A pandemia de gripe que ameaça
o mundo a partir do México

01/May/2009 - 02h46 - 22 Comentarios

O México pára hoje. (É, eu sei – esse para não tem mais acento. Me dêem um tempo para o hábito pegar.) Até o dia 5, a recomendação do presidente Felipe Calderón é de que ninguém saia de casa. O objetivo é tentar conter a epidemia de gripe suína.

Entre 1918 e 19, mais de 100 milhões de pessoas morreram. Em 1968, quando houve a última grande epidemia de gripe, foram 1 milhão de vítimas. Faz 40 anos. Ninguém tem dúvidas de que uma nova epidemia pesada e mortal está para vir. Não foi a gripe aviária. Será a suína? Em um ponto, pelo menos, esta é mais preocupante. É gripe que mamífero pega, portanto nós humanos estamos mais próximos. Pessoas podiam pegar a gripe de um frango, o que era raro, mas o vírus permanecia não transmissível entre pessoas. Se a gripe vem de mamífero, é mais fácil.

motivos para otimismo: as chances de que remédios antivirais como o Tamiflu consigam atacar a gripe são altas. Mas, se houver pandemia, as chances de que uma cepa resistente a medicação surja não é baixa.

A capacidade mundial de preparar vacinas a tempo também é limitada. Há tecnologias novas que permitem o aumento de produção mas, hoje, apenas alguns países da Europa têm capacidade de fabricar vacina o suficiente para atender toda sua população.

Ontem de manhã, o vice-presidente norte-americano Joe Biden falou à tevê que, se fosse ele, evitaria aviões e trens. O ar é viciado e vírus se espalham fácil. Trata-se do tipo de alarmismo que arrisca parar a economia e não traz benefício. Aqui na Califórnia, dada a proximidade com o México, o alerta é geral. Se a gripe suína for pandêmica, deve assolar o hemisfério norte nesta temporada de verão e tomar rumo do sul no segundo semestre. Se é verdade que o transporte aéreo ajuda a espalhar estes vírus pelo mundo todo com velocidade, também são aviões que levam a remédios de um lado bem estocado do mundo para o lado que precise com a rapidez necessária.

Para o México, que se aproveita deste Primeiro de Maio para tentar estancar o que pode ser apenas um surto pequeno, o risco de a economia parar já é real.

A pandemia fatalmente virá. A falta de preparo do mundo, conforme o tempo passa, é inexplicável.

Quem é melhor para o Brasil? Obama? McCain?

23/October/2008 - 13h34 - 43 Comentarios

Quem seria o melhor presidente dos EUA para o Brasil? Esta é uma pergunta que pode ser respondida de várias maneiras. Durante a campanha eleitoral, estes dois candidatos precisam parecer diferentes um do outro então, por isso, falam muito a respeito do que os distinguem. Uma vez na Casa Branca, entretanto, boa parte da política externa norte-americana é política de Estado. Eu pretendia, inicialmente, fazer um post falando de cada um. Mas acho que é mais fácil compará-los em um só texto.

McCain é, dos dois, quem mais cita tanto o Brasil quanto a América Latina. Em seu programa de governo, em seus discursos, o Brasil é sempre lembrado como exemplo na questão energética. Para o candidato republicano, os EUA deveriam seguir o exemplo tupinambá da produção de carros flex, que aceitam tanto álcool quanto gasolina. E McCain promete levar a zero o imposto de importação do etanol brasileiro.

Mas é importante compreender de onde vêm essas promessas. Por que McCain cita tanto o etanol brasileiro? Nos massageia o ego, por certo, mas há um motivo que tem a ver mais com política interna norte-americana do que com o bem-estar brasileiro. É que Obama é senador por Illinois, um dos maiores produtores de milho e, portanto, estado interessado nos subsídios para produção de etanol de milho. Obama não pode, em campanha, falar contra o etanol de milho. E, como senador, sempre o defendeu. Como o etanol de cana é muito mais eficiente e a política de subsidiar o milho para produção de etanol é, basicamente, estúpida, citar constantemente o exemplo brasileiro é uma maneira que McCain tem de criticar Obama com razão. E o candidato democrata não tem como reagir.

