Vamos nos entender sobre
aquecimento global/mudança climática?

15/May/2009 - 01h13 - 89 Comentarios

Vamos ter um debate inteligente a respeito de mudança climática? O Darwinista, em seu blog, faz um desafio interessante e impõe apenas um critério, bastante simples:

Qualquer interessado, não importa qual seja a opinião a respeito, envia um artigo sobre o tema. O trabalho deve ter sido encontrado em uma publicação científica ou ter sido produzido por um ou mais pesquisadores vinculados a alguma instituição de pesquisa. Caso a instituição não seja notoriamente reconhecida, o debatedor deve fornecer a lista de financiadores da instituição.

Tem tudo para ser educativo para todos. Qualquer coisa pode ser dita, mas é preciso sustentar cada afirmação com estudos científicos. A partir daí, tenho certeza, aprenderemos todos.

São Paulo, Rio e o aquecimento global

14/May/2009 - 02h10 - 69 Comentarios

Prestem atenção nestas duas imagens – a primeira é o mapa do litoral imediatamente próximo de São Paulo; a segunda é o litoral carioca. Os mapas representam a altura em relação ao nível do mar.

sp

rj

Durante o século 20, o nível do mar subiu 20 centímetros. Vários modelos tentam prever qual será o efeito do aquecimento global. Icebergs, Groelândia, Pólo Norte – são tantas as possíveis fontes de derretimento de gelo que pode trazer mais águas ao oceano, e são tantas as variáveis. Muitos modelos prevêem um aumento de pelo menos 1 metro até 2100. A maioria dos modelos prevêem um aumento menor do que 2 metros.

Agora voltem ao mapa – a versão dinâmica, que cobre todo o mundo, está online. O Rio está mais fragilizado, com mais terrenos nos arredores expostos a um aumento de 1 metro. São Paulo, menos.

O mapa do carbono no Brasil

18/March/2009 - 02h36 - 57 Comentarios

O Brasil estaria bem na fita do combate ao aquecimento global se não fosse o desmatamento e as queimadas. Nossos carros a álcool e nossas usinas hidrelétricas dão ao Brasil uma das energias mais limpas do mundo. Se não fosse a destruição da floresta, cada um de nós brasileiros estaria emitindo na média 5 toneladas de carbono por ano, um índice muito mais baixo que a maior parte do mundo. Mas, como tem desmatamento, nossa média per capita sobe para 12 toneladas de carbono por ano, equivalente à de países muito mais industrializados que nós. Aí você fala assim: então o problema não é comigo, é com o pessoal lá da floresta. Nada disso, meu chapa. Você come carne de boi, usa madeira ou come soja? Então me desculpe, mas o problema tem a ver contigo, porque são esses os causadores do desmatamento.

O Denis tem, em seu blog, um quadro da McKinsey mostrando quais são os pontos nos quais o Brasil (e os brasileiros) devem atacar o problema do Aquecimento Global, qual o custo deste ataque, e qual o impacto na diminuição das emissões de carbono que cada área pode representar.

A China faz o mundo girar
(Todos juntos: EUA, Brasil, África, Irã…)

19/February/2009 - 14h53 - 53 Comentarios

Aqui nos EUA, a imprensa fala compulsivamente a respeito da viagem da secretária de Estado Hillary Clinton à China. Há muito o que se falar. Internamente, há uma difícil batalha entre Hillary e o secretário do Tesouro Timothy Geithner sobre quem comandará a relação entre os dois países. (No governo Bush, considerava-se que a Fazenda, não a diplomacia, devia ditar o tom desta relação.) A China, afinal, é o maior credor externo dos EUA.

Ontem, quarta-feira, chegou ao Brasil o vice-presidente chinês Xi Jinping. Ele traz na pasta uma linha de crédito de 10 bilhões de dólares para a Petrobras, em troca da garantia de fornecimento de petróleo para seu país. Foi há exatos 35 anos, em 1974, que o Brasil restabeleceu relações com a China. Durante o governo Lula, as trocas de visitas entre os dois país se intensificaram: Lula viajou em 2004, seu par Hu Jintao retribuiu a cortesia no mesmo ano. Em 2005, o vice-presidente José Alencar foi. Em 2006, veio o presidente do Congresso. Quase todo ano, desde então, meio que sem a imprensa brasileira dar muita bola, uma visita de alto nível destas ocorre.

O objetivo não é apenas fortalecer a aliança diplomática Brasil, China, Índia que vem conseguindo algumas vitórias no cenário mundial. O principal objetivo é dinheiro. Nos últimos oito anos, o comércio entre China e Brasil cresce num ritmo de 30% ao ano. Em 2008, a China ultrapassou a Argentina como segundo maior parceiro comercial do Brasil. Só perde para os EUA. Hoje, a China é responsável por 9% das exportações brasileiras. Os EUA, aproximadamente 18%. Mas o comércio com os EUA está diminuindo. E, bem, 30% de crescimento ao ano é um bocado.

Os chineses não param. Enquanto recebem Hillary em Beijing e Xi Jinping aterrissa no Brasil, o presidente Hu Jintao está viajando rumo à África. O comércio entre seu país e a África Subsaariana cresceu 1000% nos últimos dez anos. Mas ponha o comércio de lado e observe o itinerário da viagem de Hu e o padrão da diplomacia chinesa começa a se revelar. Primeira parada: Oriente Médio, Arábia Saudita. Faça o elo com o acordo China-Petrobrás.

No início do ano, pires na mão, o presidente de Angola José Eduardo dos Santos foi dar em Beijing. Queria renegociar sua dívida para com os chineses e ainda levar um troco para casa. O governo Santos apostou que o preço do petróleo continuaria alto, perdeu. O governo da Namíbia fez o mesmo – e também pede compaixão chinesa. A princípio, não recebem muito mais do que um olhar frio com vaga esperança de ajuda. Em relação aos países realmente pobres do mundo, a China age como se fora um misto de poder imperial e FMI dos anos 1980. Ao mesmo tempo, conta com estes países. Afinal, na ONU, ou na OMC, a China é só um voto. Contar com a possibilidade de manobrar votos africanos conforme seus desejos é útil.

