Os 10 países mais perigosos do mundo

10/08/2009 - 10h14 - 323 Comentários

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Alvaro Uribe, Hugo Chávez e os EUA na Amazônia

7/08/2009 - 09h14 - 140 Comentários

O presidente colombiano Alvaro Uribe saiu em tour pela América do Sul para colher apoio a seu plano para permitir ao exército norte-americano o uso de sete bases em seu país. O presidente Lula diz que se elas se limitarem ao combate ao narcotráfico em território colombiano, trata-se de questão interna da Colômbia. O Brasil quer explicações, mas a princípio não criou problemas. Uruguai, Paraguai, Chile e Peru seguiram na mesma toada. Argentina, Bolívia, Equador e – que surpresa – a Venezuela receberam a notícia com sobressaltos.

A Colômbia diz ter provas documentais de que a Venezuela continua a armar as Farc. Chávez ameaça cessar as relações comerciais entre os dois países e, dada a balança comercial, o impacto sobre a Colômbia não é irrelevante. Quer comprar também mais tanques russos. Sugeriu que as relações mais estreitas de Colômbia e EUA podem marcar o ‘início de uma guerra’ na América do Sul. (Alguém leva Hugo Chávez a sério?)

O blog da boa revista Foreign Policy sugere que Chávez se aproveita de uma boa desculpa política para armar seu exército. Que ele tem ambições de aumentar a influência externa da Venezuela, não há dúvidas. É só o que faz. Como os tanques não cruzarão a mata densa em direção à Colômbia, há sempre uma outra possibilidade, sugere um comentarista do blog: os tanques são para uso interno, mesmo. Vai que a popularidade cai e é controlar manifestações nas ruas.

Excêntrica política venezuelana à parte, o plano de Uribe é realmente complicado. Ele não apenas cede a soberania de seu país ao estilo saudita, como cria desconforto em toda região. Não custa evitar histeria com o futuro da Amazônia. Tampouco custa lembrar que ela é de fato difícil de gerenciar. Quem garante que o exército dos EUA não irá tratar com desleixo as fronteiras?

Quem tem medo de Internet?

10/07/2009 - 02h10 - 92 Comentários

internet

É certamente injusto sugerir que Hugo Chávez busca conter a Internet como Raúl Castro e Mahmoud Ahmadinejad. Mas as imagens no blog de Lia Caldas são divertidas ainda assim.

Ahmadinejad de terno branco qual ditador cucaracho é imbatível.

Honduras e o que ela muda no jogo de poder das Américas

7/07/2009 - 14h01 - 92 Comentários

O fotógrafo James Rodriguez, em seu blog, apresenta cenas dos protestos contra o Golpe em Honduras.

O complemento vem por conta de Alon Feuerwerker:

A situação pode mudar rapidamente, dada a precariedade do equilíbrio. A estratégia agora dos partidários de Zelaya é aprofundar o isolamento internacional do país, inclusive com mecanismos de bloqueio econômico. Contra Cuba o recurso não tem funcionado. Só que Honduras não é Cuba. Vamos aguardar.

Merece registro que os aliados continentais de Havana, inclusive o Brasil, peçam aos Estados Unidos pelo isolamento de Honduras. É a legitimação do papel hegemônico de Washington, contra o qual a esquerda latino-americana se batia, quando interessava. O demonizado George W. Bush deve estar sorrindo no Texas, enquanto Barack Obama, a pedido inclusive de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, faz uma faxina na biografia do antecessor.

Outro subproduto da inédita unidade continental em torno de Zelaya é a criação de um ambiente mais confortável para o Senado brasileiro votar a adesão da Venezuela ao Mercosul.

Sobre Honduras, sobre golpes

30/06/2009 - 17h56 - 165 Comentários

Entendo os argumentos de quem diz que não houve golpe de Estado em Honduras. Não sou jurista, não conheço a carta constitucional hondurenha inteira, não me arrisco a interpretar um trecho da Constituição. E não tenho qualquer simpatia pelo chavismo.

Mas quebra da normalidade democrática na minha cartilha é golpe.

Faço um desafio: me citem um único caso na história democrática de uma deposição como esta. Precisa ter os seguintes detalhes:

1. O chefe do Executivo tem que ter sido deposto legalmente pelas Forças Armadas.
2. Tem que ter sido imediatamente exilado do país.
3. Após sua deposição tem que ter sido imposta censura total da imprensa.

Em que democracia algo assim aconteceu? Duvido que encontrem uma. Nenhum dos três procedimentos é democrático.

No caso de impedimento pelo Congresso, é o presidente do Congresso que informa o presidente do término de seu mandato. No caso de cassação judicial, há que ser alguém da Justiça. Lugar de exército é na caserna.

