Os 10 países mais perigosos do mundo

10/August/2009 - 10h14 - 323 Comentarios

A Foreign Policy é uma revista divertida. Trata com seriedade de política internacional mas sem a sisudez acadêmica de suas pares. É quase uma Wired do ramo. Em seu site traz a lista dos 10 países mais perigos do mundo. O ranking é bem feito e, em número 10, entra lá a Venezuela sob Hugo Chávez. Os editores não acham que Chávez irá provocar uma guerra. Mas sua capacidade de se aliar aos piores líderes mundiais e criar transtornos na política interna dos vizinhos, trazendo instabilidade para a região, é sem par.

9. Empatados, Arábia Saudita e Iraque. A instabilidade iraquiana é criação norte-americana. Mas, se o país se espatifar, o Oriente Médio todo será comprometido. Os sauditas, por outro lado, não têm uma linha de sucessão clara e um bom naco da família apóia o terrorismo islâmico wahabita, facção de Osama bin Laden.

8. A União Européia entra em oitavo por omissão. É incapaz de assumir sua responsabilidade militar quando intervenções são necessárias no mundo. Sem um poder central, com o euro cambaleante, com novos membros apenas mais ou menos estáveis, isso não parece que vai mudar.

7. A Nigéria é importante pelo petróleo e o Congo porque não há país (país?) mais instável do que ele no planeta. Na lista, simbolizam a África subsaariana, um continente que cresce em importância energética na economia mundial, mas onde brutalidade, miséria e golpes de Estado convivem intimamente.

6. Israel e Palestina só aparecem em sexto na lista porque o mundo está acostumado um pouco demais com a confusão que tanto um lado quanto o outro é capaz de provocar ao menos uma vez por ano. Mas trata-se certamente de um dos focos mais problemáticos num canto conturbado do Oriente Médio.

5. É o Irã, com seu misterioso programa nuclear e crescente volatilidade no sistema político. É um dos países que, se quisesse, mais poderia contribuir para a estabilização política do Oriente Médio. A curto prazo, estabilização é algo que não conseguem prometer nem internamente.

4. Lugar da Rússia. A Rússia é menos perigosa que o Paquistão por um único motivo: bem ou mal, há em Moscou o desejo de participar do sistema mundial e isso controla sua política externa agressiva e os delírios de poder de seus líderes.

3. Paquistão. O governo só controla alguns pedaços do país, incrustado entre Índia e Afeganistão, é o canto do mundo onde alguns dos piores terroristas encontram abrigo. O governo mal consegue controlar a nação. E trata-se de um poder nuclear. O que pode ser mais assustador do que isso? Bem, há piores.

2. China, por exemplo. A China não oferece ameaça militar iminente. Quanto mais poderoso o país, mais perigoso. Basta que se mexa – seja economica, seja política seja militarmente, e as consequências para o mundo todo são profundas e imediatas. Não bastasse, quando se mexe a China não parece lá muito preocupada com o incentivo de uma ditadura aqui, uma mortandade ali.

1. Mas, se é para manter a coerência dos argumentos, sugere a trupe da Foreign Policy, só um país pode encabeçar a lista dos mais perigosos do mundo. Trata-se dos Estados Unidos. Uma gripe na economia provoca pneumonia noutros cantos. Uma intervenção militar desastrada – vide Iraque – piora (muito) uma região.

Alvaro Uribe, Hugo Chávez e os EUA na Amazônia

07/August/2009 - 09h14 - 140 Comentarios

O presidente colombiano Alvaro Uribe saiu em tour pela América do Sul para colher apoio a seu plano para permitir ao exército norte-americano o uso de sete bases em seu país. O presidente Lula diz que se elas se limitarem ao combate ao narcotráfico em território colombiano, trata-se de questão interna da Colômbia. O Brasil quer explicações, mas a princípio não criou problemas. Uruguai, Paraguai, Chile e Peru seguiram na mesma toada. Argentina, Bolívia, Equador e – que surpresa – a Venezuela receberam a notícia com sobressaltos.

A Colômbia diz ter provas documentais de que a Venezuela continua a armar as Farc. Chávez ameaça cessar as relações comerciais entre os dois países e, dada a balança comercial, o impacto sobre a Colômbia não é irrelevante. Quer comprar também mais tanques russos. Sugeriu que as relações mais estreitas de Colômbia e EUA podem marcar o ‘início de uma guerra’ na América do Sul. (Alguém leva Hugo Chávez a sério?)

O blog da boa revista Foreign Policy sugere que Chávez se aproveita de uma boa desculpa política para armar seu exército. Que ele tem ambições de aumentar a influência externa da Venezuela, não há dúvidas. É só o que faz. Como os tanques não cruzarão a mata densa em direção à Colômbia, há sempre uma outra possibilidade, sugere um comentarista do blog: os tanques são para uso interno, mesmo. Vai que a popularidade cai e é controlar manifestações nas ruas.

Excêntrica política venezuelana à parte, o plano de Uribe é realmente complicado. Ele não apenas cede a soberania de seu país ao estilo saudita, como cria desconforto em toda região. Não custa evitar histeria com o futuro da Amazônia. Tampouco custa lembrar que ela é de fato difícil de gerenciar. Quem garante que o exército dos EUA não irá tratar com desleixo as fronteiras?

