Tudo publicado sobre 'Gente'
Na janelinha e sem ninguém ao meu lado (tenho certeza que a doce Mani tem participação nisso), prendi meu cinto de segurança e reparei no seguinte: eu havia parado de tremer assim que entrei no avião. Fim. Eu não estava com medo. E percebi que foi a mesma coisa que senti quando os meninos encostaram a seringa na Marlene. Eu só tive medo de que eles fizessem mal a ela, mas o Medo, aquele, não estava lá. E então eu soube: meu maior temor nessa vida era que você morresse. Era meu pavor, era meu pesadelo, era o que me fazia chorar quando encostava meu rosto no seu (o outro motivo que me fazia chorar encostada em você era amor, eu amava tanto você que doía, era física essa dor e eu chorava, lembra?). E sem esse medo nenhum outro medo faz sentido, porque nada pode ser pior do que ter o maior medo realizado. Parei de tremer assim que entrei no avião, meu medo passou. Esse e os outros. Você morreu, o pior aconteceu e eu não devo temer mais nada.
No Drops da Fal.
via De olho no fato
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O Saturday Night Live ofereceu 3.200 dólares para que os Beatles aparecessem ao vivo, juntos. Eu e Paul estávamos assistindo, ele tinha vindo aqui no apartamento do Dakota. A gente estava assistindo e quase fomos ao estúdio, só de brincadeira. Quase entramos no táxi, mas a gente estava cansado. Essa era uma época em que o Paul sempre aparecia à porta com um violão. Aí eu deixava ele entrar, mas um dia disse ‘Liga antes de aparecer. Não estamos em 1956, mais, e simplesmente aparecer às vezes atrapalha. Tipo: só dá uma ligada.’ Ele ficou chateado com isso, mas eu não queria que levasse a mal. Era só que eu estava cuidando do bebê o dia todo e aí um cara aparece à porta… mas, enfim, naquela noite ele e Linda chegaram e nós estávamos sentados lá, assistindo tevê, e ficamos nessa de ‘ha-ha, não ia ser engraçado se a gente aparecesse de repente no estúdio?’, mas aí não fomos. Foi a última vez que nos vimos.
Você poderia dizer que ele trazia uma certa leveza, um otimismo, enquanto eu sempre ia pra tristeza, pras discordâncias, uma coisa mais blues. Houve uma época em que eu achava que não fazia melodia, que era o Paul que as fazia, que o que eu fazia era só rock ‘n roll. Mas aí quando penso em algumas das minhas músicas – In my life – ou algumas das coisas mais antigas – This boy – eu tinha boas melodias ali. O Paul é muito educado musicalmente, ele tocava vários instrumentos. Ele dizia ‘Por que a gente não muda aqui? Você pôs essa nota 50 vezes nessa música.’ Por outro lado, era eu quem sacava por onde ir numa música – o Paul começava uma história, e eu levava essa história para algum lugar. Sempre tive mais facilidade com as letras, embora o Paul seja um letrista muito melhor do que ele acha. Ele não se arrisca.
John Lennon, 1980
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Arthur C. Clarke completa 90 anos domingo.
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Ninguém deveria fazer analogias impunemente. Mas eu diria que há um paralelo, hoje, com o qual deveríamos nos preocupar. Como no final dos anos 1920, a impressão de que se tudo for deixado ao desejo do mercado, o laissez-faire, se o governo largar a mão, há uma tendência divina para que tudo dê certo. Laissez-faire, laissez-passer, é mais que um fato, está além dos governos, é um compromisso teológico com o fazer nada partindo-se do princípio de que a economia não falhará – uma idéia neoclássica com raízes clássicas que originam em Adam Smith e David Ricardo.
