Liveblogging do Senado
O Estadão está fazendo a cobertura online da sessão. José Sarney deve falar a qualquer momento.
O Estadão está fazendo a cobertura online da sessão. José Sarney deve falar a qualquer momento.
Bom dia. A caminho dos 1.700 comentários, é? Caramba. Este é um recorde.
Foram, estas últimas, três semanas agitadas que culminaram, na última sexta-feira, com a liminar conseguida por Fernando Sarney, filho do presidente do Senado José Sarney, que ordenou ao Estado que retirasse do ar as gravações sobre as quais não posso – na condição de editor-chefe do portal do jornal – falar.
Mesmo se todos os veículos de imprensa do Brasil fossem ordenados pela Justiça a se calar, uma característica fundamental da Internet permanece: a informação continua lá.
O Estado de S. Paulo tem trabalhado duro, nestes últimos meses, para levantar os bastidores de como opera o Senado federal. Jornalismo serve para isso: iluminar o que é de interesse público, porem não ocorre às claras.
Nestes próximos meses, vou ter que reaprender a blogar.
A tradição da imprensa é a de que o editor-chefe é discreto. A voz de um jornal se divide entre seus colunistas e editorialistas. Mas a Internet muda um pouco o jogo. Ser blogueiro não é apenas questão de método; a coisa se incrusta na alma. Não sei se é possível conciliar as duas posições, então vamos aprender juntos como fazer. Este contato entre imprensa e seus leitores, transformados nos tempos da Internet eles próprios em produtores de informação, é fundamental. Gosto de participar dele. Como sempre, podem esperar de mim total franqueza.
Por aqui, o tema principal continua sendo política internacional, mas há uma eleição presidencial no ano que vem. Uma eleição que ocorrerá principalmente na web. São tempos interessantes.
Agora que é agosto, o Weblog está para fazer sete anos. Hora de voltar ao trabalho.
Walter Cronkite, que morreu ontem aos 92 anos, foi um dos mais importantes nomes do jornalismo norte-americano de tevê. Ele representou, também, uma era que alguns de nós pegamos e muitos só conhecem por livros de história.
Houve o tempo em que veículos noticiosos com alcance nacional eram raros. Por quase vinte anos, entre as décadas de 60 e 70, Cronkite foi o principal âncora do principal telejornal da CBS. Ele anunciou ao vivo o assassinato de John Kennedy em uma das primeiras coberturas ao vivo da história.
No Brasil, o telejornalismo foi até bem tarde coisa para locutores. Cronkite não era do tipo – era repórter. A Guerra do Vietnã acabou de fato para o americano médio quando o veterano jornalista foi ao país e na volta declarou que o conflito havia chegado a um impasse. (O presidente Lyndon Johnson, quando ouviu Cronkite dizendo isso no telejornal, comentou com seus assessores – ‘perdemos a guerra na opinião pública’.)
Ele foi a voz ‘oficial’ dos EUA – uma voz que seguia a tradição de não se curvar ao governo. Era um grande editor de jornal, homem seriíssimo.
É bom que não exista mais ninguém como Cronkite, com tanto poder por representar quase sozinho informação confiável. Por outro lado, no tempo de Internet, com uma multiplicidade de vozes, a cacofonia às vezes faz ficar difícil descobrir que informação é confiável. Tudo parecem versões.
O jovem repórter que a CBS tinha em Dallas quando Cronkite confirmou a morte de Kennedy se chamava Dan Rather. Foi Rather que, em 1979, recebeu o bastão do CBS Evening News de Cronkite. Ele só foi cair em 2004, quando um grupo de blogueiros republicanos o derrubaram durante as eleições que recolocariam George W. Bush no poder. Rather, um repórter ainda mais repórter que Cronkite, veterano de inúmeras coberturas, o primeiro homem a entrar no Afeganistão invadido pelos soviéticos, presente na Queda do Muro de Berlim, na Praça Tiananmen, o homem que desafiou Richard Nixon e George Bush (pai) ao vivo, o homem que caiu porque já não dava para existir um Cronkite nesse mundo.
