Lembrando a Alemanha comunista

12/July/2009 - 13h18 - 154 Comentarios

No segundo semestre de 1989, 20 anos atrás, uma série de acontecimentos levaram à Queda do Muro de Berlim.

A Der Spiegel está com uma mostra de fotografias do cotidiano na antiga Alemanha Oriental em sua última década de existência.

Sobre Honduras, sobre golpes

30/June/2009 - 17h56 - 165 Comentarios

Entendo os argumentos de quem diz que não houve golpe de Estado em Honduras. Não sou jurista, não conheço a carta constitucional hondurenha inteira, não me arrisco a interpretar um trecho da Constituição. E não tenho qualquer simpatia pelo chavismo.

Mas quebra da normalidade democrática na minha cartilha é golpe.

Faço um desafio: me citem um único caso na história democrática de uma deposição como esta. Precisa ter os seguintes detalhes:

1. O chefe do Executivo tem que ter sido deposto legalmente pelas Forças Armadas.
2. Tem que ter sido imediatamente exilado do país.
3. Após sua deposição tem que ter sido imposta censura total da imprensa.

Em que democracia algo assim aconteceu? Duvido que encontrem uma. Nenhum dos três procedimentos é democrático.

No caso de impedimento pelo Congresso, é o presidente do Congresso que informa o presidente do término de seu mandato. No caso de cassação judicial, há que ser alguém da Justiça. Lugar de exército é na caserna.

Um dia com Peter Sunde, da Pirate Bay

25/June/2009 - 06h32 - 143 Comentarios

Peter Sunde não pertence ao Partido Pirata. “Eles são de direita, eu não sou”, explica. “Não votei neles, mas acho bom que existam.” Passei o dia de ontem com Peter, aqui em Porto Alegre. Grande sujeito, um bom humor de enfrentar com sorrisos a maratona de fotos, entrevistas, apertos de mão, mesmo após mais de um dia viajando da Suécia para o Brasil. E, no Fórum Internacional de Software Livre, ele é pop star. A garotada o reconhece, quer tocá-lo, trocar dois dedos de prosa.

Pudera: com Fredrik Nei e Gottfrid Svartholm, Peter fundou em 2003 o Piratbyrån (Birô da Pirataria) para fazer piada da organização criada pela indústria fonográfica para combater a cópia de material com copyright online, o Antipiratbyrån. Em 2004, a organização deu origem à Pirate Bay, o maior site de bit-torrent do mundo. Eles oferecem links que levam a arquivos de músicas, software ou filmes. Desde que a Pirate Bay foi condenada pela Justiça sueca – o julgamento provavelmente será cancelado – o Partido Pirata aumentou. Terá dois deputados no Parlamento Europeu, a partir do segundo semestre.

O argumento legal da PirateBay é que eles são como o Google. Só dão links, não se responsabilizam por quem guarda o que não deve em seu computador. Mas Peter sabe que isso é só formalidade: “meu problema é que Hollywood é daninha à cultura.”

Peter é filiado ao Partido Verde. Na Suécia, é um dos responsáveis pelo grupo que estipula a plataforma tecnológica do partido. Tudo leva a crer que a coalizão de centro-esquerda que inclui os verdes chegue ao governo, nas próximas eleições.

Seu argumento é o seguinte: Hollywood e as quatro grandes gravadoras representam muito dinheiro, mas não são os maiores produtores de cultura do mundo. “Eles produzem quanto? 0,0001% de toda cultura?” Em última análise, leis de direitos autorais beneficiam estes grandes conglomerados, não a maioria dos artistas. Se ficasse nisso, tudo bem. Mas, por conta do poder econômico – e este é sempre o raciocínio de Peter –, estes conglomerados entopem o mercado, aumentam a barreira de entrada para quem é novo. O copyright, em sua visão, ao invés de contribuir para o sustento de artistas, produz um ambiente em que a maior parte da produção cultural tem pouco espaço para circular.

Eles não mantém estatísticas de o que é mais baixado no Pirate Bay. Alguns estudos sugerem que é cinemão e grandes hits. Para Peter e seus sócios, não importa. Se vai prejudicar os grandes, tanto melhor.

Ele não é radical. Não vê problema em quem queira cobrar pelo serviço de oferecer algum tipo de informação. Se alguém conseguir, ótimo. A informação, a música, o filme – estes devem ser livres. Esta é sua opinião. É bom ouvi-la e compreender, mesmo que seja para discordar depois. Na Europa, representa uma linha de pensamento crescente, que captura gente tanto à esquerda quanto à direita.

Quando socialistas viram antissemitas

19/May/2009 - 15h16 - 283 Comentarios

Foi estranho – um bocado estranho – o ataque antissemita em Buenos Aires, no domingo. Judeus foram agredidos quando deixavam a festa dos 61 anos de Israel na embaixada por rapazes com bastões, pedras. Um deles estava armado.

Os agressores eram militantes socialistas com histórico de ataques. Vestiam Che Guevara nas camisas. Tinham bandeiras de agrupações nanicas como a Frente de Acción Revolucionaria e a Convergencia Socialista.

O antissemitismo jamais foi marca ideológica da esquerda. Marx era judeu. Leon Trotsky – e, como ele, vários dos líderes bolcheviques. Os nazistas jamais se referiam ao ‘judeo-bolchevismo’ para designar o tipo de governo soviético. O Projeto Sionista é socialista – e foi o projeto socialista, transferindo judeus da Europa para a Palestina, comprando-lhes terras e erguendo os kibutzim, fazendas comunitárias, que iniciou a implantação do Estado de Israel. Este movimento é que deu origem ao Partido Trabalhista de David Ben-Gurion. De gente de esquerda se formou o Exército de Israel. Ainda hoje, o mito do israelense que trabalha a terra para erguer o país, Eretz Israel, a Terra de Israel, é um dos mais fortes no imaginário nacional.

Incompetência, paranóia sem limites, perda de noção do razoável e falta de diplomacia transformaram Israel, principalmente nos últimos anos, em um Estado agressor.

Na última década e meia, talvez duas, houve uma inversão. A direita bate no peito para defender Israel. A esquerda faz o contrário. Em parte, é fruto das ações mais recentes do governo de Israel. Também é herança dos tempos da Guerra Fria, quando o maniqueísmo de ambos os flancos ideológicos se alinha pró e contra o lado dos EUA mais por simplismo do que por compreensão. Podem ter suas razões – mas entre criticar as ações de um governo e o racismo ainda há uma diferença.

Há está linha tênue com a qual a extrema esquerda flerta com cada vez mais ousadia. Alguns países, culturalmente, estão mais expostos ao antissemitismo do que outros. O Brasil, menos. A Argentina, mais. O problema, no entanto, não é localizado geograficamente. É uma tendência internacional.

Um militante socialista que ataca um judeu por sua etnia não contradiz apenas seus valores. Ele desconhece sua história. Perdeu noção daquilo pelo que deveria estar lutando. Repete os atos de quem sempre o perseguiu. Não atenta apenas contra sua ideologia: ele a esvazia. A aniquila. E cede o argumento à direita. Próximo passo é algum louco de lá vir com a história de que o nazismo era na verdade socialista.

Maconha, o direito de se manifestar
e o crime de apologia

11/May/2009 - 14h10 - 218 Comentarios

O post do Lula Borges sobre a passeata da maconha vale ser lido, sim. Sei que alguns de vocês rejeitam de primeira, mas vejam: o texto expõe um argumento de forma tranquila, demonstra uma preocupação e propõe uma discussão. É uma discussão bem mais profunda do que a questão da maconha. Vai no cerne do conceito de democracia. Discordo de Lula em quase tudo – mas não em tudo.