A questão é: como presidente, McCain cumpriria esta promessa? Provavelmente não, e não por sua culpa. Tanto Câmara quanto Senado serão democratas e quem tem real poder para decidir subsídios é o Congresso, não o Executivo. Após esta campanha e dois mandatos de um presidente polarizador como George W. Bush, haverá rancor no Congresso contra um presidente republicano. McCain será um presidente de mãos atadas. Curiosamente, se alguém terá real poder para mudar a política de subsídios, será Barack Obama. Ele não será mais o senador de Illinois mas o presidente de todos os Estados Unidos. E isto virá de uma negociação entre Estados, no momento em que os EUA quiserem algo do Brasil. Alguma hora, vão querer. É importante agradar o Brasil por alguns motivos. (Mais nisso adiante.)

Uma presidência é também moldada por aqueles que financiam a campanha. O dinheiro da indústria petroleira está com os republicanos. McCain sabe que a promessa de perfurar em alto-mar é pura demagogia. Há pouco petróleo lá, que não faria qualquer diferença para a independência energética dos EUA, e demoraria pelo menos uma década para a produção ter início. (Plataformas não se constroem em dois anos.) McCain, por conta de seus patrocinadores, não promoveria uma grande mudança na base energética dos EUA.

Que tipo de política energética interessa ao Brasil? Não somos uma república de bananas que vive de uma indústria só e nossos interesses, nessa história, não são apenas comerciais. O Brasil sai ganhando mais com uma política que favoreça o nascimento de uma indústria mundial e de larga escala de combustíveis alternativos. Se os EUA investirem pesado neste tipo de indústria, haverá um mercado maior em todo o mundo. E o Brasil já tem tecnologias prontas na mão para vender. O fomento de uma grande indústria de combustíveis não-fósseis é o ponto chave do governo Obama. Este será seu principal compromisso quando, logo após jurar fidelidade à Constituição, fizer seu discurso inaugural. Se ele for capaz desta mudança, é uma revolução no mundo.

Ambos os presidentes terão uma boa relação com Brasil, China e Índia. Isto é política de Estado. São países citados imediatamente em qualquer análise a respeito do estado geral do planeta. O Brasil é importante. Globalmente, regionalmente. E, desta lista de três, o Brasil é o mais fácil para os EUA. Está no mesmo hemisfério e jamais houve grandes tensões na relação. A rodada de Doha na OMC mostrou o poder diplomático do país, as tecnologias energéticas são vistas com um quê de inveja, e a produção de alimentos é acachapante.

O Brasil é importante, também, por causa de Chávez, Morales e seus pares. É bom ter um parceiro com quem conversar. Do ponto de vista norte-americano, o Brasil mantém seus vizinhos sob controle e, assim, os EUA não precisam se preocupar tanto. Mas há, nesta nossa política regional, um ponto que será importante no próximo governo: a questão das drogas. E, aí, poderemos ver alguma diferença entre as decisões do presidente McCain e as do presidente Obama.

O problema começa no México. Nos últimos anos, a violência da disputa entre cartéis no México aumentou para níveis absurdos. Só na pequena Ciudad Juarez, na fronteira, mais de 1.000 pessoas foram assassinadas este ano. Se há perigo de o México mergulhar num estado de violência sistemática e continuada, os EUA não gostam. Instabilidade no vizinho, não. Mas não se ataca o problema das drogas no México olhando apenas para o México. John McCain tem citado muito a Colômbia e a necessidade de investir mais dinheiro no Plano Colômbia. Obama seguiria um caminho diferente. A partir de um relatório publicado esta semana, pressionaria o governo colombiano a prestar mais atenção aos abusos de direitos humanos e o incentivaria a levar os serviços públicos à região de conflito armado. Em suma, mais governo civil, menos militares. As Farc estão enfraquecidas, neste momento, e um projeto de por fim ao conflito tem chances.

O que não se sabe é quem assumiria o controle dos cartéis de drogas no momento em que as Farc deixarem o cenário. Mas – e isto tem aparecido em seus debates – McCain investiria no conflito e Obama tentaria estancá-lo. Há repercussão em todo o continente. O próprio Brasil tem um problema de criminalidade excessiva vinculado ao conflito na Colômbia e ao tráfico para EUA e Europa. Se a política contra drogas mudar efetivamente, a situação muda embaixo. (Mas seria exagero, hoje, dizer que a ‘Guerra contra as Drogas’ terminará.)

