Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'EUA'

Uma direita além dos clichês

24/July/2008 · 56 Comentários

O Brasil já teve bons colunistas de direita. Hoje, não tem. Repetir uma meia dúzia de clichês é fácil. Bater no governo por cacoete, idem. Platéia para o aplauso não faltará. (Blogs com comentários hiper-moderados facilitam muito a vida de quem busca aplauso, à direita e à esquerda; no tempo do impresso não tinha isso.)

David Brooks, do New York Times, é um bom colunista de direita. Do tipo que dá prazer de ler mesmo que seja para discordar.

É o caso de sua análise da história de Diane McLeod, publicada pelo próprio Times, no domingo. Diane é um dos muitos exemplos por trás da atual crise econômica dos EUA. Recém-separada, deprimida, se deixou seduzir por crédito fácil que conseguiu no cartão de crédito e numa hipoteca da casa. Suaves prestações mensais por dinheiro na mão de imediato.

Curou a depressão no shopping center. Como milhões de pessoas. A bolha do crédito com juros flutuantes explodiu.

História contada, Brooks se lança a descrever as reações imediatas de esquerda e de direita:

A esquerda lê sobre o drama de Diane McLeod e vê um Estado que falhou em regulamentar agentes e empresas de financiamento que flertaram abertamente com o estelionato.

A direita, por sua vez, vê apenas Diane McLeod, uma pessoa que, individualmente, assumiu a responsabilidade por uma dívida e problema dela. Governo e sociedade nada têm a ver com os erros de indivíduos.

O problema não é apenas que, no fim das contas, ambos estão certos. Tampouco que são visões simplistas duma situação que, repetida muitas vezes, está desencadeando uma grave crise econômica. Brooks:

A terceira forma de ver a situação começa com a percepção de que todas as pessoas têm inerte o desejo de ganhar o respeito de seus pares. Indivíduos não constroem suas vidas do nada. Eles absorvem os padrões e normas do mundo ao seu redor.

Tomar decisões – seja a contração de um empréstimo ou a decisão de com quem casar – não é um ato friamente racional. A tomada de decisão vem de uma longa rede de processos e muitos deles não são de todo conscientes. Absorvemos uma maneira de perceber o mundo vinda de nossos pais e vizinhos. Reproduzimos o comportamento daqueles a nossa volta. Só no fim deste processo há motivação consciente.

Se estas premissas estiverem certas, o que aconteceu com McLeod e o sistema financeiro nacional faz parte de uma história social mais ampla. Os Estados Unidos já tiveram uma cultura de gastos comedidos. Mas, nas últimas décadas, ela ruiu silenciosamente.

O tom da coluna é conservador. As escolas, diz Brooks, costumavam arraigar a idéia de pecado na sociedade puritana. Isto não acontece mais. Incentiva-se o consumismo e o fato de ele ser um pecadilho provoca piadas, não asco. É evidente, sugere o colunista, que no fundo o comportamento que corroeu as normas se dá em infinitas decisões pessoais.

‘A virada do mercado irá punir aqueles seduzidos pelas tentações do mercado’, ele conclui. (Direita, nos EUA, mistura puritanismo com Adam Smith.)

No final, pode-se discordar da leitura. Acaso o Estado regulasse atentamente o mercado, certos dramas poderiam ter sido evitados. Não todos, só alguns. Mas direita inteligente vai muito além de seus próprios clichês para compreender uma crise econômica ou suas vítimas.

Tags: EUA · Ideologias

John McCain pode ser piada?

23/July/2008 · 25 Comentários

A capa da New Yorker com Barack Obama: sua mulher Michelle se veste como extremista negra dos anos 60, ele como muçulmano radical. Estão no Salão Oval da Casa Branca. Na parede, ao invés do tradicional quadro de Washington, um de Osama bin Laden. Na lareira queima uma bandeira norte-americana.

Deu confusão.

A Vanity Fair ironiza a confusão com John McCain: sua mulher Cindy traz remédios para o candidato, ele, velho que só, se ampara num andador. Estão no mesmo Salão Oval da Casa Branca. Na parede, ao invés de Washington, George W. Bush. Na lareira queima a Constituição norte-americana.

Brincar com os estereótipos de um, não pode. E com os estereótipos do outro?

dica da Flávia Tavares, via G1

Tags: EUA · Mídia

Começou a censura à Internet
na campanha eleitoral de 2008

22/July/2008 · 21 Comentários

Lei é o diabo. Regulamentação de lei, idem. No início deste ano, o ministro Ari Pargendler, do TSE, soltou a resolução 9.504 que proibia qualquer candidato de ter mais de um site na rede para a campanha.

Isto inviabilizaria, sugeri na época, que um candidato tivesse seu site e pusesse, por exemplo, um filmete no YouTube. Afinal, a página do YouTube e a página de campanha constituiriam dois sites. Assim, a campanha na Internet estaria praticamente inviabilizada.

