Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Gente'

Christiane F. de volta à cena

11/August/2008 · 123 Comentários

Christiane F. – a jovem que ficou famosa nos anos 70 pelo livro Eu, Christiane F, drogada e prostituída – acaba de perder a guarda do filho de 12 anos.

Hoje, Christiane tem 46. Aos 16, numa Berlim ocidental decadente, ela se largava na estação Bahnhof Zôo onde se prostituía para conseguir dinheiro para a heroína. Dois jornalistas a convenceram a contar sua história, o livro virou best-seller internacional, filme, e o dinheiro deu à moça independência financeira. Ela deixou Berlim, viveu em Nova York, Zurique e Grécia. De volta à sua cidade natal, na década de 90, com a vida estabilizada, teve um filho. Christiane estava bem – aí se mudou para Amsterdã.

Alterna entre heroína e álcool.

Heroína, feita a base de ópio, é talvez a droga recreativa mais barra pesada que existe. Pode provocar dependência química após três dias de uso habitual. Como todos os opiáceos, a crise de abstinência é dura. O fantasma da dependência permanece por toda a vida mesmo para aqueles que se livram. As recaídas são constantes.

Tags: Gente

O adeus a Randy Pausch

26/July/2008 · 40 Comentários

Randy Pausch morreu ontem de câncer pancreático. Muitos de vocês o conhecem por conta de sua ‘última aula’.

Alguns desdenham de sua aula pelos lugares comuns que encostam na auto-ajuda.Talvez tenham razão. Mas o que você faria se, repentinamente, tivesse sido diagnosticado com um câncer mortal particularmente agressivo e soubesse com clareza que a vida, agora, se conta em meses e não anos? Pausch encarou de frente e tentou somar, numa aula para seus alunos e colegas, aquilo que fez para ser feliz.

Foi uma tentativa honesta pacas.

Tags: Gente · Pop

Uma entrevista aos sábados

26/April/2008 · 34 Comentários

Não senti raiva por estar morrendo Raiva de quê? Raiva tem que ter um alvo. Sentiria raiva de mim mesmo? De um poder superior que decidiu que minha vida se acabava ali? E, mesmo que este poder existisse, que efeito teria minha raiva? Não senti raiva. Morrer, acabar, sentir raiva para quê? Em que acredita uma pessoa que sente raiva? Acredita que tem o direito de continuar vivendo? Talvez eu tenha sentido raiva. Admito isso. Mas o que me impressiona é a inutilidade da raiva nessas circunstâncias.

Não senti resignação. É mais como uma aceitação. São dois movimentos distintos. Você aceita porque não tem saída. A resignação é aceitação mas também uma desistência. Não pode haver desistência na aceitação.

Depois, de certa forma, foi uma ressurreição. Isso é o despertar de um corpo dormido e este corpo é seu. Os médicos estão fazendo seu trabalho e o seu é de ajudar a seu corpo neste processo que pode ser chamado de ressurreição. Mas prefiro chamar de regresso, que é menos dramático e mais claro. Está regressando a si mesmo. Fui reduzido a alguém que estava ali e que não tinha ânimo, força ou gana para escrever. A única parte do corpo que não sofreu perda, acho, foi o cérebro, que se mostrou extraordinariamente ativo, não posso explicar. Nunca caí na sonolência. Sempre estive muito desperto, com capacidade de observação e comentário. Fiz até piada!

José Saramago

Tags: Gente · Livros

Uma entrevista aos sábados

19/April/2008 · 23 Comentários

Criamos uma companhia chamada Aracruz Florestal, de plantio de eucalipto. Porque a primeira idéia era a de exportar tipos, como, aliás, muita gente faz hoje em vários países, inclusive o próprio Brasil. Mas aí se decidiu fazer celulose. Então, foi fundada a Aracruz Celulose, que é o que você conhece hoje. Durante esse período em que eu estava na Vale do Rio Doce, nós começamos a fazer parques florestais. Mais tarde, ainda no tempo em que estava na Vale do Rio Doce, compramos a floresta de Linhares, que era uma floresta nativa, na época em que o estado do Espírito Santo estava sendo devastado. Nós compramos aquilo para preservar. A desculpa para a diretoria da Vale aceitar a aquisição foi a que se tratava de uma fazenda de dormentes. Era a única maneira de aceitarem um investimento como aquele em uma época na qual todos estavam queimando floresta para fazer pasto. Aliás, como até hoje fazem na Amazônia. Isso em 1954, 55, 56, por aí. A reserva foi comprada, não se tirou nenhum pau para fazer dormentes. Foram criadas lá pesquisas, além de um herbário para estudar as madeiras locais. Infelizmente muita pesquisa só atingiu o problema do uso mercante da madeira e não para usos da farmacologia, indústrias químicas e outras utilidades.

