No tempo da censura

03/August/2009 - 13h44 - 77 Comentarios

Houve um tempo em que a censura à imprensa, no Brasil, era política de Estado. A TV Estadão fez este documentário que segue a respeito – é um bocado interessante.

Lembrando a Alemanha comunista

12/July/2009 - 13h18 - 154 Comentarios

No segundo semestre de 1989, 20 anos atrás, uma série de acontecimentos levaram à Queda do Muro de Berlim.

A Der Spiegel está com uma mostra de fotografias do cotidiano na antiga Alemanha Oriental em sua última década de existência.

Codex Sinaiticus, uma das Bíblias mais antigas do mundo, online

07/July/2009 - 09h18 - 40 Comentarios

A notícia se espalhou pela rede entre ontem e anteontem e é divertida: o Codex Sinaiticus foi ao ar. Cada página digitalizada está num site para quem quiser consultar. Como a AP a chamou de a ‘Bíblia mais antiga do mundo’, os sites repetiram a informação. E como o artigo da Wikipedia é muito técnico mas não dá muitas pistas básicas, não custa ampliar a explicação.

Não é que a informação esteja errada, mas não dá para afirmar que o Sinaiticus é a Bíblia mais antiga. Ele tem um concorrente, o Codex Vaticanus. Codex é o termo latino para o que em português chamamos códice. É o nome oficial daquilo que entendemos por livro: páginas amontoadas uma após a outra e devidamente encadernadas. Sinaiticus quer dizer ‘do Sinai’. O ‘Livro do Sinai’, encontrado no século 19 por um estudioso alemão no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai. Destaca-se a palavra livro para indicar que não é um rolo – muitos documentos antigos eram compilados na forma de rolo.

Livros eram, evidentemente, copiados a mão. No período que estava iniciando a conversão do Império Romano ao cristianismo, no século 4, Constantino encomendou 50 cópias da Bíblia – um empreendimento, diga-se, caríssimo. É bastante possível que estes dois códices – Vaticanus e Sinaiticus – venham desta primeira ‘edição oficial’. Mas, copiados a mão e muito provavelmente em locais distintos, os textos têm suas diferenças. Ambos em grego, o texto de Daniel no Codex Vaticanus usa a tradução do hebraico de Teodócio, ao invés da Septuaginta, tradução considerada hoje oficial pela Igreja.

No entanto, não há nenhuma grande diferença nos textos. Embora incompletos, ambos os códices respeitam um bocado aquilo no que se tornou o Novo Testamento. Sinaiticus inclui dois livros apócrifos – a Epístola de Barnabás e o Pasto de Hermas. Em alguns jornais, destacaram o fato. Mas a presença dos livros não quer dizer que os editores considerassem-nos parte do cânon. Podem ter vindo de brinde por serem considerados boas leituras cristãs.

Sinaiticus é um documento histórico mas não altera particularmente nossa compreensão de como a Bíblia cristã se formou. Nos meios dos estudiosos, é mais comumente chamado Aleph (א), a primeira letra do alfabeto hebraico. É um documento bonito, escrito em grego uncial – um estilo comum na Antigüidade e Alta Idade Média, que só usa capitulares, praticamente sem pontuação ou espaço entre as palavras.

Uma boa fonte para esses assuntos costuma ser Jim Davila, professor de estudos bíblicos da Universidade de St. Andrews, a mais antiga da Escócia. Ele escreve há vários anos o melhor blog do ramo: Paleojudaica. Davila vem acompanhando o processo de digitalização do documento.

Robert McNamara (1916-2009)

06/July/2009 - 23h51 - 20 Comentarios

We Shall Overcome

28/June/2009 - 00h01 - 335 Comentarios

We shall overcome foi popularizada durante os anos 1950, no movimento dos negros por seus direitos civis, nos EUA. Ela simbolizava a resistência à violência do Estado com paz. É uma letra simples, de olho no futuro: We shall overcome, some day; Oh, deep in my heart, I do believe; We shall overcome, some day.