Obama inicia conversa sem pré-condições com Coreia do Norte

05/August/2009 - 08h02 - 99 Comentarios

Em 1994, Jimmy Carter visitou a Coreia do Norte e esteve com o então ditador Kim Il-sung. O presidente Bill Clinton não gostava da ideia. Não é sempre que as aventuras diplomáticas de Carter dão certo e a estratégia norte-americana era a de isolar o ditador coreano o máximo possível. Mas, naquele caso, a visita de Carter deu certo. Até então, os EUA estavam decididos a promover um ataque aéreo que destruísse o sítio de obras de instalações nucleares. Carter retornou com uma proposta de diálogo que congelou o projeto norte-coreano por quase uma década.

Oficialmente, nada é oficial.

Bill Clinton, agora um ‘homem privado’, entrou na Coreia do Norte em uma avião sem qualquer identificação com a missão exclusiva de soltar as repórteres Laura Ling e Euna Lee, da TV Current.

Estive na Current, em San Francisco. É uma operação miúda com alta tecnologia. No pequeno prédio de tijolos vermelhos esmagado por dois arranha-céus, a sala de Al Gore, toda envidraçada e com um enorme pôster do planeta Terra na parede, se destaca. A operação é tão pequena que não tem muitos jornalistas além de Robin Sloan, um sujeito jovem mas talvez a cabeça mais criativa na união entre tevê e internet que há nos EUA. A Current de Al Gore funciona contratando freelancers. As repórteres não são suas empregadas. Propuseram uma matéria, a turma topou. Era muito mais arriscado do que parecia a primeira vista.

(Vida de repórter online, independente, é bonito; ter uma grande empresa jornalística para defendê-lo em caso de algum problema em missões delicadas é fundamental. As moças tiveram a sorte de ter por chefe o ex-vice-presidente dos EUA.)

Já estava garantido a Clinton que, se ele viesse e conhecesse o filho de Kim Il-sun, Kim Jong-il, ele voltaria com as moças. Deu certo. Obama, oficialmente, não falou com o ex-presidente. Mas não é coincidência que Clinton, além de ex-presidente, é também marido de quem comanda a diplomacia norte-americana. E que, a seu lado, estava John Podesta, assessor informal do atual presidente. A missão de Clinton só era informal em nome. Trancado por trás das portas, ele e Kim Jong-il não conversaram apenas sobre as moças.

Durante a campanha presidencial, Barack Obama disse que seu governo negociaria sem estabelecer pré-condições com qualquer outro governo. Na época, Hillary Clinton fez graça.

Pois Obama acaba de começar a fazê-lo. Através de um Clinton.

Honduras, seus golpistas, Zelaya que grita e o incrível Evo Morales

14/July/2009 - 08h46 - 287 Comentarios

Em Honduras, o dinheiro que vem dos EUA, Europa e vizinhos na forma de ajuda internacional, compras e empréstimos, fundamental para a economia do país, está suspenso. 200 milhões de dólares se foram pela janela. As exportações de têxteis e café, que movem a economia, caem pela crise. O petróleo venezuelano não vem mais.

A estratégia do governo de facto do país é simples. Como faz duas semanas do Golpe, a pressão econômica ainda não foi sentida. O presidente imposto Roberto Micheletti considera que, se conseguir aguentar até novembro, quando há eleições marcadas, seu golpe sobrevive e tudo volta ao normal.

Enquanto isso, o presidente derrubado Manuel Zelaya grita, na impossibilidade de fazer qualquer outra coisa. Diz que considerará as tentativas de mediação por parte do presidente costarriquenho Óscar Arias fracassadas se, até uma reunião que ocorrer no sábado, não houver solução.

Dificilmente haverá. Micheletti aposta no tempo.

E este é o ponto fundamental da questão: ninguém disse, ainda, o que ocorrerá após as eleições presidenciais. O Los Angeles Times, em editorial, diz que o governo norte-americano deve deixar claro que, mesmo após eleições, Honduras permanecerá na lista negra por ter interrompido o caminho democrático.

É uma decisão complicada. Permanecer punindo um país inteiro? Ao que parece, os golpistas vão escapar.

Em Honduras, o cotidiano vai se normalizando. O toque de recolher foi suspenso – ‘aumentou a segurança do país’, informa o presidente imposto. Na Bolívia, Evo Morales já disse que considera que os EUA patrocinaram o golpe.

A América Latina, às vezes dá um desânimo…

A imagem de Obama

10/July/2009 - 00h19 - 95 Comentarios

obama_bysouza

O blog Big Picture, do Boston Globe, registra os primeiros 167 dias da presidência Obama em fotos.

Aí em cima, foto de Pete Souza, fotógrafo oficial da Casa Branca. Souza é um fotógrafo estupendo e as imagens todas, no blog, apresentam um político extremamente carismático. Mas que ninguém se engane: é propaganda. Obama faz lembrar John Kennedy, outro mestre da forma.

via Boing Boing

Honduras e o que ela muda no jogo de poder das Américas

07/July/2009 - 14h01 - 92 Comentarios

O fotógrafo James Rodriguez, em seu blog, apresenta cenas dos protestos contra o Golpe em Honduras.

O complemento vem por conta de Alon Feuerwerker:

A situação pode mudar rapidamente, dada a precariedade do equilíbrio. A estratégia agora dos partidários de Zelaya é aprofundar o isolamento internacional do país, inclusive com mecanismos de bloqueio econômico. Contra Cuba o recurso não tem funcionado. Só que Honduras não é Cuba. Vamos aguardar.

