Os 10 países mais perigosos do mundo

10/August/2009 - 10h14 - 323 Comentarios

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Conflito étnico entre Hans e Uighurs? É a crise econômica à chinesa

08/July/2009 - 08h09 - 163 Comentarios

Hu Jintao, o presidente chinês, deixou a Itália às pressas sem esperar pelo encontro do G8, enquanto a crise na região da China mais próxima à Ásia Central se agrava. Oficialmente, morreram já 156 pessoas nos choques entre chineses de etnia Han (majoritária no país) e os Uighurs (turcomenos).

Os Uighurs compõem 45% da população da província de Xinjiang, noroeste do país. Desde que a al-Qaeda varou as torres gêmeas de Nova York, Beijing teme pela estabilidade da região. Xinjiang faz fronteira com a Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – que inclui o naco do mundo onde a vertente do extremismo islâmico do Talibã e de Osama bin-Laden encontrou abrigo. Os Uighurs são muçulmanos e, desde os anos 1990, há um grupo separatista que pratica atos de terror, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental – ETIM, na sigla em inglês.

Mas antes de sair com uma interpretação que passe pela al-Qaeda e sua inspiração, não custa entender melhor o cenário. Em 1940, os Hans compunham 5% da população da província. Hoje já são 40% – a China estimula a migração por considerar que estabiliza as regiões do país com etnias muito distintas.

Xinjiang é o canto mais rico em petróleo da China e a renda per capita na região também está entre as mais altas do país. Enquanto isso, o índice de desigualdade social é um dos piores. Chineses han têm os melhores empregos, o uighurs têm os piores. Alguns explicam que o problema é linguístico – num canto isolado do mundo, o grupo local não domina o mandarim, fala seu próprio dialeto de origem turcomena, uma língua parecida com o uzbeque que toma palavras emprestadas do persa. O problema é também educacional: os han têm acesso a mais anos de escola. O resultado prático é um só – os melhores empregos estão com uns, não com os outros.

Cenário propício para um conflito étnico? Sim, mas a razão é econômica. Condoleezza Rice, conta que quando secretária de Estado dos EUA ouviu a seguinte conta de Hu Jintao: sua missão é criar 25 milhões de empregos por ano. Em 2008, criou 9 milhões. A conta dos chineses é que sua estabilidade interna depende de uma economia que cresça rápido o bastante para que todos percebam ter chances de melhorar no futuro. Quando essa percepção for embora, Beijing tem medo.

Apesar das Olimpíadas, 2008 foi um ano ruim para a China. Terremoto grande, escândalo por causa de tinta de brinquedos, altos níveis de poluição em Beijing e uma crise econômica particularmente difícil.

Conflito étnico? Sim. Mas a causa é esta: 9 milhões de empregos em 2008 e um número provavelmente parecido em 2009.

Refugiados políticos em número recorde

17/June/2009 - 09h24 - 43 Comentarios

Existem, hoje, 28 milhões de pessoas que deixaram suas casas por causa de grandes conflitos para seguir para outros lugares em seus países. Inclua-se na lista gente que chegou ao ponto de se deslocar para outros países e o número sobe para 45 milhões de refugiados. É um número jamais visto, recorde.

A Colômbia lidera a lista, com 3 milhões de refugiados internos que fugiram das áreas controladas pelas Farc. Em segundo lugar vem o Sudão, com 2 milhões de refugiados internos, seguido pelo Iraque, com 1,4 milhões. A violência do Talibã, na área do vale do Swat, trouxe o Paquistão para a lista onde já estavam Sri Lanka, Congo e Somália.

O Paquistão, por causa do vizinho Afeganistão, é também o país que mais recebe refugiados estrangeiros – gente que fugiu da violência em casa e decidiu atravessar a fronteira: 1,8 milhões de afegãos vivem lá. Mais 980.000 vivem no Irã. A Síria, por causa do Iraque, é o segundo país que mais recebe refugiados no mundo: 1,1 milhão.

Atualização – Fui pego no contra-pé, aqui: estas estatísticas vêm do relatório da UNHCR, agência da ONU dedicada a cuidar de refugiados. Oficialmente, 4,7 milhões de palestinos vivem como refugiados mas como a agência encarregada deles é a UNRWA, eles não foram listados nas estatísticas.

via FP Passport

Tortura em fotografias, dilema dos EUA

28/May/2009 - 11h11 - 130 Comentarios

Hoje saíram mais alguns detalhes a respeito das fotos de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, que são mantidas em segredo pelo governo norte-americano. Segundo o general da reserva Antonio Taguba, oficial responsável pela investigação de abusos em 2004 naquela prisão, as imagens contém: um soldado dos EUA estuprando uma prisioneira, um tradutor do Exército dos EUA estuprando um prisioneiro, uma prisioneira sendo despida à força, penetração com objetos como bastões, cabos e um tubo de lâmpada fluorescente.

As fotos não divulgadas de Abu Ghraib fazem parte de um conjunto de 2.000 imagens que o presidente Barck Obama decidiu não tornar públicas. Tratam, todas, de cenas de abusos de prisioneiros tanto no Iraque quanto no Afeganistão, entre 2002 e 2004. Por conta, seu governo vem sendo alvo de pesadas críticas por falta de transparência.

Estas fotografias, todas elas, documentam crimes previstos por lei nos EUA. Todos os oficiais envolvidos nas ações foram ou estão sendo julgados. Onze já foram condenados.

Obama argumenta que os crimes estão sendo punidos. Divulgar imagens tão violentamente explícitas, no entanto, poderia disparar um processo pior do que o dos cartuns dinamarqueses, acirrando ânimos, piorando uma situação já ruim e dificultando a vida dos 200.000 soldados norte-americanos – a maioria não envolvida com tortura – que estão nos dois países.

Não custa lembrar que as vítimas de tortura possivelmente não querem estas imagens públicas.

Jane Mayer, repórter da New Yorker, faz um contraponto: há um poder que as imagens têm que nenhum texto é capaz de simular. Apenas imagens como estas são capazes de expor a população dos EUA – e do mundo – aos horrores praticados nos porões da guerra.

Houve uma virada de mesa nesta questão. Inicialmente, o presidente Obama anunciou que divulgaria as imagens agora em maio. Foi após vê-las e ouvir alertas de cautela por parte dos generais que mudou de ideia.

Existe, no entanto, um processo em curso na Justiça dos EUA que vem sendo vencido instância após instância por quem deseja acesso ao material. O governo pretende recorrer, agora, à Suprema Corte. Possivelmente perderá. Se realmente desejar mantê-las em segredo, só tem uma alternativa: a de baixar uma lei especificamente com este objetivo. Já existe um projeto do tipo no Senado, mas não há movimentação da Casa Branca em seu apoio.

Obama pode estar fazendo um jogo de cena: faz um aceno para os militares porque sabe que as imagens serão tornadas públicas de qualquer jeito. Seu apoio a uma lei para proibi-las deixará clara sua real posição a respeito.

Há uma questão em paralelo que nada tem a ver com as fotografias: é o debate a respeito de waterboarding, simulação de afogamento com uma bacia d’água, que o governo do ex-presidente George W. Bush considerou legal, mas que o novo governo considera uma forma de tortura. De acordo com os detalhes divulgados até agora, as fotografias proibidas nada têm a ver com afogamento simulado. São tortura mesmo – do tipo que nem Dick Cheney tem coragem de defender. (Ao menos, não em público.)

Ahmadinejad, não. Mas Karimov pode?

26/May/2009 - 14h27 - 60 Comentarios

Um amigo, que por motivos profissionais é obrigado a acompanhar de perto a diplomacia brasileira, anda intrigado com o que sugere ser uma incoerência pátria.

Na quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva receberá seu par uzbeque Islam Karimov, que vem em visita oficial ao Brasil. O Planalto vem ampliando as relações comerciais e institucionais com o Uzbequistão.

Sim: saíram uma meia dúzia de linhas sobre a visita na imprensa.

Quando o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad organizou sua visita ao Brasil, houve uma enxurrada de protestos questionando os direitos humanos em seu país. Eram protestos coerentes.

Islam Karimov, segundo o ex-embaixador britânico Craig Murray, fervia em água até a morte seus inimigos políticos. Literalmente. O governo uzbeque talvez seja o mais fechado do mundo. Conseguir um visto de entrada no país, para um jornalista, é praticamente impossível. Outro amigo, Burt Herman, que até há um ano era o diretor da sucursal nas Coréias da AP, foi um dos raros repórteres a entrar no Uzbequistão. Em 2005, Karimov ordenou que o exército abrisse fogo contra manifestantes, incluindo mulheres e crianças. Lá estava a passeata, então todos os corpos no chão. Herman tentou levantar quantos morreram. Ele acredita que foram mais de mil, mas não tem como provar.

