No mundo do DNA e biohackers

21/May/2009 - 14h02 - 83 Comentarios

Conversando com um especialista em doenças infecciosas, ontem, para compreender um pouco mais a Gripe Suína, fui apresentado a um conceito que não conhecia: biohacking, ou biopunk.

Ficou tão barato mexer com DNA que virou hobby para alguns. Com material que encontram publicado na web, sintetizam códigos genéticos inteiros. Cacos de DNA dá para comprar pelo correio, aqui nos EUA. Na Amazon, já tem brinquedo de criança que faz análises simples de DNA. (É o Meu Pequeno Laboratório versão século 21.)

Que não se confunda com bioterrorismo: produzir DNA e analisar DNA é estudar moléculas. Ninguém está alterando seres vivos na garagem de casa. (Ao menos, ainda não.)

No ano passado, eu e Marina nos submetemos aos testes da 23andMe, uma empresa nascente aqui do Vale do Silício, financiada pelo Google, que mistura análise genética e rede social. Uma espécie de Orkut e Facebook onde cada um pode dividir (ou não) partes de seu código genético.

Há algo de fascinante em conhecer o próprio DNA. Pelo lado materno, pertenço ao haplogrupo K1a1b1 – razoavelmente comum em Portugal. Nós, os Ks, somos descendentes de uma das 9 mulheres que povoaram toda a Europa. ‘Katrine’, a mãe dos Ks, viveu no norte da Itália há 12.000 anos. Pelo lado paterno, meu haplogrupo é o E3b1b*. Aparece com alguma frequência na Ibéria – 5,6% da população, 10% dentre os galegos. No Rio de Janeiro somos 5,4% da população. Mas que ninguém se engane quanto às origens: 80% dos marroquinos. É o grupo genético berbere, a população que vivia no norte da África antes da invasão árabe. Continuam lá. É só que hoje são chamados de árabes. É o marcador magrebino. Sou, geneticamente, uma mistura de mouro com italiano. O grau de similaridade de meu DNA com certas populações asiáticas, maior do que a média dentre caucasianos, sugere a mestiçagem ameríndia.

Não é só a história das gentes que existiram antes de você vir à Terra que o DNA revela. Lá tem coisa que eu já sabia. Que nicotina, por exemplo, para mim é uma desgraça. No primeiro cigarro já dá fissura. Vicia. Cafeína vai num caminho parecido. Metabolização quase nula. Duas Coca-Colas e a pressão sobe, a mão treme. Por outro lado: resistência a álcool – derrubar é difícil. Mas tem coisa que eu não sabia e é bom saber. Não tenho os marcadores conhecidos de câncer, por exemplo. Nem os femininos – que eu não desenvolveria mas poderia transmitir a uma filha. O coração é o ponto fraco, via pressão alta. O histórico familiar o confirma.

Aqui nos EUA, estes testes estão ficando cada vez mais baratos. Mas enquanto biohackers começam a vasculhar suas possibilidades e gente curiosa como eu vai atrás, há resistência. Os principais argumentos são dois. O primeiro é medo. Tem gente que simplesmente não quer saber quais os pontos fracos de seus corpos. Teme que vire neurose. O segundo é pragmático: e se essa informação vaza? E se, porque alguma lei mudou ou algo assim, empresas de seguro de saúde tomam conhecimento destes dados?

O risco é o seguinte: aos 34 anos, não tenho qualquer problema cardíaco. Talvez nunca venha a tê-lo. Mas meu código genético indica o risco maior. Dada esta informação, como definir o que é uma ‘doença pré-existente’? Basta a informação do DNA?

Enquanto estamos aqui, envolvidos na adaptação social, cultural e econômica com o mundo digital, há outro com ainda maiores novidades se aproximando. E, neste, os dilemas práticos, éticos e financeiros serão ainda maiores.

Nikola Tesla

14/May/2009 - 15h11 - 19 Comentarios

via Hermenauta

A pandemia de gripe que ameaça
o mundo a partir do México

01/May/2009 - 02h46 - 22 Comentarios

O México pára hoje. (É, eu sei – esse para não tem mais acento. Me dêem um tempo para o hábito pegar.) Até o dia 5, a recomendação do presidente Felipe Calderón é de que ninguém saia de casa. O objetivo é tentar conter a epidemia de gripe suína.