Não é à toa que os responsáveis pela economia dos EUA considerem que eles, não os diplomatas, deveriam ser responsáveis pela relação. Também não é à toa que um dos consensos positivos a respeito do governo Bush, na equipe Obama, é que a política para a China estava certa: reclama de vez em quando de direitos humanos (nunca a sério), busca ajuda para negociações delicadas (Coréia do Norte, Irã) e discute negócios, negócios, negócios. Business makes the world go ’round.

Hoje, a China é o maior importador do Irã. Nenhum tipo de negociação afetará realmente o país de Mahmoud Ahmadinejad se a China não estiver disposta a fazer pressão. E, por enquanto, os chineses não estão muito preocupados. Sua relação com quem provê combustível é mais importante do que suas preocupações com violações de direitos humanos. Sudão que o diga. Com a Coréia do Norte, é diferente. A Coréia do Norte serve aos chineses para manter japoneses, sul-coreanos e mesmo EUA assustados. Mas a relação com os EUA é considerada fundamental para Beijing, sacrificar a Coréia do Norte não é problema. O Irã tem algo a lhe oferecer. A Coréia do Norte, não. A moeda de troca dos EUA é Taiwan. A relação amistosa entre potência e ilhota é mantida para irritar os chineses.

O principal desafio dos dois países é aquilo que têm em comum: são os maiores fornecedores de carbono para a atmosfera. Com tanto petróleo que consomem, não é surpresa. E ambos os governos estão cientes de que, economicamente, o Aquecimento Global é mau negócio. O problema é que, em tempos de crise, é difícil encará-lo.

Mas é sempre engraçado quando alguém sugere que a China é uma futura potência. A China já é.

Que é sustentável?

16/February/2009 - 20h28 - 51 Comentarios

Que é sustentável? O jornalista Denis Burgierman – um dos mais antenados de nossa geração – encarou o desafio de tratar do tema em blog. Sustentável não é apenas ecológico. Não é apenas um conceito econômico. Tampouco é só palavra bonita para políticos e marqueteiros usarem.

É um bocado repensar o mundo do zero e começar a produzir instrumentos mais eficientes. Por eficientes, diga-se, mais baratos, que provoquem menos danos ao ambiente, que facilitem a vida. De trivial, não tem nada, até porque o mundo de alguma forma já funciona como está. (Ou será que não funciona?)

Em apenas três posts, Denis já deu noção do tamanho do problema. Devemos trabalhar mais em casa? As cidades devem ter mais centros? Se descentralizadas demais, as cidades não perderão um pouco os pontos de encontro, a vida que faz delas interessantes? Então, como nos mover por elas?

Reinventar o mundo não tem nada de simples: cada pedaço dele que alguém se aventure a melhorar sai desenterrando camadas e camadas de significados, mudanças, possibilidades. Mesmo que não reinventemos tudo, ou que reinventemos muito pouco, só o exercício de pensar sobre como as coisas são e o porquê e suas conseqüências já é um feito e tanto.

Sustentável é pouco será um blog fascinante de acompanhar.

Bolívia: Arábia Saudita do Lítio

04/February/2009 - 00h01 - 122 Comentarios

Deu no New York Times.

Na pressa de construir a próxima geração de carros elétricos híbridos, um fato se impõe perante a indústria automobilística e os governos que buscam independência do petróleo: quase metade do lítio do mundo, o mineral usado na confecção de baterias para os carros, é encontrado na Bolívia – um país que não vai vendê-lo com facilidade.

Empresas do Japão e da Europa estão trabalhando duro para conseguir contratos que lhes permitam exploração do recurso, mas um sentimento nacionalista com relação ao lítio está tomando o governo do presidente Evo Morales.

As reservas de gás bolivianas estão nas províncias próximas ao Brasil, onde vivem aqueles que Evo Morales costuma chamar de elite branca. A nova Constituição dá alguma autonomia às províncias. O lítio, por outro lado, está na terra ocupada pelos índios. São eles que ditarão as regras de quem, como e quando vai explorar o mineral.

É uma estupenda oportunidade para a Bolívia – mas o país corre o risco de jogá-la pela janela.

As baterias mais duráveis são, sim, feitas à base de lítio. Hoje, existe uma grande indústria no mundo que funciona a base de petróleo e gás. Ainda não existe uma grande indústria que depende do lítio. Mas pode vir a haver. Uma quantidade imensa de dinheiro só será investida nessa possível nova indústria por EUA, Japão e Europa se todos tiverem certeza de que terão lítio à disposição e uma noção razoável de quanto ele custará.

Aí entra a delicada tarefa de Evo Morales. Por um lado, ele não pode, e não deve, entregar um recurso natural de seu país de mão beijada para a exploração estrangeira. Por outro, deve agir como homem de negócios responsável. Deixar claras as regras e os custos claros. Não deve ameaçar ninguém. Se não tiver condições tecnológicas de fazer a exploração com uma empresa estatal, deve firmar contratos com quem souber fazê-lo.

A questão, no fundo, é a seguinte: em algum momento nos próximos anos, uma série de decisões a respeito de combustíveis alternativos serão tomadas. Investir pesadamente em alternativas a baterias de lítio é uma opção. Se Morales parecer instável demais, continuará sentado sob uma quantidade imensa do mineral e quase ninguém estará interessado. Há uma alternativa.

Infelizmente, se a história recente da Bolívia é guia, Evo Morales muito provavelmente a jogará fora.

