Quando me mudei para São Paulo, ganhei de meu pai uma medalhinha. O desenho é um art déco elegante. Na frente, uma Atena com asas e muitas bandeiras, a inscrição ‘Tudo por um S. Paulo forte no Brasil unido’; no verso, ‘9 de julho de 1932: Aos heróicos soldados da lei, defensores da mais alta aspiração nacional, homenagem do povo de S. Paulo’.
A medalhinha pertencia a minha avó que serviu como enfermeira no fronte.
A Revolução de 1932 faz 76 anos, hoje. O objetivo era derrubar o governo de Getúlio Vargas e reinstituir a Constituição. Ou era uma maneira de reinstituir a política do Café com Leite e a Velha República. Depende de quem conta.
Foi a última vez que um estado se levantou contra o governo central, no Brasil. Difícil imaginar algo do tipo acontecendo novamente.
Atualização - Nos comentários, Carlos Alberto Lemes de Andrade lembra que o governador Magalhães Pinto declarou Minas sublevada e independente às vésperas do Golpe de 1964. Foram estranhíssimos dias, aqueles.
Então é bom elucidar: nada, nele, é minha opinião. Tudo é reprodução do artigo do professor Feldman. Um trecho entre aspas, outro resumido. A comparação com o arcaísmo católico, por exemplo, é dele. Este argumento, o de que os muçulmanos são os novos judeus da Europa, tampouco é novo.
Pessoalmente, não conheço o velho continente o bastante para afirmar que sim ou que não. Mas, também numa visão pessoal, e sem a ênfase do professor, me incomoda a semelhança entre muito do que se diz hoje sobre islâmicos e do que se disse no passado, sobre judeus. Não é apenas a respeito de muçulmanos. Há um par de anos, ouvi frases sobre ciganos, na França e na Espanha, que, no Brasil ou nos EUA, ninguém diria hoje. Poderia pensar. Mas teria vergonha de dizer. Uma das coisas que mais impressionou na Europa, sempre, foi esta falta de pudores no exercício do preconceito.
Uma das questões não postas em nossa contínua discussão a respeito de Israel e Palestina é que sua situação atual, de disputa de terras, nasceu porque ambos são vítimas da Europa. Os judeus foram expulsos de lá. Não exatamente, alguns dirão. Expulsos, sim. Após séculos de perseguição incrementada para pogroms, aumentada para o Holocausto, se você é um judeu na Europa, em 1948, tudo o que quer é ir embora. Na próxima, a história deixa claro, será você. Ou seus filhos. No mesmo passo, a divisão artificial do Oriente Médio em Estados nacionais, incluindo-se aí a partição entre Israel e Palestina, é fruto do imperialismo europeu. A ascensão do Wahabismo, esta seita fanática e obscurantista do Islã por trás do Talibã e da al-Qaeda, é fruto de uma decisão política européia de aumentar o poder do clã al-Saud, atuais donos de Meca e Medina.
De certa forma, Hitler conseguiu seu intento de limpar a Europa de judeus. Foram-se praticamente todos, para as Américas e para Israel. E o convívio com os muçulmanos é, sim, e num ritmo crescente, o primeiro desafio de grande porte europeu para lidar com uma comunidade diferente.
Poderia ser diferente? Os EUA estão vivendo algo parecido. Não é igual – parecido. No sudoeste norte-americano, de uns quinze, dez anos para cá, o espanhol é língua corrente. Não era assim. Há rádios em espanhol, jornais, revistas, tevês – um império crescente. Norte-americanos criados num mundo branco, anglo-saxão, protestante, já falam – nesta região sudoeste – espanhol como segunda língua. E a grita contra os ‘imigrantes ilegais’ é alta. Claro. Às vezes, escorrega nitidamente para o preconceito. Mas nenhum político fala que os ‘mexicanos têm dificuldades de assimilação’. Seria uma frase racista demais. Eles se assimilam? Nada. Substituem a comida, a língua, mudam a maneira de rezar a fé. (O parco contato que os EUA tinham com o catolicismo era irlandês, italiano e polonês, nada a ver com o mexicano, sincrético que só.) Mexicanos, hispânicos em geral, trazem sua própria cultura. E, quando um político fala que o inglês devia lhes ser imposto, é logo ridicularizado. Eles têm vergonha de parecerem racistas.
Culturas não são assimiladas. São misturadas. É ver a nossa: portuguesa, africana, tupi. Tão misturada que a gente não sabe quando termina uma e começa a outra. Quando um novo povo chega, a cultura local também muda. A julgar pelo tom dos discursos correntes na Europa, ‘eles são bem-vindos desde que virem franceses’. Ou alemães, ingleses, italianos, espanhóis. Não vão virar. Alguém poderia argumentar, ‘mas os mexicanos sempre estiveram do outro lado do Rio Grande.’ Já faziam parte daquele mundo. Bem, é verdade. O Egito também sempre esteve do outro lado do Mediterrâneo. O Marrocos, idem. Sempre cruzou-se o mar de um lado para o outro. E nenhum europeu jamais teve pudores de entrar, conquistar, dominar, levar o que considerava de valor. É fácil ser imperialista durante quatro séculos e, vinte ou trinta anos passados do fim do imperialismo, dizer que não tem compromissos com o passado.
Há uma geração européia que parece querer romper os vínculos com a própria história. Houve o nazismo, agora somos diferentes; houve a religião, agora somos diferentes; houve o imperialismo, agora somos diferentes. Só que história é uma linha contínua: o nazismo deixou conseqüências que vivemos até hoje. As religiões deixam conseqüências visíveis – e enquanto gays não puderem casar livremente, ainda estaremos vivendo uma imposição da Igreja. O imperialismo também deixou vítimas. Nações inteiras. A Europa enriqueceu. O custo de sua própria riqueza foi pago com o futuro de outras nações.
Os bárbaros estão às portas da cidade, reclamavam os romanos. Eles querem usufruir de uma riqueza que seus antepassados construíram.
Noah Feldman, do Council of Foreign Relations e da Escola de Direito de Harvard, não é o primeiro a sugerir que a Europa Ocidental é, por natureza, racista. Mas é o mais recente.