E se Chávez invadir o Brasil?

23/05/2009 - 00h01 - 206 Comentários

Os comentários do post Desentendem-se, Rússia e Venezuela, andam melhores do que o próprio post.

Trechos de apenas um, do Elias:

O Brasil tem vizinhos instáveis ao norte, mas tem se recusado em adotar políticas dissuasórias.

Toda a estratégia militar brasileira, ao longo de décadas, foi voltada para o cone sul.

A origem disso, evidentemente, foi a conduta nem sempre decente da Argentina e do Paraguai em relação ao Brasil, no século XIX.

Até hoje, no Brasil, tem muita gente que, honestamente, acredita que, na Guerra do Paraguai, este teria sido a vítima.

Tem até um livro piradão — mas que muita gente boa aceita com análise de primeira — que afirma, categoricamente, que, naquela guerra, o Brasil esmagou o Paraguai para servir aos interesses ingleses.

Que interesses ingleses seriam esses contrariados pelo Paraguai?

A Inglaterra, àquela época, queria mercado para seus produtos industriais. O Paraguai não contava nem como mercado (sua população era nanica, pobre e analfabeta), nem como concorrente (o Paraguai não fabricava nem lâmpada queimada).

A tese dos “interesses ingleses contrariados pelo Paraguai” merece tanto crédito quanto a notícia de uma tempestade de neve no Raso da Catarina.

Mas o fato é que houve a guerra contra o Paraguai, poucos anos depois da guerra contra a Argentina (que a Argentina diz que venceu e o Brasil diz que não perdeu).

Mais tarde, Perón, o alcoviteiro de criminosos nazistas, chegou a elaborar um plano pra garfar um pedaço do sul do Brasil. O plano — que teria apoio da Alemanha nazista — é risível, mas existiu.

Acho que esses troços todos criaram uma nóia que grudou feito visgo no pensamento estratégico do Brasil.

Até hoje, o Brasil encara a Calha Norte como algo secundário. Não no discurso, evidentemente, mas na prática.

Basta pintar um ditador abilolado nos países aí de cima, pra causar uma confusão enorme.

Claro que, se isso acontecer, no fim a gente vence. Mas, não seria melhor nem começar?

Não me refiro ao Chavez, obviamente. Ele não ameaça o Brasil nem militarmente nem politicamente.

Aliás, nem chega a fazer sombra ao Lula, na disputa por uma suposta liderança na América do Sul.

Agora mesmo, Lula foi à China e costurou uma série de acordos comerciais para o Mercosul, beneficiando a exportação de vários países (não só o Brasil), num momento em que eles estão desesperados para exportar.

Não pára por aí: Bitt, Pablo Vilarnovo, Jorge, André, Brancaleone, Namber Uam e outros discutem as raízes da industrialização brasileira, o projeto militar para o País, as fronteiras nacionais numa discussão que ainda vai longe.

Desetendem-se, Rússia e Venezuela

21/05/2009 - 07h27 - 90 Comentários

Desde 2006, Rússia e Venezuela vêm num contínuo flerte militar. O governo Hugo Chávez comprou aviões Sukhoi e helicópteros Mi num valor que pode chegar a 5.4 bilhões de dólares. O próximo passo era a aquisição, este ano, de seis submarinos Kilo.

Era.

As naves estão chegando no Vietnã, a Venezuela cancelou sua compra.

A especulação que corre na web é que, quando fez uma operação amistosa na costa venezuelana, ano passado, a marinha russa comprou briga com guarda-costas de Hugo Chávez. Ao menos houve briga – briga mesmo, punhos cerrados – entre alguns marinheiros e os homens encarregados de proteger o presidente, quando Chávez tentava subir a bordo do cruzador Pedro, o Grande.

Irritado, Chávez teria interrompido o contrato.

Parece que a briga houve de fato. Se ela virou incidente comercial é outra história. Outra versão que corre: o governo George W. Bush acabou, o presidente bolivariano não vê mais a necessidade de irritar os EUA.

Versão mais provável? No blog da revista American Prospect, lembram o óbvio. O petróleo está em baixa. Chávez está contando os centavos já não tão fartos.

Chávez traz Eduardo Galeano de volta à moda
(Ainda que seja só por alguns dias)

20/04/2009 - 12h06 - 77 Comentários

Hugo Chávez deu de presente a Barack Obama um exemplar de As veias abertas da América Latina, best-seller antigo de Eduardo Galeano, já meio surrado pelo tempo mas ainda popular entre alguns da esquerda.

