De volta; é hora

03/August/2009 - 00h01 - 116 Comentarios

Bom dia. A caminho dos 1.700 comentários, é? Caramba. Este é um recorde.

Foram, estas últimas, três semanas agitadas que culminaram, na última sexta-feira, com a liminar conseguida por Fernando Sarney, filho do presidente do Senado José Sarney, que ordenou ao Estado que retirasse do ar as gravações sobre as quais não posso – na condição de editor-chefe do portal do jornal – falar.

Mesmo se todos os veículos de imprensa do Brasil fossem ordenados pela Justiça a se calar, uma característica fundamental da Internet permanece: a informação continua lá.

O Estado de S. Paulo tem trabalhado duro, nestes últimos meses, para levantar os bastidores de como opera o Senado federal. Jornalismo serve para isso: iluminar o que é de interesse público, porem não ocorre às claras.

Nestes próximos meses, vou ter que reaprender a blogar.

A tradição da imprensa é a de que o editor-chefe é discreto. A voz de um jornal se divide entre seus colunistas e editorialistas. Mas a Internet muda um pouco o jogo. Ser blogueiro não é apenas questão de método; a coisa se incrusta na alma. Não sei se é possível conciliar as duas posições, então vamos aprender juntos como fazer. Este contato entre imprensa e seus leitores, transformados nos tempos da Internet eles próprios em produtores de informação, é fundamental. Gosto de participar dele. Como sempre, podem esperar de mim total franqueza.

Por aqui, o tema principal continua sendo política internacional, mas há uma eleição presidencial no ano que vem. Uma eleição que ocorrerá principalmente na web. São tempos interessantes.

Agora que é agosto, o Weblog está para fazer sete anos. Hora de voltar ao trabalho.

O adeus a Walter Cronkite (1916-2009)

19/July/2009 - 11h29 - 115 Comentarios

Walter Cronkite, que morreu ontem aos 92 anos, foi um dos mais importantes nomes do jornalismo norte-americano de tevê. Ele representou, também, uma era que alguns de nós pegamos e muitos só conhecem por livros de história.

Houve o tempo em que veículos noticiosos com alcance nacional eram raros. Por quase vinte anos, entre as décadas de 60 e 70, Cronkite foi o principal âncora do principal telejornal da CBS. Ele anunciou ao vivo o assassinato de John Kennedy em uma das primeiras coberturas ao vivo da história.

No Brasil, o telejornalismo foi até bem tarde coisa para locutores. Cronkite não era do tipo – era repórter. A Guerra do Vietnã acabou de fato para o americano médio quando o veterano jornalista foi ao país e na volta declarou que o conflito havia chegado a um impasse. (O presidente Lyndon Johnson, quando ouviu Cronkite dizendo isso no telejornal, comentou com seus assessores – ‘perdemos a guerra na opinião pública’.)

Ele foi a voz ‘oficial’ dos EUA – uma voz que seguia a tradição de não se curvar ao governo. Era um grande editor de jornal, homem seriíssimo.

É bom que não exista mais ninguém como Cronkite, com tanto poder por representar quase sozinho informação confiável. Por outro lado, no tempo de Internet, com uma multiplicidade de vozes, a cacofonia às vezes faz ficar difícil descobrir que informação é confiável. Tudo parecem versões.

O jovem repórter que a CBS tinha em Dallas quando Cronkite confirmou a morte de Kennedy se chamava Dan Rather. Foi Rather que, em 1979, recebeu o bastão do CBS Evening News de Cronkite. Ele só foi cair em 2004, quando um grupo de blogueiros republicanos o derrubaram durante as eleições que recolocariam George W. Bush no poder. Rather, um repórter ainda mais repórter que Cronkite, veterano de inúmeras coberturas, o primeiro homem a entrar no Afeganistão invadido pelos soviéticos, presente na Queda do Muro de Berlim, na Praça Tiananmen, o homem que desafiou Richard Nixon e George Bush (pai) ao vivo, o homem que caiu porque já não dava para existir um Cronkite nesse mundo.

Cronkite marcou uma era que já não é mais possível.

Rafael Sica

03/July/2009 - 08h27 - 15 Comentarios

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De Rafael Sica, descoberto no site visualmente instigante de Lou Martins.

Conversa com a trupe do Blog da Petrobras
Hoje, às 16h, em Porto Alegre

25/June/2009 - 11h30 - 26 Comentarios

Minha conversa com a turma do Blog da Petrobras será às 16h (hora de Brasília). A transmissão ao vivo será feita pela TV Software Livre.