Há uma explicação controversa para explicar a cultura anti-muçulmana na Europa: mesmo após 60 anos de introspecção a respeito do anti-semitismo que levou ao Holocausto, os europeus não se convenceram de que imigrantes com diferenças culturais e religiosas devem ser tratados como membros plenos de sua sociedade. O anti-semitismo europeu entre as duas grandes guerras incluía acusações de crime, de conservadorismo religioso, inferioridade genética e, principalmente, falava da impossibilidade de assimilação. Não é coincidência que boa parte dos judeus da Europa Ocidental eram imigrantes ou filhos de imigrantes de países mais ao leste.
Os EUA tiveram sua própria forma de racismo legalizado nas leis Jim Crow, que Hitler copiou para seus próprios propósitos. Após a Segunda Guerra, no entanto, nós norte-americanos começamos a encarar nosso passado. Tendências racistas ainda estão entre nós, mas carregamos a culpa deste racismo e a consciência de que devemos vencê-lo.
Na Europa, o terrível sucesso de Hitler no assassinato de tantos judeus fez com que a sociedade pós-guerra européia jamais tivesse que enfrentar as diferenças. Os judeus que sobraram já estavam longe. Hoje, a natalidade dos muçulmanos europeus é bem maior do que a de seus vizinhos. É como se a inabilidade européia de lidar com diferenças estivesse sendo testada pela primeira vez desde então. Em teoria, a Europa lembra o Holocausto. Mas a profundidade desta memória pode ser posta em questão quando tantos europeus parecem ter se esquecido de que seu continente já serviu de residência para outros estrangeitos muito antes da chegada da atual minoria muçulmana.
Recentemente, uma deputada britânica sugeriu que uma campanha devia desestimular o casamento entre primos paquistaneses. O motivo é que são mais propensos a certas anomalias genéticas. Eles – os paquistaneses – e judeus asquenazitas. Mas ninguém teria coragem de sugerir a uma comunidade judaica com quem casar. Ainda mais com argumentos genéticos.
Muitos dos costumes muçulmanos são criticados por serem atrasados perante a cultura européia liberal de hoje. São mesmo. Como são os costumes católicos, que rejeitam a igualdade entre homens e mulheres no púlpito e ainda consideram homossexualismo doença.
É claro que há o terrorismo, reconhece Feldman. Mas o terrorismo é também de todo conveniente para explicar um padrão de intolerância com o diferente.
Na década de 20 do século passado, o arqueólogo inglês Leonard Woolley escavou cinco tabuleiros de um jogo das tumbas reais de Ur, a antiga cidade da Suméria localizada no atual Iraque. O mais luxuoso deles misturava pedras coloridas várias cuidadosamente encaixadas e data de 2.600 a.C.
Com o tempo, novos tabuleiros ou indícios de sua existência foram descobertos no Irã, Síria, Egito, Líbano, Sri Lanka, Chipre e Creta.
Desde menino, Finkel era fascinado com o mundo dos jogos de tabuleiros e o da Mesopotâmia. Na universidade, estudou a escrita cuneiforme e, em 1979, foi contratado pelo Museu Britânico como especialista para decifrar a coleção 130.000 de tabletes de argila. Num deles, descobriu instruções.
Cuidadosamente, ao longo dos anos, ele recuperou a forma de jogar o Jogo Real de Ur, fez o Museu botar a venda uma reprodução com instruções, descobriu sua história.
O Jogo Real de Ur foi o mais popular da antigüidade até que, uns 2.000 anos atrás, ele morreu de vez, substituído por outro jogo bem mais sofisticado no seu equilíbrio entre sorte e técnica. O Gamão.
Ou quase morreu: há alguns anos, folheando uma obscura revista técnica israelense de arqueologia e história, Finkel passou por fotos da comunidade judaica de Cochin, na Índia. Eram imagens do início do século 20 e, ali no meio, havia um tabuleiro de jogo. Era do Jogo Real.
Não há mais judeus em Cochin, todos vivem em Israel. O velho professor rastreou, num kibutz, uma senhora que ainda tinha memória de como jogar. Pegou um avião para encontrá-la. Havia algumas modificações nas regras, mas era ele próprio. Passaram uma tarde gasta em partidas. Ainda vivo até, ao menos, o início dos 1900s.
(No site do Museu Britânico, há uma versão online para ser jogada. É preciso instalar o plugin Shockwave.)
A Newsweek da semana traz uma excelente reportagem chamada A mitologia de Munique. É, fundamentalmente, uma constatação e, a partir dela, uma análise.
O texto constata que dos anos 1970 para cá a política externa norte-americana caiu na armadilha de dois clichês.
O primeiro já um bocado discutido aqui no Weblog é o de Munique e do Apaziguamento. Segundo ele, quem busca a paz com ditadores periga cometer o erro de quem negociou a paz com Hitler.
O segundo é o do Atoleiro no Vietnã – é o clichê resposta. Envia soldados, põe dinheiro, e a guerra é impossível de ser vencida. Quanto mais anda, mais afunda.
Não deixa de ser curioso o fato de que os EUA se meteram no atoleiro do Vietnã para não apaziguarem como acontecera em Munique. Mas não importa – os clichês estão dados e, perante eles, o editor de política da Newsweek, Evan Thomas, se põe a pensar.
Como político, John McCain passou a acreditar no tudo ou nada: os EUA só deveriam entrar numa guerra se estivessem plenamente comprometidos com todo o necessário para a vitória. Assim, em 1983, ele foi contra a intervenção no Líbano porque acreditou (corretamente) que os EUA não estariam plenamente comprometidos com o esforço de paz necessário ao fim do conflito. Em finais dos anos 1990, quando Washington se envolveu na Península Balcânica, McCain queria enviar tropas norte-americanas porque acreditava (erradamente) que os sérvios não recuariam perante um ataque aéreo. No Iraque, ele se opôs ao governo Bush quando este não enviou soldados o suficiente. E se tornou o principal aliado do governo quando mais soldados foram enviados. McCain alerta para as graves conseqüências de uma derrota para a região e para a alma das Forças Armadas norte-americanas.
