Pedro Doria | Weblog

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Tudo publicado sobre 'Livros'

Flanar pela livraria virtual

14/July/2008 · 11 Comentários

A diferença entre uma livraria de verdade e uma virtual é o prazer de flanar pelas estantes em busca de nada específico.

A Livraria Zoomi tenta resolver o problema.

via Silvio Meira

Tags: Internet · Livros

Para acompanhar a Flip

3/July/2008 · 16 Comentários

Não deixem de acessar os blogs de Carla Rodrigues e Sérgio Rodrigues.

Tags: Livros

O maior sebo eletrônico de língua portuguesa

11/June/2008 · 37 Comentários

A Estante Virtual é uma rede de sebos online. A maior do Brasil. Hoje, a trupe de lá distribuiu a seguinte mensagem:

A Estante se prepara neste momento para alcançar a marca histórica de 1.000 sebos online na internet brasileira (são 956 neste exato momento em que escrevo, e crescendo muito rápido). Antes do portal, como vocês sabem, eram apenas 6. E o acervo reflete essa força consolidada: 15 milhões de livros usados e semi-novos, oriundos de estabelecimentos de já 174 cidades de todo o país. (ou seja, pode-se fazer uma busca em estantes de sebos de 174 cidades ao mesmo tempo!)

Na missão de conectar livreiros e leitores, e assim dar acesso a uma diversidade maior de obras do que o rol cada vez mais restrito normalmente ofertado nas livrarias convencionais, a Estante reune hoje já 220 mil leitores, de 3,8 mil municípios brasileiros. Basta fazer a conta e se admirar: cerca de 3,6 mil cidades brasileiras que não possuem sebos (e na maioria das vezes nem mesmo livrarias convencionais) estão se valendo da Estante para suprir as necessidades literárias de seus habitantes. No total, cerca de 70% dos municípios Brasileiros já utilizam a Estante.

O acervo inclui um milhão de livros a menos de 12 reais. Está à disposição de quem tiver interesse.

Tags: Livros

Uma estante às quintas

22/May/2008 · 62 Comentários

José Saramago acaba de assistir a Ensaio sobre a cegueira na companhia do diretor Fernando Meirelles.

Tags: Livros

Sobre livros e bibliotecas

14/May/2008 · 61 Comentários

A Atlantic Monthly publica, este mês, uma resenha de A biblioteca à noite, do argentino Alberto Manguel, que está saindo enfim nos EUA. (A edição brasileira é de 2006.) É uma delícia para quem gosta de livros:

Ao mergulhar profundamente na vida dos livros, Maguel destila seu assunto com anedotas maravilhosas: o método de catalogação da China no século 10, que consistia em ordenar os autores por sua posição social; um dicionário mesopotâmio trazia inscrito um alerta a possíveis ladrões sobre a vingança de Ishtar; o excêntrico colecionador alemão Aby Warburg reorganizava sua biblioteca continuamente para que refletisse a composição de sua mente. A história mais comovente que conta é a do empréstimo clandestino de livros na ala para crianças de Auschwitz-Birkenau.

A biblioteca à noite é uma lembrança de tudo aquilo que livros – reais, físicos – representaram ao longo do tempo. São amigos, memórias, consolos, fugas para o pensamento. Enquanto objetos, carregam histórias e seu envelhecimento é, por si, uma lembrança de nossa mortalidade. Choramos, com Manguel, a destruição da civilização asteca durante a queima de livros da inquisição mexicana de Juan de Zumarraga. Também celebramos a sobrevivência de um pequeno livrinho de orações judaicas que ele encontrou num mercado de Berlim. ‘Do fogo, da água, do percurso do tempo, de leitores negligentes e das mãos de censores, cada um de meus livros sobreviveu para contar sua história.’ Sua impertinência nos ensina a respeito da importância de lembrar.

Os livros talvez estejam acabando. Não que acabarão para o todo sempre – mas são já, e cada vez menos, as fontes que consultamos para este ‘importante lembrar’.