Primeiro ao argumento a respeito do fórum adequado para discutir a legalização da maconha:

O fórum para essa discussão é, evidentemente, o Congresso Nacional e suas comissões temáticas, e não a praia de Ipanema. A marcha não serve para discutir os complexos aspectos legais da discriminalização, de segurança e de saúde públicas, as implicações psicológicas e sociais, ou a progressividade do vício da maconha para outras drogas e, last but not least, do combate ao tráfico.

Lula Borges considera que marchas simplificam a questão. É claro que simplificam. Marchas, passeatas, sempre lidam com slogans. Abaixo a ditadura, em 1968; Anistia ampla, real e irrestrita, em 78; Diretas, já, em 84; Fora, Collor, em 92.

No Brasil, temos uma profunda dificuldade de compreender o que é espaço público e o que é espaço privado; nos confunde o que pode fazer num ou noutro ambiente. Aqui nos EUA, a Suprema Corte passou duas décadas, entre finais dos anos 1950 e meados dos 70, discutindo se e em que circunstâncias a Ku Klux Klan poderia marchar com seus mantos brancos no espaço público. Chegaram à conclusão de que pode, mas há um limite: não pode sugerir ameaça à integridade de ninguém, seja um grupo genérico, seja indivíduos específicos. A exposição de um ponto de vista em público é realmente complexa.

Em Londres, a Speakers’ Corner do Hyde Park é o centro simbólico da democracia britânica. Lá, qualquer um pode colocar um caixote no chão, subir, declarar-se contra ou a favor de algo e engatar no discurso. Uma das primeiras liberdades tiradas por ditaduras recém-implantadas é sempre o direito à livre congregação. Ditaduras não querem que pessoas se reúnam, nem no espaço público, nem no privado, para discutir e manifestar em conjunto uma opinião.

O direito a marchar em favor de uma ideia está no cerne da democracia. É evidente que a discussão a respeito de uma ditadura é muito mais complexa do que o slogan ‘Abaixo a ditadura’ pode sugerir. Mas quando cem mil se reúnem para dizê-lo em comum, estão comunicando ao governo que já têm uma opinião formada e gostariam de ação. Sim, em 68 o governo atuou: reprimiu mais. Em 92, o governo também atuou. Gente demais na rua pedindo o encerramento precoce do mandato do presidente? O Congresso agiu.

Marchas são eficientes: provocam ação.

É só que, no caso da marcha da maconha, é gente de menos, desorganização demais, para conseguir iniciar o debate. E este é o ponto chave.

Lula Borges tem razão: é no Congresso Nacional que a discussão da reforma das leis tem que ser travada. Mas o Congresso brasileiro não age. Reage. No caso brasileiro, com baixa qualidade dos parlamentares, isso é um pouco pior. Congressos, no entanto, são assim em todo mundo. Assuntos são trazidos à pauta por pressão. Pressão econômica, pressão de lobbystas, pressão política, pressão da imprensa. O povo só tem uma arma para exercer pressão: as ruas. Se gente o suficiente for às ruas se manifestando a respeito de um assunto, Congressos reagem e se lançam à discussão.

Os problemas do argumento de que não se deve marchar, deve-se discutir no Congresso, são dois. O primeiro é que o direito de se manifestar a favor ou contra uma ideia no espaço público é uma das pernas essenciais da democracia.

O segundo é mercadológico. O Congresso é um mercado no qual discussões diferentes disputam um espaço finito. Democracias têm mecanismos para filtrar que ideias ganham espaço. O mais fundamental é a manifestação popular.

(A essência do conservadorismo é ser contra mudanças. Todo conservador sempre chamará quem vai à rua pedir mudanças de arruaceiro, de alguém que não sabe para que serve o espaço público.)

Aí, por fim, chegamos à questão exposta por Lula Borges: apologia às drogas. É crime no Brasil. Só é crime porque o país não tem um equivalente à Primeira Emenda norte-americana, que afirma de saída que o Congresso não pode legislar a respeito da manifestação de ideias.

A lei contra apologia às drogas, no Brasil, é complicada. Complicada porque está frequentemente flertando com censura. Não estou sugerindo que a briga é simples: não é. Volto à KKK nos EUA. Foram quase 20 anos de casos, um após o outro, trazidos à Suprema Corte, para definir onde acaba a expressão e onde começa o crime.

Na questão da maconha, como o próprio Lula Borges diz, a favor de sua legalização estão o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro Carlos Minc, o falecido Nobel de economia Milton Friedman. É uma discussão presente agora. Uma discussão aberta. Pública. Flerta com ‘apologia ao crime’? Flerta, claro. O problema é que ‘apologia ao crime’ torna virtualmente ilegal discutir a questão em público, manifestar uma opinião mais enfática.

Crimes são diferentes. Não é porque aborto é crime que devemos ser proibidos de defender aborto. Existe uma discussão pública mundial a respeito da questão. A discussão deve ser estimulada, não coibida. Argumentar com o ‘imagine alguém defendendo o estupro’ não é honesto. O crime de estupro não é polêmico. Esquerda e direita, libertários e conservadores, não importa como os classifique, disputas ideológicas não passam pelo estupro.

Deveríamos todos, pois, ir à praia marchar contra o crime de apologia ao crime.

Censura à marcha da maconha

01/May/2009 - 14h35 - 101 Comentarios

A Marcha da Maconha, marcada para se realizar nos dias 2, 3 e 9 de maio, em 14 cidades brasileiras, foi proibida em São Paulo, Salvador e João Pessoa e pedido do Ministério Público. A sugestão é de que a marcha induziria ao uso de drogas, o que é crime.

Fumar maconha é crime, sim, aí no Brasil. Aqui na Califórnia, para quem tiver uma receita médica no bolso, é legal. Em San Francisco, preocupada com coisas mais importantes, a polícia não se dá sequer ao trabalho de checar o papel. Há uma área do Golden Gate Park, Hippie Hill, onde os cigarros circulam com cordialidade. Não é longe da esquina das ruas Haight e Ashbury, onde nascey o movimento hippie.

Os procuradores que pediram a intervenção em regiões do Brasil estão fingindo que o movimento pela legalização da maconha não existe. Mas existe, sim, em todo mundo. É um movimento político. Há vários países democráticos que já convivem com sua legalidade, ainda que parcial. Violar leis é, evidentemente, ilegal. Contestar leis é direito pétreo em qualquer democracia. Impedir uma marcha que pede a legalização da maconha, portanto, é o mesmo que proibir que um grupo de cidadãos manifeste publicamente sua opinião.

É censura. Por definição anti-democrática.

Chávez traz Eduardo Galeano de volta à moda
(Ainda que seja só por alguns dias)

20/April/2009 - 12h06 - 77 Comentarios

Hugo Chávez deu de presente a Barack Obama um exemplar de As veias abertas da América Latina, best-seller antigo de Eduardo Galeano, já meio surrado pelo tempo mas ainda popular entre alguns da esquerda.

Resultado: neste exato momento, Eduardo Galeano foi alçado a número 2 na lista de best-sellers da Amazon.

via Foreign Policy

Atualização – O Alex Castro escreveu sobre o mesmo assunto em seu blog. Também lá os comentários instigam polêmica. Concordo com o Alex: As Veias Abertas é um livro ingênuo que trata latino-americanos como meras vítimas. O mundo, principalmente após o processo de globalização, é muito mais complexo do que isso e nós, latino-americanos, somos maiores do que sua visão paternalista faz parecer.

Guerras e conflitos no mundo, 2008

07/January/2009 - 14h00 - 62 Comentarios

Aconteceram nove guerras e 130 conflitos no mundo em 2008, segundo o Instituto Heidelberg para o Estudo de Conflitos Violentos. Comparado a 2007, 2008 foi mais violento. Na categoria ‘conflitos’ entram desde disputas com violência latente entre países que dividem fronteiras até àqueles nas quais a matança é comum.

Conflitos leves foram aumentados ao ponto de virar guerras no Quênia e no Iêmen. Mudanças ideológicas continuam sendo a maior causa de conflitos, mas ainda existem casos como o do Congo, onde a guerra é motivada pela exploração de recursos minerais.

