La Selección humilló a Brasil y llegó a la final de los Juegos.
La Argentina cortó la paternidad con una goleada inolvidable.
El partido perfecto.
Pedro Doria | Weblogum pouco do mundo, todos os dias |
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La Selección humilló a Brasil y llegó a la final de los Juegos.
La Argentina cortó la paternidad con una goleada inolvidable.
El partido perfecto.
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O conflito entre a presidente argentina Cristina Kirchner e o setor agrícola chegou a seu clímax esta madrugada, criando uma inesperada crise política e uma derrota fragorosa para o governo.
Cristina pretendia aumentar o imposto para a exportação de grãos, particularmente trigo e soja. O objetivo era inviabilizar o comércio externo, barateando o produto localmente. Inábil politicamente, a presidente partiu para o confronto direto com os fazendeiros. Seu projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados e, ontem chegou ao Senado. Foram 18 horas de debate. Durante a madrugada, quando se contou o último voto, deu empate. O voto que decidiria o embate coube ao presidente da Casa, Julio Cobos. Ele pediu que os senadores líderes de cada bloco tentassem um acordo. Houve conversas – permaneceram todos intransigentes. Às 4h25, Cobos votou contra o governo.
Na Argentina, o presidente do Senado é o vice-presidente da República.
O diário La Nación preparou uma nuvem de palavras com o discurso de Cobos (quanto maior, mais citada):
Quando lhe perguntaram se renunciaria caso a presidente o pedisse, Cobos afirmou que não. “Ela estaria afrontando as instituições se pedisse o cargo”, disse. É o primeiro ano do mandato de Kirchner. Esta derrota doerá fundo.
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Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.
E o planeta não poderia estar mais diferente.
Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.
As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:
Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.
A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.
Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.
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Na última segunda-feira, publiquei aqui no Weblog a informação de que a usina hidrelétrica de Itaipu ainda podia ser expandida. Fui contestado por dois leitores – Surfando na Jaca e Josef Mario. Eu estava errado. Eles estavam tecnicamente corretos. Com vinte turbinas, Itaipu de fato chegou ao seu tamanho máximo.
A expansão possível é de outra ordem e não depende das boas relações entre Brasil e Paraguai, como seguia o raciocínio do post. Depende da relação de ambos com a Argentina. A região toda é de tríplice fronteira e qualquer variação do nível de água provocada por Itaipu afeta navegabilidade e outra usina mais ao sul. O resultado é que, para Itaipu funcionar com as 20 turbinas simultaneamente, seria preciso aumentar o volume d’água represada. Isto não é possível por conta de tratados assinados por Paraguai e Brasil com a Argentina. Hoje, pelo menos duas das turbinas estão sempre paradas em manutenção.
Ainda sobre a questão do preço que o Brasil paga pela eletricidade paraguaia, conversei nesta última semana com a historiadora Ivone Carletto Lima. Desconte os participantes da negociação, muitos já mortos, ela é provavelmente quem mais entende do processo que levou ao acordo. Itaipu foi obra das ditaduras dos generais Stroessner e Médici, um contrato firmado atrás das portas. Os engenheiros paraguaios, à época, consideraram-no uma vitória de grandes proporções; os brasileiros terminaram amargurados. O Brasil deu Itaipu de presente para o Paraguai. Pagou a conta inteira e desenvolveu boa parte da tecnologia. A contrapartida era de que a dívida seria paga ao longo de 50 anos, devidamente amortizada, na forma de energia elétrica. Não foi pouco: 30 bilhões de dólares. (A entrevista completa foi publicada hoje, no Aliás do Estadão.)
O que o Paraguai está pedindo, portanto, não é a revisão de um contrato que lhe foi imposto. É o perdão da dívida. O contexto político é outro, hoje. E pode interessar ao Brasil perdoar parcial ou totalmente tal dívida. Mas é bom ter em mente do que se trata renegociar preços: é perdoar dívida que existe. É uma cortesia brasileira, não a revisão de uma injustiça. E, na diplomacia, para qualquer cortesia cabem contrapartidas generosas. Serve se o Brasil ampliar sua área de influência regional.
E, assim como informa o Estado de hoje, é exatamente isto que o governo brasileiro está fazendo:
O governo brasileiro já traçou duas linhas básicas das negociações que terá com o novo comando do Paraguai. A primeira: o Tratado de Itaipu é intocável, mas outras formas de engordar o caixa do país vizinho poderão ser analisadas. Pode-se, por exemplo, adiantar pagamentos pela energia de Itaipu, e com o dinheiro criar um fundo de desenvolvimento do país. A segunda: a ajuda não será de graça. O Brasil vai, por exemplo, insistir numa proposta de atuação conjunta das polícias na fronteira dos dois países.