Cronkite marcou uma era que já não é mais possível.
É certamente injusto sugerir que Hugo Chávez busca conter a Internet como Raúl Castro e Mahmoud Ahmadinejad. Mas as imagens no blog de Lia Caldas são divertidas ainda assim.
Ahmadinejad de terno branco qual ditador cucaracho é imbatível.
O Fernando Rodrigues conta, em seu blog, como os deputados estão imaginando a legislação para regulamentar o uso eleitoral da Internet. Ainda não é lei aprovada. Certamente é melhor do que existiu na eleição passada, mas permanece conservadora. O Fernando indica os piores pontos bem, sua análise é clara, mas não custa destacar o pior dentre os piores:
Sátiras, animações, entrevistas, humor – tudo realmente ficará proibido ou restrito. A ideia dos deputados, dizem, é transportar para a web as regras que vigoram em parte dos meios de comunicação. Por exemplo, o site que entrevistar um candidato e deixar os outros de fora certamente estará correndo o risco de ser processado. Sobretudo se o entrevistado ousar fazer algum tipo de crítica aos adversários. Um trecho da proposta de lei fala, explicitamente, que é proibido “dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação”. Ou seja, qualquer coisa pode ser interpretada dessa forma.
Obrigar blogueiros que entrevistem um candidato a só poder publicar se entrevistarem os outros é desleal e pressupõe que operam em igualdade de infra com os grandes veículos. Eles não vão necessariamente conseguir outras entrevistas. É uma tentativa de coibir a Internet.
Agora: proibir ou restringir sátira de políticos na web? Essa quero ver implementarem. Se isto não é censura, o que é?
Outros pontos resumidos:
Aparentemente, os eleitores poderão fazer doações em dinheiro via Internet para políticos.
Para os sites, debates ficarão difíceis de fazer – será preciso a aceitação de 2/3 dos candidatos, mesmo que a disputa real seja entre apenas dois deles.
O que chamam de ‘propaganda eleitoral’ só pode depois de 5 de julho. O que acontece com sites hospedados no exterior? Os deputados não sabem dizer. A porta para censura como houve deste Weblog continua aberta, quando uma declaração de voto pode ser interpretada pelo TRE como propaganda.
Propaganda mesmo, banners pagos, provavelmente serão completamente proibidos. Por quê? Porque os senhores deputados não têm certeza sobre como definir propaganda na web. Por via das dúvidas, proíbe-se.
Enquanto os deputados tentam regular o que não é tão regulável assim – o fluxo de informação na Internet – vários deles e de seus pares políticos já operam livremente no Twitter. O Link do Estadão tem a lista.
Peter Sunde não pertence ao Partido Pirata. “Eles são de direita, eu não sou”, explica. “Não votei neles, mas acho bom que existam.” Passei o dia de ontem com Peter, aqui em Porto Alegre. Grande sujeito, um bom humor de enfrentar com sorrisos a maratona de fotos, entrevistas, apertos de mão, mesmo após mais de um dia viajando da Suécia para o Brasil. E, no Fórum Internacional de Software Livre, ele é pop star. A garotada o reconhece, quer tocá-lo, trocar dois dedos de prosa.
Pudera: com Fredrik Nei e Gottfrid Svartholm, Peter fundou em 2003 o Piratbyrån (Birô da Pirataria) para fazer piada da organização criada pela indústria fonográfica para combater a cópia de material com copyright online, o Antipiratbyrån. Em 2004, a organização deu origem à Pirate Bay, o maior site de bit-torrent do mundo. Eles oferecem links que levam a arquivos de músicas, software ou filmes. Desde que a Pirate Bay foi condenada pela Justiça sueca – o julgamento provavelmente será cancelado – o Partido Pirata aumentou. Terá dois deputados no Parlamento Europeu, a partir do segundo semestre.
