Tudo publicado sobre 'HQ'
Dupondts keep falling on my head
19/November/2008 · 23 Comentários
Tags: HQ
Jessica Rabbit de carne e osso
25/June/2008 · 12 Comentários
Ela – e também o filme que mostra o processo no Photoshop. Mas, também, Homer Simpson. E, horror dos horrores, Super Mario.
Astérix visto por Milo Manara
3/April/2008 · 21 Comentários
Está para sair no Brasil, pela Editora Record, o álbum Astérix e seus amigos. Lançado no ano passado, na França, celebrou os 80 anos do desenhista Albert Uderzo. Inclui Astérix visto por David Lloyd (que desenhou V de Vingança) e Astérix aos olhos de Milo Manara.
A edição francesa está online. (O site é pesado; depois que carregar, basta clicar no canto de cada página para virá-la.)
Tags: HQ
Leituras
13/March/2008 · 28 Comentários
Red cat, de Peter Spiegelman, e Adeus, Hemingway, de Leonardo Padura Fuentes, estão entre minhas descobertas mais recentes na literatura policial. (Embora sejam livros completamente diferentes um do outro.)
Padura Fuentes é cubano, vive em Cuba, fui apresentado a ele por um amigo que divide comigo esta fixação por policiais. Seu detetive é um policial aposentado, Mario Conde, que tenta virar escritor. Por conta do amor pela literatura, seus ex-companheiros da delegacia pedem que ele tente descobrir o que houve na casa de Ernest Hemingway uns 40, 50 anos antes. É que um cadáver com esta idade e uma carteira do FBI foi desenterrado do jardim mais ou menos na época em que o velho escritor esteve em sua finca pela última vez.
A Cuba de hoje e a de antes da Revolução convivem ao longo de uma história intrincada, cheia de flashbacks. O cara escreve muito bem – é um romance policial com densidade, personagens profundos, com um pé naquela melancolia do noir e outro na boa literatura.
Red Cat é completamente diferente, seu cenário é a Nova York contemporânea, e John March, o personagem principal, é um bom e velho detetive particular. Seu irmão, um executivo de banco riquíssimo, está sendo chantageado por uma de suas muitas amantes.
Peter Spiegelman não vai na alma atormentada de seus personagens com a profundidade de Padura Fuentes, mas o pobre March apanha, e apanha muito, e apanha toda hora, como cabe a um detetive particular teimoso. A grande atração é uma trama bem costurada que envolve a filmagem das transas dos amantes, o estranhíssimo e sempre bizarramente antenado mercado de arte contemporânea novaiorquino, o pesadelo de quanto este tipo de imagem pode vazar para a Internet. Romances policiais não costumam mexer com tecnologia e as mudanças provocadas por ela na sociedade. Spiegelman a usa e é o que torna seu livro divertidíssimo.
Um cenário bem bolado costuma ser das coisas que me atraem em romances policiais – daí que a filmagem clandestina do sexo, tão comum nos tempos vigentes, ou a Havana de hoje, me atraíram para ambos os romances. E daí que fui com sede atrás de Yiddish policemen’s union, de Michael Chabon.
Sua premissa é excelente. Israel não aconteceu. Para lidar com o problema do pós-Holocausto, os EUA cedem um naco do Alaska para onde os judeus podem migrar. Em 2005, no entanto, 60 anos após a cessão, as terras estão para voltar à posse do governo norte-americano. A língua que se fala nas ruas é o iídiche, não o hebraico. Está todo mundo meio desesperado para conseguir um visto para algum lugar do planeta – é preciso se mudar. E, em meio a esta confusão, acontece o assassinato de um homem desconhecido que, naturalmente, tem tudo a ver com tudo.
Encarei o livro de frente, ao longo último mês, algumas vezes. Cheguei ali à página 50 muito lentamente. Empaco no ritmo. Há de ser bom, talvez torne a ele em uns meses. Por enquanto, fica adiado.