É a proposta inicial, a maneira como o Planalto chegará à mesa de negociações. O Paraguai não tem como renegociar o tratado a não ser que o Brasil o queira. Diferentemente de Evo Morales, que invadiu refinarias brasileiras em território boliviano, Fernando Lugo não pode invadir Itaipu, cujo território é considerado binacional. Se o fizesse, seria um ato de guerra; se ‘desligasse’ a usina, diga-se, o Paraguai ficaria às escuras. Lugo tem uma margem de manobra muito estreita em qualquer negociação.
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Por Mr X
Faz uns bons seis meses que estou em Buenos Aires. Já conhecia a cidade, mas é a primeira vez que estou efetivamente morando aqui.
A visão estereotipada da capital argentina é o tango, churrasco, cemitério da Recoleta e feira de San Telmo. A cidade vai além: Buenos Aires é literária como poucas. Jorge Luis Borges localizou vários de seus contos na sua topografia e escreveu em um poema: A mi se me hace cuento que empezó Buenos Aires / La juzgo tan eterna cuanto el agua y el aire. Cortázar marcou o encontro dos personagens de ‘Los Premios’ no café London City, na esquina de Perú e Avenida de Mayo. Isaac Bahevis Singer visitou Buenos Aires e escreveu uma novela, ‘Escória’, que se passa em parte aqui. Não li o romance, não sei se o título foi inspirado na população local. O escritor vanguardista polonês Withold Gombrowicz morou aqui por trinta anos. O filósofo espanhol Ortega y Gasset também visitou e escreveu, ficou famoso, ‘Argentinos, a las cosas!’. Recomendava menos sonhos e mais ação. Italo Calvino também visitou e talvez tenha encontrado inspiração aqui para escrever o ótimo conto ‘A formiga argentina’.
Mas a visita mais famosa é a relatada pelo escritor portenho Marcos Aguinis no seu ótimo livro ‘O atroz encanto de ser argentino. É a visita do prêmio Nobel Jacinto Benavente. Contam que a todo momento o dramaturgo espanhol era incomodado com perguntas sobre o que achava da Argentina e dos argentinos. Não lhe davam sossego um único momento. E ele, calado, preferia não se pronunciar. Até que, do barco que o levou de volta à Europa, ele finalmente respondeu: ‘Formem a única outra palavra que pode ser formada com as letras de argentino.’ O barco já estava longe quando a multidão se deu conta que a única outra palavra que podia ser formada era ‘ignorante’.
Com o real alto, o dólar baixo e o peso irrisório, há muitos brasileiros hoje vindo de visita a Buenos Aires: escuta-se o português em qualquer esquina ou café. Na verdade, às vezes até parece que nem saí do Brasil. Tem brasileiro até demais. Xô, xô.
Buenos Aires recentemente também está virando a capital latino-americana do turismo gay. O que é curioso, pois, assim como ocorre no Irã, não existem homossexuais na Argentina. O que existem são só ‘muchachos medio alegres’.
As mulheres argentinas, em contrapartida, são muito bonitas, e de tipos quase tão variados quanto as brasileiras.
Teoricamente, os personagens recentes mais famosos da Argentina são Gardel, Perón e Evita. Mas um estrangeiro que julgasse apenas pela quantidade de imagens vendidas nas bancas de jornais em cartazes, pôsteres e calendários, acharia que os personagens mais famosos da história argentina recente são Che Guevara e Homer Simpson.
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”Com este assassinato, neste momento, neste lugar, desta forma, vocês passaram do limite’, disse hoje Hassan Nasrallah, líder supremo do Hizbollah libanês. ‘Sionistas, se é guerra aberta assim que vocês querem, que todo o mundo ouça: a guerra começou.’ Ele estava, evidentemente, nos funerais de Imad Mughniyeh, comandante militar de seu grupo, que morreu quando uma bomba explodiu em seu carro, ontem, na capital síria, Damasco.
De santo, o sujeito não tinha nada. Deixou um rastro de sangue inocente que a imprensa lista incansavelmente, hoje. Planejou a explosão da embaixada norte-americana de Beirute em 1983, o seqüestro de um avião da TWA em 1985, o rapto de inúmeros jornalistas. Foi ele provavelmente o responsável pela explosão do Centro Cultural Judaico de Buenos Aires, em 1992. Ataques a prédios comerciais na Arábia Saudita e no Kuwait também contam em sua lista de feitos.
Mughniyeh é freqüentemente creditado como o inventor do homem-bomba no Oriente Médio contemporâneo. Não era apenas homem do Hizbollah: também era um elo entre a inteligência iraniana e a síria, para as quais prestava serviços. Era um agente experiente e não importam muito as ameaças do Hizbollah neste momento. Sem seu principal estrategista, sem a delicada rede de conhecidos que ele tinha pessoalmente, este misto de partido, milícia e grupo terrorista libanês que é o Hizbollah terá muita dificuldade de agir fora de suas fronteiras pátrias.
