A avó de Barack Obama, Madelyn Dunham, está mal. Ela deixou o hospital na última sexta-feira e o candidato interromperá a campanha por dois dias, quinta e sexta, para estar com ela. Os rumores são de que Madelyn, que tem 85 anos, está à beira da morte. A campanha presidencial continua com Michelle Obama e Joe Biden, em comícios por todo o país.
Isto posto, vamos à segunda promessa que, caso seja eleito, Obama provavelmente não conseguirá cumprir. Ele garante que conseguirá retirar as tropas norte-americanas do Iraque em 16 meses.
Dificilmente Barack Obama conseguirá deixar o Iraque em 16 meses.
Para entender o porquê, é preciso compreender antes o que aconteceu no Iraque nos últimos anos.
A guerra foi um erro, uma distração no enfrentamento da al-Qaeda. A origem do extremismo islâmico que levou ao Onze de Setembro não é a Síria, não é o Irã, não é a Palestina. Não são nem mesmo Afeganistão ou Paquistão. É a Arábia Saudita. O dinheiro que financia a al-Qaeda é saudita. Os principais terroristas do Onze de Setembro, sauditas. O dinheiro que financia a construção de mesquitas radicais na Europa, saudita. Boa parte do dinheiro do Hamas? Provavelmente saudita. Mas boa parte do petróleo do mundo – e dos EUA – é também saudita. Sem este petróleo, os EUA param. A Arábia Saudita também precisa dos EUA e a ironia é que é o dinheiro do petróleo que sustenta a cepa mais radical de islamismo que existe.
Donald Rumsfeld, contrariando a vontade dos líderes militares, entrou no Iraque sem batalhões o suficiente para manter a segurança do país e o controle de fronteiras após o previsível colapso do regime Saddam Hussein. Após tal colapso, instaurou uma caça aos membros do partido Baath, que comandava o Iraque fazia trinta anos. Num país de partido único, todo funcionário público pertence ao tal partido. Não é uma escolha. O resultado é que repentinamente não havia quem soubesse governar o país: manter hospitais, escolas, cartórios, sinais de transito, rede elétrica, e tudo o mais funcionando. E não havia segurança.
O Iraque se fragmentou em vários grupos. Os curdos, ao norte, brigam entre si pelo controle de um país que talvez exista um dia. Os sunitas, aproximadamente 40% da população, se dividiram em facções. Alguns, membros do antigo regime, lutavam porque sentiam-se perseguidos e queriam sobreviver. Tinham armas e algum dinheiro próprio, que haviam pego dos cofres públicos. Outros, mais religiosos, principalmente na região de Fallujah, lutavam pela instauração de pureza religiosa. Um terceiro grupo, nacionalista, queria manter o poder sunita no Iraque e expulsar o invasor norte-americano. À esta sopa, juntaram-se jovens vindos pela fronteira síria para lutar na jihad, a Guerra Santa. Fizeram parte do grupo que ficou conhecido como al-Qaeda no Iraque. Na época, muito se reclamou de como a Síria ‘incentivava’ estes jovens. O que raramente se disse, mas era um segredo aberto entre jornalistas e militares norte-americanos na região, é que eram praticamente todos sauditas.
Não bastasse a confusão entre sunitas, havia ainda a maioria da população xiita, que fora oprimida durante os anos do regime baathista. O principal líder revoltoso foi o jovem Moqtada al-Sadr, carismático, filho de um chefe político importante, agressivo. Al-Sadr ficou importante, principalmente, porque suas milícias começaram a expulsar sunitas dos gigantescos bairros pobres de Bagdá. Houve muito disso em todo o país: sunitas expulsando xiitas e vice-versa de regiões onde pessoas moravam fazia décadas.
O fato é que o Iraque está melhor, agora. Por vários motivos. Os grupos muçulmanos radicais iraquianos e a al-Qaeda no Iraque perderam apelo perante a população quando começaram a atacar iraquianos. Um vestido que mostrasse o calcanhar, um casal de namorados na rua, qualquer motivo era suficiente para atrair a ira de quem desejava pureza religiosa. O Iraque é, e sempre foi, um país de natureza mais laica na região. (Mais laico, entenda-se, no contexto do Oriente Médio. Bagdá não é Paris ou Nova York. Não chega nem a ser Beirute.)