Entre 1918 e 19, mais de 100 milhões de pessoas morreram. Em 1968, quando houve a última grande epidemia de gripe, foram 1 milhão de vítimas. Faz 40 anos. Ninguém tem dúvidas de que uma nova epidemia pesada e mortal está para vir. Não foi a gripe aviária. Será a suína? Em um ponto, pelo menos, esta é mais preocupante. É gripe que mamífero pega, portanto nós humanos estamos mais próximos. Pessoas podiam pegar a gripe de um frango, o que era raro, mas o vírus permanecia não transmissível entre pessoas. Se a gripe vem de mamífero, é mais fácil.

motivos para otimismo: as chances de que remédios antivirais como o Tamiflu consigam atacar a gripe são altas. Mas, se houver pandemia, as chances de que uma cepa resistente a medicação surja não é baixa.

A capacidade mundial de preparar vacinas a tempo também é limitada. Há tecnologias novas que permitem o aumento de produção mas, hoje, apenas alguns países da Europa têm capacidade de fabricar vacina o suficiente para atender toda sua população.

Ontem de manhã, o vice-presidente norte-americano Joe Biden falou à tevê que, se fosse ele, evitaria aviões e trens. O ar é viciado e vírus se espalham fácil. Trata-se do tipo de alarmismo que arrisca parar a economia e não traz benefício. Aqui na Califórnia, dada a proximidade com o México, o alerta é geral. Se a gripe suína for pandêmica, deve assolar o hemisfério norte nesta temporada de verão e tomar rumo do sul no segundo semestre. Se é verdade que o transporte aéreo ajuda a espalhar estes vírus pelo mundo todo com velocidade, também são aviões que levam a remédios de um lado bem estocado do mundo para o lado que precise com a rapidez necessária.

Para o México, que se aproveita deste Primeiro de Maio para tentar estancar o que pode ser apenas um surto pequeno, o risco de a economia parar já é real.

A pandemia fatalmente virá. A falta de preparo do mundo, conforme o tempo passa, é inexplicável.

Damásio e Castells: a mídia precisa
ir mais devagar com o ritmo

29/April/2009 - 13h45 - 27 Comentarios

Um novo estudo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) demonstrou que emoções ligadas a valores morais precisam de tempo para se desenvolver no cérebro. Pesquisas do tipo devem sempre ser vistas com um quê de ceticismo. Esta, no entanto, foi realizada ela equipe do neurocientista português António Damásio, um dos mais reconhecidos do ramo.

A implicação é com mídia digital. Qualquer notícia que envolva um drama humano só é compreendida de fato após algum tempo. O ritmo virulento da Internet ou tevê a cabo não permitem este tempo. Como resumiu um colega de Damasio na USC, o espanhol Manuel Castells, ‘para que exista compaixão em relação a sofrimento psicológico, precisamos dedicar um tipo de atenção emocional de forma persistente.’

Damásio e Castells não atacam as redes sociais, espaços de conversação online nas quais, consideram, existe o tempo para que reflexão necessária. Mas a rapidez da tevê ou de alguns video-games os incomodam. Castells: ‘Numa cultura midiática na qual violência e sofrimento são transformados em um programa contínuo, seja na ficção ou no infoentretenimento, começa a nascer uma indiferença a respeito do sofrimento humano.’ Damásio completa: ‘o que mais me preocupa são as justaposições abruptas que você encontra no noticiário. No que elas se relacionam com emoções, já que estes sistemas são por natureza mais lentos, o que precisamos dizer é Um pouco mais devagar, por favor.’

Se estão certos? Os doutores são cientistas respeitados no ramo.

Vitória dos criacionistas no Texas

06/April/2009 - 10h52 - 118 Comentarios

Repercutiu pouco fora da comunidade científica, mas a discussão é particularmente importante aqui nos EUA: na semana passada, o Conselho de Educação do Texas fez mudanças no currículo das escolas de primeiro e segundo grau. No primeiro instante, o resultado da reunião do conselho foi divulgado como uma vitória para a trupe de Darwin.

Mas não tão rápido.

Os criacionistas – inclua-se na lista o presidente do Conselho – queriam inserir a exigência de que os professores de ciência do estado ensinassem ‘o que é forte e o que é fraco’ a respeito de cada teoria científica. Tais palavras não foram aprovadas – e por isso alguns acharam que se tratava de uma vitória. Mas o texto terminou incluindo a exigência de que ‘todos os lados das evidências científicas’ deveriam ser apresentadas aos alunos.