Dois quadrinhos andaram pelas minhas mãos, ambos editados pela Conrad. O primeiro é Fun home, obra autobiográfica de Alison Bechdel. A autora é lésbica, seu pai era homossexual enrustido – coisa que só foi descobrir muito mais tarde. Ao recontar a história familiar que viu com olhares de menina e tentar reinterpretá-la, Bedchel procura talvez a origem de sua identidade. É uma ‘tragicomédia familiar’, diz o subtítulo muito adequado. Nunca tinha parado para pensar neste momento ali entre a adolescência e a idade adulta no qual homossexuais começam a lidar com o que são, o que isto significa, o quanto que a sexualidade nos encaixa na sociedade de uma forma diferente, limitando alguns espaços, abrindo outros. É um momento de extrema angústia onde muitos – caso do pai de Bechdel – se perdem completamente para a vida. É um álbum surpreendentemente denso, extremamente delicado.
O outro é o Clic 3, de Milo Manara. A trama não varia muito em relação aos primeiros da série: Claudia Christiani está lá com o implante no cérebro que a expõe. Alguém, com um controle remoto, pode num ‘click’ fazer com que ela enlouqueça de desejo sexual que precisa ser imediatamente saciado. Manara é isso: estas grandes fantasias que não carecem muito de enredo, estas mulheres belíssimas de alma italiana e corpo eslavo – pernas longas, bundas grandes, seios fartos. Christiani é uma moça rica é profundamente conservadora, então há sempre um certo desespero quando ela é levada aos píncaros da libido. (E há por certo aí alguma metáfora sobre como as pessoas que se mostram mais conservadoras costumam ser as mais passíveis a escândalos em geral os mais contorcionistas.) Mas Manara não é a história, Manara é um mundo próprio, este conjunto de mulheres fantásticas sem quaisquer pudores e homens absolutamente maravilhados com os cenários que elas ensaiam nos mostrar.
Andei também com Os melhores jornais do mundo, de Matías Molina. Ele, que é espanhol de nascença, brasileiro com sotaque e um dos pais do jornalismo de economia tupinambá, é provavelmente o melhor nome para encarar esta tarefa: contar quais os melhores jornais do mundo, suas histórias e explicar o que faz, afinal, um bom jornal? Todos listados, suas histórias deliciosamente contadas, Molina chega à seguinte conclusão. O jornal excelente parte do princípio de que seu leitor é inteligente. Além de cobrir a cidade, o país, o cotidiano, ele tem também um pé fortemente fincado no mundo, com correspondentes em vários países, viagens constantes. Para fazer um bom jornal, é preciso olhar para fora e compreender como seu país é visto de fora para dentro, como ele se encaixa na geopolítica. Por fim, cultura. Há uma cobertura sofisticada das artes.
Por fim, estou me divertindo muito, apesar de uma leitura lenta, com Em busca de Jesus, de John Dominic Crossan e Jonathan Reed. O título em português sugere leitura para conversão – não é. É uma batida das descobertas arqueológicas recentes que apresentam o mundo e o contexto no qual viveu Jesus. É história, não religião. Ciência. Mas este fica para uma próxima batelada de livros.
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Persépolis e o Irã no Oscar
24/February/2008 · 54 Comentários
Hoje, no Oscar, um dos candidatos ao prêmio de melhor longa de animação é Persépolis, da iraniana Marjane Strapi. O filme nasce do álbum em quadrinhos de mesmo nome – que é uma beleza de livro. No Estadão, Flávia Guerra conta da moça:
Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência ‘aprendendo’ a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. ‘Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?’, perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: ‘Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este’. O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano.
Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. ‘Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou. […]
Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história.
Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava Punk is not dead, seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia.
O texto de Flávia é do tipo que dá prazer ler. Os quadrinhos – e agora, possivelmente, seu filme – são peças essenciais para compreender o Irã contemporâneo.
Freakangels e o fim do mundo
22/February/2008 · 35 Comentários
Vinte e três anos atrás, doze crianças estranhas nasceram na Inglaterra exatamente no mesmo momento.
Seis anos atrás, o mundo acabou.
Jovens, privilegiados e sem rumo, a Gangue dos Freakangels fizeram algo com suas vidas em Whitechapel. Mas tudo começa a perigar quando uma moça chamada Alice, de Manchester, aparece com uma arma e um problema. Ela encontrou o último Freakangel que estava perdido, aquele que tinha idéias muito diferentes a respeito do que fazer com seus talentos nesta Inglaterra inundada.