Já os grupos nacionalistas e os ex-membros do Baath, que tinham muito dinheiro, ficaram sem. A fonte secou. Ninguém sabe explicar ao certo de onde vinha tal dinheiro. Em parte, era dos cofres do regime. Mas não apenas. Vinha também dinheiro de fora. A desconfiança é que vinha de onde sempre vem: milionários sauditas. Fato é que os EUA, sem explicar bem o como, conseguiram bloquear este fluxo de receita e, por sua vez, começaram a pagar os principais chefes de clãs sunitas. Suborno, pois é. Some-se a isso o fato de que há muito mais soldados norte-americanos mantendo a segurança e o naco sunita está mais calmo.
Um cansaço da violência semelhante ocorreu no sul xiita. A população começou a voltar-se contra as milícias do jovem al-Sadr, principalmente após o vazamento de vídeos que mostravam seus militantes provocando confusão e briga em várias regiões. Os xiitas iraquianos são mais religiosos que os sunitas e a falta de conhecimento teológico de Moqtada o fez perder respeito. Moqtada retirou-se estrategicamente para completar os estudos com o objetivo de virar um líder religioso como foram seu pai, seu tio, seu avô. É o destino dos al-Sadrs há mais de século e aquela é uma região na qual a tradição é seguida à risca.
Mas o Iraque é de uma fragilidade só. Outro dos motivos pelos quais o país está mais organizado é que, depois de quatro ou cinco anos, os norte-americanos instauraram um sistema de administração pública lá. Os antigos funcionários voltaram apenas em parte e quem toca o dia-a-dia são os EUA. Luz, água, escolas, hospitais – o trânsito caótico. O país sempre foi corrupto e, se os EUA conseguiram a paz subornando chefes sunitas, por exemplo, é porque, antes, Saddam Hussein fazia o mesmo. E outro antes dele. (Não é diferente no Iraque xiita.)
O resultado, no fim, é que para organizar minimamente o Iraque, diplomatas e militares norte-americanos gastaram cinco anos aprendendo como o país funcionava. Descobriram. E ocuparam o espaço que, noutros tempos, ditadores corruptos e fortes ocupavam. Para deixar o Iraque, terão que botar alguém no lugar. Se não puserem, o tênue equilíbrio desaparece repentinamente. Quais as experiências passadas dos EUA? Na Europa Ocidental, após a Segunda Guerra, deixaram a administração para países nos quais em geral já havia uma cultura iluminista, muitas vezes democrática. No Japão, a cultura pesadamente hierarquizada, organizada e intolerante à desobediência manteve a ordem. O Vietnã entrou em colapso. Na Sérvia, Croácia, Bósnia etc., a OTAN assumiu a organização, mas era de interesse da Europa, afinal. O Iraque é uma situação nova. E, conforme aprenderam os britânicos há uns 60 anos, no fim de seu Império, deixar aquela região é mais difícil do que entrar nela.
Obama talvez consiga retirar metade das tropas dos EUA do Iraque. Talvez consiga retirar dois terços. Ninguém sabe realmente como fazê-lo. Esta é uma receita que será aprendida um dia após o outro.
Aqui em Stanford, seja no Instituto Hoover, seja no Departamento de Estudos da Democracia, seja entre meus colegas jornalistas norte-americanos que moraram nos últimos anos no Iraque, seja com minha colega iraquiana, só há um consenso: se sair sem cuidado ou muito rápido, virá um banho de sangue. Ninguém tem dúvidas de que é preciso sair. Mas este será um processo muito delicado, muito difícil. E tanto o presidente Obama quanto o presidente McCain terão de enfrentar a impaciência da população norte-americana que quer sair. O Iraque é o maior desastre realizado por George W. Bush. Resolvê-lo não tem nada de trivial.
O motivo pelo qual Obama não conseguirá cumprir esta promessa é o mesmo que faz de outro compromisso dele o mais importante que o próximo presidente norte-americano pode assumir: diminuir o uso de petróleo nos EUA e no mundo incentivando novas tecnologias. Ele quer eliminar a exigência de petróleo estrangeiro em dez anos. Propõe um investimento semelhante ao que John Kennedy fez em 1960 na corrida espacial. Parecia impossível – mas em 1969, após Laica e Gagarin, os norte-americanos passaram os soviéticos e pisaram na Lua. O Aquecimento Global e o isolamento da Arábia Saudita são motivos o suficiente para que não exista maior prioridade do que esta. Não importa se não conseguir eliminar completamente. Se todo esforço for nesta direção, já é o bastante.