Nenhum dos direitos fundamentais de uma democracia existem no Uzbequistão. Tortura e prisões sem mandado judicial são a norma. Segundo a Human Rights Watch, a prática habitual na lida com prisioneiros inclui choques elétricos, abuso sexual e asfixia. Não há liberdades de culto, de imprensa, de livre associação ou de assembléia. Estados Unidos, União Européia e ONU já pediram que investigações a respeito da conduta do governo uzbeque fossem conduzidas. Karimov sempre negou qualquer tipo de acesso.

No entanto: nem um pio. Ahmadinejad não pode, o que pode é Karimov.

Propaganda à moda Talibã

25/May/2009 - 13h47 - 37 Comentarios

O Council of Foreign Relations tem um novo relatório na praça que mostra que aquele antigo Talibã, meio ignorante das coisas do mundo, circunscrito ao Afeganistão, já não existe mais. O grupo está dando uma surra nos EUA: é capaz de se comunicar melhor, expor seu ponto de vista, dominar a discussão.

Após um ataque norte-americano no Afeganistão ou norte do Paquistão, o Talibã demora menos de meia hora para ter um comunicado oficial sobre número de mortos, feridos e outros detalhes. É a sua versão que chega primeiro à imprensa, e já circula o mundo pela BBC de Londres antes de os EUA terem começado a explorar o tema. Não é só a imprensa em inglês: aquela em Dari e Pashto, as línguas locais, e a em árabe, no Oriente Médio, também pode contar com o Talibã para ter notícias rapidamente. (Imprensa precisa de notícia, algum tipo de notícia, e na pressa, o primeiro a dar informação oficial leva o prêmio. No dia seguinte, nenhum leitor lembra do ’segundo informou o Talibã’, só lembra o número de mortos.)

O grupo opera uma rádio local, distribui centenas de programas para outras rádios, além de fitas cassete, um dos meios típicos aos quais afegãos e paquistaneses do norte, pobres, têm acesso. Para ir além da região, fazem uso da Internet. Nem tudo em sua estratégia é cordial – entregam localmente aquilo que, naquele canto do mundo, chamam de ‘cartas noturnas’, ameaças por escrito depositadas à porta no meio da noite para lembrar quem manda. Os EUA – com um histórico de habilidade em comunicação e propaganda em tempos de guerra – ainda não aprenderam a operar.

Sem justificar seus atos e explicar o que faz, não há chances de vitória neste tipo de guerra.

O Paquistão à beira da ruína

15/April/2009 - 03h16 - 65 Comentarios

Um grupo de jovens líderes tribais vieram do norte do Paquistão, na região controlada pelo Talibã, para se encontrar na capital do país com Richard Holbrooke, enviado-especial do presidente norte-americano Barack Obama. David Ignatius, colunista do Washington Post, descreve:

‘Somos todos Talibã’, disse um dos rapazes. Ele queria dizer que seu povo apóia a causa, embora não necessariamente as táticas terroristas. Foi adiante, explicando que a insurgência se espalha no Paquistão não porque líderes religiosos como Baitullah Meshud insuflam mas porque a população tem raiva. Para cada militante morto por um míssil norte-americano, ele disse, mais dez se juntarão ao levante.

‘Vocês não podem ir lá conversar com as pessoas porque são odiados’, ele disse.

Segundo Ignatius, o presidente paquistanês Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto, reclama dos mísseis em público mas agradece por eles em privado. São extremamente impopulares no país – não que surpreenda.

Mas o Paquistão está por um fio.

Na segunda-feira, Zardari assinou uma lei na qual abdica do controle judicial sobre o Vale Swat. A lei faz parte de um acordo de paz com o mulá Sufi Mohammad. A sharia, Lei Islâmica, passa a reger a localidade. Não há como sequer disfarçar: o Estado entregou um naco do país ao Talibã.

Christopher Allbritton, repórter que conhece bem a região, publicou a seguinte avaliação em seu blog:

Zardari está fraco. Ele vinha sendo pressionado pelos EUA e organizações de direitos humanos a não assinar, mas ele o fez de qualquer jeito na esperança de comprar tempo. A idéia original é que o Tehrik Nifaz-i-Shariat-i-Muhammadi, grupo que controla o Swat, deporia suas armas em troca do acordo. O TNSM manteve as armas e Zardari assinou a lei ainda assim. Se o presidente pensa que a insurgência pode ser contida no Swat, ele está enganado. O episódio será visto como uma grande vitória dos militantes islâmicos e vai reforçar seu desejo de exportar sua ideologia e guerra contra o Estado paquistanês.

Zardari tem cobertura política. O Congresso votou unanimemente para aprovar a imposição da Sharia no Swat. Muslim Khan, porta-voz do Talibã no Swat, ameaçou os deputados de declará-los apóstatas, um crime punido com morte entre os radicais, se não votassem.

Se o Paquistão ruir, será por responsabilidade da desastrada política de George W. Bush na região. Mas a bomba cairá no colo de Obama.

Lula, brancos de olhos azuis
e quem tem culpa nesta crise

30/March/2009 - 12h56 - 226 Comentarios

Vários de vocês têm me pedido, nos últimos dias, para repercutir o comentário do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que culpou ‘essa gente branca com olhos azuis’ pela crise mundial.

O presidente cometeu uma gafe ao revelar preconceito e analisou errado o problema.

A gafe é simples: presidentes cometem gafes a toda hora. Todos eles – vacilou, um fala besteira e revela preconceito. Fernando Henrique e seu pé na cozinha que o digam. Com Obama foi uma descrição dos norte-americanos pobres do sul que cultivariam suas armas e a Bíblia por ressentimento. George W. Bush e Gordon Brown, que estava do lado de Lula, têm longo histórico. A besteira rende um bocado de discussão na imprensa, repercute internacionalmente e continua querendo dizer absolutamente nada. Não afeta o comércio exterior, não altera a crise para melhor ou para pior. Mas rende assunto, nós jornalistas precisamos escrever sobre alguma coisa e o público adora uma desculpa para malhar seus políticos.

O maior problema da gafe de Lula não é o preconceito – brancos de olhos azuis ricos, afinal, costumam ter bastante gente que os proteja. O maior problema é que se trata de uma análise demagógica e, no fim das contas, errada.

Primeiro, porque crises econômicas são cíclicas. Elas sempre vêm. E segundo porque, neste caso em particular, havia muita gente não necessariamente branca e não necessariamente norte-americana fazendo apostas e faturando na alta.

Os EUA estão sofrendo particularmente. O valor líquido do país despencou nos últimos dois anos de quase 70 trilhões de dólares para 53; são 15 trilhões que ‘desapareceram’ do mundo.

É fácil culpar ‘os bancos’ – ou ‘os brancos’ –, mas é mais complexo do que isso. Os bancos emprestaram para alguém. A classe média norte-americana também é responsável pelo seu próprio endividamento. Não apenas porque a classe média dos EUA comprou casas a prazo que não teria condições de pagar. É um fenômeno cultural mais profundo do que isso: a classe média dos EUA passou os últimos quinze anos criando dívidas. Aproveitando-se de taxas de juro muito baixas, não há um que não tenha entre cinco e dez cartões de crédito na carteira e que, por hábito, não role a dívida de um cartão em outro, pague os juros mensalmente sem jamais tocar no principal, e siga acumulando 10, 20, 50, 100.000 dólares em débitos a pagar.

Ainda estaríamos no universo dos EUA se parássemos aí – mas alguém estava produzindo aquilo que os norte-americanos consumiram a prazo. O crescimento da China nos últimos anos não veio do nada. Tampouco o da Índia. Ou mesmo o do Brasil. Foi porque os EUA fizeram uma aposta em sua ampla capacidade de endividamento, que o maior mercado consumidor do planeta passou a consumir ainda mais e houve quem lhe vendesse enquanto, ora pois, rolava sua dívida. Somos todos credores dos EUA: China, Índia, Brasil e alguns tantos outros que fizeram gordas reservas em dólares.

O PIB norte-americano é de quase 14 trilhões de dólares. É capaz de escorregar para a casa dos 12, este ano. Por sua vez, a dívida interna passou a marca dos 10 trilhões em outubro passado. Já está em 11 trilhões. É bem possível que, ao longo de 2009, todos os norte-americanos devam juntos, na praça, o equivalente àquilo que o país produz em valores brutos anualmente. É um feito e tanto, principalmente porque os EUA são a maior máquina de produção de riqueza jamais criada pela humanidade. Ninguém produziu tanto anualmente na história. E dever tudo aquilo que você faz não dá certo.

Não é negócio para ninguém que os EUA quebrem. Mas duas culturas diferentes vêm sido criadas entre as duas maiores potências do mundo. A China guarda dinheiro com vistas a produzir uma poupança absurda capaz de salvá-la na hora do aperto. Os EUA, que nos anos 1940 e 50 tiveram uma cultura de poupança, hoje gastam como se não houvesse amanhã. A China terá que aprender a gastar e os EUA, a poupar. Para o bem de todos.

