E se Chávez invadir o Brasil?

23/May/2009 - 00h01 - 206 Comentarios

Os comentários do post Desentendem-se, Rússia e Venezuela, andam melhores do que o próprio post.

Trechos de apenas um, do Elias:

O Brasil tem vizinhos instáveis ao norte, mas tem se recusado em adotar políticas dissuasórias.

Toda a estratégia militar brasileira, ao longo de décadas, foi voltada para o cone sul.

A origem disso, evidentemente, foi a conduta nem sempre decente da Argentina e do Paraguai em relação ao Brasil, no século XIX.

Até hoje, no Brasil, tem muita gente que, honestamente, acredita que, na Guerra do Paraguai, este teria sido a vítima.

Tem até um livro piradão — mas que muita gente boa aceita com análise de primeira — que afirma, categoricamente, que, naquela guerra, o Brasil esmagou o Paraguai para servir aos interesses ingleses.

Que interesses ingleses seriam esses contrariados pelo Paraguai?

A Inglaterra, àquela época, queria mercado para seus produtos industriais. O Paraguai não contava nem como mercado (sua população era nanica, pobre e analfabeta), nem como concorrente (o Paraguai não fabricava nem lâmpada queimada).

A tese dos “interesses ingleses contrariados pelo Paraguai” merece tanto crédito quanto a notícia de uma tempestade de neve no Raso da Catarina.

Mas o fato é que houve a guerra contra o Paraguai, poucos anos depois da guerra contra a Argentina (que a Argentina diz que venceu e o Brasil diz que não perdeu).

Mais tarde, Perón, o alcoviteiro de criminosos nazistas, chegou a elaborar um plano pra garfar um pedaço do sul do Brasil. O plano — que teria apoio da Alemanha nazista — é risível, mas existiu.

Acho que esses troços todos criaram uma nóia que grudou feito visgo no pensamento estratégico do Brasil.

Até hoje, o Brasil encara a Calha Norte como algo secundário. Não no discurso, evidentemente, mas na prática.

Basta pintar um ditador abilolado nos países aí de cima, pra causar uma confusão enorme.

Claro que, se isso acontecer, no fim a gente vence. Mas, não seria melhor nem começar?

Não me refiro ao Chavez, obviamente. Ele não ameaça o Brasil nem militarmente nem politicamente.

Aliás, nem chega a fazer sombra ao Lula, na disputa por uma suposta liderança na América do Sul.

Agora mesmo, Lula foi à China e costurou uma série de acordos comerciais para o Mercosul, beneficiando a exportação de vários países (não só o Brasil), num momento em que eles estão desesperados para exportar.

Não pára por aí: Bitt, Pablo Vilarnovo, Jorge, André, Brancaleone, Namber Uam e outros discutem as raízes da industrialização brasileira, o projeto militar para o País, as fronteiras nacionais numa discussão que ainda vai longe.

Quando socialistas viram antissemitas

19/May/2009 - 15h16 - 283 Comentarios

Foi estranho – um bocado estranho – o ataque antissemita em Buenos Aires, no domingo. Judeus foram agredidos quando deixavam a festa dos 61 anos de Israel na embaixada por rapazes com bastões, pedras. Um deles estava armado.

Os agressores eram militantes socialistas com histórico de ataques. Vestiam Che Guevara nas camisas. Tinham bandeiras de agrupações nanicas como a Frente de Acción Revolucionaria e a Convergencia Socialista.

O antissemitismo jamais foi marca ideológica da esquerda. Marx era judeu. Leon Trotsky – e, como ele, vários dos líderes bolcheviques. Os nazistas jamais se referiam ao ‘judeo-bolchevismo’ para designar o tipo de governo soviético. O Projeto Sionista é socialista – e foi o projeto socialista, transferindo judeus da Europa para a Palestina, comprando-lhes terras e erguendo os kibutzim, fazendas comunitárias, que iniciou a implantação do Estado de Israel. Este movimento é que deu origem ao Partido Trabalhista de David Ben-Gurion. De gente de esquerda se formou o Exército de Israel. Ainda hoje, o mito do israelense que trabalha a terra para erguer o país, Eretz Israel, a Terra de Israel, é um dos mais fortes no imaginário nacional.

Incompetência, paranóia sem limites, perda de noção do razoável e falta de diplomacia transformaram Israel, principalmente nos últimos anos, em um Estado agressor.

Na última década e meia, talvez duas, houve uma inversão. A direita bate no peito para defender Israel. A esquerda faz o contrário. Em parte, é fruto das ações mais recentes do governo de Israel. Também é herança dos tempos da Guerra Fria, quando o maniqueísmo de ambos os flancos ideológicos se alinha pró e contra o lado dos EUA mais por simplismo do que por compreensão. Podem ter suas razões – mas entre criticar as ações de um governo e o racismo ainda há uma diferença.

Há está linha tênue com a qual a extrema esquerda flerta com cada vez mais ousadia. Alguns países, culturalmente, estão mais expostos ao antissemitismo do que outros. O Brasil, menos. A Argentina, mais. O problema, no entanto, não é localizado geograficamente. É uma tendência internacional.

Um militante socialista que ataca um judeu por sua etnia não contradiz apenas seus valores. Ele desconhece sua história. Perdeu noção daquilo pelo que deveria estar lutando. Repete os atos de quem sempre o perseguiu. Não atenta apenas contra sua ideologia: ele a esvazia. A aniquila. E cede o argumento à direita. Próximo passo é algum louco de lá vir com a história de que o nazismo era na verdade socialista.

Avanço chinês sobre a América Latina

17/April/2009 - 03h34 - 49 Comentarios

Enquanto o presidente norte-americano Barack Obama se prepara para a reunião que terá com seus pares latino-americanos, no fim de semana, o New York Times dá destaque ao avanço chinês na região. O continente – não surpreenderá a muitos – foi conhecido por décadas como quintal dos EUA. O abandono político do governo George W. Bush, no entanto, abriu espaço que foi devidamente ocupado.

