Christiane F. – a jovem que ficou famosa nos anos 70 pelo livro Eu, Christiane F, drogada e prostituída – acaba de perder a guarda do filho de 12 anos.
Hoje, Christiane tem 46. Aos 16, numa Berlim ocidental decadente, ela se largava na estação Bahnhof Zôo onde se prostituía para conseguir dinheiro para a heroína. Dois jornalistas a convenceram a contar sua história, o livro virou best-seller internacional, filme, e o dinheiro deu à moça independência financeira. Ela deixou Berlim, viveu em Nova York, Zurique e Grécia. De volta à sua cidade natal, na década de 90, com a vida estabilizada, teve um filho. Christiane estava bem – aí se mudou para Amsterdã.
Alterna entre heroína e álcool.
Heroína, feita a base de ópio, é talvez a droga recreativa mais barra pesada que existe. Pode provocar dependência química após três dias de uso habitual. Como todos os opiáceos, a crise de abstinência é dura. O fantasma da dependência permanece por toda a vida mesmo para aqueles que se livram. As recaídas são constantes.
Mamãe era tímida e a casa de Petrópolis vivia cheia. Quando era manhã de sábado ou de domingo e as pessoas iam chegar porque o verão estava quente e todos vinham do Rio, os engradados de Bohemia iam subindo pela ladeirinha para encher a geladeira e a carne ia sendo preparada para o churrasco, mamãe dizia que ia para baixo da jaqueira e que só saía quando todos tivessem ido embora.
A jaqueira ficava bem no fundo do jardim, depois da piscina, do poço e do portãozinho. Ela nunca cumpria a ameaça.
Minhas memórias mais antigas são de quando ela ainda estudava. Fazia medicina na Fluminense. No final do dia, pegava um ônibus de Niterói até a rodoviária e vinha para Petrópolis. Trazia sempre consigo alguma coisa para mim que comprava na banca: um álbum de Tintim, um de tiras da Mafalda e, muito raramente, um Astérix.
(Não devia ser sempre. Se tivesse sido coisa de todo dia, o Tintim, a Mafalda e o Astérix teriam sido completos num semestre. Mas é assim que lembro.)
A mais antiga destas memórias vem dum verão – tudo sempre me parecia verão –, ela no quartinho onde os cachorros ficavam – eram dois collies, Julião e Juliana – estudando, estudando, estudando. Uns livros grandes à mesa, mamãe fazendo anotações num caderno e sorrindo para mim. Ela sorria muito.
Éramos do Rio, mas em algum momento meus pais juntaram um dinheiro de herança, compraram a casa de Petrópolis e lá se meteram para ficar para o resto de seus tempos juntos. Ir pra casa da vovó era sempre uma viagem que eu adorava. Meu pai só dirigia fuscas. O que me enchia de felicidade era quando cruzávamos o Rebouças para eu ver a Lagoa e saber que já era o meu Rio. Desde pequeno eu memorizava os nomes em ordem das ruas de Copacabana. (Não queria ser ‘de Petrópolis’.)
Em 1982 entrou um videocassete lá em casa. Veio quase junto com a primeira tevê. Era caríssimo e o acompanhava uma fita narrada pelo Luciano do Vale com todas as copas até 78. Na Dezesseis de Março, na galeria em que ficava o árabe em Petrópolis, funcionava o único videoclube da cidade. Pagava-se uma mensalidade e havia o direito de pegar umas tantas fitas – quase todas piratas – por mês. Muitas não tinham legendas em português. No primeiro dia, alugamos dois filmes. Um era O planeta proibido. (Uma versão da Tempestade de Shakespeare no espaço com Leslie Nielsen fazendo papel de galã.)
Víamos muito cinema.
Sempre foi um dos assuntos favoritos dela. Defendia Deus e o Diabo do Glauber que meu pai abominava. Me descreveu inúmeras vezes a cena de abertura de Os brutos também amam. (Ela só o chamava de ‘Shane’.) Meu barato com o cinema maldito norte-americano dos anos 50 vem dela: Nicholas Ray, George Stevens, principalmente Elia Kazan. Ver Marlon Brando ou James Dean em cena, a seu lado, era um bocado curtir seu barato. A expressão de seu rosto variava ao ritmo da cena. Vivia aquilo tudo intensamente. O que Brando foi para ela, como ator, Alfred Hitchcock e Ingmar Bergman foram como diretores.
Seu barato era a construção da narrativa, o fluxo de emoções. Não lhe importava se era Humphrey Bogart ali, no Falcão Maltês, se era Jimmy Stewart nO corpo que cai, ou Mel Gibson em O patriota. Nos últimos anos, falava muito em Clint Eastwood.
Seu universo era um universo de cultura pop com uma deliciosa erudição ancorada nos anos 60.
Nasceu em Manaus, em 19 de agosto de 1952. Foi batizada Margareth, em homenagem à princesa britânica. (Sua irmã mais velha se chama Elizabeth.) Mamãe odiava o nome. Todos a chamavam de Margô. Quando se mudou para o Rio, tinha 3 anos. Não voltou ao Amazonas, mal tinha lembranças. Passou a adolescência em viagens à Bahia, onde morava seu tio psiquiatra e as primas suas amigas. Contava histórias da pobreza que viu na estrada. Ou então viajava para Itatiaia. Gostava de serra e da mata. Conheceu papai em maio de 1973. Casou em dezembro. Nasci no novembro seguinte. Mariana nasceu em março de 78. Manuel, em janeiro de 87.