Nada disso, evidentemente, quer dizer que não exista irresponsabilidade no jogo. Nos EUA, bancos sempre tiveram vários limites de atuação, agências reguladoras razoavelmente atentas, regras para a quantidade de dinheiro que poderiam emprestar dependendo do que tinham de lastro no cofre. A desregulamentação que teve início no governo de Bill Clinton, no entanto, ampliou os poderes de outras empresas financeiras. Fundos de investimento, seguradoras, agências de classificação de risco – todos começaram a agir em conjunto, numa louca ciranda promíscua, que permitiu que várias empresas assumissem mais funções do que jamais puderam.

Os papéis negociados em mercado nos últimos anos, que juntavam cortes de hipotecas, fragmentos de dívidas, ficaram impossíveis de serem acompanhados. Quando ninguém – nem quem classifica o risco, nem quem faz o balanço, nem quem deveria regulamentar – sabe fazer a conta do tamanho do buraco é porque alguém permitiu algo que não devia ter sido permitido. Balanços existem para ser legíveis.

Sim, Wall Street faturou com a ciranda louca e muita gente de terno e gravata – olhos azuis ou não – cometeu crimes nesse meio tempo. Mas crises são cíclicas. E, no caso desta, os ricos não têm a culpa sozinhos.

Ahmed Rashid: como (e por quê)
cresce a al-Qaeda

16/March/2009 - 11h48 - 65 Comentarios

Há um mecanismo nos arredores do Afeganistão que está alimentando e fortalecendo a al-Qaeda. Este post é o segundo (e último) que sai a partir da conversa com Ahmed Rashid, o primeiro foi sobre o Talibã. A al-Qaeda está mais forte e intimamente ligada à cúpula do Talibã, mais até do que antes do Onze de Setembro,. O grupo liderado por Osama bin-Laden tem proteção na região em que vive, a fronteira do Paquistão e Afeganistão, por causa da influência do Talibã ali, pelo surgimento nos últimos anos de um Talibã paquistanês e pela proteção da ISI, serviço secreto do Paquistão.

A ISI é a responsável pelo desenvolvimento e execução da política externa do Paquistão. Como se trata de um braço das Forças Armadas, tal política se resume a ser contra a Índia. Daí, consideram adequado insuflar o radicalismo islâmico. A tranquilidade concedida à al-Qaeda nos últimos anos reverteu uma tendência inicial de diminuição e permitiu um retorno à expansão. O único fracasso do grupo terrorista nos últimos dez anos foi no Iraque. Hoje, a al-Qaeda tem bases no Iêmen, no Sudão e grupos afiliados em todos os países da Europa. Nos últimos seis meses, houve prisões de membros da organização na França e na Alemanha. Mas haverá um novo ataque em solo europeu. O grupo está forte.

O que isto diz a respeito da Guerra ao Terror imposta por George W. Bush? Há dois argumentos que os partidários do ex-presidente norte-americano usam para defendê-lo. O primeiro, de que ele realmente evitou novas tentativas de ataque em solo dos EUA. E o segundo de que, afinal, ele venceu a al-Qaeda no Iraque.

Rashid explica assim: o Iraque foi um caso particular, onde a população sunita não é radical do ponto de vista religioso. É mais difícil envolvê-la por muito tempo numa guerra em nome de Deus. Lá, o problema é nacionalista. Mas, de qualquer forma, o Iraque foi o único lugar no mundo em que os homens de bin-Laden realmente enfrentaram o exército dos EUA numa batalha aberta. Tais homens, hoje, vivem no Afeganistão e estudam dedicados as circunstâncias daquela derrota. Aprenderam muito sobre como o maior exército do mundo funciona em batalha. E estão prontos para um novo confronto armado no Afeganistão. O Afeganistão, não custa lembrar, é onde Alexandre, o Grande, o Império Britânico, e a União Soviética caíram.

E quanto a ataques diretos aos EUA? Rashid os considera mais difíceis pela natureza do país. Não só os EUA são mais isolados – estão a um Atlântico ou Pacífico de distância – como é um país de imigrantes. As comunidades islâmicas, nos EUA, estão integradas à sociedade. Sentem-se norte-americanas. O discurso da jihad simplesmente não pega. Esta integração não é algo que os europeus tenham conseguido fazer. E é do sentimento de exclusão social que são reforçados os laços com o país original e a raiva da nova terra. Ironicamente, as críticas ao ‘multiculturalismo’ que nasceram dentro do movimento neo-conservador dos EUA ignoraram o fato de que são os próprios EUA um dos maiores exemplos de multiculturalismo bem sucedido do mundo. (O Brasil certamente está na mesma lista.) É porque os muçulmanos norte-americanos sentem-se norte-americanos mais do que iraquianos, paquistaneses ou o que for que a al-Qaeda não encontra solo fértil para se implantar.

Outros fatos explicam o recente fortalecimento da al-Qaeda e o primeiro é o tráfico de drogas baseadas em ópio, principalmente heroína. O Talibã já protegia, quando estava no governo afegão, os fazendeiros de papoula, o que lhe rendia 200 milhões de dólares anuais. Mas o envolvimento é mais profundo, agora. O grupo e a al-Qaeda estão envolvidos não só com proteção mas com o tráfico. Lucram alto fazendo o escoamento da produção, seja via Dubai, Tashkent (Uzbequistão) ou Islamabad (Paquistão). Ninguém sabe ao certo quanto o negócio dá. Mas é muito.

O Islã não permitiria este envolvimento, mas os mulás da al-Qaeda o justificam seguindo um raciocínio tortuoso: não se envolvem com haxixe, baseado em cannabis, porque há um histórico de uso de maconha por muçulmanos. Com heroína não é assim – já que muçulmanos não a consomem, só os outros. Simplesmente não é verdade. O uso de opiácios por afegãos e paquistaneses vem crescendo e é um portentoso problema social.

Por outro lado, Ahmed Rashid não espera que ocorra, com a al-Qaeda, aquilo que aconteceu com as FARC. De um grupo de guerrilhas comunistas e de esquerda, após se envolverem com o tráfico foram corrompidas ao ponto de se transformarem, agora no fim de sua existência, em um mero grupo de bandidos. A ‘ideologia’ islâmica é mais forte do que isso e os homens ligados a bin-Laden são totalmente centrados no objetivo da jihad. O tráfico pode financiá-los, mas não vai virar atividade fim.

O outro elemento que fortalece a al-Qaeda é o empobrecimento da região, reforçado agora pela crise econômica mundial. Não é só o Afeganistão. O sul do Tajiquistão passou boa parte do inverno sem luz – é uma região pobre, profundamente pobre, e gelada. Há passeatas motivadas pelo preço dos alimentos no Uzbequistão e no Quirguistão. Pobres, famintos, sem quaisquer perspectivas, jovens muçulmanos destes países descem ao sul em busca da al-Qaeda e abraçam a jihad. O número de soldados está aumentando.

Ahmed Rashid: negociar com o Talibã
é fácil; Difícil é fazer todo o resto

12/March/2009 - 02h25 - 38 Comentarios

Negociação com a cúpula central do Talibã não será possível. Os homens liderados pelo mulá Omar estão mais radicalizados do que antes do Onze de Setembro. Estão, também, engajados no compromisso com a jihad global de Osama bin Laden. Com os comandantes Talibã em campo é diferente. É possível cooptá-los. Mas esta será uma negociação complexa: será preciso participação ativa do Paquistão, da Índia e um amplo engajamento internacional que terá de incluir Europa e China. Sozinhos, os EUA não conseguirão.

Na última terça-feira, estive com Ahmed Rashid, talvez o maior especialista em Talibã que existe no mundo. Jornalista paquistanês, educado no Reino Unido, já tinha escrito um livro sobre o grupo muito antes de o Onze de Setembro tornar seu nome conhecido internacionalmente. A conversa foi centrada no plano do presidente norte-americano Barack Obama de negociar com o grupo e sobre os novos dilemas do terrorismo. Hoje, vamos de Talibã.

Cooptar os comandantes do Talibã em campo, no Afeganistão, não só é possível como fará toda diferença. Cada comandante destes controla 500 homens e, com eles, umas 3.000 famílias. São estes que lutam a guerra. Mas virar-se contra o Talibã envolve risco pessoal para os comandantes. Não é raro que suas famílias morem no Paquistão. Muitas vezes, têm terras no país vizinho. O Talibã é tão bem relacionado com a ISI, serviço secreto paquistanês, que a decisão de abandonar o grupo envolve risco pessoal. As famílias e as terras dos comandantes são reféns.