Regras para uso da Internet em 2010

25/June/2009 - 09h11 - 18 Comentarios

O Fernando Rodrigues conta, em seu blog, como os deputados estão imaginando a legislação para regulamentar o uso eleitoral da Internet. Ainda não é lei aprovada. Certamente é melhor do que existiu na eleição passada, mas permanece conservadora. O Fernando indica os piores pontos bem, sua análise é clara, mas não custa destacar o pior dentre os piores:

Sátiras, animações, entrevistas, humor – tudo realmente ficará proibido ou restrito. A ideia dos deputados, dizem, é transportar para a web as regras que vigoram em parte dos meios de comunicação. Por exemplo, o site que entrevistar um candidato e deixar os outros de fora certamente estará correndo o risco de ser processado. Sobretudo se o entrevistado ousar fazer algum tipo de crítica aos adversários. Um trecho da proposta de lei fala, explicitamente, que é proibido “dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação”. Ou seja, qualquer coisa pode ser interpretada dessa forma.

Obrigar blogueiros que entrevistem um candidato a só poder publicar se entrevistarem os outros é desleal e pressupõe que operam em igualdade de infra com os grandes veículos. Eles não vão necessariamente conseguir outras entrevistas. É uma tentativa de coibir a Internet.

Agora: proibir ou restringir sátira de políticos na web? Essa quero ver implementarem. Se isto não é censura, o que é?

Outros pontos resumidos:

Aparentemente, os eleitores poderão fazer doações em dinheiro via Internet para políticos.

Para os sites, debates ficarão difíceis de fazer – será preciso a aceitação de 2/3 dos candidatos, mesmo que a disputa real seja entre apenas dois deles.

O que chamam de ‘propaganda eleitoral’ só pode depois de 5 de julho. O que acontece com sites hospedados no exterior? Os deputados não sabem dizer. A porta para censura como houve deste Weblog continua aberta, quando uma declaração de voto pode ser interpretada pelo TRE como propaganda.

Propaganda mesmo, banners pagos, provavelmente serão completamente proibidos. Por quê? Porque os senhores deputados não têm certeza sobre como definir propaganda na web. Por via das dúvidas, proíbe-se.

Enquanto os deputados tentam regular o que não é tão regulável assim – o fluxo de informação na Internet – vários deles e de seus pares políticos já operam livremente no Twitter. O Link do Estadão tem a lista.

O blog da presidência

23/June/2009 - 11h28 - 116 Comentarios

Isso mesmo: Lula terá um blog. E um Twitter.

Na FISL, em Porto Alegre

23/June/2009 - 08h31 - 11 Comentarios

Para quem estiver em Porto Alegre nos próximos dias, participarei de uma mesa redonda com a turma do blog da Petrobras no 10a Fórum Internacional de Software Livre.

Tenho certeza de que será um bom debate, entre outras, porque a turma de software livre é sempre capaz de promover um ambiente de discussão bacana.

Dia 25, quinta-feira, às 16h.

Robert De Niro Sr

16/June/2009 - 00h01 - 33 Comentarios

Um dos melhores posts da blogosfera brasileira conta o que há de mais divertido escrever: uma história inusitada. É também boa pausa pro respiro.

Pois esta vem pelas mãos do Sergio Leo. O personagem principal era pintor expressionista da geração anos 40 nos EUA, daquela turma boêmia de Nova York que circulava pelo Village. Conviveu com aqueles que andavam pelos mesmos bares: Henry Miller e Anais Nin, Jackson Pollock – provavelmente também Ezra Pound, Dorothy Parker. Nosso personagem foi casado com uma moça bonita, inteligente e escritora, que editava uma revista literária com um certo Robert Duncan – e o tal Duncan traçou a sócia e seu marido.

Típica história dos loucos do Village, aqueles que foram beatniks antes dos beatniks, hippies antes dos hippies, e já tinham feito tudo que nos anos 70 achavam estar inventando.

Mas o pintor marido da editora era pai do ator Robert De Niro. E a moça, sua mãe. A história está melhor contada no Sítio do Sergio Leo.

Governo Lula e mídias sociais

12/June/2009 - 09h52 - 22 Comentarios

O Governo Lula anunciará no próximo dia 25, no 10o Fórum Internacional do Software Livre, sua estratégia para mídias sociais. Ou seja: como usar Internet para se relacionar com os cidadãos.

Já era tempo.

via Marcelo Branco, no Twitter

Ainda a Petrobras, direto do Panamá

10/June/2009 - 13h46 - 149 Comentarios

Daqui do bravo Aeropuerto Internacional de Tucumán, não longe da Ciudad de Panamá, não resisti e saquei o computador para fuçar o que se fala por aí.

Tem horas que nada resolve melhor uma discussão do que o bom humor e o blog PetroPerguntas é genial: petroperguntas.blogspot.com.