Atualização – O Hermenauta escreveu mais sobre o assunto.

Um governo mundial é possível?
(E o que a direita tacanha acha)

18/December/2008 - 13h50 - 93 Comentarios

A União Européia tem moeda própria e Banco Central, tem leis próprias, servidores públicos, uma Suprema Corte. É, literalmente, um governo de 27 países. Não extirpou a soberania de seus membros, mas criou uma nova camada comum de governança. Ex-Economist, atual editor de internacional do Financial Times e um craque dentre os jornalistas da área, Gideon Rachman se pergunta se o modelo é expansível. Um governo mundial é possível?

Em primeiro lugar, está cada vez mais claro que as questões mais difíceis envolvendo os governos nacionais são, por natureza, internacionais: há o aquecimento global, a crise financeira internacional e a ‘guerra ao Terror’.

Em segundo, dá para fazer. As revoluções no transporte e nas comunicações diminuíram o mundo de tal forma que, como escreveu o eminente historiador australiano Geoffrey Blainey, ‘Pela primeira vez na história, algum tipo de governo mundial é possível’. Blainey prevê uma tentativa de formar um governo assim em algum ponto dos próximos dois séculos, que é um período bem longo para ser tratado numa coluna de jornal.

Mas a terceira questão, uma mudança na atmosfera política, sugere que ‘governança global’ poderia vir mais cedo do que tarde. A crise financeira e a mudança climática pressionam os governos nacionais a buscar soluções globais mesmo em países como China e EUA, tradicionalmente guardiões violentos de sua soberania nacional.

Rachman também destaca as maiores dificuldades para um projeto portentoso como este. Principalmente, políticos se elegem em eleições locais e enquanto eleições locais definirem suas condutas políticas, haverá obstáculos em países como os EUA. A idéia de governo internacional não é popular – e as várias derrotas que os plebiscitos consolidadores da União Européia sofrem o mostram.

Rachman é um grande jornalista – mas é novato na Internet. O Financial Times, com sua primeira página em um tom entre o rosa e o amarelo, costuma ser vista nas mãos da elite financeira internacional. Mas desde que começou seu blog no site do FT, o velho repórter tem publicado sua coluna online de forma aberta, ampliando seu universo de leitores. Para quê. Sua caixa de comentários foi invadida subidamente por norte-americanos do sul cheios de ódio no coração. O que era um mero exercício intelectual, o explorar de uma hipótese, a eles soou como ameaça vinda do Reino Unido.

As conclusões de Rachman após seu primeiro contato com a direita tacanha:

1. Há uma incrível quantidade de ódio lá fora dirigida contra tudo e contra todos, da ONU às grandes corporações a Barack Obama. Essas pessoas sabem ler, mas não pensam.

2. A turma que acha que o mundo está para acabar é forte. Aproximadamente um terço dos emails que recebi se referiam ao Livro do Apocalipse no qual, parece que está sugerido, tudo foi previsto. Decidi responder a uma destas mensagens dizendo que jamais li o Apocalipse já que sou ateu. Erro crasso.

3. Há muita gente que acredita não apenas que o Aquecimento Global é uma mentira mas também que faz parte de uma vasta conspiração. Como os relatórios mais influentes a respeito da mudança climática foram produzidos por um painel intergovernamental ligado à ONU, a teoria é alimentada. A idéia é que a ONU perpetua a mentira da mudança climática como desculpa para impor um governo mundial sobre os EUA. Ao que parece, faço parte desta conspiração.

A bela ministra Marcela Aguiñaga, o Equador
e o modelo Obama para preservar florestas

20/November/2008 - 13h51 - 35 Comentarios

A bela ministra equatorenha do meio-ambiente, Marcela Aguiñaga, está circulando a Europa com uma proposta de baixo do braço. A maior reserva petrolífera de seu país está sob o solo da Floresta Yasuni, Reserva de Biosfera da UNESCO e parte da Amazônia. A pressão das empresas petroleiras para que o governo autoriza a exploração da área não é pouca e o petróleo já é a maior fonte de renda em exportações do país.

Aguiñaga propõe que o Equador se comprometa a não explorar o petróleo de Yasuni. Seria o primeiro país do mundo a abrir mão de uma reserva. Mas ela quer ser paga por isso. O petróleo do Equador seria vendido no mercado internacional de certificados de carbono e empresas européias, que buscam compensação para suas emissões, pagariam a conta.

A dificuldade que ela e o presidente Rafael Corrêa encontram é simples: e se os sauditas exigirem ser compensados pelo petróleo que não produzirem? E se uma onda compensatória do tipo surge e o mundo pára de produzir petróleo mas continua esperando ser pagos pela energia que não é entregue? A ministra argumenta que o modelo serviria apenas para países que têm uma biosfera a proteger.

A pressão para autorizar a exploração de Yasuni é grande e o país precisa do dinheiro. Mas, para o caso de a Europa não concordar em trazer Yasuni para o mercado internacional de créditos de carbono, a ministra ainda tem uma carta na manga. É a venda online destes títulos para gente comum. Com um cartão de crédito e alguns dólares, seguindo o modelo de arrecadação da campanha Obama, cidadãos de todo o mundo poderiam investir na preservação de um trecho de mata ao passo em que impedem a emissão de algum carbono. O título pode servir de presente para famílias preocupadas com o meio ambiente.

E a ministra pode ter encontrado um modelo muito interessante de preservação, aí.

JFK no comercial do Greenpeace

29/October/2008 - 00h31 - 8 Comentarios

via Blue Bus

Promessas que Obama não cumprirá (2 de 3)
Deixar o Iraque em 16 meses

21/October/2008 - 07h15 - 81 Comentarios

A avó de Barack Obama, Madelyn Dunham, está mal. Ela deixou o hospital na última sexta-feira e o candidato interromperá a campanha por dois dias, quinta e sexta, para estar com ela. Os rumores são de que Madelyn, que tem 85 anos, está à beira da morte. A campanha presidencial continua com Michelle Obama e Joe Biden, em comícios por todo o país.

