.

Os próprios EUA entraram para conversar com o pé no freio, sua vontade de mexer nos próprios subsídios agrícolas era muito pequena. Estavam impedidos por novas leis aprovadas pelo Congresso.

De seu lado, a Índia se reserva o direito de manter proteções tarifárias contra a importação de produtos agrícolas se por algum motivo os preços aumentarem repentinamente. Se começar a entrar comida estrangeira demais em seu mercado, ela suspende tudo. Vários países pobres encontraram na Índia um seu defensor deste tipo de mecanismo de defesa. E, como a negociação já andava mesmo difícil, a China simplesmente não colocou nenhum tipo de concessão à mesa e embarcou no barco indiano.

Os diplomatas não rejeitaram a idéia de proteger os mercados emergentes de flutuação no preço dos produtos agrícolas. Mas ninguém chegou a algum tipo de acordo sobre que tipo de barreira tarifária poderia vigorar.

Quando essas negociações para a abertura de mercados ao comércio internacional tiveram início, em Doha, em 2001, o mundo era outro. Comida andava barato, o petróleo idem e aquecimento global não estava no mapa dos grandes problemas. Hoje, os países que têm população pobre querem proteções para o caso de a crise alimentar explodir repentinamente. O petróleo em alta pressiona as economias e o fato de que todos têm de lidar com contenção nas emissões de carbono aumenta o custo de vida.

Ao longo da semana passada e no início dessa, chegou-se a culpar China e Índia pelas negociações emperradas. Peter Mandelson, comissário de comércio da União Européia, diz que não. Para ele, a culpa é dos EUA. Sua nova legislação de subsídios mudou o rumo da prosa. Se um dos países mais ricos do mundo chega para conversas de liberalização de mercados dizendo que cederá pouco, ninguém se mexe. De fato. Mas subsídios agrícolas são uma área na qual os europeus, franceses em particular, de inocentes não têm nada.

A impressão para quem lê na imprensa brasileira é de que o Brasil saiu menor das conversações. É que o país não se alinhou de presto com China e Índia. Tentou salvar as negociações. A questão, aí, é que para o Brasil, quando a conversa é exportação de alimentos, os interesses são diferentes. Trata-se do maior produtor e o maior exportador do mundo. Mercados abertos é o que Brasília mais quer.

Se no auge da onda neoliberal alguém acreditou que o destino do mundo era a total abertura, pois bem, não é assim que as coisas funcionam. Todos são protecionistas quando as regras do jogo estão mudando rápido – e isso é assim independentemente de um republicano ou um democrata estar no Salão Oval.

Há, ainda, uma pergunta que cabe e já ronda este Weblog há algum tempo. As instituições internacionais criadas após a Segunda Guerra terão ficado obsoletas? A Organização Mundial do Comércio é uma delas. Na opinião do chanceler brasileiro Celso Amorim, o jogo, agora, será um de acordos bilaterais. Cada dois países vão fazendo seus acertos por conta própria. Ele não é único a considerar que este é o caminho. A OMC não serve para mais nada? Precisa ser repensada? E ainda há quem pense que a história acabou.

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O que são e para que servem as Madrassas?
Uma contribuição para o Weblog

28/July/2008 · 59 Comentários

Gwyn, leitora freqüente nos comentários, enviou o texto que segue. Quem o assina é um amigo dela, foi escrito para o Weblog. Os pais de Mohammed são paquistaneses da região da Caxemira que imigraram para o Reino Unido nos anos 60. É uma contribuição para a conversa. A área de comentários, como sempre, é livre para opiniões de todo tipo. Mas peço educação e cortesia. Principalmente, peço que se abstenham de qualquer manifestação preconceituosa. Estereótipos fáceis não serão bem-vindos; discordância é. O autor quer ler o que temos a dizer e os comentários lhe serão retransmitidos. O texto começa aqui e o resto está após o link do salto – PD

Meu nome é Mohammed e vivi no Reino Unido toda minha vida. Espero, aqui, dividir com vocês minha opinião a respeito das madrassas na esperança de que considerem interessante. Meu objetivo não é fazer com que todos mudem sua percepção do Islã mas, sim, permitir que conheçam outro ponto de vista. Gosto de compartilhar com pessoas que têm a habilidade de examinar criticamente os pontos de vista que lhes são apresentados. Ao mostrar outra perspectiva, tenho o objetivo de chamar atenção para alguns eventos marcantes da história que em geral são ignorados nas discussões a respeito das madrassas.