Nós vamos conseguir, um dia; do fundo do coração, eu acredito que conseguiremos, um dia.

Joan Baez popularizou a música mundialmente, na década de 60. Semana passada, regravou-a.

Em persa.

A história do Massacre de Tiananmen,
a Praça da Paz Celestial

04/June/2009 - 13h10 - 15 Comentarios

Hu Yaobang, sexto secretário geral do Partido Comunista da China, encarou como sua a missão de promover reformas políticas e econômicas no país. Em 87, no entanto, a linha dura do partido o pôs para fora. Dois anos após derrubado, Yaobang morreu: 15 de abril de 1989.

A morte mexeu com os estudantes. Yaobang representara esperanças sufocadas. Naquele dia, após receberem a notícia, um grupo de mil estudantes deixou o campus da Universidade de Beijing em direção à Praça da Paz Celestial (Tiananmen) para chorar o morto perante o monumento dos Heróis do Povo. Pessoas de toda cidade começaram a vir para a praça.

E não foram embora. Nos dias seguintes, permaneceram lá. No dia 21, já eram mais de 100.000 – e, no dia 5 de maio, 100.000 marcharam pelas ruas de Beijing pedindo liberdades. Um grupo de estudantes que tinha entre seus líderes Wuer Kaixi decidiu fazer uma greve de fome.

No governo, o secretário geral do partido em pessoa, Zhao Ziyang, sucessor de Hu Yaobang, tentava manobrar para que houvesse tolerância com os protestos. No dia 18 de maio, ele foi convocado à residência do líder máximo, Deng Xiaoping. Sofreu um descompostura. No dia 19, Ziyang foi pessoalmente tentar dissipar os protestos. “Não se sacrifiquem à toa”, ele disse. “Os rapazes em greve de fome estão fracos. Vocês nos criticam, e vocês tem razão. O processo é lento, nos dêem uma chance, mas não continuem a greve de fome. As respostas não virão rápidas.” Ele encerrou o comovente discurso com sua frase mais lembrada. “Nós já somos velhos, nós não somos mais importantes.”

Os protestos não foram dispersados. No dia 20 de maio, o governo implantou Lei Marcial, Zhao Ziyang perdeu o cargo e foi colocado em prisão domiciliar. A linha dura assumiu o comando. Batalhões de todo o país foram trazidos a Beijing.

Na noite do dia 3 de junho, tanques e soldados com baionetas começaram a avançar sobre a praça. Abriram fogo, os tanques avançaram. Quando o dia amanheceu no 4 de junho, a Praça Tiananmen estava vazia.

A Cruz Vermelha chinesa chegou a anunciar 2.600 mortos ao longo da madrugada, depois negou que tivesse tal número. O governo diz que morreram 241.

Hoje, a revista eletrônica Guernica publica uma entrevista com Wuer Kaixi, o jovem estudante que liderou a greve de fome:

Logo após Tiananmen, veio a idependência do Timor Leste, Mandela deixou a prisão, o Muro de Berlim caiu. O mundo parecia estar ficando melhor. Depois do Onze de Setembro, veio a guerra no Oriente Médio e a idéia de que o mundo está melhor ficou difícil de defender.

Mas depois de 1989, a China ficou melhor. Depois de Tiananmen, o Partido Comunista decidiu fazer um acordo com o povo chinês. Ofereceu liberdade econômica em troca de cooperação chinesa. É um acordo ruim, porque tanto liberdade política quanto econômica não pertencem ao governo para que ele possa oferecê-la. Mas, de qualquer forma, o povo aceitou o acordo e o Partido Comunista deixou o dia-a-dia das pessoas.

Não há mais um Estado ideológico e é por isso que o povo chinês concordou com apenas liberdade econômica.

O dia que definiu o destino da China faz, hoje, 20 anos.

O mistério de Nefertiti

25/May/2009 - 14h22 - 35 Comentarios

nefertiti

O busto de Nefertiti é talvez a mais bela peça que sobreviveu aos tempos desde o Antigo Egito. Ou talvez não seja – é o que diz o historiador Henri Stierlin.