A luta pela auto-determinação de um povo é a segunda causa de conflitos no mundo e a pelo controle de um governo.

As lições de John Maynard Keynes

06/January/2009 - 14h21 - 23 Comentarios

O Financial Times publica alguns dos colunistas mais interessantes da imprensa internacional. Como a turma da também britânica The Economist, sempre arranjam algo de surpreendente para dizer, uma observação que muda o foco habitual das discussões. Em tempos nos quais os mesmos argumentos são repetidos ad infinitum, esta habilidade de olhar uma velha discussão por outro ângulo é sempre bem-vinda.

Uns dias atrás, o colunista de economia Martin Wolf declarou que é hora de aplicar as lições de John Maynard Keynes. É assim que ele vê tais lições:

A primeira lição, levada à frente pelo economista Hyman Minsky, é que não devemos levar a sério os financistas. ‘O típico banqueiro sábio não é aquele que percebe o perigo antes e o evita, é aquele que, quando vai à falência, faliu de forma convencional com todos seus pares de forma que ninguém possa culpá-lo.’ Keynes não acreditava nessa história de a ‘eficiência dos mercados’.

A segunda lição é que a economia não pode ser analisada como quem analista uma empresa. Faz sentido para uma empresa cortar seus gastos. Mas se o mundo faz isso, simplesmente vai diminuir a demanda. Um indivíduo não deve gastar tudo o que ganha. Mas o mundo deve.

A terceira lição, a mais importante delas, é que não devemos tratar a economia como um tratado moral. Na década de 1930, havia duas visões ideológicas distintas: a austríaca e a socialista. Os austríacos – Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek – argumentavam que era preciso banir os excessos da década de 1920. Já os socialistas sugeriam que o socialismo deveria substituir o capitalismo falido. Estas visões tinham por base duas religiões seculares. A primeira era a de que o comportamento de indivíduos independentes garantiria a estabilidade da ordem econômica; a segundo era a de que a mesma motivação levaria a exploração, instabilidade e crise.

O gênio de Keynes – um gênio de todo britânico – era de que não deveríamos encarar o sistema econômico como um tratado sobre a moral e sim como um desafio técnico. Ele queria preservar tanta liberdade quanto possível ao passo em que reconhecia que um Estado mínimo não poderia sustentar uma sociedade democrática como economia urbanizada. Ele queria preservar a economia de mercado sem jamais acreditar que laisser faire produz os resultados ideais no melhor dos mundos.

O adeus a Samuel Huntington

30/December/2008 - 05h03 - 60 Comentarios

Samuel Huntington morreu na quarta-feira passada e já deveria ter aparecido por aqui, no Weblog. Mas aí houve o bombardeio de Gaza.

Ele é um dos mais influentes cientistas políticos do tempo em que vivemos. Seu livro mais lembrado, nos últimos tempos, é O Choque de Civilizações, mas ele escreveu muito durante mais de 50 anos de carreira como pensador.

Para ele, democracia não funcionaria para qualquer um. Houve o tempo em que, considerou, a cultura católica ibérica por exemplo seria incompatível com democracia. E, com Salazar e Franco, com milicos vários América Latina afora, os fatos faziam parecer que estava certo. Até que deixou de estar.

Huntington ocupa um lugar na história do Brasil: ele serviu como consultor dos generais no período de transição. E se gabava de ter feito um bom trabalho, do tipo que garantiu ao Brasil uma democracia estável.

Suas teorias se punham em oposição às chamadas teorias da Modernização. Um bom grupo de cientistas políticos considera que uma mistura de elementos como maior nível educacional da população, melhor distribuição econômica, enriquecimento do país, infra-estrutura etc. levam naturalmente ao desenvolvimento. Huntington, não. Para ele, a receita ideal para países em desenvolvimento são ordem e estabilidade. Democracia e liberdade podem ser dispensados para um futuro longínquo. Sua fórmula foi aplicada entre os governos Médici e Figueiredo no processo de abertura brasileiro. Anos depois, olhando para o Brasil, o velho cientista costumava dizer que tinha acertado.

Há quem sugira que simplesmente teoriza justificativas racionais para a opressão.

Suas teorias a respeito de democratização costumam ficar restritas aos ambientes acadêmicos. Seu trabalho a respeito do choque entre civilizações, não.

A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, sugeriu Francis Fukuyama, teria posto fim à história. Para Huntington, um novo ciclo teria tido início. Nele, não seriam nem razões primordialmente econômicas, muito menos ideológicas, que provocariam os conflitos militares. Os novos conflitos seriam culturais, partindo da fricção entre as ‘oito civilizações’: a ocidental (EUA, Canadá, Europa e Austrália), latino-americana, islâmica, chinesa, hindu, japonesa e africana.

O livro saiu em meados da década de 1990 mas, dado o que disse, não é à toa que virou herói de quatro em cada cinco neoconservadores quando houve o Onze de Setembro. Ter-se tornado o principal ideólogo da visão de mundo do governo George W. Bush é uma triste ironia. Democrata convicto, Huntington foi assessor das campanhas derrotadas de Adlai Stevenson (1956) e Hubert Humphrey (1968) e, pasme, foi um dos idealizadores da Doutrina Carter para o Irã.

Um homem absolutamente perspicaz? Ou o homem que costurou em 1995 uma teoria sob medida para justificar um possível ataque norte-americano à China que, por acidente, serviu ao enfrentamento do terror islâmico? A principal crítica a seu trabalho é que, apesar da aparente perspicácia, a teoria é simplista. É como se ela ignorasse o fato de que a globalização fez com que entre as ‘civilizações’ houvesse intensa troca de informação. Como se ele considerasse que suas ‘civilizações’ fossem entidades homogêneas e não cheias de conflitos internos.

(Aliás: alguém aí se sente ‘latino-americano’ ao invés de ocidental?)

Cumpre não transformar suas idéias em caricatura: Huntington considerou a guerra contra o Iraque um equívoco desde que foi anunciada. Ele argumentava o seguinte: embora seja verdade que o conflito entre civilizações esteja presente, aos EUA não cabe aumentar as feridas. O objetivo do país, por ser bem mais poderoso, deveria ser reconciliar as culturas.

Nos últimos anos, não era o Islã que o preocupava mais. Éramos nós, latino-americanos. As ondas migratórias da América colonizada pela Ibéria em direção aos EUA, ele sugeria, poderiam rachar definitivamente seu país, descaracterizar sua cultura, talvez até criar uma nação com duas línguas.

Talvez.

Samuel Huntington tinha 81 anos e deu aulas em Harvard dos 23 até o ano passado.

Francisco Franco e estátuas derrubadas

19/December/2008 - 12h07 - 34 Comentarios

A última estátua em praça pública do ditador fascista da Espanha, Francisco Franco, foi retirada ontem das ruas de Santander.

Para celebrar, o blog da revista Foreign Policy lista a história das estátuas derrubadas. É uma retrospectiva divertida.

Tem Stálin, Lênin, Saddam e até George W. Bush.

Um governo mundial é possível?
(E o que a direita tacanha acha)

18/December/2008 - 13h50 - 93 Comentarios

A União Européia tem moeda própria e Banco Central, tem leis próprias, servidores públicos, uma Suprema Corte. É, literalmente, um governo de 27 países. Não extirpou a soberania de seus membros, mas criou uma nova camada comum de governança. Ex-Economist, atual editor de internacional do Financial Times e um craque dentre os jornalistas da área, Gideon Rachman se pergunta se o modelo é expansível. Um governo mundial é possível?

Em primeiro lugar, está cada vez mais claro que as questões mais difíceis envolvendo os governos nacionais são, por natureza, internacionais: há o aquecimento global, a crise financeira internacional e a ‘guerra ao Terror’.