Assim como ocorreu com o projeto de Eduardo Azeredo sobre cibercrimes, muitos críticos alegaram que esta interpretação da resolução do TSE estava errada. Que ela não coibiria assim a campanha. Que apenas organizava as coisas.

Pois bem: Geraldo Alckmin, candidato à prefeitura de São Paulo, foi obrigada a retirar todos os vídeos do YouTube. Segundo o juiz: ‘A página do candidato não pode ser relacionada com outros sites gratuitos, como forma de extensão da propaganda eleitoral’. O juiz não está errado tampouco interpretou equivocadamente a resolução do TSE. Fez exatamente o que diz a letra.

Em Porto Alegre, a (bela) candidata Manuela d’Ávila foi obrigada a fechar sua comunidade no Orkut e suspender os vídeos do YouTube. Novamente: o juiz do TER fez cumprir as ordens do ministro Ari Pargendler.

Estão sendo censurados: não podem se expressar com todos os recursos que a Internet permite. Não podem aproveitar a rede para se comunicar em plena liberdade com os eleitores. Por que o YouTube é proibido? Por nada. Para evitar um vago abuso de sei lá o quê.

Começou o período eleitoral no Brasil. Por coincidência, escrevi domingo, no Estado, sobre a influência da Internet na campanha norte-americana. Aqui no Brasil, seria ilegal.

A censura impetrada pela canetada do Tribunal Superior Eleitoral mal começou. Os primeiros foram os políticos. Os próximos serão os jornalistas.

Tags: Brasil · EUA

Um mundo sem armas nucleares é possível?

22/July/2008 · 57 Comentários

Duas décadas após Ronald Reagan e Mikhail Gorbachov combinarem o início de uma política de desarmamento nuclear, um grupo dos mais influentes homens especializados em segurança nacional, nos EUA, pede ao país que lidere uma campanha global para pôr fim às armas nucleares. São George Shultz, Henry Kissinger, William Perry e Sam Nunn.

Nenhum deles (dois ex-secretários de Estado, um ex-secretário de Defesa e um ex-presidente do Comitê de Forças Armadas do Senado) tende a sonhos utópicos – ou mesmo a sonhos de qualquer outro tipo. O que desejam é chocar para despertar uma idéia. […]

Eles desejam a implementação de políticas há muito ignoradas pelos militaristas: isto inclui a proibição total de testes nucleares, tirar mísseis norte-americanos e russos da condição de alerta, e a costura de acordos ‘para redução substancial’ dos arsenais de ambos os países.

‘Não vamos conseguir nada enquanto formos países que têm armas nucleares exigindo coisas de países que não as têm’, diz Kissinger.

É difícil negar que estas propostas sejam uma rejeição da política do atual presidente Bush para armas nucleares. Os assessores do presidente passaram oito anos ridicularizando acordos de controle de armamento, caracterizando-os como ‘idéias velhas’. Durante o governo, Bush sempre negou que exista uma relação entre o que os EUA fazem com suas armas nucleares e sua evidente inabilidade de impedir comportamento armamentista de outros.

Do New York Times.

via Nieman Watchdog

Tags: EUA · Mundo · Rússia

O favor que al-Maliki prestou a Obama,
que deseja ser Kennedy ou Reagan

21/July/2008 · 39 Comentários

Barack Obama só chegou ao Iraque hoje, mas a edição mais recente da revista alemã Der Spiegel já lhe trazia uma boa notícia no fim de semana. São as palavras do premiê iraquiano Nouri al-Maliki: ‘Os EUA devem deixar o Iraque tão logo seja possível’, ele disse. ‘O candidato Barack Obama fala de deixar em 16 meses. Esta, imaginamos, seria uma boa perspectiva, com a possibilidade de pequenas mudanças.’

John McCain tem batido sistematicamente em Obama neste quesito. Ele argumenta que o candidato democrata entende pouco do que está acontecendo no Iraque e é imaturo para avaliar. Esta viagem de Obama à Ásia Central e Oriente Médio é um bocado defensiva, para poder dizer que esteve lá recentemente e que conversou com os comandantes.

Mas, quando o governo do Iraque diz que ele está certo, tudo muda de figura.

Al-Maliki, evidentemente, está de olho também na política interna de seu país. Ele, que assinou a ordem de execução de Saddam Hussein, é xiita. Os xiitas querem o controle do Iraque e, como são maioria, têm chances de conseguir. Xiita mas não excessivamente religioso. Anda de terno e gravata e não com vestes tradicionais. Ouve o clero, mas aproveita o que quer de seus conselhos e dispensa o resto. É de família tradicional. Seu avô foi ministro do rei Faisal I, irmão do avô do atual rei da Jordânia, quando o Iraque era uma monarquia. Prestar um favor ao futuro presidente dos EUA por certo renderá pontos. É uma aposta, claro, mas o tipo de aposta que ressoa bem em casa. O que ele está dizendo qualquer um que esteve no Iraque repete: querem os norte-americanos fora.