A teoria de Stierlin é de que o busto foi feito pela equipe do arqueólogo Ludwig Borchardt para testar técnicas e pigmentos utilizados à época. Um equívoco teria transformado a peça de estudo em ‘antiguidade’. Um dia, o duque Johann Georg visitava as escavações, mirou o busto e se encantou. Ciente de que precisava de dinheiro e sem querer expor a uma vergonha o visitante ilustre, o arqueólogo calou-se.

A polêmica está aberta. Como é quase toda mineral, Nefertiti não pode ser datada por carbono 14.

Nikola Tesla

14/May/2009 - 15h11 - 19 Comentarios

via Hermenauta

Michelangelo aos 13

14/May/2009 - 14h21 - 31 Comentarios

Em seu primeiro quadro, o menino Michelangelo desenhou monstros.

Os últimos nazistas vão à Justiça

14/April/2009 - 13h36 - 63 Comentarios

A Justiça alemã está preparando uma nova ofensiva contra criminosos do Holocausto. São cinco homens, quatro cidadãos norte-americanos nascidos na Europa e um quinto que vive na Alemanha.

O norte-americano nascido na Áustria Josias Kumpf, 83 anos, foi deportado dos EUA há algumas semanas, após ter tido sua cidadania cassada. Ele provavelmente esteve envolvido com o assassinato de 8.000 pessoas em um único dia no Campo de Concentração de Trawniki, em 1943.

Em março, o governo alemão pediu a extradição de John ‘Ivan’ Demjanjuk, de 89 anos, um ucraniano-americano suspeito de ter participado de 29.000 assassinatos. Em seu primeiro movimento, a Justiça dos EUA impediu a deportação com o argumento de que, idoso, Demjanjuk estaria frágil demais para enfrentar uma viagem intercontinental. Mais recentemente, o Departamento de Imigração dos EUA decidiu por permitir sua deportação.

A nova série de casos sendo preparados para ir à Justiça não envolve altos oficiais, mas alemães, austríacos, ucranianos, lituanos, gente que trabalhava no dia-a-dia dos campos e que participou ativamente do processo de genocídio nazista. Muitos não haviam sido julgados até hoje porque, estando tão abaixo na hierarquia, era difícil provar que não estavam apenas seguindo ordens. Em alguns casos especiais, no entanto, já há documentos o suficiente para mostrar quem se gabava de uma particular eficiência e que cumpria a missão para além das ordens.

É, possivelmente, a última chance de levar os últimos nazistas para a cadeia antes que todos morram.

Primeiro de Abril

01/April/2009 - 11h40 - 20 Comentarios

general

Criação do designer Aldo Fabrini.

As lições de John Maynard Keynes

06/January/2009 - 14h21 - 23 Comentarios

O Financial Times publica alguns dos colunistas mais interessantes da imprensa internacional. Como a turma da também britânica The Economist, sempre arranjam algo de surpreendente para dizer, uma observação que muda o foco habitual das discussões. Em tempos nos quais os mesmos argumentos são repetidos ad infinitum, esta habilidade de olhar uma velha discussão por outro ângulo é sempre bem-vinda.

Uns dias atrás, o colunista de economia Martin Wolf declarou que é hora de aplicar as lições de John Maynard Keynes. É assim que ele vê tais lições:

A primeira lição, levada à frente pelo economista Hyman Minsky, é que não devemos levar a sério os financistas. ‘O típico banqueiro sábio não é aquele que percebe o perigo antes e o evita, é aquele que, quando vai à falência, faliu de forma convencional com todos seus pares de forma que ninguém possa culpá-lo.’ Keynes não acreditava nessa história de a ‘eficiência dos mercados’.

A segunda lição é que a economia não pode ser analisada como quem analista uma empresa. Faz sentido para uma empresa cortar seus gastos. Mas se o mundo faz isso, simplesmente vai diminuir a demanda. Um indivíduo não deve gastar tudo o que ganha. Mas o mundo deve.

