Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Energia e Aquecimento global'

Por que o petróleo sobe?

21/July/2008 · 32 Comentários

Howell Raines, ex-diretor de redação do New York Times, publicou uma boa análise da alta do preço de combustíveis nos EUA, parcialmente aplicável ao resto do mundo. A teoria corrente trata do seguinte: oferta e demanda. China e Índia estão consumindo mais. Há mais demanda para a mesma oferta, os preços sobem.

Não exatamente, sugere Raines.

Executivos das petroleiras acreditam numa versão atualizada da Teoria do Pico do Petróleo, apresentada em 1956 pelo geólogo M. King Hubbert. Ela propõe que por conta da finitude dos campos de petróleo e pelo alto custo da produção, a indústria norte-americana do petróleo chegará a um nível máximo em determinado momento e, aí, começará a decair. A versão atualizada afirma que a produção máxima de petróleo nos EUA se dará em 2020.

As petroleiras estão recebendo um preço bastante alto por um produto que, elas acreditam, ficará cada vez mais difícil de obter no futuro e que também será menos valioso por conta da concorrência de outros combustíveis. O jogo inteligente a fazer, do seu ponto de vista, é desviar cada centavo para o lucro e aproveitar enquanto o Cassino do Ouro Negro ainda está funcionando. Para confundir público e imprensa, eles selecionam vários homens para fazer as relações públicas e culpar a falta de petróleo que você prevê faz meio século em: falta de refinarias, legislação ambiental, e os lençóis imaginários no Alaska.

Ou seja, a indústria do petróleo, nos EUA, está botando o lucro no bolso e não investe nada em produção. A mesma indústria, nos últimos 25 anos, fechou metade das refinarias no país. E, embora o discurso das empresas afirme que tudo ficaria melhor se perfurar nas reservas ambientais do Alaska fosse legal, elas não começaram ainda sequer a explorar 80% dos territórios, nos EUA, que o governo já autorizou. “Todo repórter por aí compra essa história de oferta e demanda”, ironiza Don Barlett, da revista Time. “Se eu estivesse nas relações públicas das petroleiras, ia continuar batendo na mesma tecla.” Raines continua sua coluna:

Oferta e demanda? Claro, mas como lembra John Lee, veterano repórter do Wall Street Journal e que foi do New York Times por muitos anos, oferta e demanda de petróleo não são apenas ‘dois gráficos que indicam de onde vem, para onde vai’. Há motivos mais complexos na determinação do preço que se paga no posto de gasolina. ‘O preço na bomba sempre refletiu o último preço de pico, ou seja, aquilo que gasolina custa no mercado geral. É o preço do momento e não o preço baseado na gasolina comprada e estocada nos armazéns.’

Digamos que você seja uma empresa petroleira vendendo gasolina nos postos e que, nos seus armazéns, existem barris que foram comprados a 140 dólares e outros a 75. Tem muito espaço aí para manipular os preços. Mas, por favor, nem sequer pense que a Exxon Mobil ousaria manipular preços assim. Assim como eu e você, eles são escravos destas forças tremendas, oferta e demanda.

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Melhor que energia nuclear: economia

8/July/2008 · 61 Comentários

Não raro, recentemente, mais especialistas vêm defendendo o uso de energia nuclear. É mais limpa que os combustíveis fósseis e as usinas são mais seguras. No El País, o ex-ministro do meio ambiente alemão Jürgen Trittin vai contra.

Desde finais dos anos 70, ele diz, só foi construída uma usina nuclear na Europa, ao passo que cinco foram fechadas. Elas são responsáveis por 3% da energia do continente. Não é só por uma questão de segurança: o quilowatt nuclear é caro, mesmo com o preço do petróleo nos píncaros. Seria, portanto, preciso subsidiá-la.

O caminho, ele argumenta, não é este. Os que os europeus precisam fazer é enfrentar o fato de que importam 75% de sua energia. Precisam, portanto, economizá-la. Sai mais barato, coisa aconselhável em tempos de crise, e é melhor para o ambiente. É sua receita, aliás, para o mundo todo. Na Alemanha, a regulamentação para as construção de casas é rigorosa. Devem ter, por exemplo, isolamento térmico, que economiza na refrigeração ou no aquecimento do ambiente. É uma obra que se paga na conta de luz. O carro, evidentemente, deve ficar em casa de vez em quando.

Trittin defende que, se é para gastar dinheiro, os governos devem esquecer o nuclear e investir em projetos de economia energética, incluindo-se subsídios e incentivos fiscais para obras. É boa política econômica e ecológica.

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Dez formas de combater o aquecimento global

1/July/2008 · 167 Comentários

A Wired tem uma lista um tanto polêmica de coisas a fazer para diminuir a emissão de carbono e, portanto, combater o aquecimento global.

1. Viva numa cidade. Prédios de apartamentos consomem menos energia no inverno do que casas, mas esta não vale tanto para cidades grandes brasileiras como São Paulo. Uma cidade bem azeitada, como Nova York, Paris ou Londres, tem transporte público que as pessoas de fato usam. Cidades favorecem, por sua arquitetura, o transporte de grandes massas de população gastando muito pouco combustível fóssil. Quem vive no campo ou em cidades menores depende do automóvel.

2. Viva em lugares quentes. É preciso menos energia para diminuir a temperatura de um ambiente do que para esquentá-lo. Ar-condicionado gasta menos energia do que aquecedor.

3. Consuma alimentos não orgânicos. Agricultura industrial é mais eficiente. Uma vaca que não foi criada com hormônios e outros truques produz menos leite e emite mais gás. Uma plantação orgânica precisa de mais terra do que uma industrial.