Em 1991, o sr. Stephan Schmidheiny [fundador da Avina] foi convidado pelo presidente da Conferência do Rio, sr. Maurice Strong, para fazer a Rio-92. Ele então veio para o Brasil, visitou a Aracruz, que também trabalhava com esta linha e já tinha essa preocupação de juntar floresta nativa com espécies exóticas. Isso porque a floresta nativa abriga animais e plantas, e a interação entre fauna e flora é extremamente importante. Curiosamente, a introdução de sementes exóticas pode prejudicar alguns setores, mas também pode beneficiar muitos outros. Você não vai plantar eucalipto em uma nascente. Em compensação há plantas exóticas cujo período de dormência no inverno lá fora corresponde ao período de seca aqui, portanto ela não suga água no período da seca. Então beneficia a nascente. Durante a visita, o sr. Schmidheiny foi à Aracruz e a Carajás. Ele notou que estávamos trabalhando bem, isso está no livro ‘Sustentabilidade’. Ele diz lá que nós já praticávamos essa combinação dos lados ambiental, econômico e social simultaneamente. (lê trecho do livro) ‘Eliezer Batista, na época diretor da Rio Doce Internacional, defendia o desenvolvimento sustentável antes da conferência do Rio e permanece como um de seus defensores desde então’. E viu isso realizado lá em Carajás. Aí ele teorizou toda a noção do desenvolvimento sustentável, que não é nada mais do que isso. Foi daí que saiu a Conferência da Rio-92, mas pouca gente sabe que se originou dessa maneira.

Hoje, a única coisa imediata que você tem para mitigar os efeitos do clima é o plantio de árvores. Não há mais nada de efeito imediato. Será preciso usar energias alternativas, mas tudo isso vai demorar muito tempo. Para efeito imediato, o que existe é recuperar. Não há água sem florestas. E sem água não tem vida. A floresta é uma maneira de recuperar os recursos hídricos e, portanto, recuperar a vida, recuperar o ambiente. Esse é um dos primeiros passos, coisa que estamos tentando fazer em Minas Gerais agora.

Eliezer Batista

Tags: Brasil · Energia e Aquecimento global · Gente

Minha mãe

15/April/2008 · 85 Comentários

Mamãe era tímida e a casa de Petrópolis vivia cheia. Quando era manhã de sábado ou de domingo e as pessoas iam chegar porque o verão estava quente e todos vinham do Rio, os engradados de Bohemia iam subindo pela ladeirinha para encher a geladeira e a carne ia sendo preparada para o churrasco, mamãe dizia que ia para baixo da jaqueira e que só saía quando todos tivessem ido embora.

A jaqueira ficava bem no fundo do jardim, depois da piscina, do poço e do portãozinho. Ela nunca cumpria a ameaça.

Minhas memórias mais antigas são de quando ela ainda estudava. Fazia medicina na Fluminense. No final do dia, pegava um ônibus de Niterói até a rodoviária e vinha para Petrópolis. Trazia sempre consigo alguma coisa para mim que comprava na banca: um álbum de Tintim, um de tiras da Mafalda e, muito raramente, um Astérix.

(Não devia ser sempre. Se tivesse sido coisa de todo dia, o Tintim, a Mafalda e o Astérix teriam sido completos num semestre. Mas é assim que lembro.)

A mais antiga destas memórias vem dum verão – tudo sempre me parecia verão –, ela no quartinho onde os cachorros ficavam – eram dois collies, Julião e Juliana – estudando, estudando, estudando. Uns livros grandes à mesa, mamãe fazendo anotações num caderno e sorrindo para mim. Ela sorria muito.

Éramos do Rio, mas em algum momento meus pais juntaram um dinheiro de herança, compraram a casa de Petrópolis e lá se meteram para ficar para o resto de seus tempos juntos. Ir pra casa da vovó era sempre uma viagem que eu adorava. Meu pai só dirigia fuscas. O que me enchia de felicidade era quando cruzávamos o Rebouças para eu ver a Lagoa e saber que já era o meu Rio. Desde pequeno eu memorizava os nomes em ordem das ruas de Copacabana. (Não queria ser ‘de Petrópolis’.)

Em 1982 entrou um videocassete lá em casa. Veio quase junto com a primeira tevê. Era caríssimo e o acompanhava uma fita narrada pelo Luciano do Vale com todas as copas até 78. Na Dezesseis de Março, na galeria em que ficava o árabe em Petrópolis, funcionava o único videoclube da cidade. Pagava-se uma mensalidade e havia o direito de pegar umas tantas fitas – quase todas piratas – por mês. Muitas não tinham legendas em português. No primeiro dia, alugamos dois filmes. Um era O planeta proibido. (Uma versão da Tempestade de Shakespeare no espaço com Leslie Nielsen fazendo papel de galã.)