A terceira lição, a mais importante delas, é que não devemos tratar a economia como um tratado moral. Na década de 1930, havia duas visões ideológicas distintas: a austríaca e a socialista. Os austríacos – Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek – argumentavam que era preciso banir os excessos da década de 1920. Já os socialistas sugeriam que o socialismo deveria substituir o capitalismo falido. Estas visões tinham por base duas religiões seculares. A primeira era a de que o comportamento de indivíduos independentes garantiria a estabilidade da ordem econômica; a segundo era a de que a mesma motivação levaria a exploração, instabilidade e crise.

O gênio de Keynes – um gênio de todo britânico – era de que não deveríamos encarar o sistema econômico como um tratado sobre a moral e sim como um desafio técnico. Ele queria preservar tanta liberdade quanto possível ao passo em que reconhecia que um Estado mínimo não poderia sustentar uma sociedade democrática como economia urbanizada. Ele queria preservar a economia de mercado sem jamais acreditar que laisser faire produz os resultados ideais no melhor dos mundos.

Adeus em 2008

30/December/2008 - 20h25 - 17 Comentarios

Samuel Huntington não é o único na lista: o Weblog destacou algumas despedidas, em 2008.

A do químico suíço Albert Hofmann, por exemplo, sintetizador do LSD. As do ator Paul Newman e do compositor Dorival Caymmi. Sobre o mestre jornalista norte-americano Tim Russert, escrevi no Estadão. É a história de como uma única pessoa pode influenciar a política de um país.

Na política brasileira, farão falta dona Ruth Cardoso e o senador Jefferson Péres.

Numa nota pessoal, em abril morreu minha mãe. Aprendi um bocado sobre cinema com ela.

Dois mil e nove nos será melhor.

Thomas Jefferson e Sally Hemings
E seus filhos, negros, mulatos, brancos

26/December/2008 - 05h04 - 58 Comentarios

Em muitos pontos, as histórias de Brasil e Estados Unidos se cruzam. Nações escravagistas, homogêneas, que não se fragmentaram como aconteceu com a América Espanhola. Há diferenças, também: brancos e negros não se misturaram nos EUA enquanto, no Brasil, somos todos mestiços.

O mito é bom – mas não corresponde à realidade.

Aqueles senhores de escravos da Virgínia, donos de grandes fazendas quase falidas nos mil e setecentos, não eram assim tão diferentes dos senhores de escravos em Pernambuco, também donos de grandes fazendas quase falidas no mesmo período. Os irmãos escravos John e Sally Hemings, por exemplo, eram filhos de uma escrava negra e seu senhor, John Wayles.

Mesmo filhos, não deixaram de ser escravos.

Quando John morreu, sua filha Martha herdou seus meios-irmãos. Martha era casada com Thomas Jefferson. E, quando Martha morreu ainda jovem, Sally, sua meia-irmã mulata, transformou-se em companheira de Jefferson – uma companheira jamais assumida de todo, mas também nunca negada, com quem o terceiro presidente dos EUA, autor de sua Declaração de Independência, teve cinco filhos – quatro homens, uma mulher.

A história é conhecida mas jamais foi contada por completo até agora, que saiu o livro Thomas Jefferson e Sally Hemings, da historiadora Annette Gordon-Reed. É ela nesta entrevista à Amazon:

Como era a relação de Jefferson com os filhos que teve com Sally Hemings? E que tipo de vida tiveram os filhos após a morte dele?