4. Trate as florestas como parques. Árvores são boas e sugam carbono do ar quando saudáveis. Quando já velhas ou mortas, apodrecem e emitem carbono. Deixar as florestas bem capinadas pode transformá-las em máquinas de sucção e emissão quase zero.

5. Confie na China. Nenhum país está produzindo tanta tecnologia de produção de energia limpa quanto a China. Eles têm três motivos para estar nessa posição. O primeiro é poluição atmosférica, um sério problema lá e uma das maiores causas de insatisfação popular. O segundo é a ameaça de enchentes cada vez mais constantes pelo aquecimento nas cidades costeiras. E, por fim, há o enorme mercado externo por painéis de captura de energia solar e afins.

6. Aceite engenharia genética. A agricultura é responsável, hoje, por 14% das emissões de carbono. Temos seis bilhões de pessoas para alimentar. Hora de apostar na eficiência. Modificação genética permite diminuir a necessidade de pesticidas e, principalmente, fertilizantes a base de nitrogênio. Estes fertilizantes são os maiores vilões: são feitos com gás natural, tira-se o nitrogênio, joga o carbono para cima.

7. Abandone o modelo de créditos de carbono global. É impossível monitorá-lo. A árvore que prometeram plantar na Bolívia para compensar uma viagem de avião pode ser cortada sem que ninguém veja. Localmente o sistema pode funcionar.

8. Abrace a opção nuclear. É a única fonte de energia que tem escala industrial e não emite carbono.

9. Compre um carro usado. Fazer carro joga carbono na atmosfera. Muito. Um carro menos poluente precisará rodar muitos quilômetros e queimar muita gasolina até compensar as emissões gastas para produzi-lo. O carro usado já pagou essa conta.

10. No fim, não adianta. Se EUA, Japão e Europa desligarem suas usinas termoelétricas e seus carros agora, ainda assim as emissões de Índia e China farão com que o índice de gás carbônico salte das atuais 380 partes por millhão na atmosfera para as 450 ppm em 2070. Como nada será desligado, a marca será alcançada em 2040. Precisaremos lidar com um planeta mais quente de qualquer jeito. A revista sugere que, com nossa tecnologia, estamos mais bem preparados para lidar com o aumento de temperatura do que para evitá-lo.

Tudo que entendíamos sobre aquecimento global e sua prevenção está errado, portanto? A revista foi corajosa o suficiente para publicar ao fim de suas páginas de conteúdo politicamente incorreto um artigo de Alex Steffen, editor do manual Worldchanging. Ele diz que toda a lista está errada por um motivo simples: ela parte da premissa de que lidar com aquecimento global é fazer aritmética de carbono. Não é.

Há mais do que isso. Aquecimento global não é o problema. É o sintoma. Nos relacionamos mal com o planeta. Precisamos aprender a sermos industriais, urbanos e nos alimentarmos a todos causando o menor impacto possível no ambiente. É aí que está a chave da questão.

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O etanol brasileiro e a ecologia

29/June/2008 · 40 Comentários

Alguns números e dados que a Economist da semana cita para defender o etanol brasileiro das críticas no exterior.

Um dos problemas dos combustíveis é a relação entre energia gasta para produção e o resultado final. Para cada 1 consumido na produção de etanol de cana, ganha-se 8,2; a relação do etanol de milho é de 1 para 1,5. Ou seja, para produzir etanol de milho é preciso gastar gasolina à beça. Com a cana, açúcar puro, é diferente.

Uma crítica contumaz diz que as plantações de cana expulsam o gado e, portanto, aumenta o desmatamento na Amazônia voltado para pasto. Os canaviais ocupam 7 milhões de hectares no Brasil e apenas metade é voltado para combustível; o pasto ocupa 200 milhões. Segundo a Economist, os canaviais podem se expandir só em pasto degradado sem sequer tocar no preço da carne.

Isto não leva em conta o fato de que a tecnologia para aproveitamento de cana na produção do etanol está próxima de dar um grande salto de produtividade. A manipulação genética já produz espécies com 80% mais de sacarose ou capazes de agüentar sem água por 45 dias.

O grande problema da cana são os trabalhadores, com cujas imagens do serviço exaustivo e degradantes estamos acostumados a ver. São 440.000 homens e mulheres. O problema destes não é que o trabalho seja duro demais. (Um em cada 26.000 bóia fria da cana morre por acidente de trabalho; a média agrícola nacional é um em cada 16.000.) O problema é que espera-se que a colheita de cana seja feita totalmente por máquinas até 2012. São quase meio milhão de pessoas sem qualquer preparação formal desempregadas.

Mas, se este é um problema que o Brasil terá de encarar, ele nada tem nada a ver com impacto ambiental. O etanol de cana é uma das melhores alternativas já existentes para substituir o combustível a base de petróleo.

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O petróleo saudita e as fontes alternativas

26/June/2008 · 23 Comentários

A Arábia Saudita promete que aumentará o fluxo de petróleo em direção ao mundo. Maior oferta, cai o preço. Quem sabe assim o barril a 200 dólares nunca chegue.

Muitos analistas estão céticos. Uns dizem que os sauditas já fizeram essa promessa antes e não a cumpriram; outros sugerem que eles sequer têm como. Seu maior campo está próximo do pico e não agüentará o tranco de aumento.

É sempre tudo muito nebuloso quando o assunto envolve Arábia Saudita e petróleo. Há pouca informação e muita interpretação.

Thomas Friedman, do New York Times, vai na contracorrente. Ele acha que os sauditas vão mesmo aumentar a oferta. Acha mais: que eles não têm escolha. George W. Bush está tentando diminuir o preço da gasolina nos EUA a todo custo e combustível é um dos grandes temas das eleições presidenciais.