Víamos muito cinema.

Sempre foi um dos assuntos favoritos dela. Defendia Deus e o Diabo do Glauber que meu pai abominava. Me descreveu inúmeras vezes a cena de abertura de Os brutos também amam. (Ela só o chamava de ‘Shane’.) Meu barato com o cinema maldito norte-americano dos anos 50 vem dela: Nicholas Ray, George Stevens, principalmente Elia Kazan. Ver Marlon Brando ou James Dean em cena, a seu lado, era um bocado curtir seu barato. A expressão de seu rosto variava ao ritmo da cena. Vivia aquilo tudo intensamente. O que Brando foi para ela, como ator, Alfred Hitchcock e Ingmar Bergman foram como diretores.

Seu barato era a construção da narrativa, o fluxo de emoções. Não lhe importava se era Humphrey Bogart ali, no Falcão Maltês, se era Jimmy Stewart nO corpo que cai, ou Mel Gibson em O patriota. Nos últimos anos, falava muito em Clint Eastwood.

Seu universo era um universo de cultura pop com uma deliciosa erudição ancorada nos anos 60.

Nasceu em Manaus, em 19 de agosto de 1952. Foi batizada Margareth, em homenagem à princesa britânica. (Sua irmã mais velha se chama Elizabeth.) Mamãe odiava o nome. Todos a chamavam de Margô. Quando se mudou para o Rio, tinha 3 anos. Não voltou ao Amazonas, mal tinha lembranças. Passou a adolescência em viagens à Bahia, onde morava seu tio psiquiatra e as primas suas amigas. Contava histórias da pobreza que viu na estrada. Ou então viajava para Itatiaia. Gostava de serra e da mata. Conheceu papai em maio de 1973. Casou em dezembro. Nasci no novembro seguinte. Mariana nasceu em março de 78. Manuel, em janeiro de 87.

Cinema não foi a primeira coisa que aprendi com ela. A primeira foi música. Papai só ouvia as coisas clássicas – de preferência, Wagner ou Mahler. Mas eu, que nunca tive bom ouvido, tampouco tive lá muita paciência para música que não entendia. Então o meu era o mundo dela, uma costura de Bossa Nova, Caetano Veloso, Chico Buarque, Beatles, Bob Dylan, Joan Baez e Judy Collins.

Morávamos em Rochester, estado de Nova York, no dia em que John Lennon foi assassinado. O rádio tocava Beatles sem parar, acendemos uma vela que pusemos à janela – e em todas as janelas haviam velas acesas. Mamãe ficou triste que só, naquele dia.

Ela gostava de séries de tevê. Da infância, lembrava do doutor Kildare. Nunca assisti. Víamos Twilight Zone na tevê, e Star Trek. Da primeira, gostava. Da segunda, menos. A ficção científica era coisa que eu dividia mais com papai. (Foi ele quem, pacientemente, me levou cinco vezes ao cinema para ver O império contra-ataca.) Ela gostou de outra série que nunca assisti chamada Picked fences, falava muito dela. Sua favorita do momento era House.

Ao longo dos anos, viveram na casa uns seis cachorros, dezenas de gatos siameses ou vira-latas, galinhas, um jabuti e um galo que se chamava Geraldinho.

Ela nos interpretava os sonhos. Coisa de domingo, em casa. Não era psicanalista, era psiquiatra. Mas tinha lido o Freud todo desde a adolescência. Ali entre Freud e Bergman, entre Hitchcock e uns toques da mata tropical em Tom Jobim, ficava seu norte. Um dia, já morávamos na Califórnia, inícios de anos 90, encontrou uns CDs de Jack Kerouac lendo coisas suas mas não comprou porque era muito caro. Anos depois, já morando sozinho, eu compraria estes discos. Tinha seus escritores: Cortázar, Herman Hesse, Thomas Mann. Devorava biografias.

Uma vez, isso era no governo Sarney, quando o salário de professor de papai estava apertado que só e tinha dias em que comíamos ovo porque não havia dinheiro para carne, eu a encontrei fazendo um cigarro na varanda. (Devia ser verão.) O fumo estava numa caixinha de metal, ela desfazia com os dedos a trama da folha seca, a espalhava num corte de papel manteiga, enrolava num canudo em um ritual lento. ‘Está tão difícil que não há dinheiro para comprar cigarro, mãe?’ Ela me sorriu. ‘Não se preocupe’, respondeu.

