No tempo da censura

03/August/2009 - 13h44 - 77 Comentarios

Houve um tempo em que a censura à imprensa, no Brasil, era política de Estado. A TV Estadão fez este documentário que segue a respeito – é um bocado interessante.

De volta; é hora

03/August/2009 - 00h01 - 116 Comentarios

Bom dia. A caminho dos 1.700 comentários, é? Caramba. Este é um recorde.

Foram, estas últimas, três semanas agitadas que culminaram, na última sexta-feira, com a liminar conseguida por Fernando Sarney, filho do presidente do Senado José Sarney, que ordenou ao Estado que retirasse do ar as gravações sobre as quais não posso – na condição de editor-chefe do portal do jornal – falar.

Mesmo se todos os veículos de imprensa do Brasil fossem ordenados pela Justiça a se calar, uma característica fundamental da Internet permanece: a informação continua lá.

O Estado de S. Paulo tem trabalhado duro, nestes últimos meses, para levantar os bastidores de como opera o Senado federal. Jornalismo serve para isso: iluminar o que é de interesse público, porem não ocorre às claras.

Nestes próximos meses, vou ter que reaprender a blogar.

A tradição da imprensa é a de que o editor-chefe é discreto. A voz de um jornal se divide entre seus colunistas e editorialistas. Mas a Internet muda um pouco o jogo. Ser blogueiro não é apenas questão de método; a coisa se incrusta na alma. Não sei se é possível conciliar as duas posições, então vamos aprender juntos como fazer. Este contato entre imprensa e seus leitores, transformados nos tempos da Internet eles próprios em produtores de informação, é fundamental. Gosto de participar dele. Como sempre, podem esperar de mim total franqueza.

Por aqui, o tema principal continua sendo política internacional, mas há uma eleição presidencial no ano que vem. Uma eleição que ocorrerá principalmente na web. São tempos interessantes.

Agora que é agosto, o Weblog está para fazer sete anos. Hora de voltar ao trabalho.

O adeus a Walter Cronkite (1916-2009)

19/July/2009 - 11h29 - 115 Comentarios

Walter Cronkite, que morreu ontem aos 92 anos, foi um dos mais importantes nomes do jornalismo norte-americano de tevê. Ele representou, também, uma era que alguns de nós pegamos e muitos só conhecem por livros de história.

Houve o tempo em que veículos noticiosos com alcance nacional eram raros. Por quase vinte anos, entre as décadas de 60 e 70, Cronkite foi o principal âncora do principal telejornal da CBS. Ele anunciou ao vivo o assassinato de John Kennedy em uma das primeiras coberturas ao vivo da história.

No Brasil, o telejornalismo foi até bem tarde coisa para locutores. Cronkite não era do tipo – era repórter. A Guerra do Vietnã acabou de fato para o americano médio quando o veterano jornalista foi ao país e na volta declarou que o conflito havia chegado a um impasse. (O presidente Lyndon Johnson, quando ouviu Cronkite dizendo isso no telejornal, comentou com seus assessores – ‘perdemos a guerra na opinião pública’.)

Ele foi a voz ‘oficial’ dos EUA – uma voz que seguia a tradição de não se curvar ao governo. Era um grande editor de jornal, homem seriíssimo.

É bom que não exista mais ninguém como Cronkite, com tanto poder por representar quase sozinho informação confiável. Por outro lado, no tempo de Internet, com uma multiplicidade de vozes, a cacofonia às vezes faz ficar difícil descobrir que informação é confiável. Tudo parecem versões.

O jovem repórter que a CBS tinha em Dallas quando Cronkite confirmou a morte de Kennedy se chamava Dan Rather. Foi Rather que, em 1979, recebeu o bastão do CBS Evening News de Cronkite. Ele só foi cair em 2004, quando um grupo de blogueiros republicanos o derrubaram durante as eleições que recolocariam George W. Bush no poder. Rather, um repórter ainda mais repórter que Cronkite, veterano de inúmeras coberturas, o primeiro homem a entrar no Afeganistão invadido pelos soviéticos, presente na Queda do Muro de Berlim, na Praça Tiananmen, o homem que desafiou Richard Nixon e George Bush (pai) ao vivo, o homem que caiu porque já não dava para existir um Cronkite nesse mundo.

Cronkite marcou uma era que já não é mais possível.