O argumento legal da PirateBay é que eles são como o Google. Só dão links, não se responsabilizam por quem guarda o que não deve em seu computador. Mas Peter sabe que isso é só formalidade: “meu problema é que Hollywood é daninha à cultura.”
Peter é filiado ao Partido Verde. Na Suécia, é um dos responsáveis pelo grupo que estipula a plataforma tecnológica do partido. Tudo leva a crer que a coalizão de centro-esquerda que inclui os verdes chegue ao governo, nas próximas eleições.
Seu argumento é o seguinte: Hollywood e as quatro grandes gravadoras representam muito dinheiro, mas não são os maiores produtores de cultura do mundo. “Eles produzem quanto? 0,0001% de toda cultura?” Em última análise, leis de direitos autorais beneficiam estes grandes conglomerados, não a maioria dos artistas. Se ficasse nisso, tudo bem. Mas, por conta do poder econômico – e este é sempre o raciocínio de Peter –, estes conglomerados entopem o mercado, aumentam a barreira de entrada para quem é novo. O copyright, em sua visão, ao invés de contribuir para o sustento de artistas, produz um ambiente em que a maior parte da produção cultural tem pouco espaço para circular.
Eles não mantém estatísticas de o que é mais baixado no Pirate Bay. Alguns estudos sugerem que é cinemão e grandes hits. Para Peter e seus sócios, não importa. Se vai prejudicar os grandes, tanto melhor.
Ele não é radical. Não vê problema em quem queira cobrar pelo serviço de oferecer algum tipo de informação. Se alguém conseguir, ótimo. A informação, a música, o filme – estes devem ser livres. Esta é sua opinião. É bom ouvi-la e compreender, mesmo que seja para discordar depois. Na Europa, representa uma linha de pensamento crescente, que captura gente tanto à esquerda quanto à direita.
A Translation and Interpretation Initiative for Iranian Protesters (TIIIP) – Iniciativa pela Tradução e Interpretação para os Manifestantes Iranianos – tem o objetivo de traduzir do persa para o inglês a maior quantidade possível de documentos, cartas e textos diversos sendo produzidos pelos manifestantes no país.
Isso mesmo: Lula terá um blog. E um Twitter.
Para quem estiver em Porto Alegre nos próximos dias, participarei de uma mesa redonda com a turma do blog da Petrobras no 10a Fórum Internacional de Software Livre.
Tenho certeza de que será um bom debate, entre outras, porque a turma de software livre é sempre capaz de promover um ambiente de discussão bacana.
Dia 25, quinta-feira, às 16h.
18h45 – O professor Abbas Milani me responde a respeito da notícia abaixo: Este site é um dos sites oficiais do regime. Não vi essa notícia em nenhum outro lugar. Não quer dizer não seja verdade, pode ser. Jamais acreditei que Rafsanjani quisesse derrubar Khamenei. Ele não teria os votos para isso e Rafsanjani jamais entra em batalhas que pode perder.
18h25 – Estou tentando confirmar esta notícia: a Assembléia dos Especialistas teria anunciado, hoje, apoio irrestrito ao aiatolá Khamenei. É o grupo liderado por Rafsanjani que teria algum poder sobre o líder supremo. (Este post explica.)
Se for verdade, esta é uma interpretação possível: o clero se unificou, os líderes políticos como Mousavi e Keroubi estão abandonados à própria sorte. E o povo? Pois é, o povo…
Estou tentando confirmar a confiabilidade deste site, a tradução do persa e encontrar alguém que tente me explicar o contexto da decisão.
16h10 – O Tehran Bureau afirma ter uma fonte no Hospital Fatemiyeh, na capital iraniana. Há entre 30 e 40 mortos lá, 200 feridos.
15h05 – Do Anônimo da Pérsia, nos comentários, direto de Teerã: Olha, o pessoal da minha vizinhança passou mais de uma hora gritando bem alto “Allah-u-Akbar”.