Resultado: neste exato momento, Eduardo Galeano foi alçado a número 2 na lista de best-sellers da Amazon.

via Foreign Policy

Atualização – O Alex Castro escreveu sobre o mesmo assunto em seu blog. Também lá os comentários instigam polêmica. Concordo com o Alex: As Veias Abertas é um livro ingênuo que trata latino-americanos como meras vítimas. O mundo, principalmente após o processo de globalização, é muito mais complexo do que isso e nós, latino-americanos, somos maiores do que sua visão paternalista faz parecer.

Avanço chinês sobre a América Latina

17/04/2009 - 03h34 - 49 Comentários

Enquanto o presidente norte-americano Barack Obama se prepara para a reunião que terá com seus pares latino-americanos, no fim de semana, o New York Times dá destaque ao avanço chinês na região. O continente – não surpreenderá a muitos – foi conhecido por décadas como quintal dos EUA. O abandono político do governo George W. Bush, no entanto, abriu espaço que foi devidamente ocupado.

A China vai bancar os custos de um bilhão de dólares para uma hidrelétrica no Equador, investirá 12 bilhões na Venezuela, emprestará 10 bilhões para a Argentina e outros 10 seguirão para os cofres da Petrobras. O gigantesco País do Centro tem dinheiro e está gastando. Gasta com critério: os argentinos aproveitarão o alívio do empréstimo para comprar produtos chineses, os brasileiros agradecerão o investimento garantindo exportação de petróleo, mesma promessa venezuelana.

No caso específico da Argentina, o empréstimo seguirá em yuans, a moeda chinesa. É para importar mesmo, um ajuda que chega em boa hora, quando os vizinhos ao sul andam com o crédito em baixa e os EUA recusam-se a dar mais.

Não é, de forma alguma, jogo perdido para os EUA. Mas, em Washington, o alerta foi bem compreendido.

O que mata na questão é que Obama tem uma brutal crise econômica com a qual lidar. A China, por outro lado, parece ter motivos para otimismo. Cresceu no primeiro trimestre do ano num ritmo maior do que no trimestre anterior. As exportações continuam em baixa, mas segundo a revista britânica The Economist, os indicadores sugerem que o ano chinês não será tão terrível quanto previsto inicialmente.

Para o resto do mundo – incluindo para os EUA –, a notícia é excelente.

Obama: Lula e eu conversamos de igual para igual

16/04/2009 - 02h02 - 23 Comentários

Para Barack Obama, Lula continua sendo “o cara” –ou “meu chapa”, “meu amigo”, “meu camaradinha”, como quiserem traduzir o “My man” dito pelo norte-americano no G20. Em entrevista agora à noite para a CNN em espanhol, o presidente democrata diz que “os tempos mudaram” em relação à América Latina. Dá como exemplo: “Minha relação com o presidente Lula é entre dois líderes de dois grandes países que estão tentando resolver os problemas e criar oportunidades para seus povos e que deveriam ser parceiros.” Nessa relação entre iguais, diz, “não há parceiro júnior ou parceiro sênior”.

Na entrevista, Obama se recusa a criticar o venezuelano Hugo Chávez –na verdade, se recusa a criticar qualquer líder latino-americano. “Eu acho que é importante para os Estados Unidos não dizer a outros países como estruturar suas práticas democráticas e o que deveria constar de suas Constituições. Os povos desses países que devem tomar uma decisão sobre como querem estruturar seus assuntos.” Especificamente sobre Chávez, ele diz que “ele é o líder de seu país e será um de vários líderes com quem me encontrarei”.

Por fim, acenou com mais medidas que relaxem a relação entre EUA e Cuba, desde que o regime dos Castro se movimente. “O que esperamos é algum sinal de que vai haver mudança em como Cuba opera, [mudanças] que garantam que os prisioneiros políticos sejam soltos, que as pessoas sejam livres para se expressar, que possam viajar, escrever e ir à igreja e fazer coisas que outras pessoas do continente fazem”.

Do Sérgio Dávila

A entrevista de Lula na Newsweek

1/04/2009 - 13h26 - 127 Comentários

Os principais trechos da entrevista do presidente Lula na Newseek:

Você é provavelmente o líder mais popular do mundo, uma aprovação em seu país de 80%. Por quê?

No Brasil há ricos como em Nova York, mas há pobres como em Bangladesh. Então tentamos provar que era possível produzir crescimento econômico ao mesmo passo em que melhorávamos a distribuição de renda. Nos últimos seis anos, tiramos 20 milhões da pobreza, trouxemos eletricidade a 10 milhões de casas e aumentamos o salário mínimo todos os anos. Tudo foi feito sem insultar ninguém, sem comprar brigas. Um homem pobre, no Brasil, hoje é menos pobre. É isso que queremos. [...]

