[…] A surpresa foi a recepção reservada aos jornalistas estrangeiros – uma pequena mostra de como a China está determinada a impressionar o mundo e, principalmente, a não deixar que nada atrapalhe os seus planos. Logo na alfândega, fila especial para os portadores de crachá olímpico. Enquanto os outros passageiros se espremiam no guichê vizinho, eu passei sozinha pela minha fila vip. Do outro lado, me aguardava um chinês de pouco mais de vinte anos de idade, vestido com uniforme nas cores oficiais das Olimpíadas. Apresentou-se como voluntário incumbido de recepcionar a imprensa, perguntou como tinha sido a minha viagem, me ajudou a pegar a bagagem, a trocar dinheiro e a alugar um celular – sempre gentil, sempre com um sorriso nervoso no rosto. Se alguma coisa ameaçava demorar ou dar errado, meu amigo voluntário ficava muito aflito. Quando fui me despedir, ele estava na companhia de seis policiais em uniforme verde. Juntos, todos me escoltaram até um táxi: quatro postaram-se ao lado do carro, um se dirigiu à motorista para dar o endereço do meu hotel e outro sacou uma filmadora com a qual registrou a placa dianteira e traseira do veículo. Quando o táxi deu partida, todos acenaram para mim, dando adeus.
A capa da New Yorker com Barack Obama: sua mulher Michelle se veste como extremista negra dos anos 60, ele como muçulmano radical. Estão no Salão Oval da Casa Branca. Na parede, ao invés do tradicional quadro de Washington, um de Osama bin Laden. Na lareira queima uma bandeira norte-americana.
Deu confusão.
A Vanity Fair ironiza a confusão com John McCain: sua mulher Cindy traz remédios para o candidato, ele, velho que só, se ampara num andador. Estão no mesmo Salão Oval da Casa Branca. Na parede, ao invés de Washington, George W. Bush. Na lareira queima a Constituição norte-americana.
Brincar com os estereótipos de um, não pode. E com os estereótipos do outro?
‘Como homem, não lido bem com a dor’, diz Karis. A propaganda é de um depilador Philips. É a primeira vez em que um anúncio de tevê apresenta não apenas um gay, mas um gay com identidade ‘trans’, andrógino, como personagem principal da narrativa. Conta de seu cotidiano, uma pessoa como qualquer outra.
Está vazando por todo lado, em ritmo de pinga-gotas, detalhes do relatório do delegado Protógenes Queiroz que embasou as prisões de Daniel Dantas, Naji Nahas, Celso Pita e uma penca de outros. O capítulo que tem causado mais burburinho é aquele dedicado à imprensa.
O delegado acusa três jornalistas em particular de serem “colaboradores da organização criminosa”. São eles Leonardo Attuch, da revista IstoÉ Dinheiro; Diogo Mainardi, da Veja; e Andréa Michael, da Folha de S. Paulo.
Não é a primeira vez que o nome da IstoÉ Dinheiro é envolvido neste tipo de circunstância por investigações da Polícia Federal. Em 2005, o publicitário Luiz Lara foi grampeado oferecendo a venda de uma reportagem de capa da revista para Adriano Schincariol, dono da Cervejaria Schincariol. O preço sugerido teria sido de “até um milhão de reais”. Uma capa favorável à cervejaria de fato saiu algumas semanas depois. A Editora Três, oficialmente, negou que houve acordo do tipo. Luiz Lara disse que tinha sido infeliz na declaração.
No caso atual, ainda não vazou absolutamente nada no relatório que indique qualquer negociação direta. É uma acusação bem mais frágil do que a de 2005. As acusações contra Mainardi são circunstanciais. Ele jamais escondeu suas conversas com Daniel Dantas. Fonte jornalística existe de todo tipo. E quem conhece podres da República, em geral, não tem a reputação ilibada. Como muitos dos leitores sabem, não gosto do jornalismo da Veja. Não por ser uma revista conservadora. Mas porque, muitas vezes, os repórteres da revista saem da redação dispostos a comprovar uma opinião pré-concebida, incapazes de mudarem de idéia perante os fatos. Ter problemas com o tipo de jornalismo nada tem a ver com suspeitar que a revista, ou seus jornalistas, estejam à venda.