A China vai bancar os custos de um bilhão de dólares para uma hidrelétrica no Equador, investirá 12 bilhões na Venezuela, emprestará 10 bilhões para a Argentina e outros 10 seguirão para os cofres da Petrobras. O gigantesco País do Centro tem dinheiro e está gastando. Gasta com critério: os argentinos aproveitarão o alívio do empréstimo para comprar produtos chineses, os brasileiros agradecerão o investimento garantindo exportação de petróleo, mesma promessa venezuelana.

No caso específico da Argentina, o empréstimo seguirá em yuans, a moeda chinesa. É para importar mesmo, um ajuda que chega em boa hora, quando os vizinhos ao sul andam com o crédito em baixa e os EUA recusam-se a dar mais.

Não é, de forma alguma, jogo perdido para os EUA. Mas, em Washington, o alerta foi bem compreendido.

O que mata na questão é que Obama tem uma brutal crise econômica com a qual lidar. A China, por outro lado, parece ter motivos para otimismo. Cresceu no primeiro trimestre do ano num ritmo maior do que no trimestre anterior. As exportações continuam em baixa, mas segundo a revista britânica The Economist, os indicadores sugerem que o ano chinês não será tão terrível quanto previsto inicialmente.

Para o resto do mundo – incluindo para os EUA –, a notícia é excelente.

Você já foi à Bahia, Raúl? E você Hugo? Lugo?
Castro, Chávez e Lula na Cúpula baiana

17/December/2008 - 14h09 - 72 Comentarios

Há duas maneiras de ver a Cúpula da América Latina e Caribe, realizada na Bahia a convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A primeira é a do press release. Raúl Castro todo lépido, ‘Cuba convidada pela primeira vez a um evento deste porte’; Lula fazendo elogios à ascensão da esquerda na região; Hugo Chávez, como de hábito, arriscando uma declaração bombástica ou outra entre sorrisos, sempre com aquele ar de que o coração disparou no instante em que lhe apontam câmeras; só não havia Néstor Kirchner mal-humorado, para completar o clichê, porque a Kirchner na presidência argentina, agora, é a outra.

O press release, aquilo que a cúpula adoraria ver publicado nos jornais, é uma América Latina unida, críticas salpicadas (e, a essas alturas do campeonato, fáceis de fazer) a George W. Bush – os oprimidos e o opressor. É a história que a esquerda adora ouvir e repetir, a mesma que a direita paranóide vibra em ter como pesadelo seu pesadelo particular, a eterna comprovação de que estava certa.

A segunda maneira de ver a Cúpula é pelo que de fato ocorre: as conversas realmente importantes para o Brasil não parecem que vão sair. É questão de aguardar.

É fácil condenar o (estúpido) embargo norte-americano a Cuba. E não há rigorosamente nada de audaz em convidar Raúl Castro. Desde que José Sarney chegou à presidência do Brasil que Fidel vive passeando por aqui.

As conversas com o Paraguai estão enguiçadas, mas os presidentes Lula e Fernando Lugo ainda não conversaram. Os paraguaios querem mais dinheiro pela energia elétrica que cabe a sua parte de Itaipu e é revendida ao Brasil. Eles reclamam que o contrato que existe foi assinado por duas ditaduras e que seu país foi lesado. É verdade. E a energia revendida ao Brasil realmente é barata. Mas quem contraiu uma dívida externa elevada para construir a usina inteira foi o Brasil, não o Paraguai. E, até o Plano Real, o Brasil sofreu um bocado por conta das dívidas angariadas pelos militares. A contrapartida de o Brasil pagar a obra inteira foi comprar energia barata.

alguns posts onde o assunto foi mais detalhado, cá no Weblog.

Apesar do discurso de união das esquerdas, o Itamaraty não quer ceder às pressões paraguaias por renegociação. E está certo: é um contrato comercial assinado. Nos anos 1970, os dois países jogaram os dados. O Paraguai ganhou energia praticamente de graça, o Brasil correu um risco. Ganhou. Mas política é matéria delicada. O ex-bispo católico Fernando Lugo tem a renegociação deste contrato como sua principal promessa de campanha. Se não conseguir rigorosamente nada, não terá o que explicar em casa. Político pressionado pelo apoio popular em baixa pode fazer besteira. Fechar a usina, ele não consegue. O Brasil já andou fazendo exercícios militares próximos à fronteira. Seria loucura para Lugo fazer o mesmo. Há uma bomba relógio em potencial tocando.

Rafael Corrêa, presidente do Equador, terá uma conversa com Lula hoje. Quer dinheiro – seu país está falido.

Estas duas discussões levam a uma questão mais importante: às vezes, pode ser do interesse do Brasil levar prejuízo numa negociação deste tipo com o Paraguai.

A questão se chama Mercosul ou um futuro mercado livre que englobe toda América do Sul.

A estrutura básica que a geopolítica está tomando já nos é conhecida: Brasil, China e Índia – talvez África do Sul – ganham espaço e voz nas decisões mundiais. O problema, para nós, é que descontando-se a África do Sul, o Brasil é o caçula entre China e Índia. Pode ser o de maior renda per capita, pode ser o menos violento, com menor quantidade de problemas internos, mas é também o menor economicamente. Não é absurdo imaginar um cenário no qual o Brasil chegue a 2010 como a sexta ou sétima economia do mundo. Com alguma sorte, e dependendo de como a crise bater individualmente em cada país, é possível. Ainda assim, permanecerá o caçula.

Mas há uma lição da União Européia: a Zona do Euro, hoje, tem o segundo PIB do mundo. Se um dia o Reino Unido entrar, será muito difícil ultrapassá-la. E ter nas mãos uma moeda com este peso a sustentando é extremamente valioso na hora de negociar com o mundo. O Real não será essa moeda. Portanto, o Mercosul está em nosso futuro e nos interessa. O Brasil será o país mais poderoso do grupo, mas isso não quer dizer que vencerá todas. Um mercado comum não interessa a ninguém se só há vantagens para um deles. Para que o Mercosul aconteça, será preciso seduzir o mais ardiloso e enciumado de nossos vizinhos: a Argentina. E, se ele tiver alguma chance de existir realmente, o Brasil terá de correr atrás do seu desenvolvimento ainda em curso ao passo em que ajuda os vizinhos. Exatamente como os países ricos da Europa fizeram.