14h55 – Alguns de vocês estão questionando a parcialidade de minha cobertura. Sugerem que a temperatura está alta demais – quiçá sensacionalista.
Cá o Weblog não é a única fonte de informação desta hesitante cobertura ao vivo pela web. Tentamos confirmar as informações como dá, pela confiabilidade que certas fontes no Twitter tiveram no passado ou porque vêm pelos canais oficiais. Tenho procurado fazer uma cobertura mais conservadora, sem publicar a maior parte do que sai na rede. Tudo o que entrou aqui foi publicado também por alguns dos principais veículos jornalísticos do mundo.
Andrew Sullivan, da Atlantic Montly.
New York Times.
Huffington Post.
The Guardian.
Revolutionary Road – este é um blog iraniano, não sei confirmar quão confiável é.
14h40 – Não vou abrir este vídeo, mas cá está o link. Esta moça foi assassinada pela basij há pouco, em Teerã. ATENÇÃO: as imagens são fortes, muito diferente do tipo de coisa que o Weblog costuma publicar. Mas é importante para entender o que está ocorrendo na capital iraniana.
14h20 – A televisão iraniana, informa @iranbaan, está apresentando o depoimento de ‘manifestantes presos’. Um deles informa que estava a serviço dos britânicos e norte-americanos (Vênus) para atiçar tumulto.
14h10 – Tenho evitado de publicar esta informação: Mir Hossein Mousavi, falando aos manifestantes, disse que estava ritualmente preparado para o martírio e que, caso fosse preso ou morresse, a população deveria entrar em greve. A informação agora está em seu Facebook.
13h40 – Este vídeo das demonstrações de hoje foi publicado no Facebook de Mousavi.
12h55 – Helicópteros jogam água que queima, provavelmente com algum agente químico, na população. No Twitter há quem sugira ser gás CR, um lacrimogêneo que provoca forte ardência, principalmente nas mucosas.
12h41 – Noticiário crescente via Twitter de que Mousavi está com os manifestantes.
12h23 –
12h20 – De Al Giordano, via Andrew Sullivan:
A estratégia do governo parece ser bloquuear as várias entradas para a praça Enghalab, onde teria início a marcha. Vários iranianos no Twitter informam que os estudantes universitários têm sua saída dos campi interceptada, eles apanham antes de tomar caminho da passeata.
Se é isto que está ocorrendo, o objetivo é evitar que os manifestantes se agrupem a ponto de formar uma massa crítica de pessoas em um único lugar. Junte-se a prisão de repórteres e a proibição de imagens indicam uma estratégia midiática. Querem evitar que fotos e vídeos apresentem a magnitude dos protestos. Imagens de grupos divididos fugindo de tiros ou de bloqueios da polícia não têm o mesmo impacto emocional do que uma passeata com milhões de pessoas.
Às vezes, em situações assim (caso de Oaxaca, México, 14 de junho de 2006) os grupos divididos acabam conseguindo se encontrar e reunir em um único lugar para poder marchar em massa. Veremos…
12h16 – Várias fontes na Internet afirmam que o ex-prefeito de Teerã e chefe de campanha de Karoubi, Gholamhossein Karbaschi está nas ruas junto ao povo.
12h15 – O blog Revolutionary Road, que diz estar cobrindo ao vivo as manifestações, fala de choques constantes entre as forças de segurança e o público. Os basiji descem o cacete. Gás lacrimogêneo sendo usado. Gente sendo morta.
12h10 – Com franqueza, de tudo o que leio, não sei em que confiar. A Praça Enghelab parece estar fechada, bloqueada pelas forças de segurança. Ainda assim, as pessoas avançam. Uma história que circula fala de um homem-bomba que se explodiu aos pés do monumento ao aiatolá Khomeini.
9h40 – A imprensa estrangeira não consegue confirmar o que ocorre – melhor esperar para saber ao certo.
