Hoje, no Oscar, um dos candidatos ao prêmio de melhor longa de animação é Persépolis, da iraniana Marjane Strapi. O filme nasce do álbum em quadrinhos de mesmo nome – que é uma beleza de livro. No Estadão, Flávia Guerra conta da moça:
Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência ‘aprendendo’ a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. ‘Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?’, perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: ‘Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este’. O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano.
Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. ‘Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou. […]
Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história.
Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava Punk is not dead, seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia.
O texto de Flávia é do tipo que dá prazer ler. Os quadrinhos – e agora, possivelmente, seu filme – são peças essenciais para compreender o Irã contemporâneo.
Nós somos as autoridades em tirar as pessoas das drogas. Somos as autoridades na mente. Somos as autoridades em melhorar a vida de todos. Criminalidade? Podemos reabilitar criminosos. O caminho da felicidade? Nós podemos trazer a paz. Unir países. Depois que você conhece a maneira de fazer isso, não pode mais dizer apenas ‘eu estou bem’… viajei pelo mundo e conheci líderes de vários campos. Eles querem ajuda. Eles dependem de gente que sabe. De gente que é eficaz. Que faz. Estes somos nós. É nossa responsabilidade. A hora é agora.
As palavras vêm de um vídeo que está no Gawker, uma entrevista interna da Igreja de Cientologia com seu número dois, Tom Cruise. Tem mais lá.
Martin Scorcese recria Alfred Hitchcock com direito a trilha de Bernard Hermmann para o talvez mais estupendo comercial jamais feito para a Internet. Neste caso, o anunciante é a espanhola Finca Freixenet.
Desde o início do mês, os roteiristas da tevê e do cinema norte-americanos estão em greve. (Escrevi sobre o assunto no Estadão, semana passada.) A greve paralisou os talk-shows, as séries embora, por enquanto, ainda não tenha atingido Hollywood, que tem scripts arquivados.
O motivo da greve é simples: para os investidores, grandes executivos de mídia anunciam fortunas em lucros angariados pela Internet; para os roteiristas, dizem que não podem dividir um tostão dos ganhos, não há percentual em direitos autorais, porque a rede é incerta. O discurso dúbio que muda conforme o cliente inventou esta greve.
É justamente na Internet que os roteiristas estão fazendo sua campanha. Muitos dos atores e apresentadores de tevê estão – ao menos por enquanto – ao seu lado. O blog Deadline Hollywood tem a série de vídeos da campanha dos roteiristas filmados com grandes estrelas.
Quem acompanhou com interesse a discussão a respeito de Che Guevara e saiu um tanto aflito sem entender bem quem, afinal, foi Che Guevara, provavelmente gostará de ver o filme Personal Che, de Douglas Duarte e Adriana Mariño.
O documentário foi exibido nos festivais do Rio e de São Paulo, o mestre crítico Luiz Carlos Merten o elogiou à beça. Trata, essencialmente, da questão de que o ícone Che virou um coringa que serve a qualquer um. Serve de símbolo do ódio que alguns da direita tem da esquerda; serve de ídolo marxista, santo boliviano – ídolo, pasme, neonazista. Serve aos cubanos exilados nos EUA como lembrança de tudo que não gostam no atual comando de seu país. É cultuado por gente da oposição na China. Essencialmente, fala do que Che realmente é: uma imagem de muitas coisas, poucas relacionadas a quem de fato foi.
Ainda na discussão, um tanto de repercussão: no Terra Magazine, Ricardo Kauffman compara as duas reportagens de Veja sobre o Che – a de 1997, a de 2007, e mostra o que faz de uma jornalismo e da outra, não. (Dorrit Harazim, que assina o texto mais antigo, está ali entre os cinco melhores textos jornalísticos brasileiros. A comparação tem um quê de covardia.)
No Observatório da Imprensa, Carlos Brickmann fala da Lista Negra que Veja reconheceu ter: ‘Lista negra é o oposto do jornalismo; é a negação da imprensa livre. A opinião é livre, mas levar ao leitor all the news that’s fit to print é a obrigação de cada jornalista.’; Alberto Dines, citando outra reportagem não relacionada de Veja, pede: ‘Ninguém é insubstituível, é certo, por isso cabe a pergunta – não está na hora de mudar a direção da Veja? Este tipo de jornalismo rancoroso, envilecido, já cansou. Lembra uma charanga tocada por latas velhas, nada tem a ver com o projeto original, edificante, concebido para elevar os leitores e não rebaixá-los à condição de pitbulls.’
Foram dias de trabalho intenso que fizeram com que este Weblog perdesse, ontem, uma data importantíssima: foi o 90o aniversário da Revolução Bolchevique, a Revolução de Outubro.
1917 foi um ano agitado para a Rússia. Entre a queda do regime do Czar, em março, e o 7 de novembro, houve quatro governos provisórios, todos instáveis, incapazes de dar conta de uma solução. Nos dias correspondentes a 24 e 25 de outubro no calendário russo – daí o disparate de datas – os homens conduzidos por Vladimir Ulianov, Lênin, ocuparam prédios públicos da capital produzindo um golpe dentro do golpe e tomando o governo. Os comunistas mantiveram-se no comando até 1991.
Neste período, ergueram a Rússia que estava em frangalhos, combateram e derrotaram – com ajuda norte-americana – o Nazismo, transformaram-se em uma das duas maiores potências do mundo e contribuíram – com ajuda norte-americana – para a polarização de quase meio século 20 e aí o sistema que construíram não mais se sustentou.