O conceito do tudo ou nada faz algum sentido e traz um quê de pureza e nobreza. Mas não reflete a realidade desorganizada de guerras locais contra grupos insurgentes. O chefe de Estado, principalmente de uma superpotência, inevitavelmente tem de encontrar um acordo mesmo que isso, em alguns casos, seja dizer uma coisa e fazer outra. Os melhores estadistas sabem disso e, intuitivamente, a maioria das pessoas também o sabe. Basta que abandonem os clichês.
Thomas logo saca do bolso um exemplo: Ronald Reagan. Só se referia à União Soviética como o Império do Mal. E, no entanto, a partir do final de seu primeiro mandato, negociou com os líderes soviéticos o tempo todo. Reagan tinha poder, principalmente após investir muito em armas que não usaria. E este poder que não usou foi o que lhe permitiu negociar.
John Kennedy era outra que compreendia que não é preciso escolher entre apaziguamento e uso da força. Quando os soviéticos instalaram mísseis em Cuba apontando para os EUA, Kennedy falou duro em público, fazendo toda sorte de ameaças. Nos bastidores, Robert Kennedy negociava a retirada de mísseis velhos dos EUA na Turquia em troca de os russos tirarem os seus de Cuba. E foi esta negociação que resolveu a pior crise da Guerra Fria.
A questão, fundamentalmente, é como se colocar numa posição de força no momento de sentar à mesa de negociação. Thomas, infelizmente, não chega tão longe quanto a fazer uma avaliação do cenário que John McCain e Barack Obama encontrarão quando chegarem à Casa Branca. E negociar com a União Soviética – que embora muito mais poderosa tinha um único governo central – é mais simples do que negociar com meio Oriente Médio.
Norte-americanos, britânicos e soviéticos entraram nos campos de concentração no princípio de 1945. Os soldados e oficiais não estavam preparados para lidar com o que encontraram. Aquelas pessoas ali haviam chegado a um ponto tal de degradação que não conseguiam sequer comer. Umas porque não tinham força. Outras porque o choque de proteína era tamanho que, incrivelmente, matava. Não sentiam cheiro. Mal falavam. Beijavam mãos agradecidos.
Muito rapidamente, em Londres e em Washington, gente em várias posições de poder perceberam que teriam um problema perante a história: alguém, no futuro, tentaria negar que aquilo acontecera. A extensão da crueldade era tamanha – no número de vítimas e no ponto ao qual os nazistas levaram os sobreviventes – que nada parecia, de fato, muito crível.
Decidiram produzir um filme.
Não pensavam no século 21. Pensavam nos anos imediatamente à frente. Pensavam, principalmente, na população alemã. Como convencê-los de que seu país havia chegado àquele ponto? Em Londres, coletaram as cenas filmadas pelas tropas ocidentais nos campos e as puseram nas mãos de Sidney Bernstein, diretor do departamento de propaganda do exército britânico. Sua missão seria produzir um documentário para apresentar ao público alemão os feitos de seu país durante a Guerra.
Quando Bernstein começou a produzir o filme, em maio de 1945, os Aliados ainda não tinham total noção do plano de Solução Final para o problema judaico de Adolf Hitler. Conheciam a crueldade, sabiam do genocídio, mas não tinham ainda levantado todos os documentos que provavam a intenção de eliminar uma etnia. O governo britânico também tinha medo de que, insistindo no fato de que as vítimas eram judeus, afastariam o público alemão.
O filme não citaria judeus, portanto. Falaria de pessoas. De gente.
Revisando as imagens que chegavam do continente, o cineasta da propaganda britânica percebeu que o trabalho talvez exigisse mãos mais hábeis que as suas. Lembrou de um amigo dali mesmo de Londres, que durante a Guerra achou por bem se radicar nos EUA.
Alfred Hitchcock.
Os dois jamais terminaram o filme batizado Memória dos Campos, também lembrado como o ‘documentário de Hitchcock sobre o Holocausto’. Hitchcock serviu como consultor no processo e orientou a edição. Se preocupou em inserir a maior quantidade possível de planos gerais. Temia que, só mostrando as pessoas de perto, alguém achasse que havia sido montagem. Os planos gerais davam mostras das inacreditáveis montanhas de corpos esqueléticos, nus. Pois é que não há nudez escondida neste filme – nudez de gente viva e de gente morta, seios, sexos à mostra, em corpos cujos rostos por vezes lembram caveiras cobertas por um fino tecido. é um documentário cru, violento, muitas vezes difícil de ver.
Os EUA logo abandonaram aquela que deveria ser uma co-produção entre eles e Inglaterra. Alguém, ao ver as primeiras imagens montadas por Hitchcock e Bernstein também decidiu arquivar o projeto. Era duro demais. O mundo não estava preparado para ser exposto a estas imagens de terror. O ‘documentário de Hitchcock sobre o Holocausto’ terminou esquecido.
Em 1985, a rede pública de tevê norte-americana PBS comprou do governo britânico a única cópia conhecida dos originais. As imagens, já editadas, não tinham som. Mas havia um roteiro que a equipe de Bernstein escrevera e texto para narração que acompanhava as imagens. Convidaram o ator Trevor Howard para colocar voz no filme. E o exibiram. Agora está na Internet.
Em agosto do ano passado, escrevi para o Estadão esta reportagem que segue. Hoje, o assassinato de Bobby Kennedy faz 40 anos.
Robert Francis Kennedy foi assassinado na madrugada de 5 de junho de 1968 com três tiros disparados por Sirhan Bishara Sirhan, jovem radical palestino. Horas antes, Bob havia vencido as primárias do Partido Democrata na Califórnia. As pesquisas indicavam que também venceria no Estado de Nova York, que o elegera senador.
O primeiro tiro disparado por Sirhan, embora de calibre .22, bala pequena, atingiu o candidato na base da orelha esquerda e atravessou-lhe o cérebro. Não teve chances. Aquela noite trágica serve de ambiente para Bobby, filme dirigido por Emilio Estévez, em cartaz nos cinemas brasileiros. É um momento de virada na política americana. “A vitória de Richard Nixon, naquele ano, iniciou um grande período de hegemonia do Partido Republicano”, explica Robert Mason, professor da Universidade de Edimburgo e autor de Richard Nixon e a Busca de uma Nova Maioria (não publicado no Brasil). A renúncia de Karl Rove, principal estrategista político do presidente George W. Bush, na semana passada, é um dos sinais daquilo que a revista britânica The
Economist batizou de “a virada à esquerda americana”.