Fui editor da Fortune sob o comando de Henry Luce, o fundador da Time, que foi um dos mais duros editores que jamais conheci. Henry via um texto e dizia ‘Isto sai, e isto, e isto’ e sobrariam oito ou dez linhas que diziam tudo que você disse antes em vinte. A segunda coisa a respeito de texto é óbvia que é ter noção da música, a sinfonia das palavras, fazer com que a expressão soe bem aos ouvidos. Como ter sucesso nisso, não sei.
Kennedy tinha um instinto para a realidade. Ele se mantinha em contato com a realidade, ou ao menos tentava. Se sentia obrigado a isso. Reagan é o primeiro presidente vindo de nossa maior tradição teatral, que é Hollywood. E, para ele, há tanto o script quanto a realidade. Ele não se sente confinado à realidade. Ele lê um discurso como se fosse um script. Nós somos um povo sensível a esta teatralização. Preferimos o script, é sempre mais agradável do que a realidade.
John Kenneth Galbraith, 1986.
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Em Abaetetuba, foi a minha perdição. Quando eu bebia, fumava (maconha), e, quando eu tinha dinheiro, comprava roupa, alimentos.
Nunca usei arma na minha vida, só pegava as coisas se (as pessoas) ‘marcassem’ (se distraíssem).
Eles (os presos) me batem toda hora, toda hora, queimaram meu pé com papel higiênico quando eu dormia, tocaram fogo.
Eles diziam ‘Tu vai ficar com fome?’ Aí eu ia com eles. O melhor dia é quinta-feira, porque as mulheres deles vêm e aí eu fico livre.
Uma vez, o B. me levou pro banheiro à força, eu gritei, gritei, mas a gente grita, dá uma raiva porque eles (agentes prisionais) não vão ouvir.
Da adolescente presa no Pará numa cela de homens, localizada pelo repórter Rafael Guedes, de O Liberal
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Não sei como gostaria de ser lembrado e não quero interferir com meu karma. Uma pergunta como essas desperta a atenção das pessoas e, neste momento, o que me interessa mais é entender como as pessoas respondem àquilo que me chama atenção. Quero descobrir isso. Tentar checar minha subjetividade quando comparada aos mundos imaginados dos outros.
Seria legal ser lembrado como um poeta em êxtase ou um poeta cujo trabalho ajudou os outros a elevarem suas mentes; ou um poeta que espalhou um senso de expansão e compreensão, uma mente em expansão. Seria legal ser lembrado por uma energia generosa – paciência e generosidade. Mas isto é uma idealização neurótica de mim mesmo. Estou menos preocupado com a projeção que faço de mim mesmo e mais curioso com o que anda do lado de fora de minha mente. Então talvez eu queira ser lembrado como alguém que era curioso com o que se passava do lado de fora de sua mente.
O lance budista é boêmio por natureza. Ou permite a boemia. Não julga – é a prática da compreensão e não a palavra da lei e julgamento como cristãos e hebreus, tem uma estética mais precisa, como a mente do artista que é como a mente que medita: não importa em que você esteja pensando, você está interessado nesta coisa e não a rejeitando.
Não sei nada sobre a morte. Não lembro de ter morrido antes. A coisa mais profunda que sei é que sei que terei de dizer adeus a tudo que gosto muito. Vou fazendo isso aos poucos. Já não sinto tanta ansiedade para praticar sexo e tomo uns comprimidos para a pressão que me diminuem o tesão. Por causa da hipoglicemia, tive de dispensar as bolas de matzá, a challá. Também não como mais batatas ou borscht, porque tenho gota e pedras nos rins e borscht tem cálcio demais. Não posso mais comer massa ou o bom pão preto, pão de centeio ou torradas ou mesmo muffins, doces dinamarqueses, tortas ou bolos. Nem anéis de cebola, bagels. Não como mais carne vermelha, não se estiver tão crua que possa afundar meus dentes nela. Vou lentamente flutuando para pepinos e endívias e alfaces e azeite e limonada e um pouco de grão-de-bico, que tem menos carboidratos complexos. Já estou vivendo essas pequenas mortes.