Em segundo, dá para fazer. As revoluções no transporte e nas comunicações diminuíram o mundo de tal forma que, como escreveu o eminente historiador australiano Geoffrey Blainey, ‘Pela primeira vez na história, algum tipo de governo mundial é possível’. Blainey prevê uma tentativa de formar um governo assim em algum ponto dos próximos dois séculos, que é um período bem longo para ser tratado numa coluna de jornal.

Mas a terceira questão, uma mudança na atmosfera política, sugere que ‘governança global’ poderia vir mais cedo do que tarde. A crise financeira e a mudança climática pressionam os governos nacionais a buscar soluções globais mesmo em países como China e EUA, tradicionalmente guardiões violentos de sua soberania nacional.

Rachman também destaca as maiores dificuldades para um projeto portentoso como este. Principalmente, políticos se elegem em eleições locais e enquanto eleições locais definirem suas condutas políticas, haverá obstáculos em países como os EUA. A idéia de governo internacional não é popular – e as várias derrotas que os plebiscitos consolidadores da União Européia sofrem o mostram.

Rachman é um grande jornalista – mas é novato na Internet. O Financial Times, com sua primeira página em um tom entre o rosa e o amarelo, costuma ser vista nas mãos da elite financeira internacional. Mas desde que começou seu blog no site do FT, o velho repórter tem publicado sua coluna online de forma aberta, ampliando seu universo de leitores. Para quê. Sua caixa de comentários foi invadida subidamente por norte-americanos do sul cheios de ódio no coração. O que era um mero exercício intelectual, o explorar de uma hipótese, a eles soou como ameaça vinda do Reino Unido.

As conclusões de Rachman após seu primeiro contato com a direita tacanha:

1. Há uma incrível quantidade de ódio lá fora dirigida contra tudo e contra todos, da ONU às grandes corporações a Barack Obama. Essas pessoas sabem ler, mas não pensam.

2. A turma que acha que o mundo está para acabar é forte. Aproximadamente um terço dos emails que recebi se referiam ao Livro do Apocalipse no qual, parece que está sugerido, tudo foi previsto. Decidi responder a uma destas mensagens dizendo que jamais li o Apocalipse já que sou ateu. Erro crasso.

3. Há muita gente que acredita não apenas que o Aquecimento Global é uma mentira mas também que faz parte de uma vasta conspiração. Como os relatórios mais influentes a respeito da mudança climática foram produzidos por um painel intergovernamental ligado à ONU, a teoria é alimentada. A idéia é que a ONU perpetua a mentira da mudança climática como desculpa para impor um governo mundial sobre os EUA. Ao que parece, faço parte desta conspiração.

Henry Kissinger lê Marx e prevê
o papel dos EUA em 2009

15/December/2008 - 06h50 - 40 Comentarios

Na direita, os amadores jogam Marx no lixo; os profissionais o lêem atentos. Cá está o ex-secretário de Estado norte-americano Harry Kissinger:

Qualquer regime econômico, mas principalmente a economia de mercado, produz vencedores e perdedores. Se a diferença de qualidade de vida entre vencedores e perdedores for muito grande, os perdedores se reúnem e promovem politicamente uma mudança do sistema econômico vigente, dentro do país ou entre os países. Este fenômeno será visto repetidamente em 2009.

Kissinger escreve na edição The World in 2009 da revista britânica The Economist. A edição, que sai todo dezembro e faz previsões a respeito do ano seguinte, está entre minhas leituras favoritas há anos. Além de haver um artigo do presidente Lula nesta versão 2009, o Brasil está citado por toda parte, desde o editorial de abertura. Mas isto fica para outro post. A Kissinger.

O velho diplomata dedica seu artigo a uma interessante análise dos resultados políticos do modelo econômico implantado no mundo desde a queda da União Soviética. Quem estiver à esquerda pode chamar de neo-liberalismo. Kissinger o chama de Consenso de Washington.

Segundo Kissinger, o modelo é falho. Desde que foi adotado internacionalmente, despertou uma série de crises no México, nos Tigres Asiáticos, na Argentina. Ele diz que, nos EUA e na Europa, as crises foram interpretadas como vacilos de quem não se habituou com o sistema. Ninguém entre os ricos imaginou que o problema estivesse no próprio sistema, quanto mais que a crise pudesse se reproduzir em casa.

O pulo do gato para entender a falha, segundo Kissinger, é perceber um descompasso. O sistema econômico mundial foi globalizado. O sistema político, não: continua se baseando no Estado nação. Portanto, quem dita as regras para a economia internacionalizada é cada país individualmente. (Segundo a direita tacanha, internacionalização do poder político é coisa de comunista. Kissinger há de estar a serviço do ouro de Moscou.)

No caso da crise norte-americana, ele a explica da seguinte forma: durante os últimos 15 a 20 anos, tomados por um espírito de grandeza e algumas doses de arrogância, os EUA imaginaram que poderiam gastar o quanto quisessem, financiar quantas aventuras desejassem ao passo que contavam com o constante fluxo de capital vindo do mundo em sua direção. De forma mais simples: gastaram muito pegando dinheiro emprestado. Aí os credores – outras nações – começaram a ter dúvidas a respeito de sua capacidade de pagar. (Kissinger não fala, mas falta de confiança no administrador da Casa Branca contribuiu.) O fluxo parou e a conta chegou.

A economia é global. O poder político sobre os fluxos de recursos, local. Ele continua:

Agora que os pés de barro do sistema econômico foram expostos, o descompasso entre um sistema econômico global e um sistema político baseado no Estado nação precisa ser encarado. A economia precisa se submeter, benefícios trabalhistas devem ser revistos e a dependência em acúmulo de dívida externa deve ser vencida. A esperança é que, neste processo, lições passadas a respeito de abuso do poder do Estado não sejam esquecidas.

(Talvez Kissinger não seja tão comunista assim.)

O debate em 2009, nos EUA, será a respeito de prioridades, finalmente rompendo a antiga discussão entre idealismo e realismo. Restrições econômicas obrigarão o país a definir seus objetivos no mundo em função de uma definição madura de qual é o interesse nacional. [...]

Todo país será obrigado pelo arrocho econômico a rever sua relação com os EUA. Todos – principalmente os credores – vão analisar as decisões que os trouxeram a este ponto. Conforme os EUA diminuem sua área de foco, qual será um sistema de segurança plausível e a que ameaças ele estará voltado? Qual o futuro do capitalismo? Como, nestas circunstâncias, o mundo enfrentará seus grandes problemas, como proliferação nuclear e o aquecimento global?

Os EUA ainda serão o país mais poderoso, mas não terá mais o cargo auto-imposto de tutor do mundo. Conforme o país aprende os limites de sua hegemonia, deve começar a implementar um sistema de consulta internacional que vai além do conceito que sempre adotou. O G8 precisará redefinir seu papel, conforme incorpora China, Índia, Brasil e talvez a África do Sul.

Kissinger não diz, mas não custa esclarecer. George W. Bush deixa, na saída, um país muito menor do que aquele que recebeu ao chegar. Tem menos poder, menos dinheiro, menos influência, menos respeito internacional. Os quesitos menos poder e menos influência viriam, por certo, conforme países outrora pobres crescem e mais e mais gente chega à classe média em todo o mundo. Bush apressou o processo.

Há revoluções que trazem liberdade

11/December/2008 - 22h12 - 61 Comentarios

O governo de Franklin Roosevelt, alternância
de poder, democracias e nosso Hugo Chávez

03/December/2008 - 00h58 - 95 Comentarios

Por que alternância de chefes de Executivo é necessária? A pergunta nos comentários abaixo vem rapidamente acompanhada do exemplo do governo de Franklin Roosevelt, que teve quatro mandatos nos EUA.

Bem: os padrões ideais de uma democracia em princípios do século 21 não são os mesmos da primeira metade do século 20. Naquela época, raras eram as democracias no mundo mesmo na Europa Ocidental. Hoje, democráticos são mais da metade dos países do mundo.