Isto posto, vamos à segunda promessa que, caso seja eleito, Obama provavelmente não conseguirá cumprir. Ele garante que conseguirá retirar as tropas norte-americanas do Iraque em 16 meses.

Dificilmente Barack Obama conseguirá deixar o Iraque em 16 meses.

Para entender o porquê, é preciso compreender antes o que aconteceu no Iraque nos últimos anos.

A guerra foi um erro, uma distração no enfrentamento da al-Qaeda. A origem do extremismo islâmico que levou ao Onze de Setembro não é a Síria, não é o Irã, não é a Palestina. Não são nem mesmo Afeganistão ou Paquistão. É a Arábia Saudita. O dinheiro que financia a al-Qaeda é saudita. Os principais terroristas do Onze de Setembro, sauditas. O dinheiro que financia a construção de mesquitas radicais na Europa, saudita. Boa parte do dinheiro do Hamas? Provavelmente saudita. Mas boa parte do petróleo do mundo – e dos EUA – é também saudita. Sem este petróleo, os EUA param. A Arábia Saudita também precisa dos EUA e a ironia é que é o dinheiro do petróleo que sustenta a cepa mais radical de islamismo que existe.

Donald Rumsfeld, contrariando a vontade dos líderes militares, entrou no Iraque sem batalhões o suficiente para manter a segurança do país e o controle de fronteiras após o previsível colapso do regime Saddam Hussein. Após tal colapso, instaurou uma caça aos membros do partido Baath, que comandava o Iraque fazia trinta anos. Num país de partido único, todo funcionário público pertence ao tal partido. Não é uma escolha. O resultado é que repentinamente não havia quem soubesse governar o país: manter hospitais, escolas, cartórios, sinais de transito, rede elétrica, e tudo o mais funcionando. E não havia segurança.

O Iraque se fragmentou em vários grupos. Os curdos, ao norte, brigam entre si pelo controle de um país que talvez exista um dia. Os sunitas, aproximadamente 40% da população, se dividiram em facções. Alguns, membros do antigo regime, lutavam porque sentiam-se perseguidos e queriam sobreviver. Tinham armas e algum dinheiro próprio, que haviam pego dos cofres públicos. Outros, mais religiosos, principalmente na região de Fallujah, lutavam pela instauração de pureza religiosa. Um terceiro grupo, nacionalista, queria manter o poder sunita no Iraque e expulsar o invasor norte-americano. À esta sopa, juntaram-se jovens vindos pela fronteira síria para lutar na jihad, a Guerra Santa. Fizeram parte do grupo que ficou conhecido como al-Qaeda no Iraque. Na época, muito se reclamou de como a Síria ‘incentivava’ estes jovens. O que raramente se disse, mas era um segredo aberto entre jornalistas e militares norte-americanos na região, é que eram praticamente todos sauditas.

Não bastasse a confusão entre sunitas, havia ainda a maioria da população xiita, que fora oprimida durante os anos do regime baathista. O principal líder revoltoso foi o jovem Moqtada al-Sadr, carismático, filho de um chefe político importante, agressivo. Al-Sadr ficou importante, principalmente, porque suas milícias começaram a expulsar sunitas dos gigantescos bairros pobres de Bagdá. Houve muito disso em todo o país: sunitas expulsando xiitas e vice-versa de regiões onde pessoas moravam fazia décadas.

O fato é que o Iraque está melhor, agora. Por vários motivos. Os grupos muçulmanos radicais iraquianos e a al-Qaeda no Iraque perderam apelo perante a população quando começaram a atacar iraquianos. Um vestido que mostrasse o calcanhar, um casal de namorados na rua, qualquer motivo era suficiente para atrair a ira de quem desejava pureza religiosa. O Iraque é, e sempre foi, um país de natureza mais laica na região. (Mais laico, entenda-se, no contexto do Oriente Médio. Bagdá não é Paris ou Nova York. Não chega nem a ser Beirute.)

Já os grupos nacionalistas e os ex-membros do Baath, que tinham muito dinheiro, ficaram sem. A fonte secou. Ninguém sabe explicar ao certo de onde vinha tal dinheiro. Em parte, era dos cofres do regime. Mas não apenas. Vinha também dinheiro de fora. A desconfiança é que vinha de onde sempre vem: milionários sauditas. Fato é que os EUA, sem explicar bem o como, conseguiram bloquear este fluxo de receita e, por sua vez, começaram a pagar os principais chefes de clãs sunitas. Suborno, pois é. Some-se a isso o fato de que há muito mais soldados norte-americanos mantendo a segurança e o naco sunita está mais calmo.

Um cansaço da violência semelhante ocorreu no sul xiita. A população começou a voltar-se contra as milícias do jovem al-Sadr, principalmente após o vazamento de vídeos que mostravam seus militantes provocando confusão e briga em várias regiões. Os xiitas iraquianos são mais religiosos que os sunitas e a falta de conhecimento teológico de Moqtada o fez perder respeito. Moqtada retirou-se estrategicamente para completar os estudos com o objetivo de virar um líder religioso como foram seu pai, seu tio, seu avô. É o destino dos al-Sadrs há mais de século e aquela é uma região na qual a tradição é seguida à risca.

Mas o Iraque é de uma fragilidade só. Outro dos motivos pelos quais o país está mais organizado é que, depois de quatro ou cinco anos, os norte-americanos instauraram um sistema de administração pública lá. Os antigos funcionários voltaram apenas em parte e quem toca o dia-a-dia são os EUA. Luz, água, escolas, hospitais – o trânsito caótico. O país sempre foi corrupto e, se os EUA conseguiram a paz subornando chefes sunitas, por exemplo, é porque, antes, Saddam Hussein fazia o mesmo. E outro antes dele. (Não é diferente no Iraque xiita.)