Paulo Henrique Amorim publicou, em seu blog, um trecho gravado da conversa entre a repórter Andréa Michael, da Folha, e o publicitário Guilherme Henrique Sodré Martins. “Avisa ao Daniel que tenho uma matéria de encomenda para ele”, ela diz. “Tá, vou avisar”, ele responde. Amorim não diz em que contexto se deu a conversa. “Matéria encomendada” fica sendo uma expressão feia de doer dadas as circunstâncias. Mas o ‘feito por encomenda’ é expressão de uso corrente, não quer dizer necessariamente matéria comprada. Tampouco quer dizer que todas as reportagens de Andréa, ou da Folha, sejam favoráveis ao banqueiro. Seria preciso ouvir todas as conversas da repórter com o assessor de Dantas para chegar a alguma conclusão.
Publica a conversa inteira, Paulo. Todas as que você tiver.
É bom lembrar que o delegado pediu ao juiz Fausto de Sanctis a prisão preventiva de Andréa, ele leu o relatório e não a concedeu. Um juiz que deu ordens de prisão para alguns dos homens mais poderosos do país e desafiou o Supremo não teria medo de prender uma repórter. Considerou que não havia provas que justificassem.
Cá não vai uma defesa corporativa vinda de jornalista. Existem jornalistas corruptos e existem veículos que se vendem. Mas a ferocidade com que algumas acusações estão sendo feitas faz parecer que há gente aproveitando o momento para ajustar contas passadas. Nesta hora, fica parecendo que a coisa mais importante a se descobrir no Brasil é quem são os jornalistas corruptos. Estes são ficha pequena. Posso não gostar de Veja, mas os editores da revista têm razão no que dizem esta semana na capa: Fala, Daniel.
Que se prendam os jornalistas que comprovadamente quebraram a lei. Muito mais importante do que isso é Daniel Dantas, que tem a chave de todo grande escândalo do Brasil nos últimos 15 anos. Não é revista ganhando um milhão por venda de capa. São bilhões de reais desviados e empresas que fornecem a infra-estrutura que faz o país funcionar que estão em jogo. É melhor que o processo seja bem feito, bem subsidiado. Melhor que todas as prisões sejam corretas na última vírgula da lei. Quanto mais rigoroso for o processo, maiores as chances de o banqueiro falar em troca de diminuição da pena. Vai ter para todo mundo, entre tucanos e petistas.
Uma organização internacional ineficiente soltou um alerta, ontem, a respeito de uma situação que ela não tem qualquer poder de resolver. É a mais recente intervenção no assunto por um órgão interconvernamental inócuo.
‘Estamos seriamente preocupados com esta questão seriíssima’, disse o líder da instituição, ou ex-ministro de país desenvolvido ou burocrata europeu/norte-americano. ‘É hora de todos acordarmos. É preciso compreender que minha organização existe para algo.’
O diretor do grupo baseado em Nova York, Washington ou agradável cidade européia falou a um público seleto na conferência anual em que estavam presentes ministros de vários países dedicados a cumprimentarem-se enquanto discutiam o assunto da moda nos círculos diplomáticos. A instituição achou por bem justificar sua existência inócua ao juntar-se a outros grupos para chamar atenção para seja lá que crise que tem recebido mais cobertura da imprensa internacional.
‘Governos de todo o mundo devem se unir no combate à situação preocupante do momento’, alertou o diretor. ‘Ainda não é o momento para pânico, mas se demorar muito para que meu instituto ganhe crédito por ter falado a respeito antes, teremos motivos para chamar decretar uma crise.’
Por certo causaram muita surpresa a alguns as seguintes palavras de Diogo Mainardi:
Hoje, terça-feira, bem cedinho, olhei pela janela e vi uma câmara da TV Globo apontada para o prédio vizinho, onde mora Verônica Dantas. Pensei:
– Oba! Daniel Dantas vai ser preso!
Pouco depois, li que Naji Nahas havia sido preso junto com ele. Pensei:
– Oba, oba, oba!