Mas, no fim das contas, o Brasil faz parte do mundo. Se a economia dos EUA cresce, a do Brasil cresce. Se os EUA no Oriente Médio produzem instabilidade mundial, o Brasil é afetado de mais maneiras do que podemos imaginar. Se os EUA estão agindo decididamente para combater o aumento do nível de carbono na atmosfera, melhor para todo o mundo.

Tanto John McCain quanto Barack Obama reconhecem o problema do aquecimento global e dizem com todas as letras que o causador é o homem. (Joe Biden também o faz, Sarah Palin, não.) Deste ponto de vista, o mundo estará melhor do que com George W. Bush. Mas o fato de McCain ser financiado pela indústria petroleira fará, inevitavelmente, com que ele não seja tão agressivo contra quem o apoiou. E isto, para o Brasil, também fará diferença.

México quer descriminalizar drogas

04/October/2008 - 14h10 - 72 Comentarios

O presidente mexicano Felipe Calderón quer descriminalizar o porte de drogas. Sua proposta de lei funciona assim: quem for pego com uma quantidade pequena e se comprometer a fazer um tratamento para combater o vício não terá pena a cumprir. Por quantidade, entenda-se 50 miligramas de heroína, 2 gramas de maconha, 500 miligramas de cocaína e 40 miligramas de metanfetamina.

Seu problema é de ordem prática. O tráfico de drogas, no México, é sério e não à toa. Serve de porta de entrada para os EUA. Os recursos policiais não são muitos. Ir atrás de consumidor é um dreno no esforço. Enche as cadeias, produz criminosos e não muda em nada a situação do país.

Há alguns anos, o Congresso mexicano aprovou uma lei muito parecida. A diferença é que não exigia um tratamento médico. O lobby norte-americano para que fosse revertida foi intenso e o então presidente Vicente Fox derrubou a lei.

Uma nota: aqui na Califórnia, o uso de maconha medicinal é legal. A polícia não se dá ao trabalho de checar quem tem receita médica. Ninguém fuma nas ruas mas há regiões consideradas livres. No Golden Gate Park, em San Francisco, as pessoas se reúnem para fumar baseados sem que exista qualquer repressão. Embora existam traços da cultura hippie que nasceu aqui, não é um clima Amsterdã. A poucos metros de distância há crianças brincando e os pais não parecem estar preocupados.

Que falam sobre o Brasil
McCain, Obama e Hillary

12/February/2008 - 00h30 - 123 Comentarios

E o que pensa o futuro presidente dos EUA a respeito de Brasil e América Latina? Os trechos foram pescados dos artigos que fizeram publicar na prestigiosa Foreign Affairs, revista do Conselho de Relações Exteriores.

Tanto McCain quanto Obama endereçam frontalmente – e favoravelmente – uma questão cara ao Itamaraty, que é poder no Conselho de Segurança da ONU ou algo semelhante. Quando se referem ao Brasil, não é no contexto ‘América Latina’ – é no contexto poder mundial. Hillary é vaga – e cita o país como estratégico apenas regionalmente.

John McCain:

John Kennedy descrevia os povos da América Latina como ‘nossos amigos mais firmes e antigos, unidos a nós pela história e experiência e pelo objetivo de levar à frente a civilização americana’. Os países do continente são nossos parceiros naturais mas a desatenção dos EUA danificou esta relação. Precisamos melhorar a relação com o México para controlar a imigração ilegal e enfrentar os cartéis de drogas. Outro cuja relação precisa atenção é o Brasil, parceiro cuja liderança perante as forças de paz da ONU no Haiti serve de modelo para o cuidado com a segurança regional. Meu governo vai dar a estas e outras grandes nações da América Latina uma voz forte da Liga das Democracias – uma voz que lhes é negada no Conselho de Segurança da ONU.

Precisamos trabalhar juntos para enfrentar a propaganda de demagogos que ameaçam a segurança e a prosperidade das Américas. Hugo Chávez desmontou a democracia venezuelana ao diminuir a importância do parlamento, do judiciário, da imprensa, dos sindicatos livres e das empresas privadas. Seu regime está comprando equipamento militar avançado. Ele deseja construir um eixo global anti-EUA. Meu governo vai se dedicar a marginalizar tais influências nefastas. Também vai se preparar imediatamente para a transição de Cuba para a democracia ao desenvolver um plano em conjunto com parceiros da região e da Europa engajados num regime pós-Fidel. Queremos mudanças rápidas naquele país que sofre há tanto tempo. Precisamos investir na passagem criada pelo CAFTA – Acordo Centro-Americano de Livre Comércio – ratificando outros acordos de comércio já negociados com Colômbia, Panamá e Peru com o objetivo de completar o processo da ALCA – Área de Livre Comércio das Américas.