Tags: Livros

Apresentando Alaa al-Aswany, o escritor
mais vendido do mundo árabe

28/April/2008 · 59 Comentários

Alaa al-Aswany é o escritor mais vendido do mundo árabe. Seu best-seller, publicado em 2002, se chama O prédio jacobiano e se passa no Egito atual. É um romance realista em sem floreios que fala de tortura, opressão sexual, a criação de radicais islâmicos, sonhos perdidos em meio à burocracia e corrupção governamentais. Em seu país, não é considerado particularmente boa literatura. Apenas um best-seller. O escritor, um dentista do Cairo, se defende: ele se inspira nos livros de Ernest Hemingway. O estilo é simples, mesmo, sem as experimentações à moda da literatura contemporânea árabe, direto ao ponto. Seu único objetivo é contar uma história. Mas há muito acontecendo ali, entre os personagens.

É o Egito de hoje. Em suas páginas, o ditador Hosni Mubarak jamais aparece. Ele é apenas o ‘Grande Homem’, cuja voz ecoa vinda de um palácio suntuoso. Trata-se de uma metáfora, de um símbolo, que nasce não das preferências do escritor mas de uma concessão à censura loca. O edifício jacobiano está para estrear em filme com alguns dos atores árabes mais conhecidos que há. É sucesso literário na França e foi um dos títulos mais disputados para lançar na atual temporada norte-americana. Esperam vendas fartas.

Seu atual romance, Chicago, vende também horrores no Egito. É a visão do autor da época em que estudou em Chicago – uma visão positiva, encantada. Ele é um dos mais lidos colunistas da oposição laica egípcia, um homem engajado na democratização do país.

Ele foi perfilado pela edição de domingo da New York Times Magazine.

Os jovens estudantes muçulmanos faziam anotações em seus cadernos. Al-Aswany estava apenas começando. O Islã no Egito e em outras metrópoles cosmopolitanas como Bagdá e Damasco, ele continuou, foi marcado ao longo dos séculos por tolerância e pluralismo. Não podia ser mais diferente do que o Islã do deserto, como aquele desenvolvido na Arábia Saudita. Os nômades do deserto não tinham tempo para arte – então não fizeram arte. A tragédia do Egito é que ele teve que lidar com versões intolerantes do Islã vindas de lugares como a Arábia Saudita. Todas as batalhas já vencidas no Egito pelas revoluções de 1919 e 1952 – principalmente aquela pelos direitos das mulheres – agora têm de ser lutadas novamente.

Ele então olhou para os dois rapazes barbados: ‘A Irmandade Muçulmana diz que o Islã é a solução. Então, quando você se opõe a eles, respondem que você está se opondo ao Islã. Isso é muito perigoso. Muito.’ Ele repete, sua voz mais alta: ‘na política é preciso encontrar soluções políticas, então como a solução pode ser religiosa?’

Para Alaa al-Aswani, democracia precisa de tempo. No mundo árabe, os EUA são vistos como os mantenedores das ditaduras locais. Não são conhecidos pelo que têm de melhor – a própria democracia, a liberdade de expressão, a pluralidade de grupos que têm espaço na sociedade. E o problema, ele diz, é que os EUA não acreditam de fato em levar democracia ao mundo árabe. O resultado imediato é a eleição de grupos como o Hamas, na Palestina, ou a Irmandade Muçulmana, no Egito. Democracia, ele diz, carece de tempo. Só se for permitido ao Hamas ou à Irmandade Muçulmana governarem que o povo perceberá que trocou um tipo de ditadura por outro.

Ele diz mais: a oposição islâmica é justamente aquilo que ditadores como Hosni Mubarak mais querem. Abrem um pouco o regime, permitem que eleições apenas parcialmente livres mostrem alguma força dos grupos islâmicos, e pronto, de presto governos como os de EUA e Reino Unido darão apoio, farão ouvidos moucos, a seus desmandos ditatoriais. Esta é a arma corrente das ditaduras da região, portanto. Manter vivo o medo de que, sem os ditadores, quem assumirá é o Islã radical.

Para o escritor, talvez num primeiro momento, sim. Mas, em países como o Egito, eles não se criam.

Tags: Islã · Livros · Oriente Médio · África

Uma entrevista aos sábados

26/April/2008 · 34 Comentários

Não senti raiva por estar morrendo Raiva de quê? Raiva tem que ter um alvo. Sentiria raiva de mim mesmo? De um poder superior que decidiu que minha vida se acabava ali? E, mesmo que este poder existisse, que efeito teria minha raiva? Não senti raiva. Morrer, acabar, sentir raiva para quê? Em que acredita uma pessoa que sente raiva? Acredita que tem o direito de continuar vivendo? Talvez eu tenha sentido raiva. Admito isso. Mas o que me impressiona é a inutilidade da raiva nessas circunstâncias.

