Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'África'

Um quarto do mundo passa fome

27/August/2008 · 33 Comentários

A linha da pobreza atual é de 1,25 dólares ao dia. Abaixo disso está a miséria humana.

Nas contas do Banco Mundial: 1,4 bilhão de pessoas. Em 1981, eram 1,9 bilhão. Somos 6,7 bilhões de pessoas. Em 81, éramos 4,4 bilhões. A miséria, portando, afetava quase metade da população, hoje afeta um quarto.

Mudou por causa da China: lá, havia mais de 800 milhões de miseráveis, hoje são 207 milhões. No resto do mundo, em termos percentuais, tudo se manteve mais ou menos igual. Na África, metade da população vive abaixo da linha de pobreza. A China é o único país que enfrentou de fato o problema.

E é um erro levar esta conta ao pé da letra acreditando que a escala é evolutiva. O Banco Mundial é conservador, a ong Oxfam não é: a inflação de alimentos, segundo ela, pode jogar até 500 milhões de pessoas entre África e Sudeste Asiático para baixo novamente.

via Foreign Policy

Tags: China · Energia e Aquecimento global · Mundo · África · Ásia Sudeste & Pacífico

Derrubado o governo da Mauritânia

6/August/2008 · 24 Comentários

Devemos um bocado à Mauritânia, país que hoje deixou a lista dos regimes democráticos para se juntar à das ditaduras. Encravado entre a África árabe e a sub-saariana, é de lá que saiu a dinastia Almorávida, que dominou um bom naco da Espanha e de Portugal. A eles devemos nosso alface, nossos alcaides, a beleza de Alhambra e a tecnologia naval de astrolábios e cartas astronômicas que permitiram o descobrimento do Brasil.

Colônia francesa durante um bom naco do século 20, ganhou a independência em 1960. Foi governada por um militar golpista após o outro. O último golpe aconteceu em agosto de 2005, há exatos três anos. O presidente que assumiu impôs um governo de transição garantindo democracia. Cumpriu a promessa. Em março de 2007, o povo elegeu seu presidente, Sidi Ould Cheikh Abdallahi.

O décimo primeiro golpe militar da história do país começou na manhã de hoje, quando os soldados invadiram o palácio presidencial e prenderam Abdallahi. O presidente havia demitido os quatro principais generais no início da semana. O chefe da Guarda Presidencial, general Mohamed Ould Abdelaziz, assumiu o poder.

Mesmo o Partido Islâmico, de oposição ao governo, criticou o golpe. Mas a situação está em suspenso. A República Islâmica da Mauritânia é um dos raros países muçulmanos que reconhecem o Estado de Israel.

Tags: Islã · África

O mundo em busca de reformas

6/July/2008 · 57 Comentários

Forças de Paz das Nações Unidas são necessárias para o mundo. Quando não é legítima a presença do exército de nenhuma nação, ou quando um dos lados do conflito questionaria a intervenção de outro país, lá vêm os capacetes azuis. E, como alguém precisa comandá-los, para isso é necessário que a ONU tenha um Conselho de Segurança. O atual, no entanto, tem seu poder e autoridade constantemente questionados. Parece inútil. Representa a divisão geopolítica de um mundo pós-Segunda Guerra.

E o planeta não poderia estar mais diferente.

Como é preciso ajudar países no chão econômico que já não têm mais crédito, continuaremos a precisar de um FMI. Mas a crise econômica ameaça correr o mundo, com um tipo inédito de inflação global mostrando as garras e o FMI, preso por regras de outros tempos, fica parado a assistir. E o G8, bom e velho G7 + Rússia, que em teoria juntaria as nações mais ricas do mundo. Hoje, discute o preço do petróleo sem a presença da Arábia Saudita; debate a flutuação do dólar sem a China à mesa. O G8 é uma fantasia.

As instituições internacionais são necessárias mas estão obsoletas. Após a Segunda Guerra, com tudo destruído, instituições puderam ser construídas do zero. Agora não dá mais. É preciso pensar em reforma. Da Economist:

Veja o caso do G8. Alguns sonham em reduzir o número concentrando apenas os superpoderes econômicos: EUA, União Européia, China e Japão. A idéia é atraente mas Silvio Berlusconi e Vladimir Putin não vão abrir mão de ter cadeiras à mesa. É melhor aumentar o colegiado para incluir as doze maiores. O G12 teria Índia, Brasil, China e Espanha além de, por um triz, incluir também o Canadá.

A configuração do Conselho de Segurança está bem mais ultrapassada. Ninguém, hoje, concederia à França ou ao Reino Unido poder permanente de veto, mas nenhum deles vai abrir mão da prerrogativa. Enquanto isso, os candidatos óbvios à entrada são atrapalhados por ciúmes regionais: a Índia pelo Paquistão; o Brasil pela Argentina; a Alemanha pela Itália; o Japão pela China. O plano com chances de vitória daria a cada um destes quatro cadeiras permanentes sem direito a veto e duas mais cadeiras para um país muçulmano e outro, africano.

Esta será uma conversa longa. Enquanto nada acontece, o mundo sente falta de instituições representativas que tenham algum poder.

Tags: Argentina · Brasil · China · EUA · Europa · Japão · Mundo · Oriente Médio · Rússia · África

Robert Mugabe, sua anistia
e o exemplo de Charles Taylor

30/June/2008 · 28 Comentários

Charles Taylor, ex-ditador da Libéria, tem um passado e tanto. Pesam sobre ele acusações que vão do recrutamento de crianças como soldados, estupros coletivos, massacres, em seu país natal e na vizinha Serra Leoa. Extremamente impopular, num cenário internacional desfavorável, Taylor foi levado à renúncia em agosto de 2003. À época, quem negociou sua saída foi Olusegun Obasanjo, então presidente da Nigéria, que ofereceu exílio em troca de ele abandonar qualquer envolvimento político com a Libéria.

Taylor foi colocado na lista dos mais procurados da Interpol mas, a princípio, a Nigéria se recusou a deportá-lo. Em março de 2006, a presidente eleita da Libéria Ellen Johnson-Sirleaf pediu ao país vizinho que entregasse o ex-ditador para ser julgado por crimes contra a humanidade. Contava também com a pressão dos EUA. Taylor tentou fugir, mas foi recapturado e extraditado. Hoje está em Haia, na Holanda, onde responde a um processo perante a Corte Penal Internacional.

Seu julgamento é considerado uma vitória para a idéia da Corte Penal Internacional.

Mas talvez tenha sido uma péssima idéia, sugere o editor de Internacional do Financial Times, Gideon Rachman. (O talvez aqui é importante; Rachman não tem opinião formada.)

Taylor renunciou quando o clima já lhe era desfavorável porque tinha a promessa de um exílio e anistia. Anistias sempre foram oferecidas a ditadores em casos parecidos. São uma maneira de acelerar o fim de um governo insuportável e evitar o derramamento de sangue. Mas veja-se o caso de Robert Mugabe, no Zimbábue. Por que ele renunciaria? Não tem qualquer motivo. Sabe que, mesmo que lhe ofereçam uma anistia, ela não valerá nada e, fatalmente, ele passará o resto da vida perante um juiz em A Haia.

Sua única opção é se manter no poder enquanto conseguir. E não importa quanto sangue derrame no meio tempo.

É um dilema que a Corte Penal Internacional impõe. Se por um lado é certo que todos os responsáveis por crimes contra a humanidade sejam trazidos à Justiça, por outro sua existência faz com que nenhum responsável por crimes contra a humanidade queira deixar o poder enquanto puder mantê-lo.