Merece registro que os aliados continentais de Havana, inclusive o Brasil, peçam aos Estados Unidos pelo isolamento de Honduras. É a legitimação do papel hegemônico de Washington, contra o qual a esquerda latino-americana se batia, quando interessava. O demonizado George W. Bush deve estar sorrindo no Texas, enquanto Barack Obama, a pedido inclusive de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, faz uma faxina na biografia do antecessor.

Outro subproduto da inédita unidade continental em torno de Zelaya é a criação de um ambiente mais confortável para o Senado brasileiro votar a adesão da Venezuela ao Mercosul.

Robert McNamara (1916-2009)

06/July/2009 - 23h51 - 20 Comentarios

Saddam Hussein e o Irã

03/July/2009 - 09h15 - 34 Comentarios

Um dos grandes mistérios a respeito da Guerra do Iraque é por que Saddam Hussein não permitiu que os inspetores da ONU confirmassem que ele não tinha armas de destruição em massa. Se a informação fosse comprovada, o ditador ainda governaria o Iraque. Agora, suas entrevistas com George Piro, agente do FBI, foram tornadas públicas pelo Freedom of Information Act, FOIA, uma lei norte-americana freqüentemente usada por jornalistas e ongs e que obriga o governo a mais transparência.

É comum que informação previamente secreta seja liberada pelo FOIA, mas o governo não raro posterga, faz o que pode para segurar, para abrir apenas parcialmente. Se liberou agora, e como Saddam trata do Irã, parece ser jogo de pressão.

Afinal, essa é a explicação que o ditador dá: não queria que a ausência de armas de destruição em massa fossem tornadas públicas para não se expor ao Irã. Segundo Saddam, o governo dos aiatolás continuava a desenvolver seu armamento pesado. Temia um ataque. Ele considerava que todos os países do Oriente Médio eram incapazes de se defender contra um ataque iraniano.

Hussein disse também que considerava Osama bin Laden um fanático e a história de que tinha sósias para evitar tentativas de assassinato era ‘fantasia de cinema’. Seu método para evitar que o encontrassem era não falar ao telefone e nunca dormir uma noite no mesmo lugar que a outra.

Como o governo Obama vê o Irã (Parte 1 de 2)

01/July/2009 - 16h49 - 99 Comentarios

Myth, Illusions and Peace – Mitos, Ilusões e Paz – é o livro recém-lançado, nos EUA, de Dennis Ross, o diplomata encarregado no governo Obama de negociar com o Irã. O volume trata de todo o Oriente Médio mas, neste momento de crise, não custa focar nos capítulos a respeito do Irã.

É disto que este post trata: um resumo de como Ross vê o país e a diplomacia recente com ele. Amanhã, no segundo e último post da série, sua fórmula para negociar com os iranianos. Não custa lembrar: é a visão e a opinião do homem cujo escritório fica ao lado do de Obama na Casa Branca. Irã é assunto que pertence a ele.

Dentro do Oriente Médio, o Irã é visto como um país particularmente agressivo. Seu governo declara ter por objetivo exportar sua Revolução Islâmica e se pautar pela ’solidariedade muçulmana’. Ativamente, interfere internamente em três países. O Iraque, onde financia e treina milícias xiitas, o Líbano, onde financia e treina o Hizbolá, e os territórios palestinos, onde financia o Hamas. Nos três casos, o Irã sustenta exércitos paralelos àquele controlado pelo Estado.

O Irã segue a vertente xiita do Islã. Os países árabes, em sua maioria sunitas, não compram a história de ’solidariedade muçulmana’. Um diplomata árabe consultado por Ross descreveu o Irã como uma máfia: oferece proteção, quem não paga de alguma forma, sofre. E o governo do Irã é solidário apenas quando convém. Em casos como a Chechênia invadida pelos russos e literalmente posta abaixo, Teerã ficou calada. Acontece que os russos, assim como os chineses, são aliados. Por motivos semelhantes, já se manfiestou num conflito armado contra o Azerbaijão, onde a maioria da população é xiita.

Boa parte da Europa ocidental consome petróleo e gás iranianos. Eles até impõem algumas sanções, mas há limites para o que conseguem fazer. O governo dos EUA não faz negócios com quaisquer empresas que façam negócios com Teerã, o que é razoavelmente eficaz. Mas China e Rússia têm acordos comerciais com o Irã e, mais importante, fazem transferência de tecnologia petroleira. Nenhum jogo de pressão dará certo se os dois não forem incluídos.

Existem dois objetivos principais em uma negociação com o país. O primeiro é o de evitar que ele consiga armamento nuclear. O Irã não opera como o bloco comunista operava. A garantia de mútua destruição forçou que a Guerra Fria jamais esquentasse. Sempre que havia uma crise, Washington e Moscou tinham uma linha direta que permitia comunicação entre os altos níveis de governo. EUA e União Soviética se compreendiam. Não é o caso aqui.

Num governo movido por uma religião messiânica e disposta ao martírio, como é o caso do islamismo xiita, em que o presidente Mahmoud Ahmadinejad não cansa de declarar que o Imame Desaparecido está para retornar à Terra, as motivações podem ser diferentes. Israel é um país pequeno. Vários de seus mísseis não destruiriam o Irã por completo; poucos mísseis transformam Israel em terra arrasada.

