Honduras, seus golpistas, Zelaya que grita e o incrível Evo Morales

14/July/2009 - 08h46 - 287 Comentarios

Em Honduras, o dinheiro que vem dos EUA, Europa e vizinhos na forma de ajuda internacional, compras e empréstimos, fundamental para a economia do país, está suspenso. 200 milhões de dólares se foram pela janela. As exportações de têxteis e café, que movem a economia, caem pela crise. O petróleo venezuelano não vem mais.

A estratégia do governo de facto do país é simples. Como faz duas semanas do Golpe, a pressão econômica ainda não foi sentida. O presidente imposto Roberto Micheletti considera que, se conseguir aguentar até novembro, quando há eleições marcadas, seu golpe sobrevive e tudo volta ao normal.

Enquanto isso, o presidente derrubado Manuel Zelaya grita, na impossibilidade de fazer qualquer outra coisa. Diz que considerará as tentativas de mediação por parte do presidente costarriquenho Óscar Arias fracassadas se, até uma reunião que ocorrer no sábado, não houver solução.

Dificilmente haverá. Micheletti aposta no tempo.

E este é o ponto fundamental da questão: ninguém disse, ainda, o que ocorrerá após as eleições presidenciais. O Los Angeles Times, em editorial, diz que o governo norte-americano deve deixar claro que, mesmo após eleições, Honduras permanecerá na lista negra por ter interrompido o caminho democrático.

É uma decisão complicada. Permanecer punindo um país inteiro? Ao que parece, os golpistas vão escapar.

Em Honduras, o cotidiano vai se normalizando. O toque de recolher foi suspenso – ‘aumentou a segurança do país’, informa o presidente imposto. Na Bolívia, Evo Morales já disse que considera que os EUA patrocinaram o golpe.

A América Latina, às vezes dá um desânimo…

Honduras e o que ela muda no jogo de poder das Américas

07/July/2009 - 14h01 - 92 Comentarios

O fotógrafo James Rodriguez, em seu blog, apresenta cenas dos protestos contra o Golpe em Honduras.

O complemento vem por conta de Alon Feuerwerker:

A situação pode mudar rapidamente, dada a precariedade do equilíbrio. A estratégia agora dos partidários de Zelaya é aprofundar o isolamento internacional do país, inclusive com mecanismos de bloqueio econômico. Contra Cuba o recurso não tem funcionado. Só que Honduras não é Cuba. Vamos aguardar.

Merece registro que os aliados continentais de Havana, inclusive o Brasil, peçam aos Estados Unidos pelo isolamento de Honduras. É a legitimação do papel hegemônico de Washington, contra o qual a esquerda latino-americana se batia, quando interessava. O demonizado George W. Bush deve estar sorrindo no Texas, enquanto Barack Obama, a pedido inclusive de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, faz uma faxina na biografia do antecessor.

Outro subproduto da inédita unidade continental em torno de Zelaya é a criação de um ambiente mais confortável para o Senado brasileiro votar a adesão da Venezuela ao Mercosul.

Os golpistas de Honduras se firmam no poder

06/July/2009 - 00h27 - 216 Comentarios

O avião venezuelano que levava o presidente deposto de Honduras Manuel Zelaya de volta a seu país não conseguiu aterrissar no aeroporto da capital, ocupado por veículos militares. Segundo o jornal espanhol El País, pelo menos um dos manifestantes pró-Zelaya morreu na confusão que se estabeleceu.

Desde o Golpe de Estado, a imprensa hondurenha opera sob pesada censura. Os hospitais vêm recebendo jovens feridos a bala pelo exército todas as noites, mas não há números certos. O premiê espanhol José Luis Zapatero se ofereceu para negociar um acordo que reconduza Zelaya ao poder – e, naturalmente, o governo imposto pela mão militar não se manifestou.

Pela primeira vez desde que expulsou Cuba, em 1962, a OEA expulsou um segundo país de sua formação por quebrar com a normalidade democrática – Honduras.