Ou será que não? O Hizbollah já perdeu líderes importantes antes e sua estrutura jamais sofreu impacto. São sobreviventes. É uma organização descentralizada e se por um lado sua ligação com a Síria não é confiável, o mesmo não pode ser dito dos elos com o Irã. O principal país xiita do mundo é um patrocinador constante e de primeira hora do principal movimento xiita do Líbano.
A guerra aberta está formalmente declarada. Isto não quer dizer que uma guerra contra Israel de fato acontecerá. Os seqüestros de soldados israelenses há alguns anos pelo Hizbollah serviram de desculpa para um duro e desastrado ataque israelense ao Líbano. Se a guerra e o desastre político que nasceu dela impactou duramente a administração israelense perante seus eleitores, ela também não foi uma vitória interna do Hizbollah. No Líbano, as constantes provocações do partido contra o vizinho mais forte são vistas com decrescente popularidade. Uma série de ataques contra Israel poderia piorar ainda mais a maneira como o grupo é visto internamente.
Era um assassino. Oficialmente, Israel nega que tenha qualquer coisa a ver com sua morte. Então quem o matou? A Economist lista mais duas teorias. Uma é de que os assassinos sejam seus anfitriões sírios. O ramo que mistura espionagem com terrorismo não tem regras claras tampouco nele se joga limpo. O amigo de um dia pode mudar seu foco de interesses. Outra teoria sugere que tenham sido agentes libaneses em algum tipo de parceria com a CIA. Muita gente no Líbano quer o Hizbollah mais fraco – trará uma chance de estabilidade ao país.
Seja como for, Mughniyeh não era visto há 9 anos. Vivia escondido e, alguns sugerem, disfarçado por inúmeras plásticas em Damasco. Foi coisa de gente que sabia exatamente o que estava fazendo.
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Preso desde 2003 na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (RS), o ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio Mario Neira Barreiro, 54, disse em entrevista exclusiva à Folha que espionou durante quatro anos o presidente João Goulart (1918-1976), o Jango, e que ele foi morto por envenenamento a pedido do governo brasileiro.
Jango morreu em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, oficialmente de ataque cardíaco. Ele governou o Brasil de 1961 até ser deposto por um golpe militar em 31 de março de 1964, quando foi para o exílio. À Folha Barreiro deu detalhes da operação da qual participou e que teria causado a morte de Jango. Segundo o ex-agente, Jango não morreu de ataque cardíaco, mas envenenado, após ter sido vigiado 24 horas por dia de 1973 a 1976.
A operação que levou ao assassinato de Jango, informa o ex-agente, foi executada pela inteligência uruguaia com financiamento e acompanhamento da CIA. O mérito do furo que, se confirmado, é bem mais que histórico, cabe à repórter Simone Iglesias.
Se Jango foi de fato assassinado, volta à tona a hipótese de a Ditadura, que estava iniciando o processo de abertura, ter providenciado a morte dos três grandes líderes da política brasileira do tempo. Além de Goulart, também Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda. A hipótese de triplo assassinato já foi tema de um livro, um quê romanceado, de Carlos Heitor Cony.
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Por um tempo, em NoMínimo, tomei o hábito escrever algo de diferente para cada Natal. Continuando a série de republicações, esta é a verdadeira história do Papai Noel, que saiu no 25 de dezembro de 2004.
Feliz Natal a todos!
Papai Noel com bochechas rosadas e sorriso bonachão nasceu num poema anônimo, publicado no New York Sentinel, jornal que não existe mais, no 23 de dezembro em 1823. Chamava-se São Nicolau, ainda, era um elfo baixinho, carregava seu saco de presentes com o qual descia chaminés abaixo. Ali já estava a costura de um santo católico com mitos nórdicos. Tem três pais modernos: o poeta anônimo, um mordaz cartunista político analfabeto e um desenhista publicitário conhecido pelas moças seminuas pin-ups que traçava.
De origem mesmo, Papai Noel é personagem histórico, São Nicolau. Cinco santos católicos tem este nome, um deles papa. Do original, São Nicolau de Bari, pouco se conhece. Nasceu em Lícia, que hoje fica na Turquia, em finais do século 3. Órfão de pais ricos, peregrinou pela Palestina e Egito, abraçou o cristianismo. Era uma época tumultuada, finais do governo de Diocleciano, quando seguir Cristo já era atividade popular mas ainda coisa perseguida. Jovem ainda, Nicolau sacramentou-se padre e foi feito bispo de Mira, sua região natal.
Ficou preso e provavelmente foi torturado muitos anos até que ascendeu ao trono romano Constantino, em 306, que posteriormente cristianizou o império, em 312. Tempo de rancores – era preciso lidar com a turma que renegou Cristo para evitar a prisão; inventaram o sacramento da confissão por conta. Carecia também gerenciar o conflito entre o imperador e o papa Silvestre I, que disputavam o comando da Igreja. E, sobretudo, alguém precisava decidir o que afinal era Jesus Cristo.