O roteiro é de Warren Ellis, a arte de Paul Duffield. Nesta série de quadrinhos online, há uma página nova a cada semana.
Tags: HQ
Uma entrevista aos sábados
9/February/2008 · 33 Comentários
Eu já tinha criado o Quarteto Fantástico e, se não me engano, o Hulk, e as revistas estavam vendendo bem. Meu editor me procurou e comentou ‘que tal imaginar outro super-herói?’ Eu disse ‘ok’. Fiquei sentado à mesa tentando pensar num e vi essa mosca andando pela parede e aí pensei, ‘nossa, não seria legal se um herói pudesse andar pelas paredes como um inseto?’ O maior problema quando você cria um super-herói é que superpoder você vai dar para ele. É que todos já foram imaginados. Então imaginei que alguém que grudasse nas paredes como inseto seria legal. Daí precisei de um nome. Que tal Homem Inseto? Não parecia dramático. Homem Mosquito? Nah. Fui fazendo uma lista. Quando cheguei em Homem Aranha, aquilo soava dramático. Homem Aranha!
Primeiro dei ele para o Jack Kirby desenhar, mas o Jack sempre fazia esses tipos heróicos, como o Capitão América. Eu disse ‘Sabe, Jack, eu queria que esse cara, Peter Parker, mais parecido com um adolescente típico. Não faz ele como um super-herói musculoso.’ Mas acho que o Jack já estava tão acostumado a desenhar aquele tipo de gente que, depois de ele esboçar uma página ou dias eu olhei e disse ‘olha, por aí não vai’ e falei ‘deixa pra lá, Jack, vou passar para outro’. Ele não ligou. Ele tinha muito trabalho e não sabíamos que esse personagem ia ficar tão importante. Então dei pro Steve Dikto, que tendia a fazer uns desenhos um pouco mais realistas. Ele fez um esboço e não interferi muito com o uniforme. O uniforme do Homem Aranha é obra do Steve.
Se eles não tiverem defeitos, ficam desinteressantes, unidimensionais. Se o personagem nunca faz nada de errado, se é perfeito, não desperta interesse. Sempre tentei imaginar personagens realistas e apenas dar a ele um atributo incrível. Fora isso, devem despertar empatia. Você vê o Super-Homem. Nenhum leitor se preocupava com o Super-Homem porque saia que não poderia machucá-lo. É por isso que o Homem Aranha sempre vendeu mais que o Super-Homem. E é por isso que os caras acabaram inventando a kriptonita. Eles perceberam que ficava difícil criar suspense sem uma vulnerabilidade. Aquiles, sem seu calcanhar, não ia ser lembrado por ninguém.
Stan Lee, 2006
Snoopy, Charlie Brown e Charles Schulz
22/October/2007 · 23 Comentários
Schulz and Peanuts é o nome da biografia assinada por David Michaelis de Charles Schulz, o criador de Charlie Brown, Snoopy, Woodstock e seus parceiros. Na New Yorker, John Updike escreve a resenha:
Michaelis conseguiu permissão para reproduzir 240 das 17.897 tiras publicadas para ilustrar como, tão freqüentemente, elas citavam a vida de Schulz. A insegurança de Charlie Brown, suas ansiedades, seus jogos de baseball, seu bai barbeiro, tudo é um retorno à cidade natal do autor, St. Paul. Snoopy é lembra muito um cãozinho particularmente esperto que Schulz teve criança, Spike. Quando Dana, sua mãe, estava morrendo, ela sugeriu que se um dia viessem a ter outro cachorro, deveriam batizá-lo Snoopy – snupi, em norueguês, quer dizer afeto. As fantasias do beagle, que se vê na Legião Estrangeira ou como um piloto da Primeira Guerra são baseadas nos filmes de ação dos anos 30 que Schulz assistia quando menino no cinema da cidade. Já adulto, seu caso com Tracey Claudius deixou marcas profundas na tira. Snoopy datilografando no telhado de sua casinha de cachorro parodia as cartas de amor que o próprio Schulz escrevia diligentemente. Em uma delas, escreveu, ‘Cabelos negros e o nariz, perfeito. Mãos macias às vezes frias, outras vezes quentes’. Snoopy, deitado em seu telhado, pensa ‘Ela tinha as patas macias… *sigh*.’ Quando sua mulher descobriu seus telefonemas às escondidas, o flagrante também apareceu nas tiras, como apareceu a receita de Schulz para argumentar perante o juiz de divórcios. Snoopy, Michaelis demonstra, é um adulto com vida sexual ativa e posses típicas de um adulto. Ele tem uma mesa de sinuca, um som e um van Gogh, tudo de alguma forma encaixado dentro da casinha. Há episódios que o envolvem e que refletem a psicodelia dos anos 60 e que, em geral, são livres da melancolia típica da população infantil da tira.