Para os sauditas, não é apenas o impacto no eleitor norte-americano e o tipo de presidente que podem eleger o que importa. É também o mercado para energias alternativas. Com combustíveis fósseis em alta, mais fábricas de painéis de energia solar ou moinhos de vento surgirão. Maior oferta, menor preço. Nos EUA, por exemplo, onde a energia elétrica vem de combustíveis fósseis, alimentar a casa ou a empresa com uma fonte própria sai em conta conforme aumenta o preço do petróleo.

Vai ainda além: petróleo caro faz com que o desenvolvimento de fontes alternativas seja melhor financiado e, portanto, fica mais eficiente.

Há um ponto ótimo para que a máquina comece a girar. Os sauditas querem mais dinheiro, evidentemente, mas temem uma crise financeira mundial como a dos anos 1970. É preciso alimentar o vício mas sem matar o hospedeiro. E temem que alternativas ao seu combustível comecem a surgir com maior rapidez. Assim vai o raciocínio de Friedman.

E, evidentemente, sempre há um ou outro que vive no mundo maravilhoso de Gordon Brown, o premiê britânico. Ele tem essa idéia: os sauditas ganharam 3 trilhões de dólares. Por que não investem eles próprios em fontes alternativas de energia?

Ora, pois. Quem sabe pedindo por favor não ajuda.

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O dia que corre

5/June/2008 · 20 Comentários

O portal do Estadão está com uma capa excelente para celebrar, hoje, o Dia Internacional do Meio Ambiente.

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Índia, China, o preço do crescimento
e as culpas de nós todos

4/June/2008 · 125 Comentários

Há um elefante no meio da sala geopolítica. O sempre excelente Gideon Rachman, editor de internacional do Financial Times, o apresenta.

É tudo muito desconfortável. China e Índia estão enriquecendo. E, ao que parece, a nova classe média de lá quer todas as coisas que queremos: carros, máquinas de lavar, até mesmo carne. Aqui no ocidente, temos de nos controlar para não dizer: ‘Parem! Vocês não podem viver como nós. O planeta não agüenta. Nossas carteiras não agüentam. Vocês viram o preço do petróleo?

Igualdade global é a questão desconfortável por trás da crise mundial de alimentos. Também será o problema fundamental nas discussões de energia e aquecimento global.

Não é uma questão de ser contra ou a favor. São os fatos como eles são. O planeta não agüenta. E ninguém tem realmente o direito de dizer que eles não podem.

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George W. Bush e sua derrota
para o aquecimento global

27/May/2008 · 71 Comentários

Para quem está no poder, ano eleitoral é sempre difícil. Quando a reeleição não é mais permitida, ano eleitoral é o lento caminho em direção à decadência. Em seu último ano, Bill Clinton depositou todas suas fichas na tentativa de criar o Estado palestino. Chegou mais perto do que ninguém jamais havia chegado. Mas não deu. George W. Bush, que ainda não descobriu o que quer fazer com seus últimos meses, já está percebendo que o governo não segue mais suas diretrizes. O exemplo mais nítido disso é o do aquecimento global.

Os poucos senadores republicanos que faziam troça da ciência que comprova as causas humanas do aquecimento foram para o fundo da sala. Estão quietos. O novo líder do partido, John McCain, já defendia medidas para reduzir as emissões de carbono norte-americanas desde antes de o assunto ser moda.

McCain é favorável ao sistema de créditos de carbono, no qual às empresas é imposto um limite de emissão e, a partir daí, devem comprar ‘créditos’, ou seja, financiar programas de captura de carbono na armosfera. Boa parte da bancada republicana tem horror à idéia. Enquanto os anti-cientificistas se calam porque não têm mais espaço, os menos radicais buscam alternativas mais ‘amigáveis em relação ao mercado’. Querem poupar as empresas de gastos excessivos.

Ainda que novas leis não sejam aprovadas de imediato, cortes de impostos para a indústria do petróleo – que aconteceram durante o governo George W. Bush – estão fora de cogitação. O clima já é outro no Congresso e mais rigor virá.

(Tudo, naturalmente, mudará no caso de uma derrota de John McCain. Se acontecer, a trupe contra a ciência do aquecimento volta à tona. Mas, a essa altura, num possível governo Barack Obama – ou, vá, Hillary Clinton – tudo faz crer que a bancada republicana será bem menor na Câmara e no Senado.)

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A queda de Marina Silva e a
elevação de Carlos Minc

14/May/2008 · 201 Comentários

Marcos Sá Corrêa faz, em O Eco, uma análise do que representa a queda de Marina Silva e a elevação de Carlos Minc para seu cargo à frente do ministério do Meio Ambiente. Trechos:

No ano passado, o PAC foi o atestado oficial de que Marina Silva tinha ficado para atrás, em seu próprio território. Na Amazônia, onde ela queria botar, com fé meio cega, mas sincera, assentamentos de sem-terra, reservas indígenas, populações tradicionais e outras trincheiras muito sociais e pouco ambientais das políticas de conservação da floresta, o governo resolveu pôr estradas, portos, canaviais e usinas, anunciados com ostensivo descaso pela ministra.