Não senti resignação. É mais como uma aceitação. São dois movimentos distintos. Você aceita porque não tem saída. A resignação é aceitação mas também uma desistência. Não pode haver desistência na aceitação.

Depois, de certa forma, foi uma ressurreição. Isso é o despertar de um corpo dormido e este corpo é seu. Os médicos estão fazendo seu trabalho e o seu é de ajudar a seu corpo neste processo que pode ser chamado de ressurreição. Mas prefiro chamar de regresso, que é menos dramático e mais claro. Está regressando a si mesmo. Fui reduzido a alguém que estava ali e que não tinha ânimo, força ou gana para escrever. A única parte do corpo que não sofreu perda, acho, foi o cérebro, que se mostrou extraordinariamente ativo, não posso explicar. Nunca caí na sonolência. Sempre estive muito desperto, com capacidade de observação e comentário. Fiz até piada!

José Saramago

Tags: Gente · Livros

Churchill enquanto vilão:
Recontando a Segunda Guerra

24/March/2008 · 499 Comentários

A história da Segunda Guerra Mundial foi contada e recontada. É uma história clara – a última história de uma guerra clara onde havia herói, havia vilão e a alma da humanidade estava de fato em jogo. Uma guerra com um genocídio no meio, o uso de armamento atômico contra cidades, e um continente destruído. Há algo de novo para contar a respeito da Segunda Guerra? O romancista norte-americano Nicholson Baker acha que sim.

Seu livro se chama Human Smoke: The Beginnings of World War II, the End of Civilization. Fumaça humana: o início da Segunda Guerra Mundial, o fim da civilização.

É um livro pacifista. Mesmo quem não é pacifista deveria sempre prestar atenção ao que dizem os pacifistas. No fim, eles podem estar errados. Mas são eles que têm em mente os custos de uma guerra.

O livro evita adjetivos. Nada é heróico, nada é infame. Ele lista fatos colecionados em diários, jornais, revistas e memórias de época. Os fatos, às vezes anedotas, às vezes pequenos detalhes, compõem um mosaico que serve à ilustração do clima imediatamente anterior à Guerra. Um trecho da resenha publicada na New York Magazine:

O objetivo de livros de guerra é, naturalmente, chocar. Mas esta é uma característica particular do livro de Nicholson Baker, que traz consigo um pesado fardo revisionista. Fica claro de imediato que ele não é um curador de factóides: é um pacifista virulento. O espírito de Gandhi permeia todas as páginas de Human Smoke. Página após página ele repete a mensagem de que violência – até mesmo ‘boa’ violência – sempre distorce as intenções iniciais, aumenta o sofrimento, faz circular o mal. Nas anedotas relatadas por Baker, até os políticos mais admirados se mostram hipócritas da pior qualidade que todo argumento usam em nome da guerra. O retrato mais controverso é o de Winston Churchill, que aparece como um anti-semita beligerante, um supervilão alcoólatra. Churchill manipula a imprensa, aprisiona refugiados, recusa a paz sempre que pode, é um assassino que conta piadas de péssimo gosto: ‘vocês podem querer matar mulheres e crianças… eu, não; meu lema é o trabalho antes do prazer’. Churchill recusa alimento a uma Europa famita porque os alemães podem usá-lo como armas – ‘o material plástico usado para os aviões deles é derivado de leite’. O premiê britânico enfeita assassinatos em massa com aliterações retóricas – ‘Não conversaremos, não faremos tréguas com a gangue que leva suas intenções do mal; eles farão seu pior e, nós, o nosso melhor.’

Recentemente, Baker disse que o tom austero de seu livro era, em parte, uma reação à retórica de Churchill. Diz o escritor: ‘A eloqüência interminável de Churchill ao longo da guerra me fez abandonar o uso de adjetivos.’ Ele escreve em Human Smoke: ‘Bombardear, para Churchill, era uma forma de pedagogia, uma maneira de mostrar aos moradores de uma cidade em primeira mão o inferno que ocorria nos campos de batalha.’

É uma guerra na qual os mocinhos produziram Dresden, Hiroshima, Nagasaki; uma guerra na qual, alguns historiadores afirmam, os aliados poderiam ter impedido o Holocausto mas não o fizeram para não distrair dos esforços táticos que a estratégia exigia. Mas não deixa de ser surpreendente a lenta transformação de Churchill em vilão. Num dos homens responsáveis pelo abandono da civilização.

