Qual a estratégia de Obama
para lidar com o terror islâmico

05/June/2009 - 12h02 - 181 Comentarios

Gostei muito de ler as opiniões de vocês a respeito do discurso do presidente norte-americano Barack Obama, no Cairo. Não é a opinião de jornalistas, que tendem a pensar parecido entre si, que importa. É como pensam as pessoas que não são nem políticos, nem jornalistas, nem têm interesses imediatamente ligados à questão que vale.

Tenho um método para ler opiniões. Começo identificando os extremistas, os radicais. Na caixa de comentários abaixo, são os suspeitos de sempre, à esquerda e à direita. Os primeiros em que presto atenção sempre são os radicais. Falaram algo que surpreenda? Quando radicais falam algo que você não espera, preste atenção. Tem uma mudança de rumo aí. A possibilidade de uma nova tendência. Mas os radicais não falaram nada de surpreendente. Radicais não pensam: reagem. Suas idéias já vem empacotadas doutras fontes. Às vezes, alguns radicais podem ser brilhantes nos argumentos. Mas, ainda assim, quase nunca surpreendem. Radicais têm uma visão maniqueísta do mundo. Sabem que estão certos, não têm dúvidas. Sabem quais são as soluções do mundo e identificam muito rápido vilões absolutos.

Conviver com certezas por certo deve ser agradável. Não é uma bênção que a maioria de nós têm. Temos que lidar com o mundo do jeito que ele veio.

Não sei se o discurso de Barack Obama vai dar certo. O tempo é que dirá e qualquer pesquisa ou comentário que venha nas próximas semanas será apenas especulação. Isso não quer dizer que não exista nada a ser dito a respeito do discurso: é possível revelar suas intenções.

Obama é o político que reinventou a arte do discurso no Ocidente. A habilidade de políticos era medida por sua capacidade oratória até o fim da era do rádio. A televisão mudou essa linguagem, exigindo frases cada vez mais curtas. O grande talento para um político passou a ser a capacidade de emanar empatia pela tela da tevê.

Com seu discurso sobre relações raciais nos EUA, durante as primárias do Partido Democrata no ano passado, Obama mudou o jogo. O YouTube reinventou o rádio de certa forma: ao longo dos dias seguintes ao discurso, cada qual em seu tempo, os eleitores norte-americanos foram à Internet ouvir os quase 50 minutos daquele discurso de Obama com calma. Em geral, diz-se que a Internet acelera o tempo. Nem sempre. Às vezes, faz o oposto. Dá tempo para que uma mensagem um pouco mais complexa do que permitem os 30 segundos de tevê tenha chance de reverberar.

O que o presidente dos EUA tentou fazer ontem, no Cairo, é repetir o fenômeno do discurso sobre raça. A dúvida é o filtro cultural: do outro lado não estão norte-americanos, nem gente que foi educada num ambiente de cultura européia.

Ainda assim, ele conta com a Internet para que milhões de pessoas em todo o mundo muçulmano o ouçam ao longo dos próximos dias e semanas. Foi, como no caso do race speech, um discurso longo. Seu alvo são jovens. Jovens, afinal, são os que têm acesso à Internet. E, não custa lembrar, é via Internet que a al-Qaeda distribui seu material inflamatório. É via Internet, com discursos gravados em áudio e em vídeo, que a al-Qaeda seduz mentes. É neste mercado que Obama decidiu entrar. Sua aposta é de que conseguirá plantar um dúvida na mente de incontáveis jovens muçulmanos de 13, 16 ou 19 anos. Ele só precisa disso: plantar a dúvida.

Radicais têm certezas, afinal. Se jovens o suficiente vacilarem na hora de se abraçar a uma bomba que levará suas vidas, a política no Oriente Médio caminha três ou quatro passos à frente. Se dará certo? Não depende apenas do discurso. O discurso desarma. Se der certo, ele faz com que seu público alvo cogite a possibilidade de que os EUA – e o ocidente – não sejam vilões absolutos.

Não basta que cogitem, tem que se convencer. A maneira como a política externa dos EUA é percebida também terá que mudar. O discurso de ontem faz parte da nova estratégia norte-americana. É uma estratégia ousada, e vai ser fácil bater nela se não der certo.

O mundo é assim mesmo: fazer com que as coisas funcionem é difícil. Bom mesmo é ser radical. Certezas sem obrigação de resolver problemas está entre as posições mais confortáveis que podem haver. Mas não deixa de ser engraçado quando gente que olha para o mundo e só vê pretos e brancos, nenhum cinza, chama os outros de ingênuo.

Obama no Cairo

04/June/2009 - 13h44 - 141 Comentarios

Barack Obama fez, hoje, o discurso mais importante desde que assumiu a presidência dos EUA.

Interessante será acompanhar a repercussão – e a partir dela escrevo mais.

Tenho a impressão de que foi a primeira vez na qual um presidente dos EUA reconheceu em público que seu país participou do golpe que derrubou um governo democrático no Irã, em 1953.

Top-10 dos ditadores

26/May/2009 - 15h54 - 179 Comentarios

A revista norte-americana Parade organiza todos os anos o ranking dos piores ditadores do mundo. Na lista de 2009, Robert Mugabe, do Zimbábue, está em primeiro. O que lhe garante a posição é um país com desemprego em 85% e a pior inflação do mundo. Mais de 5.000 opositores apanharam ou foram torturados em prisões nos últimos tempos. 3.800 cidadãos morreram de cólera desde agosto passado.