Não é de ontem que Marina Silva estava à sombra da ministra Dilma Rousseff, que é francamente hostil ao ambientalismo, como todo administrador essencialmente autoritário. Abaixo da Casa Civil, o ministro Mangabeira Unger ultimamente se arvorou de palpiteiro-mór do desenvolvimentismo na Amazônia, tomando as rédeas do PAS, que não passa de um PAC regional com outra sigla. Ou seja, até as funções indefiníveis do ministro de Assuntos Estratégicos passaram a valer mais que as da ministra do Meio Ambiente. Demitida pelo visto ela já estava. Faltava só demitir-se, antes que o segundo ou o terceiro escalão do governo atropelassem sua pasta. […]

Por dentro, sua demissão mudará pouco o governo. Ela já estava mesmo meio fora da equipe. Com o secretário estadual Carlos Minc em seu lugar, talvez diminua o ruído. Minc é o abre-alas da escola carnavalesca do ambientalismo brasileiro. Tende a evitar atritos com a vanguarda interna do desflorestamento, para procurar seus adversários o mais longe possível de Brasília. É longe do Brasil, no exterior, que Marina Silva fará falta. Sem ela, o presidente Lula perde a última ficha para freqüentar mesas de quem aposta no futuro da floresta.

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Uma entrevista aos sábados

19/April/2008 · 23 Comentários

Criamos uma companhia chamada Aracruz Florestal, de plantio de eucalipto. Porque a primeira idéia era a de exportar tipos, como, aliás, muita gente faz hoje em vários países, inclusive o próprio Brasil. Mas aí se decidiu fazer celulose. Então, foi fundada a Aracruz Celulose, que é o que você conhece hoje. Durante esse período em que eu estava na Vale do Rio Doce, nós começamos a fazer parques florestais. Mais tarde, ainda no tempo em que estava na Vale do Rio Doce, compramos a floresta de Linhares, que era uma floresta nativa, na época em que o estado do Espírito Santo estava sendo devastado. Nós compramos aquilo para preservar. A desculpa para a diretoria da Vale aceitar a aquisição foi a que se tratava de uma fazenda de dormentes. Era a única maneira de aceitarem um investimento como aquele em uma época na qual todos estavam queimando floresta para fazer pasto. Aliás, como até hoje fazem na Amazônia. Isso em 1954, 55, 56, por aí. A reserva foi comprada, não se tirou nenhum pau para fazer dormentes. Foram criadas lá pesquisas, além de um herbário para estudar as madeiras locais. Infelizmente muita pesquisa só atingiu o problema do uso mercante da madeira e não para usos da farmacologia, indústrias químicas e outras utilidades.

Em 1991, o sr. Stephan Schmidheiny [fundador da Avina] foi convidado pelo presidente da Conferência do Rio, sr. Maurice Strong, para fazer a Rio-92. Ele então veio para o Brasil, visitou a Aracruz, que também trabalhava com esta linha e já tinha essa preocupação de juntar floresta nativa com espécies exóticas. Isso porque a floresta nativa abriga animais e plantas, e a interação entre fauna e flora é extremamente importante. Curiosamente, a introdução de sementes exóticas pode prejudicar alguns setores, mas também pode beneficiar muitos outros. Você não vai plantar eucalipto em uma nascente. Em compensação há plantas exóticas cujo período de dormência no inverno lá fora corresponde ao período de seca aqui, portanto ela não suga água no período da seca. Então beneficia a nascente. Durante a visita, o sr. Schmidheiny foi à Aracruz e a Carajás. Ele notou que estávamos trabalhando bem, isso está no livro ‘Sustentabilidade’. Ele diz lá que nós já praticávamos essa combinação dos lados ambiental, econômico e social simultaneamente. (lê trecho do livro) ‘Eliezer Batista, na época diretor da Rio Doce Internacional, defendia o desenvolvimento sustentável antes da conferência do Rio e permanece como um de seus defensores desde então’. E viu isso realizado lá em Carajás. Aí ele teorizou toda a noção do desenvolvimento sustentável, que não é nada mais do que isso. Foi daí que saiu a Conferência da Rio-92, mas pouca gente sabe que se originou dessa maneira.

Hoje, a única coisa imediata que você tem para mitigar os efeitos do clima é o plantio de árvores. Não há mais nada de efeito imediato. Será preciso usar energias alternativas, mas tudo isso vai demorar muito tempo. Para efeito imediato, o que existe é recuperar. Não há água sem florestas. E sem água não tem vida. A floresta é uma maneira de recuperar os recursos hídricos e, portanto, recuperar a vida, recuperar o ambiente. Esse é um dos primeiros passos, coisa que estamos tentando fazer em Minas Gerais agora.

Eliezer Batista

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A casa que consome energia zero

1/April/2008 · 61 Comentários

A nova legislação, na Califórnia, exige que toda construção residencial erguida a partir de 2020 tenha gasto zero de energia. A partir de 2030, a regra vale também para as comerciais.

Gasto zero de energia?

Zoka Zola, uma premiadíssima arquiteta croata que vive em Chicago tem um projeto em construção. É a Glass and Bedolla House, uma casa de três andares que produz toda a energia consumida ao longo do ano.

Há três tipos de gerador de energia. Um geotérmico – aproveita o calor do solo –, painéis solares e moinhos de vento. Evidentemente, nada é tão simples. Com o apagar e acender de luzes, aparelhos eletrônicos diversos, aquecimento para inverno com neve, a energia consumida por uma família de classe média norte-americana não é pouca.

É onde entra a arquitetura. O local onde a casa está sendo construída foi estudado por um ano. Zola e sua equipe documentaram onde o sol bate, a que horas, em que estação. A casa é toda é recortada por grandes janelões de vidro móveis. Durante o verão, abertos, eles ventilam e refrescam o espaço. Uma árvore ao sul, cuidadosamente alocada, faz sombra. No inverno, o sol atravessa as janelas e esquenta o concreto imposto no interior, aquecendo o espaço.

É uma casa iluminada o dia todo, enquanto há luz do sol. As paredes externas são cobertas por trepadeiras, o telhado por grama, musgo e ervas. Fazem isolamento térmico.