Um ataque real não é o único medo. O Irã não é o único país do Oriente Médio com ambições de controle regional. A Arábia Saudita também é. Se o Irã subir o degrau nuclear, os sauditas poderão se ver obrigados a fazer o mesmo. No seu caso, eles sequer precisam desenvolver a tecnologia, o que demoraria alguns anos. Um acordo com o governo paquistanês para a transferência de alguns mísseis apontados para Teerã é viável. A Arábia Saudita, não custa lembrar, é o berço da al-Qaeda e radicais é o que não faltam no país. Além disso, se os sauditas tiverem seus nukes, os egípcios se verão motivados a seguir o mesmo caminho. Eles não poderiam deixar a Arábia Saudita ser o único país árabe com esse tipo de armamento.

Então há dois objetivos numa conversa com o Irã: evitar uma corrida armamentista em uma das regiões mais instáveis do mundo e fazer com que o país pare de financiar e treinar grupos que colaboram para a instabilidade interna da região.

O governo de George W. Bush, na leitura de Ross, cometeu uma série de erros políticos dentro e fora dos EUA com os quais é possível aprender. O primeiro foi não ter aproveitado o momento após a invasão do Iraque.

Quando o governo de Saddam Hussein caiu em duas semanas, Teerã levou um susto. Afinal, a guerra entre Irã e Iraque levou vários anos e o país não foi capaz de derrotar Saddam. A demonstração de poderio militar norte-americana não foi apenas convincente. Foi aterradora. De presto, via a Embaixada Suíça, o aiatolá Khamenei fez passar a Washington um apelo por diálogo e uma proposta de pauta escrita por seu embaixador na França. Queriam ir à mesa. A pauta incluía todas as garantias que os EUA pudessem querer, incluindo inspeções amplas, de que o país não buscaria armas de destruição em massa. A reação da Casa Branca foi a de repreender o embaixador por ter se excedido em suas prerrogativas. Khamenei ficou sem resposta.

Durante os anos seguintes, três questões fizeram o Irã mudar de opinião a respeito dos EUA. A primeira foi a total falta de controle no Iraque. Ficou evidente que Washington não sabia o que estava fazendo, o que afastou o risco real de uma invasão ao Irã. A segunda foi o excesso de ameaças. O governo Bush fez vários ultimatos contra o Irã, advertindo para as consequências de descumprir esta ou aquela resolução. Teerã fez o que quis e as consequências foram ralas. Por último, houve o relatório da inteligência norte-americana publicado em 3 de dezembro de 2007.

Segundo a versão pública do relatório, o Irã havia interrompido seu programa de armamentos nucleares em 2003. O documento de fato tinha muito mais nuances e dúvidas, mas foi apresentado à imprensa ressaltando a interrupção. Resultado: dia de festa em Teerã, a Europa afrouxou, os vizinhos relaxaram, Rússia e China que já não ligavam muito ganharam uma desculpa.

As agências de inteligência fizeram de propósito – e, aí, o que pegou foi a política interna. A Casa Branca deturpou o que lhe informaram CIA e outras para entrar no Iraque. Perante o desastre, a culpa sobrou para os espiões. Não queriam ser responsabilizados por outro desastre. Jogando na defensiva, bloquearam a diplomacia do governo ressaltando a parte amena do relatório. Desde então, o governo iraniano aumentou o tom de voz e os EUA ficaram sem espaço para ameaçar.

Este é o cenário herdado pelo governo de Barack Obama.

Conversar com o Irã não é elementar. É um país com política interna complexa e instável. No livro, Ross sugere uma estratégia ampla para iniciar a conversa. Por certo, um tanto mudou da reeleição de Ahmadinejad para cá. Mas não o principal. Este é um post que fica para amanhã.

We Shall Overcome

28/June/2009 - 00h01 - 335 Comentarios

We shall overcome foi popularizada durante os anos 1950, no movimento dos negros por seus direitos civis, nos EUA. Ela simbolizava a resistência à violência do Estado com paz. É uma letra simples, de olho no futuro: We shall overcome, some day; Oh, deep in my heart, I do believe; We shall overcome, some day.

Nós vamos conseguir, um dia; do fundo do coração, eu acredito que conseguiremos, um dia.

Joan Baez popularizou a música mundialmente, na década de 60. Semana passada, regravou-a.

Em persa.

Qual a estratégia de Obama
para lidar com o terror islâmico

05/June/2009 - 12h02 - 181 Comentarios

Gostei muito de ler as opiniões de vocês a respeito do discurso do presidente norte-americano Barack Obama, no Cairo. Não é a opinião de jornalistas, que tendem a pensar parecido entre si, que importa. É como pensam as pessoas que não são nem políticos, nem jornalistas, nem têm interesses imediatamente ligados à questão que vale.

Tenho um método para ler opiniões. Começo identificando os extremistas, os radicais. Na caixa de comentários abaixo, são os suspeitos de sempre, à esquerda e à direita. Os primeiros em que presto atenção sempre são os radicais. Falaram algo que surpreenda? Quando radicais falam algo que você não espera, preste atenção. Tem uma mudança de rumo aí. A possibilidade de uma nova tendência. Mas os radicais não falaram nada de surpreendente. Radicais não pensam: reagem. Suas idéias já vem empacotadas doutras fontes. Às vezes, alguns radicais podem ser brilhantes nos argumentos. Mas, ainda assim, quase nunca surpreendem. Radicais têm uma visão maniqueísta do mundo. Sabem que estão certos, não têm dúvidas. Sabem quais são as soluções do mundo e identificam muito rápido vilões absolutos.