Allen Ginsberg
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A resposta do editor de internacional de Veja Diogo Schelp ao repórter especial da New Yorker Jon Lee Anderson foi publicada hoje por Reinaldo Azevedo em seu blog. Cá segue em tradução fornecida por ele próprio:
Caro Anderson,
Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.
Sem mais,
Diogo Schelp
Anderson certamente estava a um telefonema de distância também – e o número da New Yorker não há de ser difícil de conseguir para um repórter de Veja. E Schelp quer inventar uma novidade profissional, o sigilo que a fonte deve ao repórter de não revelar jamais o que lhe foi pedido e perguntado.
Reinaldo Azevedo sugere que quem publicou a carta faz parte de ‘a canalha’. Este Weblog é a matriz, pois. Um dos argumentos é que, antes de publicá-la, não procurou ouvir de Schelp.
Publicar o que é público está na essência do jornalismo. A New Yorker é um dos dois únicos títulos tradicionais que crescem no mercado norte-americano, junto com a Economist. O motivo: credibilidade. Aquilo ali é um muro inabalável da qualidade jornalística, com uma história de quase um século e alguns dos maiores editores e autores de reportagens que passaram por esta profissão. Se um dos mais importantes repórteres de uma das mais importantes revistas do mundo acusa a qualidade da maior revista em circulação no Brasil, isto é notícia.
Houve, sim, quem tenha procurado Schelp e Veja ao longo do dia de ontem. Apenas editor e revista preferiram responder através de seu próprio veículo utilizando-se daquele encarregado de expressar a voz de Veja. É uma decisão de todo legítima. Sugerir que ninguém tentou ouvir sua versão é impreciso: assuma-se a escolha.
Azevedo – mas podem chamar pelo simpático Reinaldão – suspeita que quem divulgou a mensagem são os ‘adoradores de Che da imprensa brasileira’ e que blogs como este são ‘bloguinhos mixurucas’. Ele também afirma que a tradução deste blogueiro da carta de Anderson é petralha. O termo sempre me pareceu uma mistura de petista, do tipo ligado ao PT, com metralha – tipo os personagens Disney – ou canalha.
Não que ofenda, só que também é impreciso. Não voto no PT. Jamais trabalhei para o PT ou em governo ligado à esquerda. Meu encantamento com a figura do Che, que houve, passou lá com os 18 anos e não consigo encontrar adjetivos melhores para Fildel Castro e Hugo Chávez do que ditadores. Aliás, sim, tenho horror a qualquer governo que lida com o Congresso corrompendo-o. É que no mundo sem quaisquer nuances ideológicas de Azevedo, ou se está a favor dele ou se é ‘daquela laia’. Mas ser de imprensa é ser de oposição também à oposição.
(Mixuruca é indefensável. Mixuruca cá este Weblog é mesmo.)
Ele tem problemas com a tradução, vamos a elas. Accurate journalism, ele sugere, não é ‘jornalismo imparcial’. Ele prefere ‘cuidadoso’, ‘acurado’. Pois bem, sugiro até ‘preciso’ – acurado é termo de engenheiro. Mas lapso semântico de minha parte. Foi julgamento deste pobre tradutor amador que jornalismo cuidadoso e acurado é sempre imparcial. Imparcial não quer dizer que não possa chegar a conclusões; quer dizer que, para se chegar a conclusões, analisem-se tantos fatos e versões quanto possível. Se Azevedo tem problemas semânticos com a relação entre precisão e imparcialidade, ele há de estar certo. Aí ele reclama que flesh and blood não pode virar ‘pele e osso’. Vá. Tenho certeza de que pode pescar mais expressões mal traduzidas. Há uma penca delas espalhadas neste Weblog.
A tradução é precisa no sentido de que apresenta com clareza a intenção da crítica. Tenho certeza de que nenhum leitor teve dúvidas sobre o que pensa Jon Lee Anderson.
