Quem tem medo de Internet?

10/July/2009 - 02h10 - 92 Comentarios

internet

É certamente injusto sugerir que Hugo Chávez busca conter a Internet como Raúl Castro e Mahmoud Ahmadinejad. Mas as imagens no blog de Lia Caldas são divertidas ainda assim.

Ahmadinejad de terno branco qual ditador cucaracho é imbatível.

Honduras e o que ela muda no jogo de poder das Américas

07/July/2009 - 14h01 - 92 Comentarios

O fotógrafo James Rodriguez, em seu blog, apresenta cenas dos protestos contra o Golpe em Honduras.

O complemento vem por conta de Alon Feuerwerker:

A situação pode mudar rapidamente, dada a precariedade do equilíbrio. A estratégia agora dos partidários de Zelaya é aprofundar o isolamento internacional do país, inclusive com mecanismos de bloqueio econômico. Contra Cuba o recurso não tem funcionado. Só que Honduras não é Cuba. Vamos aguardar.

Merece registro que os aliados continentais de Havana, inclusive o Brasil, peçam aos Estados Unidos pelo isolamento de Honduras. É a legitimação do papel hegemônico de Washington, contra o qual a esquerda latino-americana se batia, quando interessava. O demonizado George W. Bush deve estar sorrindo no Texas, enquanto Barack Obama, a pedido inclusive de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, faz uma faxina na biografia do antecessor.

Outro subproduto da inédita unidade continental em torno de Zelaya é a criação de um ambiente mais confortável para o Senado brasileiro votar a adesão da Venezuela ao Mercosul.

Cuba bem-vinda na OEA

03/June/2009 - 19h17 - 67 Comentarios

Os chanceleres reunidos na OEA votaram, hoje, pelo reestabelecimento da presença de Cuba na organização. Há duas condições: que Cuba peça para retornar e que concorde com as exigências relativas a direitos humanos da organização.

É uma derrota diplomática dos EUA e mostra de que a Organização dos Estados Americanos não é uma entidade subordinada aos interesses norte-americanos. A decisão também desmente uma das premissas de meu post anterior: a diplomacia latino-americana não estava testando o nível de cooperação dos EUA de Obama. Foram em frente e votaram.

Cuba ainda não se manifestou.

Cuba, a OEA e a pressão sobre os EUA

03/June/2009 - 11h58 - 64 Comentarios

Atualização – Cuba foi reincluída na OEA, o post acima trata disso.

Se trazer Cuba de volta à OEA (Organização dos Estados Americanos) fosse realmente a intenção dos líderes da América Latina, a decisão teria sido tomada ontem. Todos os países latinos do continente são favoráveis, do outro lado apenas EUA e Canadá. Reincorporar Cuba não era a intenção. Há votos mais do que suficientes. A intenção era outra: botar os EUA contra a parede.

Conseguiram.

Oficialmente, Cuba afirma que não tem qualquer interesse de participar da OEA. É doce. Sua inclusão no grupo traria uma incrível legitimidade internacional, coisa que o regime precisa.

Mas, na OEA, essa é uma daquelas discussões difíceis na qual ambos os lados têm razão.

Quando Cuba foi excluída, numa reunião no Uruguai, em 1962, a razão oficial declarada foi que ‘a aderência de qualquer membro da OEA ao marxismo-leninismo é incompatível com o sistema interamericano e o alinhamento de qualquer governo com o bloco comunista quebra a unidade e a solidariedade do hemisfério’.

Aos ouvidos contemporâneos, soa como uma razão datada e um tanto autoritária. A orientação ideológica de cada governo cabe a ele decidir. E o mundo já não tem sua geopolítica dividida pela Guerra Fria há quase duas décadas. Quando os ministros das relações exteriores latino-americanos argumentam que as razões não se sustentam mais, eles têm razão.

Mas, pelo lado norte-americano, Hillary Clinton diz que Cuba deveria conduzir sua política de Estado de acordo com as diretrizes da OEA. Ou seja: deveria ser, como os outros países do hemisfério, uma democracia. É evidente que os EUA tem suas próprias neuroses com Cuba. Mas antes de descartar seus argumentos com base nas idiossincrasias de Washington, é bom lembrar que tem gente muito boa de seu lado.