Tags: África

O pobre Zimbábue nas mãos de Robert Mugabe

24/June/2008 · 68 Comentários

A primeira vista, pode não parecer muito. Mas tem muito significado o fato de que o Conselho de Segurança da ONU condenou as eleições de segundo turno que acontecerão no Zimbábue, sexta-feira. Quer dizer que, desta vez, o embaixador da África do Sul, que tem assento no Conselho, não impôs seu veto para bloquear a votação. Como a condenação foi unânime, quer dizer que a África do Sul votou contra o governo de Robert Mugabe.

Ou seja, Thabo Mbeki, o presidente da África do Sul, retirou seu apoio tácito a Mugabe.

Que ninguém tenha dúvidas: Mugabe é um bárbaro. Fiscais eleitorais do candidato da oposição, Morgan Tsvangirai, foram assassinados. Outros tantos apanharam. Mugabe imaginou que venceria o primeiro turno eleitoral só pelo medo que inspira. Confiante, permitiu que cada zona eleitoral afixasse os resultados conforme ia apurando-os. Quando a vitória de Tsvangirai ficou evidente, já era tarde. Aí virou a eleição na marra, fraudando. Agora, explica a quem perguntar que só Deus o tira do governo. É no mínimo razoável concordar com o CS da ONU: não dá para esperar uma eleição limpa.

Mugabe contava com o apoio de todos os governantes seus vizinhos – principalmente o mais poderoso deles, Thabo Mbeki. Para o mundo, ele é um bárbaro. Para os principais líderes africanos, é diferente. Mugabe, do seu ponto de vista, é o último líder da geração que derrubou os poderes imperiais europeus. É um sobrevivente. Ditador carniceiro, por certo. Mas a barbárie faz parte do cotidiano africano há muitos séculos. Há um choque geracional. Os velhos líderes olham com respeito para a história de Mugabe. Os jovens olham-no com horror. Querem uma África moderna, democrática, parte da comunidade internacional.

Primeiro, foram Zâmbia e Botsuana que renegaram Mugabe. Agora Mbeki está aparentemente cedendo. E também José Eduardo dos Santos, um de seus principais aliados, em Angola. O Zimbabue tem a pior inflação do mundo. Depende dos vizinhos para receber armas e alimentos vindos da China por navio, já que não tem porto. (As armas estavam vindo via Angola.)

A esperança para um Zimbábue livre de Mugabe é que o Conselho de Segurança imponha sanções, os vizinhos as implementem e a pior inflação do mundo resolva o resto. Seria um poder conjunto equivalente à mão de Deus para fazer Robert Mugabe cair.

Tags: África

Racismo na Europa?

23/June/2008 · 119 Comentários

O último post causou incômodo em alguns.

Então é bom elucidar: nada, nele, é minha opinião. Tudo é reprodução do artigo do professor Feldman. Um trecho entre aspas, outro resumido. A comparação com o arcaísmo católico, por exemplo, é dele. Este argumento, o de que os muçulmanos são os novos judeus da Europa, tampouco é novo.

Pessoalmente, não conheço o velho continente o bastante para afirmar que sim ou que não. Mas, também numa visão pessoal, e sem a ênfase do professor, me incomoda a semelhança entre muito do que se diz hoje sobre islâmicos e do que se disse no passado, sobre judeus. Não é apenas a respeito de muçulmanos. Há um par de anos, ouvi frases sobre ciganos, na França e na Espanha, que, no Brasil ou nos EUA, ninguém diria hoje. Poderia pensar. Mas teria vergonha de dizer. Uma das coisas que mais impressionou na Europa, sempre, foi esta falta de pudores no exercício do preconceito.

Uma das questões não postas em nossa contínua discussão a respeito de Israel e Palestina é que sua situação atual, de disputa de terras, nasceu porque ambos são vítimas da Europa. Os judeus foram expulsos de lá. Não exatamente, alguns dirão. Expulsos, sim. Após séculos de perseguição incrementada para pogroms, aumentada para o Holocausto, se você é um judeu na Europa, em 1948, tudo o que quer é ir embora. Na próxima, a história deixa claro, será você. Ou seus filhos. No mesmo passo, a divisão artificial do Oriente Médio em Estados nacionais, incluindo-se aí a partição entre Israel e Palestina, é fruto do imperialismo europeu. A ascensão do Wahabismo, esta seita fanática e obscurantista do Islã por trás do Talibã e da al-Qaeda, é fruto de uma decisão política européia de aumentar o poder do clã al-Saud, atuais donos de Meca e Medina.

De certa forma, Hitler conseguiu seu intento de limpar a Europa de judeus. Foram-se praticamente todos, para as Américas e para Israel. E o convívio com os muçulmanos é, sim, e num ritmo crescente, o primeiro desafio de grande porte europeu para lidar com uma comunidade diferente.

Poderia ser diferente? Os EUA estão vivendo algo parecido. Não é igual – parecido. No sudoeste norte-americano, de uns quinze, dez anos para cá, o espanhol é língua corrente. Não era assim. Há rádios em espanhol, jornais, revistas, tevês – um império crescente. Norte-americanos criados num mundo branco, anglo-saxão, protestante, já falam – nesta região sudoeste – espanhol como segunda língua. E a grita contra os ‘imigrantes ilegais’ é alta. Claro. Às vezes, escorrega nitidamente para o preconceito. Mas nenhum político fala que os ‘mexicanos têm dificuldades de assimilação’. Seria uma frase racista demais. Eles se assimilam? Nada. Substituem a comida, a língua, mudam a maneira de rezar a fé. (O parco contato que os EUA tinham com o catolicismo era irlandês, italiano e polonês, nada a ver com o mexicano, sincrético que só.) Mexicanos, hispânicos em geral, trazem sua própria cultura. E, quando um político fala que o inglês devia lhes ser imposto, é logo ridicularizado. Eles têm vergonha de parecerem racistas.

Culturas não são assimiladas. São misturadas. É ver a nossa: portuguesa, africana, tupi. Tão misturada que a gente não sabe quando termina uma e começa a outra. Quando um novo povo chega, a cultura local também muda. A julgar pelo tom dos discursos correntes na Europa, ‘eles são bem-vindos desde que virem franceses’. Ou alemães, ingleses, italianos, espanhóis. Não vão virar. Alguém poderia argumentar, ‘mas os mexicanos sempre estiveram do outro lado do Rio Grande.’ Já faziam parte daquele mundo. Bem, é verdade. O Egito também sempre esteve do outro lado do Mediterrâneo. O Marrocos, idem. Sempre cruzou-se o mar de um lado para o outro. E nenhum europeu jamais teve pudores de entrar, conquistar, dominar, levar o que considerava de valor. É fácil ser imperialista durante quatro séculos e, vinte ou trinta anos passados do fim do imperialismo, dizer que não tem compromissos com o passado.

Há uma geração européia que parece querer romper os vínculos com a própria história. Houve o nazismo, agora somos diferentes; houve a religião, agora somos diferentes; houve o imperialismo, agora somos diferentes. Só que história é uma linha contínua: o nazismo deixou conseqüências que vivemos até hoje. As religiões deixam conseqüências visíveis – e enquanto gays não puderem casar livremente, ainda estaremos vivendo uma imposição da Igreja. O imperialismo também deixou vítimas. Nações inteiras. A Europa enriqueceu. O custo de sua própria riqueza foi pago com o futuro de outras nações.

Os bárbaros estão às portas da cidade, reclamavam os romanos. Eles querem usufruir de uma riqueza que seus antepassados construíram.