Um grande bloco sul-americano alavancaria mundialmente em muito os interesses de toda região. O Brasil sobrevive sem o Mercosul. Melhor com ele, mas há vida sem. Tem sobrevivido bem, diga-se. Quem precisa do Mercosul são os outros.

Como, no entanto, não parece haver espaço de diálogo a respeito de uma real integração regional, todos vão brincando de discursar sobre as união das esquerdas enquanto posam para fotos. Esta Reunião de Cúpula para ser mais uma daquele tipo no qual, em uma semana, todos já esqueceram.

Enquanto isso, nas Olimpíadas de bronze

19/August/2008 - 12h06 - 80 Comentarios

La Selección humilló a Brasil y llegó a la final de los Juegos.

La Argentina cortó la paternidad con una goleada inolvidable.

El partido perfecto.

Cristina Kirchner vai ao chão

17/July/2008 - 14h03 - 38 Comentarios

O conflito entre a presidente argentina Cristina Kirchner e o setor agrícola chegou a seu clímax esta madrugada, criando uma inesperada crise política e uma derrota fragorosa para o governo.

Cristina pretendia aumentar o imposto para a exportação de grãos, particularmente trigo e soja. O objetivo era inviabilizar o comércio externo, barateando o produto localmente. Inábil politicamente, a presidente partiu para o confronto direto com os fazendeiros. Seu projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados e, ontem chegou ao Senado. Foram 18 horas de debate. Durante a madrugada, quando se contou o último voto, deu empate. O voto que decidiria o embate coube ao presidente da Casa, Julio Cobos. Ele pediu que os senadores líderes de cada bloco tentassem um acordo. Houve conversas – permaneceram todos intransigentes. Às 4h25, Cobos votou contra o governo.

Na Argentina, o presidente do Senado é o vice-presidente da República.

O diário La Nación preparou uma nuvem de palavras com o discurso de Cobos (quanto maior, mais citada):

Quando lhe perguntaram se renunciaria caso a presidente o pedisse, Cobos afirmou que não. “Ela estaria afrontando as instituições se pedisse o cargo”, disse. É o primeiro ano do mandato de Kirchner. Esta derrota doerá fundo.

O mundo em busca de reformas

06/July/2008 - 12h05 - 57 Comentarios

Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.

E o planeta não poderia estar mais diferente.

Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.

As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:

Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.

A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.

Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.

As tramas, os laços e as tensões criadas
por Itaipu, entre Brasil e Paraguai

27/April/2008 - 11h06 - 111 Comentarios

Na última segunda-feira, publiquei aqui no Weblog a informação de que a usina hidrelétrica de Itaipu ainda podia ser expandida. Fui contestado por dois leitores – Surfando na Jaca e Josef Mario. Eu estava errado. Eles estavam tecnicamente corretos. Com vinte turbinas, Itaipu de fato chegou ao seu tamanho máximo.

A expansão possível é de outra ordem e não depende das boas relações entre Brasil e Paraguai, como seguia o raciocínio do post. Depende da relação de ambos com a Argentina. A região toda é de tríplice fronteira e qualquer variação do nível de água provocada por Itaipu afeta navegabilidade e outra usina mais ao sul. O resultado é que, para Itaipu funcionar com as 20 turbinas simultaneamente, seria preciso aumentar o volume d’água represada. Isto não é possível por conta de tratados assinados por Paraguai e Brasil com a Argentina. Hoje, pelo menos duas das turbinas estão sempre paradas em manutenção.

Ainda sobre a questão do preço que o Brasil paga pela eletricidade paraguaia, conversei nesta última semana com a historiadora Ivone Carletto Lima. Desconte os participantes da negociação, muitos já mortos, ela é provavelmente quem mais entende do processo que levou ao acordo. Itaipu foi obra das ditaduras dos generais Stroessner e Médici, um contrato firmado atrás das portas. Os engenheiros paraguaios, à época, consideraram-no uma vitória de grandes proporções; os brasileiros terminaram amargurados. O Brasil deu Itaipu de presente para o Paraguai. Pagou a conta inteira e desenvolveu boa parte da tecnologia. A contrapartida era de que a dívida seria paga ao longo de 50 anos, devidamente amortizada, na forma de energia elétrica. Não foi pouco: 30 bilhões de dólares. (A entrevista completa foi publicada hoje, no Aliás do Estadão.)

O que o Paraguai está pedindo, portanto, não é a revisão de um contrato que lhe foi imposto. É o perdão da dívida. O contexto político é outro, hoje. E pode interessar ao Brasil perdoar parcial ou totalmente tal dívida. Mas é bom ter em mente do que se trata renegociar preços: é perdoar dívida que existe. É uma cortesia brasileira, não a revisão de uma injustiça. E, na diplomacia, para qualquer cortesia cabem contrapartidas generosas. Serve se o Brasil ampliar sua área de influência regional.

E, assim como informa o Estado de hoje, é exatamente isto que o governo brasileiro está fazendo:

O governo brasileiro já traçou duas linhas básicas das negociações que terá com o novo comando do Paraguai. A primeira: o Tratado de Itaipu é intocável, mas outras formas de engordar o caixa do país vizinho poderão ser analisadas. Pode-se, por exemplo, adiantar pagamentos pela energia de Itaipu, e com o dinheiro criar um fundo de desenvolvimento do país. A segunda: a ajuda não será de graça. O Brasil vai, por exemplo, insistir numa proposta de atuação conjunta das polícias na fronteira dos dois países.