De volta ao Estadão

07/July/2009 - 21h36 - 162 Comentarios

Prezados leitores: hoje à noite o anúncio oficial foi feito lá no Estadão, agora posso compartilhar a notícia com vocês. Na segunda-feira que vem, volto à redação em São Paulo e assumo o cargo de editor-chefe de conteúdos digitais.

Sim: é uma mudança de planos e de rumo. É também um desafio e tanto.

Imagino que vocês tenham uma infinidade de perguntas. Ainda não tenho a resposta para a maioria delas. Sei que haverá muito trabalho pela frente e um ano intenso com Copa e eleições nacionais. Se não bastasse, tenho a missão difícil de substituir ao Marco Chiaretti, que além de muito bom sujeito é um dos mais experientes jornalistas de web no Brasil.

O que certamente não muda: continuo convicto de que a Internet é uma conversa com múltiplas vozes. O objetivo é participar ativamente deste diálogo. O Weblog continua, mas será transferido para lá. Permaneço assíduo cá nas caixas de comentários. Minha presença no Twitter segue.

Estou há três anos morando fora da mesma cidade onde vive Laura, minha filha. A idéia era que isso mudasse. Ainda não foi dessa vez. Foi, pessoalmente, uma decisão difícil. Dá um aperto desgraçado. Mas, agora, a infra-estrutura para ir e vir será mais fácil, poderemos nos ver com mais frequência.

Quanto ao Pandorama, projeto que estava começando apenas a nascer: ainda não sei. Tenho várias conversas pela frente.

Onde está Maziar Bahari?

01/July/2009 - 00h30 - 62 Comentarios

Ontem, a agência de notícias iraniana Fars informou que o repórter Maziar Bahari, da Newsweek, deu uma entrevista coletiva na qual admitiu que sua cobertura das eleições presidenciais do país era tendenciosa em favor de Mir Hossein Mousavi. Bahari informou que faz parte da máquina capitalista que tem por objetivo questionar a legitimidade da eleição. Segundo a Fars, ele disse ainda que além de sua Newsweek, CNN e New York Times também fazem parte do complô internacional.

Não há, ainda, como confirmar se essa coletiva ocorreu de fato ou não.

Bahari, conhecido do Ryff, trabalha em Teerã com um amigo meu, o também repórter da Newsweek Babak Dehghanpisheh. Quando foi preso em sua casa, Babak de presto escreveu a todos que conhecia pedindo publicidade máxima para o assunto. Ambos são repórteres ideais para trabalhar no país por sua origem persa. Conhecem a cultura e a língua, embora tenham sido criados no exterior. A contrapartida é que o governo do Irã os considera cidadãos – e os trata como trata seus cidadãos.

A ‘confissão’ em entrevista coletiva de Bahari assusta. Era um jornalista tentando relatar o que se passa no país – agora diz fazer parte de um complô que não existe. Ou está assustado o suficiente para dizer qualquer coisa para se libertar. Ou o pior já aconteceu.

A Newsweek pediu publicidade máxima justamente para evitar o que parece ter ocorrido. Quando uma ditadura cruza esta linha, a de torturar jornalistas estrangeiros, em geral consegue o que quer: bloqueia o fluxo de informação para fora. Na era do Twitter, talvez seja um gesto inútil de desespero.

Mas se havia dúvidas de quem estava no comando, é a linha dura.

Conversa com a trupe do Blog da Petrobras
Hoje, às 16h, em Porto Alegre

25/June/2009 - 11h30 - 26 Comentarios

Minha conversa com a turma do Blog da Petrobras será às 16h (hora de Brasília). A transmissão ao vivo será feita pela TV Software Livre.

Era tempo

18/June/2009 - 05h33 - 132 Comentarios

O STF definiu, agora, todo jornalista é jornalista.

Jornalismo, perdoem os companheiros de profissão que discordam, é uma forma de exercício da liberdade de expressão. É um direito de todo cidadão, não pode ser restrito. E, em tempos de novas mídias que põem nas mãos de qualquer um os meios de publicar e distribuir informação e opinião, a lei era impossível de funcionar.

Ainda a Petrobras, direto do Panamá

10/June/2009 - 13h46 - 149 Comentarios

Daqui do bravo Aeropuerto Internacional de Tucumán, não longe da Ciudad de Panamá, não resisti e saquei o computador para fuçar o que se fala por aí.

Tem horas que nada resolve melhor uma discussão do que o bom humor e o blog PetroPerguntas é genial: petroperguntas.blogspot.com.

