Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'América Latina'

O método Paes

7/October/2008 · 35 Comentários

dica do Bruno Marcondes nos comentários do Biscoito Fino

Tags: Brasil

Você é de direita, não sou, é, não

7/October/2008 · 100 Comentários

Tenho acompanhado aqui no Weblog, e noutros tantos cantos da blogosfera, uma série de discussões que invariavelmente acabam na definição de o que é ser de esquerda e o que é ser de direita. Não importa se o assunto é Israel e Palestina, se é China ou Hugo Chávez, Gabeira no Rio ou Obama versus McCain, tentativas de definir políticos e partidos no espectro ideológico despertam – incrivelmente – cada vez mais polêmica. Não acho, como alguns sugerem, que esquerda e direita tenham deixado de existir. Mas quando começamos a ler que ‘o PSDB é um partido de extrema-direita’ ou que ‘o PT é de centro-direita’ – está aí nos comentários da última semana em algum canto – é porque o samba do crioulo doido assumiu o comando.

Há uma falsa polarização entre PSDB e PT e este, hoje, é um dos mais sérios problemas do Brasil. Esta polarização é incentivada pela imprensa e é cultivada na blogosfera, que exerce atualmente o papel de aquecer as discussões políticas.

PT e PSDB têm a mesma política social, que parte do princípio da distribuição de complementos salariais por parte do Estado. Ambos têm essa política desde que Franco Montoro era governador de São Paulo e Toninho prefeito de Campinas. No governo federal, ambos seguem uma política econômica parecidíssima. Embora não tenham coragem de enfrentar tal fato, os fundadores de ambos os partidos são favoráveis ao estudo de células tronco embrionárias e ao casamento entre homossexuais. (Há uma exceção importante, nas questões de ordem social, porque ambos os partidos têm ligações históricas com a Igreja Católica que refuta ambas as políticas.) As diferenças entre PT e PSDB são de matizes, não de políticas. Nos EUA, a maioria de seus políticos se encontrariam com facilidade no projeto do Partido Democrata. Na Espanha, no projeto do PSOE. Caracterizar qualquer um dos dois como um partido de direita é não compreender o que é direita.

A polarização artificial incentivada pelas revistas que cobrem política e cultivada na blogosfera é auxiliada por figuras do tipo Arthur Virgílio e sua constante histeria de um lado, e a falta de tato com a corrupção endêmica do primeiro mandato Lula, no outro. Ainda assim, não é possível analisar a passagem de José Serra no Ministério da Saúde, onde interveio nos preços de empresas privadas sem qualquer pudor, e sugerir que ele é de direita. Serra é irascível, tem mau humor, manipula – alguns sugerem que é mesquinho. Talvez. De direita, não é.

Mas seguimos nessa discussão louca que lembra Manuel Bandeira e seus sapos parnasianos: você é de direita, não sou, é, não é. E quem ganha?

Não são PT e PSDB. Estes são os que perdem.

Enquanto brigam entre si, quem ganha são entidades como o PMDB. Como o DEM. Ou o PP. Este incrível PSL. A aberração que adotou a sigla PTB. É evidente: enquanto os dois mais bem estruturados partidos brasileiros, que têm programas tão parecidos, cujos fundadores estiveram juntos na resistência à Ditadura, não se aliam, precisam se aliar com outros. Que outros? Aqueles que serviram à ditadura. A polarização artificial entre PSDB e PT mantém viva a base fisiológica em partidos os piores possíveis.

Enquanto aqueles partidos são mantidos artificialmente vivos por uma aliança evidente que nunca se concretiza, reais partidos de direita não nascem no Brasil para uma oposição decente. Uma oposição com programas, com propostas alternativas à direita e uma idéia distinta de Brasil. Tal oposição melhoraria a coligação de centro-esquerda PT-PSDB, que seria obrigada a um debate sério a respeito de suas propostas e o constante refinamento. E o Brasil teria dois grupos fortes se enfrentando, os eleitores teriam duas propostas realmente distintas e o fisiologismo teria menos espaço.

Mas qual que nada. Previsão para este post e outros tantos blogosfera adentro: você é de direita, não sou, é, não.

Tags: Brasil

Kassab + Marta não é mau resultado
Mas os partidos seguem frágeis

6/October/2008 · 68 Comentários

(Os leitores doutras cidades do país que perdoem os excessos cariocas deste Weblog.)

No Brasil, São Paulo é minha segunda cidade. E ela tem um bocado a celebrar com a disputa entre Marta Suplicy e Gilberto Kassab. Ambos foram prefeitos que podem dizer ter feito concretamente algo por São Paulo.

Marta tem um grande mérito: conquistou o voto da periferia sem ter feito fisiologismo. Muitos, na classe média alta, não têm idéia de como iniciativas como o bilhete único fazem diferença no bolso de quem mora longe e precisa vir ao emprego na cidade.

Ao mesmo tempo, o Cidade Limpa melhorou surpreendentemente uma cidade em geral áspera. Melhorou mesmo: a qualidade de vida, o humor, melhora quando não há tanta feiúra exposta. Alguns argumentam que a lei é de José Serra. Talvez. Não foi de fácil implementação e este mérito é de Kassab.

De maneiras muito distintas, ambos melhoraram a vida em São Paulo. E, disputas internas no PSDB à parte, o Brasil melhora quando políticos de pouca estatura como Geraldo Alckmin deixam o cenário nacional.

O voto paulistano, em outros tempos contaminado pelo populismo de figuras as mais tristes, optou tanto à direita quanto à esquerda conscientemente.

Que faz de uma democracia saudável? Para os eleitores, suas preocupações ideológicas se sobressaem. Há que ser um prefeito de direita. Ou um de esquerda. Ou que acredite nisto. Naquilo. É mais do que natural. Para a democracia, não é isso o importante. O importante é coerência. É a consolidação de grupos políticos que representem determinados setores da sociedade. Um país que tem partidos fortes ligados intimamente a sua base eleitoral se expõe menos aos arroubos fisiológicos dos aventureiros.