Provavelmente ainda é muito cedo para compreender os sucessos e os fracassos da experiência soviética. É fácil demais dizer, ora, o comunismo caiu de podre que era, embora muitos dos comentaristas por certo o dirão; é um quê mais complicado. Do outro lado estão os dogmáticos que se recusam a reconhecer que aquela foi uma ditadura do início ao fim, um Estado policial com momentos particularmente duros, como no governo de Joseph Stálin.
A União Soviética produziu o maior genocídio e a maior distribuição de renda do século 20. Se este não é um legado complexo, o que será?
Para quem vive no Rio de Janeiro, o Partido Comunista Brasileiro apresentará o filme O homem com a câmera na mão, de Dziga Vertov, hoje, às 19h30, na Associação Scholem Aleichem – Rua São Clemente, 155. A entrada é franca e o filme, talvez o primeiro documentário, não apenas é histórico como revolucionário no cinema. A cópia vem da Polytheama, a histórica locadora de Júlio Miranda que tem a maior coleção de cinema mudo da América Latina. Na seqüência, Zuleide Faria de Melo, presidente do PCB, e Carlos Alberto Barão, historiador da UFF, debaterão esta história.
‘Esta nova Playboy que você tem em mãos”, escreveu na edição de outubro o diretor da revista francesa Yan Céh, “marca a estréia de uma nova aventura. Se inspira no espírito original da revista americana e a ambição é produzir uma versão francesa que seja a imagem da França e de Paris: com glamour, sexy, inteligente mas popular.”
A reinauguração da revista na França veio com, na capa, a atriz Vahina Giocante. Uma graça, a moça. Mas o que quer dizer ‘reinaugurar ao espírito original’? Na verdade, não muito.
Julliete Binoche muda um tanto o jogo. Ela diz: ‘fui convencida por uma jovem equipe que quer mudar a Playboy e pretende falar do corpo de uma maneira diferente, em lhe dar alma. Nós temos uma tendência de separar o corpo do espírito, o corpo das emoções. Nós colocamos o prazer à parte. De certa maneira, reivindicar este tipo de corpo nas páginas da revista é um ato militante’.
São dois ensaios – num deles Binoche, deslumbrante aos 43, está nua. Cai ainda uma entrevista, feita por Antoine de Baecque, ex-editor da Cahiers du Cinema e do caderno cultural do diário Libération. É acabamento de luxo, um baita trabalho editorial. Trazer peso e densidade editorial traz público, relevância. Uma seqüência de edições assim, com grandes nomes fazendo as entrevistas, grandes fotógrafos de moda assinando os ensaios, mulheres relevantes – e bonitas – nas capas produz, de fato, uma reinauguração da revista. Faz mais: transforma a edição francesa, surpreendentemente, na edição mais relevante da Playboy no mundo. Na que mais repercute.
Só que não é assim tão simples manter o ritmo. A edição que chega às bancas francesas – e à Internet, e a este Weblog, logo depois – sai dia 30 de outubro.
Na capa da Veja, leio que o sucesso do filme Tropa de Elite se dá porque finalmente, alguém ‘trata bandido como bandido’. Meu amigo Bode Orelana, analista político de plantão, me garante que o filme é bom, e que desnuda a engrenagem hedionda capaz de fabricar torturadores de boas intenções. Leio na Folha um rapper defender a tese imbecil de que o crime é um mecanismo de justiça social, e o Reinaldo Azevedo, em vez de desmontar o argumento, dizer, babando pelo canto da boca, que a democracia pede a supressão sumária de vozes como essa.
O companheiro Sergio Leo fica procurando motivo na imprensa para ser pessimista. Quem procura, evidentemente, acha.
Existe essa possibilidade de leitura em Podecrer, não sei se o Arthur quis fazê-la, ou se foi como eu recebi o filme dele. Podecrer tem um lado de Truffaut. Não, não é a coisa do romance, mas é um sentimento que percorre certos filmes de François, Jules e Jim e O Quarto Verde, por exemplo. A saudade das coisas mortas ou a nostalgia das coisas ainda vivas, mas que vão desaparecendo. Há naquele happy end uma idéia (honesta) de que as coisas nunca são como a gente pensa, que para todo ganho há sempre uma perda e que, mesmo quando tudo dá certo, as coisas nunca são como sonhamos e nada traz de volta ‘o esplendor na relva’, como a epígrafe de Clamor do Sexo, de Elia Kazan, retirada de um poema de Woodsworth.
Podecrer chegará ainda este ano aos cinemas. Mais que um filme, é um clima: Rio de Janeiro, 1981. A garotada que completa o terceiro ano do segundo grau está para lançar o rock nacional. Surfa. Às vezes, fuma um – mas é ingênuo, ainda.
O tráfico não assumiu as rédeas. Ainda não vieram Brizola, Moreira, Marcello – ou Garotinhos. Os exilados é que estão chegando. Há um certo otimismo no ar. A ditadura acabará e o Brasil ficará melhor.
É certo.
Produzido pela Conspiração, dirigido por Arthur Fontes, é bom antídoto para cariocas e brasileiros que saíram meio baqueados, deprimidos, com uma certa desesperança de Tropa de Elite.
Filme leve que só, despretensioso. Deixei a cabine que o exibia de antemão com um sorrido no rosto e com saudades do Rio que foi um dia e dum Brasil que não existe mais.