dica do Uli Weinbrecht
Tudo publicado sobre 'Ideologias'
Aqueles esquerdistas safados
20/September/2008 · 174 Comentários
Tags: Blogosfera · Ideologias
O que um economista assassinado por
Stalin diz sobre a crise econômica mundial
17/September/2008 · 65 Comentários
A história de Nicolai Kondratieff tem um quê da típica história de um pensador soviético. Engajado pela Revolução de 1917 como um dos mais talentosos economistas russos, ajudou a escrever o primeiro Plano Quinqüenal da futura União Soviética. Como o livre pensar não era exatamente o modelo incentivado pela URSS, terminou num Gulag onde passou seus últimos oito anos antes de ser executado, em (provavelmente) 1938.
História da Carochinha? Não. Kondratieff tem, talvez, o modelo teórico que explica aquilo que a economia do mundo está vivendo hoje. Ondas de Kondratieff.
Segundo ele, o capitalismo – ou a economia, tanto faz – vive ciclos de 70 anos mais ou menos divididos entre primavera, verão, outono e inverno.
A primavera é marcada por um período de crescimento com inflação de uns 25 anos. O desemprego cai, salários e produtividade crescem, com a bonança vêm cobranças de ordem social.
O verão que segue é provocado pelo crescimento que encontra seu limite – não há mais recursos a explorar, sejam humanos, sejam materiais. Não é raro que as tensões após este período de crescimento culminem com uma guerra.
No outono vem e é marcado por um período de crescimento moderado. Costuma ser um período em que inovações tecnológicas levam ao sucesso de algumas indústrias pontuais e o consumismo permeia a sociedade.
No inverno, novamente a economia enfrenta seus limites mas, desta vez, o impacto é mais violento. É quando acontecem as depressões. Uma guerra mais intensa aparece no fim deste período.
Quando Kondatrieff escreveu seu estudo, ele analisou três períodos inteiros no passado e previu, daquele final de década de 20, o inverno econômico estava chegando. De fato veio a Grande Depressão e, a ela, seguiu-se a Segunda Guerra.
Se Nicolai Kondratieff está correto, o novo ciclo teve início em 1949 e o outono terminou no ano 2000. Estamos a caminho do meio do período do Inverno. Não dá para dizer que houve uma depressão profunda da economia, tampouco que um grande conflito armado fechou esta fase. Ele pode estar errado, evidentemente. A onda dos ciclos de crescimento e depressão da economia se encaixam com exatidão. Alguns analistas sugerem que o ciclo deve ser corrigido pela expectativa de vida da população – se ela se alonga, também o ciclo cresce.
Mas, nesta semana, o sistema financeiro norte-americano está enfrentando uma crise barra pesada. Um banco que já foi dono da American Express – o Lehman Brothers – quebrou. Outro, que foi símbolo do sistema financeiro, foi comprado – o Merril Lynch. E uma das maiores seguradoras do mundo, a AIG, acaba de ser virtualmente estatizada. Isso mesmo: o governo republicano dos Estados Unidos da América estatizou uma seguradora. (Alguns vão dizer que não foi bem isso. Mas foi.)
Este é o tamanho da crise.
É hora de rezar para que Nicolai Kondratieff esteja errado.
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O Brasil que existe, o Brasil que poderia existir
2/August/2008 · 261 Comentários
Li comentários de todo tipo a respeito do post, ontem, sobre a reportagem da revista Cambio. Nas redações dos grandes jornais, o consenso já é: muito barulho por nada, o ‘dossiê’ não traz qualquer indício de que o governo tenha favorecido as Farc. Lembra, isto sim, que houve empenho de gente no governo para ajudar de uma forma ou de outra o ex-padre Oliverio Medina, que esteve preso e quase foi deportado. Mas toda esta movimentação foi pública, não era segredo. Hoje, ele é casado com uma brasileira e pai de outra brasileira. A tendência é de que consiga a nacionalidade, o que afastaria de vez as possibilidades de ser extraditado.
O que jornalistas pensam é uma coisa; na blogosfera da direita, é diferente. Li que sou um idiota e que sou um desses ‘estranhos fenômenos da Internet brasileira’. Essa trupe, como aquela esquerda que ainda acredita em luta armada, não compreende o mundo em que vive. Por isso, enquanto caça fantasmas de eras passadas, não consegue identificar quais os reais dilemas do Brasil, ou mesmo fazer as críticas que o atual governo merece.
Não se trata apenas do PT. Há um problema com PSDB, com DEM, PMDB ou PPS ou PDT.
O que se espera de um partido político, hoje? Que tenha posições a respeito dos grandes dilemas que o mundo atravessa. Como se posiciona a respeito do aquecimento global, por exemplo. Seu combate é uma prioridade? Que custo está disposto a bancar e como se portará nas negociações internacionais? Como vê a transformação da sociedade e sua relação com a ciência e as religiões constituídas? Como pensa o aborto, estudo de células tronco embrionárias, casamento e adoção homossexual? As respostas para estas perguntas indicam como o partido compreende as relações entre as pessoas no país. São questões que nos afetam a todos. Não são as únicas.
Como compreende as responsabilidades do Estado com educação, saúde, moradia, formação profissional? Quando vê o Brasil, que tipo de país vê? Um país de vocação agrícola? Industrial? Turística? Que tipo de brasileiros precisaremos formar para que tais vocações sejam realizadas? A partir disto, quantas são as responsabilidades que o Estado deve assumir e como irá financiá-las? Tendo tudo isto em vista, que acesso espera dos mercados do mundo e que concessões está disposto a fazer em troca de possibilidades comerciais?
Os britânicos têm uma boa idéia do que pensam o Partido Conservador e o Trabalhista a este respeito. Os norte-americanos sabem o que esperar de republicanos e democratas. Os espanhóis entendem o que quer dizer um voto no PSOE ou no PP. Os franceses, os alemães, seja em regimes bipartidários, seja nos multipartidários. Nós brasileiros não sabemos. Já existe um princípio de política de Estado que mais ou menos continuou do governo FH para o Lula. Partidos com projetos claros, isso não temos.
Os projetos partidários não nascem no vácuo. Partidos representam grupos de interesse, classes sociais. A classe média urbana que não está no funcionalismo público costuma votar num partido liberal e querem liberdade de ação sem interferência governamental. A classe operária, funcionários públicos, costumam ter expectativas maiores do Estado. A classe média rural, que vive do que lhe rende o campo, terá outro grupo de prioridades, cobra do Estado mas tem objetivos bem diferentes dos trabalhistas. Às vezes, os interesses de um grupo se assemelham ao de outros. Numa democracia madura, é a estes anseios que os partidos políticos respondem. O PT tem tênues laços sindicais, mas estes não refletem uma política industrial e trabalhista como prioridade de governo. Do sindicalismo, herdou no máximo o peleguismo e a distribuição de cargos como método. Uma pena.
O DEM não é nada. Um dia se chamou liberal – mas a burguesia não se reconhece numa colcha de retalhos que reúne oligarcas nordestinos e chefetes políticos do sul. O PSDB teve um projeto econômico. Passado o período de privatizações e estabilização da moeda, o que lhe sobrou? Corre pelo Congresso feito barata tonta, não sabe o que defender e se morde pelo fato de seu projeto ter sido seqüestrado por quem não tinha idéias próprias. O PMDB, coitado, sequer finge ser um partido.
Quem acusa o PT de ter um projeto revolucionário não percebe uma realidade muito mais triste. O PT não tem qualquer projeto. Lula, sim, tem um projeto. É seu, particular.
Nossa democracia tem 20 anos contados desde a Constituição de 1988. Temos muito tempo pela frente e a graça de vivermos numa terra não só rica como detentora das riquezas certas para o mundo que vemos pela frente: temos uma vasta mata, nossa base energética é das menos dependentes de petróleo que existem, a ciência e tecnologia incipientes são de excelente qualidade. Esses recursos disfarçam o fato de que, dentre os políticos, ninguém nos oferece uma idéia de país, um projeto para avaliarmos. É este, não os fantasmas de 1970, nosso real problema.
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Uma direita além dos clichês
24/July/2008 · 72 Comentários
O Brasil já teve bons colunistas de direita. Hoje, não tem. Repetir uma meia dúzia de clichês é fácil. Bater no governo por cacoete, idem. Platéia para o aplauso não faltará. (Blogs com comentários hiper-moderados facilitam muito a vida de quem busca aplauso, à direita e à esquerda; no tempo do impresso não tinha isso.)
David Brooks, do New York Times, é um bom colunista de direita. Do tipo que dá prazer de ler mesmo que seja para discordar.
É o caso de sua análise da história de Diane McLeod, publicada pelo próprio Times, no domingo. Diane é um dos muitos exemplos por trás da atual crise econômica dos EUA. Recém-separada, deprimida, se deixou seduzir por crédito fácil que conseguiu no cartão de crédito e numa hipoteca da casa. Suaves prestações mensais por dinheiro na mão de imediato.
Curou a depressão no shopping center. Como milhões de pessoas. A bolha do crédito com juros flutuantes explodiu.
História contada, Brooks se lança a descrever as reações imediatas de esquerda e de direita:
A esquerda lê sobre o drama de Diane McLeod e vê um Estado que falhou em regulamentar agentes e empresas de financiamento que flertaram abertamente com o estelionato.
A direita, por sua vez, vê apenas Diane McLeod, uma pessoa que, individualmente, assumiu a responsabilidade por uma dívida e problema dela. Governo e sociedade nada têm a ver com os erros de indivíduos.
O problema não é apenas que, no fim das contas, ambos estão certos. Tampouco que são visões simplistas duma situação que, repetida muitas vezes, está desencadeando uma grave crise econômica. Brooks:
A terceira forma de ver a situação começa com a percepção de que todas as pessoas têm inerte o desejo de ganhar o respeito de seus pares. Indivíduos não constroem suas vidas do nada. Eles absorvem os padrões e normas do mundo ao seu redor.
Tomar decisões – seja a contração de um empréstimo ou a decisão de com quem casar – não é um ato friamente racional. A tomada de decisão vem de uma longa rede de processos e muitos deles não são de todo conscientes. Absorvemos uma maneira de perceber o mundo vinda de nossos pais e vizinhos. Reproduzimos o comportamento daqueles a nossa volta. Só no fim deste processo há motivação consciente.
Se estas premissas estiverem certas, o que aconteceu com McLeod e o sistema financeiro nacional faz parte de uma história social mais ampla. Os Estados Unidos já tiveram uma cultura de gastos comedidos. Mas, nas últimas décadas, ela ruiu silenciosamente.
O tom da coluna é conservador. As escolas, diz Brooks, costumavam arraigar a idéia de pecado na sociedade puritana. Isto não acontece mais. Incentiva-se o consumismo e o fato de ele ser um pecadilho provoca piadas, não asco. É evidente, sugere o colunista, que no fundo o comportamento que corroeu as normas se dá em infinitas decisões pessoais.
‘A virada do mercado irá punir aqueles seduzidos pelas tentações do mercado’, ele conclui. (Direita, nos EUA, mistura puritanismo com Adam Smith.)
No final, pode-se discordar da leitura. Acaso o Estado regulasse atentamente o mercado, certos dramas poderiam ter sido evitados. Não todos, só alguns. Mas direita inteligente vai muito além de seus próprios clichês para compreender uma crise econômica ou suas vítimas.
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A esquerda deve renegar as Farc
3/July/2008 · 311 Comentários
A turma da extrema direita costuma sempre sacar do bolso a história do Foro de São Paulo e de como as Farc fazem parte dele. Quem vai além da paranóia típica de vivandeiras, sabe que, no Brasil, o Foro é irrelevante. Não tem influência. Quase ninguém no comando do PT, por exemplo, o leva a sério. Luís Inácio Lula da Silva, o presidente da República, não leva nem o PT a sério. Quanto mais o Foro.
Mas há, sim, quem no PT, ou na esquerda, goste do Foro. Algumas dessas pessoas, não muitas, têm poder. É o caso, por exemplo, de Marco Aurélio Garcia, um dos principais assessores do presidente. Ele não é o único. Não é difícil reconhecer gente como ele. Alguns publicam revistas. Outros têm blogs. Nas mesas de bar, eles são muitos. Nas infindáveis reuniões partidárias, também. Só que há um problema.
Eles perderam contato com a realidade.
Não é difícil entender o que eles vêem em grupos como as Farc. Têm ali, em mente, uma fantasia de liberdade, de um grupo que luta pela Revolução igualitária e a utopia socialista. Talvez seja até um sonho bonito. Mas as Farc não são nada disso.
As Farc são um grupo de narcotraficantes – e neste negócio, assim como os cartéis criminosos que sucederam, vivem de explorar gente pobre no campo. São seqüestradores. A maioria daqueles que seqüestram não são ex-candidatos à presidência com nacionalidade européia ou militares norte-americanos. Não. A maioria dos seqüestrados são soldados e policiais pobres que condenam a apanhar e a viver incertamente no meio do inferno da selva, longe da família, de saúde básica, sem ter certeza de que sobreviverão aos anos de cativeiro.
As Farc, hoje enfraquecidas, são também golpistas.
A turma da esquerda que elogia as Farc também costuma chamar parte da imprensa brasileira de golpista. É falta de coerência. Numa democracia, a imprensa critica o governo. Qualquer governo. É seu papel. Isto não quer dizer que o governo vá cair por conta das críticas. Às vezes, acontece. Richard Nixon que o diga. Ou Fernando Collor. Mas não é caso de golpe. É a retirada do poder por meios legítimos, institucionais, de quem descumpriu suas funções. Chamar parte da imprensa brasileira de golpista enquanto elogia as Farc não faz qualquer sentido.
Golpe é derrubar um governo eleito pelo povo desrespeitando os meios garantidos pela Constituição. Golpe não é Revolução. A Revolução Americana, a Francesa, a Russa ou a Cubana derrubaram tiranos que não foram eleitos. Não é isto que as Farc querem fazer. Elas querem obter o poder sem passar pelo processo constitucional. Para isso, usam da violência.
As Farc são bem-vindas no Foro de São Paulo. São convidadas do Fórum Mundial Social. Foro e Fórum são irrelevantes. Só jogo de imagem. Não têm poder de mudar nada e não mudam. Fica justamente a imagem. As Farc fazem mal à esquerda. Lula, Evo Morales, Hugo Chávez, Rafael Correa e Daniel Ortega chegaram ao poder pelas urnas. Democracia tem esse poder: fez de um operário pobre filho de mãe analfabeta e pai ausente oriundo das profundas do Nordeste presidente da República. Renegar as Farc é responsabilidade da esquerda. É hora de reavaliar princípios. Democracia nos faz bem a todos.
As Farc só servem para aterrorizar a população e manter a Colômbia em estado de guerra civil.
Correção - Nos comentários, Átila Roque protesta: as Farc não são convidadas do Fórum Social Mundial; quando aparecem, vinculadas a alguma ONG fantasia, são de presto desligadas. Ele pede para que não se misture Foro e Fórum. Pois bem, a correção de fato cabe. Perdão.
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De onde vem o dinheiro de Obama
e de como estão mudando os EUA
2/July/2008 · 29 Comentários
Houve o tempo em que os ricos eram republicanos. Mas, na Era da Informação, o que rende dinheiro é educação. Muitas das pessoas de sucesso, hoje, cresceram nos arredores de cidades liberais como San Francisco, Los Angeles e Nova York, se formaram em universidades com tendências de esquerda como Harvard e Berkeley e carregaram seus valores consigo quando viraram banqueiros, médicos ou advogados.
Os analistas políticos agora percebem uma diferença entre profissionais liberais e executivos em corporações. Médicos, advogados ou quem trabalha com mídia tende a votar no Partido Democrata. Executivos, no Republicano. Os primeiros recebem seus valores de universidades e via imprensa; os outros, de suas igrejas, seminários empresariais ou do country club.
Mas a tendência é nítida: os setores crescentes da economia votam Democrata enquanto aqueles em declínio votam Republicano.
Pescado de uma análise do colunista conservador do New York Times, David Brooks.
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Qual sua ideologia?
16/June/2008 · 201 Comentários
Segundo o teste político da Veja, cá este blogueiro é um ‘liberal de esquerda’.
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O jurista, a tortura e o que foi feito do mundo
13/June/2008 · 24 Comentários
Em 1963, Arthur Chaskalson era um dos advogados perante o juiz que condenou Nelson Mandela à prisão perpétua. Foi quem mais lutou na defesa daquele que, no futuro, presidiria a África do Sul. Ex-presidente da Suprema Corte do país, hoje Chaskalson é um dos mais respeitados juristas internacionais quando o assunto é direitos humanos.
Ele foi entrevistado pela edição corrente da Newsweek.
Com o cenário atual cheio de crises humanitárias e políticas, o que mais lhe preocupa?
Uma das questões centrais que nos aflige é a erosão do padrão de direitos humanos que desenvolvemos nos últimos 50 anos. Se voltarmos ao período após o colapso do império nazista e o estabelecimento das Nações Unidas, o mundo ali havia percebido que o que aconteceu não devia mais ser repetido. Respeito aos direitos humanos é a base inaugural da ONU. Desde o Onze de Setembro, mudou. Há um movimento para erodir as proteções básicas dos direitos humanos que nasce da dita guerra ao terror.
O senhor se refere aos EUA?
Não só. No painel do Comitê Internacional de Juristas, em Genebra, ouvimos denúncias oriundas de 39 países. Há um padrão, particularmente nos países com histórico de desrespeito aos direitos humanos.
O que mudou?
Em partes diferentes do mundo, vemos que princípios básicos antes aceitos estão sendo postos em dúvida. Veja a tortura. Em alguns lugares, há um debate a respeito de sua validade. É algo que não devia sequer ser discutido. A Lei Internacional não permite sequer cogitar. É algo que infecciona todo seu sistema legal, traz desgraça para quem a executa e para o país que a tolera. Não me refiro apenas a Guantánamo. Está em toda parte.
Por exemplo?
No Paquistão, Índia, Malásia, no Oriente Médio e em partes da África. A história é sempre a mesma.
Qual o papel dos EUA nisso?
Países vêem o que houve em Guantánamo, vêem outras políticas dos EUA e percebem que há uma luz verde para que façam o que quiserem.
O senhor sugere fechar Guantánamo?
Sugiro encerrar as práticas tornadas habituais em Guantánamo. A manutenção de prisioneiros incomunicáveis, não trazê-los a julgamento, impedindo o acesso a advogados. Essa estrutura prejudica a imagem dos EUA.
Militares e o governo argumentam que técnicas pesadas de interrogatório podem ser vitais para a segurança nacional.
O argumento de que a lei comum não é suficiente é feito há muitas gerações. Sempre que há um movimento repressivo na história, você ouve esse argumento de que a lei não é o bastante. E as gerações seguintes sempre constatam que foi um erro. As estruturas atuais têm métodos que permitem processar pessoas e levá-las a julgamento. Se forem culpadas, você tem como provar. Não é preciso deixar ninguém incomunicável para isso.
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O que faz uma cidade, o que é privado
e notícias sobre a morte do socialismo
9/June/2008 · 89 Comentários
Uma das melhores leituras dominicais que existem na imprensa do mundo é a entrevista curta e certeira, seca, sempre muito bem editada por Deborah Solomon na revista do New York Times.
Ontem, o personagem de Solomon foi Enrique Peñalosa, o ex-prefeito que reinventou Bogotá.
Qual a primeira coisa que você diz para prefeitos fazerem? Nos países em desenvolvimento, a maioria das pessoas não têm carros. Então digo: quando você faz uma boa calçada, está construindo democracia. Calçadas são símbolos de igualdade.
Calçadas não me parecem prioridades nos países em desenvolvimento. São a última coisa que fazem. A prioridade é fazer estradas e avenidas. Fazemos cidades para carros, carros, carros, carros. Não para pessoas. Carros foram inventados muito recentemente. O século 20 fez um desvio horrível na evolução qualitativa do habitat humano. Construímos, hoje, pensando mais na mobilidade de carros do que na felicidade das crianças.
Mesmo em países nos quais a maioria não tem como comprar carros? As pessoas de maior renda nos países em desenvolvimento nunca andam. Elas vêem a cidade como um espaço ameaçador. Passam meses sem andar uma única quadra.
Isso também não é verdade para os EUA? Não em Manhattan, mas há muitos subúrbios em que não há calçadas, o que é sinal de falta de respeito para com a dignidade humana. As pessoas sequer questionam isso. É como a França pré-revolucionária. As pessoas achavam que a sociedade estava normal, assim como as pessoas acham normal, hoje, que o acesso à praia em Long Island seja particular.
Você está comparando pessoas com casa com vista para o mar em Long Island com aristocratas franceses corruptos? Se a democracia prevalecer, o bem comum deve vencer interesses privados. A pergunta é: a maioria das pessoas seria beneficiada com acesso à praia em Long Island? Todas as crianças deveriam ter acesso à praia sem precisar freqüentar um country club. […]
Onde você estudou? Duke University. Me formei em economia e história.
Você devia ser o único socialista em Duke. Acabei percebendo que o socialismo era um fracasso como sistema econômico. Mas a igualdade não morreu. O socialismo morreu. Mas o desejo de igualdade não está morto.
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Osama e Adolf
31/January/2007 · 139 Comentários
Imagine que seis horas após os ataques de Onze de Setembro às torres gêmeas e ao Pentágono terroristas tivessem levado a cabo uma segunda onda de ataques aos EUA matando mais 3.000 pessoas. Imagine que mais seis horas depois viesse uma terceira onda. Agora imagine que estes ataques de seis em seis horas continuassem por quatro anos até que 20 milhões de norte-americanos morressem. É mais ou menos o que a União Soviética sofreu durante a Segunda Guerra e, ao pensar sobre estes números, podemos ter uma idéia melhor de qual o tamanho do sofrimento dos EUA nesta guerra contra o terrorismo.
David Bell, diretor da revista New Republic, pergunta se não há uma reação exacerbada por parte de seu país aos ataques de Onze de Setembro.
É verdade que, se olhamos apenas para os objetivos de nossos inimigos, é difícil ver indícios de reagimos exacerbadamente. Aqueles que nos atacaram em 2001 são fanáticos cheios de ódio que não querem nada menos do que destruir nosso país. Mas desejo não é capacidade e, apesar de os extremistas islâmicos poderem fazer muito mal ao mundo, não quer dizer que tenham a mínima chance de ameaçar a existência dos EUA.
Muitos norte-americanos, principalmente à direita, não fazem esta distinção. Para eles, o inimigo ‘islamo-fascista’ herdou não apenas os ódios implacáveis de Adolf Hitler mas também sua capacidade de destruição. O autor conservador Norman Podhoretz chegou ao ponto de dizer que estamos lutando a Quarta Guerra Mundial (a Terceira, ele diz, foi a Guerra Fria).
Não é desrespeito às vítimas do Onze de Setembro, ou mesmo aos homens e mulheres de nossas Forças Armadas, dizer que, pelo padrão das guerras passadas, a guerra contra o terrorismo infligiu um custo humano muito baixo aos EUA. Como assassinato em massa, os ataques são indescritíveis. Mas em comparação a outros assaltos a alvos civis, de Hiroshima para baixo, eles foram pequenos.
Bell não nega que há um inimigo ou que ele deva ser combatido. Apenas sugere que, não, os EUA não estão sob qualquer ameaça.