O possível fim desse período conservador nos EUA permite um exercício de especulação voltando àquele dia fatídico de 1968: E se Bob tivesse sido eleito presidente no lugar de Nixon? “Ele tinha pressa em retirar as tropas do Vietnã”, diz enfático Evan Thomas, biógrafo de Kennedy e editor-assistente da revista Newsweek. “Esta guerra tem que acabar”, discursara o senador Robert Kennedy ao declarar-se candidato à presidência.
Mas ele nunca chegou à presidência. Os últimos soldados americanos só deixaram Saigon em abril de 1975. “Kennedy era um homem pragmático e romântico ao mesmo tempo”, continua Thomas. Como ministro da Justiça e número 2 no governo de seu irmão John (1960-1963), Bob foi fundamental no processo de acabar com a segregação aos negros no sul dos EUA. Também esteve ao lado de John na pior crise da Guerra Fria: o bloqueio naval americano a Cuba para forçar a retirada de mísseis soviéticos.
Bob era o homem encarregado de executar as ordens mais duras do irmão, incluindo a pressão política a parlamentares. Mas era também ligado profundamente a questões sociais como pobreza e racismo. Num tempo de grande efervescência racial, em que negros se organizavam em milícias, como os Panteras Negras, Bob Kennedy era o único político branco que atraía seus
votos.
“Ele aprendeu a duras penas o resultado negativo de políticas intervencionistas no exterior”, diz Robert Dallek, historiador da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), autor de Nixon e Kissinger. A Guerra do Vietnã e a política agressiva de John contra Cuba haviam sido erros, avaliava Bob. Dallek se entusiasma: “Sabe o que seria do mundo sem Nixon? Não haveria Pinochet no Chile. Não haveria Watergate. Por causa de Watergate e Vietnã, o cidadão americano não confia em seu governo. Essas coisas afastam as pessoas da política. E sem o golpe no Chile, a imagem dos EUA em toda a América Latina também seria muito diferente.”
A imagem romântica de quase presidente, aquele que prometia encerrar a campanha no Vietnã, que num país ainda racista discursava por igualdade de direitos, embala até hoje setores à esquerda do Partido Democrata. Mas há quem sugira que Bob não fosse assim tão de esquerda. É a tese de outro de seus biógrafos, Michael Knox Beran. Em 1968, 40% dos trabalhadores dos EUA eram sindicalizados, um alto contraste com os atuais 15%. Ainda assim, o senador Kennedy enfrentava os sindicatos, pregando a necessidade de uma reforma para endurecer o sistema de seguridade social. Só nos anos 90 Bill Clinton viria a fazer essa reforma.
O ano de 1968 era difícil para um candidato do Partido Democrata. O presidente democrata Lyndon Johnson estava desgastado pela Guerra do Vietnã. Achou que o risco de disputar a reeleição não valia a pena e, nas primárias, apoiou seu vice, Hubert Humphrey, contra Bob Kennedy pela indicação do partido. Com a morte de Bob, Humphrey disputou a presidência com o republicano Richard Nixon, que também não estava tão forte. Humphrey perdeu a eleição presidencial por muito pouco, lembra o professor Robert Mason. “Muitos acham que se as eleições fossem uma semana depois, Nixon teria perdido. Um candidato tão carismático como Bob Kennedy, que propunha soluções tão novas para os problemas, poderia ter sido eleito, sim.”
Sua dificuldade seria provavelmente outra, no próprio Partido Democrata, para conseguir a indicação contra Humphrey, privilegiado pela máquina partidária. Intrincada, controlada por chefes locais, enrolada no jogo de subornos dos líderes sindicais e com vínculos mafiosos, só vencia eleições internas do partido quem a máquina indicasse. Kennedy precisaria ainda virar
esse jogo, comprometendo-se.
E se, naquela cozinha tumultuada do Hotel Ambassador pela qual passou após fazer o discurso de vitória nas primárias californianas, Robert Francis Kennedy não tivesse sido assassinado? “Seus partidários imaginam a melhor das presidências”, diz Mason. “Mas, talvez, após um governo por demais à esquerda, a resposta conservadora viesse ainda mais intensa.” E, assim, o igualmente carismático governador da Califórnia, Ronald Reagan, talvez tivesse mais cedo sua chance de chegar à Casa Branca.
Em setembro de 1982, as tropas do exército israelense pararam em frente aos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila. Lá, permaneceram imóveis conforme a Falange, um grupo cristão maronita libanês, invadiu trucidando. Segundo a Cruz Vermelha, por volta de 800 mortos; para a Falange, quase 3.000.
Sob o comando de Ariel Sharon, Israel não interferiu – ao contrário, estimulou o massacre.
O filme é importantíssimo, entre outros motivos, só por existir. É um mea culpa criado por alguém que esteve em contato íntimo com o que ocorreu. O diretor (e protagonista) Ari Folman não se esvai, não alivia, não busca desculpas. Ele apresenta o filme como terapia. É sua tentativa de recuperar memórias bloqueadas do que aconteceu. Ao fazê-lo, ele faz uma conexão entre os campos da morte que os judeus deixaram, na Europa, e os campos de refugiados nos quais os palestinos foram trancafiados e brutalizados no Líbano. Folman não foge do assunto.
É também um filme incrível por ser quase todo animado. A animação nasceu de desenhos feitos sobre filme e há toques de uma fantasia ameaçadora do tipo que há nos pesadelos. Entremeado há cenas – todas criadas com inegável brilhantismo – de combate, patrulhas, massacre e miséria. De certa forma, é uma resposta israelense a Persépolis, já que nasce da imaginação perturbada de um único homem. Este mundo semi-interpretado da animação é a mídia perfeita para a mensagem.
É um documentário de animação que vasculha as memórias de um veterano da Guerra do Líbano.
A Revolução Islâmica do Irã não é a Revolução Francesa. E a situação que motivou John Adams a evitar uma guerra a todo custo em nada se compara à atual.