É o caso da ong Human Rights Watch. Poucas entidades são tão confiáveis quanto esta pois poucas são tão imparciais. Batem em todo mundo. Diretor para as Américas da HRW, José Miguel Vivanco lembra que Cuba é o único país da região que ainda faz prisioneiros políticos. Em 2003, 75 jornalistas, lideres sindicais e militantes da causa dos direitos humanos foram presos pelo regime de Fidel Castro; 54 destes permanecem nas prisões de Raúl. Cuba, não custa lembrar, é o único país da região que não realiza eleições. É uma ditadura – ditadura mesmo, sem figura de expressão.

Um argumento contrário é o de que ser ditadura ou não jamais foi problema. Afinal, de 1962 para cá quase todos os membros passaram por regimes fechados sem que isso jamais ofendesse sensibilidades norte-americanas. Historicamente, o argumento é correto. Mas também é correto dizer que, de 1962 para cá, todos os que viveram períodos de interrupção de suas democracias já resolveram o problema. Não é o caso cubano.

A OEA é um organismo de cooperação diplomática que ajuda um quê na negociação comercial entre seus membros mas, principalmente, serve de sistema jurídico internacional, uma última instância à qual recorrer para questões, justamente, como as de direitos humanos. É à OEA, por exemplo, que as famílias das vítimas da tortura no Brasil pretendem recorrer para questionar a legalidade internacional da Lei da Anistia brasileira.

Há dois grupos distintos entre as nações latino-americanas que pretendem trazer Cuba de volta ao grupo. Um, composto por Venezuela e Nicarágua, é movido por um intenso sentimento pró-Cuba e anti-EUA. Não se trata de política sofisticada. Outro, que reúne a maioria dos países, vê três pontos. O primeiro é que o argumento para excluir Cuba, em 62, não faz mais sentido; o segundo é que a fricção das relações entre EUA e Cuba são ditadas mais por uma certa histeria do que por pragmatismo diplomático. O terceiro e mais importante é que, trazendo Cuba de volta à OEA, haverá um instrumento para cobrar de Cuba o tipo de respeito aos direitos humanos e à liberdade que o regime, hoje, nega a seus cidadãos.

Os EUA não questionam o primeiro motivo e, nos bastidores, tampouco discutem o segundo. Há mais gente no governo Obama convencida de que a política para com Cuba é irracional do que jamais houve em qualquer governo norte-americano desde a descida da Sierra Maestra. (Cuba mexe com irracionalidades do outro lado, também.)

O que Washington considera irreal é o terceiro argumento. Em 2007, Cuba aderiu formalmente ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. Não fez qualquer diferença. A ilha continua negando a entrada de inspetores da ONU que gostariam de conferir pessoalmente a situação dos direitos humanos no país. Estas são visitas rotineiras – o Brasil as recebe toda hora, e sempre leva uma surra no relatório final. A readmissão em troco de nada por parte da OEA seria premiar Cuba sem conseguir qualquer contrapartida.

É mais provável que os diplomatas de Hillary Clinton tenham razão do que o contrário. Mas existe um outro jogo, paralelo, sendo jogado – e este nada tem a ver com Cuba. Barack Obama foi eleito dizendo que tocaria um governo sensível à voz de outras nações.

Se quisessem ter incluído Cuba na OEA, os chanceleres das Américas o teriam feito. Mas passaram os últimos dias fazendo algo diferente: seu objetivo primordial era testar a nova diplomacia norte-americana.

EUA esperam gesto de Raúl Castro

20/April/2009 - 01h56 - 38 Comentarios

O tom na imprensa aqui nos EUA é de franco otimismo – ‘A política anti-Cuba dos EUA está derretendo’, sugere a CBS. Na verdade, nem tanto. A política continua a mesma, o discurso é que mudou. Cidadãos dos EUA terão permissão de viajar para Cuba e empresas de telecomunicações serão autorizados a instalar cabos de fibra ótica, conexões de banda larga para Internet e roaming para celulares. É o que o presidente pode oferecer com canetada. Afrouxar o embargo comercial, só com aval do Congresso.