Em segundo na lista da Parade encontra-se Omar al-Bashir, do Sudão. A África tem quatro ditadores no top 10. A lista segue:

3. Kim Jong-Il, Coréia do Norte
4. Than Shwe, Mianmar
5. Rei Abdullah, Arábia Saudita
6. Hu Jintao, China
7. Sayyid Ali Khamenei, Irã
8. Isayas Afewerki, Eritréia
9. Gurbanguly Berdymuhammedov, Turcomenistão
10. Muammar al-Kadafi, Líbia

Após os 10 mais, a Parade segue (todos os anos) com outros dez que levam a menção desonrosa. Agora, em 2009, pela primeira vez Islam Karimov do Uzbequistão não aparece na lista principal – caiu para 11o. Em 12o e 13o estão os conhecidos Bashar al-Assad, Síria, e Raúl Castro, Cuba.

Ser ditador independe de importância geopolítica – a China, afinal, é importante pacas, e a Eritréia, coitada, irrelevante. Independe de ideologia. Independe de amizades – os carinhos norte-americanos em direção aos Sauds sauditas, que governam o país que levou seu nome são evidentes; o estresse com Cuba e Irã, idem.

Hugo Chávez* sequer aparece.

*: Sim, já chamei Chávez de ditador. Mas, não, não acho que Hugo Chávez seja um ditador – não como os desta lista, com D maiúsculo. Há muitos tons de cinza no mundo. Chávez governa uma democracia que não pode ser considerada democracia plena, porque na Venezuela não há independência dos três poderes. Essa é uma discussão que já tivemos por aqui. Citá-lo no post foi uma provocação com quem chama Chávez de ditador com muita facilidade

O mistério de Nefertiti

25/May/2009 - 14h22 - 35 Comentarios

nefertiti

O busto de Nefertiti é talvez a mais bela peça que sobreviveu aos tempos desde o Antigo Egito. Ou talvez não seja – é o que diz o historiador Henri Stierlin.

A teoria de Stierlin é de que o busto foi feito pela equipe do arqueólogo Ludwig Borchardt para testar técnicas e pigmentos utilizados à época. Um equívoco teria transformado a peça de estudo em ‘antiguidade’. Um dia, o duque Johann Georg visitava as escavações, mirou o busto e se encantou. Ciente de que precisava de dinheiro e sem querer expor a uma vergonha o visitante ilustre, o arqueólogo calou-se.

A polêmica está aberta. Como é quase toda mineral, Nefertiti não pode ser datada por carbono 14.

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05/March/2009 - 02h24 - 490 Comentarios

A moça se chama Mayra Andrade, é do Cabo Verde. O Amílcar Tavares me recomendou ainda os artistas: Lura, Tcheka, Sara Tavares, Princezito e Mário Lúcio. Vou deixar à turma dos links que garimpem exemplos ;-)

A crise na Guiné-Bissau tal qual vista
pelos olhos de quem é de perto

04/March/2009 - 11h27 - 39 Comentarios

Convidei o Amílcar Tavares, blogueiro do Cabo Verde, a nos explicar a crise do país vizinho, Guiné-Bissau. Muito gentilmente, Amílcar enviou este artigo. Há muito mais informação em seu blog.

A situação atual da Guiné-Bissau resume-se a dois inimigos de longa data e os dois homens mais poderosos da Guiné-Bissau. João Bernardo ‘Nino’ Vieira, de etnia papel, e Tagme Na Waie, de etnia balanta (maioritárias nas Forças Armadas guineenses).

Nino foi morto à catanada e tiros na madrugada de 2 de Março de 2009, algumas horas depois do Chefe do Estado-maior, o general Tagme Na Waie ter morrido numa explosão. Alegadamente, soldados leais ao general acusaram Nino pelo assassinato e vingaram-se.

A África Ocidental tornou-se num importante ponto de passagem da cocaína da América Latina para a Europa, um negócio que vale quase dois mil milhões de dólares segundo a ONU, e a fragilidade de um país ingovernado como a Guiné-Bissau é terreno fértil para os traficantes. Os interesses à volta do tráfico podem ter agravado as tensões entre os dois falecidos.

Apesar da calma no país, não se conhece em detalhe os pormenores do enredo, pois as pessoas têm medo de falar abertamente sobre o assunto.

A história da Guiné-Bissau está marcada por vários golpes e contra-golpes de Estado. O Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, PAIGC, que lutou contra o colonialismo português governou os dois países até 1980 quando Nino depôs Luís Cabral, irmão de Amílcar Cabral e fundador do partido.

Na guerra civil de 98/99, a Junta Militar de Ansumane Mané exila Nino por seis anos em Portugal e em 2005, à socapa, volta ao país, recensea-se e candidata-se às eleições presidenciais que veio a ganhar. A 23 de Novembro de 2008 sofreu um atentado.

Na sequência da morte de Nino, o Presidente da Assembleia Nacional da Guiné-Bissau, Raimundo Pereira, de acordo com a Constituição da República, é o novo Presidente. A CPLP - Comunidades dos Países de Língua Portuguesa, espera eleições nos próximos seis meses.

Assassinato na Guiné-Bissau

03/March/2009 - 16h26 - 23 Comentarios

O assassinato, ontem, do presidente da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira, vem de uma disputa antiga com o chefe das Forças Armadas Batista Tagme Na Waie. Tagme Na Waie foi assassinado por uma bomba em seu carro, no domingo, o exército avançou sobre a casa de Vieira na segunda, bombardeou-a, metralhou o presidente e cortou seu corpo em múltiplos pedaços.

Crime sangrento.

Na Guiné-Bissau se fala português. O presidente do Parlamento, Raimundo Pereira, já assumiu o governo como manda a Constituição e o Exército afirma que a morte do presidente não é um Golpe de Estado. Era pessoal. (A morte de um Chefe de Estado é um Golpe de Estado, mesmo que o assassino não assuma o poder. Mas, frente a barbárie, detalhes são detalhes.)