Quando chegávamos a um lugar novo, nas idas e vindas da carreira acadêmica de meu pai, mamãe estudava a história local. Hitchock se renovou para ela quando vivemos em um de seus cenários favoritos, a Bay Area de San Francisco. Mamãe não escrevia, não compunha, não desenhava. O que ela fazia era aprender constantemente. Tinha um olhar para como as pessoas se vestiam e falavam, como se comportavam. Um total fascínio pelo que era diferente. É a pessoa mais absolutamente sem preconceitos que jamais conheci. Percebia como o tempo num lugar novo era – sabia descrever o vento, o ângulo do Sol, o tipo de neve, a folhagem das árvores. Era absolutamente atéia. O debate a respeito da existência ou não de Deus lhe era irrelevante. Não tinha religião ou qualquer interesse por cerimônias. Vivia em paz, absolutamente integrada ao mundo no arredor. Compreendia ele, fazia parte do todo.

Saí de casa aos 17 anos para terminar o segundo grau no Rio. Nunca mais moramos juntos e ela nunca falava ao telefone. Não gostava. Nossas conversas aconteciam nos momentos de encontro. O telefone era para assuntos curtos mas urgentes, quando eu tinha uma dúvida ora existencial, ora prática, do tipo que só uma mãe arguta que percebe absolutamente tudo, todas as nuances das relações humanas possíveis, cada ângulo, cada olhar, cada movimento e sabe dizer o que se passa, como agir.

Este, o da compreensão absoluta do todo, era seu maior talento.

Nos próximos dias, publicarei cenas de filmes que representaram algo para ela. O cinema era sua arte. Nesta costura de filmes estão as suas referências: um bocado daquilo que ela foi, pensou, sentiu. É uma tentativa de congelar aqui na web algo sobre ela. Mamãe jamais teve email. Não lia na tela do computador. Tecnologia lhe era algo totalmente alheio. O seu era um mundo de muita árvore e pouco concreto. Tinha um quê de ermitã. Talvez esta seleção jamais faça algum sentido senão para aqueles que a conheceram. Era tão tímida que estes não foram muitos. Mas, por outro lado, desconfio que sim, na costura, assim juntos, estes filmes falem um pouco sobre o que nos faz humanos. Era isto que a interessava mais do que tudo.

Atualização – Além de me corrigir umas datas, meu pai nega que mamãe fosse tímida. É a opinião dele =) Está em seu blog.

Tags: Cinema · Gente

Uma entrevista aos sábados

5/April/2008 · 44 Comentários

Darcy Ribeiro

Tags: Brasil · Gente · História

Uma entrevista aos sábados

29/March/2008 · 141 Comentários

O budismo pressupunha uma enorme quantidade de tempo e solidão para uma transformação que acontecia gradualmente ao longo de anos. Hoje, queremos tudo de forma instantânea. Espiritualidade instantânea. Resultados rápidos, somos todos muito pragmáticos. Ele dizia que precisávamos tirar o ‘eu’ do centro de nosso universo. Sabe aquele ‘eu’ que nos faz acordar às três da manhã, ‘por que isso acontece comigo? Por que não sou valorizado?’ Essas coisas nos arruínam. Buda mostrou como viver sem ver as outras pessoas de um ponto de vista ganancioso, como gente que poderia nos levar à frente de alguma forma. Se libertados do ‘eu’, podemos ampliar nossa perspectiva, podemos nos alinhar com o sagrado. Buda era um radical, muito mais do que aqueles que se dizem budistas, hoje. No Reino Unido, muitos que não se interessam por religião pensam no budismo como um caminho light: sem Deus, sem pecado, um pouquinho de ioga.

Não encontramos entre as escolas budistas o tipo de inimizade que protestantes e católicos mostraram uns pelos outros. Hoje, há o início de algo que podemos chamar de fundamentalismo budista, mas jamais houve inquisição, perseguição, Cruzadas, matança em nome de Deus. Buda de vez em quando fala dos antigos deuses da Índia sem rancor; os profetas bíblicos só citavam os antigos deuses com fúria. Eu não diria que intolerância está na raiz das religiões ocidentais, Judaísmo, Cristianismo e Islã. Mas intolerância nasce delas. É como se fosse uma tentação à qual os monoteístas se entregam de vez em quando. Quando você tem um deus personalizado, é muito tentador usar a religião para apoiar seus preconceitos. Religiões monoteístas são assim. Em toda geração há gente que caia nessa e há quem resista.