Não é apenas isso: a ISI facilita o fluxo de dinheiro para o Talibã, de dentro e de fora do país. Com dinheiro fácil na mão e armamento, o grupo segue forte.

Portanto, antes de uma negociação em ampla escala com o Talibã ser possível, será preciso convencer a ISI de que renegar o grupo do mulá Omar é de seu interesse. Só que, aí, há um problema. A ISI é quem define as diretrizes e a estratégia das forças armadas do país. No Paquistão, as principais empresas estão nas mãos de generais. Aliás, boa parte da economia.

A história do Paquistão toda pode ser contada em um ciclo: uma ditadura militar termina desmoralizada, é substituída por um governo civil corrupto e ineficiente. Um golpe militar o derruba, mas após anos termina desmoralizado. Como no regime militar não surgiram novas lideranças políticas civis, os velhos líderes são reconvocados e retornam como salvadores que têm as mesmas fraquezas que culminaram com golpes 10 ou 15 anos antes. É o ciclo paquistanês que, sem democracia contínua por longos anos, não consegue se renovar. Os militares são tão fortes na estrutura interna que raramente são controlados pelos governos. E os militares fazem o que consideram ter que fazer: defender seu país da Índia. 80% do currículo da escola de preparação de oficiais do Paquistão é Índia.

A maneira de combater a Índia vem sendo há umas duas décadas alimentar radicais islâmicos na fronteira do país, principalmente na região da Caxemira. A fronteira indiana sempre foi o problema do país aos olhos de suas Forças Armadas. A fronteira afegã, não. O Afeganistão era o quintal paquistanês. Mas, nos últimos anos, dinheiro indiano financiou uma longa estrada que parte do Afeganistão e termina no Irã. Por sua vez, o Irã oferece os maiores incentivos aos afegãos: tarifa zero, armazenamento gratuito. O Paquistão era a única via de escoamento, não mais. A Índia provoca – e gosta de provocar.

Mas não interessa à Índia o colapso do Paquistão. E o país está próximo de entrar em colapso completo. Há outros países ingovernáveis no mundo. Potência nuclear, não. E assim é o Paquistão. A Índia precisa retroceder e dar garantias ao Paquistão. Sem garantias excepcionais, a difícil tarefa de aplacar a paranóia do Exército paquistanês é impossível. Sem aplacar tal paranóia, o apoio da ISI ao Talibã persistirá. Sem o fim deste apoio, esperar deserção de grandes comandantes do Talibã é difícil.

E a deserção seria apenas o primeiro passo para o fim do conflito no Afeganistão. O país não tem qualquer infra-estrutura. Precisa de estradas, de rede transmissora de energia, água encanada. Sem tais elementos, a nação não será uma nação e os conflitos carniceiros persistirão. Portanto, é preciso dinheiro – muito dinheiro. Os EUA não têm este dinheiro em 2009. Talvez não venham a tê-lo durante o primeiro mandato de Obama, tamanha é a crise. Daí, Washington não conseguirá resolver tudo sem apoio chinês e europeu. Mais gente precisará contribuir para o caixa afegão para que o país tenha alguma chance.

Negociar com o Talibã? É possível, claro. Este, no entanto, é o menor dos problemas que o Afeganistão apresenta.

Índia e a maior eleição da história

10/March/2009 - 10h12 - 27 Comentarios

No dia 16 de abril, começará uma maratona estupenda que é a eleição nacional da Índia. Não há muitas esperanças de que o Partido do Congresso, que governa o país desde 2004, se mantenha no poder. Mas o outro grande partido, os nacionalistas hindus de direita do Bharatiya Janata também não vêm encontrando amplo apoio popular. Talvez de forma contra-intuitiva, seu discurso anti-muçulmano após os atentados de Mumbai não ressoaram.

A Índia é a única democracia do mundo com um bilhão de habitantes, dentre os quais 700 milhões são eleitores. Não é, do ponto de vista prático, simples conduzir uma eleição com este vulto. Por conta, não há um dia de eleição e sim um período eleitoral – os estados votarão entre os dias 16 de abril e 13 de maio em cinco eleições. Os resultados devem ser anunciados em 16 de maio, exatamente um mês após o início da votação.

Sempre foi difícil, num país tão grande, criar partidos nacionais. Nos últimos anos, os diferentes níveis de desenvolvimento de cada estado e as diferentes tensões étnicas e religiosas que cada região enfrenta contribuíram para fragmentar ainda mais a política nacional indiana. E os estados, afinal, têm todos tamanhos de nações. O maior deles, Uttar Pradesh, com mais de 190 milhões de habitantes, dá um Brasil inteiro. A política da Índia, portanto, tende a ser várias eleições regionais que desembocam em Nova Delhi, a capital. Não é à toa que, de Jawaharlal Nehru a Indira Gandhi, oito dos catorze premiês da história indiana vieram de Uttar Pradesh.

A atual ministra-chefe (governadora) de Uttar Pradesh atende por nome sem sobrenome: Mayawati. Ela é uma dalit, a casta dos intocáveis, a mais baixa. Está na política faz três décadas, cai à esquerda, tem apelo para os desfavorecidos do país (que não são poucos), é carismática. Também tem, no passado, denúncias de corrupção. Embora uma vitória em seu estado queira dizer muito, votação alta em outros cantos será importante. Se ela chegar perto, a Índia é parlamentarista. Ou seja, o partido que formar as melhores alianças leva o governo. O Partido do Congresso conseguiu, em 2004, por ter feito uma aliança com os comunistas e outros partidos de extrema-esquerda pequenos porém presentes. Estes, agora, estão conversando com Mayawati.

O Brasil vende minerais – principalmente cobre e ferro – para a Índia. Não é, ainda, uma relação econômica tão estreita quanto aquela com a China. Mas um acordo tripartite assinado em 2006 entre Brasil, Índia e África do Sul prometia abrir, para cada um dos parceiros, mercados em suas determinadas regiões. Potencialmente, é uma relação que pode ser extremamente lucrativa. Na Índia, os mandatos são de cinco anos. O próximo governante é quem investirá (ou não) no desenvolvimento da relação.

Por que demora um ano para fechar
Gitmo? Uma história de Guantánamo

26/January/2009 - 06h28 - 129 Comentarios

A al-Qaeda não quer o fim de Guantánamo. Tanto que faz questão de apresentar os dois homens liberados de lá que juntaram-se a suas fileiras. (Pelo menos 510 pessoas já foram liberadas.) Tudo o que a al-Qaeda não quer é o fim de Guantánamo, sua melhor propaganda anti-EUA.

E, com Guantánamo, Barack Obama tem um problema nas mãos que vai demorar para ser resolvido. Para entender porque Obama precisa deste um ano para fechar as portas de Gitmo, como a prisão é conhecida aqui, é preciso conhecer antes a história do Campo de Detenção da Baía de Guantánamo, fundado pelos EUA em 2001, e os muitos erros que o governo Bush cometeu ali nos últimos anos.

Quando os EUA invadiram o Afeganistão com apoio de boa parte do mundo, começaram a juntar prisioneiros. Prisioneiros amealhados por ali existiam de vários tipos: a maioria, ficha pequena. Alguns, no entanto, podiam ter informação valiosa que pudesse levar à captura de Osama bin-Laden ou que revelasse algo sobre os projetos futuros da al-Qaeda. O então secretário de Defesa Donald Rumsfeld idealizou Guantánamo para estes ou, como ele descreveu certa vez, ‘os piores dentre os piores’.

Guantánamo fica na ilha de Cuba – foi nesta baía que, em 1492, Cristóvão Colombo aportou ao chegar nas Américas. A área da base foi arrendada pelo governo norte-americano em 1903, um contrato sem data para acabar foi assinado em 1934. O governo de Fidel Castro recebe anualmente o cheque do aluguel mas não o deposita. Depositou-o somente uma vez, no início dos anos 1960, por engano de um funcionário. O governo dos EUA alega que o depósito representa reconhecimento legal do contrato. Ficam se mirando, cubanos e norte-americanos dias a fio, e nada muda.

Foi justamente esta condição legal nebulosa de Guantánamo que atraiu Rumsfeld. O raciocínio de seus advogados no Pentágono é que como Guantánamo não é oficialmente território norte-americano, os prisioneiros das Forças Armadas dos EUA ali não estariam protegidos pelo sistema legal do país. Eles fizeram outra interpretação: a Convenção de Genebra, que determinas as regras para a condução de uma guerra, estabelece direitos para os combatentes inimigos. Os EUA assinaram a convenção, portanto precisariam obedecê-la não importa em que canto do mundo. Mas ‘combatentes inimigos’, para os advogados do Pentágono, deveriam ser definidos como soldados uniformizados ou como guerrilheiros que não escondem suas armas e que seguem, eles próprios, as regras impostas por Genebra. Terroristas não estariam incluídos.