Comecemos pela descrição básica da palavra ‘madrassa’. A maneira como escrevemos varia, mas pronuncio assim: madh’rassa. A mesma palavra tem sentidos diferentes para pessoas diferentes dependendo do contexto em que é aplicada. Em alguns canais de tevê, as reportagens sobre a Guerra ao Terror de George W. Bush sugerem um sentido preconceituoso distante do real.

De acordo com a descrição na Enciclopédia Britânica, uma madrassa é…

…uma instituição de ensino. Ao longo do século 20, as madrassas funcionaram como seminários teológicos e escolas de direito com o currículo baseado no Corão. Além de teologia islâmica e direito, também são ensinadas gramática árabe e literatura, matemática, lógica e, em alguns casos, ciências naturais.

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O Afeganistão nas eleições dos EUA

16/July/2008 · 13 Comentários

Mais soldados ocidentais morrem em batalha no Afeganistão, hoje, do que no Iraque. O Talibã está fortalecido, a chefia da al-Qaeda circula com facilidade. Na área de fronteira com o Paquistão, nenhum governo manda.

Há meses, o cenário eleitoral norte-americano, no que tange política externa, se resume assim: John McCain quer ficar no Iraque, Barack Obama acha que o foco deveria ser na fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Os fatos estão obrigando McCain a mudar.

Mas a política é de difícil costura. Primeiro, por causa do Irã.

EUA e Israel vêm mantendo forte pressão sobre o Irã, nos últimos meses. Cogitar uma guerra é irreal – a OTAN não vai se empenhar, a desastrada aventura no Líbano deixou o governo israelense capenga e os EUA não têm força. Um bombardeio é possível. O Irã revidaria com tanta força quanto possível. Primeiro, com mísseis contra Israel; depois, no Afeganistão e no Iraque, países com os quais faz fronteira.

O presidente afegão Hamid Karzai tem se equilibrado nesta linha fina. Elogia Bush, elogia Ahmadinejad. Ele não tem escolha. Precisa do apoio iraniano para reerguer o país. E a lição que teve é de que os EUA ajudam, mas esquecem rápido.

Nos EUA, faz um bocado de diferença. A força de McCain é que, para o eleitor, ele parece entender mais de Forças Armadas do que Obama; Obama, por sua vez, inspira mais confiança na economia, que anda em frangalhos e ameaçando piorar. Há anos Obama diz que o Iraque é uma distração enquanto McCain insiste que é o principal palco na luta contra o terrorismo. Até há pouco tempo, a percepção de que havia melhoras no Iraque favorecia John McCain. Com o acirramento do conflito no Afeganistão, a impressão pode passar rapidamente.

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Guantánamo: BBC divulga primeiro
vídeo de interrogatório

15/July/2008 · 76 Comentários

O vídeo foi gravado secretamente, pelo duto de ventilação. Nele, o jovem sendo interrogado reclama de maus tratos e falta de atendimento médico para seus olhos e pés, feridos antes de sua prisão.

Omar Khadr, o prisioneiro, tinha 16 anos no momento do interrogatório. Preso no Afeganistão, é cidadão canadense.

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O Talibã e seu poder sobre o Afeganistão

19/June/2008 · 66 Comentários

Há uma semana, o presidente afegão Hamid Karzai ameaçou botar seu exército em território paquistanês para combater o Talibã, lá. Mas a guerra voltou para o seu lado da fronteira. Desde sábado, o Talibã pressiona Kandahar, a cidade natal de Karzai – seu irmão é o governador –, e espécie de capital da etnia patane.

É também a cidade onde surgiu o Talibã. A mesma cidade onde fica a mesquita na qual, dentro, está guardado um manto que um dia pertenceu a Maomé e que, perante a vitória do Talibã nos anos 1990, seu líder máximo, o mulá Omar, um dia vestiu em público.