Karen Armstrong

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Uma entrevista aos sábados

22/March/2008 · 75 Comentários

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15/March/2008 · 374 Comentários

O roteiro tinha a sinopse conceitual. Tinha que ter um garoto, uma supergata, e eles viviam de biscate. Foi quando o Kadu foi chamado pra fazer uma novela das oito e marcou uma reunião com o Boni. Ele não tava a fim do papel, queria mais que nossa idéia desse certo. Eu disse: cara, quando abrir a porta do Boni, eu entro atrás e a gente fala o projeto. E levei uma cola numa agenda da Energia pra lembrar bem a idéia. Quando entramos na sala, ele só perguntou: o que o André tá fazendo aqui? Eu só disse que tinha um projeto pra mostrar jovem na TV, que meu filme Menino do Rio tinha dado o maior ibope. Aí ele me viu lendo a cola e tomou a agenda da minha mão. No fim estava escrito assim: se ele topar, ainda dou de gorjeta o slogan ‘entre nessa onda, entre na onda da Globo’. Ele me olhou com uma cara bizarra. Aí eu contei a história do Butch Cassidy, que eu sabia fazer. Aí ele me ofereceu para entrar na novela Partido alto, com o Kadu, e passar um ano no Havaí preparando a idéia da série.

Foi uma doideira. Mas o projeto que estava sendo escrito era muito infantil. O grande problema é sempre o roteirista. Ninguém sabia escrever como o jovem fala. A coisa estava totalmente artificial. E, como o texto estava ruim, eu acabei convencendo o Daniel Filho de que tinha que chamar o Calmon. No fim das contas, ele e o Daniel ficaram amigos pra caramba, ele deu um jeito no roteiro, e gravamos o primeiro programa. Lembro que no dia seguinte eu fui na praia e todo mundo aplaudiu. O Armação ilimitada foi uma criação coletiva que abriu portas para muita coisa.

A vida era muito mais romântica. As gatas tu tinha que conquistar, as mulheres eram diferentes. Usar drogas tinha um conceito diferente. As músicas eram mais ricas. Hoje é tudo muito mega, muito comercial, com uma batida forte. Eu acho mesmo que tinha uma coisa mais simples, no Rio de Janeiro pelo menos. Tem a ver com a perda do sonho. Hoje em dia não se sonha tanto. Tudo parecia mais ingênuo. Pensa no funk que toca hoje na rua. Nas letras, na batida, na violência. Mesmo a polícia era mais light até o fim dos anos 80. Era uma coisa muito mais ingênua. Acho que a violência em todos os níveis começou a crescer com a droga. Foi a cocaína que mudou e acabou com o Rio de Janeiro. Nos anos 90 a coisa piorou mesmo. E tem o descaso da política em deixar isso tomar o nível que tomou. Deixaram as favelas e o tráfico crescerem sem limites.

André de Biase

Tags: Gente · TV

Uma entrevista aos sábados

8/March/2008 · 214 Comentários

Minha definição de tragédia é o choque entre quem está certo e quem também está certo. Neste sentido, o conflito entre Israel e Palestina é uma tragédia, o confronto entre um poderoso, convincente e doloroso argumento pela posse desta terra e outro igualmente poderoso, convincente e doloroso argumento. Este tipo de conflito pode ser resolvido de duas formas. A tradição shakesperiana resolve a tragédia com o palco, no final da peça, coberto de corpos mortos. Mas também há a tradição de Anton Tchekov. Na conclusão de uma tragédia de Tchekov, todo mundo está desapontado, desiludido, amargurado, todos têm o coração partido. Mas estão vivos. O que busco não é um fim sentimental de amor fraterno, de uma repentina lua de mel entre israelenses e palestinos. A mim, basta um final à moda de Tchekov.

O que sinto é que pela primeira vez em cem anos de conflito, os dois povos, israelenses e palestinos, estão à frente de seus líderes. Os dois povos sabem que, no fim, haverá dois países. Não gostam da solução. Você vai encontrar milhares de pessoas frustradas em ambos os lados. Mas eles sabem. Se você fizer uma pesquisa perguntando a todo judeu israelense e todo árabe palestino ‘o que você considera uma solução justa?’, ‘o que você acha que acontecerá no fim das contas’, imagino que a vasta maioria responderá que é o compromisso com a solução que prevê dois Estados. É um avanço.

As duas nações são atormentadas pelo passado. O judeu israelense quanto o árabe palestino são vítimas da Europa de duas formas distintas. Os árabes sofreram com o colonialismo, o imperialismo, a opressão e a exploração. Os judeus com a supressão, a discriminação e, por fim, com o genocídio. Agora, as duas vítimas do mesmo opressor não se tornam necessariamente irmãos. Dois filhos do mesmo pai cruel não necessariamente e abraçam. Às vezes, as piores rivalidades, na vida particular ou na pública, são justamente os conflitos entre duas vítimas do mesmo opressor. Dois filhos do mesmo pai cruel olham um para o outro e vêem a imagem daquele pai cruel, a imagem de seu opressor passado. É o que acontece entre o judeu e o árabe. É o conflito entre duas vítimas.