O fato é que McCain foi jogado para a defensiva. Até agora, vinha fazendo seu discurso na posição de veterano de guerra, filho e neto de almirantes, especialista em política externa perante o jovem e desqualificado oponente na eleição. É um papel difícil de sustentar quando o governo que os EUA deveriam estar ajudando concorda com a avaliação de Obama.

Neste momento, al-Maliki está sob pressão, já disse que foi mal interpretado. Qual que nada, o estrago foi feito. Um bocado de pressão também deve estar sobre o presidente Jalal Talabani. É o mínimo com o qual McCain pode esperar: ao menos a impressão de que o governo iraquiano está dividido. Mas Talabani está em silêncio e cada dia em que este silêncio se mantém, mais alto ele fala.

Do Oriente Médio, Obama seguirá para a Europa. Na Alemanha, fará um discurso para mais de um milhão de pessoas aos pés da Coluna da Vitória erguida pela Prússia nos tempos de Otto von Bismarck. Ele queria falar à frente do Portão de Brandenburgo, mesmo local em que John Kennedy disse ‘Ich bin ein Berliner’ e, anos depois, Ronald Reagan pediu a Mikhail Gorbachov que derrubasse ‘aquele muro’. É o local onde presidentes dos EUA foram grandes.

Foi com toda razão que o governo alemão gentilmente negou-lhe o espaço. Seria uma intromissão violenta na política interna norte-americana permitir a Obama que fosse filmado qual Kennedy ou Reagan perante um milhão de alemães. Mas é bem possível que as imagens tenham esta aparência de sucesso majestoso de qualquer jeito. Obama é popular na Europa.

(Não custa dizer: é exatamente o tipo de intromissão que al-Maliki cometeu. Mas ele deve ser perdoado. Seu país, afinal, está invadido. Ele tem interesse direto no resultado do pleito norte-americano.)

Tudo, é claro, pode ser posto a perder com uma gafe. É o maior fantasma ao redor de Obama. Se tudo der certo esta semana, ele volta com a imagem de um líder respeitado e admirado no exterior. É o tipo da coisa que os norte-americanos sentem falta. Depois de George W. Bush, tudo o que querem é um novo Kennedy, um novo Reagan. É esta a imagem que Obama quer vender.

Tags: EUA · Europa · Iraque

Por que o petróleo sobe?

21/July/2008 · 32 Comentários

Howell Raines, ex-diretor de redação do New York Times, publicou uma boa análise da alta do preço de combustíveis nos EUA, parcialmente aplicável ao resto do mundo. A teoria corrente trata do seguinte: oferta e demanda. China e Índia estão consumindo mais. Há mais demanda para a mesma oferta, os preços sobem.

Não exatamente, sugere Raines.

Executivos das petroleiras acreditam numa versão atualizada da Teoria do Pico do Petróleo, apresentada em 1956 pelo geólogo M. King Hubbert. Ela propõe que por conta da finitude dos campos de petróleo e pelo alto custo da produção, a indústria norte-americana do petróleo chegará a um nível máximo em determinado momento e, aí, começará a decair. A versão atualizada afirma que a produção máxima de petróleo nos EUA se dará em 2020.

As petroleiras estão recebendo um preço bastante alto por um produto que, elas acreditam, ficará cada vez mais difícil de obter no futuro e que também será menos valioso por conta da concorrência de outros combustíveis. O jogo inteligente a fazer, do seu ponto de vista, é desviar cada centavo para o lucro e aproveitar enquanto o Cassino do Ouro Negro ainda está funcionando. Para confundir público e imprensa, eles selecionam vários homens para fazer as relações públicas e culpar a falta de petróleo que você prevê faz meio século em: falta de refinarias, legislação ambiental, e os lençóis imaginários no Alaska.

Ou seja, a indústria do petróleo, nos EUA, está botando o lucro no bolso e não investe nada em produção. A mesma indústria, nos últimos 25 anos, fechou metade das refinarias no país. E, embora o discurso das empresas afirme que tudo ficaria melhor se perfurar nas reservas ambientais do Alaska fosse legal, elas não começaram ainda sequer a explorar 80% dos territórios, nos EUA, que o governo já autorizou. “Todo repórter por aí compra essa história de oferta e demanda”, ironiza Don Barlett, da revista Time. “Se eu estivesse nas relações públicas das petroleiras, ia continuar batendo na mesma tecla.” Raines continua sua coluna:

Oferta e demanda? Claro, mas como lembra John Lee, veterano repórter do Wall Street Journal e que foi do New York Times por muitos anos, oferta e demanda de petróleo não são apenas ‘dois gráficos que indicam de onde vem, para onde vai’. Há motivos mais complexos na determinação do preço que se paga no posto de gasolina. ‘O preço na bomba sempre refletiu o último preço de pico, ou seja, aquilo que gasolina custa no mercado geral. É o preço do momento e não o preço baseado na gasolina comprada e estocada nos armazéns.’