Todos os jornalistas que cobrem a Petrobras, portanto, que estejam convocados a listar todas as perguntas que a empresa se recusa a responder. Por que seguir apenas metade do caminho da transparência, não é?

via Dicas de um fuçador

A Petrobras e a imprensa golpista

08/June/2009 - 06h22 - 314 Comentarios

Na semana passada, acompanhei atento a conversa entre dois amigos – Sergio Leo e Idelber Avelar – sobre a “imprensa golpista”. Neste domingo, recebi não um, não dois – mas oito emails me perguntando se existe a instituição do “sigilo de pergunta” de jornalistas. Trata-se, evidentemente, do já polêmico blog da Petrobras. Os dois assuntos estão relacionados.

Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.

É só má assessoria de imprensa.

A Petrobras decidiu comprar uma guerra contra os jornais, quebrando seus furos. Tem o direito, evidentemente. Do ponto de vista político, escolheu o alvo errado. Não é a imprensa que está em guerra contra a Petrobras. Quem pôs a Petrobras no centro do picadeiro foi a oposição ao governo federal, com o objetivo de fazer chantagem política. A diretoria da Petrobras talvez esteja convencida de que a grande imprensa e a oposição política são a mesma coisa. Mas não são – são bichos com interesses absolutamente diferentes.

Se o único objetivo da Petrobras fosse realmente transparência, era muito simples resolver: publica perguntas e respostas logo após os jornais levarem ao ar suas informações exclusivas.

O pior que uma empresa de assessoria de imprensa pode fazer para seus clientes é perder a relação de confiança com repórteres e editores. Essa confiança, afinal, é o que a sustenta. Lição básica que quem é do ramo conhece. Se pode fazer algum sentido a curto prazo – os suspeitos de sempre vão elogiar, afinal – a médio e longo prazo, tem gente arruinando a própria reputação.

Mas esta é uma questão acessória.

A questão real, a discussão principal da qual esta polêmica é só um capítulo, é a relação entre imprensa, empresas, governo e público. Estou longe das redações, então não sei como essa discussão está sendo encarada nas diretorias. Se eu tivesse que chutar, apostaria que ninguém está percebendo: a credibilidade da imprensa brasileira está lentamente sendo minada.

Isso aconteceu aqui nos EUA alguns anos atrás e marcou o início da crise da indústria. Aqui foi igual, mas trocaram os sinais: a imprensa era acusada de estar a serviço da esquerda – the liberal media – e os cães de ataque do governo Bush, no rádio e na Internet, fizeram de tudo para derrubá-la. Some-se o bombardeio a uma série de erros cometidos nas redações, de Dan Rather na CBS ao New York Times, e pronto.

Aqui no Brasil é igual. Quem tem o poder político acusa a imprensa de estar a serviço da oposição e erros da própria imprensa colaboram para a ilusão. A diferença é que no Brasil a grande imprensa não se manifesta. Continua a tocando sua vida como se não houvesse um bode no meio da sala.

Ela ignora o problema porque acredita que as acusações são isoladas – uma meia dúzia de blogueiros que perderam seus empregos nas grandes redações e a outra meia dúzia que os segue. A questão é que a acusação de que a imprensa é partidária ressoa perante o público. Muitos dos leitores, inclusive aqueles mais atentos, acreditam que o trabalho jornalístico está a serviço de interesses que não são, necessariamente, os do público.

A crise que a imprensa vive hoje nos EUA começou assim.

Depois, quando a estrutura de financiamento da indústria começou a ruir, a grande imprensa precisou argumentar sobre sua importância para a democracia. A questão é que os leitores não acreditam. A imprensa dos EUA vive sua maior crise de credibilidade na história justamente na época em que mais precisa de credibilidade.

A imprensa brasileira deveria começar a atacar essa questão agora. As empresas que prestam assessoria de imprensa para a Petrobras podem estar cavando a própria cova no futuro mas, desatenta, a grande imprensa não percebe que a ação de hoje faz parte de um contexto que ameaça sua existência.

Para garantir sua sobrevivência no futuro, os grandes veículos de imprensa no Brasil precisam começar imediatamente um processo de conversa com os leitores. Devem apostar radicalmente na transparência de seus processos internos. Não podem apostar que os leitores confiarão apenas pelos seus olhos: têm que ganhar a confiança.

