Fidel Castro reapareceu – e, desta vez, o comandante conversou ao vivo pelo rádio com o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu programa Aló, presidente. (O El País tem o áudio.) Falaram sobre a memória do Che.
Fidel crê que o projeto de uma revolução por país em toda América Latina prometida por seu ex-companheiro de batalha está a caminho e que só a estupidez das oligarquias locais não o percebe. O objetivo de Che, fazer com que continente explodisse em vários Vietnãs, já se concretizou em pelo menos três casos: a Venezuela, a Bolívia e o Equador. E que a resistência aos EUA, em tempos de George W. Bush, é mais pertinente do que nunca.
É o tipo do discurso que a direita paranóide adora.
A memória de Ernesto Guevara de la Serna está em disputa. A imprensa brasileira lhe dedicou muitos registros e pelo menos duas capas que entram em evidente conflito. À esquerda está a hagiografia da Caros Amigos; à direita, a ‘ódiografia’ da Veja. São, ambos, textos de um jornalismo que nasce da defesa de uma ideologia. Nos 40 anos de sua morte, este Weblog limitou-se a publicar uma nota. Foi um erro. Entender Guevara, ou ao menos, como Guevara é percebido, parece ser muito importante para nos entendermos, latino-americanos. E, para isso, é preciso antes compreender que o Che do pôster e Ernesto Guevara são pessoas diferentes.
O Che do pôster compreendemos quando nos vemos pelo que realmente somos: ibéricos. Espanhóis e portugueses. Isto quer dizer que temos um ‘DNA’ cultual profundo, arraigado. Somos programados a reagir de uma maneira específica a determinados estímulos informativos, a determinadas imagens, a determinados discursos. Imagine um peregrino espanhol no século 15 traçando exausto o caminho para Santiago de Compostela e este somos nós. Esperamos o Salvador. Achamos sempre que está tudo ruim e que vai piorar até que o Salvador denunciará as injustiças e reestabelecerá a ordem e trará o fim do sofrimento. Milenaristas. Sebastianistas. Che é o Antonio Conselheiro.
Substitua no discurso de Fidel e Chávez ’socialismo’ pelo ‘reino dos céus’, substitua a boina do retrato de Che por uma coroa de espinhos e temos um discurso que se revela pela identidade cultural profunda de nós latinos que é católica e messiânica até a alma.
A leitura jungiana não tem nada de original. O sociólogo José de Souza Martins já a evidenciava no Estadão do último dia 7. E a Economist também o diz na edição desta semana. Isto só quer dizer que, provocados pela imagem do homem de barba com o olhar cheio de esperança ou pelo discurso de ¡Hasta la victoria, siempre! contra as injustiças do mundo nos comovemos e acreditamos do fundo do coração. Estamos programados para isto.
Evidentemente, o Che é uma figura muito maior do que foi Ernesto Guevara. Guevara foi um idealista dogmático. Era um soldado que, em mais de um momento, ordenou a execução de pessoas. Em alguns casos, no ambiente da guerrilha, disparou o revólver ele próprio contra quem suspeitava traidor. Há reportagens que o acusam de ser um assassino frio – mas aí é onde o jornalismo, que lida com fatos, é comprometido pela ideologia. Quem o diz? Se não sabemos se deixava de dormir à noite, que pesadelos o atordoavam, como saber da frieza ao apertar o gatilho? Guevara não era um Pinochet. Ou um Stálin. Não foi um genocida. Foi, isto sim, um fracassado. Acreditou que iniciaria muitas revoluções mas os índios não estavam nem aí para sua guerrilha. A esquerda acha que precisa dele como Salvador e a direita precisa transformá-lo no anjo caído. Em vida, talvez tenha sido mais como um personagem de Monty Python, um Brancaleone: um asmático ofegante nas montanhas bolivianas, cheio de sonhos de grandeza, tentando convencer o povo a seguí-lo. E os camponeses só olhavam. Um líder sem liderados.
A Veja já fez bom jornalismo. Em 1997, quando completavam-se 30 anos de sua morte, ela contou de como a execução do homem Ernesto Guevara criou o mito do Che que morreu para nos salvar. Na época, a revista preocupava-se mais em compreender o mundo do que em doutrinar.
Che era um símbolo para o tempo maniqueísta e polarizado inventado pela Guerra Fria. Mas aí entra, interessantemente, a tese da Economist. O mito de Che atrapalha a esquerda.
Conquistamos democracias em vários pontos do continente. Países como o Brasil vivem, já, o período contínuo de democracia mais longo de suas histórias. Junto com a democracia veio uma estabilidade monetária ímpar. Estas são conquistas valiosas. Conquistas que trouxeram, diga-se, a esquerda ao poder. O mito de Che prega uma revolução que não faz mais sentido. Revolução, hoje, seria Golpe de Estado – afinal, não vivemos um regime de exceção ou mesmo uma pseudo-democracia dominada por um poder estrangeiro. Somos, a maioria de nós, Estados legitimamente soberanos. (Soberanos o suficiente para permitir que um presidente aqui, um aprendiz de ditador acolá, fale mal à vontade dos EUA sem comprometer o saldo positivo da balança comercial.)
Falamos de oligarquias como se nossos países não tivessem mudado, já. Uma esquerda insiste em olhar com desconfiança para o industrial, o banqueiro ou o comerciante. É o industrial que, se tiver sucesso, vai aumentar o salário do pobre e permitir ao filho do pobre a oportunidade de ser classe média e, um dia, pequeno industrial. Não é má a idéia de um país de pequenos burgueses.
Insistir num ideal revolucionário nos distrai dos problemas reais. Temos, brasileiros, chilenos, argentinos, mexicanos, países melhores do que tivemos. Mas ainda temos vícios antigos. Um legislativo corrupto, por exemplo – embora, agora, a corrupção seja evidente e constantemente denunciada. É bom ter liberdade para tal. Nossas eleições, por conta da lei, ainda são viciadas. É preciso uma profunda reforma fiscal. Há problemas ainda mais graves e urgentes: educação, saúde e habitação. Destes, educação é o mais revolucionário no sentido de que transforma a sociedade de uma forma profunda. Lança num mundo de oportunidades uma turma que, apenas uma geração antes, estava condenada à pobreza.
Che está mais vivo do que nunca, nos sugere Fidel Castro. É hora de deixar Che descansar ao invés de tratar sua ossada como relíquia medieval. Foi um bom ícone pop. Uma direita e uma esquerda que tenham projetos para resolver os problemas que temos de fato, ao invés de combater problemas imaginados, é tudo o que a América Latina precisa.