Todos os jornalistas que cobrem a Petrobras, portanto, que estejam convocados a listar todas as perguntas que a empresa se recusa a responder. Por que seguir apenas metade do caminho da transparência, não é?

via Dicas de um fuçador

A Petrobras e a imprensa golpista

08/June/2009 - 06h22 - 314 Comentarios

Na semana passada, acompanhei atento a conversa entre dois amigos – Sergio Leo e Idelber Avelar – sobre a “imprensa golpista”. Neste domingo, recebi não um, não dois – mas oito emails me perguntando se existe a instituição do “sigilo de pergunta” de jornalistas. Trata-se, evidentemente, do já polêmico blog da Petrobras. Os dois assuntos estão relacionados.

Antes de tudo: não, não existe sigilo de pergunta. A Petrobras, ou qualquer empresa, tem o direito de tornar públicas todas as perguntas que recebe de repórteres. Não é nem ilegal, nem antiético.

É só má assessoria de imprensa.

A Petrobras decidiu comprar uma guerra contra os jornais, quebrando seus furos. Tem o direito, evidentemente. Do ponto de vista político, escolheu o alvo errado. Não é a imprensa que está em guerra contra a Petrobras. Quem pôs a Petrobras no centro do picadeiro foi a oposição ao governo federal, com o objetivo de fazer chantagem política. A diretoria da Petrobras talvez esteja convencida de que a grande imprensa e a oposição política são a mesma coisa. Mas não são – são bichos com interesses absolutamente diferentes.

Se o único objetivo da Petrobras fosse realmente transparência, era muito simples resolver: publica perguntas e respostas logo após os jornais levarem ao ar suas informações exclusivas.

O pior que uma empresa de assessoria de imprensa pode fazer para seus clientes é perder a relação de confiança com repórteres e editores. Essa confiança, afinal, é o que a sustenta. Lição básica que quem é do ramo conhece. Se pode fazer algum sentido a curto prazo – os suspeitos de sempre vão elogiar, afinal – a médio e longo prazo, tem gente arruinando a própria reputação.

Mas esta é uma questão acessória.

A questão real, a discussão principal da qual esta polêmica é só um capítulo, é a relação entre imprensa, empresas, governo e público. Estou longe das redações, então não sei como essa discussão está sendo encarada nas diretorias. Se eu tivesse que chutar, apostaria que ninguém está percebendo: a credibilidade da imprensa brasileira está lentamente sendo minada.

Isso aconteceu aqui nos EUA alguns anos atrás e marcou o início da crise da indústria. Aqui foi igual, mas trocaram os sinais: a imprensa era acusada de estar a serviço da esquerda – the liberal media – e os cães de ataque do governo Bush, no rádio e na Internet, fizeram de tudo para derrubá-la. Some-se o bombardeio a uma série de erros cometidos nas redações, de Dan Rather na CBS ao New York Times, e pronto.

Aqui no Brasil é igual. Quem tem o poder político acusa a imprensa de estar a serviço da oposição e erros da própria imprensa colaboram para a ilusão. A diferença é que no Brasil a grande imprensa não se manifesta. Continua a tocando sua vida como se não houvesse um bode no meio da sala.

Ela ignora o problema porque acredita que as acusações são isoladas – uma meia dúzia de blogueiros que perderam seus empregos nas grandes redações e a outra meia dúzia que os segue. A questão é que a acusação de que a imprensa é partidária ressoa perante o público. Muitos dos leitores, inclusive aqueles mais atentos, acreditam que o trabalho jornalístico está a serviço de interesses que não são, necessariamente, os do público.

A crise que a imprensa vive hoje nos EUA começou assim.

Depois, quando a estrutura de financiamento da indústria começou a ruir, a grande imprensa precisou argumentar sobre sua importância para a democracia. A questão é que os leitores não acreditam. A imprensa dos EUA vive sua maior crise de credibilidade na história justamente na época em que mais precisa de credibilidade.

A imprensa brasileira deveria começar a atacar essa questão agora. As empresas que prestam assessoria de imprensa para a Petrobras podem estar cavando a própria cova no futuro mas, desatenta, a grande imprensa não percebe que a ação de hoje faz parte de um contexto que ameaça sua existência.

Para garantir sua sobrevivência no futuro, os grandes veículos de imprensa no Brasil precisam começar imediatamente um processo de conversa com os leitores. Devem apostar radicalmente na transparência de seus processos internos. Não podem apostar que os leitores confiarão apenas pelos seus olhos: têm que ganhar a confiança.