Ainda hoje pela manhã, as tropas da OTAN, auxiliadas por helicópteros, lutavam contra a ofensiva Talibã. Dura dias. Homens bomba, dentro da cidade, explodem-se em mercados, nas ruas. O Talibã invadiu a cadeia e soltou todos os seus que estavam presos na terça-feira. Não há dúvidas de que tiveram ajuda de soldados e oficiais do governo. Quem é do governo está escondido. O bairro de Arghandab foi conquistado e está cercado por minas.

Não há, a médio ou longo prazo, nenhuma chance de o Talibã, após assumir o controle de Kandahar, mantê-lo. Ao menos, não enquanto a OTAN estiver no país. Mas estrategicamente o ataque faz sentido. Primeiro, mostra à população quem manda. Mesmo após a derrota final do grupo do mulá Omar, em 2001, o Talibã continua presente. E, quando os ocidentais deixarem o país, lá estarão eles de volta. Quem tiver desagradado a sombra do Talibã neste momento terá um ajuste de contas pela frente.

O outro objetivo é desviar a atenção das forças internacionais. Até os canadenses, que deveriam estar dedicados apenas à patrulha, tiveram que se envolver nos combates intensos que ocorrem. Enquanto isso, a pressão sobre o Khyber Pass, na fronteira do país com o Paquistão, relaxa. É onde estão os principais líderes da al-Qaeda, incluindo Osama bin-Laden.

Sete anos após ter deixado o poder, o Talibã está tão forte quanto esteve nos dias anteriores à tomada do poder. Nenhum assunto deveria ter mais prioridade para EUA e Europa, hoje, do que a prisão de bin-Laden e o desmantelamento da cúpula da al-Qaeda. Tais ações enviariam uma poderosa mensagem para o mundo. No entanto, os EUA não conseguem se envolver profundamente no Afeganistão por estarem sufocados pelo Iraque, que exige sua máxima atenção e concentração.

Enquanto isso, nos círculos internacionais, a discussão envolve quem deve suceder Hamid Karzai, cujo mandato está por expirar. Há um bocado de gente propondo o atual embaixador do país na ONU, Zalmay Khalilzad. Há um pequeno detalhe, porém: ele é cidadão norte-americano. Não é possível que alguém tenha dúvidas de como será percebido no país.

Neste contexto, imaginar uma guerra envolvendo o Irã é uma piada.

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A.Q. Khan, o vendedor dos nukes
paquistaneses rompe silêncio

2/June/2008 · 41 Comentários

Em 2004, o físico Abdul Qadeer Khan foi à televisão paquistanesa, caiu aos prantos, e admitiu ter vendido o segredo da bomba nuclear para o Irã, a Coréia do Norte e a Líbia. O pai da bomba de seu país, um herói nacional, está em silêncio desde então. Ou estava. O jornal britânico The Guardian o entrevistou.

A.Q. Khan retira o pedido de desculpas. Diz que foi forçado pelo presidente Pervez Musharraf. E diz que não pretende jamais cooperar com a Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU. “Por que deveria conversar com eles? Não tenho qualquer obrigação. Não somos signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear e não quebrei qualquer lei internacional.” Os detalhes da rede de distribuição de informação e material nuclear são “problemas que dizem respeito a mim, a meu país e a ninguém mais”.

O cientista nem nega, nem confirma ser o fornecedor de informação e material. Diz que o segredo da bomba paquistanesa veio do ocidente e que quem quiser e tiver dinheiro tem onde comprar segredos e material no próprio ocidente. Isto inclui Coréia do Norte e Irã.

Há um assunto sobre o qual ele não fala: dizem que ele foi o bode expiatório e que assumiu a culpa da venda que na verdade cabia a um círculo de generais. “Não falo sobre isso, é melhor esquecer.”

via Gideon Rachman

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O Paquistão visto por um jornalista brasileiro

24/May/2008 · 29 Comentários

As escolas religiosas, que ensinam o Alcorão para crianças a partir de sete anos de idade, cumprem também um papel social no Paquistão. Como os colégios públicos não são suficientes para atender toda a população – são 160 milhões de habitantes, e a taxa de natalidade ainda é alta –, as madrassas, como as escolas religiosas são conhecidas, são responsáveis por tirar do analfabetismo boa parte da população.