Afinal, como bem lembram alguns dos comentaristas abaixo, os EUA eram muito mais pobres do que hoje e a França era uma potência militar, embora praticamente acéfala. Não era diferente apenas nisso. Naquela época, o comando militar dos EUA, representado pelo general George Washington e de seu lugar-tenente, Alexander Hamilton, queriam a guerra. Quem não queria é o comando civil. Hoje, é o contrário – os belicistas são os civis. Os militares consideram que o país não tem condições de entrar numa nova guerra.
A história de 1800 só serve a um propósito: afirmar que, às vezes, esperar para que as negociações aconteçam é a coisa sábia a fazer.
Mas analogias históricas são assim: imperfeitas. Encaixa num lado, na outra ponta afrouxa. Alguns querem crer que comparar o atual momento com Chamberlain faz todo sentido. Não faz, é só um clichê. Assim como as revoluções do Irã e da França têm pouco a ver, sugerir que Mahmoud Ahmadinejad seja um Hitler não é apenas exagero. É ignorância histórica.
Pois outra analogia histórica talvez se aproxime mais do cenário atual. Neste, os EUA são já uma superpotência. Do outro lado está um país que, embora não seja uma potência, se envolve nos assuntos das nações vizinhas. Está fora da comunidade internacional. Financia os inimigos de guerra dos EUA. Pior: diferentemente do caso do Irã, o país deste exemplo já tinha declaradamente armamento nuclear.
China, princípio dos anos 1970.
Não era a potência de hoje, mas era uma rogue nation, um país evidentemente nocivo, envolvido no seu pequeno imperialismo regional, buscando influência por toda parte, financiando e armando o Vietnã que estava em guerra contra os EUA. Aliás, era um país preocupadíssimo com a presença norte-americana nas redondezas. Não fazia parte da comunidade internacional e sequer parecia interessada em estar.
Em 1971, secretamente, o secretário de Estado Henry Kissinger visitou a China e esteve com o líder revolucionário do país, Mao Zedong. O principal resultado daquelas conversas foi a decisão de que conversas formais deveriam acontecer. Mao queria que o mundo aceitasse a China e compreendia que esta aceitação passava pelos EUA. Então o presidente norte-americano, Richard Nixon, foi ele próprio a Beijing, visitou a Grande Muralha, apertou perante os fotógrafos a mão do líder revolucionário.
Aquele encontro de 1972 serviu mais às fotografias e imagens que correram o mundo, uma evidência de disposição para a conversa, do que a resultados diplomáticos concretos. A diplomacia de fato começou após o aperto de mãos e seu resultado está na China de hoje.
Quanta provocação um país deve agüentar antes de partir para a guerra? Às vezes, há quem diga, a guerra é necessária e inevitável. Ficar negociando, e insistindo em negociações, é uma espécie de ingenuidade.
Em 1794, os EUA assinaram um acordo de paz com o Reino Britânico, pondo fim à guerra entre os dois países e consolidando sua independência. O tratado, no entanto, foi interpretado pela França – que havia auxiliado militar e financeiramente a jovem república – como um ato hostil.
Não era fácil lidar com a França naquele momento: em pleno período do Terror, a monarquia caíra em 1789 e, enquanto girondinos e jacobinos brigavam entre si a respeito do futuro da nação, o país saía declarando guerras. Muitos queriam exportar à força sua revolução. Em 1794, perante o acordo de paz entre norte-americanos e britânicos, os franceses não tiveram dúvidas. Começaram a tomar, em alto mar, quaisquer navios com a bandeira dos EUA. Não pararam aí. Na escalada das tensões, quando um diplomata norte-americano chegou em Paris para tentar conversa, o governo revolucionário não apenas se recusou em recebê-lo como respondeu em carta que se sentaria à mesa apenas após o pagamento de uma volumosa soma. Uma ofensa clara.
Quando a carta francesa chegou aos EUA, o presidente era John Adams, um homem lembrado como indeciso pela história. Ele se recusava a declarar guerra e insistia na neutralidade perante a confusão européia.
Àquela época, como hoje, os EUA estavam rachados. O Partido Federalista, liderado por Alexander Hamilton, defendia uma aliança mais estreita com os britânicos e uma postura firme perante as ofensas francesas. Hamilton, que sucedeu George Washington na liderança do exército, queria a guerra. E ele tinha um bom argumento: além de ser impossível confiar nos humores do governo revolucionário francês, Paris obviamente queria a guerra também. Afinal, os ataques contra navios dos EUA não cessavam.
Por outro lado, o Partido Republicano Democrata de Thomas Jefferson era pró-França. Considerava que os EUA tinham a obrigação de apoiar os franceses neste momento de transição, não apenas porque a França havia os ajudado durante a Guerra Revolucionária contra os britânicos como também porque a Revolução Francesa lembrava os ideais de sua própria independência. Jefferson havia indo além: quando em Paris, fora um dos autores da Declaração dos Direitos do Homem, que ainda hoje forma a base da constituição francesa.
Adams era federalista – portanto, era o seu partido que desejava a guerra. Ele simplesmente se recusou, constantemente postergando a decisão e insistindo – numa demonstração de fragilidade, seus co-partidários diziam – em negociações. Ele acreditava que a instabilidade do governo francês não duraria muito. O governante ia mudar e a agressão gratuita cessaria. Questão de tempo. No último ano de seu mandato, o jovem general Napoleón Bonaparte participou de um golpe de Estado contra o governo constitucional, instalando um novo regime. Em segredo, Adams enviou um novo embaixador que, enfim, voltou de Paris com um acordo de não-agressão mútua.
Não foi em tempo de salvar seu governo, totalmente dominado por esta única questão. Em 1800, Thomas Jefferson foi eleito o terceiro presidente dos EUA e Adams, sem conseguir a reeleição, voltou para seu Massahussetts natal um quê amargurado. Jefferson, o brilhante iluminista norte-americano, é um dos mais lembrados dentre os founding fathers da nação; já Adams, cuja vida virou recentemente série de tevê na HBO de lá, é lembrado apenas como aquele presidente entre Washington e Jefferson. Seu primo Sam Adams, que virou nome da boa cerveja de Boston, termina que é mais famoso.