Não estou, aqui, dizendo que todos os veículos fazem jornalismo de primeira ou que erros não tenham sido cometidos. E é claro que devemos discutir cada um dos erros. Aliás: é justamente pela discussão e admissão aberta e franca, pela imprensa, de seus próprios erros, que passa a solução. A instituição imprensa é fundamental para a democracia e alguém tem que fazer jornalismo que não seja partidário. Se quem faz não é percebido assim, há um problema de comunicação que precisa ser imediatamente corrigido.

Atualização – À moda da imprensa norte-americana, e para fazer jus à transparência que cobro, devo dizer que – como muitos brasileiros – tenho ações da Petrobras, portanto pode-se argumentar que tenho interesse financeiro direto no sucesso financeiro da empresa. Acaso alguém dentre os leitores não o saiba, sou colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Fui colunista da Folha de S. Paulo, já escrevi para alguns títulos da Abril e fui funcionário tanto da Rede Globo quanto da GloboPar. Quando falo sobre a grande imprensa, portanto, falo de dentro, com todas as vantagens (informação sobre como funciona) e desvantagens (me paga o salário) que possam haver.

Marcelo Nóbrega

30/May/2009 - 14h37 - 19 Comentarios

Quando gente mais jovem do que você morre de um ataque cardíaco fulminante, choca.

Cruzei várias vezes, pelos corredores da UFRJ, com Marcelo Nóbrega, editor do Futuro.vc. Ambos começamos a carreira cobrindo tecnologia com atenção particular para a plataforma Macintosh. Era um baita repórter.

Twitter 2010

20/May/2009 - 13h26 - 32 Comentarios

José Serra está no Twitter. É esperto: @joseserra_.

Cadê a Dilma?

No dia em que a colunista do
New York Times plagiou o blogueiro

18/May/2009 - 15h03 - 28 Comentarios

Maureen Dowd é uma das colunistas mais respeitadas da página de opinião do New York Times – e isso não é pouco. Repórter experiente, responsável.

Mas ontem, em sua coluna, plagiou Josh Marshal, editor do TPM, um dos melhores (se não for o melhor) blogs políticos dos EUA.

Dowd simplesmente copiou e colou o parágrafo em sua coluna dominical. Mudou duas palavras. Só.

Flagrada, pediu desculpas como cabe. Explicou que conversava com uma amiga ao telefone e ela sugeriu um conceito que Mrs. Dowd imediatamente anotou para incluir no texto. O que a explicação não explica é como, de uma conversa ao telefone, veio um parágrafo inteiro, palavra por palavra.

No momento em que a grande imprensa dos EUA tenta explicar por que é melhor do que blogs, pega mal uma das vozes mais importantes do jornal mais importante copiar blogs sem dar crédito. (Blogs muitas vezes copiam sem dar crédito; Josh Marshall sempre diz de onde tirou suas citações.)

Mrs Dowd é experiente. Provavelmente não sabia que estava copiando e colando Marshall. Se o soubesse, não o faria. Seria desmascarada imediatamente, claro. Copiou e colou de algum email e achou que não havia problema. Sempre há.

Quando o NoMínimo era jovem, vivi isso. No Jornal do Brasil, a colunista Márcia Peltier pescou um texto meu, quebrou-o em notas e publicou sem citar a fonte. Ela não sabia que o material vinha do NoMínimo. Recebeu-o por email. Desmascarada, ao invés de pedir desculpas, acusou a mim de ter plagiado outro texto. No tal texto, não havia praticamente nenhuma das informações que eu listara.

A Internet está aí e é tentador copiar e colar. Continua feio. Muito feio.

Darwinista em blog

12/May/2009 - 12h16 - 35 Comentarios

Leitor antigo e comentarista frequente cá do Weblog, agora escreve também no darwiniano.com.br.

Pergunte ao ministro

11/May/2009 - 07h49 - 19 Comentarios

Salvo mudanças repentinas de agenda, Lula Borges estará com o ministro Guido Mantega, na próxima quinta-feira. Em seu blog, ele pede sugestões de perguntas aos leitores.

Recado ao deputado

07/May/2009 - 18h29 - 105 Comentarios

opiniaopublica



Thaís Gomes, do blog O mundo by Thaís, bolou esta simpática campanha. Já que o deputado gaúcho Sérgio Moraes diz estar pouco se lixando para a opinião pública, diz que se reelege não importa o que saia na imprensa, talvez seja o caso de a opinião pública se apresentar a ele. Pegue a imagem acima, salve-a e envie para o deputado: dep.sergiomoraes@camara.gov.br.

via Visão Panorâmica

Sergio Leo vence Prêmio SESC

21/March/2009 - 06h22 - 3 Comentarios

Ora, pois – e uma notícia me tira das férias repentinamente =)

Sergio Leo vence o Prêmio SESC de Literatura com seu livro de contos Mentiras do Rio.