Não estou, aqui, dizendo que todos os veículos fazem jornalismo de primeira ou que erros não tenham sido cometidos. E é claro que devemos discutir cada um dos erros. Aliás: é justamente pela discussão e admissão aberta e franca, pela imprensa, de seus próprios erros, que passa a solução. A instituição imprensa é fundamental para a democracia e alguém tem que fazer jornalismo que não seja partidário. Se quem faz não é percebido assim, há um problema de comunicação que precisa ser imediatamente corrigido.

Atualização – À moda da imprensa norte-americana, e para fazer jus à transparência que cobro, devo dizer que – como muitos brasileiros – tenho ações da Petrobras, portanto pode-se argumentar que tenho interesse financeiro direto no sucesso financeiro da empresa. Acaso alguém dentre os leitores não o saiba, sou colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Fui colunista da Folha de S. Paulo, já escrevi para alguns títulos da Abril e fui funcionário tanto da Rede Globo quanto da GloboPar. Quando falo sobre a grande imprensa, portanto, falo de dentro, com todas as vantagens (informação sobre como funciona) e desvantagens (me paga o salário) que possam haver.

Link no ar

03/June/2009 - 01h59 - 16 Comentarios

Estreou hoje o novo canal de tecnologia do Portal Estadão – é o Link online, versão web e diária do caderno que circula às segundas no Estado e às quartas no Jornal da Tarde.

Sou colunista do Link há quatro anos – e já era tempo de ele ter participação mais ativa na web. Seria talvez falta de modéstia dizer que é o melhor caderno de tecnologia que há no impresso brasileiro. Mas como não participo da edição e apenas raramente escrevo fora do quadro onde fica a coluna, posso dizer isso tranquilo, ciente de que nada é minha culpa ou meu mérito. O caderno passou por mudanças editoriais, agora, deixando as mãos competentes de Otávio Dias. O porraloca do Alexandre Matias assumiu – vai longe.

Será um caderno menos voltado a instrumentos e mais à cultura, ciente de que tecnologia é cultura. Já é minha leitura diária.

Richard Gingras e a estrutura
do noticiário na web

01/June/2009 - 05h09 - 34 Comentarios

Uma das pessoas mais fascinantes que conheci aqui no Vale do Silício é Richard Gingras, até poucos meses atrás executivo do Google e hoje, além de consultor para empresas jornalísticas, voltou a assumir a presidência da Salon.com, site que fundou. Ele tem na cabeça um modelo sobre como websites noticiosos deveriam ser. É o assunto ao qual se dedicou exclusivamente nos últimos anos.

Este é o Episódio 2 do webcast sobre o encontro do Vale do Silício com o jornalismo. Desta vez, a pedidos, acompanha um post escrito. Você pode encontrar o webcast na loja do iTunes, pode assiná-lo via iTunes ou por RSS.

Sempre acho graça quando alguém faz uma divisão de mundo entre os jornais, que seriam estruturas antiquadas que mal conseguem se adaptar à web, e os blogs, seus sucessores no mundo contemporâneo. Há muitos motivos pelos quais a idéia não se sustenta. Um deles é que a web é nova o suficiente para que tanto empresas jornalísticas tradicionais quanto as novas precisem de ajuda. Mostra disso é que dentre os principais clientes de Gingras estão o New York Times e talvez o melhor blog político dos EUA, Talking Points Memo.

A primeira observação de Gingras é que nós, jornalistas, somos obcecados demais com a primeira página. Durante toda nossa história, foi a primeira página pendurada nas bancas que convencia o leitor de comprar o jornal. Só que, na web, a maioria dos leitores não procura o site noticioso em si – procura alguma informação específica. E, quando ele quer essa informação, vai pro Google. Para o videocast, quebrei os principais conselhos de Gingras em três regras.

1. Pense no exemplo da Wikipedia. Se quando o leitor busca o nome de um senador ele encontra antes um artigo da Wikipedia e só alguns resultados abaixo uma notícia de jornal, tem um motivo. O artigo da Wikipedia concentra informação constantemente atualizada sobre toda a carreira do sujeito. A informação que o leitor busca está mais provavelmente lá do que em qualquer notícia.

2. A unidade da notícia mudou. Costumamos, jornalistas, a pensar na edição inteira. Mas quando o leitor chega ao nosso site, ele não busca mais a edição. Procura uma notícia que lhe interesse. Assim como ele antes comprava um disco inteiro e hoje, aqui nos EUA ou na Europa, vai na web e compra apenas a música que lhe interessa. Para o leitor que busca informação sobre um assunto específico, não lhe importa muito a fonte. Então a questão é: como bater a Wikipedia e virar a fonte deste leitor?