No New York Times, a resenha é assinada por Colm Tóibín, gênio da literatura escocesa, eterno candidato ao Nobel. É Tóibín quem escreve:

Os personagens principais do livro são Churchill e Franklin Roosevelt; membros do movimento pacifista incluindo Gandhi; Hitler e sua laia; os autores de diários Victon Klemperer, em Dresden, e Mihail Sebastian, em Bucareste. Mas, muitas vezes, são fatos muito simples que nos abalam na leitura, fatos muito claros como este, bem no início do livro: ‘A Força Aérea Britânica jogou mais de 150 toneladas de bombas sobre a Índia. Isto foi em 1925.’ Isto vem logo após alguém levantar a idéia de bombardear alvos civis no Iraque, em 1920, ao que Churchill escreve: ’sou plenamente a favor de usar gás letal contra tribos incivilizadas’. Este é o tema do livro que Baker, que vai costurando histórias assim entre 1920 e 1942. Para ele, o bombardeamento de aldeias e cidades por aviões é o ‘fim da civilização’. […]

O problema, diz Baker, é que os bombardeamentos serviram à morte em massa da população civil mas os sobreviventes não culpavam a liderança nazista; estes, por sua vez, usavam os bombardeios como desculpa para infligir mais sofrimento à população judaica sugerindo, por exemplo, que expulsar judeus de suas casas era ‘justificado para oferecer teto aos arianos cujas casas foram destruídas’. Já em 1941, um dos ministros de Churchill escreveria: ‘Bombardeios NÃO afetam a moral alemã: vamos enfiar isto na cabeça e parar de gastar nossa artilharia nisto.’

Foi assim, no entanto, que a guerra foi conduzida até o fim.

Tags: História · Livros

Leituras

13/March/2008 · 28 Comentários

Red cat, de Peter Spiegelman, e Adeus, Hemingway, de Leonardo Padura Fuentes, estão entre minhas descobertas mais recentes na literatura policial. (Embora sejam livros completamente diferentes um do outro.)

Padura Fuentes é cubano, vive em Cuba, fui apresentado a ele por um amigo que divide comigo esta fixação por policiais. Seu detetive é um policial aposentado, Mario Conde, que tenta virar escritor. Por conta do amor pela literatura, seus ex-companheiros da delegacia pedem que ele tente descobrir o que houve na casa de Ernest Hemingway uns 40, 50 anos antes. É que um cadáver com esta idade e uma carteira do FBI foi desenterrado do jardim mais ou menos na época em que o velho escritor esteve em sua finca pela última vez.

A Cuba de hoje e a de antes da Revolução convivem ao longo de uma história intrincada, cheia de flashbacks. O cara escreve muito bem – é um romance policial com densidade, personagens profundos, com um pé naquela melancolia do noir e outro na boa literatura.

Red Cat é completamente diferente, seu cenário é a Nova York contemporânea, e John March, o personagem principal, é um bom e velho detetive particular. Seu irmão, um executivo de banco riquíssimo, está sendo chantageado por uma de suas muitas amantes.

Peter Spiegelman não vai na alma atormentada de seus personagens com a profundidade de Padura Fuentes, mas o pobre March apanha, e apanha muito, e apanha toda hora, como cabe a um detetive particular teimoso. A grande atração é uma trama bem costurada que envolve a filmagem das transas dos amantes, o estranhíssimo e sempre bizarramente antenado mercado de arte contemporânea novaiorquino, o pesadelo de quanto este tipo de imagem pode vazar para a Internet. Romances policiais não costumam mexer com tecnologia e as mudanças provocadas por ela na sociedade. Spiegelman a usa e é o que torna seu livro divertidíssimo.

Um cenário bem bolado costuma ser das coisas que me atraem em romances policiais – daí que a filmagem clandestina do sexo, tão comum nos tempos vigentes, ou a Havana de hoje, me atraíram para ambos os romances. E daí que fui com sede atrás de Yiddish policemen’s union, de Michael Chabon.