O resultado, no fim, é que para organizar minimamente o Iraque, diplomatas e militares norte-americanos gastaram cinco anos aprendendo como o país funcionava. Descobriram. E ocuparam o espaço que, noutros tempos, ditadores corruptos e fortes ocupavam. Para deixar o Iraque, terão que botar alguém no lugar. Se não puserem, o tênue equilíbrio desaparece repentinamente. Quais as experiências passadas dos EUA? Na Europa Ocidental, após a Segunda Guerra, deixaram a administração para países nos quais em geral já havia uma cultura iluminista, muitas vezes democrática. No Japão, a cultura pesadamente hierarquizada, organizada e intolerante à desobediência manteve a ordem. O Vietnã entrou em colapso. Na Sérvia, Croácia, Bósnia etc., a OTAN assumiu a organização, mas era de interesse da Europa, afinal. O Iraque é uma situação nova. E, conforme aprenderam os britânicos há uns 60 anos, no fim de seu Império, deixar aquela região é mais difícil do que entrar nela.

Obama talvez consiga retirar metade das tropas dos EUA do Iraque. Talvez consiga retirar dois terços. Ninguém sabe realmente como fazê-lo. Esta é uma receita que será aprendida um dia após o outro.

Aqui em Stanford, seja no Instituto Hoover, seja no Departamento de Estudos da Democracia, seja entre meus colegas jornalistas norte-americanos que moraram nos últimos anos no Iraque, seja com minha colega iraquiana, só há um consenso: se sair sem cuidado ou muito rápido, virá um banho de sangue. Ninguém tem dúvidas de que é preciso sair. Mas este será um processo muito delicado, muito difícil. E tanto o presidente Obama quanto o presidente McCain terão de enfrentar a impaciência da população norte-americana que quer sair. O Iraque é o maior desastre realizado por George W. Bush. Resolvê-lo não tem nada de trivial.

O motivo pelo qual Obama não conseguirá cumprir esta promessa é o mesmo que faz de outro compromisso dele o mais importante que o próximo presidente norte-americano pode assumir: diminuir o uso de petróleo nos EUA e no mundo incentivando novas tecnologias. Ele quer eliminar a exigência de petróleo estrangeiro em dez anos. Propõe um investimento semelhante ao que John Kennedy fez em 1960 na corrida espacial. Parecia impossível – mas em 1969, após Laica e Gagarin, os norte-americanos passaram os soviéticos e pisaram na Lua. O Aquecimento Global e o isolamento da Arábia Saudita são motivos o suficiente para que não exista maior prioridade do que esta. Não importa se não conseguir eliminar completamente. Se todo esforço for nesta direção, já é o bastante.

China carvoeira lidera em emissões de carbono

29/September/2008 - 11h36 - 16 Comentarios

O declínio de atividade econômica no mundo não diminuiu o uso de energia. Ao contrário: as emissões de carbono, em 2008, estão batendo no pior cenário imaginado pelo IPCC da ONU, há um ano.

Há algumas mudanças: a China ultrapassou os EUA e, agora, é o maior responsável pelos índices de carbono na atmosfera. As emissões da Índia também aumentaram um bocado. Até o ano passado, o mundo desenvolvido produzia muito mais carbono do que o em desenvolvimento. Também isto mudou.

Embora o consumo tenha aumentado em todo o planeta, metade deste aumento vem por conta da China e suas novas usinas de carvão.

Eleições EUA: O que os candidatos
dizem e pensam sobre a ciência

22/September/2008 - 12h00 - 60 Comentarios

Esta semana, Sarah Palin conhecerá o presidente afegão Hamid Karzai, o colombiano Álvaro Uribe e o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger. É seu processo de educação. Enquanto isso, John McCain e Barack Obama fazem campanha até o fim da terça-feira e aí – pausa. Na sexta-feira ocorrerá o primeiro debate e ambos se dedicarão aos ensaios, repassando respostas. (Em geral, escolhe-se um senador veterano de seu partido, que conhece bem o candidato adversário, para desempenhar o papel num debate simulado.)

O CERN, na Suíça, inaugurou o maior acelerador de partículas do mundo no dia 10 passado. Aqui nos EUA, isso foi interpretado pelos cientistas como o início de uma nova era na qual o país não mais estará à frente dos grandes avanços. Havia planos para construir algo similar, investimentos iniciais na casa de bilhões de dólares haviam sido feitos, mas aí Washington abortou o projeto. Justiça seja feita: Bill Clinton, um democrata, matou o projeto. Mas foi Bush, um republicano, que fechou os olhos enquanto criacionistas avançavam sobre as salas de aula e se recusou a investir contra o Aquecimento Global baseado num ceticismo quase-religioso. Aqui no Vale do Silício, um grupo tentou promover um debate presidencial a respeito unicamente de ciência. Não conseguiu. Mas, no caminho, obtiveram algumas respostas dos candidatos.

Tanto John McCain quanto Barack Obama reconhecem que o aquecimento global é causado, principalmente, pelo carbono emitido pelo homem. Ambos concordam que o ensino básico de matemática e ciências está falho e que as grandes mentes nessa área, atualmente, vêm cada vez menos dos EUA. Ambos são favoráveis à manipulação genética de alimentos (embora Obama ressalte que é preciso instituir testes para analisar o impacto ambiental e sobre a saúde humana).

Embora ambos defendam investimentos na exploração espacial, Obama propõe a ampliação do projeto civil, enquanto McCain vê como importante, no espaço, também o desenvolvimento de tecnologia militar. Diferentemente do governo Bush, McCain e Obama são favoráveis ao investimento de dinheiro federal no estudo de células tronco embrionárias. A diferença está no entusiasmo: Obama vê extrema importância na iniciativa, McCain preocupa-se em restringi-la. Obama defende o investimento federal em novas fontes de energia. McCain acha que a iniciativa privada deve assumir o projeto.

