Myth, Illusions and Peace – Mitos, Ilusões e Paz – é o livro recém-lançado, nos EUA, de Dennis Ross, o diplomata encarregado no governo Obama de negociar com o Irã. O volume trata de todo o Oriente Médio mas, neste momento de crise, não custa focar nos capítulos a respeito do Irã.
É disto que este post trata: um resumo de como Ross vê o país e a diplomacia recente com ele. Amanhã, no segundo e último post da série, sua fórmula para negociar com os iranianos. Não custa lembrar: é a visão e a opinião do homem cujo escritório fica ao lado do de Obama na Casa Branca. Irã é assunto que pertence a ele.
Dentro do Oriente Médio, o Irã é visto como um país particularmente agressivo. Seu governo declara ter por objetivo exportar sua Revolução Islâmica e se pautar pela ’solidariedade muçulmana’. Ativamente, interfere internamente em três países. O Iraque, onde financia e treina milícias xiitas, o Líbano, onde financia e treina o Hizbolá, e os territórios palestinos, onde financia o Hamas. Nos três casos, o Irã sustenta exércitos paralelos àquele controlado pelo Estado.
O Irã segue a vertente xiita do Islã. Os países árabes, em sua maioria sunitas, não compram a história de ’solidariedade muçulmana’. Um diplomata árabe consultado por Ross descreveu o Irã como uma máfia: oferece proteção, quem não paga de alguma forma, sofre. E o governo do Irã é solidário apenas quando convém. Em casos como a Chechênia invadida pelos russos e literalmente posta abaixo, Teerã ficou calada. Acontece que os russos, assim como os chineses, são aliados. Por motivos semelhantes, já se manfiestou num conflito armado contra o Azerbaijão, onde a maioria da população é xiita.
Boa parte da Europa ocidental consome petróleo e gás iranianos. Eles até impõem algumas sanções, mas há limites para o que conseguem fazer. O governo dos EUA não faz negócios com quaisquer empresas que façam negócios com Teerã, o que é razoavelmente eficaz. Mas China e Rússia têm acordos comerciais com o Irã e, mais importante, fazem transferência de tecnologia petroleira. Nenhum jogo de pressão dará certo se os dois não forem incluídos.
Existem dois objetivos principais em uma negociação com o país. O primeiro é o de evitar que ele consiga armamento nuclear. O Irã não opera como o bloco comunista operava. A garantia de mútua destruição forçou que a Guerra Fria jamais esquentasse. Sempre que havia uma crise, Washington e Moscou tinham uma linha direta que permitia comunicação entre os altos níveis de governo. EUA e União Soviética se compreendiam. Não é o caso aqui.
Num governo movido por uma religião messiânica e disposta ao martírio, como é o caso do islamismo xiita, em que o presidente Mahmoud Ahmadinejad não cansa de declarar que o Imame Desaparecido está para retornar à Terra, as motivações podem ser diferentes. Israel é um país pequeno. Vários de seus mísseis não destruiriam o Irã por completo; poucos mísseis transformam Israel em terra arrasada.
Um ataque real não é o único medo. O Irã não é o único país do Oriente Médio com ambições de controle regional. A Arábia Saudita também é. Se o Irã subir o degrau nuclear, os sauditas poderão se ver obrigados a fazer o mesmo. No seu caso, eles sequer precisam desenvolver a tecnologia, o que demoraria alguns anos. Um acordo com o governo paquistanês para a transferência de alguns mísseis apontados para Teerã é viável. A Arábia Saudita, não custa lembrar, é o berço da al-Qaeda e radicais é o que não faltam no país. Além disso, se os sauditas tiverem seus nukes, os egípcios se verão motivados a seguir o mesmo caminho. Eles não poderiam deixar a Arábia Saudita ser o único país árabe com esse tipo de armamento.
Então há dois objetivos numa conversa com o Irã: evitar uma corrida armamentista em uma das regiões mais instáveis do mundo e fazer com que o país pare de financiar e treinar grupos que colaboram para a instabilidade interna da região.
O governo de George W. Bush, na leitura de Ross, cometeu uma série de erros políticos dentro e fora dos EUA com os quais é possível aprender. O primeiro foi não ter aproveitado o momento após a invasão do Iraque.
Quando o governo de Saddam Hussein caiu em duas semanas, Teerã levou um susto. Afinal, a guerra entre Irã e Iraque levou vários anos e o país não foi capaz de derrotar Saddam. A demonstração de poderio militar norte-americana não foi apenas convincente. Foi aterradora. De presto, via a Embaixada Suíça, o aiatolá Khamenei fez passar a Washington um apelo por diálogo e uma proposta de pauta escrita por seu embaixador na França. Queriam ir à mesa. A pauta incluía todas as garantias que os EUA pudessem querer, incluindo inspeções amplas, de que o país não buscaria armas de destruição em massa. A reação da Casa Branca foi a de repreender o embaixador por ter se excedido em suas prerrogativas. Khamenei ficou sem resposta.
Durante os anos seguintes, três questões fizeram o Irã mudar de opinião a respeito dos EUA. A primeira foi a total falta de controle no Iraque. Ficou evidente que Washington não sabia o que estava fazendo, o que afastou o risco real de uma invasão ao Irã. A segunda foi o excesso de ameaças. O governo Bush fez vários ultimatos contra o Irã, advertindo para as consequências de descumprir esta ou aquela resolução. Teerã fez o que quis e as consequências foram ralas. Por último, houve o relatório da inteligência norte-americana publicado em 3 de dezembro de 2007.
Segundo a versão pública do relatório, o Irã havia interrompido seu programa de armamentos nucleares em 2003. O documento de fato tinha muito mais nuances e dúvidas, mas foi apresentado à imprensa ressaltando a interrupção. Resultado: dia de festa em Teerã, a Europa afrouxou, os vizinhos relaxaram, Rússia e China que já não ligavam muito ganharam uma desculpa.
As agências de inteligência fizeram de propósito – e, aí, o que pegou foi a política interna. A Casa Branca deturpou o que lhe informaram CIA e outras para entrar no Iraque. Perante o desastre, a culpa sobrou para os espiões. Não queriam ser responsabilizados por outro desastre. Jogando na defensiva, bloquearam a diplomacia do governo ressaltando a parte amena do relatório. Desde então, o governo iraniano aumentou o tom de voz e os EUA ficaram sem espaço para ameaçar.
Este é o cenário herdado pelo governo de Barack Obama.
Conversar com o Irã não é elementar. É um país com política interna complexa e instável. No livro, Ross sugere uma estratégia ampla para iniciar a conversa. Por certo, um tanto mudou da reeleição de Ahmadinejad para cá. Mas não o principal. Este é um post que fica para amanhã.