No mundo do DNA e biohackers

21/May/2009 - 14h02 - 83 Comentarios

Conversando com um especialista em doenças infecciosas, ontem, para compreender um pouco mais a Gripe Suína, fui apresentado a um conceito que não conhecia: biohacking, ou biopunk.

Ficou tão barato mexer com DNA que virou hobby para alguns. Com material que encontram publicado na web, sintetizam códigos genéticos inteiros. Cacos de DNA dá para comprar pelo correio, aqui nos EUA. Na Amazon, já tem brinquedo de criança que faz análises simples de DNA. (É o Meu Pequeno Laboratório versão século 21.)

Que não se confunda com bioterrorismo: produzir DNA e analisar DNA é estudar moléculas. Ninguém está alterando seres vivos na garagem de casa. (Ao menos, ainda não.)

No ano passado, eu e Marina nos submetemos aos testes da 23andMe, uma empresa nascente aqui do Vale do Silício, financiada pelo Google, que mistura análise genética e rede social. Uma espécie de Orkut e Facebook onde cada um pode dividir (ou não) partes de seu código genético.

Há algo de fascinante em conhecer o próprio DNA. Pelo lado materno, pertenço ao haplogrupo K1a1b1 – razoavelmente comum em Portugal. Nós, os Ks, somos descendentes de uma das 9 mulheres que povoaram toda a Europa. ‘Katrine’, a mãe dos Ks, viveu no norte da Itália há 12.000 anos. Pelo lado paterno, meu haplogrupo é o E3b1b*. Aparece com alguma frequência na Ibéria – 5,6% da população, 10% dentre os galegos. No Rio de Janeiro somos 5,4% da população. Mas que ninguém se engane quanto às origens: 80% dos marroquinos. É o grupo genético berbere, a população que vivia no norte da África antes da invasão árabe. Continuam lá. É só que hoje são chamados de árabes. É o marcador magrebino. Sou, geneticamente, uma mistura de mouro com italiano. O grau de similaridade de meu DNA com certas populações asiáticas, maior do que a média dentre caucasianos, sugere a mestiçagem ameríndia.

Não é só a história das gentes que existiram antes de você vir à Terra que o DNA revela. Lá tem coisa que eu já sabia. Que nicotina, por exemplo, para mim é uma desgraça. No primeiro cigarro já dá fissura. Vicia. Cafeína vai num caminho parecido. Metabolização quase nula. Duas Coca-Colas e a pressão sobe, a mão treme. Por outro lado: resistência a álcool – derrubar é difícil. Mas tem coisa que eu não sabia e é bom saber. Não tenho os marcadores conhecidos de câncer, por exemplo. Nem os femininos – que eu não desenvolveria mas poderia transmitir a uma filha. O coração é o ponto fraco, via pressão alta. O histórico familiar o confirma.

Aqui nos EUA, estes testes estão ficando cada vez mais baratos. Mas enquanto biohackers começam a vasculhar suas possibilidades e gente curiosa como eu vai atrás, há resistência. Os principais argumentos são dois. O primeiro é medo. Tem gente que simplesmente não quer saber quais os pontos fracos de seus corpos. Teme que vire neurose. O segundo é pragmático: e se essa informação vaza? E se, porque alguma lei mudou ou algo assim, empresas de seguro de saúde tomam conhecimento destes dados?

O risco é o seguinte: aos 34 anos, não tenho qualquer problema cardíaco. Talvez nunca venha a tê-lo. Mas meu código genético indica o risco maior. Dada esta informação, como definir o que é uma ‘doença pré-existente’? Basta a informação do DNA?

Enquanto estamos aqui, envolvidos na adaptação social, cultural e econômica com o mundo digital, há outro com ainda maiores novidades se aproximando. E, neste, os dilemas práticos, éticos e financeiros serão ainda maiores.

A pandemia de gripe que ameaça
o mundo a partir do México

01/May/2009 - 02h46 - 22 Comentarios

O México pára hoje. (É, eu sei – esse para não tem mais acento. Me dêem um tempo para o hábito pegar.) Até o dia 5, a recomendação do presidente Felipe Calderón é de que ninguém saia de casa. O objetivo é tentar conter a epidemia de gripe suína.