Barack Obama:

Precisamos da colaboração das grandes nações para lidar com as grandes questões globais – e isto inclui os poderes emergentes como Brasil, Índia, Nigéria e África do Sul. Precisamos que eles tenham mecanismos para ajudar na manutenção da ordem internacional. Para que isto aconteça, a Organização das Nações Unidas precisa ser reformada. A gerência da Secretaria Geral da ONU é fraca. As operações das tropas de paz vão muito além de sua capacidade real de ação. O novo Conselho de Direitos Humanos da ONU passou oito resoluções condenando Israel – mas nenhuma condenando o genocídio em Darfur ou os abusos dos direitos humanos no Zimbabwe. Nenhum destes problemas será resolvido se os EUA não voltarem a se dedicar à ONU e a sua missão.

Na América Latina, do México à Argentina, falhamos ao enfrentar as questões da imigração, igualdade e crescimento econômico.

Hillary Clinton:

Impondo um risco a nós, o governo Bush foi negligente com nossos vizinhos ao sul. Presenciamos, em parte da América Latina, ao surgimento de obstáculos para o desenvolvimento de democracias e abertura econômica. Devemos tornar a uma política de negociação, questão por demais crítica para que os EUA assistam a tudo impassíveis. Devemos dar apoio às maiores democracias regionais, Brasil e México, e aprofundar nossa relação econômica e estratégica com Argentina e Chile. Precisamos continuar a cooperar com nossos aliados na Colômbia, na América Central e no Caribe para combater as ameaças interconectadas do tráfico de drogas, crimes e insurgências. Por fim, devemos trabalhar com nossos aliados para prover programas de desenvolvimento sustentado e criar oportunidades econômicas que reduzam desigualdade entre os cidadãos da América Latina.

Fidel, Chávez, América Latina e o Che
que morreu para nos salvar

15/October/2007 - 07h29 - 151 Comentarios

Fidel Castro reapareceu – e, desta vez, o comandante conversou ao vivo pelo rádio com o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu programa Aló, presidente. (O El País tem o áudio.) Falaram sobre a memória do Che.

Fidel crê que o projeto de uma revolução por país em toda América Latina prometida por seu ex-companheiro de batalha está a caminho e que só a estupidez das oligarquias locais não o percebe. O objetivo de Che, fazer com que continente explodisse em vários Vietnãs, já se concretizou em pelo menos três casos: a Venezuela, a Bolívia e o Equador. E que a resistência aos EUA, em tempos de George W. Bush, é mais pertinente do que nunca.

É o tipo do discurso que a direita paranóide adora.

A memória de Ernesto Guevara de la Serna está em disputa. A imprensa brasileira lhe dedicou muitos registros e pelo menos duas capas que entram em evidente conflito. À esquerda está a hagiografia da Caros Amigos; à direita, a ‘ódiografia’ da Veja. São, ambos, textos de um jornalismo que nasce da defesa de uma ideologia. Nos 40 anos de sua morte, este Weblog limitou-se a publicar uma nota. Foi um erro. Entender Guevara, ou ao menos, como Guevara é percebido, parece ser muito importante para nos entendermos, latino-americanos. E, para isso, é preciso antes compreender que o Che do pôster e Ernesto Guevara são pessoas diferentes.

O Che do pôster compreendemos quando nos vemos pelo que realmente somos: ibéricos. Espanhóis e portugueses. Isto quer dizer que temos um ‘DNA’ cultual profundo, arraigado. Somos programados a reagir de uma maneira específica a determinados estímulos informativos, a determinadas imagens, a determinados discursos. Imagine um peregrino espanhol no século 15 traçando exausto o caminho para Santiago de Compostela e este somos nós. Esperamos o Salvador. Achamos sempre que está tudo ruim e que vai piorar até que o Salvador denunciará as injustiças e reestabelecerá a ordem e trará o fim do sofrimento. Milenaristas. Sebastianistas. Che é o Antonio Conselheiro.