Foi ele quem, em 2005, citou pela primeira vez a relação entre Daniel Dantas e Naji Nahas. Seu último podcast é uma mostra de independência que deve ser respeitada. Hoje mesmo, nos jornalões, nas rádios, há colunistas que não conseguem disfarçar seu desconforto com as prisões.
Quem deu o furo da investigação, ontem, foi Bob Fernandes. Mas, antes dele, a repórter Andréa Michael, da Folha de S. Paulo, já havia publicado que a investigação estava a pleno vapor. Aproveitando-se do número de prisões que estava pedindo, a PF contrabandeou o nome de Andréa. Alegava que ela havia vazado informação de forma ilegal. Bem, o trabalho de jornalista passa por aí. Gente que tem informação secreta é que não devia dizer para repórter. Repórter bom é repórter que ouve, confirma, publica. A PF queria as fontes de Andréa. O juiz achou – acertadamente – que não tinha cabimento.
É muito tentador fazer de um veículo de imprensa um balcão de negócios, principalmente quando há quem deseje comprá-lo.
É muito comum que leitores, quando não gostam do jornalismo de uma publicação, porque discordam ideologicamente ou porque não gostam da qualidade do trabalho de reportagem, achem que o veículo está à venda.
Dentro das redações, a expectativa é grande para saber se alguém da imprensa está envolvido. Presta-se particular atenção em uma revista semanal. Não é a Veja.
A capital de Portugal, Lisboa, é a porta de entrada para a Europa. A cidade está em ascensão turística. O idioma oficial é o português mas fala-se fluentemente o espanhol. É uma civilização marcada por diferentes costumes, de origem européia e africana. Sua arquitetura é essencialmente gótica. Banhada pelo Oceano Pacífico e tendo como principal o rio Tejo, Lisboa tem entre seus vultos históricos nomes importantes da história do Brasil, haja vista que já fomos colônia portuguesa. D. Pedro I e II, D.João VI e Dona Maria Leopoldina, entre outras, figuram em nomes de ruas, museus e demais patrimônios públicos. Lisboa é uma cidade plana, de velhos mas bem conservados casarios, clima tropical úmido, temperatura variável, fria no inverno e quente no verão, mas nada comparável ao calor brasileiro. Graças ao Estreito de Gibraltar, Portugal liga-se também ao Oceano Atlântico. O curioso é que 2/3 da capital portuguesa desapareceram após a II Guerra Mundial, mas o primeiro ministro de então, Marquês de Pombal, providenciou a recuperação das ruínas, com orientação de excelentes arquitetos, preservando a originalidade das construções.
É, como dizer, um Samba do Crioulo Doido. Uma peça bizarra de humor involuntário. Um atroz exemplo de ignorância. Como descrever? Um jogo dos sete erros. (Serão só sete? Quem encontra mais?)
Dion Nissenbaum, diretor da sucursal em Israel do grupo de jornais McClatchy (que inclui o Miami Herald), está a toda com seu excelente blog Checkpoint Jerusalem. A última é o comercial da distribuidora de tevê a cabo Yes.
Falado em persa, com legendas em hebraico, apresenta um ator interpretando o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad falando numa coletiva de imprensa e sendo assistido, via televisão, pelo povo.
Ahmadinejad: Meus irmãos, o urânio está em nossas mãos. Depois de segunda-feira, adeus Israel!
Povo: Adeus Israel!
Homem na coletiva: Como assim adeus Israel? Segunda tem o último episódio de Danny Hollywood (série popular da rede Yes).
Homem vendo TV: Como assim segunda-feira?
Outro na coletiva: As séries Papadizi e Srogim começaram agora.
Homem na rua: Não exploda, Ahmadinejad!
Pessoas na multidão: Estou no meio de um episódio! Vou enlouquecer se a série for interrompida! O que será de Teerã sem mais séries? Vou ficar perdida! O que podemos fazer? Deixe as bombas! Viva as estrelas das series do Yes!
Tem gente que tem o emprego que pediu a Deus e, ainda assim, procura sarna para se coçar. Vejam o caso de Edson Aran. É diretor da Playboy. O sujeito que escolhe que moça cá deste Brasil veremos nua a cada mês. E ainda por cima pode conhecer um bando de gente interessante. (Isso para não falar da bela vista que tem de sua janela para a cratera do metrô da Marginal Pinheiros.)