Neste sentido, a derrota nas urnas do PSDB em todo o país é ruim. A vitória do PMDB, idem. O PMDB atual é a encarnação do fisiologismo, do partido sem rosto definido que em cada praça é dominado por um político diferente que manda ou desmanda. Sequer tenta representar um ideal, não tem projeto que não a costura de projetos pessoais. Muitos partidos políticos, no Brasil, são assim. O PMDB é apenas o caso mais explícito.

O eleitor sincero de direita, liberal do ponto de vista econômico e conservador quanto às normas sociais, tem profunda dificuldade de se ver representado por um partido político. Nem PT, nem PSDB, o representam de fato. O político sincero de direita se vê obrigado a entrar em legendas frágeis e, portanto, termina contaminado pelas práticas fisiológicas de seu partido.

Não foi uma má eleição. Em Fortaleza, em Salvador, no Rio e em São Paulo, em vários pontos houve um claro movimento de eleitores driblando armadilhas. É um eleitor mais maduro. Mas a fragilidade dos partidos políticos brasileiros continua sendo o maior obstáculo de nossa democracia. E dificilmente é uma fragilidade que será corrigida pelo Congresso. Afinal, ela beneficia a matilha.

Tags: Brasil

Por que Gabeira é melhor do que Paes

5/October/2008 · 109 Comentários

Nos comentários do post abaixo, André Pessoa faz uma pergunta importante que se repete em vários pontos do Rio: Gabeira é de esquerda? Por que um eleitor de Jandira, Molon ou Chico deveria votar nele?

Não vou entrar na questão de se ele é de esquerda ou de direita. Eu o considero de esquerda – mas este não é o ponto mais importante e, se começamos a discutir quais as definições de um braço ou de outro do espectro ideológico no mundo atual, nos perdemos.

Pretendo, no entanto, argumentar por que um eleitor progressista não deveria querer Eduardo Paes no governo da cidade.

1. Eduardo Paes foi um mais virulentos críticos do Governo Lula na Câmara dos Deputados. Foi líder do PSDB na Câmara. Gabeira também foi crítico? Foi. Mas suas críticas não nasceram do puro jogo partidário e sempre foram leais. Este argumento não é meu. É de Jaques Wagner, governador petista da Bahia, que sugere que seu partido deveria apoiar Gabeira no segundo turno.

2. Se o PT nacional apoiar Paes oficialmente, não será porque se preocupa com o futuro do Rio. Certamente não virá de coerência ideológica. Virá de um jogo de alianças nacionais puramente político no qual o Rio é sempre sacrificado. Não custa jamais lembrar a eleição para governo do Estado de 1998, em que o PT do Rio queria a candidatura de Wladimir Palmeira e o PT nacional impôs o apoio a Anthony Garotinho.

3. Eduardo Paes tem como principais doadores de sua campanha Eike Batista e a construtora OAS. A mesma OAS virtualmente criada por Antonio Carlos Magalhães. Não representam grupos que costumam investir em políticos pelos seus belos olhos.

3. Apoiaram Eduardo Paes no Primeiro Turno: o PTB de Sandra Cavalcanti, o PP de Paulo Maluf e Francisco Dornelles, o PSL de Celso Pitta.

4. Eduardo Paes não tem qualquer história política e qualquer firmeza de ideais. Muda de partido independente de sua ideologia. De protótipo dos mauricinhos criados por Cesar Maia virou o garoto prodígio do PSDB e se bandeou para o PMDB de Garotinho.

É por isso que Eduardo Paes não é o melhor nome para a prefeitura do Rio de Janeiro.

Tags: Brasil

A Onda Verde pelo Rio está começando:
Este Weblog reitera apoio a Gabeira
Que agora chega ao Segundo Turno

5/October/2008 · 41 Comentários

Neste momento, são 22h de domingo no Rio de Janeiro e Fernando Gabeira está no segundo turno das eleições municipais. Passou em muito Marcelo Crivella e chegou incrivelmente perto de Eduardo Paes.

As chances de vitória são concretas – e cá este Weblog tem um bocado de orgulho de ter feito parte do lançamento desta campanha.

A campanha continua de pé e não serve apenas aos cariocas: blogueiros e webmasters de todo o Brasil podem encontrar banners para suas páginas em slglab.com.br/gabeira/

O mestre designer Egeu Laus sugere esta imagem para apresentar à cidade a Onda Verde:

Ona Verde

Houve uma corrida em direção a Gabeira nas últimas duas semanas indicando, claramente, o quanto o Ibope estava – por assim dizer – desnorteado qual cego em tiroteio, sem a mais vaga idéia de o que pensava ou desejava o eleitor carioca.

O resultado – 32% para Paes, 26% para Gabeira – mostra as chances de crescimento ainda nas próximas semanas. Há esse fenômeno curioso em eleições. Quando um candidato começa a crescer num ritmo forte, dá cheiro de vitória. Contagia.

As pesquisas dos próximos dias serão importantíssimas. O apoio dos outros candidatos que desejam mudança, idem.

Jandira Feghali teve respeitáveis 10% dos votos, Alessandro Molon 5%, Chico Alencar aproximadamente 2%. São 17% dos eleitores que votaram por um Rio diferente, por uma mudança real. Essa mudança é possível. Fernando Gabeira é, fundamentalmente, um homem íntegro que já há muitos anos estuda cidades, suas crises e tantas soluções quanto já foram imaginadas. É uma pena que não possa recomendar a cada leitor uma hora de conversa com o deputado: ele fala com paixão sobre o Rio e sobre os processos que podem levar a soluções.