Sua premissa é excelente. Israel não aconteceu. Para lidar com o problema do pós-Holocausto, os EUA cedem um naco do Alaska para onde os judeus podem migrar. Em 2005, no entanto, 60 anos após a cessão, as terras estão para voltar à posse do governo norte-americano. A língua que se fala nas ruas é o iídiche, não o hebraico. Está todo mundo meio desesperado para conseguir um visto para algum lugar do planeta – é preciso se mudar. E, em meio a esta confusão, acontece o assassinato de um homem desconhecido que, naturalmente, tem tudo a ver com tudo.

Encarei o livro de frente, ao longo último mês, algumas vezes. Cheguei ali à página 50 muito lentamente. Empaco no ritmo. Há de ser bom, talvez torne a ele em uns meses. Por enquanto, fica adiado.

Dois quadrinhos andaram pelas minhas mãos, ambos editados pela Conrad. O primeiro é Fun home, obra autobiográfica de Alison Bechdel. A autora é lésbica, seu pai era homossexual enrustido – coisa que só foi descobrir muito mais tarde. Ao recontar a história familiar que viu com olhares de menina e tentar reinterpretá-la, Bedchel procura talvez a origem de sua identidade. É uma ‘tragicomédia familiar’, diz o subtítulo muito adequado. Nunca tinha parado para pensar neste momento ali entre a adolescência e a idade adulta no qual homossexuais começam a lidar com o que são, o que isto significa, o quanto que a sexualidade nos encaixa na sociedade de uma forma diferente, limitando alguns espaços, abrindo outros. É um momento de extrema angústia onde muitos – caso do pai de Bechdel – se perdem completamente para a vida. É um álbum surpreendentemente denso, extremamente delicado.

O outro é o Clic 3, de Milo Manara. A trama não varia muito em relação aos primeiros da série: Claudia Christiani está lá com o implante no cérebro que a expõe. Alguém, com um controle remoto, pode num ‘click’ fazer com que ela enlouqueça de desejo sexual que precisa ser imediatamente saciado. Manara é isso: estas grandes fantasias que não carecem muito de enredo, estas mulheres belíssimas de alma italiana e corpo eslavo – pernas longas, bundas grandes, seios fartos. Christiani é uma moça rica é profundamente conservadora, então há sempre um certo desespero quando ela é levada aos píncaros da libido. (E há por certo aí alguma metáfora sobre como as pessoas que se mostram mais conservadoras costumam ser as mais passíveis a escândalos em geral os mais contorcionistas.) Mas Manara não é a história, Manara é um mundo próprio, este conjunto de mulheres fantásticas sem quaisquer pudores e homens absolutamente maravilhados com os cenários que elas ensaiam nos mostrar.

Andei também com Os melhores jornais do mundo, de Matías Molina. Ele, que é espanhol de nascença, brasileiro com sotaque e um dos pais do jornalismo de economia tupinambá, é provavelmente o melhor nome para encarar esta tarefa: contar quais os melhores jornais do mundo, suas histórias e explicar o que faz, afinal, um bom jornal? Todos listados, suas histórias deliciosamente contadas, Molina chega à seguinte conclusão. O jornal excelente parte do princípio de que seu leitor é inteligente. Além de cobrir a cidade, o país, o cotidiano, ele tem também um pé fortemente fincado no mundo, com correspondentes em vários países, viagens constantes. Para fazer um bom jornal, é preciso olhar para fora e compreender como seu país é visto de fora para dentro, como ele se encaixa na geopolítica. Por fim, cultura. Há uma cobertura sofisticada das artes.

Por fim, estou me divertindo muito, apesar de uma leitura lenta, com Em busca de Jesus, de John Dominic Crossan e Jonathan Reed. O título em português sugere leitura para conversão – não é. É uma batida das descobertas arqueológicas recentes que apresentam o mundo e o contexto no qual viveu Jesus. É história, não religião. Ciência. Mas este fica para uma próxima batelada de livros.

Tags: Cristianismo · HQ · História · Igreja Católica · Judaísmo · Livros · Sexo

Uma entrevista aos sábados

12/January/2008 · 27 Comentários

Esses grupos guerrilheiros na Índia acreditam que a revolução é a resposta. Eles não têm idéia do que virá após a revolução, e quando eles libertam determinadas áreas, ali nascem centros de tirania. Eles explodem as pontes, cortam as linhas telefônicas para o mundo lá fora. Então, os camponeses que deviam ter sido libertados terminam tão prisioneiros quanto nos tempos feudais. Estes movimentos guerrilheiros são uma tolice intelectual, nada têm a oferecer.