Cinema não foi a primeira coisa que aprendi com ela. A primeira foi música. Papai só ouvia as coisas clássicas – de preferência, Wagner ou Mahler. Mas eu, que nunca tive bom ouvido, tampouco tive lá muita paciência para música que não entendia. Então o meu era o mundo dela, uma costura de Bossa Nova, Caetano Veloso, Chico Buarque, Beatles, Bob Dylan, Joan Baez e Judy Collins.
Morávamos em Rochester, estado de Nova York, no dia em que John Lennon foi assassinado. O rádio tocava Beatles sem parar, acendemos uma vela que pusemos à janela – e em todas as janelas haviam velas acesas. Mamãe ficou triste que só, naquele dia.
Ela gostava de séries de tevê. Da infância, lembrava do doutor Kildare. Nunca assisti. Víamos Twilight Zone na tevê, e Star Trek. Da primeira, gostava. Da segunda, menos. A ficção científica era coisa que eu dividia mais com papai. (Foi ele quem, pacientemente, me levou cinco vezes ao cinema para ver O império contra-ataca.) Ela gostou de outra série que nunca assisti chamada Picked fences, falava muito dela. Sua favorita do momento era House.
Ao longo dos anos, viveram na casa uns seis cachorros, dezenas de gatos siameses ou vira-latas, galinhas, um jabuti e um galo que se chamava Geraldinho.
Ela nos interpretava os sonhos. Coisa de domingo, em casa. Não era psicanalista, era psiquiatra. Mas tinha lido o Freud todo desde a adolescência. Ali entre Freud e Bergman, entre Hitchcock e uns toques da mata tropical em Tom Jobim, ficava seu norte. Um dia, já morávamos na Califórnia, inícios de anos 90, encontrou uns CDs de Jack Kerouac lendo coisas suas mas não comprou porque era muito caro. Anos depois, já morando sozinho, eu compraria estes discos. Tinha seus escritores: Cortázar, Herman Hesse, Thomas Mann. Devorava biografias.
Uma vez, isso era no governo Sarney, quando o salário de professor de papai estava apertado que só e tinha dias em que comíamos ovo porque não havia dinheiro para carne, eu a encontrei fazendo um cigarro na varanda. (Devia ser verão.) O fumo estava numa caixinha de metal, ela desfazia com os dedos a trama da folha seca, a espalhava num corte de papel manteiga, enrolava num canudo em um ritual lento. ‘Está tão difícil que não há dinheiro para comprar cigarro, mãe?’ Ela me sorriu. ‘Não se preocupe’, respondeu.
Quando chegávamos a um lugar novo, nas idas e vindas da carreira acadêmica de meu pai, mamãe estudava a história local. Hitchock se renovou para ela quando vivemos em um de seus cenários favoritos, a Bay Area de San Francisco. Mamãe não escrevia, não compunha, não desenhava. O que ela fazia era aprender constantemente. Tinha um olhar para como as pessoas se vestiam e falavam, como se comportavam. Um total fascínio pelo que era diferente. É a pessoa mais absolutamente sem preconceitos que jamais conheci. Percebia como o tempo num lugar novo era – sabia descrever o vento, o ângulo do Sol, o tipo de neve, a folhagem das árvores. Era absolutamente atéia. O debate a respeito da existência ou não de Deus lhe era irrelevante. Não tinha religião ou qualquer interesse por cerimônias. Vivia em paz, absolutamente integrada ao mundo no arredor. Compreendia ele, fazia parte do todo.
Saí de casa aos 17 anos para terminar o segundo grau no Rio. Nunca mais moramos juntos e ela nunca falava ao telefone. Não gostava. Nossas conversas aconteciam nos momentos de encontro. O telefone era para assuntos curtos mas urgentes, quando eu tinha uma dúvida ora existencial, ora prática, do tipo que só uma mãe arguta que percebe absolutamente tudo, todas as nuances das relações humanas possíveis, cada ângulo, cada olhar, cada movimento e sabe dizer o que se passa, como agir.
Este, o da compreensão absoluta do todo, era seu maior talento.
Nos próximos dias, publicarei cenas de filmes que representaram algo para ela. O cinema era sua arte. Nesta costura de filmes estão as suas referências: um bocado daquilo que ela foi, pensou, sentiu. É uma tentativa de congelar aqui na web algo sobre ela. Mamãe jamais teve email. Não lia na tela do computador. Tecnologia lhe era algo totalmente alheio. O seu era um mundo de muita árvore e pouco concreto. Tinha um quê de ermitã. Talvez esta seleção jamais faça algum sentido senão para aqueles que a conheceram. Era tão tímida que estes não foram muitos. Mas, por outro lado, desconfio que sim, na costura, assim juntos, estes filmes falem um pouco sobre o que nos faz humanos. Era isto que a interessava mais do que tudo.
Atualização – Além de me corrigir umas datas, meu pai nega que mamãe fosse tímida. É a opinião dele =) Está em seu blog.