Os prisioneiros de Guantánamo estariam, portanto, no vácuo legal. A eles não caberia nenhum direito.

Há duas discussões aí. Uma é moral – e a moral segue duas linhas de argumento. Quem é contra diz, simplesmente, que a grande conquista do Ocidente é o Estado de Direito. Não se pode abandonar o Estado de Direito dizendo que, na verdade, esta é uma tentativa de defendê-lo. Quem é a favor sugere que o argumento é ingênuo, há uma guerra, e estas pessoas querem destruir nossa civilização. A segunda discussão é a técnica, muito mais complexa, e que levanta duas perguntas. O argumento jurídico dos advogados do Pentágono se sustenta? E, em segundo, a solução Guantánamo para combater terroristas é de alguma forma eficiente?

A resposta da primeira pergunta é não. Guantánamo é ilegal e os advogados do Pentágono estavam errados. Não é nenhum grupo ativista que o diz, é a Suprema Corte dos EUA – uma corte, diga-se, reconhecida como conservadora. Em 2006, os juízes determinaram que o então presidente George W. Bush não tinha autoridade para instituir Tribunais de Guerra em Gitmo. No ano passado, a Corte declarou que os prisioneiros de Guantánamo tinham, sim, o direito de questionar suas prisões em um tribunal civil. Em junho último, por fim, a Corte estabeleceu que os prisioneiros estavam sob a jurisdição da Constituição dos EUA e que, portanto, tinham direito a proteções.

As premissas legais de Rumsfeld estavam erradas e, portanto, muito do que ocorreu em Guantánamo – por não ter seguido de acordo com a lei – pode prejudicar a condenação de gente culpada em tribunal. Mas quem são, afinal, os prisioneiros de Guantánamo?

Pouco mais de 780 homens e rapazes passaram por Gitmo. A maioria não foi presa em batalha no momento em que ameaçavam soldados norte-americanos. A maioria foi entregue aos agentes dos EUA por afegãos e paquistaneses em troca de uma recompensa. Quem era árabe e podia ser acusado de agente da al-Qaeda naqueles meses passou maus bocados nas montanhas afegãs. Não eram os ‘piores dente os piores’. Foi o próprio governo Bush que liberou, nos últimos anos, pelo menos 510 destes, enviando-os de volta para seus países.

Que se destaque: é segundo o próprio governo Bush que menos de 20% dos detentos tiveram qualquer relação com a al-Qaeda.

Dos atuais prisioneiros, 60 já são homens libertos e estão no processo de serem devolvidos para seus países de origem. Vinte são acusados de crimes de guerra e serão processados. Algo entre 60 e 80 talvez venham a ser processados. E 120 homens estão no vácuo legal: não há qualquer tipo de prova contra eles mas são, dizem os militares, perigosos.

Houve tortura em Guantánamo e este também é um problema técnico. A tortura foi de obrigar homens a vestirem roupas íntimas de mulher para desfilar, danificar edições do Corão perante religiosos, restrição de sono, afogamento simulado e o mais duro espancamento. As acusações, não de todo negadas, são de grupos como a Cruz Vermelha Internacional e a Human Rights Watch.

Provas angariadas sob tortura são inadmissíveis perante um tribunal. Então, para conseguir condenar homens que muito provavelmente são culpados, os procuradores terão de encontrar rastros de depoimentos conseguidos sem tortura. Alguns juristas argumentam que, dadas as características ilegais da prisão, qualquer prova angariada lá deve ser recusada em tribunal. O sistema Rumsfeld provavelmente garantiu a gente culpada sua liberdade.

O mais impressionante revelado por Guantánamo não é, na verdade, o desprezo pela instituição da Justiça, que está na base da democracia. O governo Bush tratou leis e direitos como uma atrapalhação em muitos outros casos. Também não se pode acusar ninguém de hipocrisia. Eles foram ao Congresso pedir permissão para tortura por afogamento simulado.

O mais impressionante é que, de 780 homens e rapazes, o governo só está convicto de que consegue condenar 20. Um deles, Khalid Sheikh Mohammad, confessou ter idealizado o ataque de Onze de Setembro. É difícil dizer em que nível hierárquico estava na al-Qaeda. O segundo homem mais importante é o motorista de Osama bin-Laden. Um terceiro talvez seja um homem que tentou entrar nos EUA e poderia vir a ser um dos seqüestradores de aviões. Mas sua entrada foi impedida na imigração. O resto é quase tudo soldado raso. É para isto que o governo norte-americano produziu uma prisão na qual o Estado de Direito não valeria: não prendeu quase ninguém importante.

Resolver legalmente todas as pendências de cada um dos 270 prisioneiros vai demorar tempo. Os EUA sabem que, se devolverem alguns destes homens a seus países de origem, eles serão presos, torturados, provavelmente mortos. Legalmente, se há indícios de que isto possa acontecer, os EUA são obrigados a encontrar um país que ofereça asilo ou oferecer asilo por conta própria.

Este é o problema de Barack Obama. A maioria dos prisioneiros é inocente mas muitos não podem voltar para casa. Alguns são culpados, mas as provas angariadas pela máquina Rumsfeld são ilegais, sugere a Suprema Corte.

A Guerra ao Terror, argumentam os mais conservadores, é uma guerra pela defesa da Civilização ocidental contra a barbárie fundamentalista. Talvez. A Civilização ocidental é o Estado de Direito. Guantánamo aberta não era solução. Era só um constante postergar do sério problema que Guantánamo aberta criou.

Pervez Musharraf conta sua visão de mundo

17/January/2009 - 16h26 - 19 Comentarios

O general de reserva e ex-ditador paquistanês Pervez Musharraf deu uma conferência aqui em Stanford, ontem. Ele falou por aproximadamente uma hora sobre como vê o problema do terrorismo e ofereceu sua receita ‘holística’ para tratá-lo. Aí, abriu para o público. Os estudantes e professores de Stanford perguntaram-lhe a respeito da segurança das armas nucleares paquistanesas, cobraram-lhe a respeito da ditadura – às vezes, exaltados. Alguns estudantes indianos ensaiaram um protesto. Musharraf não piscou um segundo. Foi irônico, charmoso, em alguns momentos fez cara de sincero. Sempre tinha uma resposta com aparência de ponderada. É um político nato.

Gravei a conferência em áudio – está online para quem quiser ouvir. Mas aqui vai um resumo do mundo visto pelos olhos de Pervez Musharraf.

Extremismo e terrorismo

É preciso distinguir entre extremistas e terroristas. São parecidos mas distintos. Nem todo extremista é terrorista. A maioria não é. Os extremistas têm que ser transformados. Os terroristas devem ser presos. Mas não há consenso internacional a respeito de quem é terrorista: o terrorista de um é aquele que luta pela liberdade de outro. Até hoje, temos enfocado o problema com táticas de combate no curto prazo. A solução, no entanto, só virá a longo prazo, com outro tipo de esforço.

Terroristas enquanto folhas

Os terroristas são como as folhas de uma árvore. As organizações terroristas são como os galhos. Não adianta podar folhas ou cortar galhos porque nascem outros. É preciso atacar a raiz da árvore. As raízes, na Ásia Central e no Oriente Médio, são três. A primeira é analfabetismo. A maioria dos extremistas e terroristas são pessoas iletradas que compram qualquer discurso que aponte um culpado externo para seus problemas. A segunda causa é a pobreza, e pobreza e analfabetismo caminham juntos na região. Pobreza e analfabetismo confirmam a impressão de que há uma profunda injustiça, que tudo lhes é negado.

Mas os perpetradores do Onze de Setembro e das bombas de Londres não eram nem analfabetos, nem pobres. E aí entra a terceira causa: política. Há questões políticas que não foram resolvidas e que devem ser endereçadas. Principalmente Caxemira e Palestina. O que está acontecendo em Gaza, agora, apenas reforça a sensação de impotência e injustiça na rua islâmica, alimentando ainda mais o extremismo que, por sua vez, é explorado por organizações terroristas.

Alguns sugerem que há uma diferença fundamental no sistema de valores do Islã e do Ocidente. Não é verdade. O IRA, na Irlanda, não era diferente. Uma solução apenas militar para o problema do terrorismo fracassará.

A história da al-Qaeda

Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. Nesse momento, os EUA quiseram que nós, no Paquistão, organizássemos a resistência. Vocês americanos quiseram que nós lutássemos a jihad. Então, entre 1979 e 1989, treinamos e armamos os mujahedins, estrangeiros que vinham de todo o mundo islâmico, para lutarem no Afeganistão.

O Afeganistão tinha sua estabilidade. Havia um pacto entre todas as etnias, todos os clãs, para dar apoio ao rei. Os dez anos da invasão soviética desmontaram toda a estrutura que existia há tanto tempo. A elite do Afeganistão abandonou o país a sua própria sorte, mudaram-se para o exterior. Aí, em 1989, caiu o muro de Berlim, os soviéticos deixaram o Afeganistão desmontado e terminou a Guerra Fria. O fim da Guerra Fria deixou dividendos. Eles foram todos para a Europa. Países receberam investimentos, puderam se reestruturar.