8h25 – Segundo Fershteh Ghazi, a usuária @iranbaan no Twitter, a Praça Enghelab está cheia de policiais do batalhão de choques, cassetetes à vista. Os celulares foram cortados naquela região. Líderes da oposição estão sendo presos. Ainda assim, as notícias são de que grandes ondas de gente de toda Teerã estão marchando em direção ao ponto de encontro.
8h20 – Gente, direto da fonte, a página no Facebook de Mousavi: as passeatas estão confirmadíssimas.
8h15 – A conspiração que inventa Revoluções de Cores, por George Soros/John McCain/Israel/Casa Branca, tenta derrubar o legítimo governo iraniano.
7h35 – A página de Mir Hossein Mousavi no Facebook amanheceu com este vídeo no ar:
É inspirador, quer levar o povo às ruas. Tenta dar dimensão histórica ao momento – confunde a biografia de Mousavi com a história da Revolução Islâmica. E abaixo do filmete, uma legenda: ‘Os olhos da história estarão sob nós, hoje… 16h, Praça Enghelab.’
O uso da internet neste momento da história iraniana é um dos casos mais impressionantes de uso da rede para política que já vi.
Se José Serra tem Twitter, não por isso, Dilma Rousseff 2010 tem blog.
Atualização – Como vocês já disseram nos comentários, o blog é de simpatizantes, não da campanha oficial.
dica do Pax
O Governo Lula anunciará no próximo dia 25, no 10o Fórum Internacional do Software Livre, sua estratégia para mídias sociais. Ou seja: como usar Internet para se relacionar com os cidadãos.
Já era tempo.
via Marcelo Branco, no Twitter
Daqui do bravo Aeropuerto Internacional de Tucumán, não longe da Ciudad de Panamá, não resisti e saquei o computador para fuçar o que se fala por aí.
Tem horas que nada resolve melhor uma discussão do que o bom humor e o blog PetroPerguntas é genial: petroperguntas.blogspot.com.
Todos os jornalistas que cobrem a Petrobras, portanto, que estejam convocados a listar todas as perguntas que a empresa se recusa a responder. Por que seguir apenas metade do caminho da transparência, não é?
Na semana passada, acompanhei atento a conversa entre dois amigos – Sergio Leo e Idelber Avelar – sobre a “imprensa golpista”. Neste domingo, recebi não um, não dois – mas oito emails me perguntando se existe a instituição do “sigilo de pergunta” de jornalistas. Trata-se, evidentemente, do já polêmico blog da Petrobras. Os dois assuntos estão relacionados.
Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.
É só má assessoria de imprensa.
A Petrobras decidiu comprar uma guerra contra os jornais, quebrando seus furos. Tem o direito, evidentemente. Do ponto de vista político, escolheu o alvo errado. Não é a imprensa que está em guerra contra a Petrobras. Quem pôs a Petrobras no centro do picadeiro foi a oposição ao governo federal, com o objetivo de fazer chantagem política. A diretoria da Petrobras talvez esteja convencida de que a grande imprensa e a oposição política são a mesma coisa. Mas não são – são bichos com interesses absolutamente diferentes.
Se o único objetivo da Petrobras fosse realmente transparência, era muito simples resolver: publica perguntas e respostas logo após os jornais levarem ao ar suas informações exclusivas.
O pior que uma empresa de assessoria de imprensa pode fazer para seus clientes é perder a relação de confiança com repórteres e editores. Essa confiança, afinal, é o que a sustenta. Lição básica que quem é do ramo conhece. Se pode fazer algum sentido a curto prazo – os suspeitos de sempre vão elogiar, afinal – a médio e longo prazo, tem gente arruinando a própria reputação.
Mas esta é uma questão acessória.
A questão real, a discussão principal da qual esta polêmica é só um capítulo, é a relação entre imprensa, empresas, governo e público. Estou longe das redações, então não sei como essa discussão está sendo encarada nas diretorias. Se eu tivesse que chutar, apostaria que ninguém está percebendo: a credibilidade da imprensa brasileira está lentamente sendo minada.