A idéia é inspirar. Uma pista de como serão as casas no futuro.

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Sobre esquerda e direita,
ideologia e dogmas

6/March/2008 · 564 Comentários

Um leitor de esquerda me escreveu assustadíssimo esses dias perante a acusação feita pelo governo colombiano de que Hugo Chávez havia cedido 300 milhões de dólares às Farc: ‘Será que o Olavo de Carvalho está certo?’, ele perguntava. Outro – este de direita –, aqui na caixa de comentários, vinha todo empolgado provar que o site do Foro de São Paulo no Brasil pertencia ao PT. (Não é novidade.)

Neste meio tempo, um terceiro leitor me cobrou: ‘você não pode ficar em cima do muro, não pode dizer que não gosta de Chávez e que não gosta de Uribe’. Coisas deste tipo tenho ouvido muito, recentemente. ‘Finalmente mostrou sua verdadeira cara!’, dizem uns perante um tipo de comentário. ‘Amadurecendo!’ dizem outros. ‘Enfim um mínimo de sensatez perante os opressores’, vão uns terceiros.

A crise andina serve para mostrar que o nível da conversa anda surreal. Não é só aqui no Weblog. É em toda a blogosfera.

Estamos caminhando para um regime multilateral em que países diferentes terão poder suficiente para interferir na economia e na diplomacia mundiais. Os EUA continuarão, mas virão China, União Européia, possivelmente Rússia, Índia, Brasil, talvez até a África do Sul. Alguns destes países são democracias, outros não. Um deles é uma ditadura. Outros se encaixam num estranho e desconfortável meio termo que vem se espalhando pelo planeta, espécies de ditaduras democraticamente eleitas.

Nenhum destes países (ou bloco de países) tem um currículo escorreito de defesa dos direitos humanos. Há pressões étnicas e culturais de todo tipo trazidas pela globalização. Nos anos 90, a esquerda a atacava com argumentos econômicos. Hoje em dia, percebendo que as culturas se misturam mesmo, é a direita que a ataca. Globalização boa é aquela na qual a gente dita as regras, dizem ambos.

Há pressões econômicas. Perda de emprego, necessidade de melhor educação para competir, queda dos níveis de natalidade entre os mais ricos, guerras civis brutais estourando nos cantos mais pobres. Há grupos econômicos, grandes corporações, que têm mais poder que muitos países e não se sentem obrigadas a seguir nenhum padrão ético. Há pressões ambientais. Há um ataque frontal do obscurantismo contra a ciência. Há um apelo da religião por mais poder político. Há um desejo da religião de ditar o comportamento da sociedade interferindo no Estado. É preciso consumir petróleo porque é o petróleo que gera riqueza e, sem gerar riqueza, justiça social não é possível. Mas o petróleo também sustenta ditaduras sangrentas e envenena o planeta de uma forma tal que não temos como prever ao certo suas conseqüências ou nossa capacidade de repará-las.

O mundo anda complicado. Imensamente complicado. Todos aqueles problemas que sempre tivemos – racismo, genocídio, ditadura, populismo, pobreza, doenças –, tudo continua a existir. Alguns problemas que pareciam ter ido embora, voltaram: é o caso da interferência da religião no Estado. E há uma penca de problemas novos que vão do Aquecimento Global ao estudo de células tronco ao terrorismo com alcance global.

Enquanto o mundo anda mais complicado do que jamais foi, esquerda e direita abraçam velhos conceitos. Não importa a evidente violência com que agem as Farc, tampouco o fato de que a sociedade colombiana está exausta delas. Se é uma guerrilha, ainda mais com discurso de esquerda, há de ser bom. Não é. São só golpistas assassinos, torturadores. Uma gente que prende outras por anos a fio. Já passamos desta fase na América Latina. Seria bizarro o suficiente se não houvesse pelo mundo gente à direita que jura combater um comunismo inexistente e que, além de se embaralhar na bandeira religiosa, age com um anti-cientificismo grosseiro.

É um jogo de estereótipos e de cartas marcadas. Se você é de esquerda, tem de ser pró-Palestina; se de direita, pró-Israel. Se de esquerda, anti-EUA; se de direita, há de estar convencido da decadência européia. O raciocínio corrente é que o amigo de meu inimigo, por via das dúvidas, é com quem me alinho. É a insistência de ver o mundo com um bilateralismo que não corresponde mais à estrutura real, econômica ou social do mundo. E, assim, abre-se espaço para os demagogos de esquerda e de direita.

Pois bem: cá neste Weblog, cada situação continuará a ser encarada por si. Sou de esquerda e continuarei de esquerda. Para mim, isto quer dizer que o Estado laico tem responsabilidades econômicas perante a sociedade, deve serviços a ela. Quer dizer que acredito que as empresas também têm responsabilidades econômicas e sociais perante a comunidade que as sustenta. Acredito em liberdade de expressão sobretudo e não acredito em laissez-faire sem vigília. Mas entre as idéias de Thomas Jefferson e as de Lênin, sigo com as de Jefferson.

Não é difícil ter problemas com Uribe e com Chávez ao mesmo tempo. Basta não achar que qualquer ilegalidade é justificada para combater o outro lado.

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McCain, Guantánamo e seu governo

19/February/2008 · 45 Comentários

Os Estados Unidos nunca mais vão torturar um único preso sob sua custódia. A prisão de Guantánamo será fechada imediatamente e todos os prisioneiros, lá, serão transferidos para o Forte Leavenworth, no Kansas. Vou enfrentar as mudanças climáticas e tentarei ao máximo encontrar neste tema algum acordo que inclua Índia e China. Os EUA voltarão a atuar de forma multilateral.