Mas o seu é um nome a lembrar: houve um tempo em que, no governo dos EUA, insistência em negociação era matéria de fé.
(O belicoso Partido Federalista terminou por desaparecer do mapa. Os Republicanos Democratas criados por Jefferson continuaram – é o atual Partido Democrata. O Partido Republicano só seria fundado em 1854.)
No vídeo acima, John Adams e Thomas Jefferson na série da HBO.
Em 1990, Mike Goodwin estabeleceu o princípio reductio ad Hitlerum na Internet: ‘conforme uma discussão na rede se estende, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de 1′. É a Lei de Goodwin. Os ânimos se exaltam e alguém terminará chamando o outro de Hitler. Na política do belicismo, relembrar 1939 é também um argumento sempre levantado – e George W. Bush não foi o primeiro, tampouco será o último a fazê-lo.
O argumento segue assim, sucintamente: o inimigo é muito perigoso, buscar conversa é coisa para ingênuos, é repetir o que lord Chamberlain fez com Hitler. Um, por assim dizer, reductio ad Chamerlainum.
O argumento, como cabe aos argumentos simplistas, além de hiperbólico é falacioso. Neville Chamberlain, o premiê britânico anterior a Churchill que o Partido Conservador gostaria de esquecer, de fato é responsabilizado por não ter sido agressivo o suficiente durante os anos 30 perante a Alemanha Nazista. Mas seu pecado não foi conversar, tampouco o de fazer diplomacia.
Seu pecado foi, em 1938, assinar o Tratado de Munique.
Como Hitler já demonstrava desejos imperiais, Chamberlain concordou em permitir que a Alemanha anexasse metade da Tchecoslováquia em troca de ele se restringir a isto. Bem – entregar um país de bandeja não adiantou de nada.
O problema não foi diplomacia: foi entregar um país em troca de uma vaga promessa de paz.
A comparação entre o Irã e a Alemanha Nazista (ou o Hamas e o Partido Nazista) não é inadequada apenas por conta disto. É inadequada também porque a Alemanha era, provavelmente, a maior potência militar de seu tempo. A relação diplomática se dava com um inimigo que, se quisesse, tinha chances concretas de conquistar a Europa inteira. (Como, aliás, quase fez.) O Irã não chega sequer perto. E para o Hamas, coitado, até a conquista da Cisjordânia parece ambicioso demais.
Isto não quer dizer que Irã e Hamas não tenham algum potencial de destruição. Numa região em crise, como é o caso do Oriente Médio, só há dois caminhos. O da guerra ou o da diplomacia. Sentar à mesa não quer dizer que os EUA estejam dispostos a entregar uma parte do Iraque ao Irã, por exemplo. Sentar à mesa quer dizer apenas que se pretende evitar a continuidade da guerra ou o risco de outras guerras.
Como Yitzhac Rabin disse, e o Elias costuma repetir cá nos comentários do Weblog, negociação se faz é com inimigos, mesmo. Com os amigos, ela não é necessária.
Um grupo de arqueólogos franceses descobriu em outubro, no fundo do rio Ródano, um busto de Júlio César feito em vida.
Não – não é pouca coisa. Todos os bustos que conhecemos de César foram feitos após sua morte, partindo de uma máscara mortuária.
Este César francês mostra um general com rugas, por volta de 50, perdendo cabelo. Ele não gostava disto – e, por conta, penteava todo o cabelo para a frente. Quando em grandes aglomerações públicas, usava uma coroa de louros para disfarçar as entradas.
A descoberta só foi anunciada hoje: o rosto de Caius Iulius Caesar exatamente como ele foi.
Atualização – Escreve Mary Beard em seu blog, no site do londrino The Times:
O que você faz se você é um arqueólogo e encontra um busto romano de boa qualidade no fundo de um rio?
A resposta é simples. Você pega todo livro de retratos e moedas romanas que encontrar até achar alguma figura famosa da história romana que pareça vagamente com seu homem. É trabalhoso, leva tempo. Mas o princípio é simples.
Por que se preocupar com isso? Porque todo jornal no mundo ocidental estarará interessado em sua descoberta se você disser com certeza que se trata de Cleópatra ou Nero ou Julio César (ainda mais se você disser que é a estátua mais antiga ou a única feita com ele em vida – o que, aliás, é conveniente no caso de a estátua não se parecer lá muito com todas as outras que representam a figura histórica.)
Ao que parece, este Weblog se empolgou um pouco cedo demais com nosso César mezzo-mezzo. Jornalista faz isso toda hora. dica do Josivaldo, nos comentários
Israel parou hoje em memória às vítimas do Holocausto. (Fotos.)
As sirentes anti-aéreas soaram, como é de praxe no 1o de maio, quem estava de carro parou, quem estava nas ruas voltou os olhos para o chão. Por dois minutos. Ao fim deles, no Knesset, teve início o ritual da leitura dos nomes de cada uma das seis milhões de vítimas.
Ninguém sabe ao certo em que dia goode & ol’ Will Shakespeare nasceu, mas certo é que foi batizado no 26 de abril em 1564 e morreu que morreu a 23 de abril, 1616. Ficou registrado por alguns que morreu no dia do aniversário, então a tradição se firmou.
Há 444 anos, pois.
Diz David Rosenberg, colunista de um pequeno jornal norte-americano:
O público que vai ao teatro hoje só pensa em si. Como mais poderíamos explicar o fato de que aplaudem de pé qualquer coisa que vejam? Há também aqueles que dão risinhos e fazem sons às menções mais sutis de sexo? Some a isto os celulares que não param, os barulhos de papel de bala, uns tantos enviando mensagens de texto e até mesmo desatenção. Às vezes dá vontade de nunca mais entrar no teatro.
Mas, sejamos justos. O público nos tempos de Shakespeare não era muito melhor. Em geral, era pior. Os milhares de elizabetanos que pagavam um penny (o preço de uma bisnaga) para assistir de pé às peças em frente ao palco eram chamados de ‘groundlings’ e, certa vez, o próprio Shakespeare os descreveu como ‘uma gente capaz das piores coisas, em seus shows de demência e barulho’.