Tags: Europa · História · Israel e Palestina · África

Ayaan Hirsi Ali, sua fé e sua circuncisão

17/June/2008 · 171 Comentários

On Faith – Sobre a fé – é uma área especial do site do Washington Post que trata da religião no mundo corrente. A entrevistada atual é Ayaan Hirsi Ali, a feminista de origem somali que está entre as mais proeminentes críticas do Islã. A entrevista é em vídeo. Mas, transcritos, cá vão dois trechos:

Sobre o ateísmo

Houve um dia em que fitei o espelho e me perguntei: ‘você acredita em Deus, agora?’ Maio de 2002. Foi um processo gradual até aquele momento, mas o Onze de Setembro foi o catalisador. Antes disso, todas as idéias dissidentes que eu tinha, eu as guardava com tranca no fundo de minha mente. Nos dez anos anteriores, me considerei muçulmana, mas já não praticava a religião de nenhuma forma.

Com os ataques, me senti desafiada. Não era apenas um desafio de bin Laden ‘venha e se junte a nós’. Ele também dividia o mundo entre crentes e não crentes. Foi assim que fui criada: ou você crê ou você não crê. E tudo em mim, o Satã dentro de mim havia crescido tanto, que percebi: não quero nada com isso.

Há o que Deus quer e o que você quer. Se você faz o que quer e não o que Deus quer que você faça, dizem que é porque Satã está sussurrando em seu ouvido.

Eu quero falar com minha mãe. Ela que não quer falar comigo. Ela teme que queimará no inferno se o fizer. A religião impôs a ela uma escolha cruel: ou ela me abandona, porque me transformei numa apóstata, ou ela queimará no inferno. É algo com o qual todos os muçulmanos temos que lidar, este medo do inferno. Mesmo de pensar, de ter dúvidas, você já está blasfemando.

Sobre a experiência da circuncisão

O sujeito chegou para nos circuncidar a todas. Ele usou uma tesoura, tinha anti-séptico, mas não tinha anestesia. Como um dos objetivos é garantir que você se manterá virgem, o costurar dos lábios é mais importante do que o cortar do clitóris.

Há muitas histórias que contam para explicar o corte. Minha avó acreditava que o clitóris ia crescer e crescer, ficaria pendurado entre suas pernas. Até maior que um pênis. Outra superstição é que, quando o bebê nasce, se o clitóris da mãe não tiver sido cortado pode enforcá-lo. Também há quem diga que o clitóris torna o homem impotente.

A razão mais comum é que, quando a menina entra na adolescência, ela fica excitada sexualmente com facilidade. Como prevenção, cortam o clitóris antes da puberdade.

Não existe um sistema específico para o corte. Depende de quem o faz. Há meninas que morrem porque alguém tenta cortar todo seu clitóris e elas têm uma hemorragia. Mortes também acontecem por causa do instrumento utilizado: tesouras, navalhas, até cacos de vidro.

Tags: Islã · África

China, África: parasita, hospedeiro?

10/June/2008 · 29 Comentários

A edição que está nas bancas dos EUA da revista FastCompany traz uma interessante análise das atividades chinesas na África.

A África Subsaariana vem crescendo 6% ao ano desde 2004 – lideram os países produtores de petróleo e minerais. Não é pouco para um continente considerado perdido até há bem pouco tempo. Este crescimento, com apoio chinês, tem se traduzido em nítida melhoria da infra-estrutura: estradas, eletricidade – e, com elas, hotéis, postos de gasolina, serviços. Negócios. Neste sentido, a China é uma boa influência que traz, para o continente, algo que o imperialismo e o pós-imperialismo ocidental não trouxeram.

Mas há um problema, aí, comum a todo o planeta mas particularmente grave no caso africano. Um bom naco do dinheiro que entra, sai de imediato. Há algo como 500 bilhões de dólares fruto da corrupção governamental em bancos do ocidente. É um dinheiro que, se repatriado, pagava a gigantesca dívida externa.

Governos e empresas no ocidente costumam dizer que não fazem mais negócios com a África porque, afinal, as coisas mudaram e tolerar trabalho infantil, subcondições de emprego e os altos valores em suborno cobrados pelas autoridades não é mais possível. Como a China não está nem aí para este tipo de ética, ela faz negócios com quem estiver disposto a topar suas condições.

É hipócrita o discurso ocidental. Se há 500 bilhões de dólares em dinheiro da corrupção em bancos da Europa e EUA, não há qualquer esforço para investigá-lo. Os EUA são o país que menos coopera com os investigadores africanos que tentam levantar os fundos dos ex-ditadores e seus comparsas. Em segundo lugar, lá está o Reino Unido. Ninguém quer ver centenas de milhões de dólares deixando sua economia repentinamente. Dependendo da quantia – e, no caso da corrupa africana, o porte é grande –, poderia provocar um desequilíbrio no sistema bancário.

Há uma última razão. Acaso uma investigação séria tenha livre espaço para ser realizada, ficará evidente o quanto de cumplicidade houve por parte das instituições financeiras.

A China faz a África crescer, o corrupção suga um naco dos lucros, mas ainda assim os países vão melhorando. O discurso chinês é de um pragmatismo só: transparência e bom governo são bons, mas não são necessários para que haja desenvolvimento. É o contrário. Transparência e bom governo são o resultado do desenvolvimento. É um discurso conveniente.

Esqueçamos o genocídio do Sudão. Os ditadores, a tortura, as guerras civis, os sanguessugas diversos da terra africana. Agora que há uma potência realmente interessada na África, o desenvolvimento virá? De acordo com a FastCompany, não necessariamente. As exportações chinesas esmagaram no nascedouro a indústria de têxteis e calçados em Botsuana, África do Sul, Quênia e Suazilândia. Fizeram o mesmo com a indústria de plásticos da Nigéria. Sem qualquer chance de ver surgir uma indústria produtora de bens os mais básicos, que rumo tomaria o continente para escapar de ser um mero produtor de carvão, petróleo e algum metal? Esta não é, ainda, uma resposta que se possa dar.

Tags: China · África

Sudão, a pior de todas as tragédias em curso

9/June/2008 · 121 Comentários

De 2003 para cá, a etnia que domina o governo sudanês matou por volta de 300.000 pessoas de um outro grupo. Uns 2,5 milhões deixaram suas casas em direção a campos de refugiados.

Na última quinta-feira, o promotor argentino Luís Moreno-Ocampo depôs perante o Conselho de Segurança da ONU a respeito do processo que pretende apresentar ao Tribunal Criminal Internacional, com sede em Haia. Ocampo quer indiciar dois homens. O primeiro é Ahmed Haroun, ministro de Questões Humanitárias do país; o segundo, Ali Kushayb, líder da guerrilha árabe Janjaweed, responsável direta pela maior parte dos estupros, tortura e mortes na região de Darfur.

Nada que esteja acontecendo no planeta, neste exato momento, é mais grave do ponto de vista humanitário do que o Sudão. Mesmo se incluirmos na lista as conseqüências dos atos da ditadura de Myanmar, que nega ajuda aos próprios cidadãos após um desastre natural. Mesmo que incluamos o Iraque ou qualquer outro episódio do Oriente Médio.

No entanto, já faz cinco anos, o que se passa é uma certa reação blasé. ‘Horrível aquilo no Sudão, não é?’ E daí para outro assunto.

Por que a esquerda não se esgoela e põe o Sudão no topo de sua lista de prioridades? Cruze os blogs ou revistas de esquerda no mundo e os assuntos são vários, as vítimas do imperialismo muitas, mas para as três milhões de vítimas do governo sudanês não sobra muita compaixão.