Conheci gente da classe média que se juntou à revolução e ninguém me impressionou. Considerei-os vaidosos e, intelectualmente, nem um quarto tão inteligentes quanto imaginavam ser. Esta era minha impressão, então decidi ir conhecer o lugar. Não a área da guerrilha, mas uma cidadezinha perto. E aí percebi, após a terceira visita, isso aqui é tão superficial, essas pessoas são tão chatas, não há grandeza, aqui, nada que renda um livro. Então, conforme pensava sobre essas coisas, percebi como a própria superficialidade e a trivialidade poderiam se integrar à narrativa.

Para poder escrever, você precisa sair pelo mundo, se arriscar, tem de mergulhar no mundo, precisa procurar as coisas. Isso começa a ficar difícil conforme vai envelhecendo porque sobra menos energia, os dias ficam mais curtos e já não é mais tão fácil submergir no mundo lá fora.

V. S. Naipaul

Tags: Gente · Livros · Ásia Central

Uma entrevista aos sábados

29/December/2007 · 299 Comentários

Que eu amo o amor é verdade. Mas por esse amor eu compreendo a soma de todos os amores, ou seja, o amor de homem para mulher, de mulher para homem, o amor de mulher por mulher, o amor de homem para homem e o amor de ser humano pela comunidade de seus semelhantes. Eu amo esse amor mas isso não quer dizer que eu não tenha amado as mulheres que tive. Tenho a impressão que, àquelas que amei realmente, me dei todo. Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico final do meu soneto da fidelidade: ‘que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure.’

Minhas maiores emoções foram ligadas ao amor. O nascimento de filhos, as primeiras posses e os últimos adeuses. Mesmo tendo duas experiências de quase morte – desastre de avião e de carro – mesmo essa experiência de quase morte nem de longe se aproximou dessas emoções de que te falei.

Eu amaria Marilyn Monroe. Foi um dos seres mais lindos que já nasceram. Se só exisitisse ela, já justificaria a existência dos Estados Unidos. Eu casaria com ela e certamente não daria certo porque é difícil amar uma mulher tão célebre. Só sou ciumento fisicamente, é o ciúme de bicho, não tenho outro.

É curioso, a alegria não é um sentimento nem uma atmosfera de vida nada criadora. Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano. É por isso que acho que estou vivendo num momento de equilíbrio infecundo do qual estou tentando me libertar. O paradigma máxima para mim seria: a calma no seio da paixão. Mas realmente não sei se é um ideal humanamente atingível.

Detesto tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata. Ora, é notório que o diplomata é um homem que usa gravata. Dentro da diplomacia fiz bons amigos até hoje. Depois houve outro fato: as raízes e o sangue falaram mais alto. Acho muito difícil um homem que não volta ao seu quintal, para chegar ou pelo menos aproximar-se do conhecimento de si mesmo.



Vinícius de Moraes entrevistado por Clarice Linspector.

Tags: Gente · Livros · Música

O dia em que o Google virou polícia

12/December/2007 · 16 Comentários

Cory Doctorow, além de um dos fundadores do Boing boing, antes fanzine, depois um dos blogs mais badalados da Internet, é também escritor de ficção científica.

Ele abraçou-a de volta, apercebendo-se subitamente do seu odor corporal após uma noite de Googling invasivo. ‘Maya,’ disse ele, ‘que sabes sobre o Google e o DHS?’

Assim que ele fez a pergunta ela mudou de atitude. Um dos cães começou a chiar. Ela olhou em redor, e depois fez sinal em direcção aos courts de ténis. ‘No topo daquele poste de iluminação; não olhes,’ disse ela. ‘Aquele é um dos nossos pontos de acesso WiFi municipais. Tem uma webcam com lente grande angular. Não fales virado na sua direcção.’

No grande esquema das coisas, não tinha custado muito ao Google para colocar webcams por toda a cidade. Especialmente quando comparado com a capacidade de distribuir anúncios de acordo com onde as pessoas se sentam. Greg não tinha prestado muita atenção quando todas aquelas câmaras em todos os pontos de acesso foram tornadas públicas – durante um dia houve um frenesim com toda a gente a brincar com aquele novo brinquedo, fazendo zoom em várias zonas de prostituição, mas rapidamente a excitação se dissipou.