Entre 1918 e 19, mais de 100 milhões de pessoas morreram. Em 1968, quando houve a última grande epidemia de gripe, foram 1 milhão de vítimas. Faz 40 anos. Ninguém tem dúvidas de que uma nova epidemia pesada e mortal está para vir. Não foi a gripe aviária. Será a suína? Em um ponto, pelo menos, esta é mais preocupante. É gripe que mamífero pega, portanto nós humanos estamos mais próximos. Pessoas podiam pegar a gripe de um frango, o que era raro, mas o vírus permanecia não transmissível entre pessoas. Se a gripe vem de mamífero, é mais fácil.

motivos para otimismo: as chances de que remédios antivirais como o Tamiflu consigam atacar a gripe são altas. Mas, se houver pandemia, as chances de que uma cepa resistente a medicação surja não é baixa.

A capacidade mundial de preparar vacinas a tempo também é limitada. Há tecnologias novas que permitem o aumento de produção mas, hoje, apenas alguns países da Europa têm capacidade de fabricar vacina o suficiente para atender toda sua população.

Ontem de manhã, o vice-presidente norte-americano Joe Biden falou à tevê que, se fosse ele, evitaria aviões e trens. O ar é viciado e vírus se espalham fácil. Trata-se do tipo de alarmismo que arrisca parar a economia e não traz benefício. Aqui na Califórnia, dada a proximidade com o México, o alerta é geral. Se a gripe suína for pandêmica, deve assolar o hemisfério norte nesta temporada de verão e tomar rumo do sul no segundo semestre. Se é verdade que o transporte aéreo ajuda a espalhar estes vírus pelo mundo todo com velocidade, também são aviões que levam a remédios de um lado bem estocado do mundo para o lado que precise com a rapidez necessária.

Para o México, que se aproveita deste Primeiro de Maio para tentar estancar o que pode ser apenas um surto pequeno, o risco de a economia parar já é real.

A pandemia fatalmente virá. A falta de preparo do mundo, conforme o tempo passa, é inexplicável.

Nos 200 anos de Charles Darwin

12/February/2009 - 12h58 - 161 Comentarios

Nosso Darwinista escreve:

Uma das principais estratégias daqueles que combatem as teorias evolucionistas é relacionar os erros cometidos por Darwin. E ele realmente cometeu erros e deixou lacunas importantes.

Darwin, por exemplo, não tinha conhecimentos sobre genética, ciência que estava surgindo naquela mesma época com os experimentos de Gregor Mendel. Aliás, Darwin tinha ideias hoje em dia consideradas bizarras quanto à transmissão das características hereditárias. Ele nunca explicou de maneira convincente como as variações, sobre as quais a seleção natural atua, eram passadas de pais para filhos. Um erro que talvez tivesse sido corrigido, se ele tivesse lido os trabalhos de Mendel. E não foi por falta de oportunidades.

Mas, apesar da fragilidade que pretendem comprovar a respeito de sua teoria, Darwin demonstrou de maneira brilhante e inequívoca que as espécies se transformam ao longo do tempo. A evolução biológica é tão fartamente comprovada e documentada que o meio acadêmico há muito tempo não debate mais se ela ocorre ou não, e sim de que maneira ocorre.

O texto completo está no De olho no fato.

Charles Darwin, um dia após o outro

17/December/2008 - 06h51 - 36 Comentarios

Assim era a rotina de Charles Darwin em seus últimos anos de vida, conforme recontada por seu filho, Francis Darwin.

7h. Acordava e saía para uma caminhada.
7h45. Café da manhã, sozinho.
8h–9h30. Trabalhava em seu escritório; considerava esse seu período mais produtivo.
9h30–10h30. Ia para a sala e lia suas cartas, então lia alto as cartas da família.
10h30–12 ou 12h15. Voltava ao escritório, e considerava este o fim do seu horário de trabalho.
12h. Caminhava, primeiro uma visita à estufa, depois pelo jardim de areia, por tanto tempo quanto possível dependendo de sua saúde, acompanhado de um cachorro.
12h45. Almoçava com toda a família, era sua refeição principal. Após, lia o Time e respondia cartas.
15h. Cochilava no quarto ou no sofá e fumava um cigarro, ouvia a narrativa de um livro leve lido por sua mulher, Emma.
16h. Caminhava, em geral pelo jardim de areia, às vezes para mais longe, com freqüência acompanhado de alguém.
16h30–17h30. Trabalhava no escritório resolvendo os últimos problemas do dia.
18h. Descansava no quarto enquanto Emma lia em voz alta.
19h30. Tomava um chá enquanto a família jantava. Em seus últimos anos, nunca permanecia na sala de jantar com os homens, mas tomava o rumo da saleta com as mulheres. Se não havia convidados, jogava duas partidas de gamão com Emma, depois lia um pouco, então Emma tocava piano e lia mais alguma coisa em voz alta.
22h. Deixava a saleta e se deitava às 22h30. Dormia mal.