Como se a direita fosse inocente – não é. Ninguém cogita uma mudança de regime para o Sudão. Ninguém bate os tambores de guerra ameaçando invasão. Um ou outro reclama que a China emperra o assunto no Conselho de Segurança da ONU – o que é verdade. Mas nem EUA, nem França, nem Reino Unido, rigorosamente ninguém acha que o assunto vale uma pesada pressão diplomática. Acaso fosse prioridade, dobrava-se a China. Ou partia-se para a ação sem o aval da ONU. Não seria inédito.

Os únicos realmente preocupados com o Sudão são burocratas e tecnocratas da ONU e de uma meia dúzia de ONGs.

Por quê? Vivemos um período moralista. Esquerda e direita têm, ambas, um discurso de o que é o certo e o que é o errado no mundo assim, na ponta da língua, e todos são rápidos em apontar o dedo para o lado contrário. E, no entanto, perante a pior coisa que ocorre no planeta Terra, só frieza.

O que isso diz a nosso respeito? E faço a pergunta com franqueza: a última vez que o Sudão foi mencionado no Weblog foi em 5 de fevereiro passado. E o país não era o assunto principal do post.

É uma região tão perigosa que poucos jornalistas se arriscam por lá. Este é um dos motivos que justificam a falta de noticiário direto. Mas não basta. Será racismo? Será algum tipo de desistência coletiva a respeito da África Subsaariana?

Talvez seja mais do que isso. Os vilões desta história são ‘árabes’, mas isso é como se apresentam. São negros. As vítimas, também. Os vilões são muçulmanos. Mas as vítimas, também. Há petróleo na região de Darfur, claro. Só que nenhuma superpotência está tentando arrancar o petróleo a fórceps fingindo boas intenções.

O que acontece no Sudão é muito mais simples: é o mal em ação. Somos todos, à direita e à esquerda, pragmáticos. Não atribuímos o ‘mal’ aos outros. Desenvolvemos teorias complexas (ou nem tanto) a respeito de como o mundo funciona e tudo trata de intenções e interesses. Como intenções e interesses são difíceis de atribuir no caso sudanês, o que nos sobra para nossa verborragia política? Nenhuma de nossas teorias geopolíticas têm uma explicação para o Mal. O Mal, neste sentido, nos diz algo um pouco pior. Se um grupo humano é capaz da barbárie, todos nós somos. Depois que os alemães fizeram o Holocausto, ninguém mais pode dizer de cara limpa que uma cultura civilizada, iluminista e cristã seja incapaz do Mal. Todos somos. E, com raríssimas exceções – a intervenção dos EUA no Kosovo, por exemplo –, temos este hábito de deixar o mal agir livremente.

As prisões dos indiciados estão pedidas. Os acusados não podem deixar o país – se deixarem, serão presos. Mas, por enquanto, o assunto segue prioritário apenas na burocracia internacional.

Tags: África

Apresentando Alaa al-Aswany, o escritor
mais vendido do mundo árabe

28/April/2008 · 59 Comentários

Alaa al-Aswany é o escritor mais vendido do mundo árabe. Seu best-seller, publicado em 2002, se chama O prédio jacobiano e se passa no Egito atual. É um romance realista em sem floreios que fala de tortura, opressão sexual, a criação de radicais islâmicos, sonhos perdidos em meio à burocracia e corrupção governamentais. Em seu país, não é considerado particularmente boa literatura. Apenas um best-seller. O escritor, um dentista do Cairo, se defende: ele se inspira nos livros de Ernest Hemingway. O estilo é simples, mesmo, sem as experimentações à moda da literatura contemporânea árabe, direto ao ponto. Seu único objetivo é contar uma história. Mas há muito acontecendo ali, entre os personagens.

É o Egito de hoje. Em suas páginas, o ditador Hosni Mubarak jamais aparece. Ele é apenas o ‘Grande Homem’, cuja voz ecoa vinda de um palácio suntuoso. Trata-se de uma metáfora, de um símbolo, que nasce não das preferências do escritor mas de uma concessão à censura loca. O edifício jacobiano está para estrear em filme com alguns dos atores árabes mais conhecidos que há. É sucesso literário na França e foi um dos títulos mais disputados para lançar na atual temporada norte-americana. Esperam vendas fartas.

Seu atual romance, Chicago, vende também horrores no Egito. É a visão do autor da época em que estudou em Chicago – uma visão positiva, encantada. Ele é um dos mais lidos colunistas da oposição laica egípcia, um homem engajado na democratização do país.

Ele foi perfilado pela edição de domingo da New York Times Magazine.

Os jovens estudantes muçulmanos faziam anotações em seus cadernos. Al-Aswany estava apenas começando. O Islã no Egito e em outras metrópoles cosmopolitanas como Bagdá e Damasco, ele continuou, foi marcado ao longo dos séculos por tolerância e pluralismo. Não podia ser mais diferente do que o Islã do deserto, como aquele desenvolvido na Arábia Saudita. Os nômades do deserto não tinham tempo para arte – então não fizeram arte. A tragédia do Egito é que ele teve que lidar com versões intolerantes do Islã vindas de lugares como a Arábia Saudita. Todas as batalhas já vencidas no Egito pelas revoluções de 1919 e 1952 – principalmente aquela pelos direitos das mulheres – agora têm de ser lutadas novamente.

Ele então olhou para os dois rapazes barbados: ‘A Irmandade Muçulmana diz que o Islã é a solução. Então, quando você se opõe a eles, respondem que você está se opondo ao Islã. Isso é muito perigoso. Muito.’ Ele repete, sua voz mais alta: ‘na política é preciso encontrar soluções políticas, então como a solução pode ser religiosa?’

Para Alaa al-Aswani, democracia precisa de tempo. No mundo árabe, os EUA são vistos como os mantenedores das ditaduras locais. Não são conhecidos pelo que têm de melhor – a própria democracia, a liberdade de expressão, a pluralidade de grupos que têm espaço na sociedade. E o problema, ele diz, é que os EUA não acreditam de fato em levar democracia ao mundo árabe. O resultado imediato é a eleição de grupos como o Hamas, na Palestina, ou a Irmandade Muçulmana, no Egito. Democracia, ele diz, carece de tempo. Só se for permitido ao Hamas ou à Irmandade Muçulmana governarem que o povo perceberá que trocou um tipo de ditadura por outro.

Ele diz mais: a oposição islâmica é justamente aquilo que ditadores como Hosni Mubarak mais querem. Abrem um pouco o regime, permitem que eleições apenas parcialmente livres mostrem alguma força dos grupos islâmicos, e pronto, de presto governos como os de EUA e Reino Unido darão apoio, farão ouvidos moucos, a seus desmandos ditatoriais. Esta é a arma corrente das ditaduras da região, portanto. Manter vivo o medo de que, sem os ditadores, quem assumirá é o Islã radical.

Para o escritor, talvez num primeiro momento, sim. Mas, em países como o Egito, eles não se criam.

Tags: Islã · Livros · Oriente Médio · África

Sobre esquerda e direita,
ideologia e dogmas

6/March/2008 · 564 Comentários

Um leitor de esquerda me escreveu assustadíssimo esses dias perante a acusação feita pelo governo colombiano de que Hugo Chávez havia cedido 300 milhões de dólares às Farc: ‘Será que o Olavo de Carvalho está certo?’, ele perguntava. Outro – este de direita –, aqui na caixa de comentários, vinha todo empolgado provar que o site do Foro de São Paulo no Brasil pertencia ao PT. (Não é novidade.)