Mas, como seu lado satirista não dá vazão na revista, fez um site. É um site antigo e tradicional da rede brasileira. Não estava satisfeito, reformou tudo.
Atualização 2 – Comigo, no Roda Viva (fotos), estiveram Lúcia Freitas e Trecker. O Pedro Markun tenta explicar, em seu blog, quais as intenções de interativas da TV Cultura. Fui desconfiando que não ia funcionar. Mas deixar gente conversando a entrevista enquanto ela acontece dá samba. Melhor seria se uma coisa ou outra do que rola no Twitter pudesse chegar ao âncora.
A Justiça brasileira quer tirar o Wordpress.com, domínio sob o qual estão uma penca de blogs, do ar.
A ordem judicial, assinada pelo juiz Maury Ângelo Bottesini, da 31a Vara Cívil de São Paulo, no último dia 19 de março, pede à Abranet – Associação dos Provedores de Acesso do Brasil – que execute o bloqueio de um blog no portal Wordpress.com.
Lá esteve publicado um vídeo de sexo explícito veiculado pelo YouTube e já retirado do ar. Era um caso de violação de privacidade típico da rede. A moça foi filmada, alguém veiculou o filme.
O problema é que os provedores, que oferecem acesso à Internet no Brasil, só podem bloquear o site pelo seu IP – o endereço numérico. Isto representaria tirar uns bons mil blogs do ar.
Por enquanto, os provedores de acesso estão se fazendo de mortos. Como não foram citados como réus no processo, nada fazem.
É evidente que a situação é delicada. Há uma pessoa que foi vítima da estupidez de um sujeito sem caráter. O juiz não sabe que, ao bloquear um blog, bloqueia também outros mil. O que deve prevalecer? O direito de uma pessoa à sua privacidade ou o da sociedade a ter acesso a informação? É o direito da sociedade.
Neste caso em particular, o acusado pela divulgação do vídeo é conhecido – e, se julgado culpado, deve ser punido.
Mas este é mais um caso em que a Justiça brasileira mostra não compreender a Internet.
Atualização – Uma versão anterior deste post tinha o endereço do blog censurado. Acontece que o endereço é também o nome da vítima. Como o endereço foi publicado por ordem judicial pública, considerei que o segredo não cabia. Após uma discussão abaixo, nos comentários, me vieram dúvidas. Na dúvida, retirei.
A conversa a respeito da ‘dispensa’ do ombudsman da Folha de S. Paulo está começando a circular pela Internet. Como é cedo na conversa, não custa uns reparos.
Mário Magalhães não foi ‘dispensado’. Seu contrato terminou e o jornal optou por não renová-lo. A praxe é de renovação.
Além de sua coluna publicada todos os domingos na Folha, o ombudsman também escreve uma crítica diária da edição. Ela era publicada na Internet para que qualquer leitor tivesse acesso. O jornal pediu-lhe que restringisse o acesso a esta crítica diária apenas a quem trabalha na Folha. O argumento é que ele dá dicas de melhorias que os concorrentes terminam por aproveitar.
Magalhães respondeu assim:
O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decisão: no ambiente de concorrência exacerbada do mercado jornalístico, idéias e sugestões do ombudsman são implementadas por outros diários.
De fato, isso ocorre.
E continuará a ocorrer.
Quase 20 anos atrás, as críticas ainda denominadas internas eram distribuídas em papel à Redação.
Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.
Com a difusão por email, será ainda mais difícil conter a distribuição irregular das anotações do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, terão como lê-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinatários?
Um alerta: trabalho em O Estado de S. Paulo, concorrente direto da Folha. O salário do Estado me sustenta. Qualquer leitor tem, por conta, todo o direito de questionar minha isenção neste caso. Não me sinto à vontade para fazer juízo.
Isto posto, não custa lembrar dois fatos:
O primeiro é que a Folha tem um ombudsman, coisa que é todo rara na imprensa brasileira. Acusá-la de pouco transparente não é correto.