O primeiro desenho animado
12/September/2007 · 6 Comentários
Gertie, a dinossauro, de 1909, é provavelmente o primeiro desenho animado. Seu autor, Winsor McCay, é um dos primeiros quadrinistas, autor de Little Nemo.
Aprenda a desenhar em 15 minutos
23/August/2007 · 13 Comentários
É o mestre francês Marcel Gotlieb – mas pode chamar de Gotlib – que o ensina.
Reino Unido quer proibir Tintim
12/July/2007 · 182 Comentários
A Comissão pela Igualdade Racial, do governo britânico, pediu que as livrarias interrompam a venda de Tintim na África, segundo álbum em quadrinhos de uma das séries mais populares do mundo.
O livro é racista. Profundamente racista. Colonialista ao limite. Publicado em 1930, em Tintin au Congo negros são burros qual portas e são chamados de macacos. O álbum não é sequer particularmente bom: é uma obra menor na coleção ilustrada e redigida por Georges Remi, que se assinava Hergé.
No Reino Unido, Tintim na África é vendido entre os livros adultos, não entre os juvenis, justamente por conta do conteúdo racista. Traz na capa um alerta. Já velho, antes de morrer, Hergé falou da obra. “Quando jovem”, disse, “fui muito influenciado pelos preconceitos e estereótipos burgueses do tempo.” Ele listava Tintim na África entre seus pecados de juventude.
Hergé é autor de algumas das coisas mais geniais e profundas da história dos quadrinhos. Inclua-se na lista sua obra prima, Tintim no Tibete, na qual o jovem repórter embrenha-se pelas montanhas geladas na tentativa de encontrar Chang, seu amigo chinês, único sobrevivente de um acidente de avião. O livro, de 1960, é místico, orientalizado, respeitoso – tolerante e fascinado com o encontro de culturas distintas.
O governo britânico não está censurando: pede que as livrarias cooperem interrompendo a venda. Tintim na África faz parte de uma coleção de 23 álbuns. Se é mais imaturo – e é – também é um retrato de como a burguesia européia via o resto do mundo nos anos 1930.
Se o racismo nos incomoda hoje, se mesmo racistas envergonham-se de demonstrar o que pensam, é por conta de tragédias e lutas que, entre o Holocausto e Luther King, remodelaram nossa percepção do mundo. Esquecer que o racismo era natural há oitenta anos é desdenhar do esforço envolvido em dominá-lo. Se deixamos de ler os registros cotidianos daquele tempo – como Tintim na África –, estimulamos este esquecimento. Nenhuma obra deve ser lida ignorando a época na qual foi escrita.
O intervalo entre Tintim na África e Tintim no Tibete mostra ao leitor de Hergé a mudança do autor. Certamente ele não seria lembrado se tivesse deixado apenas aqueles primeiros álbuns.
Mas como cresceu entre um e outro.
O Che em quadrinhos
7/December/2006 · 123 Comentários
Está chegando às livrarias ‘Che’, história em quadrinhos do sul-coreano Kim Yong-Hwe que conta a vida do médico revolucionário argentino Ernesto Guevara de la Serna. É sua primeira grande biografia quadrinizada e, lançada pela Conrad, serve de introdução ao Che mítico.
É um mangá e, como cabe, vem cercado de citações pop do tipo que atraem o jovem japonês, sul-coreano e certamente a um bocado de brasileiros. Não estranhem, pois, se na introdução estiver lá um Matrix – Yong-Hwe tenta cativar seu leitor da geração videogame.
Para o leitor brasileiro, os momentos iniciais da biografia, que retratam o período em que circulou a América do Sul de motocicleta acompanhado de seu amigo e também médico Alberto Granado serão familiares. (Este é um dos trechos liberado, pela web, para degustação.)