John McCain, em entrevista ao diário espanhol El País, sobre que tipo de governo faria caso fosse eleito.

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A Terra vista do espaço: um modelo

13/February/2008 · 16 Comentários

Utilizando fotografias e estudos da Nasa, o site do Discovery Channel desenvolveu um modelo do globo terrestre visto neste momento da história. O objetivo é retratar a crise ambiental do planeta.

O globo pode ser girado em qualquer sentido e já existem alguns filtros que podem ser aplicados a ele. Um mostra o aumento recente de temperatura das diversas correntes marinhas; outro, a formação e caminho seguido pelo furacão Katrina, que arrebentou Nova Orleans, nos EUA.

O projeto é maleável. Brincando com o sistema é possível interpolar as nuvens que cobrem a Terra nas últimas 24 horas ou as anomalias na temperatura da superfície dos oceanos.

Não é um sistema simples – interpretar o que se vê na tela depende de um certo acompanhamento do noticiário científico. Mas é um brinquedo e tanto.

via Metafilter

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Terra entra em nova Era Geológica?

29/January/2008 · 150 Comentários

O homem não é a primeira espécie a mudar drasticamente o clima do planeta. As plantas já o haviam feito – a diferença é que não tinham consciência do que faziam. A mudança, agora, é grande o suficiente para quem um grupo cada vez maior de cientistas defenda a idéia de que mudamos de Era Geológica.

Segundo a tradição científica, estamos no Holoceno, período que se iniciou há 11.000 anos, quando terminou a última Era Glacial. Em 2000, o químico Paul Crutzen, sugeriu que o Holoceno já havia terminado. Quando Crutzen fala, a comunidade científica ouve. Afinal, ele é um dos que provou o impacto dos CFCs na Camada de Ozônio, feito que lhe valeu um Prêmio Nobel.

Mas o que ele tinha era uma idéia, uma sugestão, não mais que isso. Agora, um paper publicado na revista da Sociedade Americana de Geologia por geólogos britânicos convoca quem é da área a levar a idéia a sério. O Holoceno, dizem seus autores, terminou. O clima da Terra já não tem as mesmas características e tampouco segue exatamente as mesmas regras e ciclos que seguiam no Holoceno.

Entramos, dizem Jan Zalasiewicz e Mark Williams, no Antropoceno. E ele teria começado na época da Revolução Industrial.

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Energia elétrica jogada fora

25/January/2008 · 59 Comentários

Numa típica casa de classe média norte-americana, o consumo elétrico dos ‘aparelhos vampiros‘ representa de 5 a 8%, às vezes chega a 10%, da conta de energia elétrica – número do Departamento de Energia dos EUA, equivalente ao nosso ministério.

‘Vampiros’ são os aparelhos que consomem energia mesmo quando ninguém os usa. É o relógio do videocassete ou microondas, o led da televisão, um computador ligado horas com o screen saver – consoles de videogames que permanecem ligados são os campeões estatísticos.

A energia elétrica jogada fora assim representa 1% das emissões anuais de carbono em todo o mundo.

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Bali, Aquecimento Global e
EUA e Brasil como vilões

17/December/2007 · 78 Comentários

São duas as histórias para serem contadas a respeito da reunião da ONU para discutir o aquecimento Global, que terminou em Bali no último fim de semana.

A primeira é a virada de mesa que China, África do Sul e Brasil lideraram contra os EUA. Os três lideram o grupo chamado G77 + China, que reúne incontáveis países em desenvolvimento. O plano norte-americano era não assinar nada e como qualquer decisão viria apenas por consenso, a atitude dos EUA tornaria a reunião inútil.

A pressão começou por parte da União Européia. Os países membros ameaçaram boicotar o MEM, reunião que acontecerá em setembro, nos EUA, para tratar de que tipo de tratado sucederá o de Kyoto. Esta reunião, proposta por Washington, é a tentativa de George W. Bush mostrar alguma liderança na questão. Sem a Europa, não haveria encontro.

Mas o que virou mesmo foi, ao longo do dia de sábado, a série de discursos por parte de países em grande parte do hemisfério sul, o G77 + China, que tinham por mensagem, simplesmente, ‘não quer liderar, então não atrapalha’.

Se a diplomacia dos EUA não mudasse de posição, o Partido Republicano cairia em cima de Bush. A última coisa que precisam, num ano eleitoral que já parece difícil, é de seu país, sozinho, obstruindo qualquer acordo para lidar com o aquecimento global. Ainda mais porque, na defesa de que o homem não tem nada a ver com o aquecimento global, Bush está cada vez mais isolado perante seus eleitores.

A segunda história serve para derrubar um pouco do ufanismo pátrio pela habilidade de nossa diplomacia. O Brasil não pode ser chamado de herói, neste caso. Em Bali, pela primeira vez, enfrentou-se uma questão importante, que é a da preservação de florestas tropicais.

A questão não é complicada. Mais carbono no ar faz com que o calor do Sol fique preso na Terra, o que gera aquecimento. O carbono em excesso vem de várias fontes. Combustível fóssil – petróleo, por exemplo – estava preso, mineralizado, nas profundas do planeta. Tinha saído do sistema. Quando o homem o traz de volta e joga boa parte no ar, dá problema. Mas há outra fonte igualmente importante, que é a queima de florestas. Seres vivos são feitos, basicamente, de carbono, hidrogênio e oxigênio. Queime uma árvore e dois males são cometidos. O primeiro é que parte daquele carbono do tronco se manda para a atmosfera; o segundo, e mais grave, é que uma árvore consome carbono em seu processo de alimentação. Ela tira carbono da atmosfera. Queime hectares e hectares de uma floresta e o resultado é sentido pelo planeta. Em números: 20% das emissões humanas de carbono vêm do desflorestamento.