Seus críticos dizem que, no período em que os preços das commodities estavam em alta, você não aproveitou para elevar o Brasil a um nível econômico superior.

Isso não faz sentido. Quando fui eleito, a dívida interna era de 55% do PIB. Hoje está em 35%. A inflação estava em 12%, hoje está em 4,5%. O país é estável economicamente. As exportações quadruplicaram. A economia cresce num ritmo que é o maior dos últimos 30 anos.

A economia brasileira vai crescer este ano?

Estou convencido de que sim. Mas não antecipamos que a crise teria o tamanho ou a profundidade que tem hoje, nos EUA. [...]

Eu estava meio desapontado com minha vida política. Já estou no meu sexto ano de mandato, estava ficando cansado. Mas essa crise é como – uma coisa que nos provoca, nos faz acordar. Está me dando entusiasmo. Quero brigar. [...]

Você é considerado um símbolo importante de democracia nas Américas. E, no entanto, muitos reclamam de seu silência conforme Hugo Chávez destrói a democracia na Venezuela. Por que não denunciar? Se o Brasil deseja um papel mais importante no mundo, essa parte não é importante, a de defender certos valores?

Bem, talvez não concordemos com tudo na democracia venezuelana, mas ninguém pode dizer que não há democracia na Venezuela. Eles fizeram cinco, seis eleições e plebiscitos nos últimos anos.

Não é uma democracia real.

Precisamos respeitar a cultura local, as tradições políticas de cada país. Tenho 84% de apoio popular, poderia propor uma emenda constitucional que me permitisse ter um terceiro mandato. Mas não acredito nisso. Chávez queria ficar… eu acredito que a mudança do presidente é importante para o fortalecimento da democracia.

Na Cuba pós-Fidel

20/03/2009 - 00h23 - 77 Comentários

O ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, razoavelmente respeitado por sua atividade acadêmica e autor de uma biografia de Che Guevara, surpreendeu ao publicar um artigo na revista Newsweek, no qual afirma que um golpe foi abortado em Cuba. No texto, ele diz que o então vice-premiê cubano, Carlos Lage, e o então chanceler, Felipe Pérez Roque, conspiraram para derrubar o presidente Raúl Castro – com a ajuda do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Segundo Castañeda, Lage e Roque, ‘que procuraram Chávez ou foram procurados por ele’ para ajudar no golpe, entendiam que Raúl estava disposto a fazer concessões em demasia, colocando em risco a revolução cubana. Chávez teria procurado apoio de outros líderes latino-americanos para a empreitada, diz Castañeda. A trama foi descoberta, e Lage e Roque, afastados.

Pescado do Marcos Guterman. As especulações do Castañeda são dele, quem vai prová-las? Não é de todo impossível que Pérez Roque e Carlos Lage tenham querido tomar o poder. Com a saída de Fidel, a linha dura que eles representam perdeu muito da influência que tinha. A participação de Chávez já parece forçada.

A informação que circula no governo aqui dos EUA é de que Fidel não existe mais. Ninguém acha que está morto. Apenas que seus momentos de lucidez são cada vez mais espaçados. Sua coluna na imprensa não é escrita por ele, um velho truque em ditaduras. Fidel continua ‘presente’, mas é a máquina de propaganda do governo que fala através do texto. A assinatura é de Fidel; a voz, de Raúl.

O governo Obama pretende liberar visitas dos cubano-americanos a Cuba, além de permitir livre remessa de bens e dinheiro. O objetivo é facilitar a vida do povo cubano e ganhar simpatia para os EUA. Há um segundo objetivo: na Casa Branca, acreditam que se os cubano-americanos enviarem muito dinheiro para suas famílias na Ilha, uma segunda economia, livre da influência do governo, poderá se formar. É verdade que por um lado, a economia melhora, o que conta pontos para Raúl. Por outro lado, é um aceno de boa vontade. Obama está disposto a conversar. Fidel não estava. Estará Raúl?

Roberto Viciano, pai das Constituições
de Venezuela, Bolívia e Equador

17/02/2009 - 04h06 - 258 Comentários

Na juventude, Roberto Viciano Pastor pertenceu ao grupo católico de extrema-direita Fuerza Nueva, que nos anos 1960 defendia a ditadura de Francisco Franco na Espanha. Hoje, ele é o pai intelectual das constituições de Venezuela, Bolívia e Equador. No Equador, por seus trabalhos de consultoria na confecção da Carta, a equipe de Viciano recebeu 120.000 dólares. A oposição, nos três países, sugere que os espanhóis são de fato autores das constituições. Eles negam, dizem que seu auxílio é meramente técnico.