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O repórter Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, foi procurado há umas semanas pelo também repórter Diogo Schelp, da Veja. O objetivo era uma entrevista curta para a composição da reportagem que saiu na revista a respeito dos 40 anos da morte de Guevara. É um entrevistado natural – afinal, Che Guevara, uma biografia, é a principal referência ao tema.
A própria revista, na reportagem que Anderson critica, descreve seu livro como ‘a mais completa biografia de Che’. Mas a cobertura daquele aniversário de morte já foi assunto deste Weblog.
Anderson respondeu a Diogo mas acabou não sendo procurado. Na semana passada, o veterano repórter de guerra da New Yorker teve acesso e leu a reportagem. Foi sua a decisão de tornar pública esta resposta a Schelp, que começou a circular por email entre os jornalistas brasileiros.
A original é em inglês, esta que segue é uma tradução:
Caro Diogo,
Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.
Cordialmente,
Jon Lee Anderson.
Acaso Veja ou Schelp tornem públicas suas respostas, também serão publicadas.
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Após 30 anos, não vejo um centímetro de progresso. É possível até dizer que as pessoas odeiam Israel – não apenas no Egito mas em todo o mundo árabe.
O mundo árabe está ocupado demais lutando contra os fundamentalistas e não será possível reconhecer Israel porque isto fortaleceria estes mesmos fundamentalistas. Reitero: o mundo árabe se recusa a aceitar a existência de Israel o que impede as tentativas de Israel de normalizar quaisquer relações.
Desde o primeiro dia, quando houve o discurso do [então presidente egípcio Anwar-al] Sadat no parlamento de Israel, nós dizíamos que uma paz verdadeira e completa não aconteceria enquanto Israel não devolvesse o Sinai e não deixasse os territórios de Gaza e Cisjordânia. Quando Sadat foi a Jerusalém, ele tinha o projeto de começar não apenas a negociação egípcia mas também a palestina. Só que os israelenses se recusaram a ouvir qualquer coisa a respeito desta segunda parte. Nós dizíamos: a questão palestina é o eixo de qualquer acordo de paz, é a primeira condição. Nós avisamos que não funcionaria sem isto. E eles? Eles insistiram em assinar uma paz em separado com os egípcios, eles ficaram sonhando acordados com uma relação bilateral que viria.
Minha mulher, Leah, não gosta de aparecer. Nunca tive problemas com o fato de ela ser judia até porque, aos meus olhos, apesar de sua origem, ela me parece mais católica, já que estudou mais em escolas católicas do que judaicas.
Boutros Boutros Ghali, ex-ministro das Relações Exteriores do Egito, ex-secretário geral da ONU
dica do André Fucs
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A razão entre o número de habitantes e o dos doutores que os servem país a país.
via Bifurcated rivets
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Schulz and Peanuts é o nome da biografia assinada por David Michaelis de Charles Schulz, o criador de Charlie Brown, Snoopy, Woodstock e seus parceiros. Na New Yorker, John Updike escreve a resenha:
Michaelis conseguiu permissão para reproduzir 240 das 17.897 tiras publicadas para ilustrar como, tão freqüentemente, elas citavam a vida de Schulz. A insegurança de Charlie Brown, suas ansiedades, seus jogos de baseball, seu bai barbeiro, tudo é um retorno à cidade natal do autor, St. Paul. Snoopy é lembra muito um cãozinho particularmente esperto que Schulz teve criança, Spike. Quando Dana, sua mãe, estava morrendo, ela sugeriu que se um dia viessem a ter outro cachorro, deveriam batizá-lo Snoopy – snupi, em norueguês, quer dizer afeto. As fantasias do beagle, que se vê na Legião Estrangeira ou como um piloto da Primeira Guerra são baseadas nos filmes de ação dos anos 30 que Schulz assistia quando menino no cinema da cidade. Já adulto, seu caso com Tracey Claudius deixou marcas profundas na tira. Snoopy datilografando no telhado de sua casinha de cachorro parodia as cartas de amor que o próprio Schulz escrevia diligentemente. Em uma delas, escreveu, ‘Cabelos negros e o nariz, perfeito. Mãos macias às vezes frias, outras vezes quentes’. Snoopy, deitado em seu telhado, pensa ‘Ela tinha as patas macias… *sigh*.’ Quando sua mulher descobriu seus telefonemas às escondidas, o flagrante também apareceu nas tiras, como apareceu a receita de Schulz para argumentar perante o juiz de divórcios. Snoopy, Michaelis demonstra, é um adulto com vida sexual ativa e posses típicas de um adulto. Ele tem uma mesa de sinuca, um som e um van Gogh, tudo de alguma forma encaixado dentro da casinha. Há episódios que o envolvem e que refletem a psicodelia dos anos 60 e que, em geral, são livres da melancolia típica da população infantil da tira.