Em visita à Venezuela na semana passada, Raúl Castro disse à imprensa que estava disposto a conversar sobre qualquer assunto: prisioneiros políticos, liberdade de imprensa, direitos humanos. Castro impõe apenas uma condição: que a conversa seja de igual para igual.

O problema é que as partes não têm o mesmo tamanho. Foi uma semana agitada para a política das Américas, com direito a fim de semana de Obama trocando gestos de afeto até com Hugo Chávez. O gesto dos EUA – permissão de visitas e comunicações – é muito discreto. Raúl Castro, se quiser abrir espaço, terá de fazer um gesto bem mais ousado do que este. Terá, provavelmente, que abrir as portas das cadeias para prisioneiros políticos.

O foco das próximas semanas e meses é esse. Os EUA não se mexerão mais, a hora é de Raúl. Se há uma chance de a antiquíssima briga entre os dois países chegar ao fim, dependerá do ditador cubano.

Na Cuba pós-Fidel

20/March/2009 - 00h23 - 77 Comentarios

O ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, razoavelmente respeitado por sua atividade acadêmica e autor de uma biografia de Che Guevara, surpreendeu ao publicar um artigo na revista Newsweek, no qual afirma que um golpe foi abortado em Cuba. No texto, ele diz que o então vice-premiê cubano, Carlos Lage, e o então chanceler, Felipe Pérez Roque, conspiraram para derrubar o presidente Raúl Castro – com a ajuda do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Segundo Castañeda, Lage e Roque, ‘que procuraram Chávez ou foram procurados por ele’ para ajudar no golpe, entendiam que Raúl estava disposto a fazer concessões em demasia, colocando em risco a revolução cubana. Chávez teria procurado apoio de outros líderes latino-americanos para a empreitada, diz Castañeda. A trama foi descoberta, e Lage e Roque, afastados.

Pescado do Marcos Guterman. As especulações do Castañeda são dele, quem vai prová-las? Não é de todo impossível que Pérez Roque e Carlos Lage tenham querido tomar o poder. Com a saída de Fidel, a linha dura que eles representam perdeu muito da influência que tinha. A participação de Chávez já parece forçada.

A informação que circula no governo aqui dos EUA é de que Fidel não existe mais. Ninguém acha que está morto. Apenas que seus momentos de lucidez são cada vez mais espaçados. Sua coluna na imprensa não é escrita por ele, um velho truque em ditaduras. Fidel continua ‘presente’, mas é a máquina de propaganda do governo que fala através do texto. A assinatura é de Fidel; a voz, de Raúl.

O governo Obama pretende liberar visitas dos cubano-americanos a Cuba, além de permitir livre remessa de bens e dinheiro. O objetivo é facilitar a vida do povo cubano e ganhar simpatia para os EUA. Há um segundo objetivo: na Casa Branca, acreditam que se os cubano-americanos enviarem muito dinheiro para suas famílias na Ilha, uma segunda economia, livre da influência do governo, poderá se formar. É verdade que por um lado, a economia melhora, o que conta pontos para Raúl. Por outro lado, é um aceno de boa vontade. Obama está disposto a conversar. Fidel não estava. Estará Raúl?

Promessas que Obama não cumprirá (1 de 3)
Conversas incondicionais com inimigos

20/October/2008 - 11h59 - 45 Comentarios

Como todo político, durante sua campanha Barack Obama fez promessas e algumas delas definiram como ele é percebido pelo eleitorado. Neste momento, Obama tem mais chances de ser eleito presidente do que John McCain.

Este é o primeiro de uma série de três posts: as promessas que Obama não será capaz de cumprir, caso chegue à presidência. Os outros virão amanhã e quarta-feira.

Na quinta e na sexta-feira, haverá uma outra série, esta de dois posts. O que é possível saber nos programas e promessas de John McCain (na quinta) e Barack Obama (na sexta) que interferem no Brasil.