3. Páginas temáticas, matérias vivas. Quando Sonia Sotomayor foi indicada pelo presidente Barack Obama para ocupar uma cadeira na Suprema Corte, o New York Times de presto levou ao ar uma topic page sobre a juíza. Tudo que sai no jornal sobre ela está lá, organizado. É um microsite. Por causa de Gingras, o Times tem várias topic pages. A esperança é de que, com o passar do tempo, estas páginas ganhem proeminência nas buscas. A alternativa às páginas temáticas são matérias vivas, constantemente atualizadas. A chave é que estejam sempre no mesmo endereço. Estrutura, aqui, é importante. A Wikipedia acertou a manha da estrutura de cada uma de suas páginas, o Times ainda não. Mas é, dentre os jornais, quem está caminhando mais rápido para pensar web, não papel.

Propaganda à moda Talibã

25/May/2009 - 13h47 - 37 Comentarios

O Council of Foreign Relations tem um novo relatório na praça que mostra que aquele antigo Talibã, meio ignorante das coisas do mundo, circunscrito ao Afeganistão, já não existe mais. O grupo está dando uma surra nos EUA: é capaz de se comunicar melhor, expor seu ponto de vista, dominar a discussão.

Após um ataque norte-americano no Afeganistão ou norte do Paquistão, o Talibã demora menos de meia hora para ter um comunicado oficial sobre número de mortos, feridos e outros detalhes. É a sua versão que chega primeiro à imprensa, e já circula o mundo pela BBC de Londres antes de os EUA terem começado a explorar o tema. Não é só a imprensa em inglês: aquela em Dari e Pashto, as línguas locais, e a em árabe, no Oriente Médio, também pode contar com o Talibã para ter notícias rapidamente. (Imprensa precisa de notícia, algum tipo de notícia, e na pressa, o primeiro a dar informação oficial leva o prêmio. No dia seguinte, nenhum leitor lembra do ’segundo informou o Talibã’, só lembra o número de mortos.)

O grupo opera uma rádio local, distribui centenas de programas para outras rádios, além de fitas cassete, um dos meios típicos aos quais afegãos e paquistaneses do norte, pobres, têm acesso. Para ir além da região, fazem uso da Internet. Nem tudo em sua estratégia é cordial – entregam localmente aquilo que, naquele canto do mundo, chamam de ‘cartas noturnas’, ameaças por escrito depositadas à porta no meio da noite para lembrar quem manda. Os EUA – com um histórico de habilidade em comunicação e propaganda em tempos de guerra – ainda não aprenderam a operar.

Sem justificar seus atos e explicar o que faz, não há chances de vitória neste tipo de guerra.

Obama segundo Obama

20/May/2009 - 05h21 - 71 Comentarios

A Newsweek saiu reformulada, esta semana. Está mais Economist, menos Time. Quer ser uma revista diferente e emula o exemplo de quem aumenta em vendas. Na capa, para marcar que é especial, Obama por Obama, uma entrevista exclusiva com o presidente norte-americano.

O que o senhor aprendeu ao acompanhar o Partido Republicano nos últimos 115 dias?

Aprendi que, assim como o ocorreu com o Partido Democrata após a vitória de Ronald Reagan, o Partido Republicano esteve por um tempo no poder e está com dificuldades de se ajustar ao status de minoritário. Ainda não conseguiram refletir sobre o que ocorreu. No período inicial, muitos insistem em falar apenas à base, ao invés de se dirigir ao povo norte-americano de forma mais ampla. Suspeito que eles vão acabar se ajustando. Tem gente inteligente, lá, e muitos deles podem discordar de mim em determinadas políticas mas, acredito, têm convicções concretas e querem que o país melhore. [...]

Qual sua reação às críticas recentes do ex-vice-presidente Dick Cheney?

Sabe, Dick Cheney tem opiniões fortes a respeito de segurança nacional. Suas idéias foram testadas nos primeiros anos do governo Bush e, na minha opinião, resultaram em decisões ruins. O que considero mais interessante é que Dick Cheney perdeu sua briga interna mesmo dentro do governo Bush.