Digamos que você seja uma empresa petroleira vendendo gasolina nos postos e que, nos seus armazéns, existem barris que foram comprados a 140 dólares e outros a 75. Tem muito espaço aí para manipular os preços. Mas, por favor, nem sequer pense que a Exxon Mobil ousaria manipular preços assim. Assim como eu e você, eles são escravos destas forças tremendas, oferta e demanda.

Tags: EUA · Energia e Aquecimento global

O Afeganistão nas eleições dos EUA

16/July/2008 · 13 Comentários

Mais soldados ocidentais morrem em batalha no Afeganistão, hoje, do que no Iraque. O Talibã está fortalecido, a chefia da al-Qaeda circula com facilidade. Na área de fronteira com o Paquistão, nenhum governo manda.

Há meses, o cenário eleitoral norte-americano, no que tange política externa, se resume assim: John McCain quer ficar no Iraque, Barack Obama acha que o foco deveria ser na fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Os fatos estão obrigando McCain a mudar.

Mas a política é de difícil costura. Primeiro, por causa do Irã.

EUA e Israel vêm mantendo forte pressão sobre o Irã, nos últimos meses. Cogitar uma guerra é irreal – a OTAN não vai se empenhar, a desastrada aventura no Líbano deixou o governo israelense capenga e os EUA não têm força. Um bombardeio é possível. O Irã revidaria com tanta força quanto possível. Primeiro, com mísseis contra Israel; depois, no Afeganistão e no Iraque, países com os quais faz fronteira.

O presidente afegão Hamid Karzai tem se equilibrado nesta linha fina. Elogia Bush, elogia Ahmadinejad. Ele não tem escolha. Precisa do apoio iraniano para reerguer o país. E a lição que teve é de que os EUA ajudam, mas esquecem rápido.

Nos EUA, faz um bocado de diferença. A força de McCain é que, para o eleitor, ele parece entender mais de Forças Armadas do que Obama; Obama, por sua vez, inspira mais confiança na economia, que anda em frangalhos e ameaçando piorar. Há anos Obama diz que o Iraque é uma distração enquanto McCain insiste que é o principal palco na luta contra o terrorismo. Até há pouco tempo, a percepção de que havia melhoras no Iraque favorecia John McCain. Com o acirramento do conflito no Afeganistão, a impressão pode passar rapidamente.

Tags: EUA · Iraque · Ásia Central

Guantánamo: BBC divulga primeiro
vídeo de interrogatório

15/July/2008 · 76 Comentários

O vídeo foi gravado secretamente, pelo duto de ventilação. Nele, o jovem sendo interrogado reclama de maus tratos e falta de atendimento médico para seus olhos e pés, feridos antes de sua prisão.

Omar Khadr, o prisioneiro, tinha 16 anos no momento do interrogatório. Preso no Afeganistão, é cidadão canadense.

Tags: EUA · Ásia Central

O Fed: perdido

11/July/2008 · 25 Comentários

O dilema do Federal Reserve, Banco Central dos EUA:

Em paralelo à crise no mercado financeiro, há o aumento de combustível e do preço de alimentos que em conjunto puseram o Fed numa situação difícil: precisa encorajar empréstimos para que a roda financeira continue a girar mas deve ser cuidadoso para controlar a inflação e a ameaça de mais aumentos no petróleo e nos supermercados. Precisa, ainda, se equilibrar entre a oferta de apoio para Wall Street com um programa especial de empréstimos – coisa que não é popular perante a população que já enfrenta dificuldades – ao mesmo tempo em que informa ao mercado que não sairá por aí salvando tudo quanto é instituição financeira com problemas.

Se ficar, o bicho pega.

Tags: EUA

Turismo sexual negro para o Brasil

11/July/2008 · 42 Comentários

Faz algum sucesso, entre os negros nos EUA, o livro Don’t blame it on Rio. Ele descreve uma crescente onda de turismo sexual. Homens negros dos EUA procuram principalmente o Brasil (Rio em particular) e a República Dominicana, lugares onde encontrarão farta oferta de prostitutas negras.

É livro de sociólogo. Lá segue uma lista de reclamações do homens em relação às negras dos EUA. Mas também afirmam de que não há desejo de se misturar. Buscam a mesma cor de pele. Um dos motivos de sucesso do livro é que ele termina por ser um manual involuntário para a aventura.

(O título é uma piada; se refere à comédia Blame it on Rio, com Michael Caine, José Lewgoy e uma jovem Demi Moore, passado nos anos 80.)