Sobre o que trata Mentiras do Rio?

Escrevo sobre o Rio de Janeiro como pretexto para falar do próprio ato de escrever, de contar, da impossibilidade de conhecer um mundo alheio ou além dos discursos em que embrulhamos toda nossa experiência. O Mentiras reúne, em cerca de 80 páginas, contos inspirados em dois contrastes. Um, entre a vida considerada normal, rotineira, e a violência e solidão, aspectos que, para mim, marcam a condição de morador do Rio, que descrevo baseado em locais e pessoas que conheci, reflexões e experiências. O outro contraste é o que há entre o que existe, de fato, no mundo e o que podemos conhecer dessa realidade.


Os parabéns cabem em seu blog. Mais da entrevista, no site do SESC.

Objetividade de imprensa?

24/February/2009 - 04h12 - 76 Comentarios

Ritmo bom esse lento aí de Brasil no Carnaval =)

Li atento todos os comentários a respeito do post sobre a crise do jornalismo, por enquanto mais norte-americana do que brasileira. O que incomodou a mais gente foram minhas observações a respeito da objetividade da imprensa.

Daqui, estou envolvido nas pesquisas da Escola de Design de Stanford a respeito de como as pessoas se relacionam com o jornalismo. O que ouvimos de um após o outro seguido dum terceiro é que ninguém acredita que a imprensa seja objetiva. Estudantes falam isso. Professores com listas de PhDs o dizem. Donas de casa. Gerentes de loja. Empresários do Vale do Silício. É o mesmo que a IDEO, que citei no último post, ouviu em suas pesquisas em várias cidades grandes dos EUA. E é o que vocês escreveram aqui nos comentários.

Na verdade, é mais bem do que uma mera constatação. Para muitos, qualquer menção a respeito de objetividade jornalística gera animosidade. Os comentários vêm com emoção: ‘os jornais nos enganam’, dizem. Às vezes, a observação vem seguida de um ou dois exemplos específicos. Noutras tantas, ela representa um sentimento difuso.

(Esse assunto me angustia pacas.)

Independentemente de haver objetividade jornalística ou não, o fato é que os leitores e espectadores e ouvintes de noticiários não acreditam nela. E este é um problema crucial para a imprensa. Afinal, ela vive em última instância de credibilidade. É claro que, no momento, a crise econômica foi causada por uma mudança no modelo industrial. A digitalização está chacoalhando muitas indústrias, não apenas a jornalística. Mas neste processo de transferência do papel e da tevê para o TCP/IP, onde a concorrência por atenção será muito mais vasta, o jornalismo profissional precisará contar com sua credibilidade.

Mais importante do que se eu, jornalista, considero a imprensa objetiva ou não, é o fato de que vocês não a consideram. Mas é bom não confundir que a questão é mais profunda: é possível ter credibilidade sem ser isento? Ser objetivo é ser isento? É possível ter ideologia declarada, partido escolhido, e ainda assim apresentar os fatos honestamente? Essas não são questões triviais.

Quando disse que a imprensa brasileira é, hoje, mais profissional e objetiva do que em qualquer outro momento de sua história, é porque realmente esta é minha impressão. Ela certamente não o era nos anos 1940, 50, 60. Em plena censura, nem dava para ser. Há histórias complicadas nos anos 80. Dos anos 90 para cá, há melhoras nítidas no cenário geral. Não quer dizer que um ou outro exemplo não salte aos olhos no sentido contrário. Eu já vi coisas feias acontecendo em redações – mas foi em redações de jornais de médio porte. (Certa vez, fui demitido por sugestão de um governador. Não foi na grande imprensa.) É difícil, hoje, um jornalista de grande redação se corromper como acontecia no passado. Mesmo as colunas sociais – onde havia espaço de sobra para dinheiro circular – foram limpas nos últimos anos.

Esta, certamente, não é a percepção dos leitores. Há certeza de que interesses misteriosos (ou não tão misteriosos) conspiram para dar o enfoque das notícias. Alguns suspeitam que jornais estão envolvidos no projeto político de um partido ou de outro. (Basta ler o que se diz na Internet.)

E minha impressão é de que a grande imprensa não está atenta ao fato de que há uma crise de credibilidade no ar. Vez por outra, um grande jornal ou grande revista publica lá um artigo ou reportagem oficial para falar de si mesmo, revelar algum momento de sua história. Quando um texto destes tem que sair, um dos mais graduados jornalistas da Casa é selecionado, vários olhos relêem o texto, é uma noite de fechamento tenso. É o assunto que domina a redação. Jornais e revistas não gostam de falar de si mesmos. E, quando falam, de tão relidos e cuidadosos, os textos vêm com aquele tom oficialesco como quem diz: é isto que quero falar agora, nada mais tenho a declarar.