Daqui da Califórnia, estou felicíssimo. Dia de abrir um vinho à noite. Faz muito – mas muitíssimo tempo mesmo – que a cidade não tem um candidato deste porte com chances de chegar ao governo.

Tags: Brasil

México quer descriminalizar drogas

4/October/2008 · 72 Comentários

O presidente mexicano Felipe Calderón quer descriminalizar o porte de drogas. Sua proposta de lei funciona assim: quem for pego com uma quantidade pequena e se comprometer a fazer um tratamento para combater o vício não terá pena a cumprir. Por quantidade, entenda-se 50 miligramas de heroína, 2 gramas de maconha, 500 miligramas de cocaína e 40 miligramas de metanfetamina.

Seu problema é de ordem prática. O tráfico de drogas, no México, é sério e não à toa. Serve de porta de entrada para os EUA. Os recursos policiais não são muitos. Ir atrás de consumidor é um dreno no esforço. Enche as cadeias, produz criminosos e não muda em nada a situação do país.

Há alguns anos, o Congresso mexicano aprovou uma lei muito parecida. A diferença é que não exigia um tratamento médico. O lobby norte-americano para que fosse revertida foi intenso e o então presidente Vicente Fox derrubou a lei.

Uma nota: aqui na Califórnia, o uso de maconha medicinal é legal. A polícia não se dá ao trabalho de checar quem tem receita médica. Ninguém fuma nas ruas mas há regiões consideradas livres. No Golden Gate Park, em San Francisco, as pessoas se reúnem para fumar baseados sem que exista qualquer repressão. Embora existam traços da cultura hippie que nasceu aqui, não é um clima Amsterdã. A poucos metros de distância há crianças brincando e os pais não parecem estar preocupados.

Tags: EUA · México

Assim estão as eleições no Brasil

2/October/2008 · 34 Comentários

As últimas pesquisas do DataFolha para algumas das principais capitais do Brasil, margem de erro de 3 pontos percentuais:

São Paulo: Marta Suplicy (PT - 35%), Gilberto Kassab (DEM - 27%), Geraldo Alckmin (PSDB - 19%)

Rio de Janeiro: Eduardo Paes (PMDB - 29%), Marcelo Crivella (PRB - 19%), Fernando Gabeira (PV - 17%), Jandira Feghalli (PCdoB - 12%)

Belo Horizonte: Márcio Lacerda (PSB - 45%), Leonardo Quintão (PMDB - 23%), Jô Moraes (PCdoB - 11%)

Porto Alegre: José Fogaça (PMDB - 35%), Maria do Rosário (PT - 20%), Manuela D’Ávila (PCdoB - 18%)

Salvador: João Henrique (PMDB - 25%), ACM Neto (DEM - 24%), Walter Pinheiro (PT - 22%)

Recife: João da Costa (PT – 46%), Mendonça Filho (DEM – 22%), Raul Henry (PMDB – 11%)

Fortaleza: Luiziane Lins (PT – 47%), Moroni Torgan (DEM – 22%), Patrícia Saboya (PDT – 16%)

Atualização - A pedidos, o DataFolha em Curitiba: Beto Richa (PSDB - 68%), Gleisi Hoffmann (PT - 20%). Lá, não deve haver segundo turno.

Tags: Brasil

Um pedido de voto para Gabeira
Pelo Rio, é hora do voto útil

30/September/2008 · 398 Comentários

No domingo, não poderei votar. Quem está no exterior só vota para presidente. Se estivesse na minha cidade, o Rio de Janeiro, como muitos de vocês sabem, eu votaria em Fernando Gabeira.

Quando este Weblog, em finais do ano passado, convocou o deputado a candidatar-se, o cenário era desesperador. Havia a impressão de que o senador Marcelo Crivella tinha tudo para terminar prefeito.

Agora, há fortes chances de que nem ao segundo turno chegará.

Há pessoas sérias e honestas na disputa além de Gabeira. Mas é ele quem está subindo forte.

Marcelo Crivella pertence à Igreja Universal do Reino de Deus. Não passa, por este Weblog, qualquer tipo de preconceito religioso. Mas a IURD tem um projeto de poder nítido e alguns casos sérios de corrupção no passado. Ela já é dona da segunda maior emissora de tevê aberta do país, prepara-se para entrar no mercado dos grandes jornais diários, ter fortes ligações com o governo federal, deputados e um senador. Seu próximo passo é alcançar o Executivo e o projeto começa por uma prefeitura importante. A do Rio, por exemplo.

No meu país ideal, uma estrutura como a IURD não tem poder político. Mas essa é uma questão de opinião.

Eduardo Paes é o candidato com mais chances de chegar à prefeitura. Ele é cria de Cesar Maia, por sua vez cria de Leonel Brizola. Faz parte da macro-estrutura política que governa o Rio de Janeiro há quantas gerações? Saturnino-Marcello-Cesar-Conde-Cesar-Cesar. Não só Paes é cria da estrutura política que criou este Rio de Janeiro de hoje, como entrou para o PMDB. O PMDB não é um partido. Não representa qualquer ideologia ou grupo social. O PMDB é uma estrutura que busca poder pela prática do poder. É o partido de Anthony Garotinho. Não é uma máquina que perdoe. Quem chega ao poder com o PMDB, governa com o PMDB.

Não é que Paes seja mau sujeito: o problema é tudo o que representa.

A campanha aconteceu, os candidatos se apresentaram, agora o resultado está nas mãos dos eleitores de Jandira Feghali, Chico Alencar e Alessandro Molon. Estes eleitores têm uma decisão a tomar até o domingo. Dependerá deles termos um segundo turno entre Paes e Gabeira ou Paes e Crivella. Não acho que voto útil seja uma opção a se considerar em qualquer pleito. Mas, neste, o Rio terá um prefeito ao final do processo. Precisamos de mudança real.