Tags: Brasil · EUA · Sexualidade

Enquanto o Irã testa mísseis

10/July/2008 · 64 Comentários

Ontem, o Irã testou mísseis de longo alcance, provando que consegue atingir Israel se o desejar. Nos EUA, o secretário de Defesa Robert Gates de presto se adiantou, dizendo que um conflito é de todo improvável. Na seqüência, a secretária de Estado Condoleezza Rice interceptou a mensagem informando que, não importa o que diga Gates, os EUA intervirão se considerarem necessário.

Esquizofrenia? Nada. Good cop, bad cop – policial bonzinho e o malvado. É tática.

Karim Sajdadpour especialista em Irã entrevistada pela Foreign Policy explica o lado de Teerã nesta história:

Na semana passada, o Irã soava conciliador, o ministro das Relações Exteriores Manouchehr Mottaki falava de uma ‘nova tendência’ nas negociações nucleares. Esta semana, o governo do Irã fala de atacar os EUA ou Israel em resposta a uma ofensiva e testam mísseis que podem chegar a Tel Aviv. O que explica a mudança?

As últimas duas semanas mostram a maneira de o líder supremo aiatolá Ali Khamenei enxergar o mundo e seu método de operação que não prevê nem confronto, nem acomodação, com o ocidente. Semana passada, os sinais vindos de Teerã diziam ‘nós somos capazes de praticar diplomacia’. Esta semana, o Irã informa a Israel e aos EUA, ’se vocês partirem para uma escalada, seremos recíprocos’. Khamenei quer enviar um sinal claro: ‘não achem que pressão vai moderar nosso comportamento’. Ele acredita que quem cede a pressão acaba convidando mais pressão.

O presidente Mahmoud Ahmadinejad se referiu à possibilidade de um ataque ao Irã como uma piada. O que o senhor acha que ele está tentando fazer?

Ele sempre acreditou que a possibilidade de um ataque ao Irã é muito pequena. Ele interpreta a vitória parlamentar dos democratas, nas eleições de 2006, como um indício de que a população norte-americana não deseja mais aventuras no Oriente Médio. Assim, ele acha que os políticos dos EUA têm as mãos atadas. Isto posto, um ataque militar norte-americano contra o Irã seria ótimo para Ahmadinejad. Só há duas coisas que poderiam reabilita-lo perante a opinião pública do Irã. Uma é esse ataque. Outra é uma ofensiva diplomática violenta dos EUA contra seu país. Na minha opinião, os EUA não deviam fazer nenhum dos dois.

Tags: EUA · Irã · Israel e Palestina

Apresentando os Obama

9/July/2008 · 29 Comentários

Ontem à noite, o NBC Evening News apresentou, pela primeira vez, uma entrevista com a família Obama reunida. Estavam lá Barack e Michelle, assim como Malia Ann (10) e Natasha (o apelido é Sasha, 7 anos). As meninas gostariam de se mudar para a Casa Branca pela oportunidade de redecorar seus quartos. Esperam também que a campanha termine logo: os pais lhes prometeram um cachorro.

Evidentemente, tudo é política. É a apresentação pública da família Obama.

Tags: EUA

O mundo em busca de reformas

6/July/2008 · 57 Comentários

Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.

E o planeta não poderia estar mais diferente.

Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.

As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:

Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.

A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.

Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.

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A costura diplomática entre Irã, EUA e Europa

4/July/2008 · 45 Comentários

Há definitivamente tensão no ar por conta da possibilidade de um ataque ao Irã. Esta semana, em vários pontos do mundo, distintos esforços diplomáticos saíram à tona veladamente na imprensa.

Na edição de semana passada da revista The New Yorker, o decano dos repórteres investigativos Seymour Hersh publicou um longo texto a respeito dos conflitos internos entre Casa Branca e Congresso, nos EUA.

Segundo Hersh, a liderança democrata e republicana, no Congresso, autorizou o financiamento de operações secretas dentro do Irã por parte da CIA e das Forças Armadas. Em geral isso quer dizer dar dinheiro e treinar forças de oposição. Há receio, no entanto, de que estas atividades estejam indo além.

Um dos que manifestam preocupação é o secretário de Defesa Robert Gates. Falando numa reunião privada a senadores, Gates disse que se houver ataque ‘vamos criar gerações de jihadistas e nossos netos vão lutar contra esses inimigos aqui nos EUA’. Perguntaram-lhe se ele falava em nome do presidente Bush ou do vice, Dick Cheney. ‘Digamos que falo apenas em meu nome.’ Sim, o ministro de Bush é contra os aparentes esforços da Casa Branca de atacar o Irã. Hersh diz ainda que a resistência entre os generais também é muito grande. Mas que a pressão por um ataque continua.