Atualmente, cerca de 35% da população é considerada analfabeta ou semianalfabeta – só sabe escrever o próprio nome e ler frases curtas, de acordo com a Universidade de Peshawar. O investimento em educação também é baixo, conforme fontes ouvidas pelo G1: pouco mais de 2% do orçamento do governo paquistanês tem a educação fundamental, média e universitária como destino.

As escolas religiosas estão em todos os municípios, inclusive no interior do país. Nas madrassas, as crianças passam pelo menos uma hora por dia aprendendo o alcorão. Como a grande maioria das escolas fundamentais do país, elas têm aulas separadas para meninas e meninos.

Fernando Scheller, um dos editores do portal noticioso G1, está no Paquistão – e bloga sua visita.

dica de Marina Gomara

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Uma entrevista aos sábados

23/February/2008 · 75 Comentários

Me parece óbvio que os EUA não podem lutar sozinhos por todas as questões de interesse do Ocidente. Assim, duas conclusões são possíveis. Uma é que não há qualquer interesse ocidental na região, aí não lutamos. Outra: há interesses do Ocidente, então temos que lutar. Quer dizer, precisamos de mais tropas da OTAN no Afeganistão. A esta altura, no ano que vem, teremos um novo governo nos EUA. É aí que descobriremos se o governo Bush era a causa ou o álibi dos desentendimentos entre Europa e EUA. Hoje, muitos europeus se escondem atrás da impopularidade de Bush. E seu governo realmente cometeu muitos erros no início.

Você sempre pode dizer que há uma guerra diferente que era mais importante do que a guerra na qual está envolvido. Mas o que quer dizer que deveríamos lutar a guerra no Paquistão? Deveríamos usar poder militar nas regiões tribais e conduzir operações numa região que o Império Britânico não conseguiu pacificar nem em 100 anos de colonização? Deveríamos usar o poder militar para impedir que os radicais tomem o poder paquistanês? Devemos impedir que o Estado paquistanês se parta em três ou quatro grupos étnicos? Não creio que tenhamos capacidade para tal.

Não acordamos um dia de manhã e decidimos que seria lindo conversar com Mao. Tanto eu quanto Nixon acreditávamos que era preciso trazer a China para o sistema internacional. Tentamos relacionar realidade e considerações morais. A realidade foi mudada pelas tensões entre China e União Soviética. Alguns acreditam que só a conversa já é capaz de aliviar tensões. Eu acredito que, para as negociações terem sucesso, elas precisam antes refletir a realidade. A principal dúvida a respeito do Irã é se o país se vê como uma causa ou como uma nação. Se o Irã deseja ser um Estado-nação respeitado sem desejar dominação imperial ou religiosa, então algum tipo de entendimento é possível. Mas isso não será possível se o Irã encarar o momento como uma oportunidade histórica para fazer renascerem os sonhos da glória persa.

Henry Kissinger, fevereiro de 2008

Tags: China · EUA · Europa · Gente · História · Ásia Central

A Internet caiu na Ásia

31/January/2008 · 21 Comentários

Parte do Oriente Médio e Ásia Central tiveram seu acesso à Internet interrompido, ontem, por conta de dois acidentes mais ou menos simultâneos no Mediterrâneo.

O primeiro ocorreu no grande cabo que leva Internet à África e Ásia. Provavelmente um navio içou âncoras carregando e rasgando o cabo nas proximidades de Alexandria, no Egito. Não se trata de um mero cabinho: partindo da Alemanha, passando pelo Egito, atravessa o Oriente Médio e Ásia, pega Índia e China para desembocar na Austrália. É uma brincadeira de 40.000 quilômetros e a principal via da Internet conectando Europa à Ásia. Não bastasse, outro cabo que vai da Inglaterra até o Japão partiu no mesmo mar, próximo a Marselha, na França.

A Internet foi confirmada fora do ar em toda Arábia Saudita, ainda atinge 70% dos usuários egípcios, um bom naco da conexão em Dubai e pôs a nocaute 50% da trilha de acesso na Índia. No caso indiano, a maioria das empresas de telecomunicações conseguiu desviar o tráfego de dados por rotas alternativas. Isto quer dizer, essencialmente, que a Internet ficou muito mais lenta.

