Avanço chinês sobre a América Latina

17/April/2009 - 03h34 - 49 Comentarios

Enquanto o presidente norte-americano Barack Obama se prepara para a reunião que terá com seus pares latino-americanos, no fim de semana, o New York Times dá destaque ao avanço chinês na região. O continente – não surpreenderá a muitos – foi conhecido por décadas como quintal dos EUA. O abandono político do governo George W. Bush, no entanto, abriu espaço que foi devidamente ocupado.

A China vai bancar os custos de um bilhão de dólares para uma hidrelétrica no Equador, investirá 12 bilhões na Venezuela, emprestará 10 bilhões para a Argentina e outros 10 seguirão para os cofres da Petrobras. O gigantesco País do Centro tem dinheiro e está gastando. Gasta com critério: os argentinos aproveitarão o alívio do empréstimo para comprar produtos chineses, os brasileiros agradecerão o investimento garantindo exportação de petróleo, mesma promessa venezuelana.

No caso específico da Argentina, o empréstimo seguirá em yuans, a moeda chinesa. É para importar mesmo, um ajuda que chega em boa hora, quando os vizinhos ao sul andam com o crédito em baixa e os EUA recusam-se a dar mais.

Não é, de forma alguma, jogo perdido para os EUA. Mas, em Washington, o alerta foi bem compreendido.

O que mata na questão é que Obama tem uma brutal crise econômica com a qual lidar. A China, por outro lado, parece ter motivos para otimismo. Cresceu no primeiro trimestre do ano num ritmo maior do que no trimestre anterior. As exportações continuam em baixa, mas segundo a revista britânica The Economist, os indicadores sugerem que o ano chinês não será tão terrível quanto previsto inicialmente.

Para o resto do mundo – incluindo para os EUA –, a notícia é excelente.

Roberto Viciano, pai das Constituições
de Venezuela, Bolívia e Equador

17/February/2009 - 04h06 - 258 Comentarios

Na juventude, Roberto Viciano Pastor pertenceu ao grupo católico de extrema-direita Fuerza Nueva, que nos anos 1960 defendia a ditadura de Francisco Franco na Espanha. Hoje, ele é o pai intelectual das constituições de Venezuela, Bolívia e Equador. No Equador, por seus trabalhos de consultoria na confecção da Carta, a equipe de Viciano recebeu 120.000 dólares. A oposição, nos três países, sugere que os espanhóis são de fato autores das constituições. Eles negam, dizem que seu auxílio é meramente técnico.

Uma reportagem do Washington Post, hoje, tenta jogar alguma luz na história de Viciano e seu grupo, o Centro de Estudos Político e Sociais, da Universidade de Valença. Viciano é ligado ao Partido Comunista Espanhol e defensor do separatismo basco. É dele a sugestão de adotar um parlamento unicameral, na Venezuela, que dilui o poder do Legislativo.

O trabalho do CEPS nos três países se dá no sentido de promover mudanças radicais na forma de governo mantendo uma estrutura constitucional. Em comum, as três Cartas tratam da re-fundação de seus países para corrigir injustiças históricas em torno de um ideal mítico, seja a memória de Simón Bolívar, seja a cultura das populações indígenas locais. Na prática, as Cartas sob orientação do CEPS promovem a concentração de poder nas mãos do Executivo.

Em janeiro, segundo o Post, Viciano criticou duramente as mudanças promovidas pelo Legislativo da Bolívia na Constituição. Ele considerou que o governo cedeu demais à oposição. ‘É algo que aqueles que se chamam de revolucionários não entendem: numa revolução, não é possível chegar a um consenso. Ou você tem uma revolução ou não tem.’ Um democrata.

Antes que alguém saque do bolso uma teoria conspiratória, não custa lembrar: entre os depoimentos recolhidos pelo Washington Post estão indícios de que há discordâncias entre Viciano e seus companheiros de CEPS. E, embora pelo menos no Equador os boatos correntes são de que os cientistas políticos são os autores de fato da Constituição, isso não é necessariamente verdade.

Agora que Hugo Chávez tem direito a se reeleger infinitamente, é hora de conhecer melhor este grupo de espanhóis. Há um conceito novo de revolução de esquerda sendo testado na América Latina, uma revolução constitucional idealizada por um ex-fascista tornado comunista. (Em geral, o caminho dos radicais vai da esquerda na juventude à direita na velhice, mas sempre há exceções.) Aquilo que Viciano montou é extremamente inteligente: concentra poder, mas mantém eleições e ornamenta tudo com uma Constituição populista, não raro apoiada por plebiscito popular.

Tem cara, cor e cheiro de democracia mas quem olha de muito perto fica na dúvida. Se é sustentável ao longo da história e para além da baixa do preço do barril de petróleo? Os próximos anos o dirão. Mas, se havia alguma dúvida, agora não há mais: existe base teórica e trabalho de profissionais do ramo no principal experimento político em curso na América do Sul.

Rafael Correa, o nome que se
destaca na crise

05/March/2008 - 19h21 - 355 Comentarios

Foram atribulados os últimos dias. Entre Israel e Palestina, eleição dos EUA e as eleições municipais cariocas, estive no jornal profundamente engajado com o Brasil em tempos de colônia. A multitarefa há de ser característica feminina. Masculina, sei que não é. Daí que sobrou para a crise andina sobre a qual não sei o que penso.