O que Afeganistão e Paquistão, que lutaram contra a União Soviética por dez anos, ganharam? Nada. Fomos esquecidos por todos. ‘Agora é com vocês’, eles nos disseram.

E onde estavam os mujahedins que vieram lutar contra os soviéticos? Continuaram no mesmo lugar. Mudaram apenas seu foco: de contra os comunistas, viraram-se contra os EUA. Formaram a al-Qaeda. Após a tomada de poder do Talibã, no Afeganistão, 4 milhões de refugiados se bandearam para o Paquistão. O problema continuava sendo apenas nosso. A estrutura social que sustentava o Afeganistão havia sido arruinada pelos soviéticos e de quem era o problema? Do Paquistão. Então, em 1999, os mesmos radicais começaram a se estruturar na Caxemira, na Índia. E o Paquistão continua tendo que lidar com a situação toda.

Só quando aconteceu o Onze de Setembro é que o mundo decidiu prestar atenção no que estava ocorrendo. Ainda assim, os Estados Unidos já investiram 1 trilhão de dólares no Iraque. Quanto investiram no Paquistão desde então? 10 bilhões. O problema continua lá e tem o mesmo tamanho.

A. Q. Khan

A. Q. Khan, o pai da bomba paquistanesa, que vendeu seus segredos para a Coréia do Norte e Irã, está em prisão domiciliar. Não creio que tenha sido extremismo que o moveu. Ele não teria tido contato com os norte-coreanos, caso tivesse sido isso. Foi ganância. Não permitimos que fale com investigadores de outras nações porque, para nós, a questão é sensível. Há segredos envolvidos e ele é um homem muito popular nas ruas do Paquistão. Os EUA também têm sob sua custódia homens que venderam segredos nucleares para nações estrangeiras. Alguma vez os EUA cogitaram permitir que investigadores de outros países os interrogassem? Claro que não. Funciona da mesma maneira.

Relações com a Índia

Se houver provas de que paquistaneses estiveram envolvidos nos ataques a Mumbai, é evidente que devem ser punidos. Mas não culpe o governo por isso. A comunidade internacional não está contribuindo, como deveria, para abrandar as tensões na região da Caxemira. Algumas nações fazem uma campanha contra a ISI, serviço secreto paquistanês. A ISI funciona sob ordens do governo e de ninguém mais. Sua função é garantir a integridade do Paquistão. Suas técnicas são as mesmas técnicas de qualquer serviço secreto. O serviço secreto da Índia faz o mesmo mas ninguém lhes cobra mudança. A Índia é um grande país. É um país poderoso. Todos os países na região sabem disso – ninguém tem dúvidas. E a Índia pressiona. O que a Índia tem que compreender é que não pode sair por aí pressionando os menores. O Paquistão também é um grande país.

‘Erramos’ 2: sobre o urdu

04/December/2008 - 17h28 - 6 Comentarios

Ainda na fase de correções – hoje é um dia ‘erramos’ no Weblog – classifiquei o urdu, num post recente, como um dialeto do hindi.

Embora exista uma polêmica, parece mais correto dizer que são línguas próximas, como o português e o francês, do que dialetos uma da outra.

Como o hindi, o urdu é derivado do sânscrito – a língua do período clássico no subcontinente indiano. Diferentemente do hindi, o urdu também tem uma forte influência do persa, e alguma do árabe e do turco. O hindi é escrito com o alfabeto Nagari, de Índia e Nepal; o urdu é escrito com o alfabeto perso-arábico, mais próximo dos alfabetos árabe e hebraico.

(Este não é um fenômeno incomum: embora bastante próximas como línguas, polonês se escreve com o alfabeto bastante próximo do latino e russo com o cirílico.)

Jornal da Índia revela os bastidores
do cerco terrorista a Mumbai

02/December/2008 - 06h19 - 22 Comentarios

O jornal indiano The Hindu conseguiu, com uma fonte na polícia de Mumbai, os primeiros detalhes exclusivos do depoimento de Mohammad Ajmal Amir Iman, o único dos terroristas preso:

Mohammad Ajmal Amir Iman começou sua viagem para Mumbai em 15 de setembro de 2008. Ele fazia parte de um grupo de dez homens que passaram meses treinando combate marítimo e técnicas de navegação na região da Caxemira e do Punjab administrada pelo Paquistão.

O comandante do Lashkar Zaki-ur-Rahman Lakhvi, disse Iman à polícia, apresentou ao grupo mapas detalhados do sul de Mumbai, além de filmes dos alvos selecionados. Iman e seu companheiro Abu Umar – cujo nome real, ele descobriu, era Mohammad Ismail – tinham por missão atacar a estação de trem Chhatrapati Shivaji.

Iman e os outros terroristas deviam partir para Mumbai em 27 de setembro. Por motivos que ele diz desconhecer, receberam ordens de esperar. Apenas em 22 de novembro, Lakhvi deu ordens para que seguissem. Às 4h15 do dia 23, Iman e Ismail lançaram-se ao mar com quatro outros grupos: homens que Iman conheceu por Abu Akasha e Abu Umar; ‘Bada’ Abdul Rehman e Abu Ali; ‘Chhota’ Abdul Rehman e Afadullah; Shoaib e Umar. [Bada quer dizer grande e chhota, pequeno; os apelidos são em um dos dialetos do hindi, falados no centro-norte indiano e no sul do Paquistão.]

Cada homem estava equipado com um rifle Kalashnikov, 200 balas e granadas. Eles também tinham um GPS e vários telefones celulares que, agora se sabe, foram comprados em Calcutá e Nova Delhi. Três deles tinham bolsas maiores, com explosivos ligados a timers.

Próximos à costa da Índia, os homens capturaram um barco pesqueiro. Chegando a Mumbai, remaram a última milha náutica em um bote inflável. Do Parque Budhwar, pegaram táxis em direção a seus alvos. Iman e Ismail chegaram à estação como planejado e abriram fogo contra os passageiros. Ismail foi morto por um policial, Iman foi ferido e encontra-se em um hospital da cidade. [...]

Iman disse à polícia que, durante a luta, o quartel-general do Lashkar manteve contato com o grupo, ligando para seus telefones utilizando um sistema de voz pela Internet. Os investigadores indianos chegaram a interceptar estas ligações, o que confirma a história contada por Iman. Além disto, fontes na polícia de Mumbai informam que já conseguiram reconstruir a trajetória do grupo utilizando o GPS Garmin que recuperaram.

O Lashkar-e-Taiba é o grupo terrorista treinado e financiado pela ISI, serviço secreto do Paquistão, e que atua na luta para separar a Caxemira da Índia. Falam urdu – um dialeto hindi. Zaki-ur-Rahman Lakhvi é o número dois do grupo. Já em 1999, ele mesmo prometia levar sua guerra da fronteira entre Índia e Paquistão para o interior do país.

O depoimento é importante porque confirma a história: não se trata de um processo de terrorismo internacional. É, isto sim, a antiga e sangrenta briga entre Índia e Paquistão pela posse da Caxemira.

Iman é paquistanês, foi criado no Punjab, província na fronteira com a Índia, acima da Caxemira. É um garoto pobre, expulso de casa pelo pai, quarta série primária completa que abandonado no início da adolescência descobriu abrigo com o Lashkar. Aí, umas boas doses de nacionalismo do tipo ‘a Caxemira é nossa’ misturado com radicalismo islâmico completaram o serviço. Completou 21 anos em julho último.

O que não está claro, ainda, é qual era o objetivo político do Lashkar. Amedrontar a população pode fazer sentido tático – mas, neste caso, deveriam assinar com o próprio nome, não com um ‘Deccan Mujahedin’. Os seqüestradores chegaram a pedir a libertação de prisioneiros – o que faria sentido. Mas jamais foram insistentes nisto. Pareciam dispostos ao suicídio. Talvez queiram mobilizar a população islâmica na Índia. Mas os muçulmanos da Índia não parecem querer morar no Paquistão.

Os comentaristas indianos concordam que eles procuraram atacar a Índia em seus pontos de orgulho: aqueles lugares, em Mumbai, onde a Índia é mais moderna e cosmopolita. Pelo menos 172 pessoas foram mortas. É verdade que, nos dois hotéis e no centro judaico, os terroristas buscaram estrangeiros em particular. Mas é importante lembrar que 141 dos mortos eram indianos. A Índia e indianos foram as principais vítimas, e o maior alvo. Mais que internacionalizar o ataque, o objetivo pareceu ser assustar homens de negócio. Grandes empresas continuarão na Índia. Pequenos empresários que cogitam estabelecer algum tipo de filial ali, no entanto, podem repensar seus planos. Nisto, pode ter sido um ataque eficiente.