É a proposta inicial, a maneira como o Planalto chegará à mesa de negociações. O Paraguai não tem como renegociar o tratado a não ser que o Brasil o queira. Diferentemente de Evo Morales, que invadiu refinarias brasileiras em território boliviano, Fernando Lugo não pode invadir Itaipu, cujo território é considerado binacional. Se o fizesse, seria um ato de guerra; se ‘desligasse’ a usina, diga-se, o Paraguai ficaria às escuras. Lugo tem uma margem de manobra muito estreita em qualquer negociação.

O mundo visto pelos leitores: Argentina

24/April/2008 - 09h19 - 77 Comentarios

Por Mr X

Faz uns bons seis meses que estou em Buenos Aires. Já conhecia a cidade, mas é a primeira vez que estou efetivamente morando aqui.

A visão estereotipada da capital argentina é o tango, churrasco, cemitério da Recoleta e feira de San Telmo. A cidade vai além: Buenos Aires é literária como poucas. Jorge Luis Borges localizou vários de seus contos na sua topografia e escreveu em um poema: A mi se me hace cuento que empezó Buenos Aires / La juzgo tan eterna cuanto el agua y el aire. Cortázar marcou o encontro dos personagens de ‘Los Premios’ no café London City, na esquina de Perú e Avenida de Mayo. Isaac Bahevis Singer visitou Buenos Aires e escreveu uma novela, ‘Escória’, que se passa em parte aqui. Não li o romance, não sei se o título foi inspirado na população local. O escritor vanguardista polonês Withold Gombrowicz morou aqui por trinta anos. O filósofo espanhol Ortega y Gasset também visitou e escreveu, ficou famoso, ‘Argentinos, a las cosas!’. Recomendava menos sonhos e mais ação. Italo Calvino também visitou e talvez tenha encontrado inspiração aqui para escrever o ótimo conto ‘A formiga argentina’.

Mas a visita mais famosa é a relatada pelo escritor portenho Marcos Aguinis no seu ótimo livro ‘O atroz encanto de ser argentino. É a visita do prêmio Nobel Jacinto Benavente. Contam que a todo momento o dramaturgo espanhol era incomodado com perguntas sobre o que achava da Argentina e dos argentinos. Não lhe davam sossego um único momento. E ele, calado, preferia não se pronunciar. Até que, do barco que o levou de volta à Europa, ele finalmente respondeu: ‘Formem a única outra palavra que pode ser formada com as letras de argentino.’ O barco já estava longe quando a multidão se deu conta que a única outra palavra que podia ser formada era ‘ignorante’.

Com o real alto, o dólar baixo e o peso irrisório, há muitos brasileiros hoje vindo de visita a Buenos Aires: escuta-se o português em qualquer esquina ou café. Na verdade, às vezes até parece que nem saí do Brasil. Tem brasileiro até demais. Xô, xô.

Buenos Aires recentemente também está virando a capital latino-americana do turismo gay. O que é curioso, pois, assim como ocorre no Irã, não existem homossexuais na Argentina. O que existem são só ‘muchachos medio alegres’.

As mulheres argentinas, em contrapartida, são muito bonitas, e de tipos quase tão variados quanto as brasileiras.

Teoricamente, os personagens recentes mais famosos da Argentina são Gardel, Perón e Evita. Mas um estrangeiro que julgasse apenas pela quantidade de imagens vendidas nas bancas de jornais em cartazes, pôsteres e calendários, acharia que os personagens mais famosos da história argentina recente são Che Guevara e Homer Simpson.


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Mughniyeh, seu assassinato e
um mistério de espionagem

14/February/2008 - 13h56 - 213 Comentarios

”Com este assassinato, neste momento, neste lugar, desta forma, vocês passaram do limite’, disse hoje Hassan Nasrallah, líder supremo do Hizbollah libanês. ‘Sionistas, se é guerra aberta assim que vocês querem, que todo o mundo ouça: a guerra começou.’ Ele estava, evidentemente, nos funerais de Imad Mughniyeh, comandante militar de seu grupo, que morreu quando uma bomba explodiu em seu carro, ontem, na capital síria, Damasco.

De santo, o sujeito não tinha nada. Deixou um rastro de sangue inocente que a imprensa lista incansavelmente, hoje. Planejou a explosão da embaixada norte-americana de Beirute em 1983, o seqüestro de um avião da TWA em 1985, o rapto de inúmeros jornalistas. Foi ele provavelmente o responsável pela explosão do Centro Cultural Judaico de Buenos Aires, em 1992. Ataques a prédios comerciais na Arábia Saudita e no Kuwait também contam em sua lista de feitos.

Mughniyeh é freqüentemente creditado como o inventor do homem-bomba no Oriente Médio contemporâneo. Não era apenas homem do Hizbollah: também era um elo entre a inteligência iraniana e a síria, para as quais prestava serviços. Era um agente experiente e não importam muito as ameaças do Hizbollah neste momento. Sem seu principal estrategista, sem a delicada rede de conhecidos que ele tinha pessoalmente, este misto de partido, milícia e grupo terrorista libanês que é o Hizbollah terá muita dificuldade de agir fora de suas fronteiras pátrias.

Ou será que não? O Hizbollah já perdeu líderes importantes antes e sua estrutura jamais sofreu impacto. São sobreviventes. É uma organização descentralizada e se por um lado sua ligação com a Síria não é confiável, o mesmo não pode ser dito dos elos com o Irã. O principal país xiita do mundo é um patrocinador constante e de primeira hora do principal movimento xiita do Líbano.

A guerra aberta está formalmente declarada. Isto não quer dizer que uma guerra contra Israel de fato acontecerá. Os seqüestros de soldados israelenses há alguns anos pelo Hizbollah serviram de desculpa para um duro e desastrado ataque israelense ao Líbano. Se a guerra e o desastre político que nasceu dela impactou duramente a administração israelense perante seus eleitores, ela também não foi uma vitória interna do Hizbollah. No Líbano, as constantes provocações do partido contra o vizinho mais forte são vistas com decrescente popularidade. Uma série de ataques contra Israel poderia piorar ainda mais a maneira como o grupo é visto internamente.