Conviver com certezas por certo deve ser agradável. Não é uma bênção que a maioria de nós têm. Temos que lidar com o mundo do jeito que ele veio.

Não sei se o discurso de Barack Obama vai dar certo. O tempo é que dirá e qualquer pesquisa ou comentário que venha nas próximas semanas será apenas especulação. Isso não quer dizer que não exista nada a ser dito a respeito do discurso: é possível revelar suas intenções.

Obama é o político que reinventou a arte do discurso no Ocidente. A habilidade de políticos era medida por sua capacidade oratória até o fim da era do rádio. A televisão mudou essa linguagem, exigindo frases cada vez mais curtas. O grande talento para um político passou a ser a capacidade de emanar empatia pela tela da tevê.

Com seu discurso sobre relações raciais nos EUA, durante as primárias do Partido Democrata no ano passado, Obama mudou o jogo. O YouTube reinventou o rádio de certa forma: ao longo dos dias seguintes ao discurso, cada qual em seu tempo, os eleitores norte-americanos foram à Internet ouvir os quase 50 minutos daquele discurso de Obama com calma. Em geral, diz-se que a Internet acelera o tempo. Nem sempre. Às vezes, faz o oposto. Dá tempo para que uma mensagem um pouco mais complexa do que permitem os 30 segundos de tevê tenha chance de reverberar.

O que o presidente dos EUA tentou fazer ontem, no Cairo, é repetir o fenômeno do discurso sobre raça. A dúvida é o filtro cultural: do outro lado não estão norte-americanos, nem gente que foi educada num ambiente de cultura européia.

Ainda assim, ele conta com a Internet para que milhões de pessoas em todo o mundo muçulmano o ouçam ao longo dos próximos dias e semanas. Foi, como no caso do race speech, um discurso longo. Seu alvo são jovens. Jovens, afinal, são os que têm acesso à Internet. E, não custa lembrar, é via Internet que a al-Qaeda distribui seu material inflamatório. É via Internet, com discursos gravados em áudio e em vídeo, que a al-Qaeda seduz mentes. É neste mercado que Obama decidiu entrar. Sua aposta é de que conseguirá plantar um dúvida na mente de incontáveis jovens muçulmanos de 13, 16 ou 19 anos. Ele só precisa disso: plantar a dúvida.

Radicais têm certezas, afinal. Se jovens o suficiente vacilarem na hora de se abraçar a uma bomba que levará suas vidas, a política no Oriente Médio caminha três ou quatro passos à frente. Se dará certo? Não depende apenas do discurso. O discurso desarma. Se der certo, ele faz com que seu público alvo cogite a possibilidade de que os EUA – e o ocidente – não sejam vilões absolutos.

Não basta que cogitem, tem que se convencer. A maneira como a política externa dos EUA é percebida também terá que mudar. O discurso de ontem faz parte da nova estratégia norte-americana. É uma estratégia ousada, e vai ser fácil bater nela se não der certo.

O mundo é assim mesmo: fazer com que as coisas funcionem é difícil. Bom mesmo é ser radical. Certezas sem obrigação de resolver problemas está entre as posições mais confortáveis que podem haver. Mas não deixa de ser engraçado quando gente que olha para o mundo e só vê pretos e brancos, nenhum cinza, chama os outros de ingênuo.

Obama no Cairo

04/June/2009 - 13h44 - 141 Comentarios

Barack Obama fez, hoje, o discurso mais importante desde que assumiu a presidência dos EUA.

Interessante será acompanhar a repercussão – e a partir dela escrevo mais.

Tenho a impressão de que foi a primeira vez na qual um presidente dos EUA reconheceu em público que seu país participou do golpe que derrubou um governo democrático no Irã, em 1953.

Cuba bem-vinda na OEA

03/June/2009 - 19h17 - 67 Comentarios

Os chanceleres reunidos na OEA votaram, hoje, pelo reestabelecimento da presença de Cuba na organização. Há duas condições: que Cuba peça para retornar e que concorde com as exigências relativas a direitos humanos da organização.

É uma derrota diplomática dos EUA e mostra de que a Organização dos Estados Americanos não é uma entidade subordinada aos interesses norte-americanos. A decisão também desmente uma das premissas de meu post anterior: a diplomacia latino-americana não estava testando o nível de cooperação dos EUA de Obama. Foram em frente e votaram.

Cuba ainda não se manifestou.

Cuba, a OEA e a pressão sobre os EUA

03/June/2009 - 11h58 - 64 Comentarios

Atualização – Cuba foi reincluída na OEA, o post acima trata disso.

Se trazer Cuba de volta à OEA (Organização dos Estados Americanos) fosse realmente a intenção dos líderes da América Latina, a decisão teria sido tomada ontem. Todos os países latinos do continente são favoráveis, do outro lado apenas EUA e Canadá. Reincorporar Cuba não era a intenção. Há votos mais do que suficientes. A intenção era outra: botar os EUA contra a parede.

Conseguiram.