Gente que batia carteiras e prostitutas faziam seu trabalho nesse espaço enquanto os nobres e suas mulheres ocupavam cadeiras no entorno ou mesmo no próprio palco. Mercadores vendiam cerveja, maçãs e frutas secas e a comilança produzia uma cacofonia que os atores tinham que vencer para serem entendidos. Eles tinham que lidar também com o fato de que o público deixava muito claro quando não gostava de algo.
Mas havia um certo orgulho de ouvir sua língua inglesa no teatro, mesmo entre aqueles que não sabiam ler. Adoravam o teatro. Lá, aprendiam sua história, alimentavam suas esperanças e esqueciam das tristezas. Mal-educados, de fato, críticos, e no entanto foram unidos por poesia de primeira. Seu teatro era sua cultura.
Às vezes, encarando alguma má tradução ou o inglês hoje um tanto pomposo, Shakespeare parece impenetrável. Mas há um motivo que faz dele, ainda, o maior escritor de todos os tempos. É que estamos todos em suas histórias.
Imagine um rapaz ainda jovem que perde um pai e, na volta para casa, o cadáver ainda quente, tem de lidar com o repentino novo casamento da mãe.
Ou então um casal adolescente, ele 16 e ela 13, na lida com seu primeiro amor – um amor que, como cabe à idade, parece a sensação mais intensa e visceral que jamais houve ou jamais haverá. Uma emoção que eles próprios não sabem controlar.
Destaque daí um sujeito que, tendo perdido a mulher, decide dedicar toda sua vida à única filha na esperança de poupá-la de todo o sofrimento. O isolamento é controlável enquanto ela é criança. Mas basta que fique mocinha, agora o sujeito já velho, e ele percebe o controle escorrer por entre seus dedos.
O jogo de emoções em momentos extremos está ali, assim, no Hamlet, em Romeu e Julieta ou na Tempestade. Mas apresentar gente assim tão gente apenas faria de Shakespeare um grande entre grandes – mas não o maior. Porque não somos apenas pessoas lidando com nossas relações e emoções. Somos também bichos políticos.
O pai de Hamlet, afinal, não era apenas um pai – mas também um rei. E enquanto ele enlouquece lentamente buscando amadurecer enquanto há tempo, buscando compreender enquanto sofre, as intrigas da disputa pelo poder transcorrem ao seu redor.
Romeu e Julieta tampouco lidam apenas com seu amor adolescente e intenso. Lidam com ele e com um mundo insuportavelmente concreto a volta, um ambiente de guerra civil no qual a cidade está rachada por um ódio há muito estabelecido entre duas facções, um ódio destrutivo, irracional que terminará por levá-los à própria destruição. (Pensem em Israel e Palestina.)
É só ouvir Marco Antonio discursando pelo cadáver esfaqueado de César, lentamente manipulando as emoções da turba à frente do Senado, para compreender o político demagogo em ação. Ou ouvir Henrique 5º perante seus soldados no dia de São Crispim para lembrar daqueles momentos em que um líder político de fato consegue inspirar a turba a produzir seu melhor.
A paranóia insegura de Otelo, queiramos ou não, está um pouco em todos nós. Como a vontade de superproteger os filhos de Próspero. Lidamos com um mundo no qual há Veronas espalhadas. Há Ricardos 3os no poder de nações e Marcos Antonios querendo chegar lá.
Há 444 anos nasceu o homem que escreveu tudo que havia para escrever sobre nós. Não mudamos rigorosamente nada desde então.
Leonardo da Vinci produziu mais de 700 retratos que chegaram a nós. Destes, 120 eram de homens adultos.
Mas como saber suais são auto-retratos? O holandês Siegfried Woldhek é um ilustrador e militante do World Wildlife Fund. Ele se pôs a descobrir.
Primeiro, descartou os retratos de perfil. (Auto-retrato é sempre de frente ou de três quartos.) Aí, tirou fora aqueles retratos vagos ou estilizados. (Auto-retratos costumam ter muitos detalhes, já que o próprio artista está pacientemente posando.) Como seus contemporâneos diziam que Leonardo era um sujeito bonitão, descartam-se também os sujeitos feios. (Nosso padrão de beleza, afinal, é ainda um bocado renascentista.)
Os três retratos que sobram são obviamente da mesma pessoa. Um é o auto-retrato contestado de Leonardo aos 63 anos; outro é o Homem Vitruviano. Um terceiro é um óleo chamado ‘O Músico’ que mostra Leonardo aos 33 anos.
O budismo pressupunha uma enorme quantidade de tempo e solidão para uma transformação que acontecia gradualmente ao longo de anos. Hoje, queremos tudo de forma instantânea. Espiritualidade instantânea. Resultados rápidos, somos todos muito pragmáticos. Ele dizia que precisávamos tirar o ‘eu’ do centro de nosso universo. Sabe aquele ‘eu’ que nos faz acordar às três da manhã, ‘por que isso acontece comigo? Por que não sou valorizado?’ Essas coisas nos arruínam. Buda mostrou como viver sem ver as outras pessoas de um ponto de vista ganancioso, como gente que poderia nos levar à frente de alguma forma. Se libertados do ‘eu’, podemos ampliar nossa perspectiva, podemos nos alinhar com o sagrado. Buda era um radical, muito mais do que aqueles que se dizem budistas, hoje. No Reino Unido, muitos que não se interessam por religião pensam no budismo como um caminho light: sem Deus, sem pecado, um pouquinho de ioga.
Não encontramos entre as escolas budistas o tipo de inimizade que protestantes e católicos mostraram uns pelos outros. Hoje, há o início de algo que podemos chamar de fundamentalismo budista, mas jamais houve inquisição, perseguição, Cruzadas, matança em nome de Deus. Buda de vez em quando fala dos antigos deuses da Índia sem rancor; os profetas bíblicos só citavam os antigos deuses com fúria. Eu não diria que intolerância está na raiz das religiões ocidentais, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Mas intolerância nasce delas. É como se fosse uma tentação à qual os monoteístas se entregam de vez em quando. Quando você tem um deus personalizado, é muito tentador usar a religião para apoiar seus preconceitos. Religiões monoteístas são assim. Em toda geração há gente que caia nessa e há quem resista.