A Freedom House, que tem o melhor levantamento do tipo, separa o mundo em três tipos. Países livres, Semi-livres, e Ditaduras. Nas Américas, somos todos democracias plenas com 10 exceções. Cuba é uma ditadura. Nicarágua, Honduras e Guatemala – na América Central – e Paraguai, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela caem na coluna dos países onde a liberdade é parcial.

Foi justamente com Franklin Roosevelt que se aprendeu sobre como é importante a alternância de líderes. O problema não é apenas o risco de autoritarismo que um Executivo forte e viciado pode trazer. É também a alternância de gerações. Líderes costumam chamar para trabalhar com eles gente de sua geração. Em ditaduras e em governos democráticos muito longos, não se renova gerações. Sem a disputa pelo cargo mais alto, novos políticos não são formados.

O exemplo de Roosevelt é claro. Sucedido por Harry Truman e Dwight Eisenhower, seu período na presidência acabou condenando os EUA a serem governados pela geração de 1880 entre 1933 e 1959. São quase três décadas quando o normal seria cada geração governar por uma década e meia. Foram Richard Nixon e John Kennedy, ambos nascidos na década de 10, que disputaram a eleição de 60. Não houve substituição geracional antes porque durantes os longos quatro mandatos de Roosevelt sabia-se que ele estaria ali para sempre. Ninguém da última década do século 19 ou da primeira do 20 tentou de fato. Não tiveram chances. Novas gerações, quando chegam ao governo, renovam um país.

Não é que seja uma regra cartesiana: a população sempre pode preferir levar à presidência um homem mais velho. Mas a disputa ferrenha é fundamental. E, quando não há limites para reeleição, ela não acontece. Democracia precisa de uma ajudinha para seu processo de seleção natural.

Independentemente disso, como já foi tratado aqui, Hugo Chávez não controla apenas o Executivo. Controla também o Legislativo e o Judiciário. O fato de que a Venezuela não tem três poderes independentes é o principal critério para que caia na lista de regimes semi-livres da Freedom House.

Atualização – O historiador David Kennedy questiona minha interpretação da História norte-americana. Ele é um dos maiores especialistas neste assunto e não concorda que houve o bloqueio de uma geração. Escrevi um post sobre o assunto.

Olavo de Carvalho e Michael Moore

01/December/2008 - 16h33 - 391 Comentarios

Aos prezados leitores que chegam a este post indicados caridosamente pelo Olavão, bem-vindos. É sempre um prazer. Talvez lhes interesse saber que não sou o único louco. A Suprema Corte dos EUA também é louca. Se, no entanto, o que buscam é sangue, sinto desapontá-los. Minha resposta reconhece a sapiência do Olavão e pede as desculpas cabidas.

Nos comentários abaixo que ainda questionam a cidadania norte-americana de Barack Obama, o Fernando José cita um texto do filósofo e astrólogo e comentarista político Olavo de Carvalho sem deixar claro que está citando Olavão.

Olavo é sempre divertido. Ele usa a técnica Michael Moore de difamação. Funciona assim: basta começar a fazer elos. Por exemplo, na frase:

O site FactCheck pertence à ONG Chicago Annenberg Challenge, que contribuiu para a campanha de Obama e onde ele trabalhou ao lado de William Ayers, coletando dinheiro para organizações esquerdistas.

(Me lembra tanto Michael Moore mostrando as relações da família Bush com o negócio do petróleo, com a família real saudita e, por fim, com os bin-Laden.)

Há algum fato errado na frase? Não. É só que a lógica é primária. Por exemplo, a frase abaixo é igualmente correta:

A Annenberg Challenge de Chicago é coordenada pela Annenberg Foundation que também coordena as Edison Schools, compradas em 2003 pelo fundo de pensão para funcionários do sistema público de educação da Flórida, controlado pelo então governador Jeb Bush.

Também são impecáveis os fatos desta frase:

A Fundação Annenberg financia o programa Philadelphia READS, festejado pela primeira-dama Laura Bush em cerimônia oficial dentro da Casa Branca.

Dependendo de que fatos escolhermos, podemos construir a imagem da Fundação Annenberg, um portento que distribui alguns bilhões de dólares para iniciativas várias que envolvem milhares de pessoas e atende a milhões de outras, da maneira que quisermos.

O site FactCheck.org apareceu ao público pela primeira vez em 2004, quando Dick Cheney, o vice de Bush, o citou em campanha. Os fatos levantados pelo site caracterizavam bem sua conduta como presidente da Halliburton. Halliburton, esta, alvo de constantes ataques da esquerda nos EUA. (Talvez o FactCheck não fosse uma entidade financiadora de terroristas em 2004.)

Sou ateu, mas não sou como Richard Dawkins ou Carl Sagan. Se alguém quer acreditar que a posição da Lua no dia de seu nascimento diz algo a respeito de sua personalidade, não acho que isto queira dizer que o sujeito é algum tipo de irracional delirante. (Talvez apenas um pouco excêntrico.) Olavo de Carvalho é divertido e o fato de ser astrólogo me diz algo a respeito dele. Ele é um homem procurando elos e padrões repetidos não importa onde para definir o comportamento de pessoas e entidades.

Mas, assim como Michael Moore, não pode ser levado a sério como analista político.

Política é uma arte na qual se dá um passo à frente, dois para trás. Políticos, pela sua natureza, fazem acomodações. Cumprimentam-se, sorriem. O inimigo de ontem é o aliado de hoje e o rival mortal de amanhã. Política não se compreende por dogmas, certos absolutos e o mal encarnado do outro lado. Numa democracia, nenhum dogma se sustenta e toda visão de mundo é permitida. Num ambiente assim, pureza ideológica não existe e certezas não têm espaço. Idéias podem ser mudadas.

Olavo de Carvalho tem pureza ideológica no coração. Tem convicções. Ele sabe o que é certo e sabe o que é errado. Se alguém criticou o seu lado, de presto ele fará uma meia dúzia de conexões e – à moda de Michael Moore – apresentará um encadeamento ‘lógico’ que prova que aquele alguém é financiado pelo terrorismo internacional, pelo Foro de São Paulo, pelo perigoso ‘esquerdista’ George Soros ou pelos três ao mesmo tempo.

Com encadeamentos do tipo, é possível ‘provar’ que George W. Bush liderou a conspiração mundial para encher a Arábia Saudita de dinheiro e espalhar mesquitas wahabitas pela Europa, financiando com dinheiro público norte-americano o terror islâmico no Velho Mundo. O encadeamento de relações é possível mas não corresponderá à verdade. Porque, no mundo real, não há uma grande conspiração. O que há são decisões às vezes difíceis, às vezes fáceis, sendo tomadas por inúmeros atores e que trarão alguns resultados previsíveis e outros nem tanto. Diplomatas, presidentes de empresas, políticos, em geral não decidem nada sozinhos mas sofrem pressões de vários lados e buscam caminhos que façam sentido, que acomodem tantas pressões quanto possível. Às vezes, tomam decisões no ímpeto; outras, calculam; noutras ainda, inseguros, optam sem qualquer convicção por um caminho. Pode dar certo, pode não dar. Mas o bom líder, embora transmita segurança, sabe que não há certezas, que algo sempre pode dar errado a partir das decisões que tomou.

É fácil olhar para a história no passado e dizer, por exemplo, – como eu mesmo já disse – que se o Império Britânico tivesse oferecido Meca e Medina para a família hashemita governar, não haveria al-Qaeda. Os hashemitas, moderados, educados em Oxford, continuam lá na Jordânia. E os al-Sauds, em sua Arábia Saudita, espalharam pelo mundo sua vertente radical, praticamente inexistente um século atrás, de Islã. Mas há alguma injustiça com os britânicos aí: eles não tinham como saber. Agiram conforme seus interesses de então: acreditavam que seria mais fácil controlar a família Saud, de nômades iletrados, do que os nobres e orgulhosos Hashemitas, descendentes e governantes de Meca desde os tempos do Profeta. Acreditavam nisso e, por um ângulo, é realmente mais fácil se relacionar com os Sauds do que com os Hashemitas, independentes demais, ainda hoje. Só que houve conseqüências não previstas.