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Consigo envolver o público porque, pessoalmente, estou envolvido com a música. Não faço isso deliberadamente. Acontece. Se a música é um lamento pela perda de um amor, sinto esta dor nas tripas, sinto a perda e choro a solidão. Não sei o que outros cantores sentem quando articulam as letras, mas eu sou um maníaco-depressivo que passou a vida encarando contradições emocionais violentas. Tenho uma capacidade extrema para ir da tristeza à felicidade. Sei o que o sujeito que escreveu a música quis dizer. Já vivi aquilo tudo e saí do buraco. O público sente isso.
Acredito em mim e acredito em você. Sou como Albert Schweitzer e Bertrand Russel e Albert Einstein no sentido de que respeito a vida em qualquer de suas formas. Acredito na natureza, nos pássaros, no oceano, no céu e em tudo que posso enxergar ou que possa ser provado. Se é isto que você quer dizer com Deus, então acredito em Deus. Não é que não ligue para a necessidade dos homens por alguma fé. Acho que qualquer coisa vale para enfrentarmos a noite, não importa se é rezar, se são tranqüilizantes ou uma garrafa de Jack Daniel’s.
Tem coisas que não gosto na religião organizada. Reverenciam Cristo como um príncipe da paz mas jorrou-se mais sangue em seu nome do que no de qualquer outro na história. Você me aponte um passo adiante dado pela religião e eu mostrarei uma centena de retrocessos. Foram homens de Deus que destruíram Alexandria, que cometeram a Santa Inquisição espanhola, que queimaram as bruxas em Salem. Mais de 25.000 religiões organizadas florescem no planeta mas os seguidores de cada uma delas acreditam que todos os outros estão errados e, se bobear, que representam o mal. Na Índia, reverenciam vacas brancas macacos e uma represa no Ganges. Os muçulmanos aceitam a escravidão e se preparam para Alá, que lhes promete vinho e mulheres virgens. Feiticeiros ainda existem na África ou mesmo nos pequenos anúncios dos jornais dominicais em Los Angeles. Lembra daquela turba raivosa que queria linchar aquela menininha negra de 12 anos que queria matricular-se na escola pública, em Little Rock? Aquela turba toda era composta por cristãos devotos que vão à igreja. Detesto esta gente que finge bondade mas são pequenos ditadores em suas pequenas esferas de influência.
Frank Sinatra, 1962
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A questão não é partidária. Conversei com o presidente de uma das dez maiores empresas dos EUA, um homem que apoiou a candidatura de Bush e Cheney. Ele me disse ‘Al, sejamos honestos. Quinze minutos após George Bush deixar a Casa Branca, os EUA terão uma nova política para lidar com o aquecimento global, não importa quem seja eleito.’ Os executivos mais inteligentes, mesmo em lugares como a Exxon-Mobil, hoje entendem que o relógio está girando e que os EUA não poderão continuar vivendo nesta pequena bolha de irrealidade.