Neste meio tempo, um terceiro leitor me cobrou: ‘você não pode ficar em cima do muro, não pode dizer que não gosta de Chávez e que não gosta de Uribe’. Coisas deste tipo tenho ouvido muito, recentemente. ‘Finalmente mostrou sua verdadeira cara!’, dizem uns perante um tipo de comentário. ‘Amadurecendo!’ dizem outros. ‘Enfim um mínimo de sensatez perante os opressores’, vão uns terceiros.

A crise andina serve para mostrar que o nível da conversa anda surreal. Não é só aqui no Weblog. É em toda a blogosfera.

Estamos caminhando para um regime multilateral em que países diferentes terão poder suficiente para interferir na economia e na diplomacia mundiais. Os EUA continuarão, mas virão China, União Européia, possivelmente Rússia, Índia, Brasil, talvez até a África do Sul. Alguns destes países são democracias, outros não. Um deles é uma ditadura. Outros se encaixam num estranho e desconfortável meio termo que vem se espalhando pelo planeta, espécies de ditaduras democraticamente eleitas.

Nenhum destes países (ou bloco de países) tem um currículo escorreito de defesa dos direitos humanos. Há pressões étnicas e culturais de todo tipo trazidas pela globalização. Nos anos 90, a esquerda a atacava com argumentos econômicos. Hoje em dia, percebendo que as culturas se misturam mesmo, é a direita que a ataca. Globalização boa é aquela na qual a gente dita as regras, dizem ambos.

Há pressões econômicas. Perda de emprego, necessidade de melhor educação para competir, queda dos níveis de natalidade entre os mais ricos, guerras civis brutais estourando nos cantos mais pobres. Há grupos econômicos, grandes corporações, que têm mais poder que muitos países e não se sentem obrigadas a seguir nenhum padrão ético. Há pressões ambientais. Há um ataque frontal do obscurantismo contra a ciência. Há um apelo da religião por mais poder político. Há um desejo da religião de ditar o comportamento da sociedade interferindo no Estado. É preciso consumir petróleo porque é o petróleo que gera riqueza e, sem gerar riqueza, justiça social não é possível. Mas o petróleo também sustenta ditaduras sangrentas e envenena o planeta de uma forma tal que não temos como prever ao certo suas conseqüências ou nossa capacidade de repará-las.

O mundo anda complicado. Imensamente complicado. Todos aqueles problemas que sempre tivemos – racismo, genocídio, ditadura, populismo, pobreza, doenças –, tudo continua a existir. Alguns problemas que pareciam ter ido embora, voltaram: é o caso da interferência da religião no Estado. E há uma penca de problemas novos que vão do Aquecimento Global ao estudo de células tronco ao terrorismo com alcance global.

Enquanto o mundo anda mais complicado do que jamais foi, esquerda e direita abraçam velhos conceitos. Não importa a evidente violência com que agem as Farc, tampouco o fato de que a sociedade colombiana está exausta delas. Se é uma guerrilha, ainda mais com discurso de esquerda, há de ser bom. Não é. São só golpistas assassinos, torturadores. Uma gente que prende outras por anos a fio. Já passamos desta fase na América Latina. Seria bizarro o suficiente se não houvesse pelo mundo gente à direita que jura combater um comunismo inexistente e que, além de se embaralhar na bandeira religiosa, age com um anti-cientificismo grosseiro.

É um jogo de estereótipos e de cartas marcadas. Se você é de esquerda, tem de ser pró-Palestina; se de direita, pró-Israel. Se de esquerda, anti-EUA; se de direita, há de estar convencido da decadência européia. O raciocínio corrente é que o amigo de meu inimigo, por via das dúvidas, é com quem me alinho. É a insistência de ver o mundo com um bilateralismo que não corresponde mais à estrutura real, econômica ou social do mundo. E, assim, abre-se espaço para os demagogos de esquerda e de direita.

Pois bem: cá neste Weblog, cada situação continuará a ser encarada por si. Sou de esquerda e continuarei de esquerda. Para mim, isto quer dizer que o Estado laico tem responsabilidades econômicas perante a sociedade, deve serviços a ela. Quer dizer que acredito que as empresas também têm responsabilidades econômicas e sociais perante a comunidade que as sustenta. Acredito em liberdade de expressão sobretudo e não acredito em laissez-faire sem vigília. Mas entre as idéias de Thomas Jefferson e as de Lênin, sigo com as de Jefferson.

Não é difícil ter problemas com Uribe e com Chávez ao mesmo tempo. Basta não achar que qualquer ilegalidade é justificada para combater o outro lado.

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+ Chade

5/February/2008 · 3 Comentários

Um amigo da Lucia Malla está no Chade e conta, por email, sobre sua experiência.

Ela, naturalmente, republicou em seu blog a mensagem.

Tags: África

O Chade, a França, Darfur
e o sangue que vem do petróleo

5/February/2008 · 24 Comentários

Ao longo do dia de ontem, o governo do Chade resistiu ao segundo ataque brutal dos rebeldes à capital, N’Djamena. O primeiro havia sido no sábado. Não é a primeira vez que a ditadura do general Idriss Déby sofre um ataque. Da última, em 2006, os rebeldes foram espantados por caças Mirage franceses que abriram fogo contra as colunas rebeldes. Acontece que o governo Nicolas Sarkozy mudou sua política externa – prefere não intervir.

Isto talvez seja um problema.

Foi também ontem que Bernard Kouchner, o ministro das relações exteriores francês, veterano fundador da ong Médicos sem Fronteiras, se preparava para comemorar duas vitórias. O governo do Sudão enfim concordou com o envio de 26.000 soldados das Forças de Paz da ONU, os ‘capacetes azuis’, para a região de Darfur. E seu retrato esteve, domingo, na capa da prestigiosa e influente revista dominical do New York Times: Kouchner, o estadista sem fronteiras. O homem certo no local certo.

A confusão no Chade não permitirá que ele abra um único champanhe no Quay d’Orsay, seu local de trabalho. Trabalho, aliás, que começou a ficar particularmente mais complicado.

Dá para explicar compreendendo o mapa: o Chade fica logo abaixo da Líbia, cravado no centro geográfico do continente africano. A leste, fica o Sudão. A região de fronteira entre os dois países é justamente Darfur, onde acontece há alguns anos um dos maiores desastres humanitários do planeta. Lá, grupos humanitários dizem que o genocídio vem porque o governo central quer expulsar a população que vive no terreno desértico rico em petróleo. E não é à toa que os rebeldes engajados em derrubar o general Déby são financiados pelo governo do Sudão.

Afinal, como no Sudão, há petróleo no Chade naquela exata região.

A produção é recente. Em 2000, foi construído um oleoduto operado pela Exxon Mobil e financiado pelo Banco Mundial que leva combustível do Chade até o Golfo da Guiné, na costa do Atlântico, atravessando os Camarões. Era um projeto experimental e a produção do país só teve início em 2003. A contrapartida é que o dinheiro do petróleo seria depositado numa conta corrente em Londres gerenciada por uma organização independente. O Bird financiava o projeto mas o dinheiro do petróleo deveria servir ao combate à pobreza no país. Segundo dados do governo norte-americano, 80% da população está abaixo da linha da pobreza.

Em 2005, a ong Transparência Internacional declarou que o Chade é o país mais corrupto do mundo.

Déby chegou ao poder em 1990, derrubando o ditador Hissène Habré e implantando um regime de reconciliação e transição democrática. Uma constituição foi aprovada e, em 1996, Déby foi reconfirmado no poder pelo voto em eleições multipartidárias. Reelegeu-se em 2001. E, com a justificativa de que a pressão dos rebeldes era grande demais, livrou-se da constituição que impunha um limite de dois mandatos para concorrer – desta vez sozinho – em 2006. No mesmo ano, mudou as regras do jogo do oleoduto e passou a usar o dinheiro do lucro petroleiro para comprar armas. Uma típica história africana.