Tags: Brasil

O sucesso e o fracasso de Lula

23/September/2008 · 127 Comentários

Andrew Downie e Tim Padget fazem um balanço, na Time, do Brasil governado por Lula. Downie não é um correspondente do tipo que caiu de pára-quedas. Veterano no país, onde mora há anos, é totalmente integrado à vida carioca e à paulistana, fala português fluente, embora com um ligeiríssimo sotaque escocês.

Quando se dirigir à Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, esta semana, Lula tem esperanças de que aposentará a velha piada de que o Brasil é o país do futuro para sempre. Ele dirá a seus pares líderes nacionais que seu país está finalmente conquistando seu potencial. (’Nós seremos uma das seis maiores economias do mundo em dez anos’, ele diz.) Ele argumentará que o Brasil merece uma cadeira permanente no Conselho de Segurança.

Este talvez seja um sonho distante, mas muitos na platéia reconhecerão o fato de que o presidente barbado e de voz rouca foi uma descoberta. Quando foi eleito, em 2002, muitos especialistas norte-americanos em América Latina achavam que seu Partido dos Trabalhadores destruiria a economia do Brasil ao emplacar políticas socialistas e populistas. Mas Lula se ateve às reformas orientadas ao mercado de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Essas políticas, além de uma onda de aumento dos preços da economia global por produtos brasileiros como soja e aço, ajudaram Lula a manter dominada a notória inflação de seu país e criar um bum – o crescimento será de mais de 5% este ano. […]

Lula foi capaz de lidar tanto com a direita do governo Bush quanto com a esquerda do venezuelano Hugo Chávez, que estão em constante choque. Lula, aliás, é um dos poucos líderes que tanto Bush quanto Chávez ouvem. ‘Brinco com eles dizendo que sua briga não faz qualquer sentido’, ele diz, ‘porque o petróleo faz de um dependente do outro.’ […]

Conforme ele entra no período final de seu governo – que termina em 2011 – muitos dos problemas mais antigos do Brasil seguem sem solução. O principal deles é o sistema educacional, que apesar de receber mais investimentos continua uma vergonha disfuncional. Também há corrupção incontrolável, impostos exorbitantes, desmatamento da Amazônia e uma das burocracias mais perdulárias do planeta. Muitos brasileiros tinham esperanças de que Lula lidaria com estes problemas, mas ele retruca culpando ‘uma estrutura política que está aí há séculos’ e que ‘estamos tentando desmontar’. Fazer isso nos dois anos que lhe restam, só com intervenção divina.

Tags: Brasil

História da Bolívia até a crise de hoje
numa só página da web

19/September/2008 · 74 Comentários

Para quem chegou atrasado, uma aula sobre a Bolívia – sua história toda até o momento da crise atual. Apenas um trecho:

As lideranças indigenistas se dividiram na eleição de 2002, mas começam a ver em Evo Morales uma expressão das maiorias indígenas. Goni Sánchez enfrenta uma onda de reivindicações populares, principalmente do Altiplano, renuncia, vai embora. Assume o vice dele, Carlos Mesa. Carlos Mesa não consegue governar e assume o presidente da Suprema Corte de Justiça, Eduardo Rodríguez, que funciona em Sucre. A reivindicação de levar de volta a capital para Sucre ganha consistência. Isso tudo prenunciando a eleição que ocorreu no final de 2005 e, como era de se prever, deu uma vitória esmagadora a Evo Morales. Ali não havia o que discutir, não foram 25% dos votos, foi maioria absoluta. Houve uma certa correspondência entre o voto e a estratificação étnica. A Bolívia tem 60%, 61% de índios. Não de cholos, mas de índios. E realmente foi essa a votação de Evo Morales. Não quer dizer que estatisticamente seja correto, tem muita gente que votou nele e não é indígena, e alguns indígenas que não votaram nele. Nessas eleições, pela primeira vez as maiorias indígenas do Altiplano e os grupos indígenas de outras áreas encontram um candidato que consideram como sendo deles. Não se trata mais de apoiar candidatos de outros partidos, de outras filiações. Agora nós vamos com tudo. E elegem Evo Morales.

No mesmo ano, os nove departamentos passam a ter o direito de eleger seus governadores. Os governos departamentais estão interessados em ampliar sua faixa de autonomia. Mas Evo Morales significa o contrário. Ele vê a autonomia com desconfiança. Ele não diz isso, mas, sem dúvida alguma, gostaria de governar dentro de um quadro de poder centralizado. Ou seja, um governo unitário em La Paz, até porque as grandes bases eleitorais dele estão no Altiplano. As lideranças das bases eleitorais e o próprio Evo Morales não gostam da autonomia. Ela é percebida, no quadro político boliviano, como um risco para o governo central.

Evo Morales, por outro lado, assusta os governos regionais. Porque eles sabem que ele é o porta-voz, é a grande liderança de um grupo compactamente organizado, mas que é uma maioria étnica. E eles têm medo, obviamente, por serem a minoria demográfica e a minoria eleitoral, também, porque foram derrotados em 2005. Eles têm medo do modo como Evo Morales vai lidar com a autonomia regional. Esse é o pano de fundo.

A entrevista é do mestre jornalista Mauro Malin. O entrevistado é o professor Antonio Carlos Peixoto, do Departamento de História da Uerj.

Tags: América Latina

Fogo na crise da Bolívia ou
golpe promovido pelos EUA?

15/September/2008 · 177 Comentários

Vi que muitos de vocês fizeram graça da dúvida a respeito da participação norte-americana na confusão boliviana.

As profundas divisões que existem na Bolívia já foram, sim, exploradas à distância pelo governo norte-americano. Mas independem dos EUA para existir e, neste caso atual, não há qualquer prova de que Washington se envolveu.