Os países da África Sub-Saariana passaram o período entre os anos 50 e 70 dedicados às suas lutas pela independência. As últimas três décadas, no entanto, foram perdidas por experiências várias de ditaduras e conflitos internos. A história da Guiné-Bissau não é diferente. Vieira governou o país por 22 dos últimos 29 anos. Esteve exilado, envolvido em guerra civil. Como em muitos dos países da África, a etnia à qual ele pertencia faz diferença. João Bernardo Vieira era um pepel. Batista Tagme Na Waie era Balante.

Os Balantes formam 30% da população, os Pepel são 7%. Outras três etnias são mais representativas do país do que os Pepel. (Não encontrei a etnia à qual pertence Raimundo Pereira – se alguém descobrir, avise. É informação importante para compreender o que acontece.)

Da África Portuguesa, Guiné-Bissau é um dos países mais pobres. É para lá que vai boa parte da cocaína que deixa a América Latina com destino à Europa. E a Europa é o mercado em que mais cresce em consumo de cocaína. O tráfico depende de instabilidade política e, preferencialmente, de muita corrupção.

As ruas estão calmas, informa a BBC.

Minha pátria é a língua portuguesa

13/December/2008 - 01h10 - 50 Comentarios

Já que alguns demonstraram surpresa com música em português d’além mar, aqui posto uma dúvida. Quem terá melhor voz? Cristina Branco, Lúcia Moniz (portuguesas) ou Sara Tavares (caboverdeana)?

E qual será mais bela?

(Por incrível que talvez pareça, também se canta, e um bocado, com outros sotaques. E é uma pena que o repertório da moça Lúcia Moniz não faça justiça a sua voz e beleza.)

Um quarto do mundo passa fome

27/August/2008 - 13h13 - 33 Comentarios

A linha da pobreza atual é de 1,25 dólares ao dia. Abaixo disso está a miséria humana.

Nas contas do Banco Mundial: 1,4 bilhão de pessoas. Em 1981, eram 1,9 bilhão. Somos 6,7 bilhões de pessoas. Em 81, éramos 4,4 bilhões. A miséria, portando, afetava quase metade da população, hoje afeta um quarto.

Mudou por causa da China: lá, havia mais de 800 milhões de miseráveis, hoje são 207 milhões. No resto do mundo, em termos percentuais, tudo se manteve mais ou menos igual. Na África, metade da população vive abaixo da linha de pobreza. A China é o único país que enfrentou de fato o problema.

E é um erro levar esta conta ao pé da letra acreditando que a escala é evolutiva. O Banco Mundial é conservador, a ong Oxfam não é: a inflação de alimentos, segundo ela, pode jogar até 500 milhões de pessoas entre África e Sudeste Asiático para baixo novamente.

via Foreign Policy

Derrubado o governo da Mauritânia

06/August/2008 - 16h35 - 24 Comentarios

Devemos um bocado à Mauritânia, país que hoje deixou a lista dos regimes democráticos para se juntar à das ditaduras. Encravado entre a África árabe e a sub-saariana, é de lá que saiu a dinastia Almorávida, que dominou um bom naco da Espanha e de Portugal. A eles devemos nosso alface, nossos alcaides, a beleza de Alhambra e a tecnologia naval de astrolábios e cartas astronômicas que permitiram o descobrimento do Brasil.

Colônia francesa durante um bom naco do século 20, ganhou a independência em 1960. Foi governada por um militar golpista após o outro. O último golpe aconteceu em agosto de 2005, há exatos três anos. O presidente que assumiu impôs um governo de transição garantindo democracia. Cumpriu a promessa. Em março de 2007, o povo elegeu seu presidente, Sidi Ould Cheikh Abdallahi.

O décimo primeiro golpe militar da história do país começou na manhã de hoje, quando os soldados invadiram o palácio presidencial e prenderam Abdallahi. O presidente havia demitido os quatro principais generais no início da semana. O chefe da Guarda Presidencial, general Mohamed Ould Abdelaziz, assumiu o poder.

Mesmo o Partido Islâmico, de oposição ao governo, criticou o golpe. Mas a situação está em suspenso. A República Islâmica da Mauritânia é um dos raros países muçulmanos que reconhecem o Estado de Israel.

O mundo em busca de reformas

06/July/2008 - 12h05 - 57 Comentarios

Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.

E o planeta não poderia estar mais diferente.

Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.

As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:

Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.

A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.

Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.

Robert Mugabe, sua anistia
e o exemplo de Charles Taylor

30/June/2008 - 15h03 - 28 Comentarios

Charles Taylor, ex-ditador da Libéria, tem um passado e tanto. Pesam sobre ele acusações que vão do recrutamento de crianças como soldados, estupros coletivos, massacres, em seu país natal e na vizinha Serra Leoa. Extremamente impopular, num cenário internacional desfavorável, Taylor foi levado à renúncia em agosto de 2003. À época, quem negociou sua saída foi Olusegun Obasanjo, então presidente da Nigéria, que ofereceu exílio em troca de ele abandonar qualquer envolvimento político com a Libéria.

Taylor foi colocado na lista dos mais procurados da Interpol mas, a princípio, a Nigéria se recusou a deportá-lo. Em março de 2006, a presidente eleita da Libéria Ellen Johnson-Sirleaf pediu ao país vizinho que entregasse o ex-ditador para ser julgado por crimes contra a humanidade. Contava também com a pressão dos EUA. Taylor tentou fugir, mas foi recapturado e extraditado. Hoje está em Haia, na Holanda, onde responde a um processo perante a Corte Penal Internacional.

Seu julgamento é considerado uma vitória para a idéia da Corte Penal Internacional.