Em 325 fez-se a primeira reunião de todos os bispos para afinar o discurso no Concílio de Nicéia. Nicolau era um dos defensores da tese da trindade – de que Cristo era Deus – e seu lado terminou por vencer o grupo que o via como um profeta, um homem entre homens. Os bispos decidiram também que evangelhos entravam na Bíblia e afastaram o cristianismo do judaísmo original, abolindo o sábado como dia de descanso e adotando o domingo, incluindo-se aí uma nova data para a Páscoa.
No entanto, ele é um santo embaraçoso para a Igreja contemporânea – na Enciclopédia Católica oficial, põe-se em dúvida até se participou ou não do concílio. Nem todos os bispos foram, só a maioria. Mas o bispado de Nicolau incluía a Anatólia, local do concílio – por que estaria ausente duma reunião em casa? Só que é embaraçoso: os milagres lhe atribuídos são um tanto incríveis e a Igreja implica com o encontro da religião com crendice popular. Uma vez, por exemplo, São Nicolau caminhou pelas águas do mar para salvar um pescador que ia afogando.
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Na Argentina, o diário La Nación diz a respeito do Brasil:
É a décima maior economia do mundo;
Maneja 40% do mercado de carnes do mundial;
É a oitava bolsa de valores por volume, tendo crescido 1.600% nos últimos cinco anos;
As exportações – 137 bilhões de dólares – dobraram em quatro anos.
E, por fim, a comparação que deixa os argentinos danados:
Nos anos 1940, o PIB de toda América Latina era igual ao argentino; hoje, o Brasil tem o tamanho de quatro Argentinas.
(Há de ser bom mesmo viver num país destes.)
Mas, no fim, como sugere à repórter Florência Carbone um de seus entrevistados, em meados dos anos 1990, só se falava do modelo chileno; pouco depois, vitorioso era o modelo argentino. Agora é a vez do Brasil. O quanto isto vale de fato? E, se vale, perguntam-se os jornalistas nossos vizinhos: qual o segredo do Brasil? A série inclui três artigos e uma reportagem.
Algumas coisas – a auto-suficiência em petróleo, por exemplo – é trabalho sólido. A Petrobras vem investindo há muitos anos, já, em tecnologia de extração. Some-se a alta dos preços do barril, que faz compensar a retirada de petróleo a grandes profundidades, e o investimento compensa.
O La Nación destaca também que aos oito anos do governo FHC seguem-se mais oito de Lula que, embora vindos de grupos de oposição um ao outro, dão seqüência ao mesmo jogo de políticas públicas. Há continuidade de governança. A política externa do atual governo também recebe elogios do principal jornal conservador argentino.
Daí, seguem-se fatores que os argentinos não podem controlar: o Brasil tem quatro vezes mais terra e uma população cinco vezes maior. Tem recursos minerais, do ferro ao carvão. Ajuda um bocado no processo de industrialização. Mas o momento chave em que, o jornal considera, Brasil e Argentina se separaram de vez faz muito tempo: a década de 1940. À época, quando o país deles era um riquíssimo agroexportador, os interesses do setor não permitiram o desenvolvimento de um parque industrial. Foi exatamente o que o Brasil fez. Desde então, a Argentina empobreceu e o Brasil enriqueceu.
Mas isto só conta metade da história na versão do La Nación: a projeção recente do Brasil no cenário global começa com o Plano Real, no governo Itamar Franco. É preciso levar-se em conta a solidez das instituições públicas e privadas, políticas e econômicas, ‘que geram contrapesos no exercício do poder social, limitando as tentações por caprichos individuais’. Não são perfeitas, mas permitem ‘canalizar e articular interesses divergentes’. Quer dizer: o país funciona independentemente de quem esteja no governo.
A conclusão dos argentinos – talvez aí surpreendente – é que o crescimento brasileiro é bom para eles se tomado o exemplo da relação Canadá, Estados Unidos. Se, no Brasil, conflitos políticos não mataram o projeto de desenvolvimento, caso argentino, o sucesso econômico daqui gerou investimentos lá. O melhor modelo, então, ainda mais agora que estabilidade política parece estar voltando também à Casa Rosada, é uma relação de interdependência.
Naturalmente. É só combinar com o adversário antes.
Os resultados oficiais parciais já próximos do fim da apuração não deixam quaisquer dúvidas a respeito da eleição de Cristina Fernández de Kirchner, na Argentina: são 44,88% dos votos válidos a seu favor contra 22,99% de Elisa Carrió e 16,90% de Roberto Lavagna. As eleições deixam à mostra um país dividido entre cidades e campo, entre quem tem algum dinheiro e os descamisados.
A chegada de Cristina Kirchner contém uma promessa de melhora institucional muito necessária. Certamente as promessas são fáceis de fazer e difíceis de cumprir. Nesta lista de coisas por realizar está dar condições de crescimento ao país, parar de manipular os índices de inflação, corrigir os abusos dos gastos públicos, lutar a cada dia e a cada hora contra a insegurança, aumentar os esforços para remover os núcleos de pobreza e marginalidade, melhorar os serviços de saúde e de educação.