Não é à toa que não há uma coluna de mídia na grande imprensa brasileira. Quer dizer – há – adoro, diga-se, a Toda Mídia de Nelson de Sá, na Folha de S. Paulo. Mas Nelson descreve como a imprensa está noticiando, não noticia o que se passa na imprensa. Não há, no Brasil, um colunista como Howard Kurtz, que cobre a imprensa para o Washington Post. O Post cobre sua própria indústria como cobre as outras indústrias ou a política. (E, mesmo aqui nos EUA, há Kurtz é mais ninguém; ele é a exceção, não a regra.)

O resultado é que o público percebe: está ali uma indústria opaca, talvez a única indústria que não sofre de fato o escrutínio da imprensa. É natural que desta percepção nasça desconfiança. Falta transparência, falta mostrar como a salsicha é feita.

Se houvesse transparência, nem todas histórias a sair publicadas seriam bonitas. Mas o público, ainda mais nesta era de Internet, é maduro. Ele sabe que nem tudo no mundo é perfeito. Talvez, para sua surpresa, uma indústria tão defensiva como a da grande imprensa descobrisse que ela é justamente a quem tem mais a ganhar se recebesse a mesma luz que joga sobre o resto do mundo.

Atualização – Só porque o assunto está pairando e é importante deixar algumas coisas claras: ditabranda é o cacete. O que houve no Brasil foi a interrupção da democracia, seguida por um regime autoritário que rasgou a Constituição seguida da declaração de direitos os mais básicos do homem, assumiu a tortura como política de Estado e por fim tornou-se a máquina mais corrupta a jamais governar o país. Ditadura. Uma ditadura incompetente que deixou a economia na lama, uma ditadura brutal que, quando teve a chance, matou. Um regime de raiva. Mas o editorial da Folha, assim como a estranha por deselegante resposta aos professores Fabio Comparato e Maria Benevides, foram publicadas na parte de Opinião do jornal. Não na de noticiário.

O futuro do jornalismo.
(Que futuro?)

20/February/2009 - 00h36 - 145 Comentarios

Vários de vocês me pediram para falar mais sobre a relação de jornais, e do jornalismo, com a internet. Desde agosto, vivo no meio do Vale do Silício, enfurnado com outros 20 jornalistas de toda parte do mundo. Como a maioria dos maridos e mulheres dos outros Knight Fellows, aqui em Stanford, também são jornalistas, formamos um conjunto bem grandinho que acorda, almoça e dorme falando sobre jornalismo e tecnologia. (Marina, minha mulher, ela própria jornalista, não aguenta mais o assunto. Eu sou obsessivo.)

Esta é a visão da velha mídia vista da capital da nova mídia:

Não há otimismo

Aqui nos EUA, metade dos jornais vão morrer nos próximos dez anos. Os grandes, tipo New York Times, sobreviverão. Possivelmente sairão menores do que entraram. A curto e médio prazo, a situação no Brasil é diferente. Os governos FH e Lula trouxeram muita gente para a classe média e o número de alfabetizados aumenta. Há mais leitores de jornal. Mas, a longo prazo, isso só quer dizer uma coisa: os grandes grupos de mídia brasileiros têm mais tempo do que os norte-americanos para enfrentar as mudanças que já estão acontecendo. Em sua maioria, estão postergando tais mudanças por dois motivos. O primeiro é que não sabem exatamente o que têm de fazer. O segundo é porque nós, jornalistas, somos bichos extremamente conservadores. Resistimos a mudanças.

O que está mudando?

Na quarta-feira, passei a tarde na IDEO, a principal empresa de design do Valley. Eles fizeram o primeiro mouse da Apple, os Palms todos, mas não é por produtos que a IDEO é mais conhecida. Seu método de estudo de problemas pelo ponto de vista do design, design thinking, está sendo implementado até na organização de empresas. Uma delas é a Gannett, conglomerado de vários jornais regionais dos EUA. A IDEO fez um estudo para o Detroit Free Press, o jornal em piores condições do grupo. Sua primeira conclusão explica tudo: aqui nos EUA, os leitores com menos de 40 anos não lêem jornais.