Amos Oz, 2002

Tags: Gente · Israel e Palestina

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1/March/2008 · 19 Comentários

Parte 2 | Parte 3

Tags: Artes · Gente

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23/February/2008 · 75 Comentários

Me parece óbvio que os EUA não podem lutar sozinhos por todas as questões de interesse do Ocidente. Assim, duas conclusões são possíveis. Uma é que não há qualquer interesse ocidental na região, aí não lutamos. Outra: há interesses do Ocidente, então temos que lutar. Quer dizer, precisamos de mais tropas da OTAN no Afeganistão. A esta altura, no ano que vem, teremos um novo governo nos EUA. É aí que descobriremos se o governo Bush era a causa ou o álibi dos desentendimentos entre Europa e EUA. Hoje, muitos europeus se escondem atrás da impopularidade de Bush. E seu governo realmente cometeu muitos erros no início.

Você sempre pode dizer que há uma guerra diferente que era mais importante do que a guerra na qual está envolvido. Mas o que quer dizer que deveríamos lutar a guerra no Paquistão? Deveríamos usar poder militar nas regiões tribais e conduzir operações numa região que o Império Britânico não conseguiu pacificar nem em 100 anos de colonização? Deveríamos usar o poder militar para impedir que os radicais tomem o poder paquistanês? Devemos impedir que o Estado paquistanês se parta em três ou quatro grupos étnicos? Não creio que tenhamos capacidade para tal.

Não acordamos um dia de manhã e decidimos que seria lindo conversar com Mao. Tanto eu quanto Nixon acreditávamos que era preciso trazer a China para o sistema internacional. Tentamos relacionar realidade e considerações morais. A realidade foi mudada pelas tensões entre China e União Soviética. Alguns acreditam que só a conversa já é capaz de aliviar tensões. Eu acredito que, para as negociações terem sucesso, elas precisam antes refletir a realidade. A principal dúvida a respeito do Irã é se o país se vê como uma causa ou como uma nação. Se o Irã deseja ser um Estado-nação respeitado sem desejar dominação imperial ou religiosa, então algum tipo de entendimento é possível. Mas isso não será possível se o Irã encarar o momento como uma oportunidade histórica para fazer renascerem os sonhos da glória persa.

Henry Kissinger, fevereiro de 2008

Tags: China · EUA · Europa · Gente · História · Ásia Central

Uma entrevista aos sábados

16/February/2008 · 27 Comentários

Chegando ao Rio, papai me levou ao renomado show de calouros que Ary Barroso apresentava na rádio Tupi. Eu sabia que aquilo poderia ser importante para meu futuro. Segundos antes de entrar no palco, ouvi Ary Barroso gritar com a produção que não queria por ali nenhuma criança prodígio, que só aceitava maiores de idade. Um rio correu por minhas bochechas enquanto guardava o acordeão. Shows de calouros podem ser, sim, muito, muito traumatizantes. Eu fiquei apenas triste.

Um de meus maiores prazeres foi descobrir que o meio-fio de Copacabana é um ótimo lugar para fazer amizades. A minha com João Gilberto floresceu na calçada do Copacabana Palace. Nos intervalos dos shows do Golden Room, eu saía para respirar um pouco a brisa noturna do mar e jogar conversa fora com o João. É bom que as pedras portuguesas sejam mudas.

Esfomeados, era comum acabarmos nossas noites na casa de Bené Nunes, na Gávea. Lá, João, Tom Jobim e eu descobrimos duas coisas fantásticas: que uma frigideira com seis ovos passados na manteiga combina bem com os discos de Chet Baker, e que se pode decorar acordes de bossa nova como se fossem números de telefone. Basta dar ao polegar o número um, e ao mindinho, o cinco.

Não sou arredio em relação a nenhum ritmo, mas não abro mão de uma coisa: o volume tem que ser agradável. Outro dia, um barco ancorou na baía, bem em frente a minha casa, e ligou um bate-estaca no máximo para animar uma festa no mar. O cara só pode ter feito aquilo para anestesiar os convidados e evitar que percebessem que as músicas eram de quinta. Som nas alturas impede que as pessoas pensem. É algo que vai contra as leis da natureza. Ou alguém já ouviu um trovão durar cinco horas?

Outra sugestão é apostar nas campainhas de celular: os ringtones. No meu telefone tenho três músicas de minha autoria: Doralinda, Nasci para Bailar e Bananeira. Dependendo de quem liga, toca uma. Fantástico. Bossa nova combina demais com celular. Aliás, deixa eu escrever isso aqui, combina com tudo, ok?