Era um assassino. Oficialmente, Israel nega que tenha qualquer coisa a ver com sua morte. Então quem o matou? A Economist lista mais duas teorias. Uma é de que os assassinos sejam seus anfitriões sírios. O ramo que mistura espionagem com terrorismo não tem regras claras tampouco nele se joga limpo. O amigo de um dia pode mudar seu foco de interesses. Outra teoria sugere que tenham sido agentes libaneses em algum tipo de parceria com a CIA. Muita gente no Líbano quer o Hizbollah mais fraco – trará uma chance de estabilidade ao país.

Seja como for, Mughniyeh não era visto há 9 anos. Vivia escondido e, alguns sugerem, disfarçado por inúmeras plásticas em Damasco. Foi coisa de gente que sabia exatamente o que estava fazendo.

Jango foi assassinado a pedido da Ditadura?

27/January/2008 - 17h12 - 122 Comentarios

Preso desde 2003 na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (RS), o ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio Mario Neira Barreiro, 54, disse em entrevista exclusiva à Folha que espionou durante quatro anos o presidente João Goulart (1918-1976), o Jango, e que ele foi morto por envenenamento a pedido do governo brasileiro.

Jango morreu em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, oficialmente de ataque cardíaco. Ele governou o Brasil de 1961 até ser deposto por um golpe militar em 31 de março de 1964, quando foi para o exílio. À Folha Barreiro deu detalhes da operação da qual participou e que teria causado a morte de Jango. Segundo o ex-agente, Jango não morreu de ataque cardíaco, mas envenenado, após ter sido vigiado 24 horas por dia de 1973 a 1976.

A operação que levou ao assassinato de Jango, informa o ex-agente, foi executada pela inteligência uruguaia com financiamento e acompanhamento da CIA. O mérito do furo que, se confirmado, é bem mais que histórico, cabe à repórter Simone Iglesias.

Se Jango foi de fato assassinado, volta à tona a hipótese de a Ditadura, que estava iniciando o processo de abertura, ter providenciado a morte dos três grandes líderes da política brasileira do tempo. Além de Goulart, também Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda. A hipótese de triplo assassinato já foi tema de um livro, um quê romanceado, de Carlos Heitor Cony.

A verdadeira história do Papai Noel

24/December/2007 - 05h13 - 38 Comentarios

Por um tempo, em NoMínimo, tomei o hábito escrever algo de diferente para cada Natal. Continuando a série de republicações, esta é a verdadeira história do Papai Noel, que saiu no 25 de dezembro de 2004.

Feliz Natal a todos!

Papai Noel com bochechas rosadas e sorriso bonachão nasceu num poema anônimo, publicado no New York Sentinel, jornal que não existe mais, no 23 de dezembro em 1823. Chamava-se São Nicolau, ainda, era um elfo baixinho, carregava seu saco de presentes com o qual descia chaminés abaixo. Ali já estava a costura de um santo católico com mitos nórdicos. Tem três pais modernos: o poeta anônimo, um mordaz cartunista político analfabeto e um desenhista publicitário conhecido pelas moças seminuas pin-ups que traçava.

De origem mesmo, Papai Noel é personagem histórico, São Nicolau. Cinco santos católicos tem este nome, um deles papa. Do original, São Nicolau de Bari, pouco se conhece. Nasceu em Lícia, que hoje fica na Turquia, em finais do século 3. Órfão de pais ricos, peregrinou pela Palestina e Egito, abraçou o cristianismo. Era uma época tumultuada, finais do governo de Diocleciano, quando seguir Cristo já era atividade popular mas ainda coisa perseguida. Jovem ainda, Nicolau sacramentou-se padre e foi feito bispo de Mira, sua região natal.

Ficou preso e provavelmente foi torturado muitos anos até que ascendeu ao trono romano Constantino, em 306, que posteriormente cristianizou o império, em 312. Tempo de rancores – era preciso lidar com a turma que renegou Cristo para evitar a prisão; inventaram o sacramento da confissão por conta. Carecia também gerenciar o conflito entre o imperador e o papa Silvestre I, que disputavam o comando da Igreja. E, sobretudo, alguém precisava decidir o que afinal era Jesus Cristo.

Em 325 fez-se a primeira reunião de todos os bispos para afinar o discurso no Concílio de Nicéia. Nicolau era um dos defensores da tese da trindade – de que Cristo era Deus – e seu lado terminou por vencer o grupo que o via como um profeta, um homem entre homens. Os bispos decidiram também que evangelhos entravam na Bíblia e afastaram o cristianismo do judaísmo original, abolindo o sábado como dia de descanso e adotando o domingo, incluindo-se aí uma nova data para a Páscoa.

No entanto, ele é um santo embaraçoso para a Igreja contemporânea – na Enciclopédia Católica oficial, põe-se em dúvida até se participou ou não do concílio. Nem todos os bispos foram, só a maioria. Mas o bispado de Nicolau incluía a Anatólia, local do concílio – por que estaria ausente duma reunião em casa? Só que é embaraçoso: os milagres lhe atribuídos são um tanto incríveis e a Igreja implica com o encontro da religião com crendice popular. Uma vez, por exemplo, São Nicolau caminhou pelas águas do mar para salvar um pescador que ia afogando.


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O Brasil visto da Argentina

21/November/2007 - 06h19 - 120 Comentarios

Na Argentina, o diário La Nación diz a respeito do Brasil:

É a décima maior economia do mundo;

Maneja 40% do mercado de carnes do mundial;

É a oitava bolsa de valores por volume, tendo crescido 1.600% nos últimos cinco anos;

As exportações – 137 bilhões de dólares – dobraram em quatro anos.

E, por fim, a comparação que deixa os argentinos danados:

Nos anos 1940, o PIB de toda América Latina era igual ao argentino; hoje, o Brasil tem o tamanho de quatro Argentinas.

(Há de ser bom mesmo viver num país destes.)