É evidente que é tentador enxergar no mundo uma grande conspiração. Faz você se sentir melhor: você ‘entende’ o jogo. Entende as artimanhas. Sabe que há um grupo milimetricamente articulado, estupendamente organizado, disposto a controlar tudo. Podem ser os comunistas, os judeus, os muçulmanos, as empresas petrolíferas. Daí, sai traçando seus elos e prova com determinação a ‘verdade’. (O mundo é muito mais complicado. Vai e volta. É cheio de talvez quem sabe.)

Os norte-americanos nem são o povo ignorante com sede de petróleo que elegeu Bush, nem o povo esperançoso revoltado com as injustiças que elegeu Obama. São, como qualquer povo, o vizinho da casa ao lado com suas esquisitices, o paranóico do 203, a moça bonitinha que de short curto passeia com o cachorrinho na esquina, aquele sujeito boa praça que é um ótimo papo durante o chope. Às vezes, esse conjunto elege George W. Às vezes, elege Obama. Tem pra Kennedy, tem pra Nixon. No Brasil, tem pra Lula, tem pra FH, tem pra Collor. Em Israel, tem pra Rabin – tem pra Netanyahu. É o mesmo povo tentando entender o mundo à volta naquele momento, com seus medos e otimismos, e tomando uma decisão a partir daí.

Olavão não é o único maniqueísta no mundo e por certo é confortável ter certezas. Dúvida só traz angústia. Aquele com certezas é imbuído de uma missão: deve contar ao mundo, e repetir, e repetir ininterruptamente, a verdade até que todos a vejam. Afinal, o outro lado também têm uma missão – e a massa, ingênua e ignara, não o vê. Traz uma sensação agradável esta de se estar certo. Posicionar-se de um lado mas entender os clamores do outro é que é difícil. É mais fácil ver o adversário como inimigo, como o mal, aquele que está errado por definição. Olavão me lembra meu personagem favorito de Fernando Pessoa: o Esteves sem metafísica. Olavo de Carvalho foi, é e sempre será, fundamentalmente, divertido.

Meu único argumento, no fim, é que seu caminho pode ser mais fácil – mas não tem nada a ver com compreender o mundo. E, com muita justiça, Olavão poderia dizer: quem não compreende é você – sou eu. (Ou então que ajo de má fé, intoxicado pela ideologia do Foro de São Paulo, como agente do islamismo internacional ou financiado por George Soros.)

E quem dirá que ele não está certo? =)

O casamento gay na Califórnia
E o futuro que nos aguarda

11/November/2008 - 15h49 - 211 Comentarios

Ao longo da última semana, recebi nos comentários e por email cobranças sobre a falta de menção da vitória da Proposição 8, na Califórnia. Em pelo menos dois dos emails havia uma nítida aflição: se nem na Califórnia o casamento gay passa, será que haverá alguma chance em algum lugar no mundo? É um assunto que mexe principalmente com quem está pessoalmente envolvido. E dói.

Este post segue num formato um pouquinho diferente.

Como o Sim venceu na Proposição 8, a constituição do Estado será emendada para ganhar um artigo no qual o casamento civil é caracterizado como a ‘união entre um homem e uma mulher’. Uniões civis entre pessoas do mesmo sexo continuam legais.

Na Califórnia, enquanto o resultado não é oficializado, alguns condados estão celebrando tantos casamentos quanto possível.

Lutas por direitos civis não são simples e seguem sempre assim, com idas e vindas. Não consigo imaginar um mundo em 2030 no qual o casamento entre homossexuais não seja legal em todo o ocidente. Será. Vai acontecer. Acontecerá até no Brasil. Acontecerá antes se o movimento LGBT tupinambá pressionar. Depois de todo o mundo, se ninguém tocar na questão. Acontecerá – mas demora.

Por que ‘casamento’?

Palavras são importantes. A palavra casamento tem um peso na sociedade. Perdoem se pareço piegas, mas é que não há outras palavras para exprimir a idéia: casamento quer dizer um vínculo de amor e dedicação. Casamento é uma mudança, uma fase de vida que se inicia – uma fase que, idealmente, só será interrompida pela morte de um no casal. Este é o tamanho da dedicação. É uma das decisões mais importantes de nossas vidas. É uma união maior que todos reconhecemos, uma maneira de comunicar a todos que agora você divide a totalidade de sua vida, de seus projetos, ambições, com um par. Casamento é um processo pelo qual quase todos nós, humanos, passamos. Casamento não é uma obrigação, mas faz parte de nossa humanidade. Não se tira esse direito de parte da humanidade.

Dizer que duas pessoas do mesmo sexo não podem casar quer dizer que duas pessoas do mesmo sexo não podem desenvolver um vínculo de amor e dedicação. No fim, a idéia disfarça o preconceito de que só pode ser tara. Só pode ser sexo.

Simplesmente não é certo.

Mas nem na Califórnia?

A Califórnia não é o estado mais liberal dos Estados Unidos? Não é – como me perguntou um leitor por email – onde fica San Francisco, a capital gay do planeta? (Não sei se San Francisco é a capital gay do planeta; é uma cidade como todas as outras grandes cidades que conheço e, como todas, também tem sua vizinhança gay. Mas, até por motivos históricos e turísticos, Sanfran cultiva esta imagem e, rebeldes dentro dos EUA, os cidadãos daqui gostam da idéia de se sentirem mais tolerantes a diferenças do que todo o resto. Na verdade, não são tão diferentes assim dos novaiorquinos. E, se me ouvirem falando algo assim, apanho.)

A Califórnia tende a ser liberal, sim. Mas é preciso tomar cuidado com estereótipos. A imprensa sensacionalista de direita, nos EUA, gosta de pintar Califórnia e Nova York como Sodoma e Gomorra perante uma América cristã e conservadora no miolo. Nem um, nem outro, são verdade. Não foi apenas o prefeito playboy e democrata de San Francisco que fez campanha pelo Não. O governador republicano da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, também fez. Em todo o país, um em cada três republicanos se declaram favoráveis ao casamento gay e parte do Partido Republicano da Califórnia fez campanha pelo Não.

A Califórnia não é um estado homogêneo. Como mostra o mapa de quem votou contra e quem votou a favor, é um estado dividido entre litoral e interior.

No litoral, se concentram as grandes cidades – San Diego, Los Angeles, San Francisco – e boa parte da indústria de ponta que enriquece o estado: o cinema, a tecnologia e o desenvolvimento de alternativas ao petróleo. Aqui onde vivo, no Vale do Silício, península de San Francisco, em cada gramado havia uma placa de Obama e outra de NO à Proposição 8. As pessoas realmente se engajaram. O casamento gay lhes era uma causa tão cara quanto tirar o Partido Republicano da Casa Branca. Evidentemente, os eleitores do outro lado também estavam igualmente envolvidos.

O interior, próximo a estados como Arizona, Novo México e Texas, é formado por cidades pequenas e muitas estradas, o típico interiorzão norte-americano.

Durante boa parte da campanha, as pesquisas indicaram que o Não venceria com facilidade. Foi apenas em outubro que o resultado começou a mudar. Um comercial de televisão que foi ao ar no último mês pareceu ter sido bem eficaz: afirmava que, se o casamento gay fosse incentivado, crianças aprenderiam sobre homossexualidade no jardim de infância. Coincidência ou não, as pesquisas viraram quando ele foi ao ar. E foi muito ao ar. Bastava ligar a tevê que o filmete já estava passando. Houve gente, impossível saber quantos, que confusa com a pergunta votou Sim achando que defendia o casamento gay. Algumas pesquisas dizem que o Não venceu entre brancos mas perdeu entre hispânicos e, principalmente, entre negros. Mas há também especialistas que sugerem que as pesquisas tinham falhas metodológicas.

