Que ninguém se engane: Evo Morales tem razão quando diz que a injustiça social impera na Bolívia. Os índios são pobres e os brancos estão, ao menos, na classe média. Os índios concentram-se nos estados do oeste do país e os brancos, no leste. A concentração de renda boliviana, imposta por anos de ditaduras e de governos corruptos e incompetentes, é traçada por linhas raciais e geográficas – o que produz, neste caso, uma concentração de renda canalha.
Mas as razões de Morales terminam aí.
É o gás sustenta a Bolívia – e este é um problema. No caso venezuelano, o petróleo é abundante e o litoral, extenso. Petróleo, retirado da terra ou do fundo do mar, põe-se num navio e despacha-se para qualquer canto do mundo. Com gás não é assim e a Bolívia não tem litoral. Gás precisa ser liquefeito para o transporte naval – o que é um processo muito caro. O que sobra para a Bolívia é vender este gás para Brasil, Chile e Argentina. Se for para enviá-lo para além mar, precisará da cooperação de um destes três – que têm mar. E ninguém tem usina de liquefação. Brasil e Chile têm mar e, no mar, gás. Em poucos anos, ambos produzirão gás o suficiente para seu sustento. Já estão a caminho disto: é que não dá para confiar na Bolívia. Sobra a Argentina como cliente. Por conta de sua instabilidade política, o que a Bolívia tem perante si é este cenário: em cinco anos só terá um cliente para o único produto que a sustenta.
Governar é uma arte distinta de fazer campanha. Palavras de ordem e bravatas elegem mas não ajudam nada na hora de governar. Democracia não é apenas eleição, democracia é processo – um processo que inclui respeito à oposição. Parlamento não é órgão periférico, é um poder equivalente e distinto do Executivo que precisa de toda a liberdade para operar livremente.
Evo Morales não compreendeu nenhum dos três conceitos.
Ao assumir o governo achando que estava em campanha, invadiu refinarias, cortou fornecimento de gás, fez o diabo e o povo que o elegeu adorou. O Brasil entendeu o recado com clareza. Abriu um sorriso, fez um discurso manso, contemporizador – e tratou de investir nas suas próprias reservas. Morales sacrificou o futuro de seu país.
Ele foi eleito, por certo – mas quase metade dos eleitores votaram noutros. Morales é presidente de todos os bolivianos, mas governa apenas para a metade que o elegeu. É um erro, principalmente quando a minoria representa quase metade do país. É o mesmo erro cometido, durante anos, pelos governos anteriores. Mas o resultado é que ele é um presidente que estimula a divisão, não a união, do país. Não é apenas inabilidade. É também burrice. Governar sem estabilidade ou sem dinheiro é uma arte difícil. Sem ambos, é impossível.
Ele produziu a constituição revolucionária que havia prometido. Meteu o parlamento num quartel do exército, longe da capital La Paz, e decidiu votar a nova Carta Magna na marra. Constituição é um documento ao qual se chega por consenso. Constituição imposta, ainda mais numa sala cercada pelo exército, com quase metade do parlamento tendo se recusado a votar, pode até vingar – mas não dura muito. Este é o método das ditaduras, não das democracias.
Evo Morales tenta aplicar o método Hugo Chávez. Mas há uma diferença: petróleo, põe-se no navio e manda; gás, não. Petróleo, mais de metade do mundo precisa; gás, quase todos os vizinhos da Bolívia têm.
É verdade que a Bolívia tem uma dívida histórica para com seus índios – e que hora de pagá-la. O problema é que, para pagar tal dívida, é preciso governo. O que Evo faz não é governar, é jogar fora a oportunidade que os bolivianos nativos, depois de tantos séculos, enfim conquistaram.