Ali Ettefagh, um financista iraniano que mora entre Irã e Europa, analisa assim a situação: ‘Estes são vazamentos propositais vindos direto do escritório do vice-presidente para Seymour Hersh. É um jogo psicológico, uma onda cíclica de noticiário intenso contra o Irã que demonstra a falta de boa vontade do governo norte-americano. Essas notícias de operações secretas chegam para desestabilizar o Irã no momento em que o grupo 5+ 1 (EUA, França, Reino Unido, Alemanha, China e Rússia) fazem uma oferta de acordo para resolver a questão nuclear. O Irã não deve se permitir confundir pelo jogo.’

Segundo Ettefagh, sempre que algum tipo de acordo está sendo seriamente discutido, vaza na imprensa dos EUA alguma notícia que afasta o Irã das mesas de negociação. O Irã fica parecendo o vilão. Talvez. Aí, passam-se uns dias, o presidente Bush vem deixar claro que nada disso está acontecendo e que a solução que seu país busca é diplomática. Exatamente como aconteceu esta semana. A questão, porém, é mais complexa.

Mesmo quando nós jornalistas não percebamos o jogo – e, muitas vezes, não percebemos mesmo que estamos sendo usados – diplomatas percebem. Sabem exatamente o que acontece, tanto no Irã quanto fora. O desconforto com o governo iraniano é grande. O presidente Mahmoud Ahmadinejad fala demais e não tem qualquer vontade de diplomacia. É um incendiário. E é por isso que uma carta publicada ontem no jornal francês Liberatión é particularmente importante.

No ano passado, o presidente francês Nicolas Sarkozy procurou ser recebido pelo aiatolá supremo Ali Khamenei. Para negociar em que condições tal encontro poderia ocorrer, o velho aiatolá ordenou que seu braço direito, Ali Akbar Velayati, fosse à França. Velayati então procurou o presidente Mahmoud Ahmadinejad para informá-lo da missão numa visita de cortesia. Ahmadinejad deixou-o esperando por horas madrugada adentro até recebê-lo e foi rude. Então, o presidente do Irã escreveu uma carta a Sarkozy chamando seu par francês de ‘jovem e inexperiente’ e fazendo ameaças veladas. O fato de que Sarkozy é cinco meses mais velho do que Ahmadinejad é irrelevante. A conversa foi abortada antes de ser negociada.

A carta publicada no Liberatión é de Velayati. Parece que veio do nada. Responde, naquele tom floreado da prosa persa, a uma pergunta jamais feita. ‘Apesar de seu vasto poder, o líder supremo só intervém em casos muito importantes, deixando a maior parte das questões para os responsáveis pelo Estado. Ao receber dignitários e líderes de outros países, ao se comunicar com eles, o líder dá mostras de sua presença crucial na diplomacia iraniana.’

Quer dizer que, no ano passado, Ahmadinejad cruzou uma linha de poder interno que não deveria ter cruzado. Foi um recado para o governo francês: desculpem a grosseria do rapaz, aqui em casa quem manda ainda é o velho.

Não é dizer, de forma alguma, que Sarkozy e Khamenei estejam prontos para se encontrar na semana que vem. O encontro talvez jamais aconteça. Mas Khamenei acaba de desautorizar o presidente Ahmadinejad perante a França. É a maneira iraniana de usar a imprensa em sua diplomacia. Seu objetivo é botar panos quentes.

Tags: EUA · Europa · Irã

Íngrid Betancourt está livre

2/July/2008 · 173 Comentários

Foi resgatada pelo exército colombiano com mais 14 reféns das FARC.

Informação importante para o contexto: John McCain, não custa lembrar, está na Colômbia. É conveniente. Hoje, 57% dos colombianos apóiam um acordo de livre-comércio bilateral com os EUA. Ainda não foi aprovado pelo Congresso, em Washington. George W. Bush e McCain são a favor. Barack Obama é contra.

Atualização - A Globo.com está transmitindo ao vivo.

Atualização 2 – McCain havia acabado de deixar a Colômbia.

Tags: América Latina · EUA

Mandela aos 90

2/July/2008 · 27 Comentários

Perguntar não ofende: se Nelson Mandela ainda estava na lista oficial de terroristas reconhecidos pelos EUA, quão confiável será essa lista?

Tags: EUA · Terror

Um ano de Weblog independente

2/July/2008 · 73 Comentários

O Weblog estreou em endereço próprio, com o fim de NoMínimo, no dia 29 de junho de 2007.

Em julho de 2007, comemorei ter mantido quase toda a audiência herdada do NoMínimo. Foram quase 85.000 pageviews entre os dias 1º e 30 daquele mês.

O fato de ter começado em novo endereço quer dizer que tudo zera. Parte do público talvez não encontre de novo o site. O índice Technorati, que mede a repercussão do blog entre outros blogs recomeça do nada.

Hoje, o índice Technorati põe o Weblog entre os 10.000 maiores blogs do mundo – o que, num universo que passa do milhão, não é mau. A audiência do último mês encostou em 218.000 pageviews.