Este foi um dos aspectos mais interessantes da pesquisa. Há uma série de cartas escritas por Jefferson para o gerente de sua propriedade em Bedford County, onde ele passou muito tempo em seus anos de aposentadoria. Nas cartas, ele anuncia que está para chegar. Escreve coisas como ‘Johnny Hemings e seus dois assistentes vêm comigo’ e, dependendo do ano, seus assistentes eram seus filhos Beverley e Madison Hemings ou Madison e Eston Hemings. Lá, John, Beverley, Madison e Eston trabalhavam na casa onde tanto Jefferson quanto eles dormiam. Eles ficavam lá, juntos, isolados, às vezes por semanas a fio. Jefferson, que se considerava bom carpinteiro, passava muito tempo trabalhando com John Hemings e, neste processo, passava tempo com seus filhos, que eram aprendizes de John. Madison Hemings escreveu que Jefferson era cordial com ele e seus irmãos, como era com todos a sua volta, mas que jamais teve a relação carinhosa que dedicava a seus netos legítimos. Ainda assim, todos seus filhos com Sally aprenderam o violino, que o próprio Jefferson tocava, e pelo menos um – Eston – se transformou em músico profissional. Sempre que se apresentava, ele tocava uma música em particular, que era a favorita de Jefferson. Temos menos informação a respeito de sua relação com Harriet, a filha. Ele a enviou para longe quando ela tinha 21 anos com o que seria, atualmente, 900 dólares, para viver com seu irmão Beverley.

É importante destacar que nenhum deles era identificado como servente. Seus filhos foram treinados para serem os profissionais que Jefferson mais admirava: construtores, carpinteiros, e a filha aprendeu costura. Naquela época, era algo que mulheres de todas as raças e classes aprendiam. Harriet Hemings jamais se tornou ama das netas legítimas de Jefferson, que teria sido o caminho natural para uma escrava. Os Hemings foram treinados para deixarem de ser escravos. Beverley e Harriet deixaram a residência de Jefferson na condição de brancos, se casaram com brancos, e sumiram do mapa, embora mantivessem algum contato com a família. Quando Jefferson morreu, Madison e Eston, que foram libertados em seu testamento, levaram sua mãe para a cidade de Carlottesville. Foram listados como brancos livres no censo de 1830 e mulatos livres no censo de 1833. Após a morte de sua mãe, Madison deixou a Virgínia para Ohio, e Eston se juntou a ele depois. Em algum ponto, Eston decidiu que dava muito trabalho viver como negro, se mudou para Wisconsin, e adotou o nome E. H. Jefferson. Ele teve filhos e a todos deu o nome Jefferson. Jamais afirmou que era descendente do presidente porque, caso o fizesse, teria que admitir ancestralidade negra, o que teria tirado de seus filhos as oportunidades que teriam na condição de brancos.

Jefferson é o mais fascinante dentre os criadores do sonho americano. Com Benjamin Franklin e Alexander Hamilton, está entre os mais intelectualizados. Mas Franklin era um cínico sarcástico e Hamilton, um elitista, desconfiava de poder demais nas mãos do povo. Ninguém, dentre aquele grupo, acreditava mais nos ideais iluministas do que Jefferson. Ninguém argumentou pela igualdade dos homens como Jefferson. Jefferson acreditava tanto na sabedoria do povo, diga-se, que recomendava ao país que ajudou a fundar um estado de revolução permanente, para que nenhum grupo jamais se firmasse no poder.

Ainda assim, Jefferson foi senhor de escravos. George Washington, que não tinha brilho ou mesmo ideais, um personagem pragmático e desinteressante, senhor de terras em Virgínia como Jefferson, ao menos libertou todos os seus em testamento. Jefferson, o homem de idéias tão puras a respeito da igualdade e da democracia, o anti-elitista por excelência, passou a vida evitando encarar a incoerência da escravidão. Deixou escravos para seus filhos legítimos como herança. Quando pressionado, sugeria que este seria um problema para ser resolvido no futuro. Jamais o enfrentou, mesmo quando teve muito poder nas mãos. Considerava-se um senhor generoso, incapaz de ser ríspido com os servos; mas punha nota no jornal com anúncio de prêmio, como todos seus pares, se um acaso fugisse. E a recuperação dos fugidos era sempre cruel, caçada a bicho. Não era racista para os padrões do tempo; mas deixou escrito que considerava o homem negro menos inteligente do que o branco. Assim como escreveu que brancos e negros não deviam ter filhos juntos para não degradar a raça.