Mas talvez tenha sido uma péssima idéia, sugere o editor de Internacional do Financial Times, Gideon Rachman. (O talvez aqui é importante; Rachman não tem opinião formada.)

Taylor renunciou quando o clima já lhe era desfavorável porque tinha a promessa de um exílio e anistia. Anistias sempre foram oferecidas a ditadores em casos parecidos. São uma maneira de acelerar o fim de um governo insuportável e evitar o derramamento de sangue. Mas veja-se o caso de Robert Mugabe, no Zimbábue. Por que ele renunciaria? Não tem qualquer motivo. Sabe que, mesmo que lhe ofereçam uma anistia, ela não valerá nada e, fatalmente, ele passará o resto da vida perante um juiz em A Haia.

Sua única opção é se manter no poder enquanto conseguir. E não importa quanto sangue derrame no meio tempo.

É um dilema que a Corte Penal Internacional impõe. Se por um lado é certo que todos os responsáveis por crimes contra a humanidade sejam trazidos à Justiça, por outro sua existência faz com que nenhum responsável por crimes contra a humanidade queira deixar o poder enquanto puder mantê-lo.

O pobre Zimbábue nas mãos de Robert Mugabe

24/June/2008 - 11h02 - 68 Comentarios

A primeira vista, pode não parecer muito. Mas tem muito significado o fato de que o Conselho de Segurança da ONU condenou as eleições de segundo turno que acontecerão no Zimbábue, sexta-feira. Quer dizer que, desta vez, o embaixador da África do Sul, que tem assento no Conselho, não impôs seu veto para bloquear a votação. Como a condenação foi unânime, quer dizer que a África do Sul votou contra o governo de Robert Mugabe.

Ou seja, Thabo Mbeki, o presidente da África do Sul, retirou seu apoio tácito a Mugabe.

Que ninguém tenha dúvidas: Mugabe é um bárbaro. Fiscais eleitorais do candidato da oposição, Morgan Tsvangirai, foram assassinados. Outros tantos apanharam. Mugabe imaginou que venceria o primeiro turno eleitoral só pelo medo que inspira. Confiante, permitiu que cada zona eleitoral afixasse os resultados conforme ia apurando-os. Quando a vitória de Tsvangirai ficou evidente, já era tarde. Aí virou a eleição na marra, fraudando. Agora, explica a quem perguntar que só Deus o tira do governo. É no mínimo razoável concordar com o CS da ONU: não dá para esperar uma eleição limpa.

Mugabe contava com o apoio de todos os governantes seus vizinhos – principalmente o mais poderoso deles, Thabo Mbeki. Para o mundo, ele é um bárbaro. Para os principais líderes africanos, é diferente. Mugabe, do seu ponto de vista, é o último líder da geração que derrubou os poderes imperiais europeus. É um sobrevivente. Ditador carniceiro, por certo. Mas a barbárie faz parte do cotidiano africano há muitos séculos. Há um choque geracional. Os velhos líderes olham com respeito para a história de Mugabe. Os jovens olham-no com horror. Querem uma África moderna, democrática, parte da comunidade internacional.

Primeiro, foram Zâmbia e Botsuana que renegaram Mugabe. Agora Mbeki está aparentemente cedendo. E também José Eduardo dos Santos, um de seus principais aliados, em Angola. O Zimbabue tem a pior inflação do mundo. Depende dos vizinhos para receber armas e alimentos vindos da China por navio, já que não tem porto. (As armas estavam vindo via Angola.)

A esperança para um Zimbábue livre de Mugabe é que o Conselho de Segurança imponha sanções, os vizinhos as implementem e a pior inflação do mundo resolva o resto. Seria um poder conjunto equivalente à mão de Deus para fazer Robert Mugabe cair.

Racismo na Europa?

23/June/2008 - 08h56 - 120 Comentarios

O último post causou incômodo em alguns.

Então é bom elucidar: nada, nele, é minha opinião. Tudo é reprodução do artigo do professor Feldman. Um trecho entre aspas, outro resumido. A comparação com o arcaísmo católico, por exemplo, é dele. Este argumento, o de que os muçulmanos são os novos judeus da Europa, tampouco é novo.

Pessoalmente, não conheço o velho continente o bastante para afirmar que sim ou que não. Mas, também numa visão pessoal, e sem a ênfase do professor, me incomoda a semelhança entre muito do que se diz hoje sobre islâmicos e do que se disse no passado, sobre judeus. Não é apenas a respeito de muçulmanos. Há um par de anos, ouvi frases sobre ciganos, na França e na Espanha, que, no Brasil ou nos EUA, ninguém diria hoje. Poderia pensar. Mas teria vergonha de dizer. Uma das coisas que mais impressionou na Europa, sempre, foi esta falta de pudores no exercício do preconceito.

Uma das questões não postas em nossa contínua discussão a respeito de Israel e Palestina é que sua situação atual, de disputa de terras, nasceu porque ambos são vítimas da Europa. Os judeus foram expulsos de lá. Não exatamente, alguns dirão. Expulsos, sim. Após séculos de perseguição incrementada para pogroms, aumentada para o Holocausto, se você é um judeu na Europa, em 1948, tudo o que quer é ir embora. Na próxima, a história deixa claro, será você. Ou seus filhos. No mesmo passo, a divisão artificial do Oriente Médio em Estados nacionais, incluindo-se aí a partição entre Israel e Palestina, é fruto do imperialismo europeu. A ascensão do Wahabismo, esta seita fanática e obscurantista do Islã por trás do Talibã e da al-Qaeda, é fruto de uma decisão política européia de aumentar o poder do clã al-Saud, atuais donos de Meca e Medina.