Lêem os sites de jornais, é verdade. E é por isso que uma das sugestões da moda é que se os jornais cobrarem alguns centavos por cada artigo online tudo se resolve. Na IDEO, ou em todo o Vale do Silício, há uma certeza: jornais não conseguirão cobrar por conteúdo. Por um motivo simples: notícia de graça existe às pencas na web. O que acontece com quem cobra por conteúdo é que termina sem ser lido. O New York Times cobrava pela leitura de seus colunistas, e o dinheiro lhe rendia uma quantia bastante razoável. Mudou de idéia e sacrificou a fonte de renda porque suas colunas não eram mais tema de debate. Deixar de repercutir é justamente o que um jornal não pode fazer.

O mundo mudou, a imprensa não viu

Nosso modelo de imprensa não é uma tradição de séculos. Ele data, isto sim, de entre os anos 1920 e 40, nos EUA. Alguns princípios são sacrossantos para nós, jornalistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado: quem mexe com publicidade, nas grandes empresas, não dá pitaco na redação. Os anunciantes não podem achar que têm o poder de intervir. Quando esse tipo de interferência ocorre, em geral nos jornais que cheiram mal, nós jornalistas olhamos com desdém. Outro princípio que corre em nosso sangue é o da isenção e objetividade. Somente os fatos. Opinião fica delimitada às colunas e página de editoriais.

O modelo caducou.

Vocês, leitores, não acreditam que sejamos objetivos. Vocês têm certeza de que os donos de jornais têm interesses e que usam seus veículos para encaminhá-los. Acham que nós, jornalistas, temos ideologia que refletimos nas reportagens que escrevemos. Em vários momentos da história, foi assim mesmo. Hoje, a grande imprensa brasileira – só lembro de uma exceção – vive um momento de extremo profissionalismo. Mas não adianta. Credibilidade perdida não se recupera na esquina.

Não é só no Brasil, é em todo o mundo: leitores não acreditam na objetividade jornalística. E uma campanha publicitária não resolverá o problema.

O problema, aliás, só é aumentado com o fato de que a Internet criará mais e mais pequenas empresas jornalísticas – aqui nos EUA já existem algumas. Com equipe muito enxuta, é difícil fazer a separação entre quem vende a publicidade e quem faz o conteúdo.

A questão do modelo de negócios das redações é tão pesada e tão discutida que ela disfarça um problema muito mais profundo. Nos próximos anos, queiramos nós jornalistas ou não, o jornalismo será refundado, recriado, reinventado. Se continuarmos como estamos, na defensiva, fingindo que o problema é apenas um modelo de negócios, o novo jornalismo surgirá independentemente de nós.

Mas mudou em que mesmo?

Richard Gingras, um dos fundadores da Salon.com, executivo do GoogleNews, consultor do New York Times e do (excelente) blog político Talking Points Memo resume assim: pusemos uma rotativa nas mãos de quase todo mundo. Agora, acabou.

A ‘rotativa’ é a Internet. O modelo de negócios da imprensa era baseado na escassez de distribuição. Quem tinha o poder de imprimir informação e botá-la nas bancas de todo a cidade, estado ou país podia ganhar muito dinheiro. Acabou. Às vezes, vejo jornalistas discutindo a falta de qualidade de informação online como se o produto que produzimos todos os dias fosse a melhor coisa do mundo. Não é.

Não é repetindo mil vezes que produzimos algo melhor do que o blog da esquina que vamos convencer alguém disso. Não é repetindo duas mil vezes que alguém tem que pagar pela produção destas notícias que o público, comovido, dará um passo à frente e pagará. A informação que temos é igual à informação que existe em vários outros lugares, de graça.

Imprensa profissional para quê?

Por mais imperfeita que seja, uma imprensa é fundamental para a democracia. É na imprensa, perante os olhos de todos, que os grandes debates nacionais acontecem. A imprensa surgiu para ser a voz do cidadão e o olho do cidadão nos afazeres públicos. É por causa da imprensa que eles, os eleitos, não podem fazer o que querem sem ser vistos.

O exemplo máximo do ápice do atual modelo de imprensa é Watergate, que levou à renúncia de Richard Nixon. Tudo funcionou direito naquele caso: o Washington Post foi responsável, deu à dupla de repórteres todo tempo do mundo para investigar e os sujeitos trabalharam duro. Às vezes, passavam semanas sem encontrar nada de novo. Nos primeiros seis meses de investigação, o que trouxeram a público parecia tão irrelevante que nenhum outro jornal seguiu a história. Mas, no final de um ano e meio, o presidente renunciou por má conduta.

Custa caro isso: para cada Watergate, muitos jornalistas ficam mais de ano explorando assuntos que não dão em nada. (Ficavam: nenhum jornal se dá mais a esse luxo.) Este serviço é fundamental para a democracia. O jornalista profissional, por ser pago para se dedicar a isto, acumula fontes, sabe a quem perguntar, tem acesso a figuras no poder, após anos de experiência sabe o que fazer, não é ingênuo. Blogueiros que trabalham somente à noite poderão fazer o mesmo? Cheguei aos Estados Unidos convicto de que não. Hoje, tenho minhas dúvidas.