O blog Daily Routines se especializa em colecionar a rotina diária de grandes escritores ou mentes afins.

via The Daily Dish

O neandertal entre nós

04/December/2008 - 15h51 - 106 Comentarios

O Parque dos Dinossauros é possível? De alguma forma, parece que sim. E o primeiro mamute vivo após 60.000 anos custaria algo como 10 milhões de dólares. O DNA do animal já foi seqüenciado. Seria teoricamente possível pegar o DNA de um elefante e modificá-lo artificialmente até que fique igual ao do animal extinto. Adaptar o ovo de um elefante para carregar e desenvolver tal código genético, embora difícil, não é impossível. (Ovo, não custa lembrar, não é aquilo que aves e répteis produzem; ovo é o nome da célula produzida pelo encontro de óvulo e espermatozóide.) Uma elefante africana poderia ceder seu útero à cria.

O mesmo processo é possível para o Homo neanderthalensis. Nosso primo mais próximo ainda não teve seu DNA seqüenciado, mas o trabalho está encaminhado. DNA neandertal poderia ser criado a partir do DNA humano, adaptado a um ovo humano e uma mulher cederia seu útero à cria. Uma alternativa seria fazer adaptação a partir do DNA de um chimpanzé e cobrar de uma chimpanzé que engravide da cria.

E há algo de apavorante, de no mínimo desconfortante, nesta idéia.

A fonte é George Church, cientista da Escola de Medicina de Harvard. John Hawks, antropólogo da Universidade do Wisconsin, diz que nada é assim tão simples. Para reproduzir a molécula de DNA do neandertal, será necessário utilizar DNA de Homo sapiens – nosso – em vários pontos. O chimpanzé é próximo, mas não o suficiente.

(Eu ia escrever DNA humano, e não de Homo sapiens. Acontece que o DNA neandertal também é humano.)

Os neandertais tinham algo entre metro e meio e metro e oitenta de altura, pesavam até 80 quilos. Tinham, relativamente aos Homo sapiens de então, mais força muscular. Mas isto não quer dizer que poderiam encarar um boxeador profissional de hoje. Hawks argumenta, em um post de seu blog, que eles talvez parecessem um pouco diferentes. Mas, dadas as diferenças entre etnias que já existem entre nós, eles não seriam tão diferentes assim. E eram ágeis caçadores.

Tudo o que arqueólogos e paleontólogos já levantaram e descobriram sobre neandertais não nos permite saber o quão distintos eles eram de nós do ponto de vista cognitivo. É talvez reconfortante imaginar que fossem idiotas – mas não é certo. O que parece certo é que nossos antepassados caçadores-coletores desbancaram seus primos, na Europa. Hawks defende que, mesmo que eles tivessem um nível cognitivo mais baixo, ainda assim seria possível encontrar pessoas com níveis equivalentes, hoje. Somos um bocado diversos, os humanos.

Os humanos neandertais não existem faz 30.000 anos. Até há poucos anos, acreditava-se que era a única outra forma do genus Homo com a qual convivemos. Aí descobriu-se o Homo floresiensis, um nanico apelidado de Hobbit que existiu até pelo menos 12.000 anos atrás em Flores, uma ilhota próxima do Timor, no Pacífico.

Não custa um pouco de nossa história para que tudo fique em contexto: o Homo sapiens surgiu na África, segundo a ciência mais recente, 200.000 anos atrás. Era uma forma primitiva de nós, o Homo sapiens idaltu. Nós, o Homo sapiens sapiens, existimos faz algo entre 160.000 e 150.000 anos. Alguns estudos indicam que temos a capacidade moderna de fala e linguagem faz 60.000 anos. A revolução agrícola, que nos fixou na terra, o momento em que deixamos de ser nômades coletores e caçadores, foi 10.000 anos atrás. Foi 9.000 anos atrás que começamos a nos agrupar na região da Mesopotâmia – atual Iraque – e 5.000 anos atrás já haviam por ali cidades grandes que podemos chamar com tranqüilidade, em seu conjunto, de civilizações. A civilização egípcia é só um pouquinho mais jovem. Roma foi fundada 2.800 anos atás. A Grécia Clássica tem uns 2.600 anos, mais ou menos a mesma idade que os livros mais antigos do Velho Testamento. Paris foi fundada faz 2.060 anos. O Brasil, descoberto há 508 anos. O Homo sapiens deixou a Terra pela primeira vez há 47 anos.