Como grande parte das empresas de telemarketing dos EUA usam operadores indianos e como é cada vez mais comum que parte das operações de grandes escritórios sejam terceirizadas para companhias da Índia, pode haver impacto econômico ainda não calculado.

Tags: Europa · Oriente Médio · Tecnologia · África · Ásia Central · Ásia Sudeste & Pacífico

Uma entrevista aos sábados

12/January/2008 · 27 Comentários

Esses grupos guerrilheiros na Índia acreditam que a revolução é a resposta. Eles não têm idéia do que virá após a revolução, e quando eles libertam determinadas áreas, ali nascem centros de tirania. Eles explodem as pontes, cortam as linhas telefônicas para o mundo lá fora. Então, os camponeses que deviam ter sido libertados terminam tão prisioneiros quanto nos tempos feudais. Estes movimentos guerrilheiros são uma tolice intelectual, nada têm a oferecer.

Conheci gente da classe média que se juntou à revolução e ninguém me impressionou. Considerei-os vaidosos e, intelectualmente, nem um quarto tão inteligentes quanto imaginavam ser. Esta era minha impressão, então decidi ir conhecer o lugar. Não a área da guerrilha, mas uma cidadezinha perto. E aí percebi, após a terceira visita, isso aqui é tão superficial, essas pessoas são tão chatas, não há grandeza, aqui, nada que renda um livro. Então, conforme pensava sobre essas coisas, percebi como a própria superficialidade e a trivialidade poderiam se integrar à narrativa.

Para poder escrever, você precisa sair pelo mundo, se arriscar, tem de mergulhar no mundo, precisa procurar as coisas. Isso começa a ficar difícil conforme vai envelhecendo porque sobra menos energia, os dias ficam mais curtos e já não é mais tão fácil submergir no mundo lá fora.

V. S. Naipaul

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E se o Islã não existisse?

9/January/2008 · 85 Comentários

Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?

Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.

O raciocínio é todo de Fuller.

Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.

São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:

Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.

Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.

Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.

Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.

Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.

A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.

(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)

Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.

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Paquistão após o assassinato
de Benazir Bhutto

28/December/2007 · 158 Comentários

É sempre chocante assistir à decomposição de um país. Mas, após o assassinato de Benazir Bhutto, é o que está acontecendo com o Paquistão. O momento é tenso. Uma revolta popular pode estourar. Agora, que faria sentido declarar Estado de Emergência e impor a Lei Marcial, o presidente Pervez Musharraf está desautorizado. Afinal, há coisa de dois meses, aplicou um golpe contra a Suprema Corte utilizando-se justamente desta tática.

Será que ousaria um novo Estado de Emergência? Será que sobreviveria a tal decreto? Será que o Exército se manterá fiel a ele? Será que o Serviço de Inteligência, tão ligado ao norte islâmico, ainda o respeita minimamente?

O que acontecerá não é possível prever. Eleições estão marcadas para 8 de janeiro, Bhutto era favorita. O partido mais votado do parlamento eleito fará o primeiro ministro. Num país estável, o assassinato de um dos principais candidatos a essa altura seria justificativa para suspender o pleito e realizá-lo adiante, quando o partido vitimado tivesse chances de apresentar novo candidato. Mas, se já foi um dia, o Paquistão deixou de ser um país normal, quanto mais estável. O ideal seria que eleições ocorressem. É preciso manter a mínima aparência de democracia sob o risco de que ela desapareça de vez.

Os partidários de Bhutto, ontem, acusavam Musharraf do assassinato. Mas será?

Em campanha, a ex-primeira-ministra mostrava-se particularmente agressiva contra o Talibã, o radicalismo islâmico e sua cria, a al-Qaeda, alojados ao norte. Benazir Bhutto contava com a simpatia dos EUA por conta. Não há dúvidas de que, como premiê, Bhutto forçaria o presidente Musharraf a ampliar sua ofensiva. A conversa da experiente política com o presidente afegão Hamid Karzai, o outro chefe de Estado preocupado com esta briga, faz poucos dias, é indício de qual sua prioridade no governo.

Após seu assassinato, o presidente, que acaba de abandonar a farda de general, não tem como garantir sequer sua sobrevivência política. Se o conflito entre ambos era aberto, ausência de Bhutto piora a situação. Se a lógica ainda prevalecer no país em frangalhos, parece evidente que os maiores interessados em sua morte são justamente o Talibã e a al-Qaeda.