Uma reportagem do Washington Post, hoje, tenta jogar alguma luz na história de Viciano e seu grupo, o Centro de Estudos Político e Sociais, da Universidade de Valença. Viciano é ligado ao Partido Comunista Espanhol e defensor do separatismo basco. É dele a sugestão de adotar um parlamento unicameral, na Venezuela, que dilui o poder do Legislativo.

O trabalho do CEPS nos três países se dá no sentido de promover mudanças radicais na forma de governo mantendo uma estrutura constitucional. Em comum, as três Cartas tratam da re-fundação de seus países para corrigir injustiças históricas em torno de um ideal mítico, seja a memória de Simón Bolívar, seja a cultura das populações indígenas locais. Na prática, as Cartas sob orientação do CEPS promovem a concentração de poder nas mãos do Executivo.

Em janeiro, segundo o Post, Viciano criticou duramente as mudanças promovidas pelo Legislativo da Bolívia na Constituição. Ele considerou que o governo cedeu demais à oposição. ‘É algo que aqueles que se chamam de revolucionários não entendem: numa revolução, não é possível chegar a um consenso. Ou você tem uma revolução ou não tem.’ Um democrata.

Antes que alguém saque do bolso uma teoria conspiratória, não custa lembrar: entre os depoimentos recolhidos pelo Washington Post estão indícios de que há discordâncias entre Viciano e seus companheiros de CEPS. E, embora pelo menos no Equador os boatos correntes são de que os cientistas políticos são os autores de fato da Constituição, isso não é necessariamente verdade.

Agora que Hugo Chávez tem direito a se reeleger infinitamente, é hora de conhecer melhor este grupo de espanhóis. Há um conceito novo de revolução de esquerda sendo testado na América Latina, uma revolução constitucional idealizada por um ex-fascista tornado comunista. (Em geral, o caminho dos radicais vai da esquerda na juventude à direita na velhice, mas sempre há exceções.) Aquilo que Viciano montou é extremamente inteligente: concentra poder, mas mantém eleições e ornamenta tudo com uma Constituição populista, não raro apoiada por plebiscito popular.

Tem cara, cor e cheiro de democracia mas quem olha de muito perto fica na dúvida. Se é sustentável ao longo da história e para além da baixa do preço do barril de petróleo? Os próximos anos o dirão. Mas, se havia alguma dúvida, agora não há mais: existe base teórica e trabalho de profissionais do ramo no principal experimento político em curso na América do Sul.

O governo de Franklin Roosevelt, alternância
de poder, democracias e nosso Hugo Chávez

3/12/2008 - 00h58 - 95 Comentários

Por que alternância de chefes de Executivo é necessária? A pergunta nos comentários abaixo vem rapidamente acompanhada do exemplo do governo de Franklin Roosevelt, que teve quatro mandatos nos EUA.

Bem: os padrões ideais de uma democracia em princípios do século 21 não são os mesmos da primeira metade do século 20. Naquela época, raras eram as democracias no mundo mesmo na Europa Ocidental. Hoje, democráticos são mais da metade dos países do mundo.

A Freedom House, que tem o melhor levantamento do tipo, separa o mundo em três tipos. Países livres, Semi-livres, e Ditaduras. Nas Américas, somos todos democracias plenas com 10 exceções. Cuba é uma ditadura. Nicarágua, Honduras e Guatemala – na América Central – e Paraguai, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela caem na coluna dos países onde a liberdade é parcial.

Foi justamente com Franklin Roosevelt que se aprendeu sobre como é importante a alternância de líderes. O problema não é apenas o risco de autoritarismo que um Executivo forte e viciado pode trazer. É também a alternância de gerações. Líderes costumam chamar para trabalhar com eles gente de sua geração. Em ditaduras e em governos democráticos muito longos, não se renova gerações. Sem a disputa pelo cargo mais alto, novos políticos não são formados.

O exemplo de Roosevelt é claro. Sucedido por Harry Truman e Dwight Eisenhower, seu período na presidência acabou condenando os EUA a serem governados pela geração de 1880 entre 1933 e 1959. São quase três décadas quando o normal seria cada geração governar por uma década e meia. Foram Richard Nixon e John Kennedy, ambos nascidos na década de 10, que disputaram a eleição de 60. Não houve substituição geracional antes porque durantes os longos quatro mandatos de Roosevelt sabia-se que ele estaria ali para sempre. Ninguém da última década do século 19 ou da primeira do 20 tentou de fato. Não tiveram chances. Novas gerações, quando chegam ao governo, renovam um país.

Não é que seja uma regra cartesiana: a população sempre pode preferir levar à presidência um homem mais velho. Mas a disputa ferrenha é fundamental. E, quando não há limites para reeleição, ela não acontece. Democracia precisa de uma ajudinha para seu processo de seleção natural.