Não porque o blogueiro solitário fará o que um repórter faz. Mas porque um grande grupo de blogueiros e seus leitores, dedicados a descobrir informação sobre algum assunto, podem ser capazes de mais do que repórteres.

O Talking Points Memo, afinal, conseguiu a renúncia do ex-procurador geral dos EUA Alberto Gonzáles assim: com a ajuda de seus leitores reunindo vários cacos de informação por todo o país até formar a história completa. Gonzales já estava para renunciar perante o escândalo quando a imprensa profissional começou a prestar atenção. Nem viu de onde veio.

Por anos, falei eu mesmo muito mal da Wikipédia. Mas se algo de muito importante está acontecendo em alguma parte do mundo, a página da Wikipédia sobre aquele assunto é a melhor cobertura que há. Lá, gente de toda parte está reunindo o melhor que sai na imprensa por toda parte. Um trabalho, diga-se, incrivelmente responsável, com o cuidado de citação de fontes para cada novo dado.

Um dos grandes desafios técnicos do jornalismo é, na verdade, como melhor interagir com o público em busca de informação ao mesmo tempo em que organiza a informação coletada. Não é um problema trivial. É um dos problemas mais fundamentais para o futuro da profissão e já há algumas experiências interessantes.

Transparência

Não me entendam mal: para mim, como para um enorme número de jornalistas, este processo gera uma ansiedade profunda. Este não é um momento tranquilo. A indústria que está ameaçada, afinal, é aquela que nos paga salários. E, em alguns casos, é um trabalho pelo qual temos uma devoção quase religiosa. Temos uma cultura profundamente arraigada. Este processo de transformação não afeta apenas o jornalismo, evidentemente: a indústria musical e de cinema estão aí para demonstrá-lo. Mas o jornalismo é mais que um bem cultural, ele é um dos alicerces básicos da democracia.

Neste processo de reinventar o jornalismo, a primeira coisa que temos que fazer é reconquistar a confiança de leitores e espectadores. Concentramos tempo demais em valores secundários e abandonamos o principal: transparência.

Vocês não esperam que sejamos objetivos mesmo que nós nos consideremos objetivos. Vocês partem do princípio de que não somos e cobram, para melhor avaliar a notícia que oferecemos, conhecer um pouco mais sobre nós, sobre nossas tendências, sobre como vemos o mundo. Cobram isto de nós, jornalistas, e de nossos empregadores.

Vocês entendem nossas dificuldades para angariar propaganda. Mas esperam que sejamos transparentes a este respeito.

Jornalista adora culpar o patrão. Mas não é só o patrão que é pouco transparente. Nós, enquanto classe, também somos. Não revelamos nossos processos, não gostamos de pedir desculpas, e temos aversão a interagir com o público. Bem: o público também não anda lá muito satisfeito em sua interação conosco.

Se a imprensa é o quarto poder, é o mais opaco dentre eles. É só que, repetindo que ‘repórter não é notícia’, preferimos fingir que nada temos com a história.

Modelos

Três modelos estão surgindo para sustentar o bom jornalismo. A base é propaganda e continuará sendo. As empresas jornalísticas terão que ser mais enxutas do que jamais foram para lidar com a falta de dinheiro das assinaturas.

O segundo modelo são fundações. Fundações, ONGs financiadoras, estão investindo em seus setores para que o público seja melhor informado sobre assuntos que lhes interessam: saúde, educação, moradia – não importa. É o novo jornalismo militante.

Por fim, não micropagamentos, mas doações.

O público compreende quando sua fonte de informação presta realmente um serviço relevante. É o caso, novamente, do Talking Points Memo. A cada dois anos, após eleições, seu editor-chefe pede doações do público e recebe uma bolada de leitores que são engajados na produção de noticiário do site. A propaganda sustenta os salários em sua pequena redação. Os aumentos de infra-estrutura são bancados por estas doações.

Um amigo meu, Chris Allbritton, cobriu a Guerra do Iraque com doações de seus leitores que queriam uma voz independente. (Chris, diga-se, discorda de mim em quase tudo do que escrevi aqui. Ele considera que leitores devem pagar assinaturas.)

De qualquer forma, doações funcionam de tempos em tempos, para um objetivo específico, em troca de um serviço que os leitores aprenderam a respeitar e apreciar. Não são um modelo recorrente que ajude a bancar o dia-a-dia das operações.

É um mundo muito diferente este que está à nossa frente. E as mudanças estão apenas começando.