Em que, afinal, acreditava? Escrevia hipocritamente para a aprovação de seus vizinhos? Acreditava mas era incapaz de cumprir?

Logo após sua viuvez, quando viveu na França na condição de embaixador dos EUA, década e meia antes de tornar-se presidente, teve uma relação intensa, talvez nunca consumada, mas profundamente apaixonada, com uma aristocrata italiana. Sua relação com Sally durou tantas décadas e deixou tantos filhos. Martha Wayles, a italiana platônica e Sally foram as principais mulheres de sua vida. Sally a que por mais anos esteve ao seu lado.

Em menos de um mês, um homem negro chega à presidência dos EUA. O presidente que deixa, George W. Bush, dá mostras de que o país tem sua elite, exatamente como Benjamin Franklin previa que aconteceria, e motivo pelo qual Jefferson receitava a revolução permanente.

O significado do Natal

24/December/2008 - 04h28 - 96 Comentarios

Hoje é véspera de Natal.

Como é um quê tradição neste Weblog, repito aqui links para três reportagens que escrevi ao longo dos anos para esta época:

Uma conta a história de Papai Noel. De onde veio a lenda, qual o fundo religioso e mítico e tudo o que a Coca-Cola tem com o bicho.

A segunda é a história do Homem. Já que este é o período em que simbolicamente celebramos inícios, o texto conta como o Homo sapiens veio dar na Terra.

A terceira, conta a história de Jesus Cristo. Não é exatamente a história do rabino Yeshua ben Youssef, tampouco é a história do Jesus da Bíblia. É a história de como nasceu uma religião, uma vertente do judaísmo chamada cristianismo, num período particularmente confuso da Terra Santa: a época entre os primeiros anos após a morte do rabino Yeshua e a queda do Templo, na década de 70 do primeiro século.

Relendo esta última, que é minha favorita dentre as três, percebi que há outra história que ainda não contei por aqui mas que é igualmente fascinante: nos últimos dez a quinze anos, houve uma revolução na historiografia do rabino Yeshua. A partir de análise comparativa literária dos livros do Novo Testamento e de evangelhos apócrifos igualmente antigos, é possível ter uma idéia bastante exata de o que ele realmente pregou, em que acreditava.

Detalhes de seu nascimento e sua vida particular provavelmente estão perdidos para sempre. Mas já existem teorias sólidas que recontam seus últimos dias – teorias de historiadores, não de teólogos.

Yeshua morreu judeu, pregando um judaísmo farisaico de todo típico em seu tempo, sem jamais sequer desconfiar que esta potência chamada cristianismo seria criada em seu nome.

Vou me organizar, reunir os livros, e fazer algo que devia fazer mais vezes: escrever uma reportagem para o Weblog. Fica para a Páscoa o Jesus parte 2.

Esta festa que comemoramos entre hoje e amanhã, o Natal, não nega as origens judaicas e tem um quê de Hanukkah, não é à toa que usamos tantas luzes. Mas também tem, como está lá contado na história de Papai Noel, boas pitadas das religiões pagãs nórdicas.

O dia 25 de dezembro foi instituído como aniversário de Jesus Cristo no século 4, pela Igreja Católica. Aproveitavam duas celebrações romanas: a Saturnália, que era a principal festa de Roma, celebrando o solstício de inverno entre os dias 17 e 23 de dezembro; e a festa do Sol Invictus, que tinha por tradição a troca de presentes.

O teólogo Joseph Ratzinger – atual papa Bento 16 – contesta esta leitura. Ele sugere que o aniversário de Cristo foi fixado no dia 25 de dezembro porque a data de sua concepção milagrosa é o 25 de março. A Igreja do século 4 simplesmente teria feito a conta aproximada somando nove meses.

Aí, é matéria de fé.

O Natal é uma das mais importantes celebrações humanas porque expõe uma de nossas melhores características: o Natal é mestiço. Multicultural. Uma soma, uma mistura de várias culturas de vários povos, que deixaram de alguma forma esta marca. Então, não importa como celebramos o Natal – mesmo que nem o celebremos com este nome. O que comemoramos hoje, no fundo, é nossa própria humanidade. É aquilo que temos, todos, em comum.