Para impor sua visão religiosa, os criacionistas aproveitam-se da diferença de significado da palavra teoria. No uso coloquial, teoria é um chute, uma tentativa de explicação. Em ciência, teoria é mais que um fato. Teoria científica é o conjunto de vários fatos observados independentemente e a explicação de como eles se relacionam.

A Teoria Atômica, portanto, não é uma suspeita de que átomos existam. É a detalhada explicação de como átomos funcionam. A Teoria da Gravidade não sugere que a maçã deverá cair. Ela explica como corpos com massas se atraem e determina que a maçã, de massa menor, será irremediavelmente atraída em direção à Terra, de massa maior. (A Terra também será atraída em direção à maçã, diga-se.) A Teoria da Evolução tampouco é uma possibilidade. A Evolução aconteceu. A Teoria explica como.

O Texas é o estado mais importante dos EUA nessas questões educacionais. Por um motivo: a educação de base norte-americana é pública e nenhum estado tem tantos alunos em sua rede quanto o Texas. É, portanto, o maior comprador de livros didáticos do país. Se os editores tiverem que adaptar seus livros para vender no estado, tais serão os livros consumidos em todo o país.

Nessas horas, o que salva é o humor. Escrevendo na Newsweek, Cristopher Hitchens sugere que a idéia de obrigatoriedade do ensino ‘do que é forte e do que é fraco’ no argumento seja estendida. Toda igreja e instituição religiosa que receba algum tipo de benefício fiscal deveria, de presto, apresentar em seus sermões e cursos os argumentos contrários a suas crenças.

Não importa se os argumentos não forem religiosos. Afinal – não é isso que querem? Impor argumentos religiosos nas aulas de ciência?

Nos 200 anos de Charles Darwin

12/February/2009 - 12h58 - 161 Comentarios

Nosso Darwinista escreve:

Uma das principais estratégias daqueles que combatem as teorias evolucionistas é relacionar os erros cometidos por Darwin. E ele realmente cometeu erros e deixou lacunas importantes.

Darwin, por exemplo, não tinha conhecimentos sobre genética, ciência que estava surgindo naquela mesma época com os experimentos de Gregor Mendel. Aliás, Darwin tinha ideias hoje em dia consideradas bizarras quanto à transmissão das características hereditárias. Ele nunca explicou de maneira convincente como as variações, sobre as quais a seleção natural atua, eram passadas de pais para filhos. Um erro que talvez tivesse sido corrigido, se ele tivesse lido os trabalhos de Mendel. E não foi por falta de oportunidades.

Mas, apesar da fragilidade que pretendem comprovar a respeito de sua teoria, Darwin demonstrou de maneira brilhante e inequívoca que as espécies se transformam ao longo do tempo. A evolução biológica é tão fartamente comprovada e documentada que o meio acadêmico há muito tempo não debate mais se ela ocorre ou não, e sim de que maneira ocorre.

O texto completo está no De olho no fato.

48 espécies desconhecidas em 4 anos

12/February/2009 - 12h10 - 20 Comentarios

Nos últimos quatro anos, o paleontólogo Steve Sweetman, da Universidade de Portsmouth, tirou de um penhasco os fósseis de oito dinossauros, seis mamíferos e 15 lagartos diferentes, na Ilha de Wight, costa britânica. Todos pertencentes a espécies desconhecidas.

Sweetman já descobriu 48 espécies desconhecidas.

Embora os novos dinossauros empolguem, as descobertas mais raras são as dos mamíferos. Conhecemos pouco dos mamíferos que viveram no Cretáceo (entre 145 e 65 milhões de anos atrás), pois é no princípio deste período, logo após o Jurássico, que eles (nós?) surgiram.

A Wikipedia tem uma lista dos mamíferos primitivos.

Richard Feynman

09/January/2009 - 07h23 - 30 Comentarios

Charles Darwin, um dia após o outro

17/December/2008 - 06h51 - 36 Comentarios

Assim era a rotina de Charles Darwin em seus últimos anos de vida, conforme recontada por seu filho, Francis Darwin.