Ambos se põem, fundamentalmente, no eixo pró-ciência, o que não pode-se dizer do atual governo.

Um quarto do mundo passa fome

27/August/2008 - 13h13 - 33 Comentarios

A linha da pobreza atual é de 1,25 dólares ao dia. Abaixo disso está a miséria humana.

Nas contas do Banco Mundial: 1,4 bilhão de pessoas. Em 1981, eram 1,9 bilhão. Somos 6,7 bilhões de pessoas. Em 81, éramos 4,4 bilhões. A miséria, portando, afetava quase metade da população, hoje afeta um quarto.

Mudou por causa da China: lá, havia mais de 800 milhões de miseráveis, hoje são 207 milhões. No resto do mundo, em termos percentuais, tudo se manteve mais ou menos igual. Na África, metade da população vive abaixo da linha de pobreza. A China é o único país que enfrentou de fato o problema.

E é um erro levar esta conta ao pé da letra acreditando que a escala é evolutiva. O Banco Mundial é conservador, a ong Oxfam não é: a inflação de alimentos, segundo ela, pode jogar até 500 milhões de pessoas entre África e Sudeste Asiático para baixo novamente.

via Foreign Policy

A Geórgia dançou; a Europa também

12/August/2008 - 16h41 - 71 Comentarios

Vladimir Putin mapeou tudo. Percebeu que os EUA, alquebrados pelo Iraque e Afeganistão, ainda desejosos do apoio russo para sanções contra o Irã, não tinham mais aliados na Europa e seguiam ambivalentes à crise no Cáucaso. Putin percebeu que o líder da Geórgia, Mikhail Saakashvili, apesar de seu pendor nacionalista, era o presidente fraco de uma democracia com Forças Armadas frágeis. Olhou o mapa da Geórgia e viu um país engolfado pela Rússia e o Ocidente lá longe. Ali é diferente dos Bálcãs, que têm a boa sorte de fazerem fronteira com a Europa Central e, portanto, terem a sorte de contar com envolvimento da OTAN. No Cáucaso, os vizinhos são Rússia, Irã, o naco mais pobre da Turquia e o Mar Cáspio.

Putin olhou e se moveu. Liberou a Ossétia do Sul, um estado sob o domínio de gângsters e contrabandistas, do frágil poder militar da Geórgia. Fez o mesmo em Abecásia, outro estado da Geórgia. Segundo as últimas notícias, as forças russas já controlam uma base militar no leste do país e parecem dispostos a manter o controle militar em toda região na qual o poder central é fraco. Ao cortar a Geórgia ao meio, os russos controlam o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, crítico para a energia do ocidente, fazendo com que o Kremlin passe a decidir o fluxo de combustível para o Mediterrâneo e Europa. Norte-americanos e europeus vão querer sentar à mesa, e a Rússia fará concessões. Mas farão isso de uma posição de força. A Geórgia provavelmente nunca mais terá um governo independente como aquele que teve até 8 de agosto de 2008.

É o que diz Robert Kaplan, um dos grandes especialistas na região, no blog da Atlantic Monthly.

China sulfúrica

06/August/2008 - 09h44 - 23 Comentarios

A poluição de Beijing é um dos itens mais comentados a respeito da sede das Olimpíadas deste ano. Em seu blog Dot Earth, do New York Times, o repórter de meio ambiente Andrew Revkin dá uma aula sobre o assunto. O ar da China é carregado de dióxido de enxofre (SO2).

No caso chinês, ele é produzido pela queima de carvão em usinas termoelétricas, junto com monóxido e dióxido de carbono e nitrogênio. São efeitos comuns da primeira fase de industrialização, um período em que, dedicados ao crescimento econômico, todos os países ignoraram quaisquer impactos ambientais. (A diferença é que durante a industrialização de finais do século 19 não se entendia de todo tais impactos.)

O dióxido de enxofre é transparente, denso e a inalação irrita as vias nasais. Quando a concentração do gás aumenta na atmosfera, ele começa a se liquefazer na forma de ácido sulfúrico, produzindo um aerosol. As partículas ficam suspensas no ar, formando esta névoa entre o amarelo e o vermelho. As terríveis malformações que afetaram bebês em Cubatão, nos anos 1980, eram efeitos diretos da substância.

O SO2 também alonga a vida das nuvens e diminui a quantidade de chuvas. Ele reflete a luz do Sol, produzindo um efeito localizado de esfriamento atmosférico. É um dos dois componentes fundamentais da chuva ácida.

Por que o petróleo sobe?

21/July/2008 - 03h25 - 33 Comentarios

Howell Raines, ex-diretor de redação do New York Times, publicou uma boa análise da alta do preço de combustíveis nos EUA, parcialmente aplicável ao resto do mundo. A teoria corrente trata do seguinte: oferta e demanda. China e Índia estão consumindo mais. Há mais demanda para a mesma oferta, os preços sobem.

Não exatamente, sugere Raines.

Executivos das petroleiras acreditam numa versão atualizada da Teoria do Pico do Petróleo, apresentada em 1956 pelo geólogo M. King Hubbert. Ela propõe que por conta da finitude dos campos de petróleo e pelo alto custo da produção, a indústria norte-americana do petróleo chegará a um nível máximo em determinado momento e, aí, começará a decair. A versão atualizada afirma que a produção máxima de petróleo nos EUA se dará em 2020.