E agora querem trazer o neandertal de volta.

Atualização - Ligeiramente modificado com sugestões de Monsores e Darwinista, nos comentários. Há um texto maior, no Weblog, que conta a história da origem evolutiva do homem.

Os mamíferos se vão

09/October/2008 - 12h19 - 105 Comentarios

Metade das espécies de mamíferos do mundo estão sofrendo uma redução populacional. E um quarto delas sofre o risco de extinção. O balanço vem de um estudo que envolveu 1.700 especialistas em 130 países.

Os maiores problemas estão na Ásia, onde o aumento da área cultivada representa perda de habitats naturais e nos oceanos, por conta do uso cada vez mais intenso por parte de nós, homens. No sul e sudeste asiático, 79% das espécies primatas estão ameaçadas. Em todo o mundo, 40% das espécies de mamíferos estão perdendo seus habitats. Aí, não é apenas caso da Ásia: a situação é extrema nas Américas do Sul e Central, em Madagascar e na África Subsaariana.

Não, o problema não é só do mundo pobre: existem apenas 143 linces ibéricos (que vivem entre Espanha e Portugal) vivos. Neste caso, é uma história típica de desequilíbrio ecológico. Há um excesso de lebres, que atacam plantações. Os fazendeiro matam as lebres, que são o principal alimento das linces. Quando a população do predador vai a números gritantemente pequenos, lebres que não tem qualquer dificuldade de se reproduzir aumentam ainda mais em número.

Outro ameaçado é o diabo-da-tasmânia. (Sim, o mesmo que inspirou o personagem de desenhos animados Taz.) Trata-se do maior marsupial carnívoro do mundo, um bichinho feio que dói, do tamanho de um cachorro pequeno. Na última década, sua população diminuiu em 60% graças a um estranho câncer que ataca sua boca. Ele morre de fome.

via Polymeme

O corpo humano visível

24/June/2008 - 16h42 - 7 Comentarios

A Hybrid é uma empresa especializada em animações médicas. São contratados por universidades para o preparo de material educativo, por laboratórios para demonstrar o funcionamento de remédios, por grandes feiras do ramo.

Seu coração que fica transparente – todas suas válvulas expostas – é um desbunde, assim como o outro coração, aquele no qual o sangue corre. Há uma bactéria infectada por um vírus, o remédio que ataca um tumor ou mesmo uma sessão de quimioterapia.

via The UberReview

Por trás daquele beijo

08/February/2008 - 13h33 - 89 Comentarios

Aproximadamente 10% da humanidade dispensa a osculação. Consideram o ato indecente, quando não nojento.

(Osculação? É a palavra científica para beijo na boca.)

A Scientific American do mês tem uma reportagem que faz um balanço das pesquisas recentes sobre o tema. Há descobertas da maior importância, como aquela da Universidade de Ruhr, na Alemanha, que demonstrou não importar se o indivíduo é destro ou se é canhoto. Na hora do beijo, inclina a cabeça para a direita.

Há entre 12 e 13 caminhos nervosos no crânio que afetam alguma função cerebral – e cinco deles trabalham pesado no momento do beijo. Mensagens são disparadas de nossos lábios, bochechas, língua e nariz. O cérebro processa informação relativa a temperatura, gosto, cheiro e movimentos os mais diversos e surpreendentes. A resposta aos estímulos vem num coquetel de químicos que afetam para bem ou para mal stress, motivação, ligações sociais e estímulo sexual.

Beijo joga o stress para baixo e a sociabilidade para cima. (E talvez não fosse preciso um doutorado em bioquímica para sabê-lo.)

Se por um lado tais benefícios todos do beijo na boca são comuns a ambos os sexos, por outro homens e mulheres beijam com objetivos distintos em mente – e quem o diz são antropólogos vários. Homens vêem o beijo como o primeiro passo para o sexo. (Uma descoberta surpreendente.) Já mulheres se dedicam ao beijo por conta do aumento de intimidade na relação. (Ora, pois.)