Isto, é claro, se a lógica valer de algo.

A al-Qaeda às vezes assume seus atentados. Outras vezes, não. No Onze de Setembro, ficou em silêncio por mais de mês enquanto a comunidade internacional cobrava provas de seu envolvimento antes de autorizar um ataque dos EUA ao Afeganistão. Neste caso, a falta de autoria clara favorece o caos. O caos interessa à turma de bin-Laden.

Com Bhutto de fora, os olhos voltam-se para outro ex-premiê, também candidato, Nawaz Sharif. Mal se passara uma hora da morte de Bhutto quando ele entrou no Hospital Geral de Rawalpindi para as condolências. Dada a confusão que imperava, foi um feito. É arte política, sujeito hábil. Embora os dois ensaiassem uma aliança, Sharif não poderia ser mais diferente de Bhutto. Se ela era pró-EUA, ele não esconde seus laços com a Arábia Saudita. E se acaso sauditas e norte-americanos são oficialmente aliados, na realidade da política local a ação é diferente.

A al-Qaeda é um grupo saudita. A Arábia Saudita era um dos três países do mundo que reconheciam, no Afeganistão, o governo Talibã. A vertente de islamismo radical que impera no norte do Paquistão é profundamente semelhante à que a Arábia Saudita espalha pelo mundo. Sharif não é fundamentalista. Mas a geopolítica que o sustenta e financia é tão atada aos sauditas que um gabinete liderado por ele é marcado por uma interrogação. O que vai imperar? A Arábia Saudita interessada em regimes islâmicos como os defendidos pelos radicais? Ou a Arábia Saudita interessada em combater o terrorismo? No Paquistão, as duas opções são incompatíveis.

Enterros no Paquistão acontecem rápido. Provavelmente hoje, talvez amanhã. Se demorar mais, escaparam à tradição – coisa sempre perigosa – para evitar as multidões. A multidão é incontrolável. Se o país rachar. Se houver um golpe de Estado. Se radicais islâmicos conseguirem um atalho para o poder. O mundo respira fundo.

O Paquistão é uma potência nuclear.

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Assassinada Benazir Bhutto

27/December/2007 · 70 Comentários

No momento, uma multidão de seguidores à frente do Hospital Geral de Rawalpindi grita ‘Musharraff Cachorro’ – mas é cedo ainda para sugerir culpados.

A duas vezes premiê paquistanesa Benazir Bhutto foi assassinada em meio a um comício em Rawalpindi, cidade onde fica a sede do Exército, próxima à capital Islamabad. Um homem disparou tiros contra ela e, na seqüência, explodiu-se.

Hoje mais cedo, não longe dali, quatro assessores de Nawaz Sharif, outro ex-premiê, também candidato, foram assassinados a tiros. O partido de Sharif acusou militantes pró-governo.

As eleições parlamentares na qual Sharif concorre e Bhutto concorria acontecerá em 12 dias.

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Europa tem perfil do terrorista típico

27/November/2007 · 114 Comentários

O braço europeu da Interpol tem um estudo novo que traça o perfil dos terroristas islâmicos. É um bocado complexo e não facilita muito. São muçulmanos, evidentemente, descendentes de migrantes do norte da África, Oriente Médio ou Ásia Central. O previsível termina aí. Podem ser jovens ou poder ser velhos, têm formação universitária ou não. O que talvez surpreenda: não costumam parecer descolados da sociedade européia. Ao contrário: o que parece é que estão entre os que se integraram e que vivem bem.

São religiosos – o que é evidente. Mas nem todo fundamentalista vira terrorista. É uma minoria, na verdade. O fundamentalismo os leva para a Internet e, na rede, descobrem os sites jihadistas. Em algum momento, convencem-se de que há um grande mundo muçulmano que ignora fronteiras nacionais – e que parte deste mundo, caso da Espanha, deve ser recuperado por ter sido perdido. Não vêem o grande califado islâmico como algo distante no passado, convencem-se de que é um imperativo histórico.