Hugo Chávez, no momento, atua de olho em sua política interna jogando fogo na gasolina boliviana. Sim, sempre haverá blogs e jornalistas mais que dispostos a dizer que Chávez tem razão. Eles não trazem evidências, documentos, testemunhos, confissões. No máximo, circunstâncias que talvez levem a presumir que algo quem sabe talvez – não é. Repetir o que alguns leitores querem ouvir ansiosos é fácil.
Não há dúvidas de que os líderes do movimento que busca derrubar o governo eleito da Bolívia adoraria o apoio norte-americano. Não quer dizer que o tenham.

O jornal (de esquerda) espanhol El País faz o seguinte resumo da cúpula que se inicia em sua edição de hoje:

A Unasur e o Grupo do Rio são vistos pelos analistas como uma alternativa regional à Organização dos Estados Americanos (OEA), considerada pró-EUA.

O quebra-cabeças que têm sobre a mesa não é de fácil solução. O Brasil, cuja economia depende das importações de gás da Bolívia, vê com preocupação sua segurança energética, enquanto que Hugo Chávez, íntimo aliado de Morales, trouxe mais tensão à crise culpando Washington pela gravidade da situação interna que a Bolívia atravessa ampliando o conflito diplomático que já existia.

‘Os líderes da Unasur se encontram num dilema. Por um lado, precisam deixar claro seu respaldo a uma Bolívia democrática, por outro, devem se afastar da polêmica entre Chávez e EUA’, explicou Patricio Navia, analista político da Universidade de Nova York.

Tags: América Latina · Brasil · EUA

Chávez quer atear fogo no circo boliviano

14/September/2008 · 136 Comentários

Hugo Chávez é do tipo que joga lenha na fogueira. Lula, não. Por isso, é de se levar a sério sua afirmação de que o Brasil não tolerará rompimentos institucionais na Bolívia. O Brasil chega tarde à discussão – como já argumentou com a competência de praxe Sérgio Léo, em sua coluna no Valor Econômico.

A situação da Bolívia é grave: o país sempre foi dividido entre a elite rica (e em geral branca) e os índios pobres (em geral excluídos). A eleição de Evo Morales acirrou essa divisão por atiçar os temores da elite. Evo é, por personalidade, tudo o que Lula não é. Enquanto Lula busca a paz e a harmonia com quem tem poder, Evo – ainda mais insuflado por seu par venezuelano – procura o combate. Nessas horas, não custa tentar entender que o problema real da Bolívia é sua histórica divisão interna e não uma mítica interferência norte-americana.

(Há, diga-se, um consenso entre os especialistas de todo o continente que a quebra institucional boliviana não interessa a ninguém. É incompetência do governo Bush o fato de que não oferece ao governo Morales algum tipo de apoio econômico, empurrando-o para os braços de Chávez, Ahmadinejad e Putin/Medvedev. O assunto é tema de um excelente estudo do Council of Foreign Relations, que tem até Henry Kissinger em seu conselho.)

Começa amanhã a reunião de cúpula da Unasur, em Santiago do Chile, que terá por objetivo apaziguar os grupos. Em negociações do tipo, o esforço se divide em oferecer incentivos para ambos os lados buscarem a paz enquanto se faz ameaças veladas para a possibilidade de briga. O problema é que o mundo e a política não são feitos de pragmatismo. Ambições pessoais, temperamentos estourados e a mais pura incompreensão dos riscos tomam parte das negociações.

A maior dificuldade à mesa é que o Brasil teria de deixar claro que um governo golpista, na Bolívia, não seria reconhecido. Mas o Brasil, dependente do gás boliviano, não tem como fazer esta ameaça.

A América do Sul não é homogênea e os problemas de cada país são seus próprios, particulares, intransferíveis. Às vezes quem ouve Hugo Chávez partindo em defesa de seu par boliviano Evo Morales acredita que algum tipo de integração latino-americana existe.

Chávez convocou seu embaixador em Washington e expulsou o norte-americano em Caracas alegando solidariedade para com Morales e acusando os EUA de participação em uma tentativa de golpe misteriosa. O termômetro das boas relações diplomáticas entre EUA e Venezuela não é este, é outro. É a venda de petróleo para o país de George W. Bush. Esta continua intocada. Quando algo mudar nesse quesito, poderá se levar a sério a intenção de Hugo Chávez de romper com os EUA causando profundo impacto na economia interna norte-americana. Um desafio de verdade. Até lá, Chávez bem o sabe, é só política. E toda política é local.

Chávez está sendo investigado por ter enviado dinheiro para a campanha eleitoral de Cristina Kirchner, na Argentina, e enfrenta eleições estaduais na Venezuela, em novembro. É sempre assim, com Hugo Chávez: quando há eleição por perto, ele arruma alguma maneira de chamar os EUA de intoleráveis. Os suspeitos de sempre caem na história.

Com a Bolívia, não, a coisa é mais séria. Talvez seja reconfortante, para alguns, imaginar que seja tudo parte de um plano norte-americano para desestabilizar governos de esquerda na região. Mas a instabilidade boliviana é só dela própria.

Tags: América Latina

Lá como cá

23/August/2008 · 18 Comentários

Em propaganda, dizem uns, nada se cria, tudo se copia. Assim é na campanha à prefeitura de Natal:

Não, não é impressão. Os prezados já viram antes.

dica do Rodrigo Levino

Tags: Brasil · EUA

Enquanto isso, nas Olimpíadas de bronze

19/August/2008 · 80 Comentários

La Selección humilló a Brasil y llegó a la final de los Juegos.

La Argentina cortó la paternidad con una goleada inolvidable.

El partido perfecto.

Tags: Argentina · Brasil · Esportes

A Rússia quer Venezuela e Cuba?

19/August/2008 · 81 Comentários

O analista de política latino-americana Carlos Alberto Montaner, um cubano badalado na imprensa hispanoablante, tem uma teoria a respeito dos próximos passos russos: Cuba ou Venezuela.