Este, 2006, é um ano chave. O governo francês afastou os rebeldes com seus caças, Déby rompeu relações com o Banco Mundial e o Sudão, mudou a constituição e reconheceu oficialmente a República Popular da China com quem começou de presto a negociar. Quem, afinal, precisa do Banco Mundial com um parceiro desses – os chineses sempre aparecem nestas horas.

Agora em dezembro, os dois principais grupos rebeldes se uniram. São a Mudança, Unidade e Democracia, liderada por dois jovens sobrinhos de Déby (a questão também é familiar) e o Grupo pela Democracia e Liberdade, comandada por Mahamat Nouri, que até princípios de dezembro era o ministro da defesa do Chade. Quando não estão em guerra, os dois grupos montam acampamento em Darfur, enquanto as milícias sudanesas janjaweed cometem seu genocídio no entorno.

O acordo assinado ontem pela ONU e negociado com os franceses é para enviar os capacetes azuis para esta região. O território seguro no qual teriam sede era o Chade. Mal assinado o acordo, não há mais território seguro.

O problema de Kouchner é que ele escolheu a crise humanitária em Darfur como símbolo de sua política externa. E bate na tecla da não intervenção, um forte contraste perante a doutrina Bush, como aquilo que a França oferece ao mundo. Ele já ofereceu asilo a Déby – a oferta foi recusada. A Líbia, que costuma se apresentar como mediadora entre Sudão e Chade, permanece cautelosa. Kouchner não descarta por completo o envio de tropas francesas para evitar que de um banho de sangue localizado nasça o caos em grande escala no centro da África.

É mais complicado que uma briga de etnias – embora, no Chade, também rivalidades étnicas floresçam. Naquela região, os bandidos estão disputando o petróleo. E a França, que manteve o país como colônia até 1960, não sabe o que fazer.

Se pode piorar? A resposta está no arremedo de país que atende pelo nome República da África Central. Darfur, parte do Sudão, faz fronteira com o Chade a oeste e com a República da África Central, localizada ao sul. Na avaliação da ONU, este é um estado fantasma sem nem mesmo os arremedos institucionais que podem dar face a um Estado nacional. Os rebeldes do Sudão e do Chade, que estão sempre por lá aprontando alguma, ainda não apareceram.

E não custa lembrar as qualidades daquele terreno desértico e infértil.

Tags: Europa · África

A Internet caiu na Ásia

31/January/2008 · 21 Comentários

Parte do Oriente Médio e Ásia Central tiveram seu acesso à Internet interrompido, ontem, por conta de dois acidentes mais ou menos simultâneos no Mediterrâneo.

O primeiro ocorreu no grande cabo que leva Internet à África e Ásia. Provavelmente um navio içou âncoras carregando e rasgando o cabo nas proximidades de Alexandria, no Egito. Não se trata de um mero cabinho: partindo da Alemanha, passando pelo Egito, atravessa o Oriente Médio e Ásia, pega Índia e China para desembocar na Austrália. É uma brincadeira de 40.000 quilômetros e a principal via da Internet conectando Europa à Ásia. Não bastasse, outro cabo que vai da Inglaterra até o Japão partiu no mesmo mar, próximo a Marselha, na França.

A Internet foi confirmada fora do ar em toda Arábia Saudita, ainda atinge 70% dos usuários egípcios, um bom naco da conexão em Dubai e pôs a nocaute 50% da trilha de acesso na Índia. No caso indiano, a maioria das empresas de telecomunicações conseguiu desviar o tráfego de dados por rotas alternativas. Isto quer dizer, essencialmente, que a Internet ficou muito mais lenta.

Como grande parte das empresas de telemarketing dos EUA usam operadores indianos e como é cada vez mais comum que parte das operações de grandes escritórios sejam terceirizadas para companhias da Índia, pode haver impacto econômico ainda não calculado.

Tags: Europa · Oriente Médio · Tecnologia · África · Ásia Central · Ásia Sudeste & Pacífico

O mundo visto pelos leitores: Angola

24/January/2008 · 144 Comentários

Por Caco

Angola é um país em obras divididas por empreiteiras brasileiras, nas quais a Odebrecht aparece como a principal quanto ao volume, além de portuguesas e chinesas. Os chineses foram os últimos a desembarcar por aqui, mas já formam o maior contingente. Ninguém sabe ao certo, mas dizem que já são mais de 600.000 deles espalhados pelo país – dá algo como 3% da população. Trabalhando em turnos que causam inveja pela velocidade das obras e disposição para trabalhar 24 horas por dia e sete dias por semana. E, num fenômeno esperado, começaram a se integrar à sociedade de forma tão forte que a primeira geração de crianças sino-angolanas já começa a dar seus passos.

Os chineses começam a tomar um espaço no coração das angolanas que até agora era dos brasileiros. Nós entramos nas casas todos os dias através das novelas da Rede Globo e da Rede Record. É inegável e surpreendente a influência da cultura brasileira por aqui. Nossa moda e costumes estão por toda parte. Na música, nos restaurantes, nas roupas, nas gírias dos jovens. O maior mercado de Angola chama-se Roque Santeiro. E há também o mercado Beato Salú. Sacoleiras desembarcam diariamente no aeroporto com sacolas abarrotadas de roupas que são vistas na última novela das oito do Globo. Cantores brasileiros chegam até aqui para estadas de quatro dias, tempo suficiente para um show e a gravação de um comercial. Também aproxima brasileiros e angolanos o passado de colônias que se livraram de Portugal. Há muito tempo e sem guerras, no caso do Brasil. E há 33 anos e com uma guerra de 20 anos, no caso dos angolanos.

Às voltas com taxas de crescimento que rondam os 20% nos últimos cinco anos, o país tem se transformado no mais recente Eldorado de uma legião de empreendedores. Associados sempre a angolanos, esses empresários chegam diariamente a Luanda em vôos lotados da TAP, TAAG e SAS. Há uma crença geral de que vale a pena explorar qualquer atividade econômica por aqui. Há demanda por tudo e restrições de oferta de toda ordem. Também colabora para essa situação o fato de a economia estar baseada fortemente na exploração de petróleo e minerais (principalmente diamante e ouro). Em tempos de barris de petróleo nas alturas, há uma natural liquidez no mercado provocada pelas petrolíferas e companhias mineradoras.

Diante da escassez de mão de obra especializada, essas empresas operam com mão de obra estrangeira que, evidentemente, condiciona sua vinda para cá às custas da manutenção de um padrão de vida similar aos de seus países de origem. Tudo isso faz com que Luanda seja uma das cidades mais caras do mundo para viver. Quer alugar um apartamento no centro com dois quartos? Quatro mil dólares com contrato de dois anos e pagamento adiantado. Almoço rápido com uma Coca-cola? Separe 25 dólares. E não espere qualidade, conforto, opções e pontualidade, como se espera noutros cantos. Opções de restaurantes também não há. São poucos e a culinária invariavelmente segue uma linha portuguesa com muitos peixes, frutos do mar, carneiros etc. No início é gostoso para um brasileiro, mas em pouco tempo começamos a ter saudades de arroz, feijão, pizza e churrasco.

Aqui cabe uma explicação. Qualquer pessoa, angolana ou estrangeira, chama a capital de Luanda, como se Luanda fosse um município. Na verdade, Luanda é uma província composta por nove municípios que formam uma grande região metropolitana. Moram em Luanda aproximadamente quatro milhões de habitantes. A população total do país gira em torno dos 16 milhões. Todos esses números são estimados pois não há registros de censos demográficos nos últimos 30 anos. Em geral, os angolanos inflacionam todos os números que dizem respeito ao país com indisfarçável orgulho.