O segundo é que Mario Magalhães tem razão. Nós, jornalistas, nos conhecemos todos. Escrevi para a Folha assim como hoje escrevo para o Estado. Como eu, há algumas centenas de pessoas. A excelente crítica diária que é distribuída por email para todos os jornalistas do Estado termina na Folha todos os dias. Quando a Folha deixar de publicar na Internet sua crítica diária, os editores do Estado continuarão a recebê-la. Os leitores é que não.
Numa redação, a crítica diária produzida internamente é importante. Muitas vezes, um jornal é feito no calor dos acontecimentos. Por natureza, nos tornamos defensivos a respeito de nosso trabalho. Um olhar distante que não esteja envolvido com a produção do dia-a-dia aponta os erros e os acertos. Ele é necessário para que o trabalho do dia seguinte fique melhor.
O futuro da imprensa, a maneira como vamos nos informar ao longo dos próximos anos – a maneira como muitos já nos informamos hoje – não é assunto que deveria interessar apenas a jornalistas. Em alguns setores das redações, esta semana, o assunto é a reflexão publicada pelo veterano repórter Eric Alterman na última New Yorker.
Ela tem muito a ver com a conversa que temos tido continuamente aqui neste Weblog nos últimos tempos.
Hoje, quase todos os jornais sérios estão lutando para se adaptar às novas tecnologias e às oportunidades de criação de comunidades oferecidas pela distribuição digital de notícias. Isto inclui blogs de jornalistas, uso de vídeos e chats públicos com os repórteres e editores. Alguns, como o New York Times e o Washington Post, certamente sobreviverão a este momento de transformação tecnológica. Mas vão mudar. Cortarão o número de repórteres e aprofundarão sua presença online. Outros jornais escolherão aumentar o foco no noticiário local. Editores em toda parte estão dizendo que entenderam o recado.
Ainda assim, jornalistas por todo lado ainda estão envolvidos demais com seus status de insiders com acesso ao núcleo do poder. Eles costumam ignorar não apenas a maioria das críticas feitas na blogosfera mas também o fermento democrático meio desorganizado da Internet. Recentemente, o Chicago Tribune decidiu fechar suas caixas de comentários no noticiário político. O ombudsman, Timothy J. McNulty reclamou, e com razão, ‘que os comentários cada vez mais pareciam oriundos de uma comunidade de bestas-feras’. […]
E, assim, estamos para entrar num mundo onde a notícia é fragmentada e caótica. Sua principal característica é que a conversa, a comunidade de leitores, estará mais presente. A reportagem de primeira linha perderá espaço. Jornais eram devotados à reportagem objetiva. Agora, o jornalismo se dará através de comunidades, cada uma dedicada a seu próprio tipo de ‘notícia’ – cada uma com suas próprias ‘verdades’ nas quais baseiam seu debate, sua conversa. Ao perder o jornalismo objetivo, perdemos uma narrativa comum com a qual concordamos, um grupo de ‘fatos’ nos quais nos baseamos para a compreensão política. O noticiário ficará cada vez mais ‘democrata’ ou ‘republicano’.
Não é um fenômeno inédito. Antes de Adolph Ochs assumir o comando do New York Times, em 1896, garantindo que ia conduzir o jornal ’sem medo ou prestação de favores’, os EUA eram dominados por jornais nitidamente partidários. Em muitos países da Europa, a cultura jornalística há muito optou pelo caminho de narrativas concorrentes para comunidades políticas diferentes. Cada jornal reflete uma visão. Talvez não seja coincidência que o engajamento político nestes países seja muito maior do que aquele nos EUA.
O artigo de Alterman às vezes parece um lamento pelo tipo de jornalismo perdido. Mas aí repentinamente dá uma virada. Há qualidades e há defeitos e ambos os modelos. Apenas são diferentes.
Ontem, tivemos um bom debate a respeito dos resultados das políticas sociais do governo Chávez, na Venezuela. Bons dados foram levantados em ambos os lados. Mas são versões partidárias. O que dizem os melhores governistas e o que dizem os melhores na oposição. Ficou faltando o que, objetivamente, aconteceu. Antigamente, uma redação mandaria um repórter absolutamente desinteressado, sem compromissos com um lado ou com o outro, disposto apenas a compreender e ouvir e transmitir o que ouviu. Além de autoridades em ambos os lados, e professores, e economistas, ele também visitaria as favelas e conversaria com as pessoas sobre suas vidas hoje e antes. Uma narrativa isenta não é necessariamente uma narrativa correta. Mas ela é descompromissada. Não é nem pró-governo, nem pró-oposição.