Mas, antes, a uma introdução. É um fato da política que é impossível passar por uma campanha sem promessas que não serão cumpridas. Por isso mesmo, o trabalho de escolha do eleitor sofisticado não é simples. Ele precisa entender que políticos exageram e que, sem exageros, não conseguem se eleger. Este eleitor precisa ser tolerante, também, com uma certa dose de alianças. Precisa compreender que políticos precisam se unir a outros e que este processo nem sempre é bonito.

A maioria do público cobra afirmações peremptórias e certezas, mas a arte de governar é cheia de indecisões e improviso; verdades pétreas, dogmas, não têm espaço. As promessas devem ser compreendidas – vindas de qualquer político – como uma tendência a uma determinada posição, mas não como uma posição imutável. Isto posto:

Barack Obama não se encontrará incondicionalmente com chefes de Estado.

Em julho de 2007, durante o debate CNN/YouTube, Obama foi perguntado se ele se encontraria incondicionalmente com os líderes de países como Coréia do Norte, Irã, Cuba e Venezuela. Ele respondeu categoricamente: sim. Na seqüência, Hillary Clinton informou que ela, enquanto presidente, pessoalmente, não o faria. Mas que seu governo investiria sim em diplomacia. Gente nos segundo e terceiro escalões procurariam conversas. Hillary estava simplesmente repetindo aquela que é a política do Partido Democrata há décadas. Não há nenhum mistério aqui. O governo George W. Bush tentou inovar ‘punindo’ países com ausência de diplomacia. Não conseguiu rigorosamente nada, acirrou alguns ânimos, e teve que se engajar agora no fim. Aqui está a resposta que iniciou tudo:

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É impossível saber porque Obama, naquele dia, disse que se encontraria pessoalmente com Kim Jong-Il e seus pares. Eram debates com muitos candidatos nos quais a maioria dos eleitores não estava prestando atenção. Talvez ele mesmo, distraído, tenha achado que a pergunta se referia a seu governo e não a ele mesmo. O fato é que foi uma resposta tão diferente que ganhou manchetes nos dias seguintes. Obama se destacou, talvez por acidente. E, como é pecado mortal voltar atrás numa afirmação, Obama ficou preso a ela.

Durante as primárias, a afirmação agiu em seu favor. O que os pré-candidatos democratas tinham para diferenciar um do outro, afinal, eram suas personalidades. A plataforma de todos eles é a plataforma do Partido. Diferenças mínimas de opinião. Quando a eleição se acirrou entre Hillary e Obama, eles se agarraram aos pequenos detalhes para se distanciarem um do outro. E, naquele momento, as ‘conversas incondicionais’ viraram um tema forte. Hillary batendo, Obama defendendo. Ao insistir tanto no caminho da responsabilidade, Hillary se colocou numa posição que parecia criticar a diplomacia. Estava mais próxima das políticas de George W. Bush do que de sua oposição. Como disputavam o comando do partido de oposição, este foi um dos fatores que fortaleceu Obama e a enfraqueceu.

Mas, desde que as eleições presidenciais de fato começaram, muito cautelosamente, para que ninguém o acuse de flip-flop, de vira-casaca, Obama tem voltado atrás. Conversas incondicionais com líderes? Claro, mas com negociações preparatórias antes, disse em um debate. Mahmoud Ahmadinejad não é realmente o líder do Irã, alertou numa entrevista, dizendo que com Ahmadinejad provavelmente não se encontrará. Talvez com o aiatolá Khamenei.

A mensagem importante aqui é: enquanto presidente, Barack Obama vai investir pesadamente em diplomacia. Ele estará disposto a se encontrar com líderes estrangeiros para grandes acordos. Mas nenhum encontro do tipo será incondicional. Esta é uma promessa que ele não cumprirá.

A Rússia quer Venezuela e Cuba?

19/August/2008 - 11h58 - 85 Comentarios

O analista de política latino-americana Carlos Alberto Montaner, um cubano badalado na imprensa hispanoablante, tem uma teoria a respeito dos próximos passos russos: Cuba ou Venezuela.

Hugo Chávez, em visita a Moscou, já havia mencionado a possibilidade de uma base militar russa na Venezuela. A própria Rússia já havia soltado um balão de ensaio cogitando a inclusão de Havana entre os aeroportos pelos quais aviões militares russos fazem escalas regulares.