7h. Acordava e saía para uma caminhada.
7h45. Café da manhã, sozinho.
8h–9h30. Trabalhava em seu escritório; considerava esse seu período mais produtivo.
9h30–10h30. Ia para a sala e lia suas cartas, então lia alto as cartas da família.
10h30–12 ou 12h15. Voltava ao escritório, e considerava este o fim do seu horário de trabalho.
12h. Caminhava, primeiro uma visita à estufa, depois pelo jardim de areia, por tanto tempo quanto possível dependendo de sua saúde, acompanhado de um cachorro.
12h45. Almoçava com toda a família, era sua refeição principal. Após, lia o Time e respondia cartas.
15h. Cochilava no quarto ou no sofá e fumava um cigarro, ouvia a narrativa de um livro leve lido por sua mulher, Emma.
16h. Caminhava, em geral pelo jardim de areia, às vezes para mais longe, com freqüência acompanhado de alguém.
16h30–17h30. Trabalhava no escritório resolvendo os últimos problemas do dia.
18h. Descansava no quarto enquanto Emma lia em voz alta.
19h30. Tomava um chá enquanto a família jantava. Em seus últimos anos, nunca permanecia na sala de jantar com os homens, mas tomava o rumo da saleta com as mulheres. Se não havia convidados, jogava duas partidas de gamão com Emma, depois lia um pouco, então Emma tocava piano e lia mais alguma coisa em voz alta.
22h. Deixava a saleta e se deitava às 22h30. Dormia mal.

O blog Daily Routines se especializa em colecionar a rotina diária de grandes escritores ou mentes afins.

via The Daily Dish

O neandertal entre nós

04/December/2008 - 15h51 - 106 Comentarios

O Parque dos Dinossauros é possível? De alguma forma, parece que sim. E o primeiro mamute vivo após 60.000 anos custaria algo como 10 milhões de dólares. O DNA do animal já foi seqüenciado. Seria teoricamente possível pegar o DNA de um elefante e modificá-lo artificialmente até que fique igual ao do animal extinto. Adaptar o ovo de um elefante para carregar e desenvolver tal código genético, embora difícil, não é impossível. (Ovo, não custa lembrar, não é aquilo que aves e répteis produzem; ovo é o nome da célula produzida pelo encontro de óvulo e espermatozóide.) Uma elefante africana poderia ceder seu útero à cria.

O mesmo processo é possível para o Homo neanderthalensis. Nosso primo mais próximo ainda não teve seu DNA seqüenciado, mas o trabalho está encaminhado. DNA neandertal poderia ser criado a partir do DNA humano, adaptado a um ovo humano e uma mulher cederia seu útero à cria. Uma alternativa seria fazer adaptação a partir do DNA de um chimpanzé e cobrar de uma chimpanzé que engravide da cria.

E há algo de apavorante, de no mínimo desconfortante, nesta idéia.

A fonte é George Church, cientista da Escola de Medicina de Harvard. John Hawks, antropólogo da Universidade do Wisconsin, diz que nada é assim tão simples. Para reproduzir a molécula de DNA do neandertal, será necessário utilizar DNA de Homo sapiens – nosso – em vários pontos. O chimpanzé é próximo, mas não o suficiente.

(Eu ia escrever DNA humano, e não de Homo sapiens. Acontece que o DNA neandertal também é humano.)

Os neandertais tinham algo entre metro e meio e metro e oitenta de altura, pesavam até 80 quilos. Tinham, relativamente aos Homo sapiens de então, mais força muscular. Mas isto não quer dizer que poderiam encarar um boxeador profissional de hoje. Hawks argumenta, em um post de seu blog, que eles talvez parecessem um pouco diferentes. Mas, dadas as diferenças entre etnias que já existem entre nós, eles não seriam tão diferentes assim. E eram ágeis caçadores.

Tudo o que arqueólogos e paleontólogos já levantaram e descobriram sobre neandertais não nos permite saber o quão distintos eles eram de nós do ponto de vista cognitivo. É talvez reconfortante imaginar que fossem idiotas – mas não é certo. O que parece certo é que nossos antepassados caçadores-coletores desbancaram seus primos, na Europa. Hawks defende que, mesmo que eles tivessem um nível cognitivo mais baixo, ainda assim seria possível encontrar pessoas com níveis equivalentes, hoje. Somos um bocado diversos, os humanos.