De certa forma, Hitler conseguiu seu intento de limpar a Europa de judeus. Foram-se praticamente todos, para as Américas e para Israel. E o convívio com os muçulmanos é, sim, e num ritmo crescente, o primeiro desafio de grande porte europeu para lidar com uma comunidade diferente.

Poderia ser diferente? Os EUA estão vivendo algo parecido. Não é igual – parecido. No sudoeste norte-americano, de uns quinze, dez anos para cá, o espanhol é língua corrente. Não era assim. Há rádios em espanhol, jornais, revistas, tevês – um império crescente. Norte-americanos criados num mundo branco, anglo-saxão, protestante, já falam – nesta região sudoeste – espanhol como segunda língua. E a grita contra os ‘imigrantes ilegais’ é alta. Claro. Às vezes, escorrega nitidamente para o preconceito. Mas nenhum político fala que os ‘mexicanos têm dificuldades de assimilação’. Seria uma frase racista demais. Eles se assimilam? Nada. Substituem a comida, a língua, mudam a maneira de rezar a fé. (O parco contato que os EUA tinham com o catolicismo era irlandês, italiano e polonês, nada a ver com o mexicano, sincrético que só.) Mexicanos, hispânicos em geral, trazem sua própria cultura. E, quando um político fala que o inglês devia lhes ser imposto, é logo ridicularizado. Eles têm vergonha de parecerem racistas.

Culturas não são assimiladas. São misturadas. É ver a nossa: portuguesa, africana, tupi. Tão misturada que a gente não sabe quando termina uma e começa a outra. Quando um novo povo chega, a cultura local também muda. A julgar pelo tom dos discursos correntes na Europa, ‘eles são bem-vindos desde que virem franceses’. Ou alemães, ingleses, italianos, espanhóis. Não vão virar. Alguém poderia argumentar, ‘mas os mexicanos sempre estiveram do outro lado do Rio Grande.’ Já faziam parte daquele mundo. Bem, é verdade. O Egito também sempre esteve do outro lado do Mediterrâneo. O Marrocos, idem. Sempre cruzou-se o mar de um lado para o outro. E nenhum europeu jamais teve pudores de entrar, conquistar, dominar, levar o que considerava de valor. É fácil ser imperialista durante quatro séculos e, vinte ou trinta anos passados do fim do imperialismo, dizer que não tem compromissos com o passado.

Há uma geração européia que parece querer romper os vínculos com a própria história. Houve o nazismo, agora somos diferentes; houve a religião, agora somos diferentes; houve o imperialismo, agora somos diferentes. Só que história é uma linha contínua: o nazismo deixou conseqüências que vivemos até hoje. As religiões deixam conseqüências visíveis – e enquanto gays não puderem casar livremente, ainda estaremos vivendo uma imposição da Igreja. O imperialismo também deixou vítimas. Nações inteiras. A Europa enriqueceu. O custo de sua própria riqueza foi pago com o futuro de outras nações.

Os bárbaros estão às portas da cidade, reclamavam os romanos. Eles querem usufruir de uma riqueza que seus antepassados construíram.

Ayaan Hirsi Ali, sua fé e sua circuncisão

17/June/2008 - 13h01 - 175 Comentarios

On Faith – Sobre a fé – é uma área especial do site do Washington Post que trata da religião no mundo corrente. A entrevistada atual é Ayaan Hirsi Ali, a feminista de origem somali que está entre as mais proeminentes críticas do Islã. A entrevista é em vídeo. Mas, transcritos, cá vão dois trechos:

Sobre o ateísmo

Houve um dia em que fitei o espelho e me perguntei: ‘você acredita em Deus, agora?’ Maio de 2002. Foi um processo gradual até aquele momento, mas o Onze de Setembro foi o catalisador. Antes disso, todas as idéias dissidentes que eu tinha, eu as guardava com tranca no fundo de minha mente. Nos dez anos anteriores, me considerei muçulmana, mas já não praticava a religião de nenhuma forma.

Com os ataques, me senti desafiada. Não era apenas um desafio de bin Laden ‘venha e se junte a nós’. Ele também dividia o mundo entre crentes e não crentes. Foi assim que fui criada: ou você crê ou você não crê. E tudo em mim, o Satã dentro de mim havia crescido tanto, que percebi: não quero nada com isso.

Há o que Deus quer e o que você quer. Se você faz o que quer e não o que Deus quer que você faça, dizem que é porque Satã está sussurrando em seu ouvido.

Eu quero falar com minha mãe. Ela que não quer falar comigo. Ela teme que queimará no inferno se o fizer. A religião impôs a ela uma escolha cruel: ou ela me abandona, porque me transformei numa apóstata, ou ela queimará no inferno. É algo com o qual todos os muçulmanos temos que lidar, este medo do inferno. Mesmo de pensar, de ter dúvidas, você já está blasfemando.

Sobre a experiência da circuncisão

O sujeito chegou para nos circuncidar a todas. Ele usou uma tesoura, tinha anti-séptico, mas não tinha anestesia. Como um dos objetivos é garantir que você se manterá virgem, o costurar dos lábios é mais importante do que o cortar do clitóris.

Há muitas histórias que contam para explicar o corte. Minha avó acreditava que o clitóris ia crescer e crescer, ficaria pendurado entre suas pernas. Até maior que um pênis. Outra superstição é que, quando o bebê nasce, se o clitóris da mãe não tiver sido cortado pode enforcá-lo. Também há quem diga que o clitóris torna o homem impotente.

A razão mais comum é que, quando a menina entra na adolescência, ela fica excitada sexualmente com facilidade. Como prevenção, cortam o clitóris antes da puberdade.

Não existe um sistema específico para o corte. Depende de quem o faz. Há meninas que morrem porque alguém tenta cortar todo seu clitóris e elas têm uma hemorragia. Mortes também acontecem por causa do instrumento utilizado: tesouras, navalhas, até cacos de vidro.

