Vários de vocês me pediram para falar mais sobre a relação de jornais, e do jornalismo, com a internet. Desde agosto, vivo no meio do Vale do Silício, enfurnado com outros 20 jornalistas de toda parte do mundo. Como a maioria dos maridos e mulheres dos outros Knight Fellows, aqui em Stanford, também são jornalistas, formamos um conjunto bem grandinho que acorda, almoça e dorme falando sobre jornalismo e tecnologia. (Marina, minha mulher, ela própria jornalista, não aguenta mais o assunto. Eu sou obsessivo.)
Esta é a visão da velha mídia vista da capital da nova mídia:
Não há otimismo
Aqui nos EUA, metade dos jornais vão morrer nos próximos dez anos. Os grandes, tipo New York Times, sobreviverão. Possivelmente sairão menores do que entraram. A curto e médio prazo, a situação no Brasil é diferente. Os governos FH e Lula trouxeram muita gente para a classe média e o número de alfabetizados aumenta. Há mais leitores de jornal. Mas, a longo prazo, isso só quer dizer uma coisa: os grandes grupos de mídia brasileiros têm mais tempo do que os norte-americanos para enfrentar as mudanças que já estão acontecendo. Em sua maioria, estão postergando tais mudanças por dois motivos. O primeiro é que não sabem exatamente o que têm de fazer. O segundo é porque nós, jornalistas, somos bichos extremamente conservadores. Resistimos a mudanças.
O que está mudando?
Na quarta-feira, passei a tarde na IDEO, a principal empresa de design do Valley. Eles fizeram o primeiro mouse da Apple, os Palms todos, mas não é por produtos que a IDEO é mais conhecida. Seu método de estudo de problemas pelo ponto de vista do design, design thinking, está sendo implementado até na organização de empresas. Uma delas é a Gannett, conglomerado de vários jornais regionais dos EUA. A IDEO fez um estudo para o Detroit Free Press, o jornal em piores condições do grupo. Sua primeira conclusão explica tudo: aqui nos EUA, os leitores com menos de 40 anos não lêem jornais.
Lêem os sites de jornais, é verdade. E é por isso que uma das sugestões da moda é que se os jornais cobrarem alguns centavos por cada artigo online tudo se resolve. Na IDEO, ou em todo o Vale do Silício, há uma certeza: jornais não conseguirão cobrar por conteúdo. Por um motivo simples: notícia de graça existe às pencas na web. O que acontece com quem cobra por conteúdo é que termina sem ser lido. O New York Times cobrava pela leitura de seus colunistas, e o dinheiro lhe rendia uma quantia bastante razoável. Mudou de idéia e sacrificou a fonte de renda porque suas colunas não eram mais tema de debate. Deixar de repercutir é justamente o que um jornal não pode fazer.
O mundo mudou, a imprensa não viu
Nosso modelo de imprensa não é uma tradição de séculos. Ele data, isto sim, de entre os anos 1920 e 40, nos EUA. Alguns princípios são sacrossantos para nós, jornalistas. Um deles é a separação entre Igreja e Estado: quem mexe com publicidade, nas grandes empresas, não dá pitaco na redação. Os anunciantes não podem achar que têm o poder de intervir. Quando esse tipo de interferência ocorre, em geral nos jornais que cheiram mal, nós jornalistas olhamos com desdém. Outro princípio que corre em nosso sangue é o da isenção e objetividade. Somente os fatos. Opinião fica delimitada às colunas e página de editoriais.
O modelo caducou.
Vocês, leitores, não acreditam que sejamos objetivos. Vocês têm certeza de que os donos de jornais têm interesses e que usam seus veículos para encaminhá-los. Acham que nós, jornalistas, temos ideologia que refletimos nas reportagens que escrevemos. Em vários momentos da história, foi assim mesmo. Hoje, a grande imprensa brasileira – só lembro de uma exceção – vive um momento de extremo profissionalismo. Mas não adianta. Credibilidade perdida não se recupera na esquina.