Incrédulo, Greg murmurou, ‘Estás a gozar.’

‘Vem comigo,’ disse ela, virando-se para longe do poste.

Scroogled foi publicado com a licença de distribuição Creative Commons. Pertence a Doctorow, mas pode ser livremente distribuído e traduzido. Acaba de ganhar uma tradução para o português (lusitano), assinada por Carlos Martins.

O conto nos apresenta a história do dia em que o Google transformou-se no instrumento de um Estado policial. Se é possível? Tudo o que Doctorow pinta em seu cenário é, tecnicamente, possível.

Tags: Blogosfera · Livros · Tecnologia

Daisy, Daisy

10/December/2007 · 35 Comentários

HAL 9000

Arthur C. Clarke completa 90 anos domingo.

Tags: Cinema · Gente · Livros

Uma entrevista aos sábados

1/December/2007 · 32 Comentários

Partes 2 | 3 | 4 | 5

Clarice Lispector

Tags: Gente · Livros

Uma entrevista aos sábados

17/November/2007 · 129 Comentários

Não sei como gostaria de ser lembrado e não quero interferir com meu karma. Uma pergunta como essas desperta a atenção das pessoas e, neste momento, o que me interessa mais é entender como as pessoas respondem àquilo que me chama atenção. Quero descobrir isso. Tentar checar minha subjetividade quando comparada aos mundos imaginados dos outros.

Seria legal ser lembrado como um poeta em êxtase ou um poeta cujo trabalho ajudou os outros a elevarem suas mentes; ou um poeta que espalhou um senso de expansão e compreensão, uma mente em expansão. Seria legal ser lembrado por uma energia generosa – paciência e generosidade. Mas isto é uma idealização neurótica de mim mesmo. Estou menos preocupado com a projeção que faço de mim mesmo e mais curioso com o que anda do lado de fora de minha mente. Então talvez eu queira ser lembrado como alguém que era curioso com o que se passava do lado de fora de sua mente.

O lance budista é boêmio por natureza. Ou permite a boemia. Não julga – é a prática da compreensão e não a palavra da lei e julgamento como cristãos e hebreus, tem uma estética mais precisa, como a mente do artista que é como a mente que medita: não importa em que você esteja pensando, você está interessado nesta coisa e não a rejeitando.

Não sei nada sobre a morte. Não lembro de ter morrido antes. A coisa mais profunda que sei é que sei que terei de dizer adeus a tudo que gosto muito. Vou fazendo isso aos poucos. Já não sinto tanta ansiedade para praticar sexo e tomo uns comprimidos para a pressão que me diminuem o tesão. Por causa da hipoglicemia, tive de dispensar as bolas de matzá, a challá. Também não como mais batatas ou borscht, porque tenho gota e pedras nos rins e borscht tem cálcio demais. Não posso mais comer massa ou o bom pão preto, pão de centeio ou torradas ou mesmo muffins, doces dinamarqueses, tortas ou bolos. Nem anéis de cebola, bagels. Não como mais carne vermelha, não se estiver tão crua que possa afundar meus dentes nela. Vou lentamente flutuando para pepinos e endívias e alfaces e azeite e limonada e um pouco de grão-de-bico, que tem menos carboidratos complexos. Já estou vivendo essas pequenas mortes.

Allen Ginsberg

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Uma entrevista aos sábados

3/November/2007 · 26 Comentários

Jorge Luis Borges

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Derrotando Hitler e a paranóia de Israel

4/October/2007 · 172 Comentários

Encontre dois judeus à porta da Sinagoga, diz a piada, e haverá três opiniões. Abaixo estão dois judeus conversando. O de itálico é Ari Shavit, colunista do diário de esquerda Ha’aretz. O outro é Avrum Burg, ex-deputado do Partido Trabalhista israelense. Burg acaba de lançar um livro.

Você vê de forma muito dura israelenses e a israelidade. Você diz coisas terríveis a nosso respeito.

Escrevi um livro de amor. Amor dói. Se eu estivesse escrevendo sobre a Nicarágua, não ligaria. Mas nesse lugar do qual viemos há muita dor. Vejo meu amor escorrendo perante meus olhos. Vejo minha sociedade e o lugar no qual me criei e minha casa sendo destruídos.

Amor? Você diz que israelenses só entendem força. Se alguém escrevesse algo assim sobre árabes ou sobre turcos ele seria chamado de racista. E com razão.