Conforme a OTAN seduz a Ucrânia e os EUA insistem em uma rede de mísseis na Polônia e na República Tcheca, os russos mexem suas peças de xadrez como se o ano fosse 1960.

Mas o ano não é 1960 e a Rússia não é uma potência mundial. Suas ações afetam diretamente a Europa e os vizinhos imediatos na Ásia. Mas não muito mais. Os países/grupos que têm realmente o poder de influenciar a economia ou a política de todo o mundo com um espirro são China, EUA e, quando consegue agir em bloco, União Européia.

Putin está, evidentemente, dedicado a mudar este quadro. Não quer dizer que consiga.

Que falam sobre o Brasil
McCain, Obama e Hillary

12/February/2008 - 00h30 - 123 Comentarios

E o que pensa o futuro presidente dos EUA a respeito de Brasil e América Latina? Os trechos foram pescados dos artigos que fizeram publicar na prestigiosa Foreign Affairs, revista do Conselho de Relações Exteriores.

Tanto McCain quanto Obama endereçam frontalmente – e favoravelmente – uma questão cara ao Itamaraty, que é poder no Conselho de Segurança da ONU ou algo semelhante. Quando se referem ao Brasil, não é no contexto ‘América Latina’ – é no contexto poder mundial. Hillary é vaga – e cita o país como estratégico apenas regionalmente.

John McCain:

John Kennedy descrevia os povos da América Latina como ‘nossos amigos mais firmes e antigos, unidos a nós pela história e experiência e pelo objetivo de levar à frente a civilização americana’. Os países do continente são nossos parceiros naturais mas a desatenção dos EUA danificou esta relação. Precisamos melhorar a relação com o México para controlar a imigração ilegal e enfrentar os cartéis de drogas. Outro cuja relação precisa atenção é o Brasil, parceiro cuja liderança perante as forças de paz da ONU no Haiti serve de modelo para o cuidado com a segurança regional. Meu governo vai dar a estas e outras grandes nações da América Latina uma voz forte da Liga das Democracias – uma voz que lhes é negada no Conselho de Segurança da ONU.

Precisamos trabalhar juntos para enfrentar a propaganda de demagogos que ameaçam a segurança e a prosperidade das Américas. Hugo Chávez desmontou a democracia venezuelana ao diminuir a importância do parlamento, do judiciário, da imprensa, dos sindicatos livres e das empresas privadas. Seu regime está comprando equipamento militar avançado. Ele deseja construir um eixo global anti-EUA. Meu governo vai se dedicar a marginalizar tais influências nefastas. Também vai se preparar imediatamente para a transição de Cuba para a democracia ao desenvolver um plano em conjunto com parceiros da região e da Europa engajados num regime pós-Fidel. Queremos mudanças rápidas naquele país que sofre há tanto tempo. Precisamos investir na passagem criada pelo CAFTA – Acordo Centro-Americano de Livre Comércio – ratificando outros acordos de comércio já negociados com Colômbia, Panamá e Peru com o objetivo de completar o processo da ALCA – Área de Livre Comércio das Américas.

Barack Obama:

Precisamos da colaboração das grandes nações para lidar com as grandes questões globais – e isto inclui os poderes emergentes como Brasil, Índia, Nigéria e África do Sul. Precisamos que eles tenham mecanismos para ajudar na manutenção da ordem internacional. Para que isto aconteça, a Organização das Nações Unidas precisa ser reformada. A gerência da Secretaria Geral da ONU é fraca. As operações das tropas de paz vão muito além de sua capacidade real de ação. O novo Conselho de Direitos Humanos da ONU passou oito resoluções condenando Israel – mas nenhuma condenando o genocídio em Darfur ou os abusos dos direitos humanos no Zimbabwe. Nenhum destes problemas será resolvido se os EUA não voltarem a se dedicar à ONU e a sua missão.

Na América Latina, do México à Argentina, falhamos ao enfrentar as questões da imigração, igualdade e crescimento econômico.