Isto quer dizer que, embora a indústria brasileira seja razoavelmente inocente e o impacto atmosférico da geração de eletricidade em hidrelétricas – nosso caso – seja mínimo, as queimadas na Amazônia fazem do país um dos maiores emissores de carbono. A Indonésia, que vem logo depois de nós em tamanho de florestas e biodiversidade, é o terceiro maior emissor do mundo, seguido de EUA e China.

O governo brasileiro se propõe a agir contra queimadas mas não quer um tratado internacional para obrigá-lo. Ele é contra, particularmente, um programa chamado REDD – Redução de Emissões por Desflorestamento e Degradação. A proposta do REDD é tecnicamente complexa pois envolve mensurar a degradação, mas pode ser resumida da seguinte forma: o mundo paga a países que tem muitas florestas para mantê-las intactas. Muitos países pobres alegam que a preservação de suas florestas atrasa seu desenvolvimento e, portanto, a melhoria de vida de sua população. Pagos num sistema de créditos de carbono, tudo é compensado.

O argumento da diplomacia brasileira é que mensurar o desflorestamento é complicado demais. E que os reais vilões são países como EUA e China que queimam carvão para gerar luz. Na verdade, Brasília não quer parecer a vilã da história. E, junto com a Indonésia, o Brasil seria, sim, o maior vilão desta história. Nossa incapacidade para preservação das matas é notória. Há quem argumente que a posição do Brasil é tola. REDD, junto com etanol, são maneiras de o país faturar alto com o problema do aquecimento global. Só precisa agir, na Amazônia, com a mesma competência que age na produção de biotecnologia agrícola e de combustíveis.

Esta, em Bali, o Brasil perdeu. Como no caso da derrota – maior – dos EUA, não quer dizer muito. Só o que se decidiu, em Bali, é que todos os países do mundo vão sentar e discutir um novo tratado para além de Kyoto. O que está decidido são só os temas da agenda de discussão.

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Poupar a Terra, no Brasil, é difícil

11/December/2007 · 42 Comentários

Nunca encontrei à venda no Brasil, mas gostaria muito: por exemplo baterias solares para carregar celulares, players de mp3 ou mesmo notebooks. A National Public Radio dos EUA vende dois modelos.

Há uma miríade de produtos para controlar ou economizar o consumo de energia que não estão disponíveis por aqui. Um display de parede, por exemplo – que, além de tudo, tem seu charme.

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E o Brasil não vai pra Opep

11/November/2007 · 62 Comentários

Alguns dos prezados leitores, nos comentários ou por email, reclamaram da forma como abordei o anúncio da megareserva de Tupi, que guarda um dos maiores reservatórios de petróleo no Brasil. Após escrever aquele post, sem qualquer conhecimento real do assunto – mas deixando clara a ignorância – entrevistei o geólogo Márcio Mello, especialista no assunto. A conversa saiu na íntegra no Estadão de hoje. Tem a vantaem de por os pés no chão. Trecho:

O anúncio de uma reserva gigantesca de petróleo na Bacia de Santos é uma surpresa?

Já era possível prever há pelo menos seis anos esse potencial fantástico que temos em águas profundas e ultraprofundas do Brasil, abaixo da camada de sal. Era uma previsão tranqüila de fazer. Mas não quer dizer que a descoberta seja pequena: essa é a maior novidade que surge no mundo petrolífero nos últimos 20 anos e é a maior descoberta da história do petróleo no Brasil.

Essas reservas se limitam a Santos?

De forma alguma. Nós já sabemos que há petróleo embaixo da camada de sal nas áreas de Roncador e Marlim, que ficam na Bacia de Campos. A Petrobrás já descobriu uma reserva de 600 milhões de barris abaixo do sal no Espírito Santo, descobriu abaixo de Marlim um campo pequeno com 300 milhões de barris, e vai descobrindo outros. Ainda vai se achar muito, mas muito petróleo mesmo no subsal entre Santos e o Espírito Santo. […]

Com as novas reservas, o Brasil vai para a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, Opep?

Não. Nós consumimos hoje 1,8 milhão de barris por dia. Do jeito que o País está crescendo, vamos para algo entre 2,5 e 3 milhões nos próximos três ou quatro anos. A Petrobrás vai ter que se esforçar muito para conseguir manter essa produção. Daqui a oito anos, quando essa reserva que acabou de ser descoberta estiver em plena produção, o Campo de Marlim já estará decrescendo.

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Nós, inovadores

9/November/2007 · 45 Comentários

Recentemente, me convidaram a falar para um grupo sobre inovação. É um tema vago como os diabos. Aqui vão minhas notas para a palestra – o assunto é bem atual.

Não fomos sempre inovadores.

Nós, o Homo sapiens sapiens, estamos na Terra faz 120.000 anos. Desde cedo começamos a nos espalhar pelo mundo. Mas não criávamos nada. Tínhamos pedras lascadas, é verdade. Na África, no Oriente Médio, na Europa, onde houvesse um de nós encontrava-se rigorosamente os mesmos instrumentos e eram ferramentas apenas um pouquinho mais sofisticadas do que as que o Homo erectus ou o Homo habilis já usavam fazia muitas centenas de milhares de anos.

Estamos por aqui há 120.000 anos e, por metade deste período, não criamos rigorosamente nada.