China, África: parasita, hospedeiro?

10/June/2008 - 14h35 - 30 Comentarios

A edição que está nas bancas dos EUA da revista FastCompany traz uma interessante análise das atividades chinesas na África.

A África Subsaariana vem crescendo 6% ao ano desde 2004 – lideram os países produtores de petróleo e minerais. Não é pouco para um continente considerado perdido até há bem pouco tempo. Este crescimento, com apoio chinês, tem se traduzido em nítida melhoria da infra-estrutura: estradas, eletricidade – e, com elas, hotéis, postos de gasolina, serviços. Negócios. Neste sentido, a China é uma boa influência que traz, para o continente, algo que o imperialismo e o pós-imperialismo ocidental não trouxeram.

Mas há um problema, aí, comum a todo o planeta mas particularmente grave no caso africano. Um bom naco do dinheiro que entra, sai de imediato. Há algo como 500 bilhões de dólares fruto da corrupção governamental em bancos do ocidente. É um dinheiro que, se repatriado, pagava a gigantesca dívida externa.

Governos e empresas no ocidente costumam dizer que não fazem mais negócios com a África porque, afinal, as coisas mudaram e tolerar trabalho infantil, subcondições de emprego e os altos valores em suborno cobrados pelas autoridades não é mais possível. Como a China não está nem aí para este tipo de ética, ela faz negócios com quem estiver disposto a topar suas condições.

É hipócrita o discurso ocidental. Se há 500 bilhões de dólares em dinheiro da corrupção em bancos da Europa e EUA, não há qualquer esforço para investigá-lo. Os EUA são o país que menos coopera com os investigadores africanos que tentam levantar os fundos dos ex-ditadores e seus comparsas. Em segundo lugar, lá está o Reino Unido. Ninguém quer ver centenas de milhões de dólares deixando sua economia repentinamente. Dependendo da quantia – e, no caso da corrupa africana, o porte é grande –, poderia provocar um desequilíbrio no sistema bancário.

Há uma última razão. Acaso uma investigação séria tenha livre espaço para ser realizada, ficará evidente o quanto de cumplicidade houve por parte das instituições financeiras.

A China faz a África crescer, o corrupção suga um naco dos lucros, mas ainda assim os países vão melhorando. O discurso chinês é de um pragmatismo só: transparência e bom governo são bons, mas não são necessários para que haja desenvolvimento. É o contrário. Transparência e bom governo são o resultado do desenvolvimento. É um discurso conveniente.

Esqueçamos o genocídio do Sudão. Os ditadores, a tortura, as guerras civis, os sanguessugas diversos da terra africana. Agora que há uma potência realmente interessada na África, o desenvolvimento virá? De acordo com a FastCompany, não necessariamente. As exportações chinesas esmagaram no nascedouro a indústria de têxteis e calçados em Botsuana, África do Sul, Quênia e Suazilândia. Fizeram o mesmo com a indústria de plásticos da Nigéria. Sem qualquer chance de ver surgir uma indústria produtora de bens os mais básicos, que rumo tomaria o continente para escapar de ser um mero produtor de carvão, petróleo e algum metal? Esta não é, ainda, uma resposta que se possa dar.

Sudão, a pior de todas as tragédias em curso

09/June/2008 - 12h34 - 121 Comentarios

De 2003 para cá, a etnia que domina o governo sudanês matou por volta de 300.000 pessoas de um outro grupo. Uns 2,5 milhões deixaram suas casas em direção a campos de refugiados.

Na última quinta-feira, o promotor argentino Luís Moreno-Ocampo depôs perante o Conselho de Segurança da ONU a respeito do processo que pretende apresentar ao Tribunal Criminal Internacional, com sede em Haia. Ocampo quer indiciar dois homens. O primeiro é Ahmed Haroun, ministro de Questões Humanitárias do país; o segundo, Ali Kushayb, líder da guerrilha árabe Janjaweed, responsável direta pela maior parte dos estupros, tortura e mortes na região de Darfur.

Nada que esteja acontecendo no planeta, neste exato momento, é mais grave do ponto de vista humanitário do que o Sudão. Mesmo se incluirmos na lista as conseqüências dos atos da ditadura de Myanmar, que nega ajuda aos próprios cidadãos após um desastre natural. Mesmo que incluamos o Iraque ou qualquer outro episódio do Oriente Médio.

No entanto, já faz cinco anos, o que se passa é uma certa reação blasé. ‘Horrível aquilo no Sudão, não é?’ E daí para outro assunto.

Por que a esquerda não se esgoela e põe o Sudão no topo de sua lista de prioridades? Cruze os blogs ou revistas de esquerda no mundo e os assuntos são vários, as vítimas do imperialismo muitas, mas para as três milhões de vítimas do governo sudanês não sobra muita compaixão.

Como se a direita fosse inocente – não é. Ninguém cogita uma mudança de regime para o Sudão. Ninguém bate os tambores de guerra ameaçando invasão. Um ou outro reclama que a China emperra o assunto no Conselho de Segurança da ONU – o que é verdade. Mas nem EUA, nem França, nem Reino Unido, rigorosamente ninguém acha que o assunto vale uma pesada pressão diplomática. Acaso fosse prioridade, dobrava-se a China. Ou partia-se para a ação sem o aval da ONU. Não seria inédito.

Os únicos realmente preocupados com o Sudão são burocratas e tecnocratas da ONU e de uma meia dúzia de ONGs.

Por quê? Vivemos um período moralista. Esquerda e direita têm, ambas, um discurso de o que é o certo e o que é o errado no mundo assim, na ponta da língua, e todos são rápidos em apontar o dedo para o lado contrário. E, no entanto, perante a pior coisa que ocorre no planeta Terra, só frieza.