Não é só no Brasil, é em todo o mundo: leitores não acreditam na objetividade jornalística. E uma campanha publicitária não resolverá o problema.
O problema, aliás, só é aumentado com o fato de que a Internet criará mais e mais pequenas empresas jornalísticas – aqui nos EUA já existem algumas. Com equipe muito enxuta, é difícil fazer a separação entre quem vende a publicidade e quem faz o conteúdo.
A questão do modelo de negócios das redações é tão pesada e tão discutida que ela disfarça um problema muito mais profundo. Nos próximos anos, queiramos nós jornalistas ou não, o jornalismo será refundado, recriado, reinventado. Se continuarmos como estamos, na defensiva, fingindo que o problema é apenas um modelo de negócios, o novo jornalismo surgirá independentemente de nós.
Mas mudou em que mesmo?
Richard Gingras, um dos fundadores da Salon.com, executivo do GoogleNews, consultor do New York Times e do (excelente) blog político Talking Points Memo resume assim: pusemos uma rotativa nas mãos de quase todo mundo. Agora, acabou.
A ‘rotativa’ é a Internet. O modelo de negócios da imprensa era baseado na escassez de distribuição. Quem tinha o poder de imprimir informação e botá-la nas bancas de todo a cidade, estado ou país podia ganhar muito dinheiro. Acabou. Às vezes, vejo jornalistas discutindo a falta de qualidade de informação online como se o produto que produzimos todos os dias fosse a melhor coisa do mundo. Não é.
Não é repetindo mil vezes que produzimos algo melhor do que o blog da esquina que vamos convencer alguém disso. Não é repetindo duas mil vezes que alguém tem que pagar pela produção destas notícias que o público, comovido, dará um passo à frente e pagará. A informação que temos é igual à informação que existe em vários outros lugares, de graça.
Imprensa profissional para quê?
Por mais imperfeita que seja, uma imprensa é fundamental para a democracia. É na imprensa, perante os olhos de todos, que os grandes debates nacionais acontecem. A imprensa surgiu para ser a voz do cidadão e o olho do cidadão nos afazeres públicos. É por causa da imprensa que eles, os eleitos, não podem fazer o que querem sem ser vistos.
O exemplo máximo do ápice do atual modelo de imprensa é Watergate, que levou à renúncia de Richard Nixon. Tudo funcionou direito naquele caso: o Washington Post foi responsável, deu à dupla de repórteres todo tempo do mundo para investigar e os sujeitos trabalharam duro. Às vezes, passavam semanas sem encontrar nada de novo. Nos primeiros seis meses de investigação, o que trouxeram a público parecia tão irrelevante que nenhum outro jornal seguiu a história. Mas, no final de um ano e meio, o presidente renunciou por má conduta.
Custa caro isso: para cada Watergate, muitos jornalistas ficam mais de ano explorando assuntos que não dão em nada. (Ficavam: nenhum jornal se dá mais a esse luxo.) Este serviço é fundamental para a democracia. O jornalista profissional, por ser pago para se dedicar a isto, acumula fontes, sabe a quem perguntar, tem acesso a figuras no poder, após anos de experiência sabe o que fazer, não é ingênuo. Blogueiros que trabalham somente à noite poderão fazer o mesmo? Cheguei aos Estados Unidos convicto de que não. Hoje, tenho minhas dúvidas.
Não porque o blogueiro solitário fará o que um repórter faz. Mas porque um grande grupo de blogueiros e seus leitores, dedicados a descobrir informação sobre algum assunto, podem ser capazes de mais do que repórteres.
O Talking Points Memo, afinal, conseguiu a renúncia do ex-procurador geral dos EUA Alberto Gonzáles assim: com a ajuda de seus leitores reunindo vários cacos de informação por todo o país até formar a história completa. Gonzales já estava para renunciar perante o escândalo quando a imprensa profissional começou a prestar atenção. Nem viu de onde veio.