Hugo Chávez, em visita a Moscou, já havia mencionado a possibilidade de uma base militar russa na Venezuela. A própria Rússia já havia soltado um balão de ensaio cogitando a inclusão de Havana entre os aeroportos pelos quais aviões militares russos fazem escalas regulares.

Conforme a OTAN seduz a Ucrânia e os EUA insistem em uma rede de mísseis na Polônia e na República Tcheca, os russos mexem suas peças de xadrez como se o ano fosse 1960.

Mas o ano não é 1960 e a Rússia não é uma potência mundial. Suas ações afetam diretamente a Europa e os vizinhos imediatos na Ásia. Mas não muito mais. Os países/grupos que têm realmente o poder de influenciar a economia ou a política de todo o mundo com um espirro são China, EUA e, quando consegue agir em bloco, União Européia.

Putin está, evidentemente, dedicado a mudar este quadro. Não quer dizer que consiga.

Tags: América Latina · China · EUA · Europa · Rússia

O adeus a Dorival Caymmi

17/August/2008 · 7 Comentários

De João Máximo, nO Globo:

Era [de Dorival Caymmi] a explicação mais precisa, ainda que modesta, para a origem de suas canções praieiras: ‘Tratei desses motivos porque nada mais sou que um homem do cais da Bahia, devoto também de Iemanjá, certo eu também de que estamos todos nós nas suas mãos, rogando-lhe que não envie os ventos da tempestade, que seja de bonança o mar de minha vida.’ […]

Uma lentidão que, atribuída à proverbial preguiça baiana, acabou assumindo como se devesse a ela a excepcional qualidade de sua obra, na qual não se encontra uma só canção menor, mal acabada. Há história sobre isso, uma delas com Antonio Carlos Jobim. Visitando o amigo, Jobim ficou intrigado com um tema em que Caymmi vinha trabalhando havia tempos, não saindo da primeira frase musical. Pois, sem cerimônia, Jobim disse que ficaria com a frase para ele, como se a lentidão a tornasse de domínio público. Daí o Tema de amor de Gabriela, para o filme de Bruno Barreto. Finalmente concluída, a canção de Caymmi se intitularia A mãe d’água e a menina.

Lentamente ou não, Caymmi construiu uma obra pequena (pouco mais de cem títulos) mas preciosa. Ficou famoso, foi gravado no exterior, esteve no programa de TV de Andy Williams nos Estados Unidos (onde sua Das rosas… fez sucesso), atuou com Vinicius de Moraes e Baden Powell em Buenos Aires, foi a França, à Angola, teve sua obra regravada pelos maiores artistas brasileiros, inclusive os mais jovens.

Via Dori Caymmi – É doce morrer no mar:

De Caetano Veloso, em seu blog:

Caymmi trouxe a coloquialidade mais natural para os versos e as notas das canções. A melodia inicial de ‘Você já foi à Bahia?’ tem as interrogações no lugar certo, a vírgula no lugar certo, o ponto final no lugar certo. ‘Você já foi à Bahia, nêga, não? - então vá.’ vem em frase melódica que canta a nossa fala natural. E segue assim, na entonação de ‘Quem vai ao Bonfim, minha nêga’, onde a vírgula entre ‘Bonfim’ e ‘minha nêga’ cai certinho, e esse ‘minha nêga’ vem em notas mais baixas (e ainda descendentes), exatamente como quando alguém (sobretudo um baiano) fala. E a gradação virgulada de ‘muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá’, seguida da volta da pergunta inicial, agora com o ponto final mais definitivo, incidindo sobre a fundamental! E – depois do refrão ‘então vá’ repetir-se ritmicamente seguindo a série ‘lá tem caruru’, ‘vatapá’, ‘mungunzá’ – abre-se aquele largo das ’sacadas dos sobrados da velha São Salvador…’ que eu repeti quase todo (menos o último verso) em ‘Terra’.

Novamente Dori Caymmi, Você já foi à Bahia?:

Tags: Brasil · Música

De TRE em TRE

15/August/2008 · 48 Comentários

Do Blog do Álvaro:

Desde ontem este blog está proibido por decisão da Justiça Eleitoral de fazer ‘comentários acerca do pleito eleitoral vindouro (eleições municipais 2008), no sentido de favorecer ou denegrir candidatos, incluíndo imagens ou fotografias’.

A justiça também determinou que fossem retirados ‘todos os comentários que de qualquer maneira favoreçam ou critiquem candidatos, incluíndo imagens ou fotografias’.

Hoje à tarde, em pleno domingo, protocolamos recurso ao Tribunal Regional Eleitoral, pedindo que a sentença da justiça eleitoral de 1ª instância seja reformada para permitir que este blog possa continuar a noticiar o que se passa no dia a dia da política local.

Terminantemente proibido de falar sobre as eleições. Êita paizinho…

Tags: Brasil

É hora de rever a Lei da Anistia

10/August/2008 · 200 Comentários

Levantado há quase duas semanas pelo ministro da Justiça Tarso Genro, esse não é um debate novo no Brasil. Também não é um debate no qual dê muita vontade de entrar. Na semana passada, passei duas horas conversando com a professora Flávia Piovesan da PUC-SP, uma das maiores autoridades no país em Direito internacional, com ênfase em direitos humanos. A conversa foi publicada, hoje, no caderno Aliás do Estadão. Quando estiver online, publico o link. Tive uma aula.

A questão fundamental, aqui, é tortura. O Chile também anistiou seus ditadores. Como fez a Argentina e tantos outros de nossos vizinhos. E todos reviram a anistia. O Brasil é único na recusa de sequer discutir o assunto. Por que nosso vizinhos reviram a anistia?

Porque tortura não é um crime anistiável.