Mas, ainda aí, há provavelmente mais informação do que se imaginava. No beijo, a mulher recebe sinais bioquímicos que lhe permitem avaliar a qualidade do parceiro para procriação, seu grau de confiabilidade – e até mesmo se ele estará por perto para ajudar a cuidar da cria.

via Arts & letters daily

A incrível história dos gêmeos siameses

06/February/2008 - 15h31 - 36 Comentarios

A Biblioteca Nacional de Medicina, dos EUA, abriu uma grande exposição sobre o fenômeno dos gêmeos xifópagos – aqueles, univitelinos, que nascem de alguma forma ligados fisicamente.

Os relatos mais antigos vêm do finzinho da Idade Média e início da Renascença. Foi no renascimento que surgiram os primeiros best-sellers e os livros que causavam fascínio eram aqueles que relatavam grandes mistérios a partir de viagens a terras desconhecidas, talvez, ou mesmo de terrenos conhecidos.

(Marco Pólo foi um best-seller; em seu livro a respeito da viagem à China, descreve num momento o unicórnio que ele garantia existir. Era um rinoceronte.)

Gêmeos xifópagos atraem desde então. Sugeriu-se que eram filhos de mães que tinham tido pensamentos impuros. Ou que haviam tomado um susto. Eram sinal de má sorte para a comunidade em que surgiam – como, por exemplo, Verona, na Itália, onde em por volta de 1475 viveram duas moças unidas do ombro à bunda que dividiam entre si os rins. Ambroise Paré as descreve em seu livro Sobre monstros e prodígios. No caso destas moças, elas transformaram-se em renda para os pais, que as exibiram Itália afora. (Vai que a tragédia do amor suicida dos mui jovens Romeu e Julieta nasceu, ali em Verona, da má sorte destas.)

Os medos e receios supersticiosos de um tempo foram superados pelo showbiz circense do séculos 19, princípio do 20. São desta época Chang-Eng Bunker, os dois rapazes nascidos no Sião (hoje Tailândia) em 1811 que em 1829 foram levados à Inglaterra e depois EUA para serem apresentados ao público.

São os famosos ‘Gêmeos Siameses’ – e, por siamês, referiam-se ao Sião.

Chang-Eng largaram a vida de circo, assentaram numa cidadezinha da Carolina do Norte onde compraram uma loja. Lá, casaram-se com as irmãs (não siamesas) Sallie e Adelaide Yates. Dividiam uma mesma casa e uma cama muito grande. Chang e Adelaide tiveram 10 filhos; Eng e Sallie, 11. (Como as irmãs brigavam muito, acabaram decidindo por duas casas separadas; os gêmeos passavam três dias numa, três na outra.)

A primeira separação cirúrgica de xifópagos se deu em 1690 – mas, no caso, tratavam-se de irmãs ligadas apenas por pele e cartilagem. Apenas da década de 1950 para cá é que tais cirurgias são feitas com freqüência e terminam com a sobrevivência de ambos.

via Boing boing

Diversidade humana

01/January/2008 - 11h25 - 15 Comentarios

Olhando para frente. Quase encarando.

via Boing boing

O nascimento do homem

25/December/2007 - 06h20 - 25 Comentarios

Esta é a última de minhas reportagens sobre o Natal publicadas em NoMínimo. Esta saiu faz exato um ano, em 2006. O objetivo, após escrever sobre Jesus e Papai Noel, era escapar por completo à qualquer conotação religiosa do tema. Ao invés de o nascer do Homem, filho de Deus dos cristãos, o nascer do homem. De nós todos.

A princípio, os antropólogos liderados pelo professor Timothy White não perceberam muita diferença no crânio. Ele estava em fragmentos, disperso pelo solo etíope, e só muito lentamente, pincelada após pincelada, cada um de seus pedaços foi retirado. Em 1997 – faz dez anos ano que vem. No laboratório, o quebra–cabeça montado, o crânio de um homem adulto antigo, muito antigo, chamou atenção.

É que ele era grande.

O volume do cérebro, maior do que o nosso. Tinha um palato mais largo, também. Visto de cima, era um crânio mais comprido. Que bicho estranho era ele e, no entanto, tão parecido conosco. Não era um macaco. Quando chegaram os resultados da datação ficou claro quem era o sujeito que víamos pela primeira vez. Tinha 160 mil anos. O homem moderno mais antigo já encontrado tem uns 130 mil. O que White e seu time encontraram era um Homo sapiens, sim, mas não um de nós. Nosso antepassado imediato: Homo sapiens idaltu – o Homem sábio mais antigo, numa tradução literal de seu nome.