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Tags: Depoimentos · África

O Quênia, os kikuyu
e o dilema histórico de um país

11/January/2008 · 88 Comentários

Quatro ex-presidentes africanos já tentaram resolver as diferenças entre o presidente recém-empossado do Quênia, Mwai Kibaki, e o líder oposicionista Raila Odinga. Fracassaram. Agora, as conversas são para que o ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan, chegue ao país. Odinga já anunciou que pretende recebê-lo mas que um acordo é difícil.

Acontece que Kibaki pode ter tomado posse mas, se a impressão dos observadores internacionais estiver correta, no final do ano passado os quenianos elegeram Odinga seu presidente. E se, a princípio, esta parece mais uma típica história africana, não é. O Quênia não é um país paupérrimo com uma longa história de ditadura e guerras civis.

Em seu primeiro mandato, Mwai Kibaki – que diz ter sido reeleito e tomou posse na calada da noite – fez o país crescer 6% ao ano. Uma campanha de anti-corrupção azeitou a máquina pública de forma que investimento estrangeiro veio e a ele seguiram-se os turistas. A sociedade civil se organizou, a imprensa livre foi instaurada e um parlamento dinâmico, democraticamente eleito, passou a equilibrar o Poder Executivo.

Nada, evidentemente, é tão simples. Kibaki, eleito em 2002, é apenas o terceiro presidente do Quênia, país que ficou independente pelas mãos de Jomo Kenyatta, em 1964. Foi eleito para substituir o governo ditatorial e incompetente de Daniel arap Moi com o apoio de uma ampla coligação. Mas, após os primeiros anos de governo, afastou-se da coligação que o elegera, fechando cada vez mais o núcleo duro do poder. Quem assumiu foi a ‘Máfia do Monte Quênia‘.

Com uma altitude de 5.199 metros, o monte que batiza o país fica 200 quilômetros a nordeste da capital, Nairobi. É nos seus arredores que vivem os kikuyu, a maior tribo das muitas que compõem etnicamente o país. Maior, porém, não chega a um quarto da população: são 22%. Kibaki é kikuyu, como era Kenyatta, o fundador do país. O atual presidente havia sido, nos anos 1960, um jovem e ousado ministro da Fazenda – e foi sua experiência de então que o gabaritou para ser eleito. Mas, apesar de competente do ponto de vista econômico, o governo Kenyatta falhou em unificar o país. Moi, que se transformaria em ditador após chegar ao poder em 1978, prometia justamente integrar as outras etnias. Kenyatta havia distribuído as riquezas – incluindo-se as terras – deixadas pelo Império Britânico apenas entre os kikuyu. Exatamente o mesmo erro do atual presidente.

A ‘Máfia do Monte Quênia’ é mais variada do que a oposição gosta de fazer parecer. Há os velhos burocratas que foram companheiros do presidente Kibaki nos tempos do governo Kenyatta, mas há também jovens kikuyu com diplomas tirados no exterior e ávidos por modernizar um país que consideram estagnado pelos velhos de comportamento burocrático. Enquanto eles brigavam internamente, mais de três quartos da população sente-se – e com razão – marginalizada.

É fácil criticar um grupo, ainda mais quando é ele que está no poder. De origem banto e tradição agrícola, os kikuyu lutaram desde o início contra a colonização inglesa. E foram vítimas de um genocídio impetrado pelos ingleses em pleno século 20. Pior: um genocídio posterior à Segunda Guerra.

Nos anos 1950, o país hoje conhecido por Quênia já era colônia ou protetorado britânico havia mais de um século. Ansiosos pela independência que viam ex-colônias britânicas ganhando por toda parte e sem chances de sucesso para enfrentar a administração européia, os kikuyu formaram o Mau Mau, grupo de resistência que adotava práticas extremamente violentas. Seu objetivo era aterrorizar os brancos até que deixassem suas terras. Os homens negros invadiam fazendas na calada da noite, degolavam quem fosse branco, matavam, estupravam.

Para resistir ao levante dos Mau Mau, o governo britânico instalou campos de concentração e reeducação para onde enviou todos os kikuyu. Além de conter a onda de terror, pretendiam declaradamente impedir hábitos tradicionais que persistem até hoje, como a infibulação, ou circuncisão feminina. Na história tradicional britânica, o processo de reeducação dos kikuyu é considerado um sucesso.

Uma pesquisa recente da historiadora norte-americana Caroline Elkins, da Universidade de Harvard, revelou que, nos campos, os kikuyu, além de confinados, foram torturados e mortos em quantidade. Quantos, exatamente, é difícil determinar, pois os britânicos incendiaram os documentos. Como não foi criada uma máquina de extermínio, ele simplesmente ocorria pelos desmandos do dia-a-dia, Elkins compara a experiência dos britânicos imediatamente anterior à independência queniana não tanto com o Holocausto nazista e mais com os Gulags soviéticos. Desde a publicação de seu estudo, o governo Kibaki cobra do Reino Unido um pedido oficial de desculpas. A Grã Bretanha não se manifestou oficialmente.

É neste contexto, pois, que os kikuyu conquistaram a independência do Quênia e governaram – e governam. Os observadores internacionais constataram que as eleições de dezembro de 2007 transcorreram de forma limpa – apenas na fase de contagem dos votos que, repentinamente, um grande processo de fraude ocorreu. O levante de todos os quenianos não kikuyu era iminente no período pré-eleitoral. E há ódio nas ruas, instaurado pelo velho conflito que atravessa a história recente do país.

Se não há maior pressão por parte de EUA e Europa, é porque o Quênia, dentro da África negra que se espalha abaixo do Saara, não apenas é considerado um dos três países mais estáveis como também é um dos mais engajados na Guerra contra o Terror. A al-Qaeda está instalada no país e, lá, a embaixada dos EUA sofreu um dos primeiros ataques do grupo de Osama bin Laden, ainda antes do Onze de Setembro. Não há porque acreditar que um governo Odinga agiria à margem da comunidade internacional. É o contrário: estaria absolutamente disposto a dialogar com EUA e Europa com parceiro. Mas todos, surpresos com a repentina explosão social do final de dezembro, morrem de medo de que a intromissão diplomática branca piore a situação. O medo é de que o Quênia se dissolva de vez para transformar-se num típico país africano, embrenhando-se numa guerra civil infindável. Ninguém esperava que houvesse qualquer levante por conta de uma eleição fraudada.

Se a história parece tipicamente africana, é muito mais do que isso. É o resultado de um país artificial. O processo de consolidação das fronteiras dos estados nacionais fora da Europa, principalmente na África Subsaariana, no Oriente Médio e parte da Ásia, não se deu de forma natural e sim conforme os interesses das metrópoles européias, principalmente britânicos e franceses, mas também belgas, holandeses e tantos outros. O resultado é um enorme número de etnias com conflitos históricos não resolvidos. Conte-se a briga no Iraque, no Paquistão ou no Quênia, a origem é a mesma – gente forçada a conviver num mesmo Estado.

Nada indica que o Quênia vá se dissolver numa longa guerra civil. Mas não haverá paz enquanto os kikuyu não largarem o poder e entrarem em algum tipo de acordo com os outros três quartos da população.

O Quênia é um país que cresce e se moderniza de forma contrastante com o resto do continente. Mas não custa lembrar que está muito distante da realidade latino-americana. Em 2002, uma das promessas do governo Kibaki, que assumia após tanto tempo de ditadura, era educação primária gratuita para todos os quenianos. Tentou – mas ainda não conseguiu.