É isto que está começando a rarear.
Se estamos perdendo objetividade, a contrapartida é que ganhamos em participação política. Há mais gente participando do diálogo. Há mais gente disposta a questionar e fazer seu ponto de vista ser ouvido. Há democracia em ebulição. E, quando há mais gente, o tom se eleva uns tantos decibéis. Deixou de haver uma narrativa comum, majoritária. A Segunda Guerra foi assim, estes eram os vilões, estas as vítimas, aqueles, os heróis. Agora há a narrativa palestina e a israelense; a narrativa petista e a tucana; a republicana e a democrata; a chinesa e a norte-americana. Em meio a argumentos em geral muito sofisticados e mesmo honestos, começa a ser difícil formar consenso. Ou mesmo formar opinião. Quais são os fatos incontestáveis? Ainda é possível encontrar fatos incontestáveis embaixo de tantas camadas de narrativa e interpretação muitas vezes desconexas?
O quanto a opinião não está virando, para muitos, uma decisão aleatória, como que a escolha do time pelo qual se torce?
Os problemas e as dúvidas que vivemos todos, aqui no Weblog, são os problemas e as dúvidas vividos em todo o mundo. Às vezes, a crescente falta de certezas é um tanto angustiante.
Atualização – Neste nosso mundo de diálogo ampliado, a ilusão corrente é de que quem falar mais alto ganhará a discussão. Na Internet, o ‘falar mais alto’ é traduzido às vezes em repetir ininterruptamente o mesmo argumento, em dar apelidos ao adversário, em ofender ou desqualificar. Mas este não é um jogo no qual uma narrativa, uma versão, sairá vitoriosa no final.
Britney Spears está na capa da Atlantic Monthly. A maioria dos leitores, passando assim pela banca de jornal impunes, talvez nem o percebam. Os leitores da Atlantic, no entanto, que lembram sempre dos 150 anos da revista que publicou gente do quilate de Mark Twain para cima, sempre as melhores mentes, ficaram chocados.
Quando a Atlantic põe Britney Spears na capa parecendo assim querer vender revista mais fácil, é porque o mundo se perdeu de vez.
Mas é uma baita reportagem a que está lá dentro. Não sobre Britney, diga-se, mas sobre a turba cujo trabalho é segui-la 24 horas por dia. Sobre a cultura de paparazzi e como ela surgiu em Los Angeles. E também sobre como ela é dominada por brasileiros.
Sim.
Britney raspando a cabeça, Britney atacando um fotógrafo, Britney deixando o carro sem calcinha – todos os momentos do lento processo de loucura de Britney Spears foram registrados por brasileiros que têm por chefe um francês: François Navarre, o fotógrafo que chegou em Los Angeles em 1992 para cobrir o levante dos subúrbios negros após o espancamento de Rodney King para o prestigioso Le Monde.
Navarre tentou viver como fotógrafo na cidade. Por mais que fotografasse gangues, não vendia uma foto. Hoje é dono da X17, a agência de notícias que emplaca nove em cada dez fotos nas capas dos tablóides. Hoje, a X17 contrata algo entre 60 e 70 fotógrafos que ganham algo como 800 e 3.000 dólares por semana.
É fim da tarde e os paparazzi da Mulholland Drive esperam à entrada da garagem subterrânea do Hotel Four Seasons enquanto esperam por Britney. É uma cena já vista em todos os hotéis de Beverly Hills. ‘Ela ficava no Bel-Air, depois no Peninsula, agora vem muto ao Four Seasons’, conta Félix Filho, o líder do time da X17 que fica na cola de Britney. Eles são conhecidos no ramo como ‘os brasileiros’, o grupo de oito fotógrafos que, juntos, já passaram mais de 40.000 horas seguindo cada passo de Britney enquanto registravam algo como 6 milhões de dólares em imagens exclusivas. Quando Britney cumprir sua aparente sina e morrer numa batida de carro ou numa overdose de remédio, estes oito estarão lá e não perderão uma foto.