Quando o Estado, detentor do monopólio do uso da força, tortura sistematicamente pessoas que estão sob sua guarda, comete um crime contra a humanidade classificado junto ao genocídio, à limpeza étnica, à esterilização forçada de mulheres. Não é matéria de opinião. A classificação é jurídica. E crimes contra a humanidade têm uma característica muito específica: nenhum país tem o poder legal de perdoá-los.

O Brasil é signatário da Convenção Interamericana de Direitos Humanos e da Convenção Contra a Tortura da ONU. O resultado prático é que quando qualquer um é torturado no porão de uma delegacia brasileira, seja hoje, seja no tempo da Ditadura, qualquer juiz de qualquer país signatário das convenções pode processar este cidadão brasileiro. Na verdade, se tiver as provas (mesmo que testemunhais) nas mãos, tem a obrigação de processar. Quando um crime contra a humanidade é praticado, todos somos vítimas. É por isto que 13 militares brasileiros são réus em um processo movido em Roma.

Processos assim começarão a aparecer, lá fora e aqui dentro. Há três processos na Justiça brasileira neste momento.

Um é movido pela família Teles, e pede que o Estado reconheça a culpa por torturas às mais bárbaras cometidas contra Amelinha Telles, sua irmã (que estava grávida), e os maridos respectivos. Algumas das sessões de tortura aconteceram na frente dos filhos crianças. Não pede a condenação do coronel Brilhante Ustra, que chefiava o DOI-CODI de São Paulo, mas pede que ele seja apontado como responsável em tribunal.

Outro caso, o mais recente, é do Ministério Público Federal de São Paulo, que lista os casos de vítimas de tortura indenizados pelo governo brasileiro no mesmo DOI-CODI de São Paulo e pede ao coronel Ustra e seu sucessor no comando da instituição que façam o ressarcimento dos cofres públicos pelo prejuízo causado.

Ambos os processos tentam driblar a leitura corrente da Lei de Anistia, jamais testada no Supremo Tribunal Federal, de que a anistia serviu também para a tortura. Não pedem a condenação pelos crimes. A lei diz que estão perdoados os crimes políticos e aqueles ‘conexos’, ou seja, relacionados. Do ponto de vista legal, tortura não é crime político; é crime contra a humanidade.

O terceiro processo quer responsabilizar o Estado brasileiro por não ter investigado o que houve com os guerrilheiros no Araguaia. Este não circula apenas na Justiça do Brasil, ele também foi aceito e está sendo analisado na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, ligada à OEA.

E aí está o pulo do gato: a decisão de se a anistia vale para a tortura não depende apenas do que dizem Executivo, Legislativo e Judiciário brasileiros. Após o STF, existe a Comissão e, acima dela, como última instância, a Corte Interamericana de Direitos Humanos. A Lei de Anistia do Peru foi anulada por esta corte.

Do ponto de vista legal, o governo do Brasil pode receber a ordem da Corte Interamericana de anular sua anistia e ignorá-la. Chile, Argentina, Peru, todos nossos vizinhos, têm histórico de acatar as decisões da Corte. Se não o fizer, neste tempo em que até a atrasada África começa a entregar seus ditadores para a Justiça internacional, o Brasil fica mal.

O torturador, cumpre lembrar, não é apenas aquele sargento sádico e desumano nos porões. O torturador segue uma cadeia de comando, que ativa ou passivamente, permitiu a tortura. A Justiça deve chegar aos generais que comprovadamente estavam informados e nada fizeram para evitar.

À direita, cobra-se apenas que seja coerente. Nos EUA, um de seus direitos mais caros é a Segunda Emenda à Constituição. Ela determina que todo homem tem o direito de ter uma arma em casa e resistir à tirania do Estado. Se o Golpe de 1964 veio com o objetivo de organizar o Brasil caótico de João Goulart, não importa. Se havia risco ou não de um Golpe comunista, também é irrelevante. A tirania que existiu foi aquela imposta pelas Forças Armadas Brasileiras que renegaram a Constituição, quebraram a hierarquia pondo-se contra seu comandante em chefe, o presidente eleito da República, suspenderam direitos de todos os cidadãos e seqüestraram o poder por 21 anos.

Qualquer cidadão tinha o direito de pegar em armas se o quisesse para resistir à tirania. Este, sim, é um crime anistiável. Em países como os EUA, sequer é crime. É direito constitucional.

Os torturadores do Brasil enfrentarão a Justiça cedo ou tarde. A única dúvida é se haverá tempo para que a Justiça seja feita com alguns deles vivos.

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O Brasil de Lula quer mercado aberto,
os EUA de Bush apelam para os subsidios

6/August/2008 · 15 Comentários

Após o fracasso das negociações na OMC e, provavelmente, o fim da rodada de Doha para liberalização do comércio internacional, o chanceler Celso Amorim saiu dizendo que o Brasil começaria a investir em acordos bilaterais.

Já elegeu seu primeiro alvo e, a princípio, parece disposto a negociar duro. São os EUA.

Brasília está pondo os toques finais em dois processos que apresentará contra Washington. O primeiro é uma acusação de que o país subsidia ilegalmente o algodão local. Em junho, o Brasil ganhou na Organização Mundial do Comércio autorização para retaliar os EUA em um bilhão de dólares onde dói mais: propriedade intelectual e serviços.

É o primeiro passo e na seqüência há um segundo alvo: os EUA impõem uma tarifa de 54 centavos de dólar para cada barril de etanol brasileiro que entra lá. É para proteger seu etanol nativo, a base de milho.

Essa é uma discussão na qual as chances de sucesso são maiores. Os fazendeiros de milho e o mercado que representam compõem uma parcela importante do eleitorado, principalmente para Barack Obama. Nem ele, nem McCain, vão comprar uma briga em ano eleitoral. Bush, diga-se, tampouco. Seria jogar esses fazendeiros no colo do adversário.