Hillary Clinton:

Impondo um risco a nós, o governo Bush foi negligente com nossos vizinhos ao sul. Presenciamos, em parte da América Latina, ao surgimento de obstáculos para o desenvolvimento de democracias e abertura econômica. Devemos tornar a uma política de negociação, questão por demais crítica para que os EUA assistam a tudo impassíveis. Devemos dar apoio às maiores democracias regionais, Brasil e México, e aprofundar nossa relação econômica e estratégica com Argentina e Chile. Precisamos continuar a cooperar com nossos aliados na Colômbia, na América Central e no Caribe para combater as ameaças interconectadas do tráfico de drogas, crimes e insurgências. Por fim, devemos trabalhar com nossos aliados para prover programas de desenvolvimento sustentado e criar oportunidades econômicas que reduzam desigualdade entre os cidadãos da América Latina.

Fidel, Chávez, América Latina e o Che
que morreu para nos salvar

15/October/2007 - 07h29 - 151 Comentarios

Fidel Castro reapareceu – e, desta vez, o comandante conversou ao vivo pelo rádio com o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu programa Aló, presidente. (O El País tem o áudio.) Falaram sobre a memória do Che.

Fidel crê que o projeto de uma revolução por país em toda América Latina prometida por seu ex-companheiro de batalha está a caminho e que só a estupidez das oligarquias locais não o percebe. O objetivo de Che, fazer com que continente explodisse em vários Vietnãs, já se concretizou em pelo menos três casos: a Venezuela, a Bolívia e o Equador. E que a resistência aos EUA, em tempos de George W. Bush, é mais pertinente do que nunca.

É o tipo do discurso que a direita paranóide adora.

A memória de Ernesto Guevara de la Serna está em disputa. A imprensa brasileira lhe dedicou muitos registros e pelo menos duas capas que entram em evidente conflito. À esquerda está a hagiografia da Caros Amigos; à direita, a ‘ódiografia’ da Veja. São, ambos, textos de um jornalismo que nasce da defesa de uma ideologia. Nos 40 anos de sua morte, este Weblog limitou-se a publicar uma nota. Foi um erro. Entender Guevara, ou ao menos, como Guevara é percebido, parece ser muito importante para nos entendermos, latino-americanos. E, para isso, é preciso antes compreender que o Che do pôster e Ernesto Guevara são pessoas diferentes.

O Che do pôster compreendemos quando nos vemos pelo que realmente somos: ibéricos. Espanhóis e portugueses. Isto quer dizer que temos um ‘DNA’ cultual profundo, arraigado. Somos programados a reagir de uma maneira específica a determinados estímulos informativos, a determinadas imagens, a determinados discursos. Imagine um peregrino espanhol no século 15 traçando exausto o caminho para Santiago de Compostela e este somos nós. Esperamos o Salvador. Achamos sempre que está tudo ruim e que vai piorar até que o Salvador denunciará as injustiças e reestabelecerá a ordem e trará o fim do sofrimento. Milenaristas. Sebastianistas. Che é o Antonio Conselheiro.

Substitua no discurso de Fidel e Chávez ’socialismo’ pelo ‘reino dos céus’, substitua a boina do retrato de Che por uma coroa de espinhos e temos um discurso que se revela pela identidade cultural profunda de nós latinos que é católica e messiânica até a alma.

A leitura jungiana não tem nada de original. O sociólogo José de Souza Martins já a evidenciava no Estadão do último dia 7. E a Economist também o diz na edição desta semana. Isto só quer dizer que, provocados pela imagem do homem de barba com o olhar cheio de esperança ou pelo discurso de ¡Hasta la victoria, siempre! contra as injustiças do mundo nos comovemos e acreditamos do fundo do coração. Estamos programados para isto.