Os humanos neandertais não existem faz 30.000 anos. Até há poucos anos, acreditava-se que era a única outra forma do genus Homo com a qual convivemos. Aí descobriu-se o Homo floresiensis, um nanico apelidado de Hobbit que existiu até pelo menos 12.000 anos atrás em Flores, uma ilhota próxima do Timor, no Pacífico.

Não custa um pouco de nossa história para que tudo fique em contexto: o Homo sapiens surgiu na África, segundo a ciência mais recente, 200.000 anos atrás. Era uma forma primitiva de nós, o Homo sapiens idaltu. Nós, o Homo sapiens sapiens, existimos faz algo entre 160.000 e 150.000 anos. Alguns estudos indicam que temos a capacidade moderna de fala e linguagem faz 60.000 anos. A revolução agrícola, que nos fixou na terra, o momento em que deixamos de ser nômades coletores e caçadores, foi 10.000 anos atrás. Foi 9.000 anos atrás que começamos a nos agrupar na região da Mesopotâmia – atual Iraque – e 5.000 anos atrás já haviam por ali cidades grandes que podemos chamar com tranqüilidade, em seu conjunto, de civilizações. A civilização egípcia é só um pouquinho mais jovem. Roma foi fundada 2.800 anos atás. A Grécia Clássica tem uns 2.600 anos, mais ou menos a mesma idade que os livros mais antigos do Velho Testamento. Paris foi fundada faz 2.060 anos. O Brasil, descoberto há 508 anos. O Homo sapiens deixou a Terra pela primeira vez há 47 anos.

E agora querem trazer o neandertal de volta.

Atualização - Ligeiramente modificado com sugestões de Monsores e Darwinista, nos comentários. Há um texto maior, no Weblog, que conta a história da origem evolutiva do homem.

Copérnico como ele foi

21/November/2008 - 15h07 - 24 Comentarios

copernico.jpg

Cá está Nicolau Copérnico com a exata cara que ele tinha antes de morrer. O cientista e padre renascentista polonês morreu em 1543, após ter comunicado à Europa que a Terra não estava no centro do Universo; na verdade, girava em torno do Sol. Os restos mortais de Copérnico foram identificados pela equipe do professor Jerzy Gassowski, que fez o exame de DNA comparando com um fio de cabelo dentro de um livro que pertencera ao cientista.

Os mamíferos se vão

09/October/2008 - 12h19 - 105 Comentarios

Metade das espécies de mamíferos do mundo estão sofrendo uma redução populacional. E um quarto delas sofre o risco de extinção. O balanço vem de um estudo que envolveu 1.700 especialistas em 130 países.

Os maiores problemas estão na Ásia, onde o aumento da área cultivada representa perda de habitats naturais e nos oceanos, por conta do uso cada vez mais intenso por parte de nós, homens. No sul e sudeste asiático, 79% das espécies primatas estão ameaçadas. Em todo o mundo, 40% das espécies de mamíferos estão perdendo seus habitats. Aí, não é apenas caso da Ásia: a situação é extrema nas Américas do Sul e Central, em Madagascar e na África Subsaariana.

Não, o problema não é só do mundo pobre: existem apenas 143 linces ibéricos (que vivem entre Espanha e Portugal) vivos. Neste caso, é uma história típica de desequilíbrio ecológico. Há um excesso de lebres, que atacam plantações. Os fazendeiro matam as lebres, que são o principal alimento das linces. Quando a população do predador vai a números gritantemente pequenos, lebres que não tem qualquer dificuldade de se reproduzir aumentam ainda mais em número.

Outro ameaçado é o diabo-da-tasmânia. (Sim, o mesmo que inspirou o personagem de desenhos animados Taz.) Trata-se do maior marsupial carnívoro do mundo, um bichinho feio que dói, do tamanho de um cachorro pequeno. Na última década, sua população diminuiu em 60% graças a um estranho câncer que ataca sua boca. Ele morre de fome.

via Polymeme

Eleições EUA: O que os candidatos
dizem e pensam sobre a ciência

22/September/2008 - 12h00 - 60 Comentarios

Esta semana, Sarah Palin conhecerá o presidente afegão Hamid Karzai, o colombiano Álvaro Uribe e o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger. É seu processo de educação. Enquanto isso, John McCain e Barack Obama fazem campanha até o fim da terça-feira e aí – pausa. Na sexta-feira ocorrerá o primeiro debate e ambos se dedicarão aos ensaios, repassando respostas. (Em geral, escolhe-se um senador veterano de seu partido, que conhece bem o candidato adversário, para desempenhar o papel num debate simulado.)