Cristina é presidenta de um país fragmentado. Um terço de nós vivemos como se vive razoavelmente no Primeiro Mundo. Outro terço mal sobrevive por conta da carência e desesperança cotidianas. Esta fragmentação se expressou no evidente corte social do voto. A vitória de Cristina se deveu ao respaldo dos setores mais carentes de proteção. Seu mandato é para governar por eles. Mas também deverá governar para a metade do país que não votou nela.
É assim que ela quer ser conhecida: presidenta, não presidente. Que se faça. O perigo do voto dos descamisados, embora evidentemente sejam os mais carentes de apoio de qualquer governo, é que costuma ser uma massa de fácil manipulação. São susceptíveis aos regalos do fisiologismo. E o primeiro Kirchner governou sem jamais ouvir a oposição, num evidente traço autoritário. Ainda é cedo para dizer que a presidenta seguirá estes passos de seu marido.
A senadora de esquerda Elisa Currió assume, com esta eleição, o posto de líder da oposição. Carrió recebeu pesadamente o voto de classe média e o voto urbano.
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Conversei, esta semana que passou, com o psicanalista Marcos Aguinis. Ele é autor de O atroz encanto de ser argentino, um livraço que procura explicar o ser e os fracassos e os sucessos argentinos. Não chega a tocar tão fundo como Sérgio Buarque ou Gilberto Freyre fizeram cá no Brasil, mas é o intérprete que foi mais longe na alma portenha. Conversamos, como não poderia deixar de ser, a respeito da virtual eleição, hoje, de Cristina Kirchner para a presidência. Aguinis apresenta um país dividido:
As eleições de hoje serão decididas pela apatia do eleitorado?
Houve apatia, mas ela está diminuindo. No início, a candidata oficial, Cristina Kirchner, parecia que ia conseguir o número de votos necessários para se eleger no primeiro turno. Mas a sociedade argentina está dividida e há ódio e rancor. Os 60% que não votarão em Cristina votam em qualquer um que não ela. Há um clima de hostilidade interna na Argentina.
O que motiva o ódio?
O governo de Néstor Kirchner partiu para o ataque contra todos os setores da sociedade organizada. Não há quem não tenha sido atacado ou desprestigiado pelo governo. O presidente nunca chamou ninguém da oposição para conversar, nunca deu entrevistas à imprensa. Ele usa o poder para manipular. Para parte da sociedade, é como se o governo estivesse dizendo que a Argentina não funciona bem como república. Como aconteceu em outros momentos do passado, parece que só funciona quando há um regime autoritário.
A entrevista foi publicada no Aliás do Estadão de hoje. Está online na íntegra.
Cristina precisa fazer 40% dos votos e manter uma diferença de mais de 10% em relação ao segundo colocado para se eleger no primeiro turno. Das nove pesquisas divulgadas na sexta-feira, ela conseguia esta distância com folga em seis. Nas outras três, era impossível garantir fora da margem de erro. Não custa lembrar que, neste ano, já aconteceram várias eleições para governador de província. As pesquisas erraram em quase todas.
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Fidel Castro reapareceu – e, desta vez, o comandante conversou ao vivo pelo rádio com o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu programa Aló, presidente. (O El País tem o áudio.) Falaram sobre a memória do Che.
Fidel crê que o projeto de uma revolução por país em toda América Latina prometida por seu ex-companheiro de batalha está a caminho e que só a estupidez das oligarquias locais não o percebe. O objetivo de Che, fazer com que continente explodisse em vários Vietnãs, já se concretizou em pelo menos três casos: a Venezuela, a Bolívia e o Equador. E que a resistência aos EUA, em tempos de George W. Bush, é mais pertinente do que nunca.
É o tipo do discurso que a direita paranóide adora.
A memória de Ernesto Guevara de la Serna está em disputa. A imprensa brasileira lhe dedicou muitos registros e pelo menos duas capas que entram em evidente conflito. À esquerda está a hagiografia da Caros Amigos; à direita, a ‘ódiografia’ da Veja. São, ambos, textos de um jornalismo que nasce da defesa de uma ideologia. Nos 40 anos de sua morte, este Weblog limitou-se a publicar uma nota. Foi um erro. Entender Guevara, ou ao menos, como Guevara é percebido, parece ser muito importante para nos entendermos, latino-americanos. E, para isso, é preciso antes compreender que o Che do pôster e Ernesto Guevara são pessoas diferentes.
O Che do pôster compreendemos quando nos vemos pelo que realmente somos: ibéricos. Espanhóis e portugueses. Isto quer dizer que temos um ‘DNA’ cultual profundo, arraigado. Somos programados a reagir de uma maneira específica a determinados estímulos informativos, a determinadas imagens, a determinados discursos. Imagine um peregrino espanhol no século 15 traçando exausto o caminho para Santiago de Compostela e este somos nós. Esperamos o Salvador. Achamos sempre que está tudo ruim e que vai piorar até que o Salvador denunciará as injustiças e reestabelecerá a ordem e trará o fim do sofrimento. Milenaristas. Sebastianistas. Che é o Antonio Conselheiro.