Evidentemente, o Che é uma figura muito maior do que foi Ernesto Guevara. Guevara foi um idealista dogmático. Era um soldado que, em mais de um momento, ordenou a execução de pessoas. Em alguns casos, no ambiente da guerrilha, disparou o revólver ele próprio contra quem suspeitava traidor. Há reportagens que o acusam de ser um assassino frio – mas aí é onde o jornalismo, que lida com fatos, é comprometido pela ideologia. Quem o diz? Se não sabemos se deixava de dormir à noite, que pesadelos o atordoavam, como saber da frieza ao apertar o gatilho? Guevara não era um Pinochet. Ou um Stálin. Não foi um genocida. Foi, isto sim, um fracassado. Acreditou que iniciaria muitas revoluções mas os índios não estavam nem aí para sua guerrilha. A esquerda acha que precisa dele como Salvador e a direita precisa transformá-lo no anjo caído. Em vida, talvez tenha sido mais como um personagem de Monty Python, um Brancaleone: um asmático ofegante nas montanhas bolivianas, cheio de sonhos de grandeza, tentando convencer o povo a seguí-lo. E os camponeses só olhavam. Um líder sem liderados.

A Veja já fez bom jornalismo. Em 1997, quando completavam-se 30 anos de sua morte, ela contou de como a execução do homem Ernesto Guevara criou o mito do Che que morreu para nos salvar. Na época, a revista preocupava-se mais em compreender o mundo do que em doutrinar.

Che era um símbolo para o tempo maniqueísta e polarizado inventado pela Guerra Fria. Mas aí entra, interessantemente, a tese da Economist. O mito de Che atrapalha a esquerda.

Conquistamos democracias em vários pontos do continente. Países como o Brasil vivem, já, o período contínuo de democracia mais longo de suas histórias. Junto com a democracia veio uma estabilidade monetária ímpar. Estas são conquistas valiosas. Conquistas que trouxeram, diga-se, a esquerda ao poder. O mito de Che prega uma revolução que não faz mais sentido. Revolução, hoje, seria Golpe de Estado – afinal, não vivemos um regime de exceção ou mesmo uma pseudo-democracia dominada por um poder estrangeiro. Somos, a maioria de nós, Estados legitimamente soberanos. (Soberanos o suficiente para permitir que um presidente aqui, um aprendiz de ditador acolá, fale mal à vontade dos EUA sem comprometer o saldo positivo da balança comercial.)

Falamos de oligarquias como se nossos países não tivessem mudado, já. Uma esquerda insiste em olhar com desconfiança para o industrial, o banqueiro ou o comerciante. É o industrial que, se tiver sucesso, vai aumentar o salário do pobre e permitir ao filho do pobre a oportunidade de ser classe média e, um dia, pequeno industrial. Não é má a idéia de um país de pequenos burgueses.

Insistir num ideal revolucionário nos distrai dos problemas reais. Temos, brasileiros, chilenos, argentinos, mexicanos, países melhores do que tivemos. Mas ainda temos vícios antigos. Um legislativo corrupto, por exemplo – embora, agora, a corrupção seja evidente e constantemente denunciada. É bom ter liberdade para tal. Nossas eleições, por conta da lei, ainda são viciadas. É preciso uma profunda reforma fiscal. Há problemas ainda mais graves e urgentes: educação, saúde e habitação. Destes, educação é o mais revolucionário no sentido de que transforma a sociedade de uma forma profunda. Lança num mundo de oportunidades uma turma que, apenas uma geração antes, estava condenada à pobreza.

Che está mais vivo do que nunca, nos sugere Fidel Castro. É hora de deixar Che descansar ao invés de tratar sua ossada como relíquia medieval. Foi um bom ícone pop. Uma direita e uma esquerda que tenham projetos para resolver os problemas que temos de fato, ao invés de combater problemas imaginados, é tudo o que a América Latina precisa.

A Revolução acaba com Fidel

02/August/2006 - 00h01 - 273 Comentarios

Os cubanos de Miami não gostam de ouvir isto, mas a maior preocupação em Washington perante a futura morte de Fidel Castro não é a sucessão. É o mar e um batalhão de balsas improvisadas. A primeira providência, quando Fidel passou o comando do país a seu irmão Raúl, foi por em alerta a guarda costeira. Ninguém quer uma migração em massa que traria muitas mortes e problemas econômicos para a Flórida.