Não é, aqui na Califórnia, uma questão religiosa. Todos os bispos episcopais fizeram campanha pelo Não. O rabinato saiu oficialmente a favor do casamento gay. Uma boa parte da Igreja Adventista, idem. Houve oposição religiosa, principalmente dos mórmons, que trouxeram dinheiro de fora do estado para a campanha, mas a disputa foi equilibrada até em termos financeiros. O Sim teve a sua disposição 35,8 milhões de dólares e o Não, 37,6 milhões. Jamais uma campanha eleitoral por uma causa, e não por um candidato, custou tão caro nos EUA.

E as Uniões Civis?

Nos EUA, há algumas diferenças do ponto de vista fiscal entre união civil e casamento; há alguns direitos como o de visitas em hospital que também são afetados. União civil resolve a questão de herança, mas não caracteriza família. Este é um detalhe; os contratos de união civil poderiam ser modificados por uma lei para ficarem idênticos ao de casamento.

A questão que está realmente em jogo é a palavra casamento.

Na verdade, se a palavra fosse irrelevante como sugerem alguns, não haveria tanta gente lutando contra seu uso civil para uniões do mesmo sexo. E é justamente porque é importante que o Estado não deve decidir quem pode ou quem não pode casar. A decisão cabe a dois adultos responsáveis e a ninguém mais. Para expressar a mesma idéia em termos liberais, a decisão cabe a dois indivíduos e o Estado nada tem com isso.

E agora?

O Condado de Santa Clara, onde vivo, e as cidades de San Francisco e de Los Angeles estão movendo ações de inconstitucionalidade. Alegam que, como o objetivo da Proposição 8 é a supressão de um direito, ela não deve ser uma emenda (ou inclusão) à Constituição e sim uma revisão da carta. Assim, para que a mudança ocorra, seria necessário não um plebiscito mas a aprovação de 2/3 do plenário da Câmara e Senado estaduais. Se a Justiça considerar que estão certos, a Proposição 8 cai por terra e o casamento volta a ser legal.

Independentemente disso, o caminho do casamento gay passa pela Suprema Corte dos EUA que definirá, para todo o país, se é constitucional ou não. Barack Obama venceu. Os novos dois ministros da Corte serão liberais. Proibir o casamento gay terminará por ser considerado inconstitucional em dez ou quinze anos.

Me permitam ser mais pessoal.

Nas constantes discussões a respeito de questões sociais, sempre busco compreender o outro lado. Sou a favor da legalidade do aborto, mas compreendo o dilema do início da vida. Sou contra a pena de morte – mas compreendo o dilema perante crimes hediondos. Entendo menos – mas entendo – quem questiona o estudo de células tronco embrionárias. São questões, no fim, que nos levam a conclusões dolorosas. É escolher entre duas possibilidades ruins que nos obrigam a compreender o que é ser humano e optamos por sacrifícios de um lado e do outro.

Alguns têm certezas. Certezas são reconfortantes, sempre. Feliz de quem tem certezas pelo mundo, a vida fica bem mais simples.

A questão da franca repulsa ao casamento gay não é uma que compreendo. Tenho dificuldades de ter empatia pelo outro lado. É um assunto que caminha ali com as leis segregacionistas que tantos países tiveram. Nada de racional o justifica. Todos os argumentos me parecem apenas uma desculpa para o preconceito. Não sei o que o futuro dirá a respeito de aborto e tantas outras questões. O casamento gay será legal em boa parte do mundo e este tempo em que vivemos nesta luta por sua legalização será lembrado como o período em que ainda havia Apartheid na África do Sul ou Jim Crow no sul dos EUA.

Passará.

Só que 2030, ou 2040, é muito longe. Há uma ou duas gerações de gays que não poderão se casar em vida porque este direito lhes foi negado. O fato de que está próximo não lhes traz conforto.

Mas, principalmente para quem está aflito, lembrem a história de Alan Turing. Matemático, de longe uma das mentes mais brilhantes do século 20, um dos maiores heróis da Segunda Guerra – decifrou o código dos nazistas permitindo aos aliados interceptarem e compreenderem suas mensagens –, inventor do computador, foi condenado em 1953 pela prática de sodomia. Por ser gay. Em Londres. Foi condenado a fazer um tratamento hormonal para ’se curar’. Turing, que era um homem bonito, e vaidoso, começou a ver o peito inchar por causa dos hormônios. Como se virassem seios. Cometeu suicídio.

Em Londres, nos anos 50, era assim que tratavam um herói de guerra por ser gay. Barbárie. Olhem para Londres hoje. Vejam como esse passado parece remoto.

Em 2002, ser gay era crime no estado do Texas. Aí a Suprema Corte dos EUA considerou a lei inconstitucional. Às vezes, o passo da história é lento. Sei que, hoje, algumas pessoas ainda não estão plenamente integradas à sociedade. Não têm direitos plenos. Como já aconteceu com negros. Com mulheres. Com índios. Mas mesmo mulheres e negros e índios ainda têm coisas por conquistar. Vai acontecer.

E qualquer um, evidentemente, tem o direito de me questionar: paciência é fácil quando se é homem, branco e heterossexual. É. Não sinto na pele o que é não ter direitos plenos. Só porque vai acontecer não quer dizer que ninguém tenha que ter paciência.

Pois bem: lutem. E me avisem se precisarem de ajuda.

Atualização – Keith Olbermann fez um bom comentário à respeito.

A direita antiintelectual entra em crise

10/November/2008 - 03h23 - 458 Comentarios

Um dos resultados da eleição de Barack Obama é que a direita brasileira periga ficar órfã e terminar sem argumentos.

Entre os leitores do Weblog, recebi mais ou menos em igual proporção pedidos de mais e de menos cobertura das eleições dos EUA. Optei por mais. A política norte-americana ainda é profundamente influente em todo o mundo. Influente e de muitas maneiras diferentes. No Brasil, uma das influências mais evidentes é no discurso conservador. Tanto aqui no Weblog quanto na imprensa em geral, os argumentos da direita são diretamente importados dos Estados Unidos. Se algo está na pauta das preocupações do Partido Republicano e de seus pensadores, estará sendo repetido sem lá muita originalidade nos artigos e comentários da direita brasileira.

Acontece que o discurso republicano tem um motivo de ser: foi cuidadosamente construído, ao longo das últimas décadas, para atrair eleitores e fontes de financiamento eleitoral. Se o governo Bush optou por ignorar, e por vezes fazer graça, do Aquecimento Global, é porque a indústria petroleira é uma importante fonte de recursos de seu partido. Se o discurso do cristianismo foi reforçado e até Darwin, coitado, terminou sendo questionado, é porque os eleitores evangélicos estavam entre os mais ativos grupos demográficos ano após ano e atraí-los era uma forma de garantir vitórias políticas. O discurso de um partido político não nasce do vácuo: vem do desejo de vencer eleições. Não é à toa que políticos de direita, no Brasil, ignoram o que escrevem os colunistas e blogueiros da direita brasileira. Políticos preocupam-se com vitórias eleitorais, não em repetir o que dizem os mestres vindos do norte. E boa parte daquele discurso, lá, não ecoa no eleitorado, aqui.

Ao contrário do que dizem alguns dos mais entusiasmados, a vitória de Barack Obama não tem o tamanho da vitória de Ronald Reagan, em 1980. Reagan venceu em quase todos os estados do país. Foram 489 votos no Colégio Eleitoral contra 49 de Jimmy Carter. Obama deve receber 365 votos contra 162 de John McCain. Bill Clinton teve votação maior do que a de Obama em 1992 e 96. Ainda assim, aqui mesmo no Weblog, não faz nem um ano que muitos dos conservadores faziam graça da idéia de que os norte-americanos pudessem eleger um homem negro cujo nome do meio era Hussein. Não só elegeram como deram a ele uma vitória clara, confortável e, sim, consagradora.