Amanhã é Natal, o dia em que a tradição cristã celebra o nascimento de Jesus Cristo e que representa, num nível mais simbólico – e essa é a visão de muitos teólogos –, o nascimento de todos nós. Mas quem somos nós? Ou talvez, perguntando de forma mais precisa, por que somos assim tão diferentes dos outros à nossa volta? Por que fazemos arte? Por que cometemos genocídio? Por que erguemos cidades, fazemos automóveis, conversamos uns com os outros, escrevemos? Por que fomos à Lua? Por que nos perguntamos essas coisas?


Read the rest of this entry »

Células tronco seguem em frente?

21/November/2007 - 16h48 - 48 Comentarios

Bom não deixar de registrar o anúncio, ontem, do trabalho de duas equipes distintas de cientistas, uma japonesa, outra norte-americana: conseguiram ‘reprogramar’ células de pele para se comportar como células tronco embrionárias.

É um avanço brutal que, aparentemente, enterra a polêmica que havia. Se, para a produção de células tronco não é preciso destruir embriões humanos, os receios de um bom número de gente são eliminados. Assim, as pesquisas com células tronco podem seguir a pleno vapor.

Células tronco são aquelas que podem ser adaptadas para virar quaisquer outros tipos de células. Podem transformar-se em células de fígado, por exemplo, que permitiram num futuro hipotético a produção de um novo fígado em laboratório.

O campo de pesquisa está repentinamente aberto.

A Lua e como ela nos fez

01/November/2007 - 05h23 - 45 Comentarios

Para alguns, a Terra pode até ter feito 6.010 anos. Já a ciência a vê um quê mais velha: 4,56 bilhões de anos. Quando ela tinha apenas 30 milhões de anos, no entanto, e oceanos de lava correndo na superfície, um objeto do tamanho de Marte chocou-se contra ela. Assim, um pedaço de nosso planeta se soltou.

Virou a Lua. (Quem conta sua história é Bernard Foing, cientista-chefe da Agência Espacial Européia.)

A Lua é pesada e grande o suficiente para afetar a Terra. A gravidade gerada pela proximidade de planeta e satélite atrai as águas, por exemplo, afetando as marés. A Lua também interfere com o comportamento da placas tectônicas que cobrem a superfície da Terra. É que a aproximação e o afastamento da Lua em relação à Terra gera energia, esquenta, esfria, provocando dilatação e contração da crosta.

A Lua afeta o clima. Por exemplo, as correntes subterrâneas do Pacífico mantém frio o mar na costa de Chile e Peru. Como é muito frio, não há precipitação e, portanto, raramente formam-se nuvens. Mas a força gravitacional da Lua por vezes arrasta estas correntes frias para mais longe da costa, provocando um número grande de nuvens que geram tormentas pesadas.

Hoje, há mais água no Equador. Tire a Lua repentinamente e esta água se redistribuiria toda em direção aos pólos.

A presença da Lua mantém o eixo de rotação da Terra em torno de si mesma estável. Não fosse ela, o planeta giraria solto, como acontece com Marte. Com a contínua mudança de eixo, os pólos se deslocariam. Mas a Terra tem esta qualidade constante, estável – graças à Lua. Por conta, não há mudanças climáticas drásticas. É graças a esta estabilidade que a evolução teve tempo de preparar suas artimanhas, desenvolvendo seres multicelulares complexos no lento caminhar de muitos milhões de anos.

A luz que a Lua reflete vinda do Sol nos moldou. Se a Lua é cheia, nossos olhos têm mais do que o suficiente de luz para enxergar bem. A tênue iluminação da Via Láctea já nos permite ver bastante. (Varia, mas isto é mais ou menos verdade para boa parte dos mamíferos.) São olhos moldados para a luz da Lua que, por certo, nos garantiram a sobrevivência como espécie. Somos como somos porque a Lua está lá em cima.

E não saberíamos de nada disto não fosse, bem, a Lua. A Lua nos ensinou sobre mudança e constância, sobre os ciclos da natureza. Porque o dela é o ciclo mais evidente. Não há distraído que não o perceba. Se sempre numa semana ela se mostrava de um jeito, na semana seguinte de outro, se repetia suas quatro fases sempre e todo dia, nos alertou para o fato de que muda e que muda sempre da mesma forma, no mesmo passo. A partir dos ciclos da Lua percebemos os ciclos das estações e os ciclos vários da Terra; contamos os dias e aprendemos matemática para prever como seria daqui a um mês, daqui a dois.