Você não pode tirar uma frase e dizer que o livro é só isto.

Não é só uma frase. Ela é repetida. Você diz que temos força, que usamos força, que usamos apenas força. Você diz que Israel é um gueto sionista, um lugar imperialista, brutal que acredita apenas em si.

Mas veja a Guerra do Líbano. Os soldados voltaram do campo de batalha. Venceram algumas, perderam outras. O normal é que a população, mesmo a direita, percebesse que quando o Exército tem a oportunidade de usar a força, ele não vence. A força não resolve. Mas aí vem Gaza e qual é o discurso? Vamos esmagá-los, vamos eliminá-los. Não entenderam nada. Nada. E não é só na relação entre nações. Observe como as pessoas se relacionam. Ouça as conversas que as pessoas têm entre si.

Você diz que o problema não é apenas a ocupação dos territórios. Para você, toda Israel é uma espécie de mutação horrenda.

A ocupação é uma parte pequena do problema. Israel é uma sociedade com medo. Para encontrar a origem da obsessão com força, para eliminá-la pela raiz, precisamos lidar com nossos medos. E o medo primal são os seis milhões de judeus que morreram no Holocausto.

Esta é sua tese. Você não é o primeiro a propô-la mas você a formula com intensidade. Você sugere que somos todos de alguma forma defeituosos psiquicamente. Somos tomados por medo, por pavor, e usamos a força porque Hitler nos causou este dano psíquico profundo.

Sim.

Bem, eu contra-argumentaria dizendo que sua descrição é distorcida. Não é como se vivêssemos na Islândia e imaginássemos que há um bando de nazistas a nossa volta quando na verdade eles desapareceram há 60 anos. Não é assim. A nossa volta estão ameaças reais. Somos um dos países mais ameaçados do mundo.

A real divisão entre os israelenses, hoje, é aquela entre os que acreditam e os que têm medo. A grande vitória da direita israelense na luta pela alma política do país é a maneira como conseguiu incutir uma paranóia absoluta. Sei que há dificuldades. Mas são absolutas? Será que todo inimigo é um novo Auschwitz? O Hamas é o nazismo?

Você está sofismando, Avrum. Você não tem empatia por nós israelenses. Você trata o israelense judeu como um paranóico. Mas, como segue o clichê, alguns paranóicos têm seus inimigos. Hoje mesmo, conforme conversamos, Ahmadinejad está dizendo que nossos dias estão contados. Ele promete nos erradicar. Não, ele não é Hitler. Mas também não é uma miragem. É uma ameaça real. Ele é o mundo real – um mundo que você ignora.

O que digo é que, neste momento, Israel é um país traumatizado em quase todas suas dimensões. E esta não é apenas uma questão teórica. Será que nossa habilidade para lidar com o Irã não seria muito maior se renovássemos em Israel a habilidade de confiar no mundo? Não seria muito melhor se ao invés de lidar com o problema por nossa conta nós pudéssemos nos alinhar com outros, com as igrejas cristãs, com os governos estrangeiros e até mesmo com outros exércitos?

Mas não, nós não confiamos no mundo. Achamos que o mundo vai nos abandonar a cada segundo. Estamos sempre vendo Chamberlain retornando de Munique com seu guarda-chuvas negro. Não. Vamos bombardeá-los sozinhos. Será por nossa conta.

Fora outra a piada, com um rabino de personagem, ele ouviria os dois judeus com seus argumentos, ponderaria, citaria algo do Talmude e concluiria ao final: vocês dois têm toda a razão.

O livro de Avrum Burg, que acaba de sair em Israel, chama-se Derrotando Hitler. A íntegra da entrevista foi publicada no Ha’aretz.

via Pathologically polymathic

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Biblioteca por encomenda

3/October/2007 · 32 Comentários

Criamos bibliotecas finas compostas por volumes encadernados em couro de literatura e história. Nos últimos anos, montamos biblitecas na Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos e Austrália. As coleções que criamos representam não apenas os mais belos volumes à disposição como também têm imenso valor.

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Tags: Livros · Pop

Livros autopsiados

21/September/2007 · 21 Comentários

Autópsia
via Boing boing

Tags: Artes · Livros · Pop

Para colocar nas estantes das quintas…

21/August/2007 · 8 Comentários

…um livro que acende.

via Rare bird finds

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