Teremos muitas novidades ainda em 2008. Boas novidades. Para que o Weblog se sustente, precisarei da ajuda de vocês. Em breve, pedirei que tomem um pouco de seu tempo para responder a uma pesquisa. Não será necessário que ninguém se identifique. Mas quanto mais respostas tiver, melhor definido será o público leitor do Weblog e mais fácil será angariar publicidade.

Mas cada coisa a seu tempo.

Em agosto, sigo para minha terceira cobertura via Internet de uma eleição presidencial norte-americana. Vários de vocês são leitores desde os tempos em que eu era o editor de Internacional de NO., em 2000. A cobertura desta eleição 2008 será feita da Califórnia e, entre setembro e novembro, vai virar assunto constante, quiçá diário, com acompanhamento ao vivo de todos os debates, incluindo aqueles não transmitidos para o Brasil.

Os fatos estarão em todos os portais. Aqui, como sempre, tentarei mostrar o que querem dizer, com acesso facilitado a alguns dos melhores analistas. Este Weblog será o ponto chave da Internet em português para quem desejar compreender o que definirá o próximo presidente dos EUA. Depois dos últimos oito anos, certamente ninguém tem dúvidas do impacto que o ocupante deste cargo é capaz de causar no mundo.

E, em janeiro, a posse do sucessor de George W. Bush será apresentada de Washington DC. Com vídeo, quero trazê-los todos para dentro da festa.

Não quer dizer que os EUA se transformarão em assunto de monopólio. É o contrário. De nascença, por conta do Onze de Setembro e de meus interesses pessoais, sempre houve uma concentração de EUA e Oriente Médio por aqui. Mas o mundo já mudou um bocado desde aquele distante 2001. Tem havido mais China no Weblog. Alguma África. E um tanto de Rússia. É preciso mais Europa. O objetivo é fazer de 2008 o ano em que o leque de temas constantes foi ampliado. Estou estudando e vou estudar mais para que tudo aconteça.

Quero agradecê-los a todos. Esta experiência com um blog, que caminha para seu sexto ano, mudou radicalmente a maneira como compreendo o jornalismo. A interação com vocês, nas caixas de comentários ou via email, também mudou minhas ambições profissionais. Me fiz repórter sonhando com a grande reportagem autoral de muitas páginas publicada na melhor das revistas. Foi o ideal de muitos jovens focas, jornalistas iniciantes, por algo como um bom meio século.

Hoje, o que desejo é ampliar esta nossa comunidade. É a parte divertida e gratificante do serviço. A toda hora me vejo lendo comentários melhores que os posts originais. Ou incrivelmente complementares. (Quando não simplesmente corrigem alguma besteira que escrevi.) É nítido para todos que convivem em blogs como este que a comunidade faz de todos nós pessoas melhor informadas do que naquela antiga relação do eu escrevo, vocês lêem.

Tão logo possível, a comunidade terá mais poder e espaço no Weblog. Tem sido uma aventura tensa e extraordinária ver minha profissão mudando tanto. Vocês são minha companhia nesse processo. Obrigado.

Tags: Administrativas · EUA · Mundo

De onde vem o dinheiro de Obama
e de como estão mudando os EUA

2/July/2008 · 29 Comentários

Houve o tempo em que os ricos eram republicanos. Mas, na Era da Informação, o que rende dinheiro é educação. Muitas das pessoas de sucesso, hoje, cresceram nos arredores de cidades liberais como San Francisco, Los Angeles e Nova York, se formaram em universidades com tendências de esquerda como Harvard e Berkeley e carregaram seus valores consigo quando viraram banqueiros, médicos ou advogados.

Os analistas políticos agora percebem uma diferença entre profissionais liberais e executivos em corporações. Médicos, advogados ou quem trabalha com mídia tende a votar no Partido Democrata. Executivos, no Republicano. Os primeiros recebem seus valores de universidades e via imprensa; os outros, de suas igrejas, seminários empresariais ou do country club.

Mas a tendência é nítida: os setores crescentes da economia votam Democrata enquanto aqueles em declínio votam Republicano.

Pescado de uma análise do colunista conservador do New York Times, David Brooks.

Tags: EUA · Ideologias

Jogo militar à moda da Rússia

27/June/2008 · 42 Comentários

Após 15 anos sem fazer nada, as Forças Armadas russas voltaram a suas patrulhas planetárias. Missões aéreas de reconhecimento já chegaram perto de invadir o espaço aéreo norte-americano e o britânico, já invadiram de fato o japonês, têm sido avistadas pela marinha dos EUA com regularidade.

Enriquecida com dinheiro do petróleo, Moscou anuncia planos de refazer seu arsenal. Desenvolve armas e as produz. Pretende atingir a marca de 50 aviões bombardeiros em 2015, tem um tanque novo que lançará em 2009, e uma nova geração de mísseis balísticos já ativos. A velha Moscou anuncia sua volta e por conta disso Robert Gates, o secretário da Defesa dos EUA (equivalente a ministro), anda falando para seus oficiais que é bom manter o arsenal nuclear nos trinques.