Mas aí, algo entre 60 e 50.000 anos atrás algo mudou de repente: botões, agulhas de costura feitas com ossos, lanças, lançadeiras, lâminas, desenhos nas paredes das cavernas. Repentinamente começamos a inventar. Os cientistas chamam este período de o grande salto para a frente. Ninguém sabe o que houve. Uma das teorias sugere que foi quando começamos a conversar. Com a linguagem, talvez fruto de uma mutação genética, houve diálogo e, com diálogo, criação. E a criação diferia. O botão que se fazia no Oriente Médio era diferente do colar na Europa e na África faziam uma lançadeira que ninguém mais tinha. Quando surgiu a inovação, surgiu também a diferença cultural. E a esperança de compreender onde estamos e as tentativas de produzirmos um mundo melhor para vivermos.

Algo entre 20 e 10.000 anos atrás, aprendemos a plantar. Porque plantávamos, era preciso compreender as estações do ano e manter um inventário da colheita. Nasceram ciência e matemática e escrita. Bons inventários permitiram a criação de silos com comida para muitos. Armazenagem de comida deu tempo livre. Tempo livre trouxe mais inovação. O metal, então o aço. Rodas dentadas, engrenagens. Máquinas. Eficiência tecnológica permitiu que viessem as cidades. Navios, astronomia, filosofia, arquitetura, arte. Fomos aos oceanos. Descobrimos o planeta.

Leonardo da Vinci era um homem renascentista. Ele entendia de tudo. De arte, de proporções, de anatomia, de engenharia, de astronomia. Foi o último. Depois do renascimento, o conhecimento acumulado pela humanidade ficou tamanho que gente como Leonardo deixou de ser possível. Não dá para saber tudo.

Mas continuamos em busca de compreender para inovar. O iluminismo acirrou uma estratégia que já vinha ensaiada desde os gregos: a especialização. Uns foram à biologia e nos trouxeram ao DNA, ao mapeamento do código genético. Outros foram à física: o átomo, os prótons, quarks, energia nuclear. Vimos através de telescópios que construímos vestígios do início do universo.

Estamos próximos, muito próximos, de entender tudo. Próximos de criar vidas. De curar-nos de quaisquer doenças. De entender como o mundo e o universo e tudo mais surgiram. E, no entanto, já dá para perceber que quando descobrirmos todas as respostas para as perguntas específicas que temos, elas não nos explicarão o todo.

A estratégia deu errado. Nos especializamos tanto que chegamos ao ponto de enxergar os mínimos detalhes das peças de um quebra-cabeças e perdemos a noção de como essas peças se encaixam. Há quem saiba tudo de cada peça, mas ninguém é capaz de, como Leonardo, ver o todo. Nem seria possível. Estamos próximos de saber cada detalhe do universo mas não saberemos como cada detalhe se relaciona com o outro.

O resultado de mexer com estas peças sem ciência de como elas afetam o todo é que criamos desequilíbrios e coisas como o aquecimento global.

Mas há uma saída: informação. Assim como a linguagem nos lançou num mundo de informação, outro conjunto de inovações já começam a fazer grande diferença. A Internet. Telefonia celular. Todas as tecnologias de comunicação digital que se integram numa grande rede. Este conjunto põe cientistas, engenheiros, criadores – todo mundo – em contato imediato.

Para que a rede tenha eficiência máxima, para que quem precise de informação encontre quem pode informar, é preciso munir a rede de informação. De toda informação que temos. Todos os livros, todos os artigos, todas as idéias estão sendo lentamente digitalizadas e postas online. Um médico que procura a solução para um problema misterioso e complexo poderá, no futuro, entrar num Google da vida e descobrir que um físico já lidou com algo muito semelhante. Informação disponível de forma ilimitada permitirá que comecemos a montar este quebra-cabeças.

Mas há um pequeno problema.

Nem toda informação é pública ou livre. Nem toda informação estará disponível. Governos de presto vão argumentar que certas coisas são delicadas demais, devem permanecer como segredos de Estado. Empresas alegarão que investem na criação de conhecimento e que têm direito de manter controle sobre o uso deste seu conhecimento. Gravadoras ou editoras ou estúdios de cinema dirão que a arte que financiam e distribuem é propriedade privada e ponto: é preciso pagar para consumi-la, de resto o nome disso é pirataria. Sem este financiamento dos consumidores, dizem, não haverá mais inovação. Nós mesmos dizemos que há informação a nosso respeito que queremos preservar. Chamamos a isso privacidade. E todos temos razão dentro de nossas razões, evidentemente.

Mas, assim, impomos um limite às possibilidades de a grande rede global reunir toda a informação para que seja usada por todos. Nós criamos uma barreira para que funcione da melhor forma possível.

O segredo que todos já começaram a entender mas recusam a aceitar é que esta grande rede é incontrolável. Segredos de Estado vazam. A toda hora. Segredos industriais também. Pirataria nem se fala. E privacidade? A privacidade está começando a acabar. Estamos entrando numa era de plena informação, uma era na qual toda informação é acessível. Há quem argumente que eleitores ganharão com a transparência de seus governos. Ou que a indústria é gananciosa demais ao cobrar, por exemplo, dinheiro em excesso que impede gente de ter acesso a remédios que podem lhes salvar. Plena informação criou um ambiente de plena inovação em tempos passados.

Quanto tempo vai demorar para chegarmos ao tempo da informação plena? Vinte anos? 50? 150? Não há resposta mas há pistas. Há 15 anos não tínhamos celulares. Há 10, muitos ainda não ouvíramos falar da Internet. Até 10 anos atrás, países como a Líbia não tinham como conseguir acesso a informação sobre como fazer bombas nucleares. Há 7 anos ninguém imaginava que piratear música seria tão trivial e que a indústria não teria qualquer esperança de controle sobre isso. Está tudo se transformando muito rápido.

Há um mundo novo surgindo que nos apresenta a todos, pessoal e profissionalmente, um número incrível de desafios.

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