Um feliz Natal para todos.

Francisco Franco e estátuas derrubadas

19/December/2008 - 12h07 - 34 Comentarios

A última estátua em praça pública do ditador fascista da Espanha, Francisco Franco, foi retirada ontem das ruas de Santander.

Para celebrar, o blog da revista Foreign Policy lista a história das estátuas derrubadas. É uma retrospectiva divertida.

Tem Stálin, Lênin, Saddam e até George W. Bush.

Nos EUA, entre Milton Friedman e Lorde Keynes

19/December/2008 - 03h37 - 24 Comentarios

Assim o historiador escocês Niall Ferguson lê a atual crise econômica tal qual vista pelo governo dos EUA:

De um lado, Ben Bernanke, presidente do Fed (Banco Central), está empregando a lição de Uma História Monetária dos Estados Unidos, de Milton Friedman. No livro, ele argumento que a Depressão teve em grande parte como responsável o Banco Central, que não injetou liquidez no sistema financeiro em implosão. Bernanke não apenas derrubou a taxa dos fundos federais para menos de 0,25%. Ele também emprestou livremente para os bancos em troca de garantias desconhecidas mas provavelmente tóxicas. Agora, ele está comprando valores mobiliários no open market.

O resultado é uma explosão do balanço do Fed e da base monetária. Com seus recursos se aproximando da casa dos 2.263 bilhões e capital de menos de 40 bilhões de dólares, o Fed se parece cada vez mais com um fundo de investimentos públicos quebrado.

Por outro lado, [o secretário de Fazenda Hank] Paulson se apresenta como um legítimo seguidor de Keynes, produzindo um enorme déficit governamental no esforço de sustentar o setor financeiro enquanto tenta prover um substituto público para o setor privado em decadência Mesmo antes de o presidente eleito Barack Obama lançar seu prometido programa de investimento em infra-estrutura, estima-se que o déficit do ano que vem chegue a 12,5%.

Houve o tempo em que monetarismo e keynesianismo eram consideradas teorias econômicas mutuamente excludentes. A crise atual é tamanha que governos em todo o mundo estão testando ambas simultaneamente.

Economia decididamente não é o forte deste Weblog. O texto vai porque a conclusão de Ferguson é divertida e também porque ele é bom historiador. (Seu último livro é A lógica do dinheiro.) Quaisquer sugestões de melhora na tradução são bem-vindas.

Um governo mundial é possível?
(E o que a direita tacanha acha)

18/December/2008 - 13h50 - 93 Comentarios

A União Européia tem moeda própria e Banco Central, tem leis próprias, servidores públicos, uma Suprema Corte. É, literalmente, um governo de 27 países. Não extirpou a soberania de seus membros, mas criou uma nova camada comum de governança. Ex-Economist, atual editor de internacional do Financial Times e um craque dentre os jornalistas da área, Gideon Rachman se pergunta se o modelo é expansível. Um governo mundial é possível?

Em primeiro lugar, está cada vez mais claro que as questões mais difíceis envolvendo os governos nacionais são, por natureza, internacionais: há o aquecimento global, a crise financeira internacional e a ‘guerra ao Terror’.

Em segundo, dá para fazer. As revoluções no transporte e nas comunicações diminuíram o mundo de tal forma que, como escreveu o eminente historiador australiano Geoffrey Blainey, ‘Pela primeira vez na história, algum tipo de governo mundial é possível’. Blainey prevê uma tentativa de formar um governo assim em algum ponto dos próximos dois séculos, que é um período bem longo para ser tratado numa coluna de jornal.

Mas a terceira questão, uma mudança na atmosfera política, sugere que ‘governança global’ poderia vir mais cedo do que tarde. A crise financeira e a mudança climática pressionam os governos nacionais a buscar soluções globais mesmo em países como China e EUA, tradicionalmente guardiões violentos de sua soberania nacional.