Em Cuba já há planos: é Raúl Castro, seu irmão, quem o sucede. Mas Raúl tem apenas cinco anos menos e, aos 75, sem o carisma do Comandante, provavelmente não duraria muito. O que circula em Havana é que, se Fidel puder ditar as regras, seu irmão dividirá o poder com um triunvirato composto pelos ministros do Exterior, Felipe Pérez Roque, e da Fazenda, Carlos Lage, e pelo presidente da Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón.

Por coincidência, a New Yorker da semana veio com uma longa reportagem assinada por Jon Lee Anderson sobre a intricada sucessão de Fidel. Não estava na versão online da revista mas foi ao ar logo que houve o anúncio da operação.

Qualquer coisa pode acontecer, evidentemente. Cuba é um país pobre que, até a queda da União Soviética, sobrevivia de subsídios. Quando eles pararam de vir, Fidel viu-se obrigado a abrir um quê a economia para o turismo. Isto facilitou a entrada de dólares. Se os visitantes estrangeiros em massa trouxeram recursos o bastante para o sustento mínimo, também evidenciaram para a população sua pobreza. É inevitável que turistas europeus e norte-americanos o fizessem. Criou também uma pequena classe média – e classe média com recursos sempre quer mais. E gente pobre quer chegar à classe média.

A ascensão de Hugo Chávez na Venezuela foi boa para o regime cubano: trouxe petróleo barato. Investimentos chineses a partir da virada do século também fortaleceram a economia. Desde então, Fidel vem tentando fechar novamente o país para conseguir reverter os dilemas sociais. Ele deixa claro que vê o turismo como um criador dos grandes males que vão da prostituição às diferenças de classes. O problema é que um fenômeno social natural não se reverte com uma canetada.

Em Cuba, os maiores salários pagos vão para médicos. Nos últimos anos, a polícia foi equiparada aos doutores. Ajuda a manter a ordem, fideliza. É sinal de quem espera choques sociais.

Os mais moderados no Partido Comunista esperam um equivalente às políticas de transparência e abertura econômica impetradas por Mikhail Gorbachov na antiga URSS. É só que não deram certo lá, onde havia mais dinheiro – perdeu-se o controle muito rápido. Os mais moderados em Washington esperam um equivalente à Revolução de Veludo, pacífica, onde a transferência de poder para um regime democrático se dá rapidamente mas sem derrama de sangue.

Os cubanos-americanos são loucos. Podem planejar e executar uma invasão mambembe e se, de alguma forma, conseguem atingir o poder, dificilmente será bom para Cuba. Voltam a corrupção e os cassinos dos tempos de Fugencio Batista. E o país transforma-se em ilha subsidiária dos EUA, talvez um paraíso fiscal para a lavagem de dinheiro.

A grande incógnita é o povo. O que quer o povo de Cuba? Dois terços da população nasceu após aquele janeiro de 1959, quando Fidel e seus homens desceram a Sierra Maestra para tomar o poder. Não conhecem outro mundo – mas qual será o tamanho de sua raiva, de seu inconformismo, de sua paciência, de sua ansiedade? Quando Fidel morrer, o que buscarão? Farão filas para homenagear seu caixão? Tomarão raivosos o palácio de governo de forma que nem polícia bem paga nem exército fiel a Raúl consigam impedi-los? Ou simplesmente aproveitarão que o regime está distraído para tomar os barcos que têm e ir buscar um futuro nos EUA?

É um regime brutal onde violência de polícia é habitual e execuções acontecem apenas pela vontade de uns poucos no poder. É um regime no qual o grosso da população é obrigada a subsistir. Mas também há grande respeito por Fidel. Há poucos anos, quando houve um tumulto, o Comandante foi às ruas – e bastou sua presença, a de um homem alto, imponente, carismático para que o tumulto que apavorava policiais se interrompesse. É um tipo muito raro de líder. Mas este respeito é ao líder ou à sua Revolução?

No momento de sua morte, o exército e a polícia tomarão as ruas e só depois um anúncio será feito. Sua Revolução acabou – será transformada ou derrubada, mas como é jamais será novamente. E, no fundo, é justamente quem perdeu o poder de decisão em seu regime quem decidirá este futuro: será o povo de Cuba.