Sem qualquer simpatia por Uribe ou por Farc, muito menos por Chávez, ando buscando nos sites e jornais algo que ajude a compreender o que passa. Daí que peço vênia aos prezados leitores e, na falta de idéias próprias, tomo emprestadas de novo as do Sergio Leo. Em jornal não pode disso, mas na blogosfera pode.

Nessa confusão toda, quem revelou uma maturidade de chefe de Estado foi o presidente Rafael Corrêa, que certos comentaristas, no Brasil, por motivos ideológicos, insistem em classificar no time dos porra-loucas esquerdistas. Sem gestos teatrais, ainda que suba o tom nas declarações aqui e ali, está fazendo o que lhe cabia, um périplo pela vizinhança, para obter apoio em uma reação contra Uribe. Considerando que há sérias acusações colombianas contra o Equador e Venezuela por suas ligações com as Farc, ele consegue, também, explicar o que pode ser apenas uma legítima negociação do governo equatoriano para liberar reféns e evitar problemas com os guerrilheiros. Usar o argumento de incursão preventiva, como fza o governo colombiano, é um péssimo precedente para a região.

As acusações de Uribe são graves, mas longe de serem incontestáveis. Algumas são verossímeis. Outras parecem recurso para desviar a atenção e legitimar a invasão que fez ao Equador.

A análise do Sergio vai além destes dois parágrafos e está publicada no sempre excelente, deliciosamente humorado e infelizmente bissexto Ralações internacionais.

Colômbia, Venezuela, Equador
e o impasse das Farc

04/March/2008 - 00h41 - 49 Comentarios

Invasões por parte da Colômbia são rotina na América do Sul. Mas aquilo que parecia mais uma crise rotineira se agravou imensamente – e não porque o Equador rompeu relações diplomáticas com a Colômbia.

A Colômbia acusa a Venezuela de financiar as Farc e o Equador de manter relações diplomáticas com a guerrilha. Segundo o governo colombiano, documentos encontrados nos computadores das Farc apreendidos na operação que custou a vida do líder guerrilheiro Raúl Reyes mostram um influxo de caixa de 300 milhões de dólares que vieram de Hugo Chávez.

Não ajuda em nada que, em meio à tensão, Chávez tenha deslocado tropas para a fronteira. Põe lenha na fogueira. O Brasil, tentando ajeitar a situação, quer Chávez fora das discussões e algum tipo de acordo que inclua apenas Colômbia e Equador. Para isto, é preciso antes que a Colômbia apresente um pedido formal de desculpas.

A OEA se reunirá para debater o assunto.

Mas há um impasse à mesa. A Colômbia está fazendo uma acusação inédita e alega ter provas. Se o Equador tinha relações diplomáticas com as Farc, é grave. Se a Venezuela financiava uma guerrilha golpista num país vizinho, é mais grave ainda. Chávez terá passado de todos os limites. Se as acusações são falsas, é gravíssimo. A semana será tensa.

O Equador, a Colômbia e uma aula
de como não lidar com as Farc

03/March/2008 - 10h03 - 252 Comentarios

O exército colombiano invade o território de seus vizinhos a toda hora. Em 1998, chegou a tomar uma base militar brasileira no Amazonas.

Às vezes os governos vizinhos reclamam oficialmente. Outras vezes, fingem que não viram.

Hugo Chávez adora convocar de volta um embaixador e bater os tambores militares. É tudo da boca para fora. As relações comerciais seguem intactas sempre.

Rafael Correa, como Evo Morales, fazem de tudo para soar como Chávez.

Até aí, não há rigorosamente nada de novo sob os céus da Sudamérica.

O anúncio de que o governo equatoriano tem vínculos com as Farc é mais delicado.

A negociação com uma guerrilha que transita em seu território nacional é, muitas vezes, necessidade política. No caso do Equador, seria justificável ter uma porta de negociação com as Farc por dois motivos: impedir que o levante vaze para seu país e impedir que equatorianos morram eventualmente. Intervir nas negociações que incluem as operações das Farc só é legítimo com o consentimento do governo colombiano. (Foi o caso da intermediação de Hugo Chávez para a libertação de reféns.)

As duas mensagens do governo equatoriano para o líder das Farc morto no sábado não tratam de nenhum destes casos.

Pedem ajuda das guerrilhas colombianas para organizar movimentos de massa na fronteira, propõem cooperação na segurança de fronteira e solicita uma chance de explicar à chefia das Farc como o Plano Equador pode conter os danos causados pelo Plano Colômbia.

O Plano Colômbia é aquele dos EUA de auxílio ao governo colombiano para combater as Farc e o tráfico de drogas relacionado a ela. O Plano Equador é a política de defesa equatoriana estabelecida pelo governo Correa.

Não é apenas uma clara interferência na gestão da Colômbia. É também de uma subserviência incrível.

Atualização – Revendo o texto, percebi que fui condescendente com a invasão de território equatoriano pela Colômbia. É claro que não pode. Apenas é preciso enfatizar que este é um hábito colombiano de muitos anos. A questão é que há um problema sério se o governo Correa está cultivando acordos que indicam um processo de aliança com um grupo armado cujo objetivo é dar um golpe militar no país vizinho.

Atualização 2 – Havia acima a informação de que a Venezuela já havia invadido o Brasil. A fonte era falsa, como com profunda gentileza me lembrou meu amigo Marcus Pessoa.