Independentemente disso, como já foi tratado aqui, Hugo Chávez não controla apenas o Executivo. Controla também o Legislativo e o Judiciário. O fato de que a Venezuela não tem três poderes independentes é o principal critério para que caia na lista de regimes semi-livres da Freedom House.

Atualização – O historiador David Kennedy questiona minha interpretação da História norte-americana. Ele é um dos maiores especialistas neste assunto e não concorda que houve o bloqueio de uma geração. Escrevi um post sobre o assunto.

Com Chávez e a Venezuela é assim
Uns dizem: ‘perdeu’; outros, que ganhou

24/11/2008 - 14h59 - 115 Comentários

Hugo Chávez de presto declarou que as eleições regionais de ontem, na Venezuela, foram uma grande vitória. E, com o número que está nas manchetes – venceu em 17 estados contra cinco da oposição –, bem o parece.

Mas a vitória não é tão clara assim. O Partido Socialista Unido da Venezuela perdeu nos estados de Zulia e Miranda, os ricos produtores de petróleo onde vivem 6,6 dos 28 milhões de venezuelanos. Perdeu também na grande Caracas, onde moram outros 6,2 milhões. A oposição passará a governar localmente metade dos venezuelanos.

Chávez não preside sob um regime de democracia plena: ele reconstruiu a Suprema Corte para ter controle sobre ela e o Legislativo abriu mão de sua autonomia outorgando-a ao presidente da República. Na Venezuela, o voto é livre, mas todo o poder nacional emana de Chávez. Não chega a ser uma ditadura declarada, como Cuba, mas a oposição tem pouco espaço de trabalho.

Mas é sempre bom tomar cuidado com o maniqueísmo. A oposição venezuelana não tem grandes nomes; em geral, é controlada pela oligarquia antiga à moda latino-americana que por tantas décadas controlou o país sem ter jamais apresentado um resultado decente.

Promessas que Obama não cumprirá (1 de 3)
Conversas incondicionais com inimigos

20/10/2008 - 11h59 - 45 Comentários

Como todo político, durante sua campanha Barack Obama fez promessas e algumas delas definiram como ele é percebido pelo eleitorado. Neste momento, Obama tem mais chances de ser eleito presidente do que John McCain.

Este é o primeiro de uma série de três posts: as promessas que Obama não será capaz de cumprir, caso chegue à presidência. Os outros virão amanhã e quarta-feira.

Na quinta e na sexta-feira, haverá uma outra série, esta de dois posts. O que é possível saber nos programas e promessas de John McCain (na quinta) e Barack Obama (na sexta) que interferem no Brasil.

Mas, antes, a uma introdução. É um fato da política que é impossível passar por uma campanha sem promessas que não serão cumpridas. Por isso mesmo, o trabalho de escolha do eleitor sofisticado não é simples. Ele precisa entender que políticos exageram e que, sem exageros, não conseguem se eleger. Este eleitor precisa ser tolerante, também, com uma certa dose de alianças. Precisa compreender que políticos precisam se unir a outros e que este processo nem sempre é bonito.

A maioria do público cobra afirmações peremptórias e certezas, mas a arte de governar é cheia de indecisões e improviso; verdades pétreas, dogmas, não têm espaço. As promessas devem ser compreendidas – vindas de qualquer político – como uma tendência a uma determinada posição, mas não como uma posição imutável. Isto posto:

Barack Obama não se encontrará incondicionalmente com chefes de Estado.

Em julho de 2007, durante o debate CNN/YouTube, Obama foi perguntado se ele se encontraria incondicionalmente com os líderes de países como Coréia do Norte, Irã, Cuba e Venezuela. Ele respondeu categoricamente: sim. Na seqüência, Hillary Clinton informou que ela, enquanto presidente, pessoalmente, não o faria. Mas que seu governo investiria sim em diplomacia. Gente nos segundo e terceiro escalões procurariam conversas. Hillary estava simplesmente repetindo aquela que é a política do Partido Democrata há décadas. Não há nenhum mistério aqui. O governo George W. Bush tentou inovar ‘punindo’ países com ausência de diplomacia. Não conseguiu rigorosamente nada, acirrou alguns ânimos, e teve que se engajar agora no fim. Aqui está a resposta que iniciou tudo:

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É impossível saber porque Obama, naquele dia, disse que se encontraria pessoalmente com Kim Jong-Il e seus pares. Eram debates com muitos candidatos nos quais a maioria dos eleitores não estava prestando atenção. Talvez ele mesmo, distraído, tenha achado que a pergunta se referia a seu governo e não a ele mesmo. O fato é que foi uma resposta tão diferente que ganhou manchetes nos dias seguintes. Obama se destacou, talvez por acidente. E, como é pecado mortal voltar atrás numa afirmação, Obama ficou preso a ela.