Um ataque à Índia que pode ter conseqüências eleitorais sérias.

Eleições nacionais, na Índia, acontecerão em maio de 2009. O premiê Manmohan Singh é candidato a reeleição, mas Lal Krishna Advani, do BJP, tem fortes chances de compor maioria. Envolvido em escândalos de corrupção, suspeito de ter participado de um plano para assassinar o primeiro presidente paquistanês, foi o principal incentivador de um grupo hindu que, desobedecendo ordens da Suprema Corte, pôs abaixo a mesquita de Babri, em 1992. (Imagine 150.000 mil pessoas avançando contra um prédio; foi assim.)

Advani é um hindu da direita radical, anti-islâmico e anti-paquistanês até o último fio de cabelo.

É irônico. Um dos primeiros homens mortos pelos terroristas muçulmanos, na quarta-feira, foi o líder do Esquadrão Anti-Terrorista de Mumbai, Hermant Karkare. Advani o considerava um inimigo pessoal por conta de suas investigações a respeito do Terrorismo Hindu.

É fácil, hoje, ver a população muçulmana da Índia e classificá-la como pária, pobre, iletrada, propensa à violência. Até meados do século 19, no entanto, todo indiano islâmico era no mínimo alfabetizado e seu conjunto compunha uma vasta classe média. Até o início da década de 90, quando a violência do movimento nacionalista hindu eclodiu, muçulmanos e hindus moravam nas mesmas vizinhanças sem grandes conflitos. Também é difícil imaginar a população muçulmana da Índia cedendo ao apelo do Lashkar. Seus pais e avós tiveram a opção de se mudar para o Paquistão, um país muçulmano, no final dos anos 1940. Não quiseram. Sentem-se – e são – indianos.

Bom, também, é resistir à tentação de classificar todos os hindus como radicais à moda de Advani. Afinal, compõem 70% da população mas, como lembra o jornalista canadense Doug Saunders, seu premiê é Sikh, o presidente é muçulmano e a líder do partido do governo é católica. Elegeram um governo incrivelmente diverso.

Os radicais de ambos os lados estão lutando para criar uma armadilha que leve a Índia ao radicalismo. Mas aquele ainda é o país em que, no início de novembro – agora, agora – um grupo dos principais clérigos muçulmanos se juntou para declarar uma fatwa contra o terrorismo.

‘O Islã’, registrou o documento assinado por 6.000 líderes de mesquitas do país, ‘rejeita toda violência injusta, quebra de paz, derramamento de sangue, assassinato e saque e não permite nenhum destes atos. Cooperação entre homens deve servir à causa do bem comum e nunca à do pecado e opressão.’

Vários dos artigos citados no post são dica de Dionne Bunsha.

AtualizaçãoNo Estadão: Um cemitério islâmico se recusou a receber e sepultar os corpos de nove terroristas que fizeram parte do ataque a Mumbai na semana passada, que deixou mais de 170 pessoas mortas. De acordo com a influente associação islâmica Jama Masjid, que administra o cemitério de Badakabrastan, em Mumbai, os nove homens não são seguidores da verdadeira fé islâmica. “As pessoas que cometeram esse crime horrendo não podem ser chamadas de muçulmanas”, disse Hanif Nalkhande, um dos administradoras da associação. “O Islã não permite esse tipo de crime bárbaro”. dica do faraó

Cerco a Mumbai: Como medir a vitória do Terror

28/November/2008 - 01h07 - 68 Comentarios

Li os comentários com atenção. Alguns questionam a existência de um terrorismo hindu. Talvez por cinismo, talvez por apenas buscar a informação que confirma seus próprios preconceitos e nenhuma outra, repetem uma discussão que se dá na Índia. O ódio religioso é intenso, no norte do país. Terrorismo hindu é uma expressão cunhada pela imprensa de língua inglesa de Mumbai e agressivamente criticada pela elite política hindu. Dizem que não existe. A página a respeito do terrorismo hindu foi apagada quatro vezes da Wikipedia. Não custa lembrar que não há maniqueísmo, aqui: a imprensa de língua inglesa da Índia é composta, em geral, por jornalistas hindus.

Mas vale a pena ler, nos comentários do post abaixo, aqueles escritos pelo leitor SK. Ele entende do que fala, é de origem indiana e discorda da leitura que faço aqui em alguns pontos.

A violência contra a comunidade muçulmana na Índia não é pequena e vem de décadas. Em 2002, no estado Gujarat, 790 muçulmanos foram mortos, assim como 254 hindus, em confrontos após o incêndio do trem Godhra. O governo afirma que o trem foi atacado por muçulmanos, a afirmação é contestada. Difícil afirmar o que houve. Mas o resultado daqueles confrontos ainda está evidente, nos campos de refugiados a céu aberto do estado. Os muçulmanos expulsos de suas casas então até hoje vivem em tendas. Conheço o assunto bem graças a uma companheira de Knight Fellowship em Stanford, a jornalista Dionne Bunsha, ela própria hindu de Mumbai, repórter premiada, com mestrado pela London School of Economics e, à época, a serviço da principal revista semanal indiana, Frontline. Dionne é autora do livro Scarred, que denuncia os constantes maus-tratos e a insegurança continuada imposta aos indianos muçulmanos no estado.

Não custa lembrar: até a quarta-feira, o Esquadrão Anti-Terrorismo da polícia de Mumbai havia tido mais trabalho investigando ataques contra muçulmanos do que impetrados por eles. Do último ataque, em setembro, prenderam entre outros uma sacerdotisa hindu e acusaram o exército local de ter fornecido treinamento para os atacantes.

Reitero que os partidos nacionais indianos são fracos e que evitam enfrentar a política hindu local, que acoberta a violência. Dionne não é minha única fonte, aqui. A mesma descrição é feita por Fareed Zakaria em seu livro mais recente, O Mundo Pós-Americano. Zakaria, indiano, PhD por Harvard, foi diretor de redação da mais conceituada revista de relações internacionais – a Foreign Affairs – antes de assumir a editoria de internacional da Newsweek e um programa semanal na CNN. O livro já tem edição brasileira – e é excelente.

Mas é evidente que o cerco a Mumbai, imposto por terroristas muçulmanos, internacionalizou o conflito. Repetindo o que já estava no post abaixo, adotaram táticas da al-Qaeda, buscando conquistar atenção da imprensa estrangeira e querendo vincular a briga interna, na Índia, com o conflito internacional que se dá no Oriente Médio. Não é claro, ainda, se os terroristas têm relação com o conflito na Caxemira, ou se o enfoque é apenas nacional.

No momento em que escrevo este post, a polícia indiana entrou nos dois hotéis e preparava uma ofensiva contra a sinagoga. Já são 119 mortos em dois dias de cerco.

A questão, agora, é tratar das conseqüências do ataque. Os terroristas tinham objetivos políticos – eles sempre têm. Diferentemente do que ocorre em vários países do Oriente Médio ou mesmo no Paquistão vizinho, os muçulmanos da Índia não se radicalizaram. Com exceção da Caxemira, que vive um ambiente próximo ao de uma guerra civil constante, não existem gritos por jihad ou fatwas soltas a torto e a direito pedindo a morte de inimigos. Um dos objetivos dos terroristas de hoje é certamente acirrar o conflito entre muçulmanos e hindus e, se possível, envolvê-los na jihad global abrindo mais uma frente de batalha.

Não custa lembrar que a jihad global recruta menos e menos jovens no árabe.

Há outro objetivo que pode estar entre as intenções dos Deccan Mujahedin: recentemente, a Índia se aproximou ainda mais dos EUA, com a assinatura de um acordo nuclear. Parte do processo de sedução do país vem da tentativa de pôr panos quentes nas relações da Índia com o Paquistão. Para que seja possível controlar o Talibã, na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, é preciso antes de um governo paquistanês estável. Para tal governo existir, idealmente as relações entre Paquistão e Índia devem estar nos melhores termos possíveis. E vinham melhorando a olhos vistos. Quando o premiê indiano Manmohan Singh aludiu a pressões vindas do exterior, hoje, ele falava do Paquistão e dois passos foram dados para trás. Sem controlar o Talibã, ninguém controla a al-Qaeda, Osama bin-Laden continua solto e as possibilidades do terrorismo egípcio-saudita permanecem abertas. O mundo é um só e todos estamos conectados uns aos outros.

Assim se medirá o sucesso dos terroristas: se os muçulmanos da Índia se radicalizarem e as relações entre Índia e Paquistão desandarem de forma séria.