Mas, no fim, como sugere à repórter Florência Carbone um de seus entrevistados, em meados dos anos 1990, só se falava do modelo chileno; pouco depois, vitorioso era o modelo argentino. Agora é a vez do Brasil. O quanto isto vale de fato? E, se vale, perguntam-se os jornalistas nossos vizinhos: qual o segredo do Brasil? A série inclui três artigos e uma reportagem.

Algumas coisas – a auto-suficiência em petróleo, por exemplo – é trabalho sólido. A Petrobras vem investindo há muitos anos, já, em tecnologia de extração. Some-se a alta dos preços do barril, que faz compensar a retirada de petróleo a grandes profundidades, e o investimento compensa.

O La Nación destaca também que aos oito anos do governo FHC seguem-se mais oito de Lula que, embora vindos de grupos de oposição um ao outro, dão seqüência ao mesmo jogo de políticas públicas. Há continuidade de governança. A política externa do atual governo também recebe elogios do principal jornal conservador argentino.

Daí, seguem-se fatores que os argentinos não podem controlar: o Brasil tem quatro vezes mais terra e uma população cinco vezes maior. Tem recursos minerais, do ferro ao carvão. Ajuda um bocado no processo de industrialização. Mas o momento chave em que, o jornal considera, Brasil e Argentina se separaram de vez faz muito tempo: a década de 1940. À época, quando o país deles era um riquíssimo agroexportador, os interesses do setor não permitiram o desenvolvimento de um parque industrial. Foi exatamente o que o Brasil fez. Desde então, a Argentina empobreceu e o Brasil enriqueceu.

Mas isto só conta metade da história na versão do La Nación: a projeção recente do Brasil no cenário global começa com o Plano Real, no governo Itamar Franco. É preciso levar-se em conta a solidez das instituições públicas e privadas, políticas e econômicas, ‘que geram contrapesos no exercício do poder social, limitando as tentações por caprichos individuais’. Não são perfeitas, mas permitem ‘canalizar e articular interesses divergentes’. Quer dizer: o país funciona independentemente de quem esteja no governo.

A conclusão dos argentinos – talvez aí surpreendente – é que o crescimento brasileiro é bom para eles se tomado o exemplo da relação Canadá, Estados Unidos. Se, no Brasil, conflitos políticos não mataram o projeto de desenvolvimento, caso argentino, o sucesso econômico daqui gerou investimentos lá. O melhor modelo, então, ainda mais agora que estabilidade política parece estar voltando também à Casa Rosada, é uma relação de interdependência.

Naturalmente. É só combinar com o adversário antes.

via O biscoito fino e a massa

Cristina Kirchner, a nova presidenta

29/October/2007 - 12h17 - 32 Comentarios

Os resultados oficiais parciais já próximos do fim da apuração não deixam quaisquer dúvidas a respeito da eleição de Cristina Fernández de Kirchner, na Argentina: são 44,88% dos votos válidos a seu favor contra 22,99% de Elisa Carrió e 16,90% de Roberto Lavagna. As eleições deixam à mostra um país dividido entre cidades e campo, entre quem tem algum dinheiro e os descamisados.

Do Clarín:

A chegada de Cristina Kirchner contém uma promessa de melhora institucional muito necessária. Certamente as promessas são fáceis de fazer e difíceis de cumprir. Nesta lista de coisas por realizar está dar condições de crescimento ao país, parar de manipular os índices de inflação, corrigir os abusos dos gastos públicos, lutar a cada dia e a cada hora contra a insegurança, aumentar os esforços para remover os núcleos de pobreza e marginalidade, melhorar os serviços de saúde e de educação.

Cristina é presidenta de um país fragmentado. Um terço de nós vivemos como se vive razoavelmente no Primeiro Mundo. Outro terço mal sobrevive por conta da carência e desesperança cotidianas. Esta fragmentação se expressou no evidente corte social do voto. A vitória de Cristina se deveu ao respaldo dos setores mais carentes de proteção. Seu mandato é para governar por eles. Mas também deverá governar para a metade do país que não votou nela.

É assim que ela quer ser conhecida: presidenta, não presidente. Que se faça. O perigo do voto dos descamisados, embora evidentemente sejam os mais carentes de apoio de qualquer governo, é que costuma ser uma massa de fácil manipulação. São susceptíveis aos regalos do fisiologismo. E o primeiro Kirchner governou sem jamais ouvir a oposição, num evidente traço autoritário. Ainda é cedo para dizer que a presidenta seguirá estes passos de seu marido.

A senadora de esquerda Elisa Currió assume, com esta eleição, o posto de líder da oposição. Carrió recebeu pesadamente o voto de classe média e o voto urbano.

A Argentina rachada que deve
eleger Cristina Kirchner hoje

28/October/2007 - 13h06 - 27 Comentarios

Conversei, esta semana que passou, com o psicanalista Marcos Aguinis. Ele é autor de O atroz encanto de ser argentino, um livraço que procura explicar o ser e os fracassos e os sucessos argentinos. Não chega a tocar tão fundo como Sérgio Buarque ou Gilberto Freyre fizeram cá no Brasil, mas é o intérprete que foi mais longe na alma portenha. Conversamos, como não poderia deixar de ser, a respeito da virtual eleição, hoje, de Cristina Kirchner para a presidência. Aguinis apresenta um país dividido:

As eleições de hoje serão decididas pela apatia do eleitorado?

Houve apatia, mas ela está diminuindo. No início, a candidata oficial, Cristina Kirchner, parecia que ia conseguir o número de votos necessários para se eleger no primeiro turno. Mas a sociedade argentina está dividida e há ódio e rancor. Os 60% que não votarão em Cristina votam em qualquer um que não ela. Há um clima de hostilidade interna na Argentina.

O que motiva o ódio?