Às vezes, através dos sites jihadistas, encontram-se com outros com idéias semelhantes. O grupo é fundamental. O grupo reforça suas convicções e lhes oferece a identidade. Sentem-se à vontade apenas no pequeno grupo de indivíduos com quem dividem tais convicções rejeitadas, inclusive, por pais, por familiares, por amigos da mesquita. Sentem que são eles mesmos apenas quando no pequeno grupo de radicais.

Mas para que este grupo transforme-se numa célula terrorista falta ainda um passo: um deles faz uma visita a um país muçulmano – pode ser o Afeganistão, o Paquistão, o Iraque; é algum lugar onde encontram-se com terroristas de fato e treinam. Ao retornar para a Itália ou Inglaterra, Espanha ou França, este indivíduo, ainda que mal treinado, será o líder que planejará alguma ataque. Só quando todos estes elementos se encaixam acontece de uma célula terrorista potencialmente perigosa formar-se.

E é assim que os sistemas de inteligência descobrem terroristas potenciais. Observam as mesquitas e vêem quem costuma andar em grupos fechados. Sonda suas fichas, busca saber se alguém viajou ao exterior e para onde foi, se informa a respeito do tipo de discurso que os indivíduos costumam fazer. Quando elementos desta formação de identidade começam a se mostrar nítidos, é a hora de apelar para escutas telefônicas. E, assim, muitos atentados foram evitados.

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O Paquistão quebrado em dois ou três

16/November/2007 · 18 Comentários

Repórter veterano e Prêmio Pulitzer, Steve Coll aproveita a atual edição da New Yorker para comentar o dilema paquistanês:

O país vive duas crises simultâneas. A mais visível é a entre Musharraf, judiciário e políticos civis, que não se entendem a respeito de eleições e divisão de poder – uma disputa entre líderes incapazes de chegar a um acordo que culminou, há duas semanas, na declaração do estado de emergência, seguido por um ataque do exército a ativistas de direitos humanos, jornalistas independentes e militantes políticos. Este desentendimento se sustenta, em parte, pela competição por espaço de duas forças: os militares, que formam uma instituição ampla, de classe média e evidentemente não-democrática; e o Partido do Povo, uma instituição igualmente ampla e não-democrática (jamais houve eleições internas), um tanto mais pobre. O Partido do Povo começou como um movimento socialista rural liderado pelo pai de Benazir Bhutto, que foi enforcado pelo Exército, e governou o país por três vezes; quando Bhutto tornou ao Paquistão, no mês passado, seus seguidores foram em massa a Karachi para mostrar que ainda podem governar as ruas. A luta entre o Partido e o Exército, no entanto, dificilmente provocará uma grande transformação – as prisões, as nuvens de gás lacrimejante e as bordoadas com cassetete são apenas o episódio mais recente desta história pátria de política disfuncional.

Mais preocupante é a guerra civil de baixa intensidade na fronteira oeste do país, um conflito que envolve o Exército, dominado pela etnia punjabi, contra muçulmanos na região controlada pela etnia patane, que é tribalizada, uma gente conservadora que ajudou na expulsão da União Soviética do Afeganistão e deu origem ao Talibã. O último levante pantane, que se voltou tanto contra políticos seculares paquistaneses quanto contra seus aliados ocidentais, começou já há muitos anos. O Talibã que não se rende e proselitismo por parte de uma liderança da al-Qaeda que está se reagrupando, incluindo provavelmente o próprio Osama bin Laden, estão entre as causas. Mas contribuem para a equação antipatia aos EUA, ajuda de funcionários da inteligência paquistanesa e, talvez, até mesmo gente do exército, que sempre conteve os radicais muçulmanos, além da persistente inabilidade do próprio Musharraf de conseguir criar uma coalizão entre os patanes seus aliados que poderiam conter os islâmicos.

No Paquistão, embora ruidosos, os radicais islâmicos são franca minoria. Os serviços de inteligência podem tê-los como aliados – já que terroristas ajudam na luta contra a Índia na região fronteiriça da Caxemira –, mas são minoria. O governo Musharraf se mostrou de todo incompetente para lidar com o problema e, pior, soldados do Exército já foram obrigados a se render em batalha aos guerrilheiros patanes. É humilhante.

Musharraf está fora – só ele não sabe. A dúvida é quanto tempo terá de sobrevida. O problema, agora, é encontrar um plano B.

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