Os russos não se incomodam: gostam de ser levados a sério. Mas, pergunta-se a Der Spiegel alemã, este é o início de uma nova corrida armamentista? De uma Guerra Fria, portanto? Principalmente, o que quer Moscou? Pode ser angariar apoio patriótico. Pode ser um recado para vizinhos como Ucrânia e Geórgia para que não se distanciem muito da esfera de influência. Pode ser que os russos de fato achem necessário estar prontos para qualquer ofensiva ocidental.

Stanislav Belkovsky, do Instituto Moscovita de Estratégia Nacional, é especialista no assunto e não anda impressionado. Segundo ele, as Forças Armadas mantiveram a capacidade herdada do período soviético até a virada do século. Desde então, o arsenal está em declínio. Dá números: durante o governo Putin, 405 mísseis e 2.498 cargas nucleares foram aposentadas. Apenas 27 mísseis foram produzidos no mesmo período. Esses novos mísseis balísticos, os Topol-M, são grandes e fáceis de eliminar ainda em solo. O veredito de Belkovsky é simples. Em oito ou dez anos, a Rússia terá o potencial militar de uma nação européia de porte médio, incapaz de enfrentar Japão ou Turquia.

Os EUA investem 25 vezes mais nas Forças Armadas e contam com um contingente de 1,5 milhão de homens. Os russos têm 600.000.

Ainda assim, Moscou confunde, age como se fosse um superpoder. No ano passado, o país deixou o Tratado Europeu de Forças Armadas Convencionais. Parece uma afronta, mas é faz de conta. A Rússia não tem condições de manter sequer o contingente que o tratado lhe permitia. E o governo sente-se cercado. Por um lado, a influência norte-americana na Ucrânia e na Geórgia incomoda Moscou profundamente. A idéia dos EUA de colocar mísseis nas vizinhas Polônia e República Tcheca provoca compreensíveis acesso de fúria.

O medo maior, no entanto, não é com o Ocidente. Há um vizinho à espreita: a China. A demonstração de poder, as patrulhas, a exibição de armas, o abandono de tratados de paz, no fim, são um recado simples. Não há uma nova Guerra Fria. Mas o jogo de poderes no mundo está mudando a galopadas de tão rápido.

dica do André Monsores

Tags: China · EUA · Europa · Rússia

O petróleo saudita e as fontes alternativas

26/June/2008 · 23 Comentários

A Arábia Saudita promete que aumentará o fluxo de petróleo em direção ao mundo. Maior oferta, cai o preço. Quem sabe assim o barril a 200 dólares nunca chegue.

Muitos analistas estão céticos. Uns dizem que os sauditas já fizeram essa promessa antes e não a cumpriram; outros sugerem que eles sequer têm como. Seu maior campo está próximo do pico e não agüentará o tranco de aumento.

É sempre tudo muito nebuloso quando o assunto envolve Arábia Saudita e petróleo. Há pouca informação e muita interpretação.

Thomas Friedman, do New York Times, vai na contracorrente. Ele acha que os sauditas vão mesmo aumentar a oferta. Acha mais: que eles não têm escolha. George W. Bush está tentando diminuir o preço da gasolina nos EUA a todo custo e combustível é um dos grandes temas das eleições presidenciais.

Para os sauditas, não é apenas o impacto no eleitor norte-americano e o tipo de presidente que podem eleger o que importa. É também o mercado para energias alternativas. Com combustíveis fósseis em alta, mais fábricas de painéis de energia solar ou moinhos de vento surgirão. Maior oferta, menor preço. Nos EUA, por exemplo, onde a energia elétrica vem de combustíveis fósseis, alimentar a casa ou a empresa com uma fonte própria sai em conta conforme aumenta o preço do petróleo.

Vai ainda além: petróleo caro faz com que o desenvolvimento de fontes alternativas seja melhor financiado e, portanto, fica mais eficiente.

Há um ponto ótimo para que a máquina comece a girar. Os sauditas querem mais dinheiro, evidentemente, mas temem uma crise financeira mundial como a dos anos 1970. É preciso alimentar o vício mas sem matar o hospedeiro. E temem que alternativas ao seu combustível comecem a surgir com maior rapidez. Assim vai o raciocínio de Friedman.

E, evidentemente, sempre há um ou outro que vive no mundo maravilhoso de Gordon Brown, o premiê britânico. Ele tem essa idéia: os sauditas ganharam 3 trilhões de dólares. Por que não investem eles próprios em fontes alternativas de energia?

Ora, pois. Quem sabe pedindo por favor não ajuda.

Tags: EUA · Energia e Aquecimento global · Europa · Oriente Médio