João Donato

Tags: Gente · Música

Uma entrevista aos sábados

9/February/2008 · 33 Comentários

Eu já tinha criado o Quarteto Fantástico e, se não me engano, o Hulk, e as revistas estavam vendendo bem. Meu editor me procurou e comentou ‘que tal imaginar outro super-herói?’ Eu disse ‘ok’. Fiquei sentado à mesa tentando pensar num e vi essa mosca andando pela parede e aí pensei, ‘nossa, não seria legal se um herói pudesse andar pelas paredes como um inseto?’ O maior problema quando você cria um super-herói é que superpoder você vai dar para ele. É que todos já foram imaginados. Então imaginei que alguém que grudasse nas paredes como inseto seria legal. Daí precisei de um nome. Que tal Homem Inseto? Não parecia dramático. Homem Mosquito? Nah. Fui fazendo uma lista. Quando cheguei em Homem Aranha, aquilo soava dramático. Homem Aranha!

Primeiro dei ele para o Jack Kirby desenhar, mas o Jack sempre fazia esses tipos heróicos, como o Capitão América. Eu disse ‘Sabe, Jack, eu queria que esse cara, Peter Parker, mais parecido com um adolescente típico. Não faz ele como um super-herói musculoso.’ Mas acho que o Jack já estava tão acostumado a desenhar aquele tipo de gente que, depois de ele esboçar uma página ou dias eu olhei e disse ‘olha, por aí não vai’ e falei ‘deixa pra lá, Jack, vou passar para outro’. Ele não ligou. Ele tinha muito trabalho e não sabíamos que esse personagem ia ficar tão importante. Então dei pro Steve Dikto, que tendia a fazer uns desenhos um pouco mais realistas. Ele fez um esboço e não interferi muito com o uniforme. O uniforme do Homem Aranha é obra do Steve.

Se eles não tiverem defeitos, ficam desinteressantes, unidimensionais. Se o personagem nunca faz nada de errado, se é perfeito, não desperta interesse. Sempre tentei imaginar personagens realistas e apenas dar a ele um atributo incrível. Fora isso, devem despertar empatia. Você vê o Super-Homem. Nenhum leitor se preocupava com o Super-Homem porque saia que não poderia machucá-lo. É por isso que o Homem Aranha sempre vendeu mais que o Super-Homem. E é por isso que os caras acabaram inventando a kriptonita. Eles perceberam que ficava difícil criar suspense sem uma vulnerabilidade. Aquiles, sem seu calcanhar, não ia ser lembrado por ninguém.

Stan Lee, 2006

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Uma entrevista aos sábados

2/February/2008 · 23 Comentários

Complemento à entrevista: Fita meus olhos

Cartola

Tags: Gente · Música

Uma entrevista aos sábados

26/January/2008 · 235 Comentários

Permaneci no Partido Comunista não por motivos políticos mas por razões autobiográficas. Não é por idealismo em relação à Revolução de Outubro. Não sou idealista. Ninguém deveria se iludir a respeito das pessoas ou coisas com as quais nos preocupamos. Comunismo é justamente uma das coisas com as quais tratei de não me iludir, embora tenha feito o que pude para permanecer leal a ele e a sua memória. O fenômeno do comunismo e a paixão que ele levantou foi algo específico ao século 20. Foi uma combinação de grandes esperanças nascidas do progresso e da crença na melhoria da humanidade durante o século 19 além da descoberta de que a sociedade burguesa na qual vivemos, não importa quanto sucesso tenha feito, não funciona e, em alguns momentos, pareceu próxima ao colapso. Como não entrou em colapso, criou grandes pesadelos.

Os EUA obviamente escolheram a barbárie contra o socialismo, no Afeganistão. Eles financiaram a al-Qaeda e o Talibã porque acreditavam que o comunismo era uma opção pior. Eu não acho isso. Também não acho que a al-Qaeda ou o fundamentalismo sejam os maiores perigos enfrentados pelo capitalismo. O capitalismo sobreviverá a eles e fará dinheiro com eles. O fundamentalismo islâmico não é um grande perigo porque não é capaz de vencer guerras. Para compreender a situação atual, é preciso compreender que o Onze de Setembro jamais ameaçou os EUA. Foi uma tragédia humana que humilhou os EUA, mas o país não estava de forma alguma mais fraco após os ataques. Três ou quatro ataques equivalentes não mudarão a posição de poder dos EUA no mundo.