O governo de Néstor Kirchner partiu para o ataque contra todos os setores da sociedade organizada. Não há quem não tenha sido atacado ou desprestigiado pelo governo. O presidente nunca chamou ninguém da oposição para conversar, nunca deu entrevistas à imprensa. Ele usa o poder para manipular. Para parte da sociedade, é como se o governo estivesse dizendo que a Argentina não funciona bem como república. Como aconteceu em outros momentos do passado, parece que só funciona quando há um regime autoritário.

A entrevista foi publicada no Aliás do Estadão de hoje. Está online na íntegra.

Cristina precisa fazer 40% dos votos e manter uma diferença de mais de 10% em relação ao segundo colocado para se eleger no primeiro turno. Das nove pesquisas divulgadas na sexta-feira, ela conseguia esta distância com folga em seis. Nas outras três, era impossível garantir fora da margem de erro. Não custa lembrar que, neste ano, já aconteceram várias eleições para governador de província. As pesquisas erraram em quase todas.

Fidel, Chávez, América Latina e o Che
que morreu para nos salvar

15/October/2007 - 07h29 - 151 Comentarios

Fidel Castro reapareceu – e, desta vez, o comandante conversou ao vivo pelo rádio com o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu programa Aló, presidente. (O El País tem o áudio.) Falaram sobre a memória do Che.

Fidel crê que o projeto de uma revolução por país em toda América Latina prometida por seu ex-companheiro de batalha está a caminho e que só a estupidez das oligarquias locais não o percebe. O objetivo de Che, fazer com que continente explodisse em vários Vietnãs, já se concretizou em pelo menos três casos: a Venezuela, a Bolívia e o Equador. E que a resistência aos EUA, em tempos de George W. Bush, é mais pertinente do que nunca.

É o tipo do discurso que a direita paranóide adora.

A memória de Ernesto Guevara de la Serna está em disputa. A imprensa brasileira lhe dedicou muitos registros e pelo menos duas capas que entram em evidente conflito. À esquerda está a hagiografia da Caros Amigos; à direita, a ‘ódiografia’ da Veja. São, ambos, textos de um jornalismo que nasce da defesa de uma ideologia. Nos 40 anos de sua morte, este Weblog limitou-se a publicar uma nota. Foi um erro. Entender Guevara, ou ao menos, como Guevara é percebido, parece ser muito importante para nos entendermos, latino-americanos. E, para isso, é preciso antes compreender que o Che do pôster e Ernesto Guevara são pessoas diferentes.

O Che do pôster compreendemos quando nos vemos pelo que realmente somos: ibéricos. Espanhóis e portugueses. Isto quer dizer que temos um ‘DNA’ cultual profundo, arraigado. Somos programados a reagir de uma maneira específica a determinados estímulos informativos, a determinadas imagens, a determinados discursos. Imagine um peregrino espanhol no século 15 traçando exausto o caminho para Santiago de Compostela e este somos nós. Esperamos o Salvador. Achamos sempre que está tudo ruim e que vai piorar até que o Salvador denunciará as injustiças e reestabelecerá a ordem e trará o fim do sofrimento. Milenaristas. Sebastianistas. Che é o Antonio Conselheiro.

Substitua no discurso de Fidel e Chávez ’socialismo’ pelo ‘reino dos céus’, substitua a boina do retrato de Che por uma coroa de espinhos e temos um discurso que se revela pela identidade cultural profunda de nós latinos que é católica e messiânica até a alma.

A leitura jungiana não tem nada de original. O sociólogo José de Souza Martins já a evidenciava no Estadão do último dia 7. E a Economist também o diz na edição desta semana. Isto só quer dizer que, provocados pela imagem do homem de barba com o olhar cheio de esperança ou pelo discurso de ¡Hasta la victoria, siempre! contra as injustiças do mundo nos comovemos e acreditamos do fundo do coração. Estamos programados para isto.

Evidentemente, o Che é uma figura muito maior do que foi Ernesto Guevara. Guevara foi um idealista dogmático. Era um soldado que, em mais de um momento, ordenou a execução de pessoas. Em alguns casos, no ambiente da guerrilha, disparou o revólver ele próprio contra quem suspeitava traidor. Há reportagens que o acusam de ser um assassino frio – mas aí é onde o jornalismo, que lida com fatos, é comprometido pela ideologia. Quem o diz? Se não sabemos se deixava de dormir à noite, que pesadelos o atordoavam, como saber da frieza ao apertar o gatilho? Guevara não era um Pinochet. Ou um Stálin. Não foi um genocida. Foi, isto sim, um fracassado. Acreditou que iniciaria muitas revoluções mas os índios não estavam nem aí para sua guerrilha. A esquerda acha que precisa dele como Salvador e a direita precisa transformá-lo no anjo caído. Em vida, talvez tenha sido mais como um personagem de Monty Python, um Brancaleone: um asmático ofegante nas montanhas bolivianas, cheio de sonhos de grandeza, tentando convencer o povo a seguí-lo. E os camponeses só olhavam. Um líder sem liderados.

A Veja já fez bom jornalismo. Em 1997, quando completavam-se 30 anos de sua morte, ela contou de como a execução do homem Ernesto Guevara criou o mito do Che que morreu para nos salvar. Na época, a revista preocupava-se mais em compreender o mundo do que em doutrinar.

Che era um símbolo para o tempo maniqueísta e polarizado inventado pela Guerra Fria. Mas aí entra, interessantemente, a tese da Economist. O mito de Che atrapalha a esquerda.

Conquistamos democracias em vários pontos do continente. Países como o Brasil vivem, já, o período contínuo de democracia mais longo de suas histórias. Junto com a democracia veio uma estabilidade monetária ímpar. Estas são conquistas valiosas. Conquistas que trouxeram, diga-se, a esquerda ao poder. O mito de Che prega uma revolução que não faz mais sentido. Revolução, hoje, seria Golpe de Estado – afinal, não vivemos um regime de exceção ou mesmo uma pseudo-democracia dominada por um poder estrangeiro. Somos, a maioria de nós, Estados legitimamente soberanos. (Soberanos o suficiente para permitir que um presidente aqui, um aprendiz de ditador acolá, fale mal à vontade dos EUA sem comprometer o saldo positivo da balança comercial.)