Tags: África

Europa tem perfil do terrorista típico

27/November/2007 · 114 Comentários

O braço europeu da Interpol tem um estudo novo que traça o perfil dos terroristas islâmicos. É um bocado complexo e não facilita muito. São muçulmanos, evidentemente, descendentes de migrantes do norte da África, Oriente Médio ou Ásia Central. O previsível termina aí. Podem ser jovens ou poder ser velhos, têm formação universitária ou não. O que talvez surpreenda: não costumam parecer descolados da sociedade européia. Ao contrário: o que parece é que estão entre os que se integraram e que vivem bem.

São religiosos – o que é evidente. Mas nem todo fundamentalista vira terrorista. É uma minoria, na verdade. O fundamentalismo os leva para a Internet e, na rede, descobrem os sites jihadistas. Em algum momento, convencem-se de que há um grande mundo muçulmano que ignora fronteiras nacionais – e que parte deste mundo, caso da Espanha, deve ser recuperado por ter sido perdido. Não vêem o grande califado islâmico como algo distante no passado, convencem-se de que é um imperativo histórico.

Às vezes, através dos sites jihadistas, encontram-se com outros com idéias semelhantes. O grupo é fundamental. O grupo reforça suas convicções e lhes oferece a identidade. Sentem-se à vontade apenas no pequeno grupo de indivíduos com quem dividem tais convicções rejeitadas, inclusive, por pais, por familiares, por amigos da mesquita. Sentem que são eles mesmos apenas quando no pequeno grupo de radicais.

Mas para que este grupo transforme-se numa célula terrorista falta ainda um passo: um deles faz uma visita a um país muçulmano – pode ser o Afeganistão, o Paquistão, o Iraque; é algum lugar onde encontram-se com terroristas de fato e treinam. Ao retornar para a Itália ou Inglaterra, Espanha ou França, este indivíduo, ainda que mal treinado, será o líder que planejará alguma ataque. Só quando todos estes elementos se encaixam acontece de uma célula terrorista potencialmente perigosa formar-se.

E é assim que os sistemas de inteligência descobrem terroristas potenciais. Observam as mesquitas e vêem quem costuma andar em grupos fechados. Sonda suas fichas, busca saber se alguém viajou ao exterior e para onde foi, se informa a respeito do tipo de discurso que os indivíduos costumam fazer. Quando elementos desta formação de identidade começam a se mostrar nítidos, é a hora de apelar para escutas telefônicas. E, assim, muitos atentados foram evitados.

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Uma entrevista aos sábados

29/September/2007 · 13 Comentários

Meus pais sempre lembram disso, desde menino – uma certa desobediência em relação àquilo que era norma. Começa pelo meu próprio nome. Nasci António e, quando tinha dois anos e meio, decidi que queria me chamar Mia, pela relação de afeto que tinha com os gatos. Eu pensava que era um deles (risos). Mais tarde, a poesia foi uma escola de desobediência, de transgressão. E havia uma outra condição: o português de Moçambique, sendo o mesmo do de Portugal, não fala àquela cultura. Senti desde sempre a necessidade de desarranjar aquela norma gramatical, para deixar passar aquilo que era a luz de Moçambique, uma cultura de raiz africana. A descoberta dos escritores brasileiros foi uma felicidade imensa para mim, pois eles já estavam fazendo isso: usando a língua portuguesa, mas com uma outra marca cultural.

Não faço guerra contra a reforma, mas acho absolutamente absurdo o fundamento da necessidade de fazê-la. Evidente que é uma coisa convencional, não vai mudar a fundo as coisas, mas as implicações que isso tem do ponto de vista econômico acabam sempre por sobrar para os países mais pobres. Com esse dinheiro pode se fazer coisas mais importantes como, por exemplo, ampliar o conhecimento que temos uns dos outros. Circulo por São Paulo e grande parte das pessoas nem sabe o que é Moçambique. Nunca tive dificuldade em ler livros escritos na grafia brasileira; muito pelo contrário, me satisfaz muito haver essa diferença. No fundo, há uma familiaridade e uma estranheza que são importantes de estar registradas. Acho que a reforma não faz sentido, não subscrevo.

É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida. Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto. Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta. Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história. Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.

Há um verso de um poeta moçambicano da Frelimo que ilustra isso muito bem. “Não basta que seja pura e justa a nossa causa; é preciso que a pureza e a justiça existam dentro de nós.” Faltou isso em muitos dirigentes políticos. Por outro lado, também é verdade que quem está no poder tem que entrar numa lógica de gestão, na qual é muito difícil perceber onde está o limite entre a traição do princípio e o momento de adaptação ao mundo real. Isso é muito difícil de gerir. Vivi esse processo porque eu era da Frelimo, da oposição, e pensava que a conquista do poder seria o fim do poder – no sentido que todos teriam o poder.

Mia Couto.

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Efeméride

25/September/2006 · 28 Comentários

Em novembro de 1956, soldados britânicos e franceses tentaram recuperar o domínio do Canal de Suez, que havia sido conquistado pelo líder egípcio Gamal Abdul Nasser. Há muitas dolorosas semelhanças entre as operações de Suez e do Iraque mas há também uma diferença crucial: ao invés de liderar o ataque (ou de tramar a emboscada), a Casa Branca estava em fúria. O presidente Eisenhower ligou para o [premiê britânico] Éden, ‘Anthony, você enlouqueceu?’ Mas isto foi no tempo em que até um secretário de Estado conservador via seu trabalho como o de conquistar a ‘amizade e compreensão dos países recentemente independentes que escaparam do colonialismo’.

Desde então, houve uma incrível inversão de papéis. Em 1956, não apenas Londres e Paris agiram em conluio secreto com Tel Aviv como os EUA eram quase hostis a Israel e à idéia de aventuras ocidentais no Oriente Médio. Hoje, Blair talvez até pondere se não deveria ter sido um amigo franco do presidente Bush como Eisenhower foi de Éden, aconselhando-o a esquecer o projeto ao invés de apoiá-lo ‘até o fim’.

50 anos, pois. E os europeus rodaram no final. via Arts & letters daily

Tags: Europa · História · Oriente Médio · África

Tempos modernos

1/June/2006 · 44 Comentários

Para certas coisas, dependemos apenas do ângulo pelo qual as vemos. Brendan O’Neill, da Sp!ked vê assim:

Nas últimas seis semanas, uma força de segurança ocidental tomou a pequena nação africana da Namíbia. Um resort litorâneo em Langstrand foi interditado por cord?es de segurança e homens armados têm mantido tanto estrangeiros quanto nativos afastados. Uma zona de vôo proibido foi criada em parte do país. Os ocidentais também exigiram que o governo da Namíbia restringisse o acesso de jornalistas ao país. O governo concordou e, de acordo com uma organização de direitos humanos, agiu com “força e brutalidade”, banindo certos repórteres.

No entanto, a força de segurança estrangeira não é o exército norte-americano ou de algum país europeu saqueando os recursos naturais ou ameaçando derrubar seu governo. É a equipe de Brad Pitt e de Angelina Jolie, o casal de celebridades mais conhecido por viver em LA do que num país favelizado. Eles queriam ter seu primeiro filho na Namíbia porque o país é o ‘berço da humanidade’ e parece que esta seria uma experiência ‘especial’. E ao que tudo indica nenhuma medida de segurança é abusiva se é isto o que custa para fazer com que a senhora Jolie se sinta especial. Bem-vindos ao novo mundo do colonialismo de celebridades.

Ora, pois. via Arts & letters daily

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