O CERN, na Suíça, inaugurou o maior acelerador de partículas do mundo no dia 10 passado. Aqui nos EUA, isso foi interpretado pelos cientistas como o início de uma nova era na qual o país não mais estará à frente dos grandes avanços. Havia planos para construir algo similar, investimentos iniciais na casa de bilhões de dólares haviam sido feitos, mas aí Washington abortou o projeto. Justiça seja feita: Bill Clinton, um democrata, matou o projeto. Mas foi Bush, um republicano, que fechou os olhos enquanto criacionistas avançavam sobre as salas de aula e se recusou a investir contra o Aquecimento Global baseado num ceticismo quase-religioso. Aqui no Vale do Silício, um grupo tentou promover um debate presidencial a respeito unicamente de ciência. Não conseguiu. Mas, no caminho, obtiveram algumas respostas dos candidatos.

Tanto John McCain quanto Barack Obama reconhecem que o aquecimento global é causado, principalmente, pelo carbono emitido pelo homem. Ambos concordam que o ensino básico de matemática e ciências está falho e que as grandes mentes nessa área, atualmente, vêm cada vez menos dos EUA. Ambos são favoráveis à manipulação genética de alimentos (embora Obama ressalte que é preciso instituir testes para analisar o impacto ambiental e sobre a saúde humana).

Embora ambos defendam investimentos na exploração espacial, Obama propõe a ampliação do projeto civil, enquanto McCain vê como importante, no espaço, também o desenvolvimento de tecnologia militar. Diferentemente do governo Bush, McCain e Obama são favoráveis ao investimento de dinheiro federal no estudo de células tronco embrionárias. A diferença está no entusiasmo: Obama vê extrema importância na iniciativa, McCain preocupa-se em restringi-la. Obama defende o investimento federal em novas fontes de energia. McCain acha que a iniciativa privada deve assumir o projeto.

Ambos se põem, fundamentalmente, no eixo pró-ciência, o que não pode-se dizer do atual governo.

Igreja Anglicana pede perdão a Darwin

16/September/2008 - 13h53 - 199 Comentarios

Uma notícia importante que deve ser celebrada e não pode escapar cá ao Weblog: o reverendo Malcom Brown, diretor de relações públicas da Igreja Anglicana, pediu oficialmente perdão a Charles Darwin, descobridor da Evolução das Espécies por meio do processo de Seleção Natural.

Darwin estava certo, diz Brown, e a Igreja Anglicana errada ao repudiá-lo no século 19.

A Evolução Natural aos 150
e seu avô que era macaco

01/July/2008 - 15h08 - 130 Comentarios

No dia 1º de julho de 1858, cientistas de todo o mundo já sabiam que a Evolução Natural havia ocorrido. A prova estava em fósseis de seres extintos e alguns evidentes ancestrais de seres ainda vivos. O que ninguém sabia era como acontecera.

Pois foi que, naquele 1º de julho – há 150 anos, hoje – emissários dos naturalistas Charles Darwin e Alfred Russel Wallace leram perante uma seleta de notáveis uma detalhada descrição do processo da Seleção Natural das Espécies. Ambos haviam chegado à mesma conclusão independentemente. Naquele dia, Wallace estava na Malásia e Darwin no interior da Inglaterra.

O velho Darwin já tinha chegado à conclusão de que havia um processo de Seleção Natural após sua extensa viagem ao redor do mundo. Isso fazia 20 anos. Mas guardara as conclusões para si. Wallace, por sua vez, era jovem e teve o insight revolucionário durante um longo período de febres causadas pela malária. Quando o jovem enviou um paper rápido para o mestre avaliar se achava que valia d’algo, o velho tomou um susto. Tirou das gavetas seu extenso trabalho e convocou de presto a reunião.

Não o fizesse, outro levaria a fama da descoberta.