Foi por causa da Lua que criamos ciência.

via Boing boing

Se o neandertal falava?

24/October/2007 - 13h37 - 82 Comentarios

Pesquisando fósseis de neandertais espanhóis, o antropólogo evolucionista Svante Pääbo foi capaz de isolar e garantir que eles também tinham o gene FOXP2.

Isto tem a ver com a fala.

FOXP2 foi descoberto em 1990, nos estudos de uma família que não era capaz de falar. Variantes dele estão presentes em várias espécies, é responsável pelo canto de pássaros e os ruídos ultra sônicos de ratos. Nosso FOXP2 é diferente do equivalente em chimpanzés, o que indica que ele mutou-se em sua forma atual posterior a nossa separação de nossos primos vivos mais próximos, há 6 milhões de anos. Mas o gene que Pääbo encontrou no Homo neandertalensis é rigorosamente igual ao nosso – FOXP2 já estava conosco no estágio anterior à formação do Homo sapiens.

Ele não é, propriamente, o gene da fala. Ainda não conhecemos que gene é este, se é que ele existe. Mas ele é responsável pelos vários movimentos que geram a fala.

Sabemos, pela anatomia, que o Homo heidelbergensis, ancestral imediato do neandertal, tinha um ouvido sensível à freqüência de sons associadas à compreensão da fala. Sabemos que o neandertal tinha o equipamento, entre garganta e língua, capaz de vocalizar.

Se era capaz de produzir os elementos ainda que rudimentares de uma linguagem? Se teve linguagem como nós, Homo sapiens? A pergunta ainda está em aberto. Mas os indícios favorecem esta conclusão.

Saída criacionista perfeita
contra o fiasco evolucionista

17/October/2007 - 12h45 - 109 Comentarios

Evolucionistas se engajaram numa campanha de propaganda que pretende enganar o público, convencendo-no de que a Terra tem bilhões de anos e de que muitos animais que conviveram com Adão e Eva no Jardim do Éden morreram muitos anos antes da criação do homem (ou de sua evolução, como dizem em sua visão distorcida). Ao encontrar e apresentar exemplos vivos daqueles animais que os evolucionistas dizem serem impossíveis de existir, plantaremos a semente da dúvida no Evolucionismo, fazendo o público mais receptivo à Bíblia.

O plano do professor Richard Paley, professor do Divino e de Teobiologia da Fellowship University, é muito simples. Basta capturar alguns pterosauros e apresentá-los no Museu de Ciência Criacionista de Fellowship. Será preciso encontrar também alguns ovos, já que eles são animais que vivem em colônias.

Decidir por que animal apresentar vivo não foi simples e exigiu o estabelecimento de critérios. Os apatosauros, que vivem nas florestas do Congo, são muito grandes e vivem muito tempo. Já plesiosauros, que vivem em lagos, exigiriam a construção de um lago artificial. Encontrar trilobitas, que vivem nas profundas dos oceanos, seria um processo caro. Por fim, há os velociraptors. Eles, que aterrorizam pastores em Porto Rico e, sugerem os rumores, montam guarda frente os restos da Arca de Noé, são agressivos e, possivelmente, perigosos demais para um museu.

É – faz todo o sentido. Pterosauros, mais dóceis, são perfeitos. Basta apresentar um que a Teoria da Evolução Natural cai por terra.

via Bifurcated rivets

Procura-se ambientalista brasileiro

03/October/2007 - 13h01 - 56 Comentarios

É preciso escrever bem em inglês e conhecer o tema. Carece ter disponibilidade para publicar três posts por semana a respeito do que acontece nas terras tupinambás.

É de suma importância ter sangue verde. (Aqueles com sangue azul ou vermelho, melhor não se inscrever.)

Paga em dólar.

Interessados podem se informar no Tree hugger.

As imagens a seguir não são para olhos sensíveis

28/September/2007 - 10h48 - 8 Comentarios

via Sexoteric (NSFW)

O papagaio inteligente Alex e nós

18/September/2007 - 00h01 - 43 Comentarios

Alex, o papagaio cinza africano que morreu na semana passada, ainda é uma incógnita científica. Parecia inteligente. Sabia contar, reconhecia os algarismos de 1 a 9. Apresentasse a ele continhas: duas verdes, três azuis, quatro vermelhas e o perguntasse em inglês que cor menor, Alex responderia Verde.