As petroleiras estão recebendo um preço bastante alto por um produto que, elas acreditam, ficará cada vez mais difícil de obter no futuro e que também será menos valioso por conta da concorrência de outros combustíveis. O jogo inteligente a fazer, do seu ponto de vista, é desviar cada centavo para o lucro e aproveitar enquanto o Cassino do Ouro Negro ainda está funcionando. Para confundir público e imprensa, eles selecionam vários homens para fazer as relações públicas e culpar a falta de petróleo que você prevê faz meio século em: falta de refinarias, legislação ambiental, e os lençóis imaginários no Alaska.

Ou seja, a indústria do petróleo, nos EUA, está botando o lucro no bolso e não investe nada em produção. A mesma indústria, nos últimos 25 anos, fechou metade das refinarias no país. E, embora o discurso das empresas afirme que tudo ficaria melhor se perfurar nas reservas ambientais do Alaska fosse legal, elas não começaram ainda sequer a explorar 80% dos territórios, nos EUA, que o governo já autorizou. “Todo repórter por aí compra essa história de oferta e demanda”, ironiza Don Barlett, da revista Time. “Se eu estivesse nas relações públicas das petroleiras, ia continuar batendo na mesma tecla.” Raines continua sua coluna:

Oferta e demanda? Claro, mas como lembra John Lee, veterano repórter do Wall Street Journal e que foi do New York Times por muitos anos, oferta e demanda de petróleo não são apenas ‘dois gráficos que indicam de onde vem, para onde vai’. Há motivos mais complexos na determinação do preço que se paga no posto de gasolina. ‘O preço na bomba sempre refletiu o último preço de pico, ou seja, aquilo que gasolina custa no mercado geral. É o preço do momento e não o preço baseado na gasolina comprada e estocada nos armazéns.’

Digamos que você seja uma empresa petroleira vendendo gasolina nos postos e que, nos seus armazéns, existem barris que foram comprados a 140 dólares e outros a 75. Tem muito espaço aí para manipular os preços. Mas, por favor, nem sequer pense que a Exxon Mobil ousaria manipular preços assim. Assim como eu e você, eles são escravos destas forças tremendas, oferta e demanda.

Melhor que energia nuclear: economia

08/July/2008 - 07h15 - 62 Comentarios

Não raro, recentemente, mais especialistas vêm defendendo o uso de energia nuclear. É mais limpa que os combustíveis fósseis e as usinas são mais seguras. No El País, o ex-ministro do meio ambiente alemão Jürgen Trittin vai contra.

Desde finais dos anos 70, ele diz, só foi construída uma usina nuclear na Europa, ao passo que cinco foram fechadas. Elas são responsáveis por 3% da energia do continente. Não é só por uma questão de segurança: o quilowatt nuclear é caro, mesmo com o preço do petróleo nos píncaros. Seria, portanto, preciso subsidiá-la.

O caminho, ele argumenta, não é este. Os que os europeus precisam fazer é enfrentar o fato de que importam 75% de sua energia. Precisam, portanto, economizá-la. Sai mais barato, coisa aconselhável em tempos de crise, e é melhor para o ambiente. É sua receita, aliás, para o mundo todo. Na Alemanha, a regulamentação para as construção de casas é rigorosa. Devem ter, por exemplo, isolamento térmico, que economiza na refrigeração ou no aquecimento do ambiente. É uma obra que se paga na conta de luz. O carro, evidentemente, deve ficar em casa de vez em quando.

Trittin defende que, se é para gastar dinheiro, os governos devem esquecer o nuclear e investir em projetos de economia energética, incluindo-se subsídios e incentivos fiscais para obras. É boa política econômica e ecológica.

Dez formas de combater o aquecimento global

01/July/2008 - 09h42 - 168 Comentarios

A Wired tem uma lista um tanto polêmica de coisas a fazer para diminuir a emissão de carbono e, portanto, combater o aquecimento global.

1. Viva numa cidade. Prédios de apartamentos consomem menos energia no inverno do que casas, mas esta não vale tanto para cidades grandes brasileiras como São Paulo. Uma cidade bem azeitada, como Nova York, Paris ou Londres, tem transporte público que as pessoas de fato usam. Cidades favorecem, por sua arquitetura, o transporte de grandes massas de população gastando muito pouco combustível fóssil. Quem vive no campo ou em cidades menores depende do automóvel.

2. Viva em lugares quentes. É preciso menos energia para diminuir a temperatura de um ambiente do que para esquentá-lo. Ar-condicionado gasta menos energia do que aquecedor.

3. Consuma alimentos não orgânicos. Agricultura industrial é mais eficiente. Uma vaca que não foi criada com hormônios e outros truques produz menos leite e emite mais gás. Uma plantação orgânica precisa de mais terra do que uma industrial.

4. Trate as florestas como parques. Árvores são boas e sugam carbono do ar quando saudáveis. Quando já velhas ou mortas, apodrecem e emitem carbono. Deixar as florestas bem capinadas pode transformá-las em máquinas de sucção e emissão quase zero.

5. Confie na China. Nenhum país está produzindo tanta tecnologia de produção de energia limpa quanto a China. Eles têm três motivos para estar nessa posição. O primeiro é poluição atmosférica, um sério problema lá e uma das maiores causas de insatisfação popular. O segundo é a ameaça de enchentes cada vez mais constantes pelo aquecimento nas cidades costeiras. E, por fim, há o enorme mercado externo por painéis de captura de energia solar e afins.

6. Aceite engenharia genética. A agricultura é responsável, hoje, por 14% das emissões de carbono. Temos seis bilhões de pessoas para alimentar. Hora de apostar na eficiência. Modificação genética permite diminuir a necessidade de pesticidas e, principalmente, fertilizantes a base de nitrogênio. Estes fertilizantes são os maiores vilões: são feitos com gás natural, tira-se o nitrogênio, joga o carbono para cima.

7. Abandone o modelo de créditos de carbono global. É impossível monitorá-lo. A árvore que prometeram plantar na Bolívia para compensar uma viagem de avião pode ser cortada sem que ninguém veja. Localmente o sistema pode funcionar.