O público que ouviu as idéias de Darwin e Wallace no salão principal da Linnaean Society de Londres, há século e meio, não era composto de cientistas. Apenas por gentlemen curiosos. Foram horas de leitura de muitos artigos, lá no meio as 18 páginas sobre a evolução. Saíram todos atordoados sem terem entendido muito do todo. Ao fim do ano, quando o presidente da Sociedade, Thomas Bell, redigiu seu relatório, tratou de explicar que aquele ano de 1858 ‘não fora marcado por nenhuma dessas descobertas impressionantes que revolucionam a ciência’.

Pois é.

Mas vivemos todos num mundo darwinista.

dica do Darwinista

O corpo humano visível

24/June/2008 - 16h42 - 7 Comentarios

A Hybrid é uma empresa especializada em animações médicas. São contratados por universidades para o preparo de material educativo, por laboratórios para demonstrar o funcionamento de remédios, por grandes feiras do ramo.

Seu coração que fica transparente – todas suas válvulas expostas – é um desbunde, assim como o outro coração, aquele no qual o sangue corre. Há uma bactéria infectada por um vírus, o remédio que ataca um tumor ou mesmo uma sessão de quimioterapia.

via The UberReview

Para Marte e além: alguém aí fora?

26/May/2008 - 12h02 - 409 Comentarios

A Phoenix está em Marte – e, pela primeira vez, saberemos de água no planeta vermelho. (E, no caso de ter havido água, quem sabe também algum indício de vida bacteriana.)

Acontece no mesmo momento em que o governo britânico tornou públicos todos seus relatórios internos a respeito de Objetos Voadores não Identificados vistos até 2002.

Vistos por gente que diz que os viu, naturalmente. O governo só colheu depoimentos. E não há rigorosamente nada em nenhum dos documentos além dos mesmos testemunhos um tanto fantasiosos de encontros, ou então confusão com aviões, balões meteorológicos ou fenômenos naturais.

O Reino Unido presta atenção nos alertas a respeito de OVNIs por um único motivo: não acham que há alienígenas lá fora, mas temem a invasão do espaço aéreo por quem não deve. Os EUA, desde que encerraram seu projeto Blue Book, em 1969, sequer dão mais bola para estes alertas.

Albert Hofmann e o LSD, 1906-2008

30/April/2008 - 12h02 - 308 Comentarios

O químico suíço Albert Hofmann, que sintetizou a molécula de LSD, morreu ao longo da madrugada após um ataque cardíaco. Tinha 102 anos. Muitos o viam como um doidão – mas era só um cientista. Seu passeio de bicicleta mítico, após ingerir uma superdose de LSD, aconteceu no dia 19 de abril de 1943. É celebrado hoje como o ‘dia da bicicleta’, todos os anos. Apesar de uma ligeira simpatia, jamais se adaptou muito ao movimento psicodélico. Não era sua praia.

Em 2006, quando Hofmann completou 100 anos, publiquei um perfil seu em NoMínimo. É um texto do qual gosto bastante, escrito com sincera admiração pelo professor. No dia de sua morte, republico aqui no Weblog.


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O corpo humano visível

22/April/2008 - 14h06 - 15 Comentarios

O atlas de anatomia de David Bassett, composto na década de 60 do século passado, é talvez o melhor jamais feito. Bassett era um especialista em dissecação e, ao longo da carreira, fez milhares de fotos, muitas delas estereoscópicas, que podiam ser vistas com os visores View Master, populares entre crianças num tempo anterior à revolução digital.

A Escola de Medicina da Universidade de Stanford vai levar à Internet este material – e o New York Times publicou uma amostra. As fotografias talvez incomodem alguns dos mais sensíveis. Para outros, são fascinantes.

Sobre esquerda e direita,
ideologia e dogmas

06/March/2008 - 11h50 - 565 Comentarios

Um leitor de esquerda me escreveu assustadíssimo esses dias perante a acusação feita pelo governo colombiano de que Hugo Chávez havia cedido 300 milhões de dólares às Farc: ‘Será que o Olavo de Carvalho está certo?’, ele perguntava. Outro – este de direita –, aqui na caixa de comentários, vinha todo empolgado provar que o site do Foro de São Paulo no Brasil pertencia ao PT. (Não é novidade.)

Neste meio tempo, um terceiro leitor me cobrou: ‘você não pode ficar em cima do muro, não pode dizer que não gosta de Chávez e que não gosta de Uribe’. Coisas deste tipo tenho ouvido muito, recentemente. ‘Finalmente mostrou sua verdadeira cara!’, dizem uns perante um tipo de comentário. ‘Amadurecendo!’ dizem outros. ‘Enfim um mínimo de sensatez perante os opressores’, vão uns terceiros.