Substitua no discurso de Fidel e Chávez ’socialismo’ pelo ‘reino dos céus’, substitua a boina do retrato de Che por uma coroa de espinhos e temos um discurso que se revela pela identidade cultural profunda de nós latinos que é católica e messiânica até a alma.
A leitura jungiana não tem nada de original. O sociólogo José de Souza Martins já a evidenciava no Estadão do último dia 7. E a Economist também o diz na edição desta semana. Isto só quer dizer que, provocados pela imagem do homem de barba com o olhar cheio de esperança ou pelo discurso de ¡Hasta la victoria, siempre! contra as injustiças do mundo nos comovemos e acreditamos do fundo do coração. Estamos programados para isto.
Evidentemente, o Che é uma figura muito maior do que foi Ernesto Guevara. Guevara foi um idealista dogmático. Era um soldado que, em mais de um momento, ordenou a execução de pessoas. Em alguns casos, no ambiente da guerrilha, disparou o revólver ele próprio contra quem suspeitava traidor. Há reportagens que o acusam de ser um assassino frio – mas aí é onde o jornalismo, que lida com fatos, é comprometido pela ideologia. Quem o diz? Se não sabemos se deixava de dormir à noite, que pesadelos o atordoavam, como saber da frieza ao apertar o gatilho? Guevara não era um Pinochet. Ou um Stálin. Não foi um genocida. Foi, isto sim, um fracassado. Acreditou que iniciaria muitas revoluções mas os índios não estavam nem aí para sua guerrilha. A esquerda acha que precisa dele como Salvador e a direita precisa transformá-lo no anjo caído. Em vida, talvez tenha sido mais como um personagem de Monty Python, um Brancaleone: um asmático ofegante nas montanhas bolivianas, cheio de sonhos de grandeza, tentando convencer o povo a seguí-lo. E os camponeses só olhavam. Um líder sem liderados.
A Veja já fez bom jornalismo. Em 1997, quando completavam-se 30 anos de sua morte, ela contou de como a execução do homem Ernesto Guevara criou o mito do Che que morreu para nos salvar. Na época, a revista preocupava-se mais em compreender o mundo do que em doutrinar.
Che era um símbolo para o tempo maniqueísta e polarizado inventado pela Guerra Fria. Mas aí entra, interessantemente, a tese da Economist. O mito de Che atrapalha a esquerda.
Conquistamos democracias em vários pontos do continente. Países como o Brasil vivem, já, o período contínuo de democracia mais longo de suas histórias. Junto com a democracia veio uma estabilidade monetária ímpar. Estas são conquistas valiosas. Conquistas que trouxeram, diga-se, a esquerda ao poder. O mito de Che prega uma revolução que não faz mais sentido. Revolução, hoje, seria Golpe de Estado – afinal, não vivemos um regime de exceção ou mesmo uma pseudo-democracia dominada por um poder estrangeiro. Somos, a maioria de nós, Estados legitimamente soberanos. (Soberanos o suficiente para permitir que um presidente aqui, um aprendiz de ditador acolá, fale mal à vontade dos EUA sem comprometer o saldo positivo da balança comercial.)
Falamos de oligarquias como se nossos países não tivessem mudado, já. Uma esquerda insiste em olhar com desconfiança para o industrial, o banqueiro ou o comerciante. É o industrial que, se tiver sucesso, vai aumentar o salário do pobre e permitir ao filho do pobre a oportunidade de ser classe média e, um dia, pequeno industrial. Não é má a idéia de um país de pequenos burgueses.
Insistir num ideal revolucionário nos distrai dos problemas reais. Temos, brasileiros, chilenos, argentinos, mexicanos, países melhores do que tivemos. Mas ainda temos vícios antigos. Um legislativo corrupto, por exemplo – embora, agora, a corrupção seja evidente e constantemente denunciada. É bom ter liberdade para tal. Nossas eleições, por conta da lei, ainda são viciadas. É preciso uma profunda reforma fiscal. Há problemas ainda mais graves e urgentes: educação, saúde e habitação. Destes, educação é o mais revolucionário no sentido de que transforma a sociedade de uma forma profunda. Lança num mundo de oportunidades uma turma que, apenas uma geração antes, estava condenada à pobreza.
Che está mais vivo do que nunca, nos sugere Fidel Castro. É hora de deixar Che descansar ao invés de tratar sua ossada como relíquia medieval. Foi um bom ícone pop. Uma direita e uma esquerda que tenham projetos para resolver os problemas que temos de fato, ao invés de combater problemas imaginados, é tudo o que a América Latina precisa.