Falamos de oligarquias como se nossos países não tivessem mudado, já. Uma esquerda insiste em olhar com desconfiança para o industrial, o banqueiro ou o comerciante. É o industrial que, se tiver sucesso, vai aumentar o salário do pobre e permitir ao filho do pobre a oportunidade de ser classe média e, um dia, pequeno industrial. Não é má a idéia de um país de pequenos burgueses.

Insistir num ideal revolucionário nos distrai dos problemas reais. Temos, brasileiros, chilenos, argentinos, mexicanos, países melhores do que tivemos. Mas ainda temos vícios antigos. Um legislativo corrupto, por exemplo – embora, agora, a corrupção seja evidente e constantemente denunciada. É bom ter liberdade para tal. Nossas eleições, por conta da lei, ainda são viciadas. É preciso uma profunda reforma fiscal. Há problemas ainda mais graves e urgentes: educação, saúde e habitação. Destes, educação é o mais revolucionário no sentido de que transforma a sociedade de uma forma profunda. Lança num mundo de oportunidades uma turma que, apenas uma geração antes, estava condenada à pobreza.

Che está mais vivo do que nunca, nos sugere Fidel Castro. É hora de deixar Che descansar ao invés de tratar sua ossada como relíquia medieval. Foi um bom ícone pop. Uma direita e uma esquerda que tenham projetos para resolver os problemas que temos de fato, ao invés de combater problemas imaginados, é tudo o que a América Latina precisa.

O Brasil que produz líderes

14/October/2007 - 11h22 - 120 Comentarios

Antoine van Agtmael é autor de The emerging market’s century – O século dos mercados emergentes. E é personagem de uma longa reportagem na Newsweek.

Na lista do top 25 das empresas de países em desenvolvimento de van Agtmael, nenhuma das grandes multinacionais vêm da Rússia e apenas uma do sudeste asiático, embora 10 venham da América Latina. A razão tem a ver com o legado – a América Latina tem uma longa história de capitalismo enquanto outras partes do mundo estão no jogo há apenas duas décadas.

Mas é a necessidade, não a geografia, que deu forma a estas empresas. A maioria teve de vencer grandes dificuldades para se transformar no que são. As crises financeiras do México, em 1994, da Ásia, em 1997, e da Rússia, em 1998, mataram as empresas fracas e forçaram líderes políticos a produzir reformas liberalizantes, vendendo velhas estatais, eliminando subsídios. Mas as mudanças realmente cruciais aconteceram de empresa em empresa, dentro dos mercados emergentes, e é por isso que ninguém percebeu que elas estavam vindo. Negócios que floresceram vendendo para consumidores cativos em economias fechadas desapareceram. Apenas três das empresas que estavam na lista de van Agtmael em 1990 continuam lá. As mais capazes, aprenderam com as multinacionais dominantes, copiaram e, em alguns casos, ultrapassaram o inimigo de maneiras que os mercados internacionais ainda não compreenderam de todo. ‘O que a maioria destas empresas excepcionais têm em comum é que sobreviveram a crises brutais, em alguns casos correram risco de vida, o que ao invés de fazê-las desmontar as fortaleceram’, diz van Agtmael.

O Canadá é um dos desesperados. Quem bate à porta querendo comprar suas empresas, hoje, não são norte-americanas ou européias. São brasileiras, indianas, chinesas. Sim, o Brasil ainda é considerado um dos piores lugares do mundo para se abrir uma empresa pelo Banco Mundial. A burocracia é aterradora, os impostos altos, os serviços prestados pelo Estado não compensam.

Mas as grandes empresas pátrias vão muito bem, obrigado. É por conta de empresas de grande porte e alto nível como elas, afinal, que a classificação de ‘terceiro mundo’ entrou em desuso e a de ‘mercado emergente’ veio – a mudança, no caso, vai muito além da correção política.

Na lista das 25 maiores empresas dos mercados emergentes preparada por van Agtmael, estão quatro brasileiras, quatro mexicanas, quatro de Taiwan, três indianas, três sul-coreanas, duas chinesas e Chile, Argentina, Malásia e África do Sul contribuem com uma, cada. As quatro brasileiras estão bem posicionadas, também. A Aracruz Celulose é a número 2, Vale está em quinto, Embraer em sexto e Petrobras em 16.

Para o autor, os mercados emergentes serão duas vezes o tamanho das atuais economias líderes em 50 anos.

Che, 40 anos após sua morte

09/October/2007 - 09h35 - 103 Comentarios

O médico e guerrilheiro Ernesto Guevara de la Serna morreu no dia de hoje, há 40 anos. Seus amigos chamavam-no de Che por conta do sotaque argentino – que repete o som tchê como cariocas chiam. Tinha 39 anos. O El País preparou uma galeria, começando por Omar Sharif, com os atores que o interpretaram no cinema. O Clarín traz um depoimento da viúva. O Estadão conta do brasileiro que quase vingou sua morte. E a Time tenta mapear as celebrações de seu nome pelo mundo.

Seu legado ainda é polêmico.

Coppola, Tetro seu filme e a pobre Argentina

30/September/2007 - 06h29 - 65 Comentarios

Cinco homens armados invadiram a casa do diretor de cinema Francis Ford Coppola em Palermo Viejo, um dos mais encantadores bairros de Buenos Aires.

Levaram tudo – incluindo-se aí o notebook e seu backup.

São 15 anos de fotografias pessoais e a única cópia do script de Tetro, filme provavelmente autobiográfico que começará a rodar no ano que vem.

Há uma recompensa pela fita de backup.

via Blog do Rodrigo Lopes

A blogueira mais velha do mundo

25/September/2007 - 14h06 - 15 Comentarios

A blogueira mais velha do mundo é a espanhola Maria Amelia de la Coruña, 95 anos.

Ela também coleciona suas fotos no Flickr.

via Weblog sobre weblogs