Por anos, falei eu mesmo muito mal da Wikipédia. Mas se algo de muito importante está acontecendo em alguma parte do mundo, a página da Wikipédia sobre aquele assunto é a melhor cobertura que há. Lá, gente de toda parte está reunindo o melhor que sai na imprensa por toda parte. Um trabalho, diga-se, incrivelmente responsável, com o cuidado de citação de fontes para cada novo dado.
Um dos grandes desafios técnicos do jornalismo é, na verdade, como melhor interagir com o público em busca de informação ao mesmo tempo em que organiza a informação coletada. Não é um problema trivial. É um dos problemas mais fundamentais para o futuro da profissão e já há algumas experiências interessantes.
Transparência
Não me entendam mal: para mim, como para um enorme número de jornalistas, este processo gera uma ansiedade profunda. Este não é um momento tranquilo. A indústria que está ameaçada, afinal, é aquela que nos paga salários. E, em alguns casos, é um trabalho pelo qual temos uma devoção quase religiosa. Temos uma cultura profundamente arraigada. Este processo de transformação não afeta apenas o jornalismo, evidentemente: a indústria musical e de cinema estão aí para demonstrá-lo. Mas o jornalismo é mais que um bem cultural, ele é um dos alicerces básicos da democracia.
Neste processo de reinventar o jornalismo, a primeira coisa que temos que fazer é reconquistar a confiança de leitores e espectadores. Concentramos tempo demais em valores secundários e abandonamos o principal: transparência.
Vocês não esperam que sejamos objetivos mesmo que nós nos consideremos objetivos. Vocês partem do princípio de que não somos e cobram, para melhor avaliar a notícia que oferecemos, conhecer um pouco mais sobre nós, sobre nossas tendências, sobre como vemos o mundo. Cobram isto de nós, jornalistas, e de nossos empregadores.
Vocês entendem nossas dificuldades para angariar propaganda. Mas esperam que sejamos transparentes a este respeito.
Jornalista adora culpar o patrão. Mas não é só o patrão que é pouco transparente. Nós, enquanto classe, também somos. Não revelamos nossos processos, não gostamos de pedir desculpas, e temos aversão a interagir com o público. Bem: o público também não anda lá muito satisfeito em sua interação conosco.
Se a imprensa é o quarto poder, é o mais opaco dentre eles. É só que, repetindo que ‘repórter não é notícia’, preferimos fingir que nada temos com a história.
Modelos
Três modelos estão surgindo para sustentar o bom jornalismo. A base é propaganda e continuará sendo. As empresas jornalísticas terão que ser mais enxutas do que jamais foram para lidar com a falta de dinheiro das assinaturas.
O segundo modelo são fundações. Fundações, ONGs financiadoras, estão investindo em seus setores para que o público seja melhor informado sobre assuntos que lhes interessam: saúde, educação, moradia – não importa. É o novo jornalismo militante.
Por fim, não micropagamentos, mas doações.
O público compreende quando sua fonte de informação presta realmente um serviço relevante. É o caso, novamente, do Talking Points Memo. A cada dois anos, após eleições, seu editor-chefe pede doações do público e recebe uma bolada de leitores que são engajados na produção de noticiário do site. A propaganda sustenta os salários em sua pequena redação. Os aumentos de infra-estrutura são bancados por estas doações.
Um amigo meu, Chris Allbritton, cobriu a Guerra do Iraque com doações de seus leitores que queriam uma voz independente. (Chris, diga-se, discorda de mim em quase tudo do que escrevi aqui. Ele considera que leitores devem pagar assinaturas.)
De qualquer forma, doações funcionam de tempos em tempos, para um objetivo específico, em troca de um serviço que os leitores aprenderam a respeitar e apreciar. Não são um modelo recorrente que ajude a bancar o dia-a-dia das operações.
É um mundo muito diferente este que está à nossa frente. E as mudanças estão apenas começando.