Aos 37 anos, Yong-Hwe é um dos principais artistas dos quadrinistas sul-coreanos, ainda pouco conhecidos no mundo. A transliteração de seu nome, escolhida pela Conrad, é a francesa, onde o álbum se popularizou primeiro. É uma escolha curiosa por parte de seus editores europeus – Kim Jong-Hwe, ou Kim Jong-Hoi seria mais comum.
Agora neste ano que entra, faz 40 anos que Guevara foi assassinado, na selva boliviana. Sua imagem carrega uma profunda carga romântica – e estes quadrinhos a reforçam –, a do revolucionário que largou o poder para lutar contra os opressores. Será sempre impossível saber quem seria o Guevara envelhecido, se estaria no poder cubano, se teria sido exilado, se mudaria de idéia a respeito do lado que escolhera, se seria uma figura esquecida, suja de pó e mofo, no pós-comunismo.
Morreu em 1967 e lá ficou, congelado.
Mas a imagem de Guevara continua pairando na América Latina, principalmente nos tempos que correm, com Evo Morales, Hugo Chávez, Daniel Ortega de volta, Fidel ainda lá – até mesmo, talvez, com Lula cá.
(Os quadrinhos são uma boa introdução lúdica, um barato de ler em pouco tempo; o Guevara histórico pode ser encontrado em Che, biografia de Jon Lee Anderson, publicado no Brasil pela Editora Objetiva.)
Tags: América Latina · HQ · História · Ideologias
Hitler em quadrinhos
15/October/2006 · 60 Comentários
Alguns dos que gostam de histórias em quadrinhos resistem ao gênero do mangá: o traço japonês, em geral econômico, nos quadrinhos fica exagerado; ler de trás para frente e ordenando os quadros da direita para a esquerda é desconfortável no início. E, francamente, o roteiro da maioria não atrai ninguém.
Quem inventou aqueles olhos largos, exagerados, que marcam o gênero foi Osamu Tesuka, morto em 1989 aos 61 anos. (Baseou-se, ironicamente, no Mickey.) Ele em geral é conhecido pelo Astro Boy – para quem gosta do tipo. Para quem se interessa por história do século 20, no entanto, está circulando na praça Adolf, sua série de cinco episódios, três dos quais já publicados pela Conrad.
Hora de largar a resistência: é bom.
Bom, embora baseado numa das mais bizarras lendas urbanas em circulação: a de que Adolf Hitler seria neto ilegítimo de um judeu rico. O motivo é que o pai de Hitler, Aloi, foi registrado como filho de mãe solteira; seu avô é desconhecido.
Durante o julgamento de Nuremberg, um de seus auxiliares explicou que sua avó, enquanto trabalhava em Graz, serviu à família Frankenberger; seduzida pelo filho do patrão, engravidou e foi demitida. Simon Wiesenthal, o grande caçador de nazistas, foi atrás de algum tipo de documentação que comprovasse o depoimento. Não encontrou nenhuma família Frankenberger em Granz. Aliás, descobriu que os judeus haviam sido expulsos de lá desde a Idade Média. Quando enfim retornaram, o avô de Hitler já era um homem de vinte anos.
Nada estraga, por outro lado, a diversão na série de Osamu. Lá está contada a história de três Adolfs. Um é o ditador alemão; o segundo, Adolf Kaufmann, é o filho de um diplomata alemão com uma japonesa; o terceiro, Adolf Kamil, é o filho de judeus exilados no Japão. Ao seu redor está o clima japonês nos anos que precedem à Segunda Guerra e um jornalista desesperado correndo atrás de juntar as peças de um segredo terrível enquanto a polícia secreta segue em seu encalço.
Não é comum ter acesso a uma descrição do Japão neste período. O autor era adolescente e, de certa forma, Adolf tem um quê de suas memórias. O racismo latente, o clima persecutório, as prisões repentinas e clandestinas, a tortura, as mudanças no comando, a militarização do país – tudo está em curso conforme as personagens de Osamu vivem suas tragédias particulares.
Faltam dois volumes por publicar. Cá este blogueiro aguarda ansioso.