Se você define ‘esperto’ de uma forma anti-séptica que exclua qualquer dimensão ética então, sim, acho que Bush foi esperto durante a campanha de 2000. Esperto se você está disposto a dizer mentiras. Mas Karl Rove é conhecido por isto, mesmo. Toda a pose de compaixão conservadora de Bush era fraudulenta. O orçamento que sugeriu era uma fraude. Até quando dizia que era contra projetos de construção de países ele era uma fraude. Não estou dizendo que ele já sabia que invadiria o Iraque – acho que Cheney não o havia avisado ainda (ri). Mas sua promessa de que reduziria emissões de gás carbônico com novas leis era apenas parte da maneira como agia. Ele mentiu do início ao fim da campanha.
O sistema político é um bocado tóxico. Acho que a melhor maneira de usar as coisas que aprendi na política é focar na tentativa de mudar a maneira como os norte-americanos encaram o mais sério desafio que nossa civilização já enfrentou. Então aqueles que se candidatarem à presidência encontrarão um eleitorado informado, ativo e alerta. Um eleitorado que cobre de todos os candidatos, de ambos os partidos, que façam da crise climática sua prioridade.
Al Gore
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O médico e guerrilheiro Ernesto Guevara de la Serna morreu no dia de hoje, há 40 anos. Seus amigos chamavam-no de Che por conta do sotaque argentino – que repete o som tchê como cariocas chiam. Tinha 39 anos. O El País preparou uma galeria, começando por Omar Sharif, com os atores que o interpretaram no cinema. O Clarín traz um depoimento da viúva. O Estadão conta do brasileiro que quase vingou sua morte. E a Time tenta mapear as celebrações de seu nome pelo mundo.
Seu legado ainda é polêmico.
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Desde Santo Agostinho que tentamos definir o tempo e há muitas coisas que ele não é. Ele não é o passar de algo. Afinal, pelo que ele passaria? Nós o usamos para medir passagem. Estamos presos dentro do tempo e todos viajamos no tempo, para o futuro, um ano todos os anos. Se pudéssemos viajar próximo à velocidade da luz, então viajaríamos para mais longe no futuro num período mais curto. Mas, no fim, o tempo é um destes conceitos difíceis de definir com simplicidade.
Viajar para o passado é o tipo da coisa que só definiremos se é possível quando houver provas. Até lá, esperamos. Hoje, vivemos um daqueles momentos clássicos e maravilhosos da ciência no qual simplesmente não sabemos. Se pudermos viajar para o passado, é de perder a cabeça imaginar o que seria possível. A história passaria a ser uma ciência experimental, coisa que não é hoje. Os insights possíveis a respeito de nosso passado e nossa natureza e origens é fascinante. Por outro lado, teríamos de lidar com os paradoxos de interferir com a seqüência de acontecimentos que nos trouxeram a este nosso tempo.
O paradoxo do avô é muito simples, uma aparente inconsistência que veio da ficção-científica e que está no coração da idéia da viagem ao passado. Você volta no tempo e mata seu avô antes de ele engravidar sua avó de sua mãe ou pai. Como você termina? Você repentinamente deixa de existir? Ou você entra em outro esquema de causalidade no qual, já que está lá, continua, e os eventos que levam até você passam a ser outros? Uma das soluções propostas é que você não pode assassinar seu avô. Você atira mas, no momento exato, ele se curva para amarrar os sapatos ou o revólver trava ou algo do tipo acontece para impedir que o ato interrompa o que levou você a existir.
Hoje, considera-se meio herético sugerir que qualquer interferência num evento passado provoca uma bifurcação na estrada do tempo. Você teria dois universos igualmente válidos: um é aquele que conhecemos e amamos e o outro foi produzido pelo ato da viagem ao tempo. Sei que a idéia de que o universo opera uma série de causas e efeitos sempre consistentes entre si atrai muitos físicos, mas isto não me convence. Acredito que inconsistências podem muito bem acontecer no universo.
Carl Sagan.
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