Mas o ponto é: o que garantiu a vitória de Obama? Ele teve maioria entre negros, entre hispânicos, entre mulheres, entre judeus – mas os democratas sempre tiveram vitórias nestes grupos.

Quem mudou de lado em 2008 foi o público com diploma superior.

George Bush, o pai, recebeu 41% dos votos dos eleitores com educação de nível superior. Bob Dole, em 1996, 46%. Nestes dois pleitos, Bill Clinton teve 39% e 44% respectivamente. Gerald Ford pode ter perdido a eleição para o democrata Jimmy Carter, em 1976, mas venceu entre os eleitores com nível superior: 55%. Ronald Reagan, em 80, recebeu 51% destes votos. (Apenas 35% foram para Carter.) Na eleição passada, George W. Bush teve 52% dos votos de quem passou por uma universidade.

Barack Obama teve 53% dos votos dos norte-americanos com nível superior.

É sempre bom ter cuidado com estatísticas. Não é que todo o eleitor bem educado tenha mudado de partido. Os democratas há muitos anos vencem entre os eleitores com pós-graduação. Não custa lembrar que para ganhar títulos como o de médico, engenheiro ou advogado, nos EUA, é preciso uma pós. A faculdade, o college, não basta. Mas fato é que aqueles com diploma universitário e não mais são antigos e fiéis eleitores republicanos, e votavam no partido de Reagan em número tão grande que pendiam a estatística contra os democratas.

A pergunta, portanto, é: por que eleitores com diploma universitário e não mais, este ano, abandonaram o Partido Republicano que elegem pleito após pleito faz pelo menos quatro décadas?

Um dos motivos é a mudança demográfica. Os EUA são um país mais diverso do que jamais foram. Por conta das políticas de cotas universitárias, há mais negros, hispânicos, nativos, asiáticos com diploma nas mãos. Estes grupos votam democrata e se o candidato é de uma minoria, tão mais fácil.

Mudança demográfica não explica tudo. Já havia negros, hispânicos etc. com diploma quatro anos atrás. E Obama também venceu entre os apenas brancos com diploma superior. Por quê?

Muitos dos intelectuais e analistas conservadores já tem sua explicação: o antiintelectualismo marcante do governo George W. Bush. O traço já estava ali, mas Bush o exacerbou. Virar as costas para a ciência pode atrair dinheiro petroleiro, no caso do Aquecimento Global, ou atrai eleitores da direita religiosa – no caso do bombardeio à Evolução, na proibição de financiamento do estudo de células tronco embrionárias, são tantos os exemplos. Mas afasta outros tipos de eleitores.

Um dos fenômenos da imprensa, nos EUA, é que enquanto os jornais despencam em circulação e as revistas semanais como Time e Newsweek lutam para sobreviver, títulos de nicho crescem. É o caso da britânica The Economist, da New Yorker, da Atlantic Monthly. São revistas sofisticadas. Crescem porque há mais gente com diploma superior, mais gente com pós-graduação. O noticiário do dia-a-dia este público encontra na Internet, não precisa ler o New York Times em papel. Mas para uma compreensão profunda da notícia, ainda não há na rede coisa como a Economist ou a New Yorker.

Este público vota, também. Nem todo mundo é de esquerda, de forma alguma. E muitos são religiosos. Mas conservadores com nível superior tendem a ser libertários. Para eles, religião é assunto pessoal e não deve se misturar com assuntos de Estado. Se um presidente interfere em uma questão como o direito de homossexuais casarem, o libertário considera que o Estado está interferindo no que cabe ao indivíduo decidir. Se boa parte dos cientistas que estudam o assunto consideram que é preciso combater o Aquecimento Global enviando menos carbono para a atmosfera, alguém que foi à universidade considera que cientistas devem saber do que estão falando.

David Frum, da revista conservadora National Review e um dos pais do neoconservadorismo resume a questão assim: ‘Americanos com nível universitário hoje acreditam que os democratas não porão seu dinheiro a perigo mas consideram que seus valores pessoais correm risco num governo republicano.’ O colunista conservador do New York Times, David Brooks, vem há meses reclamando de Sarah Palin e de sua óbvia desqualificação para exercer um cargo de responsabilidade. Palin é uma versão piorada de George W. Bush.

A vitória de Barack Obama dá início a uma briga interna no Partido Republicano. É uma briga pragmática. Discutem o que é preciso para voltar a vencer. Os intelectuais do partido dizem que é preciso uma transformação interna. O que dizem é: a classe média branca deseducada que forma sua base já não tem a representatividade necessária para garantir uma vitória eleitoral. Seus inimigos no partido dizem que o problema não é esse. O problema é que McCain não apelou de forma convicta à base. Estes gostariam de ver Sarah Palin encabeçando uma chapa em 2012. Os intelectuais do partido têm horror à idéia. Consideram que é hora de o Partido deixar Darwin em paz e encarar questões como células tronco embrionárias e Aquecimento Global com a seriedade que merecem.

Se os cérebros do Partido Republicano vencerem a briga, comentaristas e articulistas da direita brasileira terão de copiar doutro canto suas idéias.

Tenho uma pergunta para vocês

14/October/2008 - 14h06 - 96 Comentarios

Como muitos sabem, meu objetivo aqui em Stanford é estudar o impacto que as novas tecnologias de comunicação têm sobre a democracia. Às vezes, tenho a impressão de que não saímos do lugar. À direita, quem lá está, lá continua. À esquerda, idem. E talvez isso não seja surpreendente. Mas mesmo nas nuances dos argumentos, parece que há pouca movimentação. Ninguém que achava algo uma má idéia, passa a considerá-la boa.

Não é sempre, mas de vez em quando pinta um que considera a sua verdade absoluta e parte do princípio que a opinião dissonante do outro é mostra de falta de caráter.

No final do século 18, aqui nos EUA, Thomas Jefferson e Alexander Hamilton travaram um debate virulento pelos blogs da época, jornalecos que hoje chamamos panfletos. Debate feio, cheio de acusações pessoais, um profundo desgosto de um pelo outro tornou-se evidente. Mas era também uma batalha ideológica. Quando na eleição presidencial de 1800 Jefferson e o jovem Aaron Burr terminaram empatados no Colégio Eleitoral, foi Hamilton quem intercedeu para quebrar o empate e fazer de Jefferson o terceiro presidente.

Eles, aqui, tem uma longa história de democracia, embora muitas vezes imperfeita.

Às vezes, nossos debates são feios, virulentos, descambam para o pessoal. Não me refiro de forma alguma apenas ao Weblog, mas a toda esfera de discussão política brasileira. A Internet facilita acesso aos extremos. Quem tem idéias firmes e nenhuma dúvida fala mais alto – é da natureza humana. Muitas vezes, o objetivo do debate não é que um convença o outro. Mas que o público que assiste à discussão possa formar uma opinião, ainda que não uma convicção.

Os debates entre Hamilton e Jefferson determinaram a forma que aquele nascente experimento em democracia tomaria. Temos também uma democracia jovem, no Brasil. Temos muito debate. Mas não temos um Hamilton, muito menos um Jefferson. (Não sei se precisaríamos ter um ou dois destes.) Temos, isto sim, uma Internet, que facilita acesso ao debate e dá voz a quem quiser se exprimir.

Às minhas dúvidas: todo esse debate no entorno avança a causa da democracia no Brasil? Temos de alguma maneira propostas de projetos mais claros para o país? Temos uma idéia do que queremos? Os termos nos quais o debate se dá fazem sentido? Estamos melhor informados? Qual a impressão de vocês em sua vida aqui e no resto da rede?

Aqueles esquerdistas safados

20/September/2008 - 15h57 - 174 Comentarios

dica do Uli Weinbrecht