Os EUA são o grande poder propagandístico do mundo. A França o foi em 1789, depois o foram os comunistas, e agora são os EUA, em si também um regime revolucionário. Quando você tem a chance de espalhar sua influência, termina se transformando num império. É o caso francês no período de Napoleão. Eles alegavam estar fazendo o bem para os países que conquistavam, mas eram considerados simples conquistadores pelo resto do mundo. A diferença é que, diferentemente do caso alemão, que não quis fazer bem para todo mundo, os franceses e os russos tinham e os americanos têm mesmo o objetivo de fazer o bem ao espalhar suas idéias. Agora, os americanos têm a chance de fazer o que os franceses fizeram no tempo de Napoleão, e os argumentos pró e contra são parecidos.

Eles usaram o Onze de Setembro como oportunidade para demonstrar que são o único poder com a capacidade de domínio. Agora, qual o objetivo deles além de provar que conseguem dominar outro país é difícil de dizer. Não há qualquer justificativa racional para a Guerra do Iraque. Os EUA terão de aprender que há limites até mesmo para seu poder e, com alguma sorte, acho que isto acontecerá. Neste momento, no entanto, o processo de aprendizado mal começou.

Eric Hobsbawm, 2002

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Uma entrevista aos sábados

19/January/2008 · 20 Comentários

Nós somos as autoridades em tirar as pessoas das drogas. Somos as autoridades na mente. Somos as autoridades em melhorar a vida de todos. Criminalidade? Podemos reabilitar criminosos. O caminho da felicidade? Nós podemos trazer a paz. Unir países. Depois que você conhece a maneira de fazer isso, não pode mais dizer apenas ‘eu estou bem’… viajei pelo mundo e conheci líderes de vários campos. Eles querem ajuda. Eles dependem de gente que sabe. De gente que é eficaz. Que faz. Estes somos nós. É nossa responsabilidade. A hora é agora.

As palavras vêm de um vídeo que está no Gawker, uma entrevista interna da Igreja de Cientologia com seu número dois, Tom Cruise. Tem mais lá.

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Uma entrevista aos sábados

12/January/2008 · 27 Comentários

Esses grupos guerrilheiros na Índia acreditam que a revolução é a resposta. Eles não têm idéia do que virá após a revolução, e quando eles libertam determinadas áreas, ali nascem centros de tirania. Eles explodem as pontes, cortam as linhas telefônicas para o mundo lá fora. Então, os camponeses que deviam ter sido libertados terminam tão prisioneiros quanto nos tempos feudais. Estes movimentos guerrilheiros são uma tolice intelectual, nada têm a oferecer.

Conheci gente da classe média que se juntou à revolução e ninguém me impressionou. Considerei-os vaidosos e, intelectualmente, nem um quarto tão inteligentes quanto imaginavam ser. Esta era minha impressão, então decidi ir conhecer o lugar. Não a área da guerrilha, mas uma cidadezinha perto. E aí percebi, após a terceira visita, isso aqui é tão superficial, essas pessoas são tão chatas, não há grandeza, aqui, nada que renda um livro. Então, conforme pensava sobre essas coisas, percebi como a própria superficialidade e a trivialidade poderiam se integrar à narrativa.

Para poder escrever, você precisa sair pelo mundo, se arriscar, tem de mergulhar no mundo, precisa procurar as coisas. Isso começa a ficar difícil conforme vai envelhecendo porque sobra menos energia, os dias ficam mais curtos e já não é mais tão fácil submergir no mundo lá fora.

V. S. Naipaul

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Uma entrevista aos sábados

5/January/2008 · 76 Comentários

Sou comunista e minha pintura é comunista. Mas, acaso fosse sapateiro, não importaria se monarquista ou se comunista, meus sapatos não seriam diferentes de acordo com minha orientação política.

O Parthenon é só um campo sobre o qual puseram um teto. Se incluíram ali umas colunas e esculturas, é porque havia uma gente em Atenas que por acaso faziam isso e desejavam se expressar. Não é o que o artista faz que importa; importa o que o artista é. Cézanne nunca me interessaria se ele tivesse vivido e pensado como alguém monótono, mesmo que suas maçãs fossem dez vezes mais bonitas. A força de Cézanne é sua ansiedade, esta é sua lição. Veja os tormentos de Van Gogh – este é o drama do homem. O resto é picaretagem.

O que há de errado com o pintor que pinta como outro, que imita outro? É uma ótima idéia. Você deveria tentar pintar constantemente como outra pessoa. O problema é que você não consegue. Você gostaria. Você tenta. Mas é um fiasco. E no momento em que fracassa tentanto é que quem você realmente é aparece.

Pablo Picasso

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Uma entrevista aos sábados

29/December/2007 · 299 Comentários

Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas que amei realmente, me dei todo. Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu soneto da fidelidade: ‘que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure.’

Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.

Eu amaria Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só exisitisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tenho outro.

É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num momento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máxima para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.

Detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.



Vinícius de Moraes entrevistado por Clarice Linspector.

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