8. Abrace a opção nuclear. É a única fonte de energia que tem escala industrial e não emite carbono.

9. Compre um carro usado. Fazer carro joga carbono na atmosfera. Muito. Um carro menos poluente precisará rodar muitos quilômetros e queimar muita gasolina até compensar as emissões gastas para produzi-lo. O carro usado já pagou essa conta.

10. No fim, não adianta. Se EUA, Japão e Europa desligarem suas usinas termoelétricas e seus carros agora, ainda assim as emissões de Índia e China farão com que o índice de gás carbônico salte das atuais 380 partes por millhão na atmosfera para as 450 ppm em 2070. Como nada será desligado, a marca será alcançada em 2040. Precisaremos lidar com um planeta mais quente de qualquer jeito. A revista sugere que, com nossa tecnologia, estamos mais bem preparados para lidar com o aumento de temperatura do que para evitá-lo.

Tudo que entendíamos sobre aquecimento global e sua prevenção está errado, portanto? A revista foi corajosa o suficiente para publicar ao fim de suas páginas de conteúdo politicamente incorreto um artigo de Alex Steffen, editor do manual Worldchanging. Ele diz que toda a lista está errada por um motivo simples: ela parte da premissa de que lidar com aquecimento global é fazer aritmética de carbono. Não é.

Há mais do que isso. Aquecimento global não é o problema. É o sintoma. Nos relacionamos mal com o planeta. Precisamos aprender a sermos industriais, urbanos e nos alimentarmos a todos causando o menor impacto possível no ambiente. É aí que está a chave da questão.

O etanol brasileiro e a ecologia

29/June/2008 - 15h35 - 40 Comentarios

Alguns números e dados que a Economist da semana cita para defender o etanol brasileiro das críticas no exterior.

Um dos problemas dos combustíveis é a relação entre energia gasta para produção e o resultado final. Para cada 1 consumido na produção de etanol de cana, ganha-se 8,2; a relação do etanol de milho é de 1 para 1,5. Ou seja, para produzir etanol de milho é preciso gastar gasolina à beça. Com a cana, açúcar puro, é diferente.

Uma crítica contumaz diz que as plantações de cana expulsam o gado e, portanto, aumenta o desmatamento na Amazônia voltado para pasto. Os canaviais ocupam 7 milhões de hectares no Brasil e apenas metade é voltado para combustível; o pasto ocupa 200 milhões. Segundo a Economist, os canaviais podem se expandir só em pasto degradado sem sequer tocar no preço da carne.

Isto não leva em conta o fato de que a tecnologia para aproveitamento de cana na produção do etanol está próxima de dar um grande salto de produtividade. A manipulação genética já produz espécies com 80% mais de sacarose ou capazes de agüentar sem água por 45 dias.

O grande problema da cana são os trabalhadores, com cujas imagens do serviço exaustivo e degradantes estamos acostumados a ver. São 440.000 homens e mulheres. O problema destes não é que o trabalho seja duro demais. (Um em cada 26.000 bóia fria da cana morre por acidente de trabalho; a média agrícola nacional é um em cada 16.000.) O problema é que espera-se que a colheita de cana seja feita totalmente por máquinas até 2012. São quase meio milhão de pessoas sem qualquer preparação formal desempregadas.

Mas, se este é um problema que o Brasil terá de encarar, ele nada tem nada a ver com impacto ambiental. O etanol de cana é uma das melhores alternativas já existentes para substituir o combustível a base de petróleo.

O petróleo saudita e as fontes alternativas

26/June/2008 - 16h16 - 24 Comentarios

A Arábia Saudita promete que aumentará o fluxo de petróleo em direção ao mundo. Maior oferta, cai o preço. Quem sabe assim o barril a 200 dólares nunca chegue.

Muitos analistas estão céticos. Uns dizem que os sauditas já fizeram essa promessa antes e não a cumpriram; outros sugerem que eles sequer têm como. Seu maior campo está próximo do pico e não agüentará o tranco de aumento.

É sempre tudo muito nebuloso quando o assunto envolve Arábia Saudita e petróleo. Há pouca informação e muita interpretação.

Thomas Friedman, do New York Times, vai na contracorrente. Ele acha que os sauditas vão mesmo aumentar a oferta. Acha mais: que eles não têm escolha. George W. Bush está tentando diminuir o preço da gasolina nos EUA a todo custo e combustível é um dos grandes temas das eleições presidenciais.

Para os sauditas, não é apenas o impacto no eleitor norte-americano e o tipo de presidente que podem eleger o que importa. É também o mercado para energias alternativas. Com combustíveis fósseis em alta, mais fábricas de painéis de energia solar ou moinhos de vento surgirão. Maior oferta, menor preço. Nos EUA, por exemplo, onde a energia elétrica vem de combustíveis fósseis, alimentar a casa ou a empresa com uma fonte própria sai em conta conforme aumenta o preço do petróleo.

Vai ainda além: petróleo caro faz com que o desenvolvimento de fontes alternativas seja melhor financiado e, portanto, fica mais eficiente.

Há um ponto ótimo para que a máquina comece a girar. Os sauditas querem mais dinheiro, evidentemente, mas temem uma crise financeira mundial como a dos anos 1970. É preciso alimentar o vício mas sem matar o hospedeiro. E temem que alternativas ao seu combustível comecem a surgir com maior rapidez. Assim vai o raciocínio de Friedman.

E, evidentemente, sempre há um ou outro que vive no mundo maravilhoso de Gordon Brown, o premiê britânico. Ele tem essa idéia: os sauditas ganharam 3 trilhões de dólares. Por que não investem eles próprios em fontes alternativas de energia?

Ora, pois. Quem sabe pedindo por favor não ajuda.