Substitua no discurso de Fidel e Chávez ’socialismo’ pelo ‘reino dos céus’, substitua a boina do retrato de Che por uma coroa de espinhos e temos um discurso que se revela pela identidade cultural profunda de nós latinos que é católica e messiânica até a alma.

A leitura jungiana não tem nada de original. O sociólogo José de Souza Martins já a evidenciava no Estadão do último dia 7. E a Economist também o diz na edição desta semana. Isto só quer dizer que, provocados pela imagem do homem de barba com o olhar cheio de esperança ou pelo discurso de ¡Hasta la victoria, siempre! contra as injustiças do mundo nos comovemos e acreditamos do fundo do coração. Estamos programados para isto.

Evidentemente, o Che é uma figura muito maior do que foi Ernesto Guevara. Guevara foi um idealista dogmático. Era um soldado que, em mais de um momento, ordenou a execução de pessoas. Em alguns casos, no ambiente da guerrilha, disparou o revólver ele próprio contra quem suspeitava traidor. Há reportagens que o acusam de ser um assassino frio – mas aí é onde o jornalismo, que lida com fatos, é comprometido pela ideologia. Quem o diz? Se não sabemos se deixava de dormir à noite, que pesadelos o atordoavam, como saber da frieza ao apertar o gatilho? Guevara não era um Pinochet. Ou um Stálin. Não foi um genocida. Foi, isto sim, um fracassado. Acreditou que iniciaria muitas revoluções mas os índios não estavam nem aí para sua guerrilha. A esquerda acha que precisa dele como Salvador e a direita precisa transformá-lo no anjo caído. Em vida, talvez tenha sido mais como um personagem de Monty Python, um Brancaleone: um asmático ofegante nas montanhas bolivianas, cheio de sonhos de grandeza, tentando convencer o povo a seguí-lo. E os camponeses só olhavam. Um líder sem liderados.

A Veja já fez bom jornalismo. Em 1997, quando completavam-se 30 anos de sua morte, ela contou de como a execução do homem Ernesto Guevara criou o mito do Che que morreu para nos salvar. Na época, a revista preocupava-se mais em compreender o mundo do que em doutrinar.

Che era um símbolo para o tempo maniqueísta e polarizado inventado pela Guerra Fria. Mas aí entra, interessantemente, a tese da Economist. O mito de Che atrapalha a esquerda.

Conquistamos democracias em vários pontos do continente. Países como o Brasil vivem, já, o período contínuo de democracia mais longo de suas histórias. Junto com a democracia veio uma estabilidade monetária ímpar. Estas são conquistas valiosas. Conquistas que trouxeram, diga-se, a esquerda ao poder. O mito de Che prega uma revolução que não faz mais sentido. Revolução, hoje, seria Golpe de Estado – afinal, não vivemos um regime de exceção ou mesmo uma pseudo-democracia dominada por um poder estrangeiro. Somos, a maioria de nós, Estados legitimamente soberanos. (Soberanos o suficiente para permitir que um presidente aqui, um aprendiz de ditador acolá, fale mal à vontade dos EUA sem comprometer o saldo positivo da balança comercial.)

Falamos de oligarquias como se nossos países não tivessem mudado, já. Uma esquerda insiste em olhar com desconfiança para o industrial, o banqueiro ou o comerciante. É o industrial que, se tiver sucesso, vai aumentar o salário do pobre e permitir ao filho do pobre a oportunidade de ser classe média e, um dia, pequeno industrial. Não é má a idéia de um país de pequenos burgueses.

Insistir num ideal revolucionário nos distrai dos problemas reais. Temos, brasileiros, chilenos, argentinos, mexicanos, países melhores do que tivemos. Mas ainda temos vícios antigos. Um legislativo corrupto, por exemplo – embora, agora, a corrupção seja evidente e constantemente denunciada. É bom ter liberdade para tal. Nossas eleições, por conta da lei, ainda são viciadas. É preciso uma profunda reforma fiscal. Há problemas ainda mais graves e urgentes: educação, saúde e habitação. Destes, educação é o mais revolucionário no sentido de que transforma a sociedade de uma forma profunda. Lança num mundo de oportunidades uma turma que, apenas uma geração antes, estava condenada à pobreza.