O que isso diz a nosso respeito? E faço a pergunta com franqueza: a última vez que o Sudão foi mencionado no Weblog foi em 5 de fevereiro passado. E o país não era o assunto principal do post.

É uma região tão perigosa que poucos jornalistas se arriscam por lá. Este é um dos motivos que justificam a falta de noticiário direto. Mas não basta. Será racismo? Será algum tipo de desistência coletiva a respeito da África Subsaariana?

Talvez seja mais do que isso. Os vilões desta história são ‘árabes’, mas isso é como se apresentam. São negros. As vítimas, também. Os vilões são muçulmanos. Mas as vítimas, também. Há petróleo na região de Darfur, claro. Só que nenhuma superpotência está tentando arrancar o petróleo a fórceps fingindo boas intenções.

O que acontece no Sudão é muito mais simples: é o mal em ação. Somos todos, à direita e à esquerda, pragmáticos. Não atribuímos o ‘mal’ aos outros. Desenvolvemos teorias complexas (ou nem tanto) a respeito de como o mundo funciona e tudo trata de intenções e interesses. Como intenções e interesses são difíceis de atribuir no caso sudanês, o que nos sobra para nossa verborragia política? Nenhuma de nossas teorias geopolíticas têm uma explicação para o Mal. O Mal, neste sentido, nos diz algo um pouco pior. Se um grupo humano é capaz da barbárie, todos nós somos. Depois que os alemães fizeram o Holocausto, ninguém mais pode dizer de cara limpa que uma cultura civilizada, iluminista e cristã seja incapaz do Mal. Todos somos. E, com raríssimas exceções – a intervenção dos EUA no Kosovo, por exemplo –, temos este hábito de deixar o mal agir livremente.

As prisões dos indiciados estão pedidas. Os acusados não podem deixar o país – se deixarem, serão presos. Mas, por enquanto, o assunto segue prioritário apenas na burocracia internacional.

Apresentando Alaa al-Aswany, o escritor
mais vendido do mundo árabe

28/April/2008 - 07h08 - 59 Comentarios

Alaa al-Aswany é o escritor mais vendido do mundo árabe. Seu best-seller, publicado em 2002, se chama O prédio jacobiano e se passa no Egito atual. É um romance realista em sem floreios que fala de tortura, opressão sexual, a criação de radicais islâmicos, sonhos perdidos em meio à burocracia e corrupção governamentais. Em seu país, não é considerado particularmente boa literatura. Apenas um best-seller. O escritor, um dentista do Cairo, se defende: ele se inspira nos livros de Ernest Hemingway. O estilo é simples, mesmo, sem as experimentações à moda da literatura contemporânea árabe, direto ao ponto. Seu único objetivo é contar uma história. Mas há muito acontecendo ali, entre os personagens.

É o Egito de hoje. Em suas páginas, o ditador Hosni Mubarak jamais aparece. Ele é apenas o ‘Grande Homem’, cuja voz ecoa vinda de um palácio suntuoso. Trata-se de uma metáfora, de um símbolo, que nasce não das preferências do escritor mas de uma concessão à censura loca. O edifício jacobiano está para estrear em filme com alguns dos atores árabes mais conhecidos que há. É sucesso literário na França e foi um dos títulos mais disputados para lançar na atual temporada norte-americana. Esperam vendas fartas.

Seu atual romance, Chicago, vende também horrores no Egito. É a visão do autor da época em que estudou em Chicago – uma visão positiva, encantada. Ele é um dos mais lidos colunistas da oposição laica egípcia, um homem engajado na democratização do país.

Ele foi perfilado pela edição de domingo da New York Times Magazine.

Os jovens estudantes muçulmanos faziam anotações em seus cadernos. Al-Aswany estava apenas começando. O Islã no Egito e em outras metrópoles cosmopolitanas como Bagdá e Damasco, ele continuou, foi marcado ao longo dos séculos por tolerância e pluralismo. Não podia ser mais diferente do que o Islã do deserto, como aquele desenvolvido na Arábia Saudita. Os nômades do deserto não tinham tempo para arte – então não fizeram arte. A tragédia do Egito é que ele teve que lidar com versões intolerantes do Islã vindas de lugares como a Arábia Saudita. Todas as batalhas já vencidas no Egito pelas revoluções de 1919 e 1952 – principalmente aquela pelos direitos das mulheres – agora têm de ser lutadas novamente.

Ele então olhou para os dois rapazes barbados: ‘A Irmandade Muçulmana diz que o Islã é a solução. Então, quando você se opõe a eles, respondem que você está se opondo ao Islã. Isso é muito perigoso. Muito.’ Ele repete, sua voz mais alta: ‘na política é preciso encontrar soluções políticas, então como a solução pode ser religiosa?’

Para Alaa al-Aswani, democracia precisa de tempo. No mundo árabe, os EUA são vistos como os mantenedores das ditaduras locais. Não são conhecidos pelo que têm de melhor – a própria democracia, a liberdade de expressão, a pluralidade de grupos que têm espaço na sociedade. E o problema, ele diz, é que os EUA não acreditam de fato em levar democracia ao mundo árabe. O resultado imediato é a eleição de grupos como o Hamas, na Palestina, ou a Irmandade Muçulmana, no Egito. Democracia, ele diz, carece de tempo. Só se for permitido ao Hamas ou à Irmandade Muçulmana governarem que o povo perceberá que trocou um tipo de ditadura por outro.