Durante as primárias, a afirmação agiu em seu favor. O que os pré-candidatos democratas tinham para diferenciar um do outro, afinal, eram suas personalidades. A plataforma de todos eles é a plataforma do Partido. Diferenças mínimas de opinião. Quando a eleição se acirrou entre Hillary e Obama, eles se agarraram aos pequenos detalhes para se distanciarem um do outro. E, naquele momento, as ‘conversas incondicionais’ viraram um tema forte. Hillary batendo, Obama defendendo. Ao insistir tanto no caminho da responsabilidade, Hillary se colocou numa posição que parecia criticar a diplomacia. Estava mais próxima das políticas de George W. Bush do que de sua oposição. Como disputavam o comando do partido de oposição, este foi um dos fatores que fortaleceu Obama e a enfraqueceu.

Mas, desde que as eleições presidenciais de fato começaram, muito cautelosamente, para que ninguém o acuse de flip-flop, de vira-casaca, Obama tem voltado atrás. Conversas incondicionais com líderes? Claro, mas com negociações preparatórias antes, disse em um debate. Mahmoud Ahmadinejad não é realmente o líder do Irã, alertou numa entrevista, dizendo que com Ahmadinejad provavelmente não se encontrará. Talvez com o aiatolá Khamenei.

A mensagem importante aqui é: enquanto presidente, Barack Obama vai investir pesadamente em diplomacia. Ele estará disposto a se encontrar com líderes estrangeiros para grandes acordos. Mas nenhum encontro do tipo será incondicional. Esta é uma promessa que ele não cumprirá.

Chávez quer atear fogo no circo boliviano

14/09/2008 - 12h53 - 136 Comentários

Hugo Chávez é do tipo que joga lenha na fogueira. Lula, não. Por isso, é de se levar a sério sua afirmação de que o Brasil não tolerará rompimentos institucionais na Bolívia. O Brasil chega tarde à discussão – como já argumentou com a competência de praxe Sérgio Léo, em sua coluna no Valor Econômico.

A situação da Bolívia é grave: o país sempre foi dividido entre a elite rica (e em geral branca) e os índios pobres (em geral excluídos). A eleição de Evo Morales acirrou essa divisão por atiçar os temores da elite. Evo é, por personalidade, tudo o que Lula não é. Enquanto Lula busca a paz e a harmonia com quem tem poder, Evo – ainda mais insuflado por seu par venezuelano – procura o combate. Nessas horas, não custa tentar entender que o problema real da Bolívia é sua histórica divisão interna e não uma mítica interferência norte-americana.

(Há, diga-se, um consenso entre os especialistas de todo o continente que a quebra institucional boliviana não interessa a ninguém. É incompetência do governo Bush o fato de que não oferece ao governo Morales algum tipo de apoio econômico, empurrando-o para os braços de Chávez, Ahmadinejad e Putin/Medvedev. O assunto é tema de um excelente estudo do Council of Foreign Relations, que tem até Henry Kissinger em seu conselho.)

Começa amanhã a reunião de cúpula da Unasur, em Santiago do Chile, que terá por objetivo apaziguar os grupos. Em negociações do tipo, o esforço se divide em oferecer incentivos para ambos os lados buscarem a paz enquanto se faz ameaças veladas para a possibilidade de briga. O problema é que o mundo e a política não são feitos de pragmatismo. Ambições pessoais, temperamentos estourados e a mais pura incompreensão dos riscos tomam parte das negociações.

A maior dificuldade à mesa é que o Brasil teria de deixar claro que um governo golpista, na Bolívia, não seria reconhecido. Mas o Brasil, dependente do gás boliviano, não tem como fazer esta ameaça.

A América do Sul não é homogênea e os problemas de cada país são seus próprios, particulares, intransferíveis. Às vezes quem ouve Hugo Chávez partindo em defesa de seu par boliviano Evo Morales acredita que algum tipo de integração latino-americana existe.

Chávez convocou seu embaixador em Washington e expulsou o norte-americano em Caracas alegando solidariedade para com Morales e acusando os EUA de participação em uma tentativa de golpe misteriosa. O termômetro das boas relações diplomáticas entre EUA e Venezuela não é este, é outro. É a venda de petróleo para o país de George W. Bush. Esta continua intocada. Quando algo mudar nesse quesito, poderá se levar a sério a intenção de Hugo Chávez de romper com os EUA causando profundo impacto na economia interna norte-americana. Um desafio de verdade. Até lá, Chávez bem o sabe, é só política. E toda política é local.