A crise andina serve para mostrar que o nível da conversa anda surreal. Não é só aqui no Weblog. É em toda a blogosfera.

Estamos caminhando para um regime multilateral em que países diferentes terão poder suficiente para interferir na economia e na diplomacia mundiais. Os EUA continuarão, mas virão China, União Européia, possivelmente Rússia, Índia, Brasil, talvez até a África do Sul. Alguns destes países são democracias, outros não. Um deles é uma ditadura. Outros se encaixam num estranho e desconfortável meio termo que vem se espalhando pelo planeta, espécies de ditaduras democraticamente eleitas.

Nenhum destes países (ou bloco de países) tem um currículo escorreito de defesa dos direitos humanos. Há pressões étnicas e culturais de todo tipo trazidas pela globalização. Nos anos 90, a esquerda a atacava com argumentos econômicos. Hoje em dia, percebendo que as culturas se misturam mesmo, é a direita que a ataca. Globalização boa é aquela na qual a gente dita as regras, dizem ambos.

Há pressões econômicas. Perda de emprego, necessidade de melhor educação para competir, queda dos níveis de natalidade entre os mais ricos, guerras civis brutais estourando nos cantos mais pobres. Há grupos econômicos, grandes corporações, que têm mais poder que muitos países e não se sentem obrigadas a seguir nenhum padrão ético. Há pressões ambientais. Há um ataque frontal do obscurantismo contra a ciência. Há um apelo da religião por mais poder político. Há um desejo da religião de ditar o comportamento da sociedade interferindo no Estado. É preciso consumir petróleo porque é o petróleo que gera riqueza e, sem gerar riqueza, justiça social não é possível. Mas o petróleo também sustenta ditaduras sangrentas e envenena o planeta de uma forma tal que não temos como prever ao certo suas conseqüências ou nossa capacidade de repará-las.

O mundo anda complicado. Imensamente complicado. Todos aqueles problemas que sempre tivemos – racismo, genocídio, ditadura, populismo, pobreza, doenças –, tudo continua a existir. Alguns problemas que pareciam ter ido embora, voltaram: é o caso da interferência da religião no Estado. E há uma penca de problemas novos que vão do Aquecimento Global ao estudo de células tronco ao terrorismo com alcance global.

Enquanto o mundo anda mais complicado do que jamais foi, esquerda e direita abraçam velhos conceitos. Não importa a evidente violência com que agem as Farc, tampouco o fato de que a sociedade colombiana está exausta delas. Se é uma guerrilha, ainda mais com discurso de esquerda, há de ser bom. Não é. São só golpistas assassinos, torturadores. Uma gente que prende outras por anos a fio. Já passamos desta fase na América Latina. Seria bizarro o suficiente se não houvesse pelo mundo gente à direita que jura combater um comunismo inexistente e que, além de se embaralhar na bandeira religiosa, age com um anti-cientificismo grosseiro.

É um jogo de estereótipos e de cartas marcadas. Se você é de esquerda, tem de ser pró-Palestina; se de direita, pró-Israel. Se de esquerda, anti-EUA; se de direita, há de estar convencido da decadência européia. O raciocínio corrente é que o amigo de meu inimigo, por via das dúvidas, é com quem me alinho. É a insistência de ver o mundo com um bilateralismo que não corresponde mais à estrutura real, econômica ou social do mundo. E, assim, abre-se espaço para os demagogos de esquerda e de direita.

Pois bem: cá neste Weblog, cada situação continuará a ser encarada por si. Sou de esquerda e continuarei de esquerda. Para mim, isto quer dizer que o Estado laico tem responsabilidades econômicas perante a sociedade, deve serviços a ela. Quer dizer que acredito que as empresas também têm responsabilidades econômicas e sociais perante a comunidade que as sustenta. Acredito em liberdade de expressão sobretudo e não acredito em laissez-faire sem vigília. Mas entre as idéias de Thomas Jefferson e as de Lênin, sigo com as de Jefferson.

Não é difícil ter problemas com Uribe e com Chávez ao mesmo tempo. Basta não achar que qualquer ilegalidade é justificada para combater o outro lado.