No início, ele pode ter levado a melhor contra Colin Powell e Condi Rice, mas nos últimos dois ou três anos do governo Bush, os republicanos perceberam que essas técnicas de interrogatório que eles aplicaram desde o início não eram produtivas. Perceberam que nunca conversar com seus inimigos, agir apenas unilateralmente, considerar que segurança nacional é apenas a aplicação de força unilateral não resolve problemas.

O repórter Jon Meacham também descreve como é uma conversa com Obama:

Conversar com Obama é acompanhar uma performance de habilidade psicológica e intelectual. A maioria dos políticos instintivamente tentam desarmar jornalistas fazendo algum tipo de conexão pessoal. Comentam sobre o último artigo do repórter, lembram de algum momento da última vez em que se viram. (Em geral, os comentários são sugeridos por alguém de sua equipe minutos antes da conversa.) Não importa quão conscientes do truque sejamos, o reflexo humano natural é sentir-se bem – ‘talvez ele esteja fingindo com outros, mas acho que ele realmente gostou do meu texto’.

Na experiência que tive, Obama é diferente. Ele não gasta muito tempo com conversa fiada. Não flerta com jornalistas. A conversa é trabalho, tempo é valioso, vamos direto ao ponto. Quando responde perguntas, seu olhar é mais intenso em dois tipos de momento. Quando ele está repetindo pela enésima vez um argumento sobre o qual pensou profundamente. E quando acaba de conseguir refinar um argumento, naquele momento, durante a conversa.

A crise da imprensa virá

19/May/2009 - 04h29 - 89 Comentarios

Este é o Episódio 1 do videocast cá do Weblog. Ele pode ser assinado por RSS ou pelo iTunes.

Aprendi um bocado, aqui no Vale do Silício, ao longo dos últimos 10 meses. Foi um bocado de tempo pesquisando, lendo, entrevistando e discutindo o impacto da tecnologia na imprensa e na democracia. O projeto inicial era começar a escrever uma série de posts explorando cada tema. Mas decidi optar por outro formato – o destes videocasts. Eles têm inspiração: Larry Lessig. Professor aqui de Stanford e um dos maiores especialistas em Internet e Política que há, ele adaptou suas palestras ao formato de vídeo.

Estes não são exatamente palestras. São, por assim dizer, posts ilustrados. A princípio, serão curtos.

O primeiro episódio trata da Regra dos 30%. Se o estudo de um jornalista respeitado pacas aqui dos EUA estiver certo, a grande imprensa brasileira está a dois anos de encarar sua crise.

No dia em que a colunista do
New York Times plagiou o blogueiro

18/May/2009 - 15h03 - 28 Comentarios

Maureen Dowd é uma das colunistas mais respeitadas da página de opinião do New York Times – e isso não é pouco. Repórter experiente, responsável.

Mas ontem, em sua coluna, plagiou Josh Marshal, editor do TPM, um dos melhores (se não for o melhor) blogs políticos dos EUA.

Dowd simplesmente copiou e colou o parágrafo em sua coluna dominical. Mudou duas palavras. Só.

Flagrada, pediu desculpas como cabe. Explicou que conversava com uma amiga ao telefone e ela sugeriu um conceito que Mrs. Dowd imediatamente anotou para incluir no texto. O que a explicação não explica é como, de uma conversa ao telefone, veio um parágrafo inteiro, palavra por palavra.

No momento em que a grande imprensa dos EUA tenta explicar por que é melhor do que blogs, pega mal uma das vozes mais importantes do jornal mais importante copiar blogs sem dar crédito. (Blogs muitas vezes copiam sem dar crédito; Josh Marshall sempre diz de onde tirou suas citações.)

Mrs Dowd é experiente. Provavelmente não sabia que estava copiando e colando Marshall. Se o soubesse, não o faria. Seria desmascarada imediatamente, claro. Copiou e colou de algum email e achou que não havia problema. Sempre há.

Quando o NoMínimo era jovem, vivi isso. No Jornal do Brasil, a colunista Márcia Peltier pescou um texto meu, quebrou-o em notas e publicou sem citar a fonte. Ela não sabia que o material vinha do NoMínimo. Recebeu-o por email. Desmascarada, ao invés de pedir desculpas, acusou a mim de ter plagiado outro texto. No tal texto, não havia praticamente nenhuma das informações que eu listara.

A Internet está aí e é tentador copiar e colar. Continua feio. Muito feio.