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Antoine van Agtmael é autor de The emerging market’s century – O século dos mercados emergentes. E é personagem de uma longa reportagem na Newsweek.
Na lista do top 25 das empresas de países em desenvolvimento de van Agtmael, nenhuma das grandes multinacionais vêm da Rússia e apenas uma do sudeste asiático, embora 10 venham da América Latina. A razão tem a ver com o legado – a América Latina tem uma longa história de capitalismo enquanto outras partes do mundo estão no jogo há apenas duas décadas.
Mas é a necessidade, não a geografia, que deu forma a estas empresas. A maioria teve de vencer grandes dificuldades para se transformar no que são. As crises financeiras do México, em 1994, da Ásia, em 1997, e da Rússia, em 1998, mataram as empresas fracas e forçaram líderes políticos a produzir reformas liberalizantes, vendendo velhas estatais, eliminando subsídios. Mas as mudanças realmente cruciais aconteceram de empresa em empresa, dentro dos mercados emergentes, e é por isso que ninguém percebeu que elas estavam vindo. Negócios que floresceram vendendo para consumidores cativos em economias fechadas desapareceram. Apenas três das empresas que estavam na lista de van Agtmael em 1990 continuam lá. As mais capazes, aprenderam com as multinacionais dominantes, copiaram e, em alguns casos, ultrapassaram o inimigo de maneiras que os mercados internacionais ainda não compreenderam de todo. ‘O que a maioria destas empresas excepcionais têm em comum é que sobreviveram a crises brutais, em alguns casos correram risco de vida, o que ao invés de fazê-las desmontar as fortaleceram’, diz van Agtmael.
O Canadá é um dos desesperados. Quem bate à porta querendo comprar suas empresas, hoje, não são norte-americanas ou européias. São brasileiras, indianas, chinesas. Sim, o Brasil ainda é considerado um dos piores lugares do mundo para se abrir uma empresa pelo Banco Mundial. A burocracia é aterradora, os impostos altos, os serviços prestados pelo Estado não compensam.
Mas as grandes empresas pátrias vão muito bem, obrigado. É por conta de empresas de grande porte e alto nível como elas, afinal, que a classificação de ‘terceiro mundo’ entrou em desuso e a de ‘mercado emergente’ veio – a mudança, no caso, vai muito além da correção política.
Na lista das 25 maiores empresas dos mercados emergentes preparada por van Agtmael, estão quatro brasileiras, quatro mexicanas, quatro de Taiwan, três indianas, três sul-coreanas, duas chinesas e Chile, Argentina, Malásia e África do Sul contribuem com uma, cada. As quatro brasileiras estão bem posicionadas, também. A Aracruz Celulose é a número 2, Vale está em quinto, Embraer em sexto e Petrobras em 16.
Para o autor, os mercados emergentes serão duas vezes o tamanho das atuais economias líderes em 50 anos.
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O médico e guerrilheiro Ernesto Guevara de la Serna morreu no dia de hoje, há 40 anos. Seus amigos chamavam-no de Che por conta do sotaque argentino – que repete o som tchê como cariocas chiam. Tinha 39 anos. O El País preparou uma galeria, começando por Omar Sharif, com os atores que o interpretaram no cinema. O Clarín traz um depoimento da viúva. O Estadão conta do brasileiro que quase vingou sua morte. E a Time tenta mapear as celebrações de seu nome pelo mundo.
Seu legado ainda é polêmico.
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Cinco homens armados invadiram a casa do diretor de cinema Francis Ford Coppola em Palermo Viejo, um dos mais encantadores bairros de Buenos Aires.
Levaram tudo – incluindo-se aí o notebook e seu backup.
São 15 anos de fotografias pessoais e a única cópia do script de Tetro, filme provavelmente autobiográfico que começará a rodar no ano que vem.
Há uma recompensa pela fita de backup.
A blogueira mais velha do mundo é a espanhola Maria Amelia de la Coruña, 95 anos.
Ela também coleciona suas fotos no Flickr.
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Os escândalos crescentes do governo Kirchner estão trazendo de volta um velho e conhecido jornalista dos argentinos: Jorge LaNata, fundador do diário Página/12. Até alguns dias atrás, ele atuava como o repórter estrela do semanário Perfil. Foi ele quem investigou e levantou, em junho, a história da mala com 60.000 dólares em espécie escondido bizarramente no banheiro da ministra da Economia, Felisa Miceli. (Custou-lhe a demissão.)
Seu trabalho mais recente foi a apreensão de outra mala, esta com 790.000 dólares, apreendida no aeroporto de Ezeiza, trazida pelo representante oficial do governo venezuelano num jatinho fretado pelo ministro do Planejamento, Julio De Vido.
Num país em que livros vendem – e muito –, LaNata é autor de vários, incluindo um dos maiores best-sellers locais dos tempos recentes, Argentinos, publicado em dois volumes, que conta a história do país. Aliás: melhor do que isso. Faz uma leitura da história argentina, desde as duas fundações de Buenos Aires até o drama que não vai embora dos desaparecidos.
Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa, o entrevistou:
Muitos dos escândalos que sacudiram a opinião pública do seu país resultaram de denúncias feitas por funcionários públicos. Isto geralmente é uma conseqüência de interesses pessoais contrariados, uma espécie de vingança. O senhor concorda com este enfoque? E se concorda, por que há tanta desunião entre funcionários públicos?
As fontes das denúncias são muito diversas, desde o rapaz encarregado de fazer uma fotocópia de documento e que faz duas para nos entregar, até funcionários da própria Presidência, interessados em prejudicar colegas. Uma informação nunca é inocente, quem a fornece tem alguma razão para tal. Mas que atitude devo tomar? Perguntando-me quem me está passando a informação, por que e se ela é correta? A resposta a esta pergunta tem, inclusive, um viés generacional. Nos anos 1970, em geral, nós nos preocupávamos, primeiro, em descobrir quem era o responsável pela informação e que interesses estavam por trás dela, o que nos transformava numa espécie de vanguarda protetora da consciência dos leitores. Nos anos 1980, passou a ser mais importante investigar se a informação era verdadeira e, em caso positivo, publicá-la. Pessoalmente creio que a informação tem um valor revolucionário, mas também é uma catarse. […]
O Brasil vive um processo similar ao da Argentina em matéria de denúncias envolvendo funcionários do governo federal. O senhor acredita que é uma mera coincidência ou há um processo comum em marcha? O fato de que ambos os países sejam governados por presidentes apoiados pela esquerda é um fator importante neste processo?
Acredito que ver toda a América Latina como uma região caminhando para a esquerda é um erro, ou pelo menos uma visão apressada. [Michele] Bachelet, no Chile, não é a mesma coisa que Tabaré [Vazquez], no Uruguai, nem muito menos [o presidente venezuelano Hugo] Chávez ou Rafael Correa [do Equador] ou Evo [Morales, da Bolívia]. No caso de Kirchner, acredito que ele está enredado em seu próprio discurso político: fala desde uma suposta posição de centro-esquerda, mas governa a partir de uma direita, mais segura. Evo Morales, por seu lado, encarna um projeto verdadeiramente insólito de governo indigenista, num país à beira da secessão, enquanto Correa e Chávez se propõem a governar a partir da esquerda, mas adotam atitudes cada vez mais autoritárias. Na comparação entre Brasil e Argentina, me parece que devemos levar em conta também grandes diferenças entre as respectivas burguesias locais.
Qual foi o papel do público argentino na investigação dos escândalos e denúncias de corrupção governamental? Assistiu passivamente ou colaborou com as investigações, fornecendo novos indícios ou provas?
Depende de cada caso e dos jornalistas autores das denúncias. Mas, de maneira geral, não existe entre o grande público uma preocupação com as instituições. A maioria da população ainda prefere os que ‘roubam, mas fazem’.
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Todos os dias, uma seleção de Marcelo Moreno e seus leitores.
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A Seleção não conseguiu se achar na partida e caiu sem respostas perante a equipe de Dunga. Julio Baptista abriu o placar cedo, Ayala aumentou contra e Alves selou a goleada. O time dirigido por Basile teve momentos de brilho na Copa América mas, como aconteceu em 2004, perdeu a final contra seu maior rival.Triste final para a Argentina na Copa América. Porque caiu, perante ninguém menos que o Brasil, após 90 minutos de impotência, dúvidas, confusão, aquém de si mesma. Ficou para trás, muito longe, o time que havia chegado aqui como candidato, por conta de seu futebol elegante, de sua contundência, do respeito que inspirava, a ganhar o jogo. Hoje, a Argentina não teve vida. Na defesa, acumulou erros; no meio campo, não impôs o jogo; no ataque, passou despercebida. Seu rival, por outro lado, aplicou com perfeição seu plano de jogo, meteu três gols e merecia um quarto. O pior dos piores é que tudo ocorreu no momento que parecia ideal para nos livrarmos desta cruz que são 14 anos sem títulos.
Editorial do diário esportivo Olé.
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Herança maldita
19/June/2006 · 53 Comentários
O governo argentino quer que a ONU faça a intermediação com os britânicos para que novas conversas sobre as Malvinas sejam promovidas. O assunto, no entanto, ficou discreto nos jornais portenhos perante as notícias da goleada da seleção pátria. Eduardo Aliverti, no Página 12, tenta explicar o porquê:
Por mais injusto e doloroso que seja, as Malvinas não estão entre as inquietações do povo argentino. É um conflito que se dá por perdido e a sensibilidade coletiva (incluindo aí dos setores progressistas) chega a ignorar a questão, como demonstra o repugnante abandono em que se encontram os veteranos da guerra. Assim, não conceder ao tema as manchetes dos jornais é chamar a atenção, aos gritos, para a ausência de um assunto realmente de impacto. Não é culpa do Mundial.
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