Che está mais vivo do que nunca, nos sugere Fidel Castro. É hora de deixar Che descansar ao invés de tratar sua ossada como relíquia medieval. Foi um bom ícone pop. Uma direita e uma esquerda que tenham projetos para resolver os problemas que temos de fato, ao invés de combater problemas imaginados, é tudo o que a América Latina precisa.

Subcomandante Marcos em seu aniversário

19/July/2007 - 12h16 - 50 Comentarios

No submundo, longe das esferas de poder, em todos os cinco continentes, uma revolução está para vir. É a nova guerra mundial que recuperará para o povo sua terra e na qual o meio ambiente será prioritário.

É o que anda dizendo, por estes dias, Rafael Sebastián Guillén Vicente.

O subcomandante Marcos, líder zapatista, treze anos atrás, desafiou no México o governo de Carlos Salínas.

Sua visão de México não rendeu muitos frutos, mas num tempo em que o neoliberalismo parecia a quimera dos países em desenvolvimento e o México era um de seus símbolos, os zapatistas chamaram atenção para o óbvio. O povo índio, no sul do país, continuava pobre, muito pobre. A rebelião do Subcomandante Marcos marcou um período de profunda mudança política, no México.

Quando tudo terminou, o PRI de Salinas deixou o poder após mais de 70 anos.

Hoje, segundo o analista político Juan Pardinas, Marcos transformou-se num ‘líder amargo de uma esquerda marginalizada, um homem que não soube manter a aura heróica que tinha em 1994′.

O subcomandante continua com gorro cobrindo-lhe o rosto e cachimbo. É dia de seu aniversário. Faz 50 anos.

A globalização do país rachado

03/October/2006 - 00h01 - 236 Comentarios

No início de julho deste ano, Andres Manuel Lopez Obrador disparou uma crise no México que ainda não foi de todo desarmada. Nas eleições do dia 2, ele, candidato do Partido da Revolução Democrática de esquerda, perdeu por pouco. Muito pouco. Felipe Calderón, candidato preferido do presidente Vicente Fox, representante do Partido da Ação Nacional, teve 0,58% mais.

O sul rural e pobre do México votou em peso em Obrador, o norte mais rico seguiu com Calderón. Obrador quis uma recontagem de cada voto, conseguiu a parcial das cédulas em dúvida que terminaram por confirmar o resultado.

Numa eleição assim tão próxima entra o imponderável: fosse um dia antes, fosse outro depois; se houvesse caído uma tempestade na região de eleitores do outro; se uma palavra não fora dita. Porque no fim o resultado das eleições mexicanas querem dizer uma coisa simples: o México está rachado ao meio e o racha é geográfico. A distinção de classes sociais entre os eleitores de Calderón e os de Obrador é nítida, mas isto pode enganar. Os níveis de educação formal dos mais ricos são maiores, afinal.

Então Calderón é o eleito dos melhor educados? Cá não vai qualquer teoria que o explique, são sociólogos e antropólogos que têm a competência para dizer do que se trata. Só constatando o fenômeno.

EUA, em 2000: Al Gore recebeu os votos do norte, George W. Bush os do sul e do meio-oeste. A diferença entre os dois foi de 0,5% dos votos totais. Em 2004, a divisão geográfica entre votos de republicanos e de democratas se manteve, embora Bush tenha tido uma vantagem ligeiramente maior, terminando com uma diferença de 2,4%.

É possível sugerir que o nível educacional é mais alto no norte do que no sul dos EUA, mas não tanto. O que marcadamente diferencia as regiões é que o sul é mais rural, o norte mais urbano. E de certa forma o mesmo pode ser dito aos eleitores mexicanos: os rurais votaram em Obrador, os urbanos em Calderón.

Nenhum paralelo cai fácil, aqui: o rural votou na direita, nos EUA, e na esquerda, no México.

A diferença entre Alckmin e Lula é maior, há que esperar o Segundo Turno para garantir que o país está rachado. Mas parece: polarizado entre quem quer Lula e quem não o quer. O que é mais nítido é a divisão regional. O norte quer Lula, o sul não o quer.

Se há uma tendência mundial, se ela se explica por uma diferença de opinião entre urbanos e rurais talvez. A pergunta está em aberto.