Meu nariz e Condi Rice no New York Times

18/May/2009 - 01h51 - 39 Comentarios

condi_rice

É uma reportagem sobre as mudanças no jornalismo e os programas das grandes universidades norte-americanas para jornalistas em meio de carreira. (Inclui, neste caso, a Knight Fellowship, cá de Stanford.)

A foto com a ex-secretária de Estado de George W. Bush foi tirada em março, quando Ms Rice sentou-se conosco para uma longa conversa. Não a citei cá no Weblog por um motivo simples: estas conversas são em off. O que lá é dito serve para que compreendamos um pouco melhor o mundo, uma oportunidade para conversarmos francamente com quem esteve no poder e ouvir aquilo que, em geral, não dizem a jornalistas.

Muito do que ouço acaba fluindo para os posts por aqui – embora nem sempre creditado.

Mais uma conversa ao vivo

08/May/2009 - 11h18 - 11 Comentarios

Daqui a pouco, meio-dia, publicarei o link de áudio aqui para um bate-papo sobre jornalismo, Internet e o Pandorama.

O streaming está aqui.

Pequeno Dicionário Português-Brasileiro

30/April/2009 - 11h46 - 10 Comentarios

(Ou um guia curto para quem deseja trabalhar com publicidade em Portugal.)

Damásio e Castells: a mídia precisa
ir mais devagar com o ritmo

29/April/2009 - 13h45 - 27 Comentarios

Um novo estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) demonstrou que emoções ligadas a valores morais precisam de tempo para se desenvolver no cérebro. Pesquisas do tipo devem sempre ser vistas com um quê de ceticismo. Esta, no entanto, foi realizada ela equipe do neurocientista português António Damásio, um dos mais reconhecidos do ramo.

A implicação é com mídia digital. Qualquer notícia que envolva um drama humano só é compreendida de fato após algum tempo. O ritmo virulento da Internet ou tevê a cabo não permitem este tempo. Como resumiu um colega de Damasio na USC, o espanhol Manuel Castells, ‘para que exista compaixão em relação a sofrimento psicológico, precisamos dedicar um tipo de atenção emocional de forma persistente.’

Damásio e Castells não atacam as redes sociais, espaços de conversação online nas quais, consideram, existe o tempo para que reflexão necessária. Mas a rapidez da tevê ou de alguns video-games os incomodam. Castells: ‘Numa cultura midiática na qual violência e sofrimento são transformados em um programa contínuo, seja na ficção ou no infoentretenimento, começa a nascer uma indiferença a respeito do sofrimento humano.’ Damásio completa: ‘o que mais me preocupa são as justaposições abruptas que você encontra no noticiário. No que elas se relacionam com emoções, já que estes sistemas são por natureza mais lentos, o que precisamos dizer é Um pouco mais devagar, por favor.’

Se estão certos? Os doutores são cientistas respeitados no ramo.

Objetividade de imprensa?

24/February/2009 - 04h12 - 76 Comentarios

Ritmo bom esse lento aí de Brasil no Carnaval =)

Li atento todos os comentários a respeito do post sobre a crise do jornalismo, por enquanto mais norte-americana do que brasileira. O que incomodou a mais gente foram minhas observações a respeito da objetividade da imprensa.

Daqui, estou envolvido nas pesquisas da Escola de Design de Stanford a respeito de como as pessoas se relacionam com o jornalismo. O que ouvimos de um após o outro seguido dum terceiro é que ninguém acredita que a imprensa seja objetiva. Estudantes falam isso. Professores com listas de PhDs o dizem. Donas de casa. Gerentes de loja. Empresários do Vale do Silício. É o mesmo que a IDEO, que citei no último post, ouviu em suas pesquisas em várias cidades grandes dos EUA. E é o que vocês escreveram aqui nos comentários.

Na verdade, é mais bem do que uma mera constatação. Para muitos, qualquer menção a respeito de objetividade jornalística gera animosidade. Os comentários vêm com emoção: ‘os jornais nos enganam’, dizem. Às vezes, a observação vem seguida de um ou dois exemplos específicos. Noutras tantas, ela representa um sentimento difuso.

(Esse assunto me angustia pacas.)