Ele diz mais: a oposição islâmica é justamente aquilo que ditadores como Hosni Mubarak mais querem. Abrem um pouco o regime, permitem que eleições apenas parcialmente livres mostrem alguma força dos grupos islâmicos, e pronto, de presto governos como os de EUA e Reino Unido darão apoio, farão ouvidos moucos, a seus desmandos ditatoriais. Esta é a arma corrente das ditaduras da região, portanto. Manter vivo o medo de que, sem os ditadores, quem assumirá é o Islã radical.

Para o escritor, talvez num primeiro momento, sim. Mas, em países como o Egito, eles não se criam.

Sobre esquerda e direita,
ideologia e dogmas

06/March/2008 - 11h50 - 565 Comentarios

Um leitor de esquerda me escreveu assustadíssimo esses dias perante a acusação feita pelo governo colombiano de que Hugo Chávez havia cedido 300 milhões de dólares às Farc: ‘Será que o Olavo de Carvalho está certo?’, ele perguntava. Outro – este de direita –, aqui na caixa de comentários, vinha todo empolgado provar que o site do Foro de São Paulo no Brasil pertencia ao PT. (Não é novidade.)

Neste meio tempo, um terceiro leitor me cobrou: ‘você não pode ficar em cima do muro, não pode dizer que não gosta de Chávez e que não gosta de Uribe’. Coisas deste tipo tenho ouvido muito, recentemente. ‘Finalmente mostrou sua verdadeira cara!’, dizem uns perante um tipo de comentário. ‘Amadurecendo!’ dizem outros. ‘Enfim um mínimo de sensatez perante os opressores’, vão uns terceiros.

A crise andina serve para mostrar que o nível da conversa anda surreal. Não é só aqui no Weblog. É em toda a blogosfera.

Estamos caminhando para um regime multilateral em que países diferentes terão poder suficiente para interferir na economia e na diplomacia mundiais. Os EUA continuarão, mas virão China, União Européia, possivelmente Rússia, Índia, Brasil, talvez até a África do Sul. Alguns destes países são democracias, outros não. Um deles é uma ditadura. Outros se encaixam num estranho e desconfortável meio termo que vem se espalhando pelo planeta, espécies de ditaduras democraticamente eleitas.

Nenhum destes países (ou bloco de países) tem um currículo escorreito de defesa dos direitos humanos. Há pressões étnicas e culturais de todo tipo trazidas pela globalização. Nos anos 90, a esquerda a atacava com argumentos econômicos. Hoje em dia, percebendo que as culturas se misturam mesmo, é a direita que a ataca. Globalização boa é aquela na qual a gente dita as regras, dizem ambos.

Há pressões econômicas. Perda de emprego, necessidade de melhor educação para competir, queda dos níveis de natalidade entre os mais ricos, guerras civis brutais estourando nos cantos mais pobres. Há grupos econômicos, grandes corporações, que têm mais poder que muitos países e não se sentem obrigadas a seguir nenhum padrão ético. Há pressões ambientais. Há um ataque frontal do obscurantismo contra a ciência. Há um apelo da religião por mais poder político. Há um desejo da religião de ditar o comportamento da sociedade interferindo no Estado. É preciso consumir petróleo porque é o petróleo que gera riqueza e, sem gerar riqueza, justiça social não é possível. Mas o petróleo também sustenta ditaduras sangrentas e envenena o planeta de uma forma tal que não temos como prever ao certo suas conseqüências ou nossa capacidade de repará-las.

O mundo anda complicado. Imensamente complicado. Todos aqueles problemas que sempre tivemos – racismo, genocídio, ditadura, populismo, pobreza, doenças –, tudo continua a existir. Alguns problemas que pareciam ter ido embora, voltaram: é o caso da interferência da religião no Estado. E há uma penca de problemas novos que vão do Aquecimento Global ao estudo de células tronco ao terrorismo com alcance global.

Enquanto o mundo anda mais complicado do que jamais foi, esquerda e direita abraçam velhos conceitos. Não importa a evidente violência com que agem as Farc, tampouco o fato de que a sociedade colombiana está exausta delas. Se é uma guerrilha, ainda mais com discurso de esquerda, há de ser bom. Não é. São só golpistas assassinos, torturadores. Uma gente que prende outras por anos a fio. Já passamos desta fase na América Latina. Seria bizarro o suficiente se não houvesse pelo mundo gente à direita que jura combater um comunismo inexistente e que, além de se embaralhar na bandeira religiosa, age com um anti-cientificismo grosseiro.

É um jogo de estereótipos e de cartas marcadas. Se você é de esquerda, tem de ser pró-Palestina; se de direita, pró-Israel. Se de esquerda, anti-EUA; se de direita, há de estar convencido da decadência européia. O raciocínio corrente é que o amigo de meu inimigo, por via das dúvidas, é com quem me alinho. É a insistência de ver o mundo com um bilateralismo que não corresponde mais à estrutura real, econômica ou social do mundo. E, assim, abre-se espaço para os demagogos de esquerda e de direita.

Pois bem: cá neste Weblog, cada situação continuará a ser encarada por si. Sou de esquerda e continuarei de esquerda. Para mim, isto quer dizer que o Estado laico tem responsabilidades econômicas perante a sociedade, deve serviços a ela. Quer dizer que acredito que as empresas também têm responsabilidades econômicas e sociais perante a comunidade que as sustenta. Acredito em liberdade de expressão sobretudo e não acredito em laissez-faire sem vigília. Mas entre as idéias de Thomas Jefferson e as de Lênin, sigo com as de Jefferson.

Não é difícil ter problemas com Uribe e com Chávez ao mesmo tempo. Basta não achar que qualquer ilegalidade é justificada para combater o outro lado.

+ Chade

05/February/2008 - 17h20 - 3 Comentarios

Um amigo da Lucia Malla está no Chade e conta, por email, sobre sua experiência.

Ela, naturalmente, republicou em seu blog a mensagem.