Chávez está sendo investigado por ter enviado dinheiro para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner, na Argentina, e enfrenta eleições estaduais na Venezuela, em novembro. É sempre assim, com Hugo Chávez: quando há eleição por perto, ele arruma alguma maneira de chamar os EUA de intoleráveis. Os suspeitos de sempre caem na história.

Com a Bolívia, não, a coisa é mais séria. Talvez seja reconfortante, para alguns, imaginar que seja tudo parte de um plano norte-americano para desestabilizar governos de esquerda na região. Mas a instabilidade boliviana é só dela própria.

A Marinha russa avança sobre o Caribe
e Gorbachev dispara pró-Putin, contra Bush

9/09/2008 - 13h36 - 66 Comentários

A Rússia enviará um cruzador nuclear para fazer exercícios navais com a marinha venezuelana. No Caribe.

É o primeiro exercício do tipo desde a Guerra Fria assim tão próximo dos EUA.

Vladimir Putin e seu presidente, Dmitry Medvedev, são assim. Acham que os EUA querem comprar briga. Então consideram que devem responder à altura. Os EUA enviam a marinha para o Mar Negro, quase nas suas terras, para ajudar a Geórgia? Lançam mão do telefone para falar com Hugo Chávez.

Mas não são apenas eles. Em entrevista ao espanhol El País, Mikhail Gorbachev diz que os EUA vêm armando pesadamente Geórgia e Ucrânia e incentivando ambos à dissensão. Diz mais:

A Europa deveria propor uma nova arquitetura de segurança regional com a constituição de um Conselho de Segurança continental. Seria um diretório em que estejam representadas todas as nações européias com poderes para operações de manutenção da paz. Desse jeito, sairíamos de uma situação em que os EUA decidem o que será feito no mundo. Havia uma proposta assim à mesa em 1990, mas o Ocidente achou que havia ganho e decidiu não cumprir suas promessas.

Gorbachev acusa os governos Clinton e Bush de terem promovido uma geopolítica que provoca divisões na Europa e diz que o escudo de defesas anti-mísseis é contra a Rússia. O Irã é só uma desculpa.

via Foreign Policy, com dica de Mario Nobre

A Rússia quer Venezuela e Cuba?

19/08/2008 - 11h58 - 85 Comentários

O analista de política latino-americana Carlos Alberto Montaner, um cubano badalado na imprensa hispanoablante, tem uma teoria a respeito dos próximos passos russos: Cuba ou Venezuela.

Hugo Chávez, em visita a Moscou, já havia mencionado a possibilidade de uma base militar russa na Venezuela. A própria Rússia já havia soltado um balão de ensaio cogitando a inclusão de Havana entre os aeroportos pelos quais aviões militares russos fazem escalas regulares.

Conforme a OTAN seduz a Ucrânia e os EUA insistem em uma rede de mísseis na Polônia e na República Tcheca, os russos mexem suas peças de xadrez como se o ano fosse 1960.

Mas o ano não é 1960 e a Rússia não é uma potência mundial. Suas ações afetam diretamente a Europa e os vizinhos imediatos na Ásia. Mas não muito mais. Os países/grupos que têm realmente o poder de influenciar a economia ou a política de todo o mundo com um espirro são China, EUA e, quando consegue agir em bloco, União Européia.

Putin está, evidentemente, dedicado a mudar este quadro. Não quer dizer que consiga.

De como José Dirceu intermediou
a relação Brasil-EUA

9/05/2008 - 03h48 - 27 Comentários

No Valor Econômico, via Sérgio Leo:

O ex-ministro José Dirceu virou um interlocutor privilegiado do governo americano no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando os Estados Unidos buscaram um canal paralelo de diálogo com o círculo íntimo do presidente para driblar resistências que encontraram na diplomacia brasileira a uma aproximação maior dos dois países. ‘O Itamaraty via a relação com Washington como um jogo de soma zero, em que um lado só ganha se o outro perder’, disse ao Valor o ex-secretário-assistente de Estado dos EUA para a América Latina Roger Noriega, que ocupou o posto de 2003 a 2005. ‘Era importante ter um canal que passasse por cima disso e achávamos que Dirceu podia ser um interlocutor prático.’

O ex-ministro desempenhou o papel com grande desenvoltura. Em 2005, semanas depois de se reunir em Washington com a secretária Condoleezza Rice, ele viajou às pressas para Caracas para falar com o presidente venezuelano, Hugo Chávez. Dirceu voltou correndo para contar o que ouvira a Condoleezza, que encontrou novamente durante uma visita de dois dias que ela fez a Brasília na mesma época.