Mas governar é trair promessas de campanha. Tanto McCain quanto Obama já insinuaram para os próprios fazendeiros que suas proteções não poderão durar muito e, a esse respeito, já há consenso entre os dois partidos. Há uma lei, de 2007, que exige que se use mais e mais etanol como combustível, misturado à gasolina ou independentemente. A produção interna não agüentará o ritmo. A influência do desvio do milho – importante na dieta norte-americana – para a produção de combustível num período de inflação de alimentos também pega mal.

O problema do Brasil não é tanto conseguir que os EUA reduzam o uso do etanol do milho. O problema é que seus políticos não querem substituir uma dependência (do Oriente Médio) por outra (do Brasil).

Não deixa de ser curioso. O Brasil de Lula é, hoje, um dos maiores proponentes do livre mercado negociando pelo mundo. Os EUA governados pelos republicanos estão entre os maiores vilões.

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O Brasil que existe, o Brasil que poderia existir

2/August/2008 · 261 Comentários

Li comentários de todo tipo a respeito do post, ontem, sobre a reportagem da revista Cambio. Nas redações dos grandes jornais, o consenso já é: muito barulho por nada, o ‘dossiê’ não traz qualquer indício de que o governo tenha favorecido as Farc. Lembra, isto sim, que houve empenho de gente no governo para ajudar de uma forma ou de outra o ex-padre Oliverio Medina, que esteve preso e quase foi deportado. Mas toda esta movimentação foi pública, não era segredo. Hoje, ele é casado com uma brasileira e pai de outra brasileira. A tendência é de que consiga a nacionalidade, o que afastaria de vez as possibilidades de ser extraditado.

O que jornalistas pensam é uma coisa; na blogosfera da direita, é diferente. Li que sou um idiota e que sou um desses ‘estranhos fenômenos da Internet brasileira’. Essa trupe, como aquela esquerda que ainda acredita em luta armada, não compreende o mundo em que vive. Por isso, enquanto caça fantasmas de eras passadas, não consegue identificar quais os reais dilemas do Brasil, ou mesmo fazer as críticas que o atual governo merece.

Não se trata apenas do PT. Há um problema com PSDB, com DEM, PMDB ou PPS ou PDT.

O que se espera de um partido político, hoje? Que tenha posições a respeito dos grandes dilemas que o mundo atravessa. Como se posiciona a respeito do aquecimento global, por exemplo. Seu combate é uma prioridade? Que custo está disposto a bancar e como se portará nas negociações internacionais? Como vê a transformação da sociedade e sua relação com a ciência e as religiões constituídas? Como pensa o aborto, estudo de células tronco embrionárias, casamento e adoção homossexual? As respostas para estas perguntas indicam como o partido compreende as relações entre as pessoas no país. São questões que nos afetam a todos. Não são as únicas.

Como compreende as responsabilidades do Estado com educação, saúde, moradia, formação profissional? Quando vê o Brasil, que tipo de país vê? Um país de vocação agrícola? Industrial? Turística? Que tipo de brasileiros precisaremos formar para que tais vocações sejam realizadas? A partir disto, quantas são as responsabilidades que o Estado deve assumir e como irá financiá-las? Tendo tudo isto em vista, que acesso espera dos mercados do mundo e que concessões está disposto a fazer em troca de possibilidades comerciais?

Os britânicos têm uma boa idéia do que pensam o Partido Conservador e o Trabalhista a este respeito. Os norte-americanos sabem o que esperar de republicanos e democratas. Os espanhóis entendem o que quer dizer um voto no PSOE ou no PP. Os franceses, os alemães, seja em regimes bipartidários, seja nos multipartidários. Nós brasileiros não sabemos. Já existe um princípio de política de Estado que mais ou menos continuou do governo FH para o Lula. Partidos com projetos claros, isso não temos.

Os projetos partidários não nascem no vácuo. Partidos representam grupos de interesse, classes sociais. A classe média urbana que não está no funcionalismo público costuma votar num partido liberal e querem liberdade de ação sem interferência governamental. A classe operária, funcionários públicos, costumam ter expectativas maiores do Estado. A classe média rural, que vive do que lhe rende o campo, terá outro grupo de prioridades, cobra do Estado mas tem objetivos bem diferentes dos trabalhistas. Às vezes, os interesses de um grupo se assemelham ao de outros. Numa democracia madura, é a estes anseios que os partidos políticos respondem. O PT tem tênues laços sindicais, mas estes não refletem uma política industrial e trabalhista como prioridade de governo. Do sindicalismo, herdou no máximo o peleguismo e a distribuição de cargos como método. Uma pena.

O DEM não é nada. Um dia se chamou liberal – mas a burguesia não se reconhece numa colcha de retalhos que reúne oligarcas nordestinos e chefetes políticos do sul. O PSDB teve um projeto econômico. Passado o período de privatizações e estabilização da moeda, o que lhe sobrou? Corre pelo Congresso feito barata tonta, não sabe o que defender e se morde pelo fato de seu projeto ter sido seqüestrado por quem não tinha idéias próprias. O PMDB, coitado, sequer finge ser um partido.

Quem acusa o PT de ter um projeto revolucionário não percebe uma realidade muito mais triste. O PT não tem qualquer projeto. Lula, sim, tem um projeto. É seu, particular.

Nossa democracia tem 20 anos contados desde a Constituição de 1988. Temos muito tempo pela frente e a graça de vivermos numa terra não só rica como detentora das riquezas certas para o mundo que vemos pela frente: temos uma vasta mata, nossa base energética é das menos dependentes de petróleo que existem, a ciência e tecnologia incipientes são de excelente qualidade. Esses recursos disfarçam o fato de que, dentre os políticos, ninguém nos oferece uma idéia de país, um projeto para avaliarmos. É este, não os fantasmas de 1970, nosso real problema.

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