Independentemente de haver objetividade jornalística ou não, o fato é que os leitores e espectadores e ouvintes de noticiários não acreditam nela. E este é um problema crucial para a imprensa. Afinal, ela vive em última instância de credibilidade. É claro que, no momento, a crise econômica foi causada por uma mudança no modelo industrial. A digitalização está chacoalhando muitas indústrias, não apenas a jornalística. Mas neste processo de transferência do papel e da tevê para o TCP/IP, onde a concorrência por atenção será muito mais vasta, o jornalismo profissional precisará contar com sua credibilidade.

Mais importante do que se eu, jornalista, considero a imprensa objetiva ou não, é o fato de que vocês não a consideram. Mas é bom não confundir que a questão é mais profunda: é possível ter credibilidade sem ser isento? Ser objetivo é ser isento? É possível ter ideologia declarada, partido escolhido, e ainda assim apresentar os fatos honestamente? Essas não são questões triviais.

Quando disse que a imprensa brasileira é, hoje, mais profissional e objetiva do que em qualquer outro momento de sua história, é porque realmente esta é minha impressão. Ela certamente não o era nos anos 1940, 50, 60. Em plena censura, nem dava para ser. Há histórias complicadas nos anos 80. Dos anos 90 para cá, há melhoras nítidas no cenário geral. Não quer dizer que um ou outro exemplo não salte aos olhos no sentido contrário. Eu já vi coisas feias acontecendo em redações – mas foi em redações de jornais de médio porte. (Certa vez, fui demitido por sugestão de um governador. Não foi na grande imprensa.) É difícil, hoje, um jornalista de grande redação se corromper como acontecia no passado. Mesmo as colunas sociais – onde havia espaço de sobra para dinheiro circular – foram limpas nos últimos anos.

Esta, certamente, não é a percepção dos leitores. Há certeza de que interesses misteriosos (ou não tão misteriosos) conspiram para dar o enfoque das notícias. Alguns suspeitam que jornais estão envolvidos no projeto político de um partido ou de outro. (Basta ler o que se diz na Internet.)

E minha impressão é de que a grande imprensa não está atenta ao fato de que há uma crise de credibilidade no ar. Vez por outra, um grande jornal ou grande revista publica lá um artigo ou reportagem oficial para falar de si mesmo, revelar algum momento de sua história. Quando um texto destes tem que sair, um dos mais graduados jornalistas da Casa é selecionado, vários olhos relêem o texto, é uma noite de fechamento tenso. É o assunto que domina a redação. Jornais e revistas não gostam de falar de si mesmos. E, quando falam, de tão relidos e cuidadosos, os textos vêm com aquele tom oficialesco como quem diz: é isto que quero falar agora, nada mais tenho a declarar.

Não é à toa que não há uma coluna de mídia na grande imprensa brasileira. Quer dizer – há – adoro, diga-se, a Toda Mídia de Nelson de Sá, na Folha de S. Paulo. Mas Nelson descreve como a imprensa está noticiando, não noticia o que se passa na imprensa. Não há, no Brasil, um colunista como Howard Kurtz, que cobre a imprensa para o Washington Post. O Post cobre sua própria indústria como cobre as outras indústrias ou a política. (E, mesmo aqui nos EUA, há Kurtz é mais ninguém; ele é a exceção, não a regra.)

O resultado é que o público percebe: está ali uma indústria opaca, talvez a única indústria que não sofre de fato o escrutínio da imprensa. É natural que desta percepção nasça desconfiança. Falta transparência, falta mostrar como a salsicha é feita.

Se houvesse transparência, nem todas histórias a sair publicadas seriam bonitas. Mas o público, ainda mais nesta era de Internet, é maduro. Ele sabe que nem tudo no mundo é perfeito. Talvez, para sua surpresa, uma indústria tão defensiva como a da grande imprensa descobrisse que ela é justamente a quem tem mais a ganhar se recebesse a mesma luz que joga sobre o resto do mundo.

Atualização – Só porque o assunto está pairando e é importante deixar algumas coisas claras: ditabranda é o cacete. O que houve no Brasil foi a interrupção da democracia, seguida por um regime autoritário que rasgou a Constituição seguida da declaração de direitos os mais básicos do homem, assumiu a tortura como política de Estado e por fim tornou-se a máquina mais corrupta a jamais governar o país. Ditadura. Uma ditadura incompetente que deixou a economia na lama, uma ditadura brutal que, quando teve a chance, matou. Um regime de raiva. Mas o editorial da Folha, assim como a estranha por deselegante resposta aos professores Fabio Comparato e Maria Benevides, foram publicadas na parte de Opinião do jornal. Não na de noticiário.