Isso aconteceu aqui nos EUA alguns anos atrás e marcou o início da crise da indústria. Aqui foi igual, mas trocaram os sinais: a imprensa era acusada de estar a serviço da esquerda – the liberal media – e os cães de ataque do governo Bush, no rádio e na Internet, fizeram de tudo para derrubá-la. Some-se o bombardeio a uma série de erros cometidos nas redações, de Dan Rather na CBS ao New York Times, e pronto.
Aqui no Brasil é igual. Quem tem o poder político acusa a imprensa de estar a serviço da oposição e erros da própria imprensa colaboram para a ilusão. A diferença é que no Brasil a grande imprensa não se manifesta. Continua a tocando sua vida como se não houvesse um bode no meio da sala.
Ela ignora o problema porque acredita que as acusações são isoladas – uma meia dúzia de blogueiros que perderam seus empregos nas grandes redações e a outra meia dúzia que os segue. A questão é que a acusação de que a imprensa é partidária ressoa perante o público. Muitos dos leitores, inclusive aqueles mais atentos, acreditam que o trabalho jornalístico está a serviço de interesses que não são, necessariamente, os do público.
A crise que a imprensa vive hoje nos EUA começou assim.
Depois, quando a estrutura de financiamento da indústria começou a ruir, a grande imprensa precisou argumentar sobre sua importância para a democracia. A questão é que os leitores não acreditam. A imprensa dos EUA vive sua maior crise de credibilidade na história justamente na época em que mais precisa de credibilidade.
A imprensa brasileira deveria começar a atacar essa questão agora. As empresas que prestam assessoria de imprensa para a Petrobras podem estar cavando a própria cova no futuro mas, desatenta, a grande imprensa não percebe que a ação de hoje faz parte de um contexto que ameaça sua existência.
Para garantir sua sobrevivência no futuro, os grandes veículos de imprensa no Brasil precisam começar imediatamente um processo de conversa com os leitores. Devem apostar radicalmente na transparência de seus processos internos. Não podem apostar que os leitores confiarão apenas pelos seus olhos: têm que ganhar a confiança.
Não estou, aqui, dizendo que todos os veículos fazem jornalismo de primeira ou que erros não tenham sido cometidos. E é claro que devemos discutir cada um dos erros. Aliás: é justamente pela discussão e admissão aberta e franca, pela imprensa, de seus próprios erros, que passa a solução. A instituição imprensa é fundamental para a democracia e alguém tem que fazer jornalismo que não seja partidário. Se quem faz não é percebido assim, há um problema de comunicação que precisa ser imediatamente corrigido.
Atualização – À moda da imprensa norte-americana, e para fazer jus à transparência que cobro, devo dizer que – como muitos brasileiros – tenho ações da Petrobras, portanto pode-se argumentar que tenho interesse financeiro direto no sucesso financeiro da empresa. Acaso alguém dentre os leitores não o saiba, sou colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Fui colunista da Folha de S. Paulo, já escrevi para alguns títulos da Abril e fui funcionário tanto da Rede Globo quanto da GloboPar. Quando falo sobre a grande imprensa, portanto, falo de dentro, com todas as vantagens (informação sobre como funciona) e desvantagens (me paga o salário) que possam haver.
Os testes abertos da comunidade virtual e-Democracia, levantado pela Câmara dos Deputados, começam na quarta-feira (3), a partir das dez horas da manhã, para discutir o fenômeno da mudança climática no país.
Nos domínios da rede social, cidadãos comuns, deputados interessados e especialistas debaterão sobre a mudança do clima, ou, mais precisamente, nas palavras do gerente do projeto Cristiano Ferri, gerarão informação estratégica para a Política Nacional de Mudança do Clima.
Mais detalhes na Info. O site eDemocracia estará no endereço edemocracia.gov.br.