Oficialmente, Cuba afirma que não tem qualquer interesse de participar da OEA. É doce. Sua inclusão no grupo traria uma incrível legitimidade internacional, coisa que o regime precisa.

Mas, na OEA, essa é uma daquelas discussões difíceis na qual ambos os lados têm razão.

Quando Cuba foi excluída, numa reunião no Uruguai, em 1962, a razão oficial declarada foi que ‘a aderência de qualquer membro da OEA ao marxismo-leninismo é incompatível com o sistema interamericano e o alinhamento de qualquer governo com o bloco comunista quebra a unidade e a solidariedade do hemisfério’.

Aos ouvidos contemporâneos, soa como uma razão datada e um tanto autoritária. A orientação ideológica de cada governo cabe a ele decidir. E o mundo já não tem sua geopolítica dividida pela Guerra Fria há quase duas décadas. Quando os ministros das relações exteriores latino-americanos argumentam que as razões não se sustentam mais, eles têm razão.

Mas, pelo lado norte-americano, Hillary Clinton diz que Cuba deveria conduzir sua política de Estado de acordo com as diretrizes da OEA. Ou seja: deveria ser, como os outros países do hemisfério, uma democracia. É evidente que os EUA tem suas próprias neuroses com Cuba. Mas antes de descartar seus argumentos com base nas idiossincrasias de Washington, é bom lembrar que tem gente muito boa de seu lado.

É o caso da ong Human Rights Watch. Poucas entidades são tão confiáveis quanto esta pois poucas são tão imparciais. Batem em todo mundo. Diretor para as Américas da HRW, José Miguel Vivanco lembra que Cuba é o único país da região que ainda faz prisioneiros políticos. Em 2003, 75 jornalistas, lideres sindicais e militantes da causa dos direitos humanos foram presos pelo regime de Fidel Castro; 54 destes permanecem nas prisões de Raúl. Cuba, não custa lembrar, é o único país da região que não realiza eleições. É uma ditadura – ditadura mesmo, sem figura de expressão.

Um argumento contrário é o de que ser ditadura ou não jamais foi problema. Afinal, de 1962 para cá quase todos os membros passaram por regimes fechados sem que isso jamais ofendesse sensibilidades norte-americanas. Historicamente, o argumento é correto. Mas também é correto dizer que, de 1962 para cá, todos os que viveram períodos de interrupção de suas democracias já resolveram o problema. Não é o caso cubano.

A OEA é um organismo de cooperação diplomática que ajuda um quê na negociação comercial entre seus membros mas, principalmente, serve de sistema jurídico internacional, uma última instância à qual recorrer para questões, justamente, como as de direitos humanos. É à OEA, por exemplo, que as famílias das vítimas da tortura no Brasil pretendem recorrer para questionar a legalidade internacional da Lei da Anistia brasileira.

Há dois grupos distintos entre as nações latino-americanas que pretendem trazer Cuba de volta ao grupo. Um, composto por Venezuela e Nicarágua, é movido por um intenso sentimento pró-Cuba e anti-EUA. Não se trata de política sofisticada. Outro, que reúne a maioria dos países, vê três pontos. O primeiro é que o argumento para excluir Cuba, em 62, não faz mais sentido; o segundo é que a fricção das relações entre EUA e Cuba são ditadas mais por uma certa histeria do que por pragmatismo diplomático. O terceiro e mais importante é que, trazendo Cuba de volta à OEA, haverá um instrumento para cobrar de Cuba o tipo de respeito aos direitos humanos e à liberdade que o regime, hoje, nega a seus cidadãos.

Os EUA não questionam o primeiro motivo e, nos bastidores, tampouco discutem o segundo. Há mais gente no governo Obama convencida de que a política para com Cuba é irracional do que jamais houve em qualquer governo norte-americano desde a descida da Sierra Maestra. (Cuba mexe com irracionalidades do outro lado, também.)

O que Washington considera irreal é o terceiro argumento. Em 2007, Cuba aderiu formalmente ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. Não fez qualquer diferença. A ilha continua negando a entrada de inspetores da ONU que gostariam de conferir pessoalmente a situação dos direitos humanos no país. Estas são visitas rotineiras – o Brasil as recebe toda hora, e sempre leva uma surra no relatório final. A readmissão em troco de nada por parte da OEA seria premiar Cuba sem conseguir qualquer contrapartida.

É mais provável que os diplomatas de Hillary Clinton tenham razão do que o contrário. Mas existe um outro jogo, paralelo, sendo jogado – e este nada tem a ver com Cuba. Barack Obama foi eleito dizendo que tocaria um governo sensível à voz de outras nações.

Se quisessem ter incluído Cuba na OEA, os chanceleres das Américas o teriam feito. Mas passaram os últimos dias fazendo algo diferente: seu objetivo primordial era testar a nova diplomacia norte-americana.

Coréia do Norte, ninguém de olho nos EUA

29/May/2009 - 09h21 - 89 Comentarios

Informação interessante: o responsável no momento pela diplomacia dos EUA com a Coréia do Norte é Stephen Bosworth. Não é um trabalho ao qual dedica todo seu tempo. Bosworth é também reitor da Fletcher School of Law and Diplomacy, em Boston.

um motivo por não haver alguém inteiramente dedicado à Coréia do Norte. Em abril, Obama nomeou Kurt Campbell, um ex-oficial da Inteligência da Marinha e diplomata de carreira para o cargo. Mas seu nome ainda não foi aprovado pelo Senado.