A história da Segunda Guerra Mundial foi contada e recontada. É uma história clara – a última história de uma guerra clara onde havia herói, havia vilão e a alma da humanidade estava de fato em jogo. Uma guerra com um genocídio no meio, o uso de armamento atômico contra cidades, e um continente destruído. Há algo de novo para contar a respeito da Segunda Guerra? O romancista norte-americano Nicholson Baker acha que sim.
É um livro pacifista. Mesmo quem não é pacifista deveria sempre prestar atenção ao que dizem os pacifistas. No fim, eles podem estar errados. Mas são eles que têm em mente os custos de uma guerra.
O livro evita adjetivos. Nada é heróico, nada é infame. Ele lista fatos colecionados em diários, jornais, revistas e memórias de época. Os fatos, às vezes anedotas, às vezes pequenos detalhes, compõem um mosaico que serve à ilustração do clima imediatamente anterior à Guerra. Um trecho da resenha publicada na New York Magazine:
O objetivo de livros de guerra é, naturalmente, chocar. Mas esta é uma característica particular do livro de Nicholson Baker, que traz consigo um pesado fardo revisionista. Fica claro de imediato que ele não é um curador de factóides: é um pacifista virulento. O espírito de Gandhi permeia todas as páginas de Human Smoke. Página após página ele repete a mensagem de que violência – até mesmo ‘boa’ violência – sempre distorce as intenções iniciais, aumenta o sofrimento, faz circular o mal. Nas anedotas relatadas por Baker, até os políticos mais admirados se mostram hipócritas da pior qualidade que todo argumento usam em nome da guerra. O retrato mais controverso é o de Winston Churchill, que aparece como um anti-semita beligerante, um supervilão alcoólatra. Churchill manipula a imprensa, aprisiona refugiados, recusa a paz sempre que pode, é um assassino que conta piadas de péssimo gosto: ‘vocês podem querer matar mulheres e crianças… eu, não; meu lema é o trabalho antes do prazer’. Churchill recusa alimento a uma Europa famita porque os alemães podem usá-lo como armas – ‘o material plástico usado para os aviões deles é derivado de leite’. O premiê britânico enfeita assassinatos em massa com aliterações retóricas – ‘Não conversaremos, não faremos tréguas com a gangue que leva suas intenções do mal; eles farão seu pior e, nós, o nosso melhor.’
Recentemente, Baker disse que o tom austero de seu livro era, em parte, uma reação à retórica de Churchill. Diz o escritor: ‘A eloqüência interminável de Churchill ao longo da guerra me fez abandonar o uso de adjetivos.’ Ele escreve em Human Smoke: ‘Bombardear, para Churchill, era uma forma de pedagogia, uma maneira de mostrar aos moradores de uma cidade em primeira mão o inferno que ocorria nos campos de batalha.’
É uma guerra na qual os mocinhos produziram Dresden, Hiroshima, Nagasaki; uma guerra na qual, alguns historiadores afirmam, os aliados poderiam ter impedido o Holocausto mas não o fizeram para não distrair dos esforços táticos que a estratégia exigia. Mas não deixa de ser surpreendente a lenta transformação de Churchill em vilão. Num dos homens responsáveis pelo abandono da civilização.
No New York Times, a resenha é assinada por Colm Tóibín, gênio da literatura escocesa, eterno candidato ao Nobel. É Tóibín quem escreve:
Os personagens principais do livro são Churchill e Franklin Roosevelt; membros do movimento pacifista incluindo Gandhi; Hitler e sua laia; os autores de diários Victon Klemperer, em Dresden, e Mihail Sebastian, em Bucareste. Mas, muitas vezes, são fatos muito simples que nos abalam na leitura, fatos muito claros como este, bem no início do livro: ‘A Força Aérea Britânica jogou mais de 150 toneladas de bombas sobre a Índia. Isto foi em 1925.’ Isto vem logo após alguém levantar a idéia de bombardear alvos civis no Iraque, em 1920, ao que Churchill escreve: ’sou plenamente a favor de usar gás letal contra tribos incivilizadas’. Este é o tema do livro que Baker, que vai costurando histórias assim entre 1920 e 1942. Para ele, o bombardeamento de aldeias e cidades por aviões é o ‘fim da civilização’. […]
O problema, diz Baker, é que os bombardeamentos serviram à morte em massa da população civil mas os sobreviventes não culpavam a liderança nazista; estes, por sua vez, usavam os bombardeios como desculpa para infligir mais sofrimento à população judaica sugerindo, por exemplo, que expulsar judeus de suas casas era ‘justificado para oferecer teto aos arianos cujas casas foram destruídas’. Já em 1941, um dos ministros de Churchill escreveria: ‘Bombardeios NÃO afetam a moral alemã: vamos enfiar isto na cabeça e parar de gastar nossa artilharia nisto.’
Foi assim, no entanto, que a guerra foi conduzida até o fim.
Há alguns meses, entrevistei para o caderno Aliás, Estadão, o professor sueco Goran Therborn, atual ocupante da cátedra de Sociologia da Universidade de Cambridge. Este é um trecho que não saiu publicado:
O senhor é marxista?
Não creio que marxismo faça mais sentido em nosso século. Eu poderia ser chamado de um marxiano. Marx pode ser uma fonte de inspiração importante para as ciências sociais, respeitando a idéia de que emancipação virá com o esforço dos explorados, não dos exploradores. Mas os parâmetros políticos são diferentes, hoje, do que eram nos séculos 19 e 20.
O que mudou?
A luta de classes não é mais o grande catalisador de mudanças sociais. Há outras forças no cenário atual além dos sindicatos. Por muito tempo, este conflito definiu a política. Na visão de Marx, a dinâmica do capitalismo levaria a uma classe trabalhadora cada vez maior e mais forte. Para isso ocorrer, seria necessário o surgimento de grandes corporações que empregassem essas massas. Durante o século 20, empresas para fornecimento de água, luz, transporte e tantos outros serviços nasceram em mãos privadas e foram lentamente sendo nacionalizadas ou municipalizadas, formando uma estrutura estatal que servia às nações e produzia uma grande classe sindicalizada. A partir das privatizações e inovações tecnológicas, essa dinâmica deixou de existir. A economia está mais complexa.