Com o exército nas ruas e a imprensa censurada, o governo provisório de Honduras continua se declarando democrático e gente sua aliada busca escrever artigos na imprensa do mundo tentando convencer alguém. Por enquanto, fora alguns setores da imprensa de direita aqui e ali, sem sucesso. Ainda assim, os golpistas parecem estar firmes no poder.

Sobre Honduras, sobre golpes

30/June/2009 - 17h56 - 165 Comentarios

Entendo os argumentos de quem diz que não houve golpe de Estado em Honduras. Não sou jurista, não conheço a carta constitucional hondurenha inteira, não me arrisco a interpretar um trecho da Constituição. E não tenho qualquer simpatia pelo chavismo.

Mas quebra da normalidade democrática na minha cartilha é golpe.

Faço um desafio: me citem um único caso na história democrática de uma deposição como esta. Precisa ter os seguintes detalhes:

1. O chefe do Executivo tem que ter sido deposto legalmente pelas Forças Armadas.
2. Tem que ter sido imediatamente exilado do país.
3. Após sua deposição tem que ter sido imposta censura total da imprensa.

Em que democracia algo assim aconteceu? Duvido que encontrem uma. Nenhum dos três procedimentos é democrático.

No caso de impedimento pelo Congresso, é o presidente do Congresso que informa o presidente do término de seu mandato. No caso de cassação judicial, há que ser alguém da Justiça. Lugar de exército é na caserna.

Forças Armadas e Democracia na América Latina

30/June/2009 - 14h26 - 81 Comentarios

Honduras não é o Irã – mas enquanto os golpistas latino-americanos tentam impor um toque de recolher, também lá a população vai às ruas e, também lá, os vídeos seguem o caminho do YouTube.

Terça-feira que vem, o presidente deposto Manuel Zelaya falará à ONU. CNN e demais canais internacionais de notícias estão fora do ar, enquanto os canais nacionais transmitem apenas aquilo que lhes determina o governo.

É evidente que havia um conflito institucional dentro de Honduras, com Legislativo e Judiciário de um lado, Executivo do outro. O precedente sério criado neste caso é a intervenção das Forças Armadas. A observação é feita Kevin Casas-Zamorra, cientista político do Brookins Institution, um dos principais centros de estudos políticos dos EUA.

Um referendo ilegal teve como resposta uma intervenção militar ilegal, com a suposta intenção de proteger a constituição. Como costuma ser o caso, a intervenção foi celebrada pela oposição a Zelaya. Durante a última semana, o Congresso vinha falando sobre o papel das Forças Armadas de ‘garantir a Constituição’, uma ideia sempre perturbadora na América Latina. Quando ouvimos algo assim, podemos esperar o pior. E o pior veio. No mínimo, estamos assistindo em Honduras ao retorno do triste papel dos militares como árbitros dos conflitos políticos entre civis, um passo para trás na consolidação da democracia.

Honduras e seu Golpe

29/June/2009 - 09h43 - 260 Comentarios

Foi golpe ou não foi golpe em Honduras? Uma pista é o fato de que do premiê canadense à presidente argentina, todos os chefes de governo das Américas continuam a reconhecer o presidente deposto, Manuel Zelaya, como líder legítimo do país. A OEA, Organização dos Estados Americanos, declarou que não reconhecerá o novo governo, o que põe os golpistas em Honduras numa situação delicada. Eles não têm como isolar o país.

Ainda assim, não custa lembrar, Zelaya partiu para o confronto institucional. Queria o direito à reeleição, e mesmo contra o voto do Congresso e uma decisão da Suprema Corte, forçou para promover um plebiscito. No domingo, o Congresso votou às pressas sua deposição, levada a cabo pelas Forças Armadas que invadiu o Palácio Presidencial, prendeu o presidente de pijamas e o pôs num avião com destino a Costa Rica.

Embora com disfarce de votação no Congresso, o caminho da legalidade num impeachment demora e com certeza não passa pela invasão da sede de um dos poderes por homens uniformizados com a imediata expulsão do governante.

É Golpe de Estado. Nenhuma tentativa de Golpe de Estado deu certo, nas Américas, desde o fim da Guerra Fria.