Tortura em fotografias, dilema dos EUA

28/May/2009 - 11h11 - 130 Comentarios

Hoje saíram mais alguns detalhes a respeito das fotos de tortura na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, que são mantidas em segredo pelo governo norte-americano. Segundo o general da reserva Antonio Taguba, oficial responsável pela investigação de abusos em 2004 naquela prisão, as imagens contém: um soldado dos EUA estuprando uma prisioneira, um tradutor do Exército dos EUA estuprando um prisioneiro, uma prisioneira sendo despida à força, penetração com objetos como bastões, cabos e um tubo de lâmpada fluorescente.

As fotos não divulgadas de Abu Ghraib fazem parte de um conjunto de 2.000 imagens que o presidente Barck Obama decidiu não tornar públicas. Tratam, todas, de cenas de abusos de prisioneiros tanto no Iraque quanto no Afeganistão, entre 2002 e 2004. Por conta, seu governo vem sendo alvo de pesadas críticas por falta de transparência.

Estas fotografias, todas elas, documentam crimes previstos por lei nos EUA. Todos os oficiais envolvidos nas ações foram ou estão sendo julgados. Onze já foram condenados.

Obama argumenta que os crimes estão sendo punidos. Divulgar imagens tão violentamente explícitas, no entanto, poderia disparar um processo pior do que o dos cartuns dinamarqueses, acirrando ânimos, piorando uma situação já ruim e dificultando a vida dos 200.000 soldados norte-americanos – a maioria não envolvida com tortura – que estão nos dois países.

Não custa lembrar que as vítimas de tortura possivelmente não querem estas imagens públicas.

Jane Mayer, repórter da New Yorker, faz um contraponto: há um poder que as imagens têm que nenhum texto é capaz de simular. Apenas imagens como estas são capazes de expor a população dos EUA – e do mundo – aos horrores praticados nos porões da guerra.

Houve uma virada de mesa nesta questão. Inicialmente, o presidente Obama anunciou que divulgaria as imagens agora em maio. Foi após vê-las e ouvir alertas de cautela por parte dos generais que mudou de ideia.

Existe, no entanto, um processo em curso na Justiça dos EUA que vem sendo vencido instância após instância por quem deseja acesso ao material. O governo pretende recorrer, agora, à Suprema Corte. Possivelmente perderá. Se realmente desejar mantê-las em segredo, só tem uma alternativa: a de baixar uma lei especificamente com este objetivo. Já existe um projeto do tipo no Senado, mas não há movimentação da Casa Branca em seu apoio.

Obama pode estar fazendo um jogo de cena: faz um aceno para os militares porque sabe que as imagens serão tornadas públicas de qualquer jeito. Seu apoio a uma lei para proibi-las deixará clara sua real posição a respeito.

Há uma questão em paralelo que nada tem a ver com as fotografias: é o debate a respeito de waterboarding, simulação de afogamento com uma bacia d’água, que o governo do ex-presidente George W. Bush considerou legal, mas que o novo governo considera uma forma de tortura. De acordo com os detalhes divulgados até agora, as fotografias proibidas nada têm a ver com afogamento simulado. São tortura mesmo – do tipo que nem Dick Cheney tem coragem de defender. (Ao menos, não em público.)

Propaganda à moda Talibã

25/May/2009 - 13h47 - 37 Comentarios

O Council of Foreign Relations tem um novo relatório na praça que mostra que aquele antigo Talibã, meio ignorante das coisas do mundo, circunscrito ao Afeganistão, já não existe mais. O grupo está dando uma surra nos EUA: é capaz de se comunicar melhor, expor seu ponto de vista, dominar a discussão.

Após um ataque norte-americano no Afeganistão ou norte do Paquistão, o Talibã demora menos de meia hora para ter um comunicado oficial sobre número de mortos, feridos e outros detalhes. É a sua versão que chega primeiro à imprensa, e já circula o mundo pela BBC de Londres antes de os EUA terem começado a explorar o tema. Não é só a imprensa em inglês: aquela em Dari e Pashto, as línguas locais, e a em árabe, no Oriente Médio, também pode contar com o Talibã para ter notícias rapidamente. (Imprensa precisa de notícia, algum tipo de notícia, e na pressa, o primeiro a dar informação oficial leva o prêmio. No dia seguinte, nenhum leitor lembra do ’segundo informou o Talibã’, só lembra o número de mortos.)

O grupo opera uma rádio local, distribui centenas de programas para outras rádios, além de fitas cassete, um dos meios típicos aos quais afegãos e paquistaneses do norte, pobres, têm acesso. Para ir além da região, fazem uso da Internet. Nem tudo em sua estratégia é cordial – entregam localmente aquilo que, naquele canto do mundo, chamam de ‘cartas noturnas’, ameaças por escrito depositadas à porta no meio da noite para lembrar quem manda. Os EUA – com um histórico de habilidade em comunicação e propaganda em tempos de guerra – ainda não aprenderam a operar.

Sem justificar seus atos e explicar o que faz, não há chances de vitória neste tipo de guerra.

Obama segundo Obama

20/May/2009 - 05h21 - 71 Comentarios

A Newsweek saiu reformulada, esta semana. Está mais Economist, menos Time. Quer ser uma revista diferente e emula o exemplo de quem aumenta em vendas. Na capa, para marcar que é especial, Obama por Obama, uma entrevista exclusiva com o presidente norte-americano.