Pareceu reconhecer duplas de letras que formavam determinados fonemas. Certa vez, ao não ser premiado após responder uma pergunta, respondeu à segunda e reclamou: Quero noz.

Ganhou sua noz.

Doutras vezes, irritava-se, não respondia. Em um dos últimos testes que sua treinadora fez, ela perguntou qual era a cor do 3 para Alex. Havia três contas verdes. Quatro vermelhas. Outros tantos conjuntos doutras cores. Cinco, dizia Alex. A treinadora insistiu na pergunta. Cinco, ele respondia, sem fazer sentido. Não havia cinco contas de cor alguma. que cor cinco a moça decidiu perguntar intrigada.

None, disse Alex. Nenhum.

Teria compreendido o significado de zero? É um conceito ali do lado do infinito, sofisticado, complexo. Que é saber, afinal? E que é conhecer? Compreender? Uma das coisas que, compreendidas, nos faz humanos é esta abstração de entender o nada. A ausência.

Em seu simpático obituário de Alex, no New York Times, George Johnson, repórter especial de ciências, pondera a respeito do que Alex entendia de fato, aos 31 anos, à beira da morte. Será que ele entendia o zero, será que naquele pássaro havia uma mente ativa – será que compreendia a ausência de sua morte iminente?

Há uma pergunta mais profunda, aí: não sabemos de fato o quão distantes estamos das outras espécies. Não sabemos com absoluta certeza se a metafísica nos faz únicos.

Plantando manjericão em casa

14/September/2007 - 13h21 - 30 Comentarios

Manjericão fesco é bom ter sempre na cozinha. Neide Rigo ensina a plantar:

Voltando à estufa, a técnica que aprendi consistia em cortar as ponteiras das ervas - a parte jovem do galho, com cerca de 3 a 5 folhinhas, e plantar numa caixa com terra ou areia bem fofa e úmida (eu uso uma caixa de frutas, de madeira, forrada com manta acrílica e terra). Aí é só cobrir com plástico transparente, deixar em lugar fresco e iluminado e esquecer dela. A umidade vai circular, as folhinhas nem chegam a murchar e depois de uns 30 dias os galhos já estarão todos com raízes. Basta agora transplantar para o local definitivo.

Você pode fazer isto até com as ervas de bandejinha ou de maços vendidas nos supermercados, desde que bem frescas. Corte a pontas e deixe-as por uns 15 minutos na água para recompor a umidade perdida. E pronto, é só enfiar na terra da caixa, apertando com os dedos. O professor ensinou a tirar os galhinhos de alguma erva adulta plantada (ou seja, você tem que pedir para alguém ou usar a técnica para multiplicar o que já possui). Tem que cortar com tesoura e deixar cair sem demora na água para não desidratar. Só que eu fiz isto com as ervas de supermercado mesmo, mais de uma vez, e todas enraizaram igual. Já o manjericão enraíza de qualquer forma e em poucos dias, na estufa ou direto na água (lembrando de trocar a água todos os dias para ela não ficar mal-cheirosa ou virar criatório de mosquito).

Em seu (excelente) blog, as fotos da operação.

Cérebro de esquerda, cérebro de direita

13/September/2007 - 15h09 - 37 Comentarios

David Amodio, professor de psicologia da Universidade de Nova York, convocou 43 pessoas para uns testes.

Primeiro, perguntou a cada um, individualmente, como se posicionava politicamente numa escala que ia de -5 (extrema esquerda) a +5 (extrema direita).

Então, postou cada um perante um computador em cuja tela aparecia, por 0,1 segundo, ou a letra M ou a W. Se fosse M, o sujeito devia apertar um botão qualquer no teclado; fosse W, deveria fazer nada. Repetiu o tal do teste 500 vezes enquanto escaneava-se o acende e apaga das regiões cerebrais.

No caso, buscavam com o exercício ação no córtex cingular anterior. Quem tem mais atividade nesta região, acredita-se, tem maior capacidade de adaptar seu comportamento perante uma situação nova.

No artigo do professor Amodio, publicado na respeitada Nature Neuroscience, aqueles que se declararam de esquerda têm 2,5 vezes mais atividade por ali.