É um trabalho, eles dirão. Compram suas máquinas digitais em várias parcelas na mais barata das lojas americanas, têm uma vaga noção de como fotografar, estão prontos para o serviço.
Hoje, blogs em todo o Brasil estarão publicando posts na corrente ‘blogagem inédita‘, lançada por Edney Souza. Inédito, nesta definição, quer dizer que a informação terá sido apurada pelos blogueiros por conta própria. Farão um trabalho jornalístico, não o mero repasse daquilo que está noutros cantos da Internet ou da imprensa.
Apurar informação não é difícil: basta ter uma dúvida, ir a quem sabe responder, perguntar e repassar a informação. Blogs têm condições de fazer impacto no cotidiano brasileiro. Para isso, no entanto, é preciso vontade de participar do diálogo.
É isto que fazem os veículos de comunicação: criam comunidades amplas de leitores. Quando selecionam aquilo que julgam importante esclarecer ou trazer à tona, deixam marcas e influenciam as conversas. É este trabalho que torna a democracia possível. Ela precisa de fontes amplas e inusitadas de informação sobre tantos assuntos quanto possível. E é neste serviço que uma boa trupe está se engajando hoje.
Cá este Weblog dá as boas vindas aos novos jornalistas da Internet brasileira.
O roteiro tinha a sinopse conceitual. Tinha que ter um garoto, uma supergata, e eles viviam de biscate. Foi quando o Kadu foi chamado pra fazer uma novela das oito e marcou uma reunião com o Boni. Ele não tava a fim do papel, queria mais que nossa idéia desse certo. Eu disse: cara, quando abrir a porta do Boni, eu entro atrás e a gente fala o projeto. E levei uma cola numa agenda da Energia pra lembrar bem a idéia. Quando entramos na sala, ele só perguntou: o que o André tá fazendo aqui? Eu só disse que tinha um projeto pra mostrar jovem na TV, que meu filme Menino do Rio tinha dado o maior ibope. Aí ele me viu lendo a cola e tomou a agenda da minha mão. No fim estava escrito assim: se ele topar, ainda dou de gorjeta o slogan ‘entre nessa onda, entre na onda da Globo’. Ele me olhou com uma cara bizarra. Aí eu contei a história do Butch Cassidy, que eu sabia fazer. Aí ele me ofereceu para entrar na novela Partido alto, com o Kadu, e passar um ano no Havaí preparando a idéia da série.
Foi uma doideira. Mas o projeto que estava sendo escrito era muito infantil. O grande problema é sempre o roteirista. Ninguém sabia escrever como o jovem fala. A coisa estava totalmente artificial. E, como o texto estava ruim, eu acabei convencendo o Daniel Filho de que tinha que chamar o Calmon. No fim das contas, ele e o Daniel ficaram amigos pra caramba, ele deu um jeito no roteiro, e gravamos o primeiro programa. Lembro que no dia seguinte eu fui na praia e todo mundo aplaudiu. O Armação ilimitada foi uma criação coletiva que abriu portas para muita coisa.
A vida era muito mais romântica. As gatas tu tinha que conquistar, as mulheres eram diferentes. Usar drogas tinha um conceito diferente. As músicas eram mais ricas. Hoje é tudo muito mega, muito comercial, com uma batida forte. Eu acho mesmo que tinha uma coisa mais simples, no Rio de Janeiro pelo menos. Tem a ver com a perda do sonho. Hoje em dia não se sonha tanto. Tudo parecia mais ingênuo. Pensa no funk que toca hoje na rua. Nas letras, na batida, na violência. Mesmo a polícia era mais light até o fim dos anos 80. Era uma coisa muito mais ingênua. Acho que a violência em todos os níveis começou a crescer com a droga. Foi a cocaína que mudou e acabou com o Rio de Janeiro. Nos anos 90 a coisa piorou mesmo. E tem o descaso da política em deixar isso tomar o nível que tomou. Deixaram as favelas e o tráfico crescerem sem limites.