O que o senhor aprendeu ao acompanhar o Partido Republicano nos últimos 115 dias?

Aprendi que, assim como o ocorreu com o Partido Democrata após a vitória de Ronald Reagan, o Partido Republicano esteve por um tempo no poder e está com dificuldades de se ajustar ao status de minoritário. Ainda não conseguiram refletir sobre o que ocorreu. No período inicial, muitos insistem em falar apenas à base, ao invés de se dirigir ao povo norte-americano de forma mais ampla. Suspeito que eles vão acabar se ajustando. Tem gente inteligente, lá, e muitos deles podem discordar de mim em determinadas políticas mas, acredito, têm convicções concretas e querem que o país melhore. [...]

Qual sua reação às críticas recentes do ex-vice-presidente Dick Cheney?

Sabe, Dick Cheney tem opiniões fortes a respeito de segurança nacional. Suas idéias foram testadas nos primeiros anos do governo Bush e, na minha opinião, resultaram em decisões ruins. O que considero mais interessante é que Dick Cheney perdeu sua briga interna mesmo dentro do governo Bush.

No início, ele pode ter levado a melhor contra Colin Powell e Condi Rice, mas nos últimos dois ou três anos do governo Bush, os republicanos perceberam que essas técnicas de interrogatório que eles aplicaram desde o início não eram produtivas. Perceberam que nunca conversar com seus inimigos, agir apenas unilateralmente, considerar que segurança nacional é apenas a aplicação de força unilateral não resolve problemas.

O repórter Jon Meacham também descreve como é uma conversa com Obama:

Conversar com Obama é acompanhar uma performance de habilidade psicológica e intelectual. A maioria dos políticos instintivamente tentam desarmar jornalistas fazendo algum tipo de conexão pessoal. Comentam sobre o último artigo do repórter, lembram de algum momento da última vez em que se viram. (Em geral, os comentários são sugeridos por alguém de sua equipe minutos antes da conversa.) Não importa quão conscientes do truque sejamos, o reflexo humano natural é sentir-se bem – ‘talvez ele esteja fingindo com outros, mas acho que ele realmente gostou do meu texto’.

Na experiência que tive, Obama é diferente. Ele não gasta muito tempo com conversa fiada. Não flerta com jornalistas. A conversa é trabalho, tempo é valioso, vamos direto ao ponto. Quando responde perguntas, seu olhar é mais intenso em dois tipos de momento. Quando ele está repetindo pela enésima vez um argumento sobre o qual pensou profundamente. E quando acaba de conseguir refinar um argumento, naquele momento, durante a conversa.

No dia em que a colunista do
New York Times plagiou o blogueiro

18/May/2009 - 15h03 - 28 Comentarios

Maureen Dowd é uma das colunistas mais respeitadas da página de opinião do New York Times – e isso não é pouco. Repórter experiente, responsável.

Mas ontem, em sua coluna, plagiou Josh Marshal, editor do TPM, um dos melhores (se não for o melhor) blogs políticos dos EUA.

Dowd simplesmente copiou e colou o parágrafo em sua coluna dominical. Mudou duas palavras. Só.

Flagrada, pediu desculpas como cabe. Explicou que conversava com uma amiga ao telefone e ela sugeriu um conceito que Mrs. Dowd imediatamente anotou para incluir no texto. O que a explicação não explica é como, de uma conversa ao telefone, veio um parágrafo inteiro, palavra por palavra.

No momento em que a grande imprensa dos EUA tenta explicar por que é melhor do que blogs, pega mal uma das vozes mais importantes do jornal mais importante copiar blogs sem dar crédito. (Blogs muitas vezes copiam sem dar crédito; Josh Marshall sempre diz de onde tirou suas citações.)

Mrs Dowd é experiente. Provavelmente não sabia que estava copiando e colando Marshall. Se o soubesse, não o faria. Seria desmascarada imediatamente, claro. Copiou e colou de algum email e achou que não havia problema. Sempre há.

Quando o NoMínimo era jovem, vivi isso. No Jornal do Brasil, a colunista Márcia Peltier pescou um texto meu, quebrou-o em notas e publicou sem citar a fonte. Ela não sabia que o material vinha do NoMínimo. Recebeu-o por email. Desmascarada, ao invés de pedir desculpas, acusou a mim de ter plagiado outro texto. No tal texto, não havia praticamente nenhuma das informações que eu listara.

A Internet está aí e é tentador copiar e colar. Continua feio. Muito feio.

Meu nariz e Condi Rice no New York Times

18/May/2009 - 01h51 - 39 Comentarios

condi_rice

É uma reportagem sobre as mudanças no jornalismo e os programas das grandes universidades norte-americanas para jornalistas em meio de carreira. (Inclui, neste caso, a Knight Fellowship, cá de Stanford.)

A foto com a ex-secretária de Estado de George W. Bush foi tirada em março, quando Ms Rice sentou-se conosco para uma longa conversa. Não a citei cá no Weblog por um motivo simples: estas conversas são em off. O que lá é dito serve para que compreendamos um pouco melhor o mundo, uma oportunidade para conversarmos francamente com quem esteve no poder e ouvir aquilo que, em geral, não dizem a jornalistas.

Muito do que ouço acaba fluindo para os posts por aqui – embora nem sempre creditado.