Rachman também destaca as maiores dificuldades para um projeto portentoso como este. Principalmente, políticos se elegem em eleições locais e enquanto eleições locais definirem suas condutas políticas, haverá obstáculos em países como os EUA. A idéia de governo internacional não é popular – e as várias derrotas que os plebiscitos consolidadores da União Européia sofrem o mostram.

Rachman é um grande jornalista – mas é novato na Internet. O Financial Times, com sua primeira página em um tom entre o rosa e o amarelo, costuma ser vista nas mãos da elite financeira internacional. Mas desde que começou seu blog no site do FT, o velho repórter tem publicado sua coluna online de forma aberta, ampliando seu universo de leitores. Para quê. Sua caixa de comentários foi invadida subidamente por norte-americanos do sul cheios de ódio no coração. O que era um mero exercício intelectual, o explorar de uma hipótese, a eles soou como ameaça vinda do Reino Unido.

As conclusões de Rachman após seu primeiro contato com a direita tacanha:

1. Há uma incrível quantidade de ódio lá fora dirigida contra tudo e contra todos, da ONU às grandes corporações a Barack Obama. Essas pessoas sabem ler, mas não pensam.

2. A turma que acha que o mundo está para acabar é forte. Aproximadamente um terço dos emails que recebi se referiam ao Livro do Apocalipse no qual, parece que está sugerido, tudo foi previsto. Decidi responder a uma destas mensagens dizendo que jamais li o Apocalipse já que sou ateu. Erro crasso.

3. Há muita gente que acredita não apenas que o Aquecimento Global é uma mentira mas também que faz parte de uma vasta conspiração. Como os relatórios mais influentes a respeito da mudança climática foram produzidos por um painel intergovernamental ligado à ONU, a teoria é alimentada. A idéia é que a ONU perpetua a mentira da mudança climática como desculpa para impor um governo mundial sobre os EUA. Ao que parece, faço parte desta conspiração.

Tempo sufocante: o AI-5 no Jornal do Brasil

12/December/2008 - 00h01 - 23 Comentarios

Há alguns dias, encabecei o Open Thread com a previsão do tempo publicada na primeira página do Jornal do Brasil em 14 de dezembro de 1968. Naquela mesma edição, à direita, fizeram publicar ‘Ontem foi o Dia dos Cegos’.

No comando do JB, a dupla Alberto Dines e Carlos Lemos publicaram algumas das primeiras páginas mais memoráveis da história da imprensa brasileira. O trabalho não era só deles, era de toda uma equipe de excepcional qualidade que aquele jornal um dia teve. Juntos, fizeram parte da geração de jornalistas que inspiraram minha geração a seguir carreira.

Roberto Quintaes, leitor deste Weblog, era um dos copidesques do JB presentes naquela noite. É ele quem conta a história, por email:

O Editor-Chefe Alberto Dines, por volta da meia-noite, procurava soluções, com o Chefe de Redação Carlos Lemos, para as muitas intervenções dos militares que haviam ‘ocupado’ o JB naquela noite.

O editorial foi substituído por uma foto, vertical, em que o campeão mundial de judô era derrubado pelo seu filho, brincadeira doméstica. Muitas outras fotos com legendas ambíguas substituíram textos vetados.

Num certo instante, Dines me pediu que recriasse a previsão do tempo, usando o 5 do Ato Institucional e o 37 do Ato Complementar assinados naquele 13 Dezembro.

E saiu então a seguinte ‘previsão’:

Tempo negro. Temperatura sufocante. O país está sendo varrido por fortes ventos. Mínima – 5 graus, no Palácio Laranjeiras. Máxima = 37, em Brasília.

A primeira página foi vista e revista pelos militares ainda com a previsão do Serviço de Meteorologia. A ‘previsão0′ de que aqui se fala foi incluída na capa do JB depois de todos os vetos dos militares terem sido executados. A atenção deles não mais pousou, ao final, sobre a previsão do tempo, … e fez-se história.

Há revoluções que trazem liberdade

11/December/2008 - 22h12 - 61 Comentarios