É só quando o cerco terminar e ficar claro quem são os Deccan Mujahedin que começaremos a ter melhores informações sobre quais interesses realmente representam. Dá para sentir no hálito de alguns dos companheiros leitores, aí no post abaixo, a sede de mais sangue em troca do sangue derramado nos últimos dias, em Mumbai. O anti-islamismo radical e os terroristas islâmicos, ironicamente, têm o mesmo objetivo.

Cerco a Mumbai: Conflito interno da Índia?

27/November/2008 - 15h59 - 32 Comentarios

Uma atualização, posto que a informação vinda de Mumbai ainda é pouca. Ainda há reféns tanto no Taj Mahal Palace & Tower quanto no Hotel Oberoi. Também há reféns na sinagoga do grupo Chabad Lubavitch, a principal comunidade de judeus ortodoxos da cidade. É noite na Índia, os ataques já duram mais de vinte e quatro horas, e reféns vem sendo soltos paulatinamente. Parece tratar-se de tática: há muita gente nos hotéis. Manter um grupo pequeno mas importante de reféns pode ser a melhor maneira de gerenciar a situação por até dias.

Os terroristas do Deccan Mujahedin ainda não foram identificados. Um grupo com este nome, informa a revista britânica The Economist, já havia se manifestado uma vez anteriormente. Em setembro, assinaram um email às agências de notícias indianas informando que ‘nós estamos mantendo o olho em vocês e apenas esperamos o momento certo para o banho de sangue’, escreveram. ‘Alertem a todos de Mumbai que qualquer ataque sangrento que sofram no futuro terá sido responsabilidade da polícia de Mumbai e de seus líderes.’

Os atacantes, segundo testemunhas, falam hindi e têm uma tez mais clara, indicando serem ou indianos do norte ou paquistaneses do sul. Alguns especulam ligações com o grupo terrorista Lashkar-e-Toiba, que opera na região indiana da Caxemira. A Caxemira, na qual a maior parte da população é muçulmana, é disputada por Paquistão e Índia. Segundo o governo da Índia, o Lashkar-e-Toiba é financiado e treinado pelo ISI, serviço secreto paquistanês. Em seu discurso à nação, o premiê indiano Manmohan Singh declarou que os ataques têm influência estrangeira.

Não é necessariamente verdade mas é certamente possível. O que parece bastante seguro afirmar é que não se trata de um ataque da al-Qaeda. É um ataque extremamente bem organizado, mas de baixa tecnologia. São guerrilheiros com armas de guerrilheiros. Terrorismo hindu (ou terrorismo de açafrão, como é apelidado no país) e terrorismo islâmico fazem parte da história corrente do país. A diferença, e aí entra inspiração da al-Qaeda, é que desta vez escolheram vítimas diferentes: principalmente norte-americanos, britânicos e a comunidade judaica local. Parece ser uma busca por ligar os ataques ao terrorismo internacional e chamar a atenção do mundo inteiro para o conflito interno de seu país.

Neste quesito, certamente tiveram sucesso.

A carta dos Deccan Mujahedin liga o ataque em progresso à cidade de Mumbai e à sua região. Portanto, pode haver um elo aí com os diversos ataques que a comunidade muçulmana vem sofrendo nos últimos anos impetrados pelo terrorismo de açafrão. Na Índia, o poder político é mais estadual do que nacional. Não há grandes partidos nacionais. Nova Delhi é acusada de complacência com o terrorismo hindu porque ele é visto com simpatia pela população de algumas regiões ao norte e isto poderia comprometer seu sucesso eleitoral ou a produção de coalizões que sustentem o gabinete do primeiro-ministro. De qualquer primeiro-ministro.

Mas uma ligação com o conflito na Caxemira e, portanto, indiretamente, com o governo paquistanês não pode ser ignorada. Não custa lembrar que a ISI – que auxiliou o Talibã no Afeganistão e certamente incentiva os levantes muçulmanos na Caxemira – não é totalmente controlada pelo presidente paquistanês. Funciona, muitas vezes, por conta própria.

O mundo todo está de olho em Mumbai, hoje – e este é o primeiro sucesso deste ataque terrorista. Mas o conflito que ele representa é interno, talvez no máximo da Ásia Central.

Cerco a Mumbai: Direto da Índia

27/November/2008 - 14h41 - 1 Comentarios

O leitor Ricardo, que mora na Índia, está respondendo várias dúvidas na caixa de comentários abaixo.

Índia: Mumbai cercada

27/November/2008 - 04h40 - 62 Comentarios

O grupo que assumiu o ataque terrorista generalizado a Mumbai, Índia, atende pelo nome Deccan Mujahedin. Ninguém os conhece. Deccan remete a um planalto no sul do país, onde não há muitos muçulmanos. Mas é um grupo muçulmano – mujahedin é a palavra árabe para guerreiro.

No momento em que este post foi escrito, a polícia indiana falava de 100 mortos, a maioria dos reféns soltos mas alguns – número indefinido – ainda sob o controle dos terroristas.

Ricardo, um dos leitores do Weblog, escreveu um artigo sobre o cotidiano na Índia para a seção O Mundo Segundo os Leitores.

Os primeiros sinais de que algo ia mal se deram na noite de quarta, no restaurante do imponente Taj Mahal Palace & Tower, um dos mais luxuosos hotéis do mundo. Jovens vestidos de jeans e camisetas, com AK-47s às mãos, entraram no salão chamando por todos os cidadãos norte-americanos e britânicos. O diário Haaretz de Israel informa que também buscavam israelsenses. Fizeram reféns. Ataques simultâneos aconteceram também no Hotel Oberoi, no Leopold Café, no mercado da cidade e na principal estação de trens. A maioria dos locais são freqüentados principalmente por estrangeiros. Mas isto não é verdade para a estação e para o mercado. Entre os mortos estão indianos pobres.

Mumbai tem um Esquadrão Anti-Terrorista, organizado por causa do terrorismo hindu, que é conhecido pela sua eficiência. É uma tropa de elite com 35 homens. Onze deles morreram, ontem à noite, entre eles seu comandante, Hemant Karkare.

Mumbai (antiga Bombaim) fica no noroeste do país e é a capital do maior estado, Maharashtra, que tem mais de 17 milhões de habitantes. Oitenta por cento dos indianos são hindus, mas quase 14% são muçulmanos – a maior das minorias, bem maior do que o número de cristãos, sikhs e budistas somados. Em Mumbai, onde uma das línguas mais faladas ainda é o inglês com o típico sotaque indiano, muçulmanos também representam 14% da população.

Em 29 de setembro último, sete pessoas morreram e mais de cem ficaram feridas quando um grupo terrorista hindu atacou o bairro muçulmano de Malegaon, não longe de Mumbai. Até este ataque, era o terrorismo hindu contra muçulmanos que vinha numa crescente, no país. A discussão a seu respeito vinha mexendo com a imprensa do país. O governo tem consciência de que ser muçulmano na Índia, hoje, quer dizer estar preocupado com a própria segurança. Há opressão e tensão étnica no norte do país.

É neste contexto que estes misteriosos Deccan Mujahedin aparecem. Foram buscar britânicos, norte-americanos e israelenses, tornando a crise internacional. Foi certamente um ataque planejado e caro.

Um blog para ficar de olho nos próximos dias: Indian Muslims.

Índia Nuclear a um passo da legalidade

26/September/2008 - 03h35 - 35 Comentarios

O mundo está caindo em Washington por causa da economia, então muitos talvez não tenham percebido a chagada do premiê indiano Manmohan Singh. Ele está lá para assinar um acordo delicado que ainda precisa ser aceito pelo Congresso dos EUA. (Isto, enquanto debatem o pacote econômico, Câmara e Senado ainda têm um acordo de cooperação internacional com o qual lidar.) A questão é que não é qualquer acordo de cooperação internacional.

É um acordo nuclear.

A Índia testou sua Bomba em maio de 1974. Hoje, ninguém sabe quantas ogivas tem – números rápidos pescados da Wikipédia variam de 50 a 250. É muito. Não à toa, o país não é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (NPT). Segundo o texto, apenas EUA, Reino Unido, França, China e Rússia podem tê-las. Os outros signatários têm o direito de participar do comércio internacional de equipamento nuclear mas prometem não produzir armas.

É isto que está para mudar.

Segundo o acordo que Bush e Singh provavelmente assinarão, já aceito por outras 40 nações, a Índia voltará ao mercado internacional. O objetivo é comprar e vender equipamento nuclear para uso civil. Mas ninguém garante que não será desviado para armamento. O fato de ter armas nucleares ilegalmente era um dos grandes obstáculos da entrada da Índia no Conselho de Segurança da ONU. Isto cai. (Ela é uma das adversárias do pleito brasileiro.)

Há um bocado de oposição à idéia, mas o acordo é considerado praticamente fechado. O clube dos países que têm o direito de ter armas nucleares, surpreendentemente